Arquivo de julho, 2001

Hora Limite

Ela chega. Eu sei que chega. É inevitável. Sempre chega. Passo todas as noites pensando quando chegará, como será, o que farei. Eu sei quando chegará. Eu sei como será. E sei o que eu não farei. Meus músculos não respondem. Meus olhos observam o vácuo. Nada acontece. Adormeço.

Acordo. Ela ainda está lá. Mas está vindo. Eu sinto. Pressinto. Subsinto. Como uma sombra sussurrando em meu cérebro. Me amedronta, me inibe. O espelho não reflete meu rosto. Reflete a sombra. Que se aproxima. Mas como posso ficar tão apático? A resposta não faz parte do meu mundo. A sombra vem em minha direção, crescendo cada vez mais, como se houvesse um halo luminoso atrás de si. Cada vez maior, mais cadavérica, mais amedrontadora. E nada acontece. De novo. Mais um dia se vai, mais um dia ela se arrasta em minha direção. Sinto-me pressionado. Sinto-me incomodado. E estático. Adormeço.

Ela não povoa meus sonhos, porque não sonho mais. Ela só povoa este sonho real. Acordo. E não me levanto. Uma presa paralisada com a ameça. Um coelho em perseguição que não corre. Meu braço busca a liberdade do quarto, tenciona me levantar. Não permito. Um corajoso ato de covardia. Que venha, dane-se tudo. Desdenho-a. Venha, não farei nada. Me ameaçe. Sopre uma noite gélida em minha nuca. Tente me prender na mobilidade eterna das coisas. Não me moverei. Não me entregarei à sua vontade. Será a minha vontade, e não a sua, que prevalecerá. E a minha vontade não existe. Por isso é mais forte. E ela continua a se aproximar, impassível. Ela conhece minhas falsas determinações. Ainda que não conheça nada de mim, me domina. Ela não se importa. E vem. Sua perturbadora imagem me persegue o dia todo.

Não adormeço. O seu hálito gelado entra em meu corpo. Paralisa-me mais e mais. E já não tenho dúvidas. Ela está aí, à minha frente. Basta tomar coragem para vislumbrá-la. Não abro os olhos. Nunca abrirei. Não deixarei que se apodere de minha vida. Que comande minha resignação. Ou que tente movimentar meus passos. Mesmo assim, ela veio. Chega cada vez mais perto, mais perto. Perto. Ela está em mim. Através de seus olhos transparentes antevejo meu futuro gélido. Como eu, agora. Recomeço a respirar. Meus dedos se movem, esboçando sobrevida. Agora que a hora limite já se foi, posso finalmente retomar a vida. Enquanto ela não voltar.

– Juliana está tudo acabado.

Assim foi o brado retumbante de Roberto, 25 anos, arquiteto. Ele estava cansado, passado diria até amanteigado. A relação estava desgastada, o respeito mútuo tinha ido por água abaixo. Depois daquele fim de semana em Boissucanga as coisas não poderiam continuar.

– Eu acho o Rô e a Ju juntos tão lindos.
Assim foi a doce fala de Melissa, 22 anos, ainda não sabe. Ela sempre deu a maior força para os dois. Amiga inseparável de Mo(torola), 2 meses, celular. Sempre o usava para ligar para o Rô. Mas desde a última ligação não conseguiam mais conversar como antigamente. Ele não era mais amigo dela. Também depois do acontecido na praia como seria.

– Larga logo essa vagabunda.
Assim foi o grunhido alcoolizado de Mateus, 23B(por que 24 é coisa de viado), quase formado em Desenho industrial. Vai deixar de beber com os amigos pra ver uma mina? Ainda se for rolar um rala e rola quem sabe. Essas minas estão muito embaçadas hoje em dia. Ainda lembra das duas horas perdidas tentando algo com aquela mina do celular lá na praia. Mina fresca. Aliás que porcaria de fim de semana, pois o Roberto tava chato pra caramba. O Mateus teve que ir beber sozinho.

– Beto para com isso.
Assim foi a resposta controlada de Juliana, 25 anos, arquiteta. Ela acha que é besteira. Que tudo isso é coisa de convivência. Eles teriam que se habituar com esse tipo de coisa. Um ajuda o outro seja como for. Tem coisas que você só aprende fazendo a besteira.

– Mas como você foi falar aquilo?
– Desculpa não achei que você ia levar pra esse lado.
– Ainda na frente do Mateus.
– Ele nem viu, tava bêbado como sempre, você não viu que ele estava conversando com o abajur?
– Ele tava falando com a Melissa.
– Não depois que ele perguntou se ela curtia um sexo grupal.
– Tá bom, não vamos mudar de assunto, eu te perdôo, mas nunca mais me fala que eu devia ser cozinheiro.
– Mas o almoço tava tão bom.
– JULIANA!!!

O Dia em que Zé troca-tapa entortou o repórter

Na pequena cidade de Itaberaba, em 1956, nasceu a criatura mais formosa e meiga que já habitara aquela terra. Seu nome: José Raimundo dos Santos, o Zé. Cresceu sob o estigma da beleza e bondade, ia sempre à escola, nunca faltava (sua mãe não permitia). Era o melhor aluno, o mais bonzinho, fazia de tudo para atender os desejos de sua mãe, afinal; tuberculosa e raquítica, ela não aguentaria muito tempo. Porém não suportou muito tempo o estigma da bondade e delicadeza. Tornou-se um grande jogador de futebol e foi para a cidade grande. Como jogava! Em pouco tempo tornou-se um dos maiores jogadores do país. Driblador! Ágil, daqueles que quando pegam a bola e olham o gol, ninguém segura. Contudo, Zé era uma espoleta, se alguém conseguisse pará-lo era briga na certa. Foi assim que o Zé virou o Zé troca-tapa. Tinha jogos que ele não chegava nem na metade do primeiro tempo, mas não foi bem assim naquele domingo de 1981.

Brumadinho contra Taboiã, o clássico nacional mais importante. Zé troca-tapa entrou em campo com a vontade de acabar com o jogo, só sair de lá com a artilharia e o título em baixo do braço. A concentração era total, não podia se deixar irritar como nos outros 17 jogos em que fora expulso.

O juiz deu o início da partida. Zé troca-tapa saiu com a bola pela intermediária. Abriu pela ponta, tocou pro Batuca que lançou o Washington. Washington dominou e tocou pro Zé troca-tapa na área. Driblou um, dois, e perdeu a bola.
O jogo era bom, emocionante. Zé troca-tapa estava acabando com o jogo, fazia todas as jogadas, lançava, cabeçeava, cobrava falta, o Taboiã parecia o time de um homem só. O time adversário corria atrás do homem do jogo, mas só conseguiam pará-lo com faltas. Faltas viloentas. O Zé conseguiu “amarelar” metade do time do Brumadinho, faltava apenas o gol que o consagraria como o maior jogador de todos os tempos. Foi então que Zé troca-tapa recebeu a bola na linha do grande círculo. Dominou; com uma ginga de corpo deixou dois volantes, de umja só vez, para trás. Avançou pela direita tabelando com a canela do adversário, passou por mais um. Cortou pra dentro e ficou de frente pro gol.

Lá de trás, acompanhando a jogada estava o meia armador do Brumadinho. Corria desesperado em direção ao Zé troca-tapa. Quando Zé parou de frente pro gol, o Balú (era esse o nome do desesperado armador do time adversário) pulou em uma tesoura voadora e foi chegando por trás, derrubando o Zé na altura do joelho. O público ficou emudecido. Era briga na certa. Era briga da grande, foi a entrada mais violenta do campeonato, quase um crime. Depois da dor, Zé troca-tapa levantou, parecia furioso. Caminhou na direção do Balú e levantou o braço em um movimento lento e plástico. Acertou a cabeça do adversário com um …………………. afago, e acariciou-o em um perdão revoltante. Como podia? O cara ficou quase aleijado! Por muito menos já tinha derrubado meia dúzia, porquê? A torcida ficou sem palavras, até o momento em que o jogo reiniciou e num chute assombroso o Brumadinho marcou o gol da derrota de Zé troca-tapa. O mundo caíra …………. Ninguém poderia imaginar………………

Na saída do campo, foi que tudo aconteceu. O repórter de campo, Dornelles da Veiga, foi perguntar, justamente, para o Zé, o porque da derrota e se havia alguma mágoa do jogador que tinha agredido ele. Bufando, e nitidamente cansado, o atleta mais furioso da história virou-se para o repórter, que encolhido esperava o pior. Zé troca-tapa encheu o peito e começou: ” A nossa equipe foi muito aguerrida no que tange a parte tática, contudo técnicamente fomos muito aquém do que se espera de uma equipe que costuma entorpecer os seus torcedores. Paradoxalmente, alguns componentes do time tiveram um bom desempenho, o que em teoria poderia ser o suficiente, mas não o foi. Como a única coisa que realmente vale na teoria é o dinheiro, já que é apenas um papel do qual o valor advém da imaginação das pessoas, a nossa equipe foi inocente e se deixou levar assim como Anaximandres, que acabou derrotado. Permita-me, ainda, fazer uma exegese assodada à respeito do meu concolega Balú: não teve ele a pretensão de me causar mau, pois nem todo ser é mau como dizia Maquiavel. Balú foi, somente, mais uma vítima da pulsão que jorra em nosso ser e não soube controlá-la, perdoem-no. Obrigado” . E saiu para o vestiário como acontece em um jogo qualquer. Dornelles ficou parado pensando ….. pensando ….. pensando ….. pensando ….

Placas

– Para onde?
– Hã?
– Para onde você quer ir? – repete o taxista, limpando a remela do olho e se ajeitando no assento.
O homem já está esparramado no banco de trás. Ele coça a cabeça e aperta os olhos, tentando achar uma resposta. Ou tentando entender a pergunta. O motorista gira o corpo e olha para o passageiro, esperando. O homem dá uma chacoalhada na cabeça, alisa a camisa amarrotada e responde, enrolando a língua.

– Não sssei… Vai indo….
– Cê que sabe – devolve o motorista, já recomposto e animado.

Era daqueles taxistas que adoram uma boa conversa e sofria com os períodos mais fracos, quando não tinha ninguém com quem falar. Como nessa madrugada. Aquele homem era o primeiro passageiro em horas.

– Festão hein?
– Hã?
– O que cê tava. Festão. Tá todo estragado.
– É
– Festa do que?
– Dessspedida de sssolteiro… Minha…
– Despedida de solteiro, é? Vai casar quando? Nem te conto como foi a minha…

E começou a contar, com todos os detalhes – inclusive dados biográficos e referências cruzadas dos participantes. Só sentiu falta de um vocativo para pontuar a história, responsável pela única pausa que fez na narrativa. Perguntou o nome do passageiro.

– É Placa -respondeu o outro, apoiado em uma das janelas, olhando para fora pela outra.

Como já tinha o que queria o taxista não comentou a estranheza do nome. Se não estivesse tão ocupado com a sua história, talvez perguntasse se Placa era apelido ou o quê. Nesse caso o Placa teria respondido que não, Placa não era o nome dele. E também não era bem um apelido… É mais como um sobrenome, diria.

O nome mesmo era Vinícius, mas desde pequeno que ele era conhecido como Placa. O apelido, meio sobrenome, só pegou por causa dos pais. Um dia o menino chegou da escola chorando e veio reclamar com eles. Não demonstraram, mas acharam graça e comentaram com outras pessoas. Assim o Vinícius virou o Placa – ou Plaquinha, na época.

Os pais tinham sido os primeiros a notar a estranha fascinação do pequeno Vinícius. Ao contrário da maioria dos bebês, o Vinícius adorava andar de carro. Só de vez em quando que dava trabalho. Foi no meio de uma viagem para o interior que a mãe notou o padrão: o Vinícius só criava caso quando a estrada não era sinalizada. O pai estranhou a sugestão de consciência precoce do filho com a má sinalização das rodovias e não falou nada. Era uma idéia maluca. Ficaram em silêncio, mas prestando atenção. Realmente, cada placa de marcação de quilômetro ou de posto de serviço era saudada com um daqueles sons indefiníveis que bebês fazem. À noite, quando voltavam, o menino só dava um tempo no choro quando o farol iluminava um desses pontos verdes e mal colocados. A incredulidade não resistiu até o fim da viagem.

O Vinícius cresceu assim, fascinado por placas. E não por qualquer placa. Ele não queria saber de placas de velocidade ou daquelas amarelas avisando os motoristas sobre improváveis chuvas de pedras. Ele gostava das que diziam onde ele estava e para onde estava indo. Colecionava imagens dessas placas febrilmente. No começo foi difícil arranjar ajuda, mas a cara de choro – ou de decepção, quando ficou velho demais para chorar – foi vencendo os obstáculos. Parentes e amigos incrédulos eram escalados para trazerem fotos de placas quando viajavam. E os pais, resignados, pagavam a conta. Máquina, filme, revelação, todas as despesas corriam por conta dos pais do Placa – inclusive as dos viajantes, para compensar o favor. Chegavam imagens do Brasil inteiro e mesmo do exterior. Grandes fotógrafos acabaram surgindo às custas do paitrocínio do Placa.

As fotos que ele recebia e as que garimpava dos Detrans – onde virou figurinha obrigatória – iam para um gigantesco mural no quarto dele. Formavam o mapa da sua vida. “Franca – 85 Km”, por exemplo, era aquele primeiro romance de verão na praia. A incompatibilidade geográfica é culpa do critério subjetivo do Placa, capaz de tornar Frankfurt e Goiânia cidades vizinhas. Ali estavam indicados todos os lugares onde ele tinha ido e aonde pretendia ir. Toda noite, antes de dormir, ele ficava olhando o mapa e pensando.

Com o tempo os pontos não visitados aumentaram. Foi quando ele percebeu que as placas já visitadas estavam cada vez mais longe também. Ele sofria com cada novo ponto que surgia e com cada ponto antigo que se afastava. A cada noite a frustração aumentava. Logo o mapa se tornou um monte de fotos na parede. Não significavam nada além de sonhos frustrados e lembranças emboloradas.

Esqueceu as placas e tocou a vida. Saiu de casa, fez faculdade e galinhou um pouco antes de engatar um namoro sério com a Ana. Juntos, traçaram um monte de planos para o futuro. Desenharam um novo mapa – com começo, meio, fim e organização lógica. Agora que a carreira dos dois começava a decolar eles estavam prontos para começar a viagem e seguir a rota escolhida. Iam casar. Ele passou muitas noites em claro olhando para o novo mapa na parede vazia. E pensando.

Era mais ou menos o mesmo olhar que atravessava a janela do táxi. Do lado de fora a paisagem ia mudando, mas o Vinícius nem notava. Até que viu algo conhecido. Agitado, interrompeu a história do motorista:

– Aqui, aqui, vira aqui!

Resolveu ver onde ia dar aquela placa do seu antigo mapa: “Aeroporto – Faixa 1”.

The white

Todo grande escritor já escreveu sobre o branco. Mesmo por que todos passavam por brancos no momento em que iam escrever. E acho que todos pensaram o que eu pensei agora – estou apelando para a velha tática. Mas eu só estou me espelhando nos meus gurus. E isso é o que torna qualquer escritor um bom escritor, se espelhar em grandes escritores.
Querendo me tornar um grande escritor, sempre presto atenção nas táticas e idéias que os meus grandes escritores usam. Uma delas é a citação do Aurélio. Esta é usada num estágio preliminar do branco. É quando você sabe do que quer falar e como, mas falta alguma coisa para definir.

de.fi.nir vtd (lat definire)
1 Dar a definição de: É possivel definir o mal? Definiu em poucas palavras aquela idéia. “O autor quis defini-las por um contraste” (Rui Barbosa). vtd 2 Determinar, fixar. vtd 3 Demarcar, fixar: Convém que cada um defina a sua posição. vtd 4 Interpretar: Não vejo como definir essa homenagem. vtd 5 Dar as qualidades distintivas de: Suas primeiras palavras foram suficientes para defini-lo. vpr 6 Tomar uma resolução ou partido: A esse respeito já nos definimos. vtd 7 Tornar conhecido. vtd 8 Expor com precisão. vtd 9 Expor as diversas faces ou lados de.

Uma estratégia muita usada no caso de crônicas baseadas em causos é o passarinho. O passarinho é uma licença poética usada para incrementar o causo, como na vez em que estava eu, Mário Prata e Chico Buarque em Paris. Foi muito engraçado.

Muito usado também é o surrealismo. Intensamente e genialmente usado por Veríssimo. Quem me lembrou isso foram os duendes e Malcom X, que sempre me visitam pra discutir o preconceito no mundo. Contra os negros, não contra os duendes.

A última que me vem a cabeça é o grande final, que pode salvar uma crônica, transformando de regular a hilária. Infelizmente essa eu ainda não aprendi pois acho que nada me salva nesse momento. Quem sabe aquela piada do português…será…

A Vida de Raalah

Nossa história começa em 1978, em uma pequena vila do Tibet, quando uma pequena cesta foi deixada com um bebê na porta de um grande Sábio. Vendo o pequeno bebê em sua porta, resolve acolhe-lo, pois sabia que tudo tinha um por quê; e esse bebê havia um destino a cumprir. Assim, foi-lhe dado o nome de Raalah e logo iniciado seu aprendizado. Raalah aprendeu tudo sobre a bondade, a tradição, os ensinamentos de Buda e em poucos anos já havia aprendido tudo o que o grande Sábio poderia ensinar. Mas lhe faltava uma coisa: experiência de vida. Sabendo disso, o Sábio o manda vagar pelo mundo e aplicar os ensinamentos budistas para espalhar o bem para a humanidade. Raalah se despede de seu mestre e assim começa sua jornada. Paquistão, Turquia, Indochina, Malásia, Nigéria, Jamaica… e por fim… Brasil. Assim como os grandes colonizadores portugueses, Raalah começa sua conquista por paz e ensinamentos por uma região dominada por água de cocos, músicos que dormem em rede e políticos que ostentam grandes bigodes. Mas a situação estava um caos completo, e ninguém ligava pra suas mensagens. Começou a pregar uma mensagem de paz, mas foi pego repentinamente e acabou levando socos e pontapés de uma horda de garotos de rua fazendo arrastão. Se os garotos de rua não queriam ouvir suas mensagens de não à agressão, provavelmente os oficiais da lei ouviriam. Para sua infelicidade o pobre Raalah acaba levando mais socos e pontapés de uma horda de policiais reivindicando maiores salários. Vendo a situação piorar, Raalah foge pro interior, onde começa a fazer greve de fome a fim de chamar a atenção da população para seus ensinamentos. Infelizmente ninguém ligava para sua greve de fome, pois a população de lá tinha mais fome que ele. Decidido a melhorar a situação desse pobre país, Raalah toma uma atitude mais sensata (?) e resolve entrar para política. Mas ainda não consegue nada, pois ninguém ouve os políticos. Tenta aprovar centenas de medidas em favor da população carente, mas todas são rejeitadas. Entendendo melhor o mecanismo do governo, Raalah começa a fazer alianças e concessões a todos, tudo para o bem da população. Seu plano dá errado e acaba expulso do mundo político pela oposição, por achar as atitudes de Raalah muito “neoliberais”, e também pela situação, por acha-lo radical demais. Pensando ainda em ser ouvido pelo povo, Raalah tenta a paixão deste país: o futebol. Por sua grande força de vontade e disciplina, enfim consegue entrar para a Seleção! Infelizmente ninguém mais dava bola para este (agora) pobre esporte bretão. Persistência é uma virtude, então resolve mudar de tática, Raalah entra pra mídia! Consegue uma gravadora, o produtor arranja mais 10 músicos e 2 dançarinas e, após uma “pequena” modificação em suas músicas, alcança o estrelato com seu grupo de pagode “Raalah o Buda”, emplacando logo de cara os hits “Mexe o Buda” e “Buda da Peste”. O sucesso não durou muito, o grupo se desfez, uma das dançarinas virou apresentadora de TV, e o resto do grupo se separou de Raalah pra montar um grupo Gospel. A última notícia que temos de Raalah, são rumores em revistas de fofocas que ele poderá ser o novo apresentador de um quadro do programa Fábio Júnior ou então um novo personagem de “A Praça é Nossa”. Aguardamos o retorno do grande Raalah, para terminarmos essa história de grandes filosofias e ensinamentos.

O Mingau

Eme, i – Mi. Ene, ge, a, u – Mingau. Isso mesmo, ma, me, mi, mo, mu, ma, mo, mu, mã, ã ………..

Ahã! Desculpe.

Falemos sobre o mingau. Nativo da Suécia, mais precisamente na cidade de Amin Gaus, este prato típico foi criado nas casas de repouso como única distração para os seus internos. Era tido como passatempo mais saudável da Europa: cozinhar o mingau para dar aos gatos que habitavam a velha cidade, do velho continente. Xô … . Com o passar dos anos este composto de maizena e água foi elevado à categoria de comida infantil, afinal não fazia mal aos gatos, porque faria às crianças?

Se você bem se recordar vai lembrar da cena do aviãozinho e o quanto era ridículo você ter que parar de brincar para comer “papinha”. É ….. acredite! Era ele: o mingau.

Seja quente ou seja frio, o mingau perdurou até hoje, porém sua continuidade é incerta. Não sabemos se as crianças ainda comerão mingau daqui a alguns anos, apesar de já terem inventado a farinha láctea (que pode ser misturada com água, pois já é láctea). Xô … .

Você pode inventar um mingau quente ou preferir frio, pode ser com frutas, banana, maçã, mamão (iéck!! quem gostava de frutas quando era pequeno?), ou pode ser o bom e velho mingau de maizena e água, mas coma! Coma mingau e não deixe que ele se torne mais um PLOENOVA (pessoa, lugar ou objeto esquecido pelas novas obrigações da vida adulta). Xô … .

Coma mingau, mole, duro, empastado, aguado. É verdade, vocês já repararam como uma gotinha de leite ou água faz diferença na hora de preparar o mingau? Ah, desculpe! Esqueci de perguntar : vocês já comeram mingau depois dos 10 anos de idade? Particularmente eu achei que tinha um gosto diferente – não ruim, só ……. diferente.

Eu sempre comia aquele tipo de mingau meio empapado, aquele que parecia uma massa de concreto sendo virada, como aquela que meu pai fazia nas épocas de reforma da minha casa.

É esta versatilidade de preparo do mingau que faz dele um alimento inesquecível, você sempre pode mudar a consistência, o sabor, o uso. Quem nunca usou um prato de mingau para brincar de massinha? Tudo bem: eu usava …….. ; mas deve ter mais alguém que já se divertiu com um prato de mingau. Por exemplo, a brincadeira da torta na cara: poderia ser mingau na cara. E aquela de buscar uma cereja na farinha? Podia ser no mingau.

Como já disse, prefiro o meu empapado, consistente. Sempre preferi e continuarei preferindo até que os gatos não me deixem mais comê-lo. Xô… bichano, sai pra lá!

O Amagrana

Dois amigos se encontram no C.A. para mais um daqueles papos-mata-aula, típicos em qualquer faculdade:
-E aí carinha, belesma ?
-Belesma …
-Você já parou pra pensar como esse negócio de anagrama é muito louco ?
-AH ?! Alfredo, já te falei que esse negócio de fumar unzinho de vez em quando ia te deixar lesado … Olha só o que você está me falando!!
-Não, Alê, é sério! Num fumei nada não. Mas é que quase acabei com a Giu por causa disso.
-Como assim ?
-Pois é, um dia desses tava escrevendo pra ela no ICQ, e então teclei: “Tou louco de vontade de compartilhar minha alergia com você!”
-Alergia ?!
-Então! Eu errei a digitação, era para dizer “alegria”
– Hahaha !! Bem que podia ser sinusite.
– Pô cara, isso é sério, num ri não.
– Hihihihihi …Rinite ?
– Vá te cata! Quer ver você também ficar puto com essa história ?!
– Hehehehe … Eu ??!
– Por exemplo: Ela é um amagrana é um anagrama de Alê é um agramana!
– Caramba … será que eu consigo repetir isso três vezes bem rápido?
– Pior ainda é quando eu escrevo Gui ao invés de Giu …
– Ela-é-um-anagrama-é-um-cortagrama-de-Alê-é-um-papagrama
– Porra Alê ! Isso é sério….
– Ela-é-um-papagrama-é-um-papagrana-de-Alê-é-um-papaléguas!
– Cara, imagina o que pode te acontecer se você escrever “lama” ao invés de “mala” num trabalho?
– Ela-é-um-jeffersonairplane-é-um-emersonlakeandpalmer-de-Alê-é-um-simonandgarfunkel! Pronto!
– Que foi …
– Consegui!
– O que ?
– Te provar que esse papo não leva a nada. Ou você acha que o mundo via mudar se você escrever lhama ao invés de malha!
– Viu ?! Hahahaha se deu mal!
– Por quê?
– Você disse, “…acha que o mundo via mudar”
– Eu não tenho culpa se o Ricardo é um disléxico maldito!
– Eu não te disse que esse papo ia te irritar!
– Qualé ? Isso não leva !
– Hahahahaha, é não “vale”!
– Dane-se, vou embora !
– Ei, volta aqui ! Não é você que não se importa nem um pouco com esse negócio de anagrama?
– Mif!

Confecções Saxofone

Esta é uma história verídica, sobre uma loja que realmente existe, chamada “Confecções Saxofone Ltda”. Só o resto é que é fictício, claro. Ou você consegue imaginar como esse nome ridículo foi escolhido para uma lojinha? Pura obra de ficção.

Digamos que o nosso personagem se chame Carlos. Não, Lucas. Melhor: Lálio. Isso, Lálio é sonoro, aliterante, perfeito. Vejamos. Ele tem mulher, dois filhos, talvez um cachorro. E é desempregado. Por que desempregado? Bom, já que estamos imaginando uma história do dono das “Confecções Saxofone”, nada mais óbvio de que esse cara tem que ser um desempregado para escolher um nome desses. Portanto, desempregado. Ou artista. Melhor: desempregado e aspirante a artista. Aspirante a artista é quase o mesmo que desempregado, mas você entende a diferença semântica entre o que ele acha que é e o que a mulher acha dele.

Ótimo, agora já temos até um começo de trama: a mulher o chama de desempregado. E ele sempre retruca dizendo que é um aspirante a artista, que ela não entende, que ele um dia vai fazer sucesso. “Não existe tocador de timba melhor do que eu num raio de 2 quilômetros!”, dizia ele. Temos que explicar a você, leitor, para que esta história faça um pouco de sentido, que Lálio não é apenas o tocador de timba do grupo, que se chama, vejamos, Ótica do Samba. Lálio é um aspirante a músico. Por isso, além de timba, ele toca cavaquinho, pandeiro e até bateria, quando os vizinhos estão viajando. Sua casa respira música. Bom, pelo menos o Lálio respira música, porque sua mulher respira o cheiro de cachaça e cigarro da roupa dele.

— Lálio, seu vagabundo! Estava de novo no Knex’s Bar com “aqueles” amigos ?
— Calma, querida, estava só ensaiando para o novo sucesso do Ótica do Samba.
— Sucesso, Ótica do Samba, cachaça… você pensa que eu sou idiota? Precisamos de sustento, e a grana que veio do falecido ja-já acaba. Quando é que vai começar a trabalhar, hein?
— Vai dar certo, desta vez vai dar certo.
— Sei, sei… como aquela vez, daquele coral idiota, como é que se chamava?
— Cobra Coral.
— E olha o nome, meu Deus, olha o nome!
— Você queria o quê? Era o coral de ex-recrutas do Batalhão! E a gente até cantava afinadinho…

Um dia, o grupo se desfez. O Carlinhos, que comandava o bumbão, desistiu. Foi vender Bíblia no centro. Espírita. Justo ele, que era primo do dono do Knex’s, o boteco dos ensaios. Agora não haveria novos ensaios. E o bairro da Suprema Caixeta não tinha mais o Ótica do Samba como grupo oficial.

Lálio sentia-se desolado. Como poderia sair dessa? Agora ele se via sem trabalho, sem grupo de pagode, sem desconto no bar e sem o maço de cigarros, que ele perdeu. Tomou uma atitude inesperada. “Vou comprar cigarros”. E foi. Depois do décimo-terceiro cigarro, veio-lhe a idéia: comprar um saxofone. Um saxofone dourado, reluzente, o som dos céus. Era o instrumento que sempre desejara tocar. Um saxofone seria o símbolo do prestígio que coroaria sua carreira de aspirante a artista. E pensar que ele tinha começado lá no Knex’s, batucando caixa de fósforo recheada de pedrinhas. Primeiro o pessoal do grupo tentou agredi-lo, mas viram que não adiantaria e deixou Lálio fazer parte, contanto que ele dançasse no ritmo. Foi difícil, mas ele conseguiu. E o saxofone deixaria todo mundo morrendo de inveja do seu talento.

Correu até a mulher para contar a brilhante idéia. Ela o esperava carinhosamente, de braços cruzados e com um enorme martelo de amaciar bife na mão esquerda. Por uma estranha razão que Lálio não compreendeu, a mulher não gostou da proposta. Para ela, um saxofone seria um absurdo, e essa “palhaçada” só faria sentido na cabeça de alguém que era, numa tradução livre de sua fala, um “bêbado desempregado que chega em casa cheirando a cigarro e que não quer nada da vida, seu vagabundo”. Ela tinha uma idéia muito, muito melhor, mais pé no chão. Abriria uma lojinha de roupas para gatos, copiando a madame da revista “Excêntricos Per Si” que tinha um siamês vestido de marinheiro. E eles ficariam ricos, e Lálio poderia ajudar na loja como um vendedor atencioso, limpo e cheiroso, bem diferente desse músico de “um quarto de tigela”.

— Mas Martifestana – era esse o nome da mulher -, meu amor !!! Que idéia absurda é essa? Roupa pra gato?
— Melhor que gastar o dinheiro com um saxofone, pra nada!
— E quem é que quer vestir gato?
— Ué, não comida pra gato? Não tem cama pra gato? Não tem médico pra gato? Só falta roupa e cabeleireiro…

No fim, não foi uma coisa nem outra. Martifestana viu que os únicos possíveis clientes roubavam o bife da cozinha, e esses não tinham dono algum para vesti-los. Ainda mais com a última tendência da moda. A “Miau Confecções” não saiu do papel. Mas o saxofone saiu, graças ao empenho de Lálio. Está lá, na plaquinha na frente da garagem da casa. “Confecções Saxofone”, onde Lálio finalmente aprendeu as diferenças entre “robe” e “bustiê”.

Figuração

A História às vezes é cruel. Enterrados sob a trama ou sob a indiferença da platéia, personagens cheios de potencial acabam esquecidos. Um dos maiores injustiçados nos nossos 500 anos de folhetim é o coco. Fruta séria, jeitão sisudo e casca grossa, ele intimida. É fácil esquecer que debaixo da superfície dura está um coração que, de tão mole, é líquido. Acho que foi por causa da aparência rude que ele foi atropelado pelos acontecimentos e desprezado pelo público.

O coco perdeu o seu lugar na História do Brasil para a banana e seus traços suaves, sorridentes. Desde o quarto capítulo – no século XIX – que o coco apanha da banana. Depois que o Império do café acabou, viramos a República das Bananas. Os hermanos latinos até que tentaram também, mas o máximo que conseguiram foi a pecha de Republiquetas das Bananas. Experimentamos, tentamos, fomos da política do Café com Leite até o Plano Real do frango e do iogurte. Mas nunca deixamos de ser a República das Bananas.

É até lógico que a indústria tenha rendido homenagens à grande estrela. Assim surgiram a bananada, a torta de banana e a banana split, entre outras delícias. Pratos carregados de tradição e de memórias, a maioria gostosas. Já as lembranças sabor coco são recheadas de brigas, principalmente com aquele naco enorme de bala de coco que ficou grudado no dente. Em vários, por sinal. As crianças derrotadas nesses duelos cresceram e decidiram se vingar. Aí inventaram o leite de coco, queimaram a cocada e encaixotaram a água.

Essas aberrações culinárias custaram ao coco o seu lugar no coração dos brasileiros de uma vez por todas. Hoje as pessoas têm duas posições em relação a ele: tem os que não suportam e os que toleram. Mas não tem uma só pessoa que saia em sua defesa. Ao contrário. Já vi gente agredindo freiras só porque elas estavam vendendo docinhos de coco. Os defensores das bananas, em compensação, são vários. A fruta era a convidada de honra em qualquer roupa da Carmen Miranda e foi a paixão da adolescência do Cony. Ele ficava de casinho com bananeiras. Escolhia uma, fazia um furo e mandava ver. Mesmo sendo o coco uma escolha muito mais inteligente por qualquer critério: ergonomia, discrição ou versatilidade. O cinema também adora bananas, e sempre que pode mostra mulheres se deliciando com elas. O coco é tão desprezado que mesmo eu, reclamando da injustiça contra ele, dediquei mais espaço à banana.

Fico pensando no que teria acontecido se lá atrás, no século retrasado, o brasileiro tivesse se apaixonado pelo coco. Talvez nossas sementes gerassem frutos fortes e resistentes e não fossem desperdiçadas com uma bananeirazinha qualquer. E, quem sabe, com uma casca mais grossa não teríamos medo das reviravoltas da História. Já imaginou? A República dos Cocos não teria que sorrir amarelo para ninguém nem viveria encurvada sob o peso do mundo. Não seria tão frágil, tão perecível. Tão banana.