Arquivo de dezembro, 2000

O Radar

Existe um dispositivo em nossos organismos que nem os maiores biólogos descobriram onde está. Ele provavelmente não é um órgão. É algo como a alma, que existe está em todos lugares mas em nenhum lugar definido. A alma sombria funciona como um detector. É um radar.
Todo radar detecta, este em especial detecta nossa própria casa.
Pense, reflita e você vai lembrar daquela vez. Daquela vez que você estava desconfortável com seu estômago e que por isso você se despediu daquela pessoa que não via há tempos, perdeu a última rodada de chopp e foi pra casa.

No caminho seu estômago mandava avisos, como se fosse um vídeo cassete apertando ff e rew. Dobram-se algumas esquinas, dobra-se a barriga e as coisas se acalmam. Mais algumas travessas e tudo começa de novo como se trocasse de um vídeo 4 cabeças para um de 8. O farol fecha. Você se estica quase batendo a cabeça no teto pisando na embreagem o casal do carro ao lado olha e você com toda educação afirma;” É eu estou com vontade de cagar mesmo e aí?”. Decididamente sutileza não é uma característica sua nesse momento. A situação já está drástica e seus olhos já buscam um boteco ou uma moita mais fechadinha. Surpreendemente a crise passa de novo. Um pouco mais aliviado você continua o caminho pra casa. As coisas parecem que vão dar certo. A alguns quarteirões da sua casa você chega a escutar alguém batendo na porta gritando: “DEIXA EU SAIR”. Ele entrou em ação. O Radar detectou a presença de sua casa e vai sacrificar seu caminho. Além de aumentar as crises ele interfere também em outras coisas, como o trânsito ainda que você more em um bairro geralmente tranqüilo, no portão da garagem que costuma ser rápido e outros. Uma vez na garagem as contrações se intensificam, quem sabe o banheirinho dos empregados, droga está trancado, maldito radar.

Você adentra o elevador correndo, se mexe irrequieto, andando de um lado para o outro, dando voltas naquele cubículo suspenso. O elevador surpreendemente para no 1o. subsolo, no térreo e no mezzanino. 1o. Andar. É você. Tenta abrir a porta, mãos trêmulas, cadê a chave, não acha o buraco da fechadura. Consegue abrir, a crise parece que vai explodir, corre ao banheiro, e tudo se resolve e um baixar de calças. O mundo novamente faz sentido, você ama sua sogra, problemas??? Que problemas??? Ufa. Foi por pouco. Mas será que da próxima vez o Radar não ganhará de você???

Lendas Urbanas – Parte 1

“s. m. 1 Gênio do mal em geral. 2 Satanás; coisa-ruim, demo, capeta, diacho.3 Fig. Pessoa de más qualidades. Interj. Exprime contrariedade, impaciência, raiva; diacho.”

Essa é a definição de diabo, por um dos principais conhecedores da língua portuguesa.

Não que eu me sinta no direito de contrariar o grande Aurélio, mas para mim, nos tempos modernos, tendo em vista todas as condições normais de temperatura e pressão, essa definição aí de cima pode ser resumida em um simples termo:

“Rádio-relógio”

Se enganam aqueles que pensam que esse ser dos infernos é uma máquina, um simples conjunto de mecanismos acoplados a circuitos elétricos e eletrônicos desprovidos de qualquer sentimento e vontade própria.

Besteira ! O rádio-relógio raciocina a todo instante no intuito de nos arruinar.

Para começo de conversa. Se nossa vida fosse boa e justa, não precisaríamos deste enviado de Lúcifer. Ninguém acorda a contra-gosto quando está de férias e não precisa ser controlado quando está feliz. Se você parar para pensar, nunca usamos um rádio-relógio quando fazemos o que queremos. Só o usamos em todas e qualquer situações que nos são impostas pelo mundo moderno.

Não existe algo mais perverso que um rádio-relógio. Perverso e hipócrita, por sinal. Todos tem aquele maldito botãozinho que os menos esclarecidos acham legal : o snooze (ou soneca). Esse negócio de ficar acordando de sete em sete minutos era utilizado como tortura! Vocês não percebem o mal disso?!

A única situação em que o “snooze” funciona perfeitamente é quando você acorda de primeira, porque está preocupado com algo, e entra no chuveiro. Aí então, ele (maquiavelicamente) começa a tocar em um volume nunca dantes imaginado, a ponto de acordar todo o resto da casa, e você sai correndo, pelado, cheio de sabão, arrebentando o dedinho do pé em todos os cantos possíveis até bater de frente com sua mãe, que estava dormindo tranqüilamente e não merecia presenciar essa performance patética, daquele que deveria ser o seu maior orgulho.

Não existe som pior do que o de um rádio-relógio. As rádios AM têm aquele típico som abafado e sem qualidade. As rádio FM têm o som das rádios AM. O alarme sonoro é algo tão ordinário que nem comentarei.

Se o grande Dante fez sua maravilhosa descrição do Inferno e é aclamado até hoje por isso. Eu, na minha mediocridade, assumo. O inferno de Laganaro é um local com uma cama perfeita, silêncio absoluto, um sono arrebatador e milhares de rádio-relógios prontos para agir.

Só o rádio-relógio tem o poder de estragar todo o seu dia. Só ele tem o poder de arruinar todo momento de calma e reflexão ao acordar, tão necessário para uma mínima qualidade de vida aceitável. Só o rádio-relógio pode sorrateiramente não tocar quando deveria, e depois, ficar lá, imóvel, esfregando na sua cara sonolenta os minutos que já passaram e você não acordou. Só o rádio-relógio é tão detestável a ponto de você não poder se livrar dele apesar de odiá-lo tanto.

Um rádio-relógio é sempre um rádio-relógio. Nunca se esqueça disso ! Ele pode disfarçar seu comportamento vil e desprezível por anos. Mas se um dia o seu sucesso tiver qualquer relação com o horário de acordar, pode estar certo disso: ele causará a sua desgraça. Se isso nunca aconteceu, é porque seu grande dia ainda não chegou. Previna-se

A Poção do Sorrisol

Não sei se vocês sabem, estudo no período noturno, mas toda Segunda de manhã tenho aula de estratégia.

Voltando ao estacionamento aonde deixo meu carro nas aulas de Segunda de manhã, ao aguardar os carros que estavam na frente do meu saírem, me defrontei com algo interessante: “”Deus criou o Mundo em sete dias, pois ninguém perguntou para ele quando ficaria pronto””.

É interessante isso. Pessoas (e algumas vezes seres superiores) normalmente não funcionam perfeitamente sob pressão. O estado de se sentir cercado, com a obrigação de fazer alguma coisa, seja perfeitamente ou num período de tempo reduzido é sem dúvida incômodo e prejudicial a qualquer rendimento de produtividade.

Sejam pessoas comuns ou mais conhecidas, isso pode acontecer – é como impotência sexual – vejampor exemplo o caso do Mansell (não estou falando de impotência e não entenda mal isso) o cara quando estava sob pressão só fazia cagada, tomava muito ferro e deixava de conquistar corridas e títulos por motivos, teoricamente, de força maior, maior que o ombro dele.

Jogadores de futebol funcionam no mesmo esquema. Olha só a situação de grandes clubes paulistas, com grandes elencos que não conseguem produzir. Sem dúvida existe um pouco de pressão nesse meio.

O caso mais recente foi o Brasil nas Olimpíadas de Sidney. Todo mundo tinha que trazer medalha e muitas teriam que ser de ouro. Deu no que deu né?

As vezes isso também ocorre com empresários (muito comum), artistas, engenheiro, publicitários, médicos (daí deve ser complicado), padeiros, marceneiros, mecânicos, enfim, até com prostitutas (não discriminado a profissão, pois para “”praticar”” uma profissão dessa a pessoa não pode ser nada fraca).

Para quem pisa, é necessário utilizar do seu estado empírico e entrar no cotidiano das pessoas e ver que elas são gente e não máquinas, e mesmo se fossem, se exigirmos demais de máquinas, elas acabarão quebradas.

O recado tá dado… motivação, liderança e um bom papo são os maiores aliadas para se atingir objetivos profissionais sem prejudicar qualquer rendimento.

Abraços, Hermínio.