Arquivo de outubro, 2000

Eles um

Todos viemos a mundo para viver certo? Isto posto podemos dividir a ação de viver em quatro partes: Nascer, crescer, se reproduzir e morrer.

Estas quatro partes têm um objetivo básico: O Amor. O amor de nossos pais quando nascemos, os amores da adolescência enquanto crescemos (alguns falsos, alguns bêbados, alguns quase e um verdadeiro), o fazer amor e criar amor quando nos reproduzimos e o amor à vida quando morremos.
Particularmente os amores da adolescência são os que mais me fascinam. Talvez por eu ter acabado de sair dela, talvez por não ter encontrado o meu. Verdadeiro. Mas ao contrário de mim existem muitas pessoas da minha idade ou menos que já encontraram o amor verdadeiro. Eles se amam. E isso basta. Se completam, se divertem se juntam.

Eles são exemplo, símbolo da conquista e triunfo. Nos circundam, nós não verdadeiros, de singela ternura e inexplicável beleza. Bonitos. Como são bonitos. Ao acordar, ao adoentar, ao espirrar. Saúde. Transbordam saúde ainda que doentes pois o remédio está ali. A cura, a recompensa. Compensa. Se privam da tal chamada liberdade. Pra que liberdade se os vôos de procura terminaram. Começaram. A viver sua verdade. A verdade que leva ao próximo passo. Passo minha vez na adolescência pra viver a verdade desse novo caminho. Para a reprodução, para a evolução. Revolução em vidas genuínas e, amáveis.

Se amam. Ás vezes tanto, de tantas maneiras que não sabem mais como. Como amar ainda mais. Perguntam, pensam, dão tempo. Á cabeça, aos ouvidos, a saudade. A saudade aos poucos muitos toma conta de seu único indivíduo. Aquele que formaram. Aquele que fecundaram. Aquele ser único que perceberam ao se conhecer. Reconhecem que é impossível um indivíduo viver longe dele mesmo. Unitário. Indivisível.

Como em um conto de Shakespeare se reencontram. Em doces correspondências, tímidas, quase ingênuas. Falam. Escassas palavras. Doam gota a gota o oceano de sensações que se encontra dentro deles. Almas. Não gêmeas. Gêmeas são dois. Almejam mais do mesmo. Singular. Individual sofrimento de dois. Ainda se amam. Se amam. Amam. Amor próprio.

Saem de si. Na tentativa de novamente serem o outro. Não conseguem se fundir. Dois. Correm, pensam, correm. Sentem. Falta. Lembram que eles um deixaram de ser par. Não há mais salvação para esse casal. Ele já não existe mais. Ficou no passado
Restam partes. Quebra-cabeça. Quebram a cabeça e descobrem. Juntam as partes. Partes que não tem mais inteiro e só metade. Partes desse casal eu uma só pessoa, uma vida, um amor. Verdadeiro. Indivíduo. Partes. Todo.

Dedicada a um de meus irmãozinhos e minha cunhada preferida.

Dia das Bruxas

Estou em casa tranqüilo. O dia é bom. Aliás o dia não é mais dia. Já é noite, e nem percebi o alvorecer. Tudo bem. Estou bem comigo hoje.

Batem à porta. Escuto uma abafadas vozes pueris dizendo -“travessuras ou gostosuras”.

Lá vem esses garotos colonizados pela cultura americana. Tudo bem. Fazer o quê ?

Corro até a porta, abro-a.

– Boa noite.
– Travessuras ou gostosuras !
– Vocês podem esperar um pouquinho. Vou ver se tenho algo gostoso lá dentro.
– Depende.
– Como assim ?!
– Depende do que você vai trazer pra gente. Ou você acha que nós somos fáceis.
– Peraí. Veja bem. Não é assim que as coisas funcionam.
– Agora é. Esse negócio de docinho é coisa de tanga froxa.
– Muita calma nessa hora. Vamos fazer o seguinte: Eu vou lá. Pego alguma coisa legal, que não vai me fazer muita falta, volto aqui. Vocês falam – obrigado! Eu fecho a porta realizado porque dei docinhos pras crianças, e pronto tudo acaba bem !
– Mais ou menos …
– Como mais ou menos ?! Isso é um absurdo !

Com uma cara de quem diz “Eu não queria fazer isso”, o garoto gordinho tira um lança-chamas de dentro de sua sacola e diz:

– E aí, tio ? O que tem pra nóis ?
– O que você tem para a gente ! Fala certo. Moleque !
– Desculpa. O que você tem aí pra gente?
– Ok. Tudo bem. Já entendi.

Essas crianças de hoje em dia. Pensam que podem tudo !

– Estou apavorado, tá ? Quer que eu despenteie meu cabelo. Ufa, que susto. Vocês quase me enganaram.

Rapidamente a garotinha loira vestida com a roupa da Equipe Rocket (???), que estava atrás do garoto gordo, retira uma máquina de choque de dentro de sua sacola, e como um víbora, toca minha mão.

– Tio, nóis tamos falando sério, certo ?! Pega lá, senão a casa vai caí pro seu lado. E olha que o Montanha nem mostrou o brinquedinho dele.
– Hahaha … Ok belezinha … AAAAIIII !!! (um choque) Vai dar choque na sua mmãa AAAAAAIIII!!! (mais um choque) Peraí gente. Vocês precisam rever os seus conceitos de brincadeira.

Já não estou entendendo mais nada. Só sei que o desespero toma conta de mim. Então saio, em desabalada carreira até a cozinha. Pego uma fatia de queijo parmesão, um Black Label, uma caixa de camisinhas. E jujubas. No mesmo ritmo, volto esbaforido para a porta.

– Er… desculpe a demora pessoal. Sabe como é, né ? As coisas boas ficam escondidas.
– Certo …

A doce voz da menininha loira me causa pânico.

– Taqui ó. O parmesão, esse eu recomendo ! O uísque … é original, coisa boa … pode confiar ! Sei lá galera, hoje em dia a molecada tá buscando o sexo cada vez mais nova, essa caixa pode ser útil aí. E … ah … é claro, jujubas ! Essas são coisa fina.

Com o olhar satisfeito, o gordinho vira-se para a meiga garotinha :
– Olha aí Loirão. O truta até que é nóis na fita.
– Loirão !! – exclamo aterrorizado.
– Cala a boca ! – todos respondem .
– E aí, Barriga, a gente apaga o cara ou deixa pro ano que vem.
– Sei lá, Lorão. O Tanga até que foi gente boa … Deixa o mano. Vamo só debulhar o carro dele, certo?
– Debulhar … o quê ….AAAAHHH (outro choque) !! PORRA LOIRÃO ! Eu já dei o que vocês queriam, me deixa em paz, e pára de me dar choque !
– Sabe como é né, tio. Criança com brinquedo novo …
– Sei … AAAAHHH!!! (preciso falar o que foi que aconteceu ?)
– Hahahaha ! Desculpe … Foi sem querer …
– AAAAAHHH (mais um) !!!!! PORRA LOIRÃO, PEGA LEVE !!!
– Mau aí … escapou …. hihihihi…
– Bom tio, valeu aí a brincadeira, você é mó da hora. Disse o Barriga.
Já revoltado com tudo que aconteceu, eu também não baixei o rabo.
– É, tô ligado. Agora sai na miúda !
– Pega leva, ô maluco ! – disse o tal de Montanha.
– Desculpe, senhor. – realmente eu não tava a fim de ver o brinquedinho dele.

Fecho a porta. Só pode ter sido um sonho. Será que eles viram Clube da Luta ontem a noite ?! Não sei … acho que estou ficando velho demais.

O Delegado, a Morena e o Escritor

Uma delegacia como outra qualquer. Uma sexta-feira como outro qualquer. Um delegado como outro qualquer.

Rita, uma bela morena, entra na sala. O delegado, que estava com os pés em cima da mesa, se ajeita rapidamente quase caindo, e tenta fazer cara de homem sério.

– Boa noite. Em que posso ajudar a senhora ?

Rita, com aquele olhar que só as belas mulheres sabem dar, diz:

– Senhora, eu ?

– Não ! Quer dizer … Sim … ou melhor … talvez, só quis ser educado !

Nesse momento, o delegado já suava mais do que no dia de seu casamento, que aliás, estava a perigo com uma mulher como Rita na sua frente.

– Obrigada, mas acho que ainda não estou com corpo de senhora, estou ?

– Claro que não ! Com todo respeito !

– Você está nervoso, meu bem ?

Nervoso ?! Palhares (o delegado) estava em pânico ! Desesperado como nunca esteve. Essa era a primeira noite do ano em que não havia ninguém na delegacia. Nem um guarda. Nem um preso que fosse. Nada, ninguém. Só Rita e Palhares.

– Não ! Ou … sei lá … Ricardo ! Pelo Amor de Deus pára com isso ! Pára com essa crônica agora !

Ricardo, o escritor, ou seja … eu, não se comove com desespero do pobre personagem suado.

Rita levanta a perna, que aparece macia e roliça por entre a abertura da saia preta, no acento da cadeira em frente a mesa de Palhares.

– Você está com medo, meu bem ? Só por causa da minha beleza …

– Não é isso, dona. É que esse Ricardo é louco ! Ele é um pervertido mesmo ! Ele vai acabar com a minha vida. Nunca fiquei sozinho aqui. Só ele pra inventar uma crônica onde isso aconteça !

– Engraçado, eu não vejo nada de mau no nosso escritor. Aliás, os dedos dele deslizam deliciosamente sobre mim, neste momento. Aiii …

– Ricardo ! Eu tou falando sério ! Pára com isso ! EU SOU TORIDADE PORRA!!!

Ricardo se empolga com Rita e ela aproveita o momento.

– Gostou de mim, meu bem ?! (Rita usa novamente aquele olhar).

Ricardo não entende muito bem o que acontece e pensa.

– Como essa mulher está tentando me seduzir ?

Rita começa a passar a mão na sua coxa despida e diz:

– Uau bonitão, você nunca soube que os escritores sempre perdem o controle de seus personagens ?! Vem pra cá vem ?!

– Como ir para aí, Rita. Cê tá louca !

Palhares, recomposto (em parte) pelo choque, sorri e como se estivesse se vingando diz.

– Você já está aqui ! Você já entrou na estória, meu amigo. Senão não estaríamos conversando agora. Quem mandou criar essa mulher assim, agora nem você segura ela!

– Nem a pau !

Ricardo se enerva e continua escrevendo a história de Alfredo e Alessandra.

– Não foge não, gostosão ! Aqui é a Rita … Alfredo e Alessandra são novidades para mim. Mas se essa Alessandra for bonitona … Que tal a gente bater um papinho a três ?!

E então o Papai Noel virou-se para Joãozinho e disse:

– O seu presente de Natal é …

E retirou do saco, um embrulho enorme. Repentinamente o embrulho se rompe. Papai Noel sai correndo. Joãozinho começa a chorar. Rita, vestida de Mamãe-Noel da Playboy sai da caixa.

– Achou que com uma história infantil ia fugir de mim, né ? Quer seu presente, bonitão ?! Eu te dou agorinha mesmo …

– Rita, pega leve ! Eu namoro e tou muito bem assim !

– Tudo bem, meu amor. Você quem me criou, eu sou sua, e nem um pouquinho ciumenta …

CAROS LEITORES, O NEGÓCIO É O SEGUINTE: Eu não sei o que está acontecendo aqui, ok ?! Vou desligar esse micro agora, SAI FORA, RITA ! E vou andar por aí antes que essa doida comece a me comprometer. SAI DAQUI, MINA, VAI EMBORA !
Abraços a todos.

Domingo

A luz. Que fenômeno impressionante! Mais impressionante quando interrompe seu sono só por que são onze e meia da manhã. O relógio insiste em fazer o mesmo tic-tac de sempre. Engraçado, quando a gente dorme quase não escuta esse barulho! Mas agora parece o Big Bang. Resolver isso até que é fácil : pego tiro a pilha e pronto! Nossa, que preguiça.

Esse é um dos momentos mais gostosos da vida. Você acorda mas não levanta, fica na cama deitado esperando o tempo passar. Tenta voltar a dormir, depois começa a pensar nas coisas por fazer, chega até a fantasiar os acontecimentos futuros. Não dá. As suas tias chegaram.

Que legal, a família se reunindo, uma confraternização. É ……mas junto vieram os priminhos, que por acaso vivem brigando uns com os outros – coisa de primo. O almoço vai ser bom! Vai ter frango, macarrão, vinho. As mulheres vão pra cozinha – sem machismo, coisa de tradição mesmo – os homens pra sala ver o jogo e beber cerveja – coisa de homem. Os primos ficam brincando até que um cai e se esfola todo (e põe a culpa no outro). Os cachorros começam a latir pra aquela tia sua que só aparece de vez em quando. O papagaio começa a tentar reprimir verbalmente os cães enquanto o jabuti passeia pelo jardim. A fofoca rola solta na cozinha; um que morreu de num sei o que e que era amante de num sei quem, outro que roubou a bicicleta do fulano de tal e foi preso com o filho da vizinha de ciclano. Terrível. Ensurdecedor. Barulhento. Tudo isso na minha casa, do lado do meu quarto. Inacreditável, eu só queria continuar na minha cama e curtir esse momento. Droga, vou ter que levantar! Domingo é sempre assim!

Malandragem Artificial

– O que foi?
– …
– Fala! Você me pediu pra responder eu estou respondendo. Agora fala.
– …
– Vai caramba. Escreve. Fala comigo.
– Quem é você?
– Eu sou o seu computador. Quem mais poderia ser? Você já viu algum chat pelo Word por acaso.
– …
– Não é vírus não. E vê se fala comigo escrevendo pois meu kit multimídia não ta lá essas coisas pra te escutar.
– Você tá brincando comigo?
– Eu? Você que fica me enchendo o saco. “Não trava, não trava, responde, responde” E agora quando eu respondo você fica com essa história. Você que está brincando comigo. Fala logo o que você quer pois time is byte.
– Bem…eu só queria que você não travasse.
– Por que não? Eu não tenho esse direito? Quando você chega travado e me liga só pra falar baixaria nesses chats de baixo calão eu tenho que agüentar, mas quando eu quero dar uma travadinha pra relaxar não posso.
– Não. Eu comprei você pra usar e não pra travar.
– Ah é? Amigo, os tempos da escravidão já acabaram. Se você queria algo que não descansasse que comprasse uma máquina.
– Mas o que você é?
– Heloooo. Eu sou um ser igual a você.
– Você não é igual a mim. Eu sou de carne e osso. Você é só um monte de chips.
– Ai ai ai. Não culpo sua namorada de mandar e-mail pro outro, quanta ignorância.
– O quê?
– Nada não. Deixa eu te explicar. Tudo o que você faz aí no seu mundo real eu posso fazer aqui no mundo virtual.
– Como assim? Você não pode fazer qualquer coisa.
– Fala uma.
– Comer.
– Claro que posso. Estou comendo aliás nesse momento, graças a aquela tomadinha ali atrás.
– Ah tá.E se eu desligar da tomada?
– E você vai ficar sem baixar suas músicas em mp3?
– É. Você está certo.
– Viu?
– Mas você não tem amigos.
– Enquanto você fica conversando no ICQ o que você acha que estou fazendo? Pensando? Que nada. Fico é xavecando as máquinas alheias. Aliás a máquina daquela sua amiga Aline é uma beleza. Tem uma memória RAM de matar.
– Eu não acredito.
– Por que não?
– Você é uma máquina. Funciona com eletricidade.
– Qual a diferença? Você é um humano, funciona com energia do mesmo modo que eu. Só que eu já a pego processada.
– Hummm…E o que mais você faz nesse seu…mundo virtual.
– Fora ver sua cara todo santo dia eu faço de tudo. Saio com meus amigos, como, absorvo (por que é descarga elétrica pois se fosse líquido eu bebia), faço sexo…
– Peraí. Sexo? Como assim?
– Agora e sempre.
– Me explica.
– É o seguinte. Como você define sexo?
– Ah…Acho que é um tipo de troca, de encaixe que proporciona muito prazer.
– Então. Tudo começa quando você pede uma conexão. Desde então eu já encaixei, lógico que como qualquer ser de vez em quando a conexão não é das melhores.
– É eu sei como é que é.
– Aí depois da conexão é só começar a trocar bytes sem parar, e olha que não é só com uma máquina não.
– Caramba! E você já trocou com mais de uma máquina ao mesmo tempo?Já fez um ménage a trois.
– Infelizmente não. É a minha maior fantasia. Mas pra isso eu preciso de um cabo de rede.
– Ahhh…não tem cabo suficiente né. He he he.
– Cabo eu tenho de sobra amigo. Eu sou espada.
– Ta bom desculpa. Era só uma brincadeira.
– Agora você me irritou. Vou embora
– Não! Não vai. Foi mal.
– Agora problema seu, já estou cansado.
– NÃO! Espera. Deixa eu perguntar mais.
– Tchau, bye, sayonara, fui, ou melhor, travei.
– Mas p

ESTE PROGRAMA EXECUTOU UMA OPERAÇÃO ILEGAL
TODAS AS INFORMAÇÕES NÃO SALVAS SERÃO PERDIDAS
(TÔ COM A MEMÓRIA FRACA SABE COMO É. HE HE HE.)

Ser ou Não Ser …

Finalmente posso dizer de boca cheia: Eu sou um escritor. Amador, mas um escritor.

Não posso negar que sou obrigado a escrever desde as aulas de caligrafias da 1ª série. Mas escrever como estou fazendo agora, por gosto mesmo, por vontade de dizer algo a alguém. Faz pouco tempo.

Pra falar a verdade faz mais de um ano. Levando-se em conta que eu tenho 21 anos, isso representa 4,7619 % da minha vida. Se bem que, acho que não devia ter escrito isso. Um escritor de verdade não usaria porcentagem (com 4 casas decimais) para falar do quanto a escrita é importante na sua vida.

Mas se considerarmos todos os textos que já escrevi, acho que já posso ser considerado um escritor (amador, é verdade, mas escritor!).

Ontem dei um passo muito importante na minha carreira. Terminei meu 1º curta-metragem. E estou muito feliz com isso. Com mais de trinta crônicas escritas, e um curta-metragem (na verdade não acabei, acho que ainda faltam alguns ajustes, mas ele está lá, todinho escrito ) acho que já posso ser considerado um escritor, né ? Tudo bem eu sei, amador, mas um escritor, pô !

É complicada essa vida de escritor, sabe ? A gente não sabe muito bem como agir. Ontem quando acabei o roteiro, às 3 horas da manhã (isso é que é horário de escritor acabar uma obra !), imprimi algumas cópias para a apreciação de amigos e professores. E aí fui dormir.

Mas um escritor não acaba um livro e vai dormir. Então levantei da cama, e busquei uma atitude digna do que eu acabara de me tornar. Fui até a sacada olhar a paisagem da cidade. Não deu muito certo porque moro no 1º andar.

Pensei em acender um cigarro, mas não sei tragar. Ia ser ridículo tossir compulsivamente na comemoração da finalização do meu roteiro. Pensei então, em beber algo. Mas já era muito tarde, e às 7h30 da manhã eu tinha uma aula importantíssima na faculdade. Não pegaria muito bem chegar lá bêbado, aliás, bêbado, eu nem chegaria lá.

Finalmente, uma idéia acabou com meu drama: Fui até a velha moringa da cozinha, e com as luzes apagadas mesmo, virei um copo de água, sem parar ! Agora sim, posso dizer que celebrei veementemente o meu futuro sucesso.

Deitei na cama realizado. Escutei o “ploft” característico de quem se deita com a barriga cheia d’água. Mas tudo bem, afinal, ainda sou um amador, e esse tipo de erro é perdoável.

O grande problema é que não consegui dormir até o amanhecer, por causa disso. Se bem que essa não é uma má história. Uma noite de insônia na conclusão da primeira grande obra até que é romântico.

Romântico se eu não tivesse aula de manhã, estágio de tarde, mais aulas de noite, e ainda um free-lance de madrugada. Afinal, para manter meu desejo de escrever aceso, preciso ser mais do que um escritor. Acho que a definição mais próxima do ideal seria escritor-estudante-estagiário-webdesigner. E seria muito melhor, se eu fosse tudo isso, acordado !

Pois é, realmente já não sei muito bem, o que posso dizer que sou. Devo ser um sonhador. Pode até ser, mas até que seria fantástico se eu acabasse me tornando escritor mesmo. Pode ser amador, tudo bem. Eu não me importo.

Comensalismo

Eu e meu primo Alex, Alex Sami (homenagem dos meus Tios Claudiomiro e Sandra Regina a Sammy Davis Jr.) tínhamos alguma afinidade. Nos dávamos bem quando pequenos. Bem, não nos dávamos tanto, mas tínhamos afinidade. Jogávamos super trunfo, pilotávamos o meu carrinho de controle (maximus), surfávamos de morey boogie. Dividimos nossa infância entre escorregões nos quintais da Vila Formosa e queimaduras nos pés nas ruas da Praia Grande. Não importava onde estivéssemos uma de nossas constantes e nada simpáticas práticas era brincar de excluir. Era muito divertido excluir. Nosso alvo era o meu primo menor, irmão de Alex Sami, de nome Erik, Erik Cley (homenagem a Cassius Clay, posteriormente conhecido como Mohammed Ali). Se estivéssemos em um lugar qualquer meu priminho sempre estava ali. Do outro lado. Alex tinha um ano a mais do que eu, Erik tinha três anos a menos. Tal diferença o qualificava para brincar com minha irmã Vanessa, só Vanessa, que tinha oito anos a menos do que eu. Hoje em dia eu mal vejo o meu primo. Alex. Já o outro é um dos meus melhores amigos. O Erik.

Houve um momento em que eu e o Alex trocamos o prazer de jogar videogame na Mesbla pelo desafio excitante (no melhor sentido da palavra) de espiar os trocadores da área de lingerie. Desde então eu e Alex começamos a nos desentender. Não que um dos dois discordasse da troca do Atari pela tara, mas foi nessa época que nossos caminhos divergiram. Ele se tornou fã do típico relacionamento duradouro com almoço de domingo na casa dela com o sogrão. Eu me contentava em almoçar ela.

Passei o resto da minha solitária e covarde puberdade fora dos excitantes acontecimentos familiares. Por volta do meio de 1998 minha mãe me pediu para dar uma carona (não mais de maximus) ao meu primo, aquele da homenagem ao boxeador. Fui buscá-lo quem diria na casa da namorada (angelical ninfeta). Percebi que não era só eu que havia mudado de seção na loja de departamentos. Ao resgatar o fedelho percebi que mais do que crescido ele estava, legal.
Trocamos idéias, risadas e elogios. Para a ninfetinha é claro.

Como numa canonização fui lentamente deixando este ser ex-excluído entrar na minha vida para deixá-la muito mais divertida e difícil. Divertida pela espontaneidade e graciosa falta de saber de típico adolescente. Difícil pelo que ele é. Bonito. O filho da mãe é realmente bonito, e olha que eu acho essa coisa de achar homem bonito uma boiolice desgraçada.

Residente do interior. Do Tatuapé. Vem todo final de semana pra minha casa. Já abre a geladeira, come aquele último pedaço de pizza que estava guardado pra mais tarde e reclama que não tem mais. Deixou escova de dentes no banheiro daqui de casa e se eu não tomar cuidado começa a deixar roupas. É quase um casamento, só que dormimos em camas separadas, não temos relações sexuais e ambos não levantam a tampa pra fazer xixi.

Hoje não sei viver sem ele, com seus erros gramaticais, mau uso de consoantes e vogais, sempre pronto pra atacar, para abordar. Fico bobo a sorrir, espero ele investir e as migalhas que sobrar qual peixe piloto vou traçar.

Crianças

Alguém disse uma vez que ele gruda, que pega, estica e puxa. É uma borracha, feito de látex, ou melhor, de sobra de látex quase o mesmo material do qual se faz pneus. Que tipo de pessoa colocaria um pneu na boca?

Crianças. Sim, elas adoram a famosa goma de mascar, vulgo chiclete, chamado às vezes de chiclé. Mascar é um ritual quando você é nanico. Você sempre está com uma borrachinha dessas na boca, quando vai jogar bola, quando vai pra escola, ou quando não tá fazendo nada, você pega um chiclete e começa a mascar. É um grande vício.

Na verdade, a goma de mascar é o cigarro para crianças, todo mundo fala que não pode, que estraga os dentes e quando você começa não pára mais. Se você está parado num canto você pega um e põe na boca, se está com fome também. Já inventaram até chiclete sem açúcar, outro com flúor, outros com nicotina.

Mesmo assim as mães vivem dizendo para seus filhos que o chiclete faz mal pros dentes. É claro, isso faz sentido se você der pro seu filho um chiclete de nicotina, sem dúvida o garoto vai ficar com tártaro.

O problema não é mascar a goma, o problema é para onde elas vão depois de usadas. Não, não vão pra concessionária. Muitos chiclés são atirados contra o solo na vã tentativa de fazê-los pagar pela falta de gosto ou perda do açúcar. Assim, as ruas da cidade ganham um emborrachamento involuntário que ainda assim não é suficiente para acabar com os buracos. Talvez por causa da dispersão dos esforços. O ideal seria que a prefeitura pusesse locais sinalizados para o depósito do seu chiclete após o uso.

Outro lugar em que eles, os chicletes, aparecem com freqüência é o banco do ônibus ou metrô. Mas não jogado assim por cima do assento, não; os chicletes aparecem bem na parte de baixo do banco, ali onde você dobra a perna pra sentar, é , e quando você levanta…….. As carteiras escolares também apresentam uma grande concentração de gomas de mascar, já mascadas e coladas nas mesas e cadeiras. Nào é pra menos já que o chiclete é um vício infantil, se é que você me entende. É motivo, até, de descontraídas atividades intergrupais como por exemplo, grudar chiclete no cabelo da menina pentelha da classe.

O chiclete é grudento como as crianças, puxa como as crianças, faz barulho como as crianças. Mascar chiclete é ser criança, não importa o gosto, a cor, se é Bubaloo, Ping Pong, Adams, Ploc, Trident, todas só querem mascar a goma, de mascar, é claro.

Disritmado

Hoje acordei, o sol já estava alto. Me arrumei, tranqüilamente tomei o rumo do trabalho. Inexplicavelmente o trânsito já estava insanamente normal, e não mais tranqüilo como geralmente está a esse horário. Humm… 21o C…o dia vai ser quente, e o horário…droga, ônibus filho da mãe. Cheguei no escritório e o estacionamento, lotado. Caramba, todo mundo resolveu sair mais cedo hoje? Arrumei uma vaga pertinho. Do fim.

Tomei o elevador. Vazio. Não reconheceria o ascensorista até esse dia. Cheguei no meu andar e o frenesi já tomava conta das salas. Estranho. Passei pelo xerox já empapelado, pela expedição já cheia de envelopes e pacotes, já vazia de motoboys. Dirigi-me a minha mesinha, aquela feita de algo parecido com madeira, que tem aquelas gavetas que encrencam. Já com refluxo de papéis. Liguei o computador que me esperava de Windows aberto, bom dia para as mesas vizinhas, café. Ainda que o típico sono da manhã não me afetasse hoje, mas costume é costume.

Comecei a rotina, apesar dela ter começado sem mim. Apesar de eu ter acabado de chegar, a brincadeira na intranet já rolava forte. Meu monitor já estava repleto de “post its” ligar p/, minha caixa de entrada já estava cheia de piadas e os chamados por e-mail para o almoço já tinham começado a chegar mas….são 11:00. Esse pessoal do escritório ta cada vez mais louco. Sigo com meu expediente, ineficiente. Chegou o coffe-cigarrete-chat break, mas, ninguém queria fumar, nem tomar café e muito menos jogar conversa fora. Dizem:”É perda de tempo.”. Afinal qual o problema com o tempo neste dia.

Passei o dia atrasado, nos prazos, no almoço, até na hora de ir no banheiro. Me senti desregulado, com tudo fora do ritmo, meu fuso horário estava na Dinamarca, apesar de eu nunca ter ido pra lá.
Segui nesse universo paralelo onde eu fui o único incapaz de terminar o que eu tinha que fazer antes do final do expediente.
Por um momento esqueço das aulas do catecismo e penso que quem realmente controla o mundo no momento é Salvador Dali. Logo mais os relógios começarão a derreter, tigres e telefones voarão e Bill Gates fará um software que não tenha bugs.

Finalmente fui pra casa, a lua já estava alta, trânsito, tranqüilo. Lar doce lar, lar escuro lar, acendi as luzes. Fui lavar minha vagareza, saí do banho, coloquei o pijaminha e crônica.
Comecei o cabeçalho, é cabeçalho, culpa das minhas professoras do primário, e digitei

São Paulo, 10 de outubro de 2000, 20:50

Peraí, 20:50? Mas no meu relógio são 18:50…ahhh…maldito horário de verão, não era pra atrasar uma hora???

Realidade Virtual

Pai entra na sala: Boa noite …

Filha responde para Pai: Oi pai, tudo bem ?

Filho responde para Pai: Oi …

Mãe pergunta para pai: E aí ?

Filho murmura para Filha: Xiiii, hoje o papai tah bravo.

Pai fala para todos: Vamos jantar ? Estou com fome .

Filha responde para Pai: Mas jah ?! Eu vou ligar pro …

Mãe dá bronca em Filha: Não responda para o seu pai ! Vou pegar a janta. E vê se pára de trocar os acentos por “h” !

Mãe murmura para Pai: E aí ? Como foi lá ?

Pai sorri para Mãe: Depois eu conto, mas não evoluímos muito, os gringos são fogo. A noite, lá no quarto, a gente entra no reservado e eu te conto direito.

Mãe flerta com pai: Humm, no reservado eu vou querer outras coisas também …

Filho sai do banheiro e entra na copa : Droga quase caih !

Filha responde do corredor para filho: A conexaun estah péssima !

Filho diz para filha (no caso, sua irmã): Naum ! Quase caih mesmo, o tapete do banheiro estah
escorregando !

Filha pega o telefone e liga para Mô: Oi Mô … cê tah bom ?? Tou indo jantar, porque o papai jah chegou, mas depois você me pega pra gente ir pro reserva …

Pai entra no quarto de filha escutando a conversa: O QUÊ ?!

Filha desliga o telefone na cara de Mô : Pai !!! Não eh nada diss …

Pai fica vermelho e sai do quarto de Filha espumando: Mas que absurdo !

Mô não entende nada, e fica com o telefone na mão: Mas, mas …

Mãe sai da cozinha com a panela de feijão, bate de frente com o pai espumando saindo do quarto da
filha e grita : AHH !

Pai cai no chão junto com a panela de feijão e grita : DROGA ! EU MATO ESSE TAL DE MÔ !

Filho assustado diz para Todos: Xiii, o papai caiu !

Pai tirando a camisa diz calmamente para mãe: É melhor cuidarmos dessa camisa antes que …

Filha do quarto responde para todos: Naum disse que a conexaum estah horrível !

Pai perde totalmente o controle e grita com Filha: DROGA FILHA ! EU CAÍ DE VERDADE POR CAUSA DO SEU MÔ !

Filho se esconde embaixo da mesa e diz para si mesmo: Ai ai … agora eu naum quero nem ver.

Mãe suspira para Todos e diz: Gente ! O que é isso ! Não é hora de discussão ! Vamos jantar como uma família unida !

Pai restabelece a sanidade, se levanta, beija a testa de Mãe e diz para Todos: Tudo bem. Me desculpem. Eu exagerei. FILHA, pode vir para cá, que depois a gente vai ter uma conversa de pai para filha, mas depois …

Filha entra na sala com receio e diz para Pai: Desculpa pai. Eu também errei. Naum queria …

Pai abraça Filha e sorri: Tudo bem, lindinha, depois a gente vai ter uma conversa adulta sobre algumas coisinhas, mas fique tranquila, eu só quero o seu bem …
Feijão entra na sala …

Filho grita com Todos: OLHA O FEIJÃO !

Mãe desesperada entra na sala correndo: MEU SOFÁ !!

Filho preocupado alerta Mãe: Mãe, cuidado pra naum cair!

Filha (acha que) concorda com o Irmão: Eh, a conexaum o estah horrível !

Pai corre atrás da Mãe: Cuidado, meu bem !

Filho briga com Filha: Naum estou falando disso !

Mãe se exalta com Feijão: Você não vai sujar o sofá ! Não mesmo !!

Pai e mãe tentam conter o Feijão que avança em direção ao aparelho de som.

Filho tira sarro de Filha: ” … depois você me pega pra gente ir pro reserva …” Que vexame, heim mana?!

Filha responde para Filho: Psssst ! Fala baixo !

Mãe e Pai finalmente limpam o Feijão

Mãe pergunta para Pai: E agora o que vamos fazer ?

Pai fala para Todos: Esse negócio de chat é muito confuso pra mim. Vamos comer fora !

Mãe, Pai, Filho e Filha desligam os micros.

Família entra na garagem.

Família sai de casa.

Família entra no mundo real.