Arquivo de maio, 2001

AGORA

Droga, droga, droga……..droga tudo isso – dizia Rafael.

– Eu não consigo sair, droga, droga, droga. Como? Como eu posso…?Não..!!! (balançando a cabeça)

– Tem que ter um jeito! Não é possível! Como eu entrei aqui!?? Eu não queria!!!

Suas pálpebras apertavam-se contra os olhos na intenção de esmagá-los. Seus olhos sangravam lágrimas doces de desespero e aflição.

– Nunca mais, nunca mais. As pessoas é que são as culpadas, eu, você…..ele também…..somos todos culpados – apontando para o nada.

– Quem vem lá? Não consigo ver.

– Ei! Espere, volte aqui…….me a – j – u – d – e ………( caindo sobre seus joelhos avermelhados do tempo)

Sozinho. Inconsolável. Rafael seguia apertando os olhos como se temesse algo que estaria por vir. A impressão era de dor, mas não a dor de um soco ou de uma facada, uma dor imensa, uma dor espiritual. Suas mãos tremiam. O frio aumentava. Espasmos de loucura paradoxalmente o libertavam; e em um berro ele dizia:

– Onde está você??? Porque????? Porque eu????

Subitamente o silêncio voltava. O silêncio ensurdecedor, o zunido agudo que percorre nossos ouvidos quando estamos sós. Aquilo era um tormento infernal, ninguém poderia sobreviver àquilo, às vezes me parecia que seus berros eram o silêncio e a paz que ele podia ter em míseros segundos longe do barulho do silêncio que preenchia todo o lugar.

Sua angústia era marcante, não conseguia pronunciar uma palavra sem que seus olhos vertessem toda a sua dor. Era incompreensível para mim. Toda aquela dor! Num instante eu o conheci, feliz, contente com o mundo, amado, disposto, saudável. Pouco tempo depois chegou aqui onde estamos e não tive escolha: tive que vir com ele, não podia deixá-lo assim. Sozinho.

– Me larga!!! Me deixa ir!!!! Eu quero, mas me deixa ir!!! Eu preciso, eles precisam de mim……..me deixa!!!!

Sua voz já se esgotava de tanto brigar contra o silêncio. Uma batalha inglória! Seus dedos estavam congelados pelo frio, o silêncio e a escuridão o colocavam sob um único foco de luz. Minha lanterna. Eu me sentia o último dos homens pois não conseguia entendê-lo e muito menos ajudá-lo, eu apenas o confortava abraçando-o e compartilhando daquela dor cruel que invadia a alma.

Talvez a dor fosse tanta que fosse inevitável a chegada da loucura. A insanidade atropelou Rafael. Indefeso e fraco, não pôde seguir eloqüente. Não gritava mais. Sussurrava canções ao pé do ouvido do escuro, desenhava no ar.

– Quero KH mas não posso!!!!! Quero KH mas não posso!!!!!………Soda limonada pra KH de madrugada…… Ipiaeeeeeeiiiiiiiiii…….Ipiaoooouuuuu…caaaavaaaaaleeeeiiiiros do céééééu…….

E o tempo não dava trégua à nós dois, seguia tímido segundo à segundo sem hora pra voltar. E que não voltasse mesmo!

– Pára, pára……pelo amor de Deus!!! Me liberta, me aceita, qualquer coisa!!!! Fala comigo….pelo amor que você tem à Deus, me diz alguma coisa………..

Eu sabia o quanto era difícil para ele dizer aquelas palavras. Sempre fora um agnóstico de marca maior, católico de batismo, mas nunca religioso. Crédulo, muito menos. As coisas tinham que estar ali na sua frente caso contrário não existiam e agora ele se curvava clamando por um Deus que ele nunca acreditara, não como diziam as religiões. Curvado, clemente, humilhado, já não se prendia à pouca dignidade que lhe restava, queria apenas uma resposta, uma única. Cruel aquele que não respondia. Não sabia a dor que causava e agora nesse momento eu penso que mesmo se soubesse não teria sentimentos o suficiente para estender a mão e responder. Rafael ficou abandonado ao meu lado, sob a luz de minha lanterna.

E eu? Eu fiquei bem ali. Observando a dor do mundo sem nada poder fazer, inútil e indefeso diante da impossibilidade de ajudar, mas fiquei! Fiquei ali, eu e minha consciência. Um tentando confortar e o outro tentando se encontrar.

Sonhos de um Curso de Outono

Não tem jeito, se eu tivésse que escrever sobre algo, teria que ser sobre a viagem. Para quem não sabe, no começo de Fevereiro fui para Los Angeles com o meu cumpadre e também cronista Kris fazer um curso de cinema, e voltei no meio de Maio.

Acho que a coisa mais interessante e assustadora de uma viagem como essas é como percebemos a existência da relação “espaço-tempo”: num dia eu acordei na minha casa, fui para o aeroporto, peguei um avião e apenas 12 horas depois, mergulhei num mundo totalmente desconhecido, num mar de incertezas e desafios.

Todas as pessoas que faziam parte da minha vida desapareceram magicamente. Minha única relação com aquilo que eu sempre fui, foi reduzida a uma tela de computador com um contador no canto da tela jogando na minha cara o quanto custava isso tudo (em dólar, o que é pior !).

Lógico que depois de um tempo eu já estava adaptado, mesmo porque a vida lá também era ótima. O único (porém enorme) problema era a saudade, decorrente da consequente impossibilidade de estar com quem se tinha vontade. É muito chato não poder olhar nos olhos de quem você ama, com tantas coisas acontecendo na sua vida. Outra coisa chata também, é que nos EUA não existem barzinhos onde se possa ficar conversando com os amigos !

No meio do curso, já estávamos tão acostumados com o nosso “Brazilian Way of Life in America” que parecia que nunca deixaríamos de viver aquilo, mesmo quando voltássemos ao Brasil. É estranho, mas é a mais pura verdade. O café da manha seria pra sempre com “sausage biscuit”, e o fim de noite seria sempre com o “Friends”. Algo assim.

Depois que marcamos as passagens de volta, percebemos que tudo teria um fim, e ao contrário de quando saímos do Brasil, nunca mais vivenciaríamos aquilo. Chega a ser assustador sair de um supermercado que lhe abasteceu por 2 meses (sendo que fomos lá quase todos dias) sabendo que nunca mais você voltará para ele.

No dia de ir embora, fechamos para sempre a porta do nosso apartamento, desligamos para sempre o motor do nosso carro, e embarcamos de volta. Deixamos aquela vida … para sempre.

A chegada (tirando os probleminhas que o Kris teve na Alfandega ) foi maravilhosa. Nada melhor do que chegar em casa, e sentir-se acolhido por aqueles que você se importa.

Mas um coisa é muito estranha. A realidade vivida aqui é tão distante e tão diferente em todos os aspectos que muitas vezes desconfio que tudo aquilo não passou de um sonho. Bastou algumas horas na minha casa, que parecia que eu nunca tinha saído dela.

Pois é, apesar de tudo, estou de volta, escrevendo bem pior (acho que estou meio enferrujado), mas feliz por tudo o que aconteceu. E agora só resta esperar para ver o que virá daqui para frente.

Deus vai às compras

A porta é automática, é claro. Tecnologia é o que não falta, afinal, é um dos maiores hipermercados da região. Porém existem poucas entradas, já que o gerente da loja está endividado até o pescoço para terminar as que existem, duas ou três vias de acesso.

Ninguém sabe, até hoje, como aquele hipermercado ainda está lá. A organização dos produtos é horrível, as gôndolas são mal arrumadas e o mercado é um tanto quanto sujo. A faxina é terceirizada por uma empresa de “relações estreitas” com o gerente da loja (são parentes). É! E o pior de tudo é que o lixo que é tirado do mercado é jogado ali mesmo num cantinho, ali nas marginais onde tem um vãozinho que cabe de tudo!

Logo que você entra, eu pelo menos, vou direto para a parte dos vestuários e artigos de luxo. É inevitável, seus olhos vão brilhar! Nem parece parte do mesmo mercado. O corredor Jardins, ali na seção Oscar Freire é a menina dos olhos do gerente. Ele cuida desta seção pessoalmente!

Depois de passar pela área nobre da loja, é conveniente pegar algumas coisas para comer. Então você vai para os corredores Bexiga e Liberdade, dependendo do apetite. Material de limpeza, panos, chinelos, material para festa, você encontra no Brás. Na seção Zé paulino também tem alguma coisa desse tipo, só que é do outro lado do mercado.

Se pretende dar uma festa, você vai precisar ir até o corredor Vila Olímpia ou Vila Madalena para pegar cervejas, refrigerantes, vodka, uísque, quitutes, petiscos e até lanches. Mas encha muito o caneco, digo o carrinho, porque você sabe: essa questão do transporte é bastante complicada, os carrinhos são poucos e estão andando quebrado mesmo. Não vou nem falar nas filas que se formam nos caixas, e se for feriado prolongado então……….

Para quem não pretende dar uma festa, é legal dar uma olhada na parte de eletro-eletrônicos em promoção. É só ir no corredor Central na seção Santa Efigênia ou Ladeira Porto Geral que você vai encontrar de tudo: computadores, eletrodomésticos, antenas, equipamentos multimídia,
softwares, TVs, rádios, frentes de rádios, tudo pela metade do preço! Nas partes mais afastadas do centro do mercado, estão os alimentos básicos, aqueles mesmos da cesta. É ali na periferia do mercado que estão o arroz e o feijão de todo dia, a cebola e o alho, o açúcar e o sal.

Como vocês podem ver, as coisas são bem desorganizadas por aqui, a sujeira e a bagunça tomam conta do hipermercado, mesmo assim ele vive cheio. Também pudera, só existe ele num raio de centenas de quilômetros, nós não temos sequer a opção de escolher outros mercados pois os mais
próximos são iguais ou piores. Melhor ficar com esse mesmo que é aqui perto e eu conheço o gerente. Aliás, vou sugerir algumas coisinhas para melhorar o serviço.
E assim, Deus paga as compras na Paulista e sai voando à 110 Km/h, pela Via Oeste, tomando cuidado para não ser multado.

Ensaio sobre a incessante busca de tudo e a paradoxal onipresença do nada frente a conquista dos objetivos pré-estabelecidos em períodos de total inconsciência da existência, ou não, do passo que leva adiante através de sinuosos caminhos anteriores ao saber de tudo e até mesmo ao encontro do nada.

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Acabou. E agora?