Arquivo de janeiro, 2001

Promessas para o próximo ano

1. Emagrecer
Emagrecer sim, no ano que vem eu vou aproveitar o verão direito, sem camisa na praia, mostrar meu corpanzil sarado. Ainda que eu não goste de praia. Mas eu abro mão das cervejas, do Mc Donald´s, do macarrão que eu tanto amo. Mas peraí, e o carnaval? Sóbrio é complicado. Ainda mais que o pessoal só sabe fazer macarrão. Bem, deixa eu pular essa, depois eu ponho.

2. Parar de fumar
Esse ano eu fico saudável, afinal não posso entrar no novo milênio debilitando meu corpo. Ainda que aquele cigarro depois da refeição seja espetacularmente ótimo não vale a pena. Nem pela companhia nos meus minutos de sabedoria, nem depois do sex…bem, melhor eu pular esse aqui também. Reconsidero mais tarde.

3. Saltar de pára-quedas
Essa é uma das coisas que não se pode morrer sem ter feito. A liberdade, sensação de liberdade, o frio na barriga, o vento cortando a espinha, o solo se aproximando, o desespero tomando conta de você, não controlar mais seus movimentos, o medo de morrer fazendo em vez de morrer sem ter feito. É esse não é tão essencial.

4. Trocar de carro
O coitadinho não agüenta mais. Preciso dar um descanso pro meu velho guerreiro. Não que ele não tenha desempenhado bem seu papel. Muito pelo contrário, tantas calotas recuperadas, tanta economia de motel, tantas viagens em que ele próprio foi o hotel. Mas é hora dele parar um pouco, vou comprar um sucessor à sua altura, bancos, volante, cambio, quem sabe dessa vez eu pego um com retrovisor do lado direito. Gosto desses carros novos, tão bonitos, práticos, redondos, caros. Nada que um financiamento não resolva. Ahhh, agora eu lembrei que meu nome não saiu do SPC ainda. Bem, vamos continuar depois volto pra resolver esse probleminha.

5. Visitar mais vezes minha mãe
É, mãe é mãe. Aquela comidinha, aquele abraço. Aquela preocupação com sua saúde. Sinto falta de ficar esperando aquele almoço deitado na rede da varanda, escutando aquele silêncio bom do interior. Só não precisava ser tão interior assim né? Por que que eles tiveram que mudar pra Presidente Prudente? 700 km. Onde eles estavam com a cabeça? E viajar tudo isso pra não poder fumar na frente deles e arriscar a ter meu carrinho apreendido. Lanterna pra que se eu estou viajando de dia? Ainda vou chegar e escutar aquela frase: “Nossa filho como você engordou! Deve ser por isso que você não me arruma uma nora, e muito menos um netinho.” É desencana dessa merda toda.

6. Não fazer promessas no ano que vem.

Foram Tempos Modernos, pelos menos para os quatro

Eram três garotos, que como eu, brincavam de gato-mia em seus quartos. Eles giravam aquele mundo, sempre a buscar a magia vinda da vida.

Eram esbeltos, mas mesmo assim, poucas garotas a fim. Tocavam muito, de dia e de noite, até cansar.
Queriam sempre, sentir aquela liberdade, mas mal sabiam brincar.

Mas de repente, aquele gosto, ele chegou, de forma rápida a nunca parar.

Só mais uma vez só, e mais uma agora. Não dava para se controlar, aquele “”vicio”” tomou conta.
Realmente forma bons tempos, mais do que crianças, eram pessoas. Uma de cabelos longos e outros mais conservadores.

Passamos por momentos curioso na nossa adolescência. Cada um no seu canto, sozinhos, descobrindo o mundo real, de uma forma nova.

Acho que vocês são mais do que amigos. Uns estão na vida dos outros, apesar da distância. Jamais esquecerei pequenos gestos de amizades. Se protegiam, se conheciam e conheceram as magas, muitas magas, que aos poucos forma moldando cada um deles.
Hoje em dia tenho muitos amigos. Alguns deles verdadeiros (espero), mas quando você começa a ver o mundo de outra forma, encarar os fatos, você tem aquele seu grupo, que por mais que seja pequeno, é unido e capaz de muitas coisas.

As vezes fico me recordando, os quatro. Foram viagens, risadas na aula, caminhadas intermináveis porém rápidas, horas de sono transformadas em conversas e, principalmente amizade.

Olha, faz tempo que não vejo amigos assim. Hoje cada um está tomando seu rumo, porém todos mantém contato, claro que uns só por telepatia, mas outros de palavras.

Quem nunca teve um melhor amigo quando jovem, entre seus dez e dezesseis anos? Eu não, eu tive três.

Acho que um privilégio. Na época pensei Ter dado muita sorte de Ter entrado naquele colégio, naquela classe. Hoje tenho certeza.

São momentos da vida que jamais são esquecidos e, tenho certeza, eles também lembram.
Apesar de muitos acharem estranho, garanto, era amizade mesmo.

É isso aí rapazes, cada no seu rumo, mas espero que sempre juntos.

Quem nos conhece sabem quem são. Um que tinha cabelo comprido, outro que apareceu de brinco, um que vivia jogando futebol americano e outro que vivia rodado de garotas.

Pois é, os tempos passaram e vocês estão aí, estamos aqui.

Abraços a todos, H.R.T.O.

Mesa de Bar

Aquele era um bar como qualquer outro bar paulistano. Simplesmente um bar, nada mais que um bar e, assim sendo, havia mesas por todo lado. Numa destas, pessoas conversavam alegremente, cercadas pelos copos de cerveja.

Olhando atentamente para o tampo da mesa (de madeira, é claro) podia-se observar desenhado (em escrita cuneiforme, diga-se de passagem) um coração trespassado de uma flecha com o seguinte texto: Marcelo e Tatá 84.

Aparentemente era um grafito (é assim que os teóricos chamam estes desenhos e escritos) comum. Mas como o ano era 84 se o bar foi inaugurado em 1999, numa louca festa que não contou com a presença de nenhum casal conhecido por Marcelo e Tatá?

Será que “Marcelo e Tatá” eram os “Juneca Pessoinha” (famosa dupla de pichadores que marcou toda a cidade de São Paulo e foram até matéria da Veja na década de 80.O Pessoinha foi para o exército, e o Juneca arranjou outro parceiro conhecido como Bilao, mas essa nova formação não foi tão bem sucedida) dos bares paulistanos ?

Mas se o bar era novo, como aquela inscrição tão antiga poderia estar lá ? A única explicação plausível seria a de que aquelas mesas fossem usadas (e muito bem usadas). O problema era que o dono do bar (amigo do pessoal da mesa) negava terminantemente esta possibilidade, dizendo que pagou uma nota nessas mesas de época (que época?).

O enigma começou a se tornar tão intrigante que, paulatinamente, as pessoas pararam de conversar e começaram a observá-lo na tentativa de buscar uma explicação.

Alguns achavam que só poderia ser piada. Mas como piada? Quem seria o imbecil que faria uma piada tão sem graça como essa, rebatiam os mais exaltados. Os mais sóbrios tentavam, resignados, buscar na memória algum casal conhecido pelos nomes escritos, mas a maioria não tinha idade suficiente para conhecer casais em 1984.

Um dos bêbados não se conteve e invadiu o palco onde a banda tocava “Give it away”, roubou violentamente o microfone da mão do empolgado e descamisado vocalista, e perguntou para todos se alguém conhecia algum casal “Marcelo e Tatá”, explicando o porquê da pergunta. O silêncio ensurdeceu a todos no bar.

Lentamente, cada pessoa se dirigia à mesa olhando inconformada para o grafito.

Como zumbis todos foram saindo lentamente do bar. Clientes, garçons, “barmans”, cozinheiros e até o caixa.

Alguns minutos depois só podia-se observar o dono do bar. Sentado. Sozinho numa mesa do canto, balançando a cabeça como um autista e repetindo baixinho: Tá bom, tá bom, eu admito! As mesas são usadas!