Arquivo de junho, 2001

Pode Ter Certeza de que Freud Explica

Um dia desses, eu estava dentro de um elevador conversando e rindo com um amigo quando ele se abaixou para amarrar o tênis. No exato momento em que ele segurou o cadarço, sua cabeça se dirigiu em direção ao meu joelho. A situação estava perfeita e não resisti: com uma joelhada quebrei todos dentes da boca dele, desloquei sua mandíbula, e ele caiu inconsciente, sobre seu próprio crânio. A porta do elevador se abriu, e nós saímos conversando assim como entramos.

Se você leu atentamente esse parágrafo, pôde perceber que é impossível que a história seja totalmente verdadeira: Ou eu não dei a joelhada nele, ou ele caiu no chão e lá ficou, mesmo depois que a porta se abriu.

Felizmente ficamos com a 1ª hipótese. Mas então porque escrevi isto desse modo tão bizarro ? Se eu fosse o Jânio Quadros responderia: fi-lo porque qui-lo… Como não o sou, explicarei: O que eu escrevi lá, foi apenas uma representação fiel ao que eu acho que poderia ter acontecido.

Muitas vezes em nossas vidas, temos vontades de fazer coisas, pelo simples prazer de fazer, e gostaríamos que isso não causasse nenhuma conseqüência, que não a realização destes nossos desejos. Infelizmente não é possível (e talvez isso seja bom, porque senão, não teríamos muitas diferenças em relação a um cachorro, certo?).

Mas às vezes isso me incomoda. Temos que reprimir muitos dos nossos impulsos. Outro dia, um cara se dirigiu a mim num shopping, e ficou em tal posição que tive que me segurar para não emendar um direto de esquerda no seu olho. Juro para vocês, tenho certeza que o golpe teria sido uma obra de arte, ele cairia paralelamente ao solo, como uma jaca despencando da árvore. Mas por favor, me entendam! Eu não queria machucar o rapaz. Queria apenas dar aquele soco, porque foi uma oportunidade única.

Nem me atrevo aqui, a escrever qual seria o comportamento das pessoas na praia ou numa balada (pensando friamente, em qualquer lugar que exista um homem e uma mulher) se não precisassem pensar nas conseqüências de seus atos.

Alguns pessoas conseguem lidar muito bem com essas vontades. O cantor de rap Eminem é uma delas. Ele já matou (e fez coisas piores com) a sua mãe, já trancou a namorada grávida num porta-malas e jogou o carro de uma ponte, já cortou a garganta da mãe de seus filhos até a morte, entre outros AARI (atos de auto-realização inconseqüente). Tudo isso, logicamente, dentro de suas músicas… Mas conhecendo-o um pouco, todos sabem que na hora em que escreveu o texto, esta era a sua maior vontade. A atitude do cantor é bem mais inteligente que a do atacante Edmundo (que também não tem um super-ego tão super). Ou do que aquelas pessoas que reprimem tanto seus AARI’s que acabam virando pobres loucos recalcados (como o Batman, por exemplo).

Gostaria de viver, pelo menos algumas horas por dia, num mundo (a realidade-virtual já me satisfaria) onde eu pudesse fazer tudo (eu disse ABSOLUTAMENTE TUDO) que quisesse. Incluindo o suicídio, é claro.

Enquanto isso não é possível, fico escrevendo crônicas para ver se alivio meus anseios sem machucar o próximo, magoar aqueles que amo, e quem sabe até, provocar algumas boas risadas.

Ahh… falando em AARI… só uma coisa: LOUCO É A MÃE !

Você não tem

Você tem que acordar cedo.
Você tem que acordar cedo e escovar os dentes limpar o rosto tomar banho se trocar engolir alguma coisa e ir trabalhar.
Você tem que trabalhar.
Você tem que trabalhar porque precisa do dinheiro e tem que se esforçar para ser trabalhador.
Você tem que ser trabalhador.
Você tem que ser trabalhador para ter um rumo na vida e um emprego estável e que te traga tranquilidade no futuro.
Você tem que pensar no futuro.
Você tem que pensar no futuro porque sem pensar no futuro no futuro você não será nada na vida.
Você tem que ser algo na vida.
Você tem que ser algo na vida para ter amigos importantes e ter muito dinheiro.
Você tem que ter muito dinheiro.
Você tem que ter muito dinheiro para que você possa encontrar uma esposa perfeita.
Você tem que encontrar uma esposa perfeita.
Você tem que encontrar uma esposa perfeita para te dar filhos e te fazer um grande homem.
Você tem que ser um grande homem.
Você tem que ser ser um grande homem porque um homem grande tem carros grandes casa grande pica grande.
Você tem que ter uma pica grande.
Você tem que ter uma pica grande porque aí sim você poderá gozar muito.
Você tem que gozar muito.
Você tem que gozar muito para se sentir bem e não poder olhar para a cara de todos com um olhar de quem tem pica grande e é feliz.
Você tem que ser feliz.
Você tem que ser feliz para poder chegar em casa à noite e encostar a cabeça no travesseiro e poder dormir em paz.
Você tem que dormir em paz.
Você tem que dormir em paz porque você precisa acordar cedo.
Você tem que acordar cedo.

Vovôs Vintões

Sou velho. Não segundo meu RG, mas de acordo com um monte de gente. A calvície precoce e a barriga ajudam, mas falam isso por causa das coisas que penso e faço. Ou não faço, na verdade.

Odeio filas, odeio barulho demais e odeio multidões. Sou daqueles que não conseguem achar festa de torcida bonita nem pela TV. E shows então? Pelo amor de Deus, o que é aquele povo todo se socando para ver uns pontinhos pulando no palco? Isso sem contar o som, muito alto e muito distorcido.

Em um dos poucos shows a que fui – e no único que eu realmente gostei – eu estava lá atrás. A uns 15 metros de distância do palco. Dava até para ver quem estava tocando. Pô, quinze metros é uma distância menor do que um fila de cinema na sexta a noite ou de uma danceteria da moda ( em qualquer dia da semana ). Não é nada perto dos engarrafamentos nas estradas em feriadões. E é bem mais do que o que andamos nos shoppings sem tropeçar – literalmente – em outra pessoa. Especialmente durante datas especiais, como Dia dos Namorados ou Natal.

Os melhores lugares para gente como eu freqüentar são pequenos, tranquilos e vazios. O que não deixa de ser um problema, porque se o lugar vinga, fica cheio, agitado e barulhento. Se não vinga, acaba fechando. São pouquíssimos os que se mantém ao longo dos anos com aqueles fregueses contados, mas fiéis – os outros “velhos”. Se bem que sempre se cruza com um velho autêntico nesses lugares.

É engraçado. Para os outros, gente que gosta desse esquema mais sossegado não tem preferência. Tem mania. Cada negativa em ir a um cinema lotado ou em mofar do lado de fora de uma danceteria é acompanhada por um quase mecânico “Deixa de ser velho!”. E isso já é uma evolução, porque no começo é sempre “Deixa de ser chato!”. Com o tempo as pessoas se acostumam com a idéia de que filas e multidões podem incomodar de verdade e por isso, ao invés de chatos, os sossegados viram velhos maníacos ( bem antes do tempo ).

Mas nem tudo é sofrimento. Um “velho” arrastado para as trincheiras pode ser muito perigoso. Não existe ninguém capaz de resistir a horas de humor ácido misturado com cinismo. Destilado em doses homeopáticas, é claro. Tudo é motivo para gracinhas – filas, bebidas, estacionamento, consumação, mulheres, músicas, e mais importante, foras que ele tomou. Quando o inevitável acontecer e o “velho” ouvir comentários sobre a sua idade, ele serenamente responderá: “Ah, Deixa de ser criança!”.

Se Meu Elevador Falasse … (eu teria uma discussão seriíssima com ele!)

Desta vez serei extremamente direto ! Desde que eu me mudei para o prédio onde moro, uma coisa me incomoda muito: O elevador. O curioso é que moro no 1º andar, e não teria porque reclamar dele. Porém há dois anos TODAS AS VEZES em que o chamo, ele passa direto pelo meu andar, vai ao 15º, 16º ou 17º, para então retornar. Isso já me causou tanta revolta que nos tempos de aula de manhã, aboli o uso deste meio de transporte vertical.

Depois de muito espernear e bater naquela maldita porta de metal, resolvi formular algumas teorias totalmente plausíveis para esse estranho fenômeno:

1- Uma comunidade alternativa demoliu as divisões entre os andares 15, 16, e 17, e vive em busca de paz interior em tranqüilos passeios de elevador. Dizem até que a Sandy andou por lá algumas vezes (vocês já pararam pra pensar em quantos repórteres não foram obrigados a subir e descer por lá!).

A única coisa que me assusta nessa possibilidade, é que no último capítulo da novela, a Sussucã (uma das líderes da tribo da cantora) ficou revoltada com a entrada do mundo capitalista na colônia e colocou fogo em tudo ! Imagine quando estes hippies daqui do prédio descobrirem que eles é que estão totalmente dentro desse mundo !

2- Os Lemmings (personagens de um jogo de computador dos anos 90 que sempre estavam presos em algum lugar e o jogador tinha que salvá-los) estão presos por lá e ficam desesperados tentando achar a saída subindo e descendo de elevador.

A única coisa que me assusta nesta possibilidade, é que sempre usávamos o lemming-bomba, para explodir umas paredes e salvar a galera. Portanto, meu prédio está na iminência de explodir !

3- Os agentes da Matrix se reúnem nestes andares. E olha que eu já tive vários “dejavús” dentro do elevador! Como eles têm que patrulhar a Terra toda, a partir da cobertura do meu prédio, eles usam este meio toda hora. Ainda mais agora que o Escolhido foi achado.

A única coisa que me assusta nessa possibilidade, é que nunca vi o elevador parar em nenhum andar entre o 10º e o 3º andar, então não seria nada impossível de que os moradores desses andares já tenham sido transformados em pilha humana, e a minha vez está chegando.

4- Os Smurfs vivem por lá. Afinal eles são pequenininhos e podem viver em centenas lá dentro, o que explica o vai-e-vem interminável. Além do mais, os adultos não vêem duendes (com exceção do Tihuana), por isso o elevador está sempre (aparentemente) vazio.

A única coisa que me assusta nesta possibilidade é que se por acaso o Governo resolver abrir os apartamentos e descobrir que ele está infestado de cogumelos, o zelador vai jurar que viu homenzinhos azuis correndo para lá e para cá e, provavelmente, todos os moradores restantes serão culpados como cúmplices desta plantação de estimulantes alucinógenos.

Em qualquer uma dessas hipóteses, a minha vida está em jogo, portanto, se algum dia, eu parar de escrever crônicas repentinamente, ou então, for dado como desaparecido no Linha Direta, vocês já sabem … a explicação está no elevador!

A mulher do Walter

Outro dia abri um caderno antigo, bem, não tão antigo assim, e achei uma foto da Turma. Sim, a Turma, com todo mundo lá, posando felizes numa festa de um sábado plausível. O Peres, o Mamão, o Carlos, eu, o Fininho (com a namorada da época) e o Walter. Meu Deus, o Walter. Naquele dia o Walter ficou muito bêbado, aí ele sumiu. Não trombei mais com ele.

Peguei o telefone e liguei na hora.
— Walter, seu safado !!!
— E aí Farlo !
— Farlo é a mãe, cê tá bom?
— Tou bom, tou bem…
— Cara, fazem séculos que não te vejo! O que é que tá acontecendo, hein?
— Ah, você sabe, né? A Martha…
— A Martha? Xi… você está nessa vida ainda, cara?
— Pois é…
— Lembra aquele dia? Aquela última vez que a gente foi pra balada, e o Fininho quase apanhou da namorada, como era mesmo o nome dela…
— Priscila…
— Isso, o Fino quase apanhou da Pri, porque ficava dizendo “à saúde das loiras do Brasilsilsillllll !!!” pra cada chope que a gente pedia… e aquela mesa do lado tinha três loiraças que só ficavam pagando pau pra gente.
— Bom, pagando pau pro Mamão, você quer dizer.
— É verdade, parecia que o Mamão era doce, vai pro inferno !
— Eu nem me lembro direito daquele dia…
— Não lembra? Aposto que não. Você estava assim: uma batatinha, um chope. Outra batatinha, outro chope. E enquanto o garçom não trazia a próxima tulipa, você lambia a mostarda, pra não gastar batata.
— Pois é… depois daquele dia…
— Nunca mais a gente saiu assim, né? Ou melhor, você nunca mais saiu com a gente.
— Pois é… depois daquele dia… a Martha nunca mais me deixou sair pra essas baladas.
— Sério?
— Sério.
— Nem ir tomar uns chopinhos com o pessoal do trabalho?
— Nem.
— Vai me dizer que você nem falou mais com o Peres, então?
— Exatamente.
— Cara, isso eu não concordo. Quem ela pensa que ela é? Ficar ordenando assim…
— Pois é…
— Você lembra do dia? Ela queria vir com a gente!
— Queria?
— Só porque a namorada do Fininho ia…
— É verdade…
— Não tem nada a ver, o lugar não era pra Martha. Eu acho que você devia dizer isso pra ela.
— Isso o quê?
— Que não tem nada a ver, que ela não pode agir assim com você, Walter! Você é um cara legal, que tem amigos, que gosta de se divertir! Você precisa ter seu espaço, sua individualidade!
— Sei lá…
— Sei lá? Cara, você está maluco? Você precisa respirar, entendeu? Você precisa ser você! In-di-vi-du-a-li-dade, tá entendendo?
— É difícil, é difícil… com a Martha é difícil…
— Cara, me explica… eu nunca concordei com isso.
— Você sabe como é… não posso falar isso assim, pra ela… ela vai se sentir culpada, nunca vai me perdoar.
— Walter, e daí?
— É que você não entende… eu sou a única pessoa na vida dela, sabe?
— Alguma hora você vai ter que largar essa mulher !
— Eu sei, eu sei. Alguma hora eu faço isso, eu acho, mas eu não posso, entende?
— Por que?
— Porque a gente é muito unido, muito junto…
— Corta essa, porra!
— Farlo, Olha…
— Farlo é a mãe!
— Veja bem, não é assim…
— Vê se dá um pé na bunda dessa mulher, porra!
— Não posso, você não entende, Farlo…
— Já falei que Farlo é a mãe!
— Não fala assim da minha mãe!
— Falo sim !!! Você não larga a Martha, parece uma criancinha!
— Não fala assim da Martha.
— Ela fica te podando, eu não posso concordar com isso!
— Não fala assim da Martha, Farlo!
— Você tem que arranjar uma mulher de verdade e largar essa velha!
— Não fala assim da Martha!
— Walter, vai se fuder!
— Vai você, Farlo!
— Farlo é a m…

“É a mãe, é a Martha”, eu ia dizer. Até hoje o cara não saiu da barra da saia dessa mulher. Quando é que ele vai largar a mãe e começar a viver, pombas? Filho único é foda.

… e Deus Criou o Homem

Segundo reza a tradição católica apostólica romana, o Homem foi feito à imagem e semelhança de Deus. Difícil é acreditar nisso toda vez que acordo e me olho no espelho! Porém, se Deus tem olhos puxados, cabelos curtos – castanhos – e tipo físico esguio acho que ele pode ter também os seus 80 kilos e 1 metro e oitenta de altura; o que não é nada parecido com o meu vizinho. Mas meu vizinho não deve ser Homem. Pelo menos não se encaixa no perfil médio, sei eu: um metro e oitenta por cinquenta centímetros de largura, é 1,80 x 0,50 igual foto mesmo.

Um homem, para ser um Homem na modernidade, deve gostar de coisas motorizadas, deve curtir máquinas e velocidade se não, não é um Homem. Todo Homem gosta de dirigir; ainda mais, um carro potente, veloz. Porém na média, todos andam mesmo com os famosos populares de 1.000 cilindradas, pequenos, compactos, com seus quase 2m de comprimento por 1,70 de largura. Dirigir sempre foi um grande prazer, muito disso por causa da velocidade e da vontade de controlar uma máquina. Assim sendo não foi difícil inventarem algo que juntasse tudo isso.

As motos foram a grande invenção criada para saciar essa gana do homem. Liberdade, velocidade em cima de uma solução que virou um problema. Instrumento de guerra, arma letal; colocou o Homem contra ele mesmo. Agora são 2 m e 4 rodas contra 60 cm e 2 rodas que cortam o trânsito buzinando e azucrinando os Homens, que em seus carros tentam acertar os outros Homens, que na verdade são os mesmos Homens cuja a imagem é a semelhança de Deus e portanto iguais entre si. Mas meu vizinho não é Homem!

Por sermos iguais deveríamos então ter as mesmas coisas e assim sentiríamos que o somos e que Deus nos fez assim, contudo uns são mais iguais que outros. Por exemplo, Michelângelo, nunca foi e nunca será como os outros; e nem nós, os outros, seremos como ele. Michelângelo estava mais próximo de Deus que nós, dele; ou outra imagem e semelhança que ande por entre nós. Einsten, era a imagem e semelhança da genialidade e nem por isso acreditava que Deus o fizera assim. Isacc Newton jamais pensou que todos poderíamos ser iguais; não poderíamos ocupar o mesmo espaço, quanto mais sermos os mesmos. Não somos os mesmos aqui, não somos os mesmos em casa, não somos os mesmos na rua. Muito menos na rua, onde eu vejo, de dentro do meu carro: ” Desculpe encomodar. Sou pai de família e estou desempregado e o único jeito de sustentar meus filhos foi vendendo estas balas por R$ 1,00 real. Obrigado.”

Sobre o meu retrovisor, que mede cerca de 15 cm, uma figura parecida comigo me diz coisas que não são nem um pouco parecidas comigo. Ela corre entre o vão que há entre os carros que medem cerca de 2 m de largura e andam sobre faixas das avenidas esburacadas. Avenidas que têm em média 3 pistas com 3 m de largura. Assim, minha imagem e semelhança, do lado de fora do meu carro, parada no farol, caminha entre o vão que sobra entre os 2m de largura dos carros mais os 15 cm de cada retrovisor numa pista esburacada que tem uma faixa de 3 m. Sobram, então 70 cm. Um homem médio, imagem e semelhança de Deus, igual a mim e aos outros, tem cerca de 50 cm de largura (caso não seja um beberrão e tenha aquela pança de chopp). Desta forma, em uma faixa normal de 3m, por onde passam muitos carros com aproximadamente 2 m de largura mais seus dois retrovisores com 15 cm cada, cabe um Homem com cerca de 50 cm de amplitude lateral e sobram ainda 20 cm. Contando que um homem, para ser um Homem na modernidade, deve gostar de coisas motorizadas, da liberdade e prazer de dominar uma máquina, temos que acrescentar a passagem de uma moto – veículo criado para solucionar a gana de velocidade e liberdade que são intrínsecas ao Homem – em cerca de 20 cm entre os automóveis, seus retrovisores e nossas imagens que andam pelos vãos dos carros vendendo balas. O que me faz pensar que os nossos iguais já não são tão iguais pois agora nós sabemos que dois corpos podem sim ocupar o mesmo lugar no espaço, e Newton estava errado! Nossos iguais não pensam igual pois acham que tudo é absoluto e nada é relativo. Os iguais falam que são iguais mas agem diferente. Sempre foi e sempre será assim e isso eu posso entender. O que eu não entendo é como, diabos, em 3 m cabem os carros com seus retrovisores, ocupando quase 2,30 m ao lado de Homens e seus 50 cm que emparelham-se com as motos e seus 70 cm de largura; pilotadas por Homens, imagem e semelhança de Deus, iguais aos mesmos Homens que dirigem seus carros ou andam por entre o vão dos carros e motos vendendo balas. Que vão?

Doberrô

Uma das facetas mais ridículas do Homem é a sua incapacidade de perceber coisas comuns demais. Quando tomamos contato demais com essas coisas, nosso cérebro para de pensar. Mesmo não sendo psicólogo, chuto que o melhor nome para isso deveria ser “anestesia cerebral”, ou algo do gênero. Como não ficamos horrorizados com o esforço tremendo que o clipe faz para se enrolar em torno de si, só para prender uns papéis?

Exemplos não faltam: o Sol se põe sempre do mesmo lado; a maçaneta destrava a porta ao ser pressionada; tem aves que voam e que não voam, e sempre me disseram que vaca não voa. Deve ter alguma explicação científica para tudo isso, mas não é esse o ponto. Todos nós sabemos que a energia elétrica, pelo menos em tese, é gerada em hidrelétricas, termoelétricas ou trecolétricas da vida, a partir de água, carvão ou sei lá o quê, depois transmitida e retransmitida através de fios e cabos até nossas casas. Mesmo sabendo de tudo isso, é absolutamente surreal colocar um secador na tomada e ele funcionar ! Só mesmo uma anestesia cerebral pode nos deixar completamente blasée a coisas assim.

Ainda que a tecnologia polua nossas vidas com as mais inacreditáveis tranqueiras eletrônicas, acredito que é a língua, essa malvada, é que nos prega as maiores peças. Aliás, “pregar uma peça” é uma delas. Raios, de onde veio “pregar uma peça”? Nós falamos, ouvimos, escrevemos, e não fazemos a menor idéia de porquê isso é assim. Usamos um “macacão” vermelho, olhamos pela porta através do “olho mágico”, só para ver “fulano”, “beltrano” ou “sincrano”. Apenas uma mísera parte dessas expressões têm uma etimologia conhecida, as outras ficam com dor-de-cotovelo (dor onde?).

Para não dar com os burros nágua (olha aí, de novo), é sempre bom prestar atenção às crianças. Elas sempre são ótimas em observar o que não vemos. Como aquele garotinho, que ficou muito bravou quando ouviu o pai dizer à mãe que “um dia desses” concertaria a porta:
— Mas nesse dia você prometeu me levar ao parque, papai !

Será que não existem milhares de outras coisas que estão aqui, em nossa cara, e nós agimos como peixes que não percebem a água? Eu só fui descobrir com 15 anos o significado de “doberrô que o gato deu”. Até hoje, essa demora é um mistério para mim. Tantos anos anestesiado não pode ser mesmo um bom sinal.

Ou isso ou eu só escrevi este texto para justificar a porção mais ridícula de minha humanidade.

Por que Será?

Das muitas coisas que me intrigam na vida, algumas se encontram dentro de um campo de futebol.

Por que será que tiram aquela foto com, respectivamente; um bandeirinha, um capitão de um time segurando a flâmula do outro time, o juíz, o outro capitão do outro time segurando a flâmula do primeiro time e o segundo bandeirinha, antes do início de qualquer partida ?

Alguém já viu um pôster para ser vendido nas bancas com essa tão estranha foto? Ou mesmo se lembra daquele colega dos tempos de adolescente que, no meio de tantos pôsteres proibidos de coelhinhas e estrelas do mês, tenha te dito: “Ei cara, dá uma olhada no pôster que eu tenho com o Falcão, o José Roberto Writgh (tá certo ?) e o Casagrande ! Esse é relíquia !”.

O que mais me impressiona é que isso acontece todo jogo. Se fosse só de vez em quando, eu teria uma explicação lógica: A mãe dos juízes ! Claro ! Toda mãe de juíz deve se orgulhar profundamente de ver seu filhinho tão formoso, dominando todos aqueles animais brutos e ricos que compõem o futebol brasileiro.

Mas não … todo jogo a mesma foto. Não sei, ás vezes me pergunto se aquilo não está só no protocolo formal de uma partida, e muitas vezes o fotógrafo nem coloca filme na máquina. É só pro trio de arbritagem se sentir importante. Afinal poucas atividades são tão ostilizadas como esta. Pra ser sincero acho que só garçom de rodízio sofre mais (vocês já pararam pra pensar no número de “nãos” que um profissional desses recebe; isso causa traumas irreversíveis!).

Se analisarmos friamente, as flâmulas também não representam absolutamente nada. Ou você acha que um time como o Palmeiras tem em sua sala de Troféus, uma ala reservada para as flâmulas dos jogos que marcaram história no clube ? Sinto em decepcionar-lhes mas não tem !

E olha que flâmula até que poderia ser algo interessante. Nos filmes americanos, por exemplo, é impossível se caracterizar um quarto de um jovem moderno sem uma flâmula de um time qualquer. Mas como a produção cinematográfica brasileira não consegue produzir filmes contemporâneos-urbanos, a flâmula perde totalmente seu sentido.

Voltamos, portanto, à questão da foto. Aliás, você deve estar se perguntando porque um cara como eu, perde o seu tempo preocupado com algo tão tolo como isto. Em resposta, eu lhes pergunto: E tem algo mais interessante pra prestar atenção no futebol brasileiro atual.

O prazer de mordiscar um copo

Sete e cinco da noite. Chego em casa e não há luz. Ou melhor, há luz, mas somente de forma estranha. Nenhuma lâmpada acende, nenhuma outra tomada funciona, a não ser as duas tomadas da parede principal. Isto garante a tv e a geladeira ligadas. Na mesma tomada. Ao contrário do que se possa imaginar, a tomada que sobra não serve pra nada, porque fica exatamente do lado da pia. Não tenho barbeador, nem nada para ligar lá, ainda mais no escuro.

Desço as escadas para falar com o porteiro, ligar para a manutenção. Tente depois das dez, a gente troca de turno, vou anotar seu problema, não garanto que podemos atender porque a equipe está ocupada cuidando de preparos para uma filmagem, se não resolverem esta noite ligue amanhã cedo, sim, mas não se esqueça de ligar antes para o Serviço Social, é de responsabilidade primária deles, nós só atendemos o Crusp em emergências e à noite, sim, faremos o possível, mas se não concertarmos hoje ligue amanhã cedo, não se pode ficar com a situação assim, boa noite.

Geladeira? Não há muita saída: a comida apenas preenche o estômago, enganosa sensação de saciedade que sucumbe o cérebro.
Televisão? Como, meu deus, num mundo de Natiruts, Quércias e Linhas Cruzadas da vida?

Descubro algo interessante. Ao se ligar o chuveiro, as luzes quase que se acendem, ficam claudicantes, semi acesas-apagadas, um lume fraco e inconstante. Ainda assim, não basta. Em tempos de apagões, economias e ameaças, convém ajudar o governo, coitados. E a fraca ousadia das lâmpadas não me intusiasma.

O micro não poderia ser ligado, não dá para adiantar trabalhos. Só uma resignação absurda e algum tédio me carregam até a sala dos micros do Crusp, ligados na internet. Vou escrever qualquer coisa no blog, pensei. São através destes interesses bobocas que vou levando a vida. Se me interesso por alguma coisa, busco, sigo, perco o tempo de pensamentos úteis. Depois desisto, não determinadamente, mas aos poucos, deixando de ver, de ser, de sentir. Deixo essa bobagem de lado, mesmo que seja importante. Neste caso, ainda estou no auge do interesse. Vou à sala de internet.

Mas a sala não está preparada para mim. Há uma pequena fila de pessoas desejosas, como eu, de futilidades úteis. Vago pela sala, observando a maneira paciente de uma menina que espera com sua pasta sobre o colo. Sigo até o último corredor, há esperança de que algum computador pseudo-avariado possa funcionar. Não, não liga. Observo as pessoas que usam os computadores. Parecem absortas, olham e teclam tlec tlec tlec teclam e olham. Será que eu mesmo fico assim? Sem dúvida, eu também devo ficar assim. Cada vez mais, o homem dá as caras de como é ridículo. Houvesse flor, não olharia. Pausa.

Vou até a um dos cantos da sala. Lá existe um bebedouro. Não daqueles mais comuns, de metal, sobre as quais inclinamos e recebemos o líquido. Um eletro-eletrônico, com seus botões e sensores. “High quality summer line”. Pego um copo plástico. “Sistema natural de tratamento de água”. Gelado, natural. Pressiono um botão “fluxo contínuo”, às vezes não percebemos as metáforas que nos aparecem. A água desce, firme e constante. Ninguém me observa enquanto bebo.

Só me resta sentar e esperar. E o copo, o copo plástico em minhas mãos. Preguiçosamente não deixo o copo no lixo, não o deixo no chão, deixo-o apenas ficar comigo. E observo o ambiente. Observo um rapaz impaciente que fica a jogar num site qualquer de perguntas cretinas. E fico impaciente. Observo duas garotas que, há mais de dois minutos, não dirigem sua atenção nem para a tela luminescente nem para a música tlec tlec do teclado. Gastam o seu tempo, fico impaciente. A garota da pasta, que esperava também, vai até o lado de um provável amigo, lhe tecendo perguntas e importunando o trabalho. Fico mais impaciente. E o copo, o copo em minhas mãos, a me incomodar cada vez mais. Não existem alternativas, o copo, a mão, a boca. Começo a morder impacientemente o copo plástico. Pelas bordas, onde a resistência à mordida é justamente maior. O ataque é cruel. Ouço os estalidos de dor deste ser branco, passivo e frágil. O som se intercala às batidas inconstantes do teclado, tlec tlec cloc tlec cloc. Cloc. Pelas bordas é mais gostoso. Cloc. O cara de boina preta não vai sair nunca. Cloc. A menina de branco está trabalhando mesmo. Cloc. Já mordi quase tudo. Cloc. Cloc. CLOC.

Alguém me olha. O copo capturou a atenção de alguém. O copo pára de gritar por um instante. A pessoa volta ao seu tlec tlec, e meu copo não pode mais me satisfazer, já está de todo rendido, desfigurado, maltratado. Mas ainda não está morto. Continuo cruelmente, cortando com as mãos, pouco a pouco, a circularidade do plástico. Arrebendo cada raio, cada trecho de massa branca cuidadosamente fabricado. Um rasgo fundo. Um quase-copo. Ele não grita mais, quando a dor chega ao seu limite não há mais o que discutir. O copo também se entregou, sem se debater, apenas espalhando pelos meus dedos os raios de sua destruição.

Uma pessoa vai embora. Falta ao copo o golpe final, o que vai transformá-lo efetivamente em um não-copo. Mas não o farei, não acabarei com sua existência. Agora é a minha vez de ser copo, vou escrever uma crônica.

Nascido em Pelotas

Pelo que entendo da humanidade, ninguém imaginaria que o mundo fosse dar voltas suficientes para me ver novamente. Mas estou aqui, consciente e são do que posso escrever.

Por dias pensei no que falar mas após ver uma série de fatos que me comoveram acho que já sei o que vou mostrar a todos, sem provas científicas mas sim como uma leve dedução e opinião.

O homossexualismo surgiu há muitos anos. Eu não era nascido e você que está lendo também não, a não ser que aquele cara português que sumiu durante uma guerra e que muitos na terrinha ainda esperam por ele, ainda esteja vivo. Mas acho que isso vem antes dele e acho que ele não era gay. Ah não lembro o nome desse cara.

As vezes quando nos encontramos em certos centros sociais percebemos a presença de uma pessoa homossexual, seja pelo seu jeito, roupas, estilo, olhares, enfim uma série de coisas que todos conhecem. Não tenho nada contra pessoas que resolveram optar por tal escolha, absolutamente nada contra homossexuais, muito pelo contrário, dou o maior apoio.Vendo essas pessoa que então citei você já mata, certo (estou levando em consideração o homem gay e não a mulher)?

Beleza, não há o que discutir. Todo mundo sabe, alguns falam mas isso não vem ao caso. O que quero frisar é que eles são apenas metade.

Imagine todos os homossexuais que você conhece juntos, juntinhos. Eles são só a metade!

A figura que percebemos de longe é apenas o homem gay fêmea (na minha opinião). É simples, o cara que recebe digamos assim e tem efeitos visuais que lembram muito uma fêmea.

Agora há o outro lado. Para cada um deles há o homem gay macho (mas não tão macho assim) que é o que manda bala. Esse sim você nem percebe na rua. Pode ser um cara normal, que não afina a voz, que não se veste extravagantemente e normalmente, não da a entender.
Oras, pra que escrever sobre isso? É simples. Para cada gay que você conhece de forma escancarada, existe outro de forma discreta, ou seja o número de homossexuais que você conhece é igual a metade do que eles são, logo o número de homossexuais que existem no seu universo é o dobro dos que você conhece! Pura lógica.

Por esse motivo levo uma manifestação social para acabar tomar todo cuidado do mundo para não dar bola fora. O cara que está do seu lado agora (se existir um) pode ser um discreto e você nem sabe. Então não adianta você querer jogar toda sua raiva para ele sem saber o que ele realmente é pois o efeito pode ser tardio mas será o contrário e provavelmente mais forte.

Lembre-se, não sou gay, mas parei para pensar e acredito que o mundo contemporâneo está mudando conforme suas exigências. Se tem gente que topa tem um que gosta. Já estou acostumado com essas coisas, o que vale, simplesmente, é brincar, sem brincadeiras!