Arquivo de novembro, 2000

O Dono da Bola

Era uma vez, uma turma de garotos (uns 10, 11 anos) chamada Mundo. Essa turma era muito grande e como toda turma grande, existiam as panelinhas.

É claro que havia algumas brigas entre esses grupos, mas ultimamente o negócio estava mais calmo. Com a idade, o pessoal percebeu que o que interessa é o poder. Brigar no tapa mesmo, não vale a pena. A não ser por algumas questões mais pessoais.

A panela dos G.U. (Garotos Unidos, assim que eles eram conhecidos) era famosa pelo seu poder. Eles se metiam em tudo. Resolviam problemas entre grupos que não estavam entrando em acordo (mesmo que não tivessem nada a ver com a história), escolhiam as músicas, filmes e roupas que viravam moda no resto do Mundo, tentavam impor suas gírias como língua oficial do Mundo. Enfim, eles se achavam o dono do Mundo.

Tinha um tal de Fidão, morava na Rua Cuba, que não gostava muito dessa história. Mas desde que o garoto com a mancha na testa e nome difícil (que também não gostava dos G.U.) perdeu o poder na sua galera, o Fidão e o pessoal lá da Cuba, ficou meio isolado do resto do Mundo. Dava até pena.

Os G.U. eram muito espertos, e com o tempo foram aprendendo a dominar o resto do Mundo com uma atitude extremamente despótica, e aquela cara de quem só “tava querendo ajudar”. Criaram até um tal de FMA (Fundo para Mesadas Atrasadas), onde emprestavam dinheiro para o pessoal das outras tribos, desde que estes pagassem uma taxa (coisa pouca) pelo empréstimo.

Um pessoal do sul (que era metido a falar “Somos os melhores jogadores de futebol do Mundo”) estava devendo uma bolada pros G.U., quer dizer, pro FMA. Eles até tentaram negociar, mas o pessoal do G.U. disse que eles tinham que dar o Bosque Tropical deles pro Resto do Mundo, e não houve acordo.

Nos últimos dias, teve uma eleição nos G.U. pra decidir quem ia ser o Dono da Bola. É, o Dono da Bola era quem mandava. Fazia o que queria. Diziam até que o último dono da bola (tudo bem que ele era bonitão) tinha “dado uns pega” numa tal de Mô. Dentro da sua própria casa, só que a namorada dele não gostou nada da história, mas (porque também gostava do poder nos G.U.) acabou fingindo que não soube de nada. O poder do Dono da Bola era tão grande, que ele até foi do outro lado do Mundo, bater um papo com a turma do Charlie, porque há um tempo atrás, quando deu uma briga feia no Mundo, os G.U. tavam experimentando umas bombas novas (coisa pesada !) e acabaram destruindo uma parte daquela rua. E os Charlies (assim que os G.U. chamavam os caras) aceitaram as desculpas na boa, só porque o Dono da Bola foi lá !

Os dois candidatos pra Dono da Bola eram, o Au (na verdade Augusto, mas ele queria criar intimidade com o pessoal e preferia ser chamado assim) e o Jorginho (que já era raposa velha, embora ninguém levasse ele muito a sério). O pessoal dos G.U. disse que a votação foi tão parelha, que ninguém se convenceu de quem tinha vencido ou perdido.

Enquanto isso, o resto do Mundo esperava. Afinal, todo Mundo queria jogar bola.

Mas ninguém desistia – Eu ganhei ! – dizia o Jorginho – Não ganhou não ! – retrucava Au Gusto.

E todo o Mundo esperando. Mas até que estavam achando engraçada aquela briga. Já corria até piada sobre o assunto em todo o Mundo.

Porém, nada de decisão. Au Gusto e Jorginho não se entendiam. O resto do G.U. também não sabia muito bem o que fazer.

O resto do Mundo já não agüentava mais ! Mas os G.U. estavam ocupados demais com seu problema para ser preocupar com o resto do Mundo. Aliás, parece que ainda não descobriram o que vão fazer. Até perguntei para um deles – “E o resto do Mundo ?”, e ele respondeu (mais exaltado) – “O resto do Mundo que se dane!”.

A corrida pelo camaleão

Desde aquele dia em que desci da nave mãe algumas modificações de fato ocorreram de uma certa forma, entende?

O pigarro não mais apareceu e as luvas passaram a me servir muito bem. Em certos momentos da vida, algumas coisas parecem não ter sentido e alguns sonhos parecem ridículos.

Há algumas semanas, acho que meses atrás, consegui realizar um velho sonho, praticamente só revelado a vocês, leitores e leitoas das crônicas.

Como sabem moro em São Paulo e sou fã desta cidade, e, sempre tive muita vontade de um dia, ir ao centro antigo desta cidade de uma forma bem vestida (algo mais formal) com uma pasta na mão, sem ter o mínimo de objetivo para se fazer no centro e, mais dois detalhes importantes: precisava estar sozinho e num dia nublado, característico da cidade de São Paulo, que eu tanto amo, apesar dos pesares.

Chegando lá comecei a andar e, quando me dei conta, tinha este sonho – que para muitos dos que lêem isto deve parecer baboseira – e tinha acabado de realizar um negocio que eu não sabia que queria.

Isso pode ser abstrato, mas é real. Do nada peguei um metro (até lá fui de carro) vestido a caráter (não posso me esquecer do guarda-chuva na minha mão direita) e cheguei onde tudo aqui começou.
É muito legal fazer isso, eu recomendo. Passar em frente a Igreja da Sé, Colégio São Bento entre outras dezenas de patrimônios paulistanos, é muito legal.

Para finalizar tive que fazer a parte mais legal (que chato né?) que era de ir tomar um café e comer algum salgado numa cafeteria típica da cidade.

Por acaso, novamente, achei algo estilo dos anos 60 e isso foi um barato. Tinha todo tipo de gente lá. Algum liam uns livros, outros negociavam e muitos faziam coisas que eu não sei o que era, só sei que o lugar era estiloso pra caramba e quando alguém quiser tomar um bom café, num dia nublado, num local marcado pelo romantismo paulistano, é só me chamar, meu e-mail é herminiof@yahoo.com

Abraços, Hermínio.

Confirmando o pedido

– Por favor, eu queria fazer um pedido.
– Qual o seu nome senhor?
– Marcos.
– Pode falar senhor Marcos.
– Eu queria uma pizza de muzzarella e uma coca 2 litros.
– Sim senhor Marcos. O senhor preferiria a pizza cortada em quantos pedaços?
– Como em quantos pedaços? Oito oras. Existe outro jeito de se cortar uma pizza.
– Em quantos o senhor desejar.
– Bem, Oito.
– As fatias seriam transversais ou longitudinais?
– Trans… o que?
– Transversais senhor.
– Pode ser.
– Com borda recheada?
– Pode ser, mas manda logo que eu to morrendo de fome.
– Claro senhor Marcos. Qual seria o recheio?
– Qualquer..qual que tem?
– Temos catupiry, banana à milanesa e goiabada.
– Argh! Catupiry por favor.
– A Coca seria a normal, light, descafeinada ou com baunilha.
– Descafeinada??? Light, eu quero light.
– Qual será o tipo de pagamento? Cartão, dinheiro, cheque, ticket, vale transporte ou espécie?
– Peraí, desculpa, me perdi.
– Cheque, vale transporte, cartão, dinheiro ou ticket?
– Se eu te pagar em dinheiro e mandar uma caixinha de dez reais você me manda isso AGORA?
– Só estou completando seu pedido senhor. O pagamento será em dinheiro?
– Vai..quer dizer, melhor não. Vai ser em cheque.
– O cheque é especial, cinco estrelas, miserável, preferencial ou vip?
– Sei lá. Acho que é especial.
– Precisamos de certeza senhor senão o sistema pode não aceitar e a venda não será efetivada.
– Especial, especial, mas manda minha pizza.
– Sim senhor. Nos desculpe mas é que implantamos esse novo sistema para não haver chance de erro no pedido do senhor.
– Tudo bem, tudo bem. Já está vindo?
– Estamos preparando, recolhendo e entregando para o senhor no prazo máximo de duas horas.
– DUAS HORAS???
– Sim senhor.
– Ahhh..tá bom vai.
– Até logo senhor.

Uma hora e meia depois.
Trimmm toca o interfone

– Seu Marcos o senhor pediu pizza?
– Sim sim, já estou descendo.

No lado de fora do portão do prédio.

– Boa noite
– Boa noite o senhor é o senhor Marcos.
– Sou. Dá minha pizza. Toma o cheque.
– Só confirmando senhor: Pizza de aliche com borda recheada de goiabada e lata de grapette?
– Que?
– Está correto o pedido?
– Você prefere que eu xingue sua mãe, sua irmã ou ligue pra puta da pizzaria?