Arquivo de agosto, 2001

Fica com Deus

Aquele não foi um Domingo típico. Nem Deus descansou. Tinha trabalho a fazer. Nova hóspede no céu. E ele, ele ficou aqui, lembrando de tudo que tinham pensado, planejado e tudo que não tinha dito. Será que ela sabia?
Sobre a escrivaninha de mogno no canto de seu escritório repousava aquela que seria a última carta que ela tinha mandado. Nas últimas correspondências eles brincavam sobre quem amava mais o outro, um sempre querendo ganhar do outro. Ela estava ganhando.

Ribeirão Preto, 25 de Agosto de 2001.

Oi,
Parabéns pela sua iniciativa, esse seu projeto novo é maravilhoso, você tem que investir mesmo. Acredite nos seus sonhos e lute para realizá-los pois a vida é curta ainda que longa.
Não se esqueça da minha formatura no fim do ano hein…
Li sua carta mas não concordo. EU TE AMO MAIS.
Beijinho,
Sua amiga.

Suas palavras como sempre estavam certas. A vida pode ser muito curta mesmo. Ele pegou o papel para responder ainda que soubesse que não teria resposta. De qualquer modo ela merecia uma resposta. Molhando o papel e escrevendo ele discorreu:

São Paulo, 26 de agosto de 2001.

Oi linda,
Primeiramente obrigado pelo incentivo.
Já sobre nossa discussão, bem acho que você ganhou, mas eu ganho na saudade. Ganho na saudade daquele nascer do sol que passamos juntos, quando eu acariciava seus cabelos e você docemente dormia no meu colo. Agora você não acordará mais, porém, eu sempre estarei acariciando seus cabelos, te contando meus sonhos, e ouvindo você me dizer que tenho que ser um pouco mais racional. Ganho a lição de que temos que fazer o que podemos fazer hoje ontem, e que sempre há tempo.
Sobre sua formatura no fim do ano, não sei mais se vai dar para ir, não acho que sou forte o suficiente para ver o nome da mulher que mais amei na minha vida sob uma homenagem póstuma. Mas juro que vou tentar.
Sobre a gente se encontrar, bem, acho que isso vai ter que ser adiado um pouco, visto que não tenho meio de locomoção para ir e voltar daí. Pensei muito em ir assim mesmo mas tenho que resolver uns assuntos por aqui. Infelizmente não estou com tudo acertado ainda. Você já passou o que tinha que passar aqui, sou um pouquinho mais lerdo, mas calma que o tempo voa. Como você mesma disse, a vida é curta ainda que longa.
Acho que vou terminando por aqui, pois não quero que a tinta borre ainda mais o que estou tentando te dizer.
Ainda que redundante, fique com Deus, qualquer dia que estiver entediada vem aqui puxar meu pé, adorarei ser assombrado por você.
2Beijos,
De quem te ama eternamente,
Kris.

Paciência? O C…

Desta vez, quero ser claro e objetivo. Estou profundamente chateado com duas grandes empresas. Nos últimos dois dias minha irritação foi tanta que venho a desabafar.

Sábado eu tinha um compromisso muito importante no Sul deste magnífico país e, para vocês entenderem toda a família da minha Noiva estava me esperando as 19:30 Hs deste Sábado (22/09/01). Ótimo, horário não seria problema, já que tinha em mãos uma passagem aérea, certo? Pois então, tinha um vôo marcado às 17:10 Hs. no aeroporto de Cumbica (pra quem não sabe fica em Guarulhos e não é nada perto da minha casa).

Cheguei aproximadamente uma hora antes do vôo e fui retirar o bilhete para embarcar quando a mocinha do guiche falou bem diretamente “”Ah, seu vôo foi cancelado, vá ao outro Guichê para maiores informações”” . Como assim cancelado? Ninguém poderia me dar uma explicação lógica? Mesmo que dessem, por que não me avisaram com antecedência?

Seria então a primeira vez que viajaria de “”TransBrasil””.

Obviamente que não haviam desculpas e eu só ouvia “”Entendo senhor…”” e nada faziam para solucionar o meu problema, até que me mandaram para Congonhas – também não é perto de Cumbica – pois haveria a possibilidade remota de ter lugar num vôo de uma outra companhia que seria por conta da “”TransBrasil””. Tudo bem, possibilidades pequenas. Cheguei lá quinze minutos antes do horário marcado para o vôo e o avião, simplesmente já tinha decolado? Ah isso não é o pior, eu teria que descer em Navegantes no meu vôo original, e nesse caso eu iria descer em Curitiba e me levariam de carro ao meu destino (o que levaria mais ou menos duas horas e meias e me colocaria numa situação de atraso de duas horas e meia.

A irritação já era profunda pois eu tinha um compromisso sério e fiquei na mão. Ótimo, me deram jantar, crédito e locomoção terrestres, mas quem iria me fazer chegar no horário certo? Fico agradecido, claro, mas gostaria de uma ótima resposta que amenizasse o meu problema.

Bom o vôo foi perdido, tudo bem. Me colocaram num ônibus e me mandaram de volta para Cumbica (aquele aeroporto lá em Guarulhos) e foi lá que jantei.

Maravilha! Um vôo direto, da própria empresa para Navegantes as 10 horas. O que mais me faltava? Se alguém advinhar… claro né, o vôo atrasou e saiu meia-hora atrasado.

Naquele momento eu só conseguia fazer contas… contas, contas…. aaaaahhhhh contas! Comecei a pensar quanto tempo demora para fazer determinada comida, até o pessoal enrolar… quem sabe a posição do vento ajuda… um se o táxi que me mandarem for muito rápido…

Pisquei e, meia-noite eu cheguei. Ótimo, tinha gente com passagem rodoviária marcada para as 11 horas da noite, crianças entre outras coisas, ou seja, a minha Noiva me esperou. A comida até que estava boa, mas estou engasgado até agora.

Segunda-feira cheguei em São Paulo (hoje, dia 24) e no meio da correria fui trabalhar. Ainda de manhã tentei ligar no meu quarto e o telefone estava “”temporariamente fora de serviço”” e é claro que confiei na palavra temporariamente. Liguei para a “”Telefônica”” e soube, que minha linha estava suspensa. Tudo bem, eu tinha débitos, mas eu estava com o dinheiro guardado para na próxima Sexta quitar tudo. Seria maravilhoso, mas impossível. Ao contrário da palavra temporariamente, a suspensão é permanente, o que me deixa indignado, não pelo fato da suspensão em si, mas pelo fato de meu telefone não Ter sido cortado antes disso e de não Ter sido avisado. Ótimo novamente, normas são normas, mas educação não. Sem brincadeira, me senti revoltado como fui tratado no telefone, de forma seca e cortante. Puxa, faço faculdade de Marketing e sofro com duas coisas quem em enlouqueceram.

Não quero ir contra ninguém e nem jogar um contra o outro, só quero respeito. Não sei se no vôo que eu tinha marcado só tinha eu, mas e se tivesse? Se eu comprei uma passagem é porque eles se comprometeram a me levar, certo? Se eu quero, agora que posso, pagar minha conta de telefone, é porque quero utilizá-lo novamente e ser tratado com respeito por quem me atende, acho justo. Não estou generalizando e nem gosto disso, posso até ligar de novo, mesmo que seja em vão, mas por um motivo apenas: respeito.

Posso não ser o maior consumidor dessas empresas, mas se contribuo e consumo, o mínimo que seja, acho que mereço pelo menos respeito e atenção. Gosto de ser legal, possivelmente as vezes não sou, e se gosto disso, é porque gostaria de Ter isso em troca.

Agora sim, uma boa semana a todos, Hermínio.

Ode ao Futebol

“Vi dois siri jogando bola. Vi dois siris bola jogá.” Quando o Tatu me perguntou: que é que achas de jogá pra lá? E respondi: só não vou lá, porque lá, não sei jogá.
Passa a bola pro cabrito que é certeza de gol, ele é sujeito que não fica fazendo besteria, feito seu Ricardo, aquele mesmo Teixeira. Posso garantir que do meio eles não vão passar, meu volante é um cavalo come mato e só faz bo….. como um tal de Eduardo Costa que mal sabe passar. A defesa tem dois porcos que de dupla são um só, castigam a coitada da bola, igualzinho ao Roque, que dó. A seleção é quase invencível. Não ganha do Alagadinho da baixada, perde pro Manguezal, não vence ninguém, …………. invencível.
Também pudera, pavão na esquerda correndo feito um perú. Todo orgulhoso empinando seu rabo, toda hora toma por entre as pernas, curtas como Robeto Carlos. A jararaca é a artilheira, não pula em bola rasteira. É boa mesmo de cabeça, correu, lançou é gol. Bola alta, peixinho, é gol, é bola na rede. Mas e os peixinhos? Todos na arquibancada. Torcida é o que não falta, tem peixe e peixa, baixo e alta. Dentro do campo tudo nos conforme, bem ou mal a gente aceita nosso papel, o que o time precisa é um goleiro eficiente, feito Tafarel. O zebu é grande mas não dá conta do recado. É só chutar que entra: de frente, de costas, de lado.
Fora das quatro linhas é fofoca e baixaria. O galo que saiu com uma chester e o perú com a galinha. Pra concentração, que é bom……. ninguém vinha. Marcelin e Passarin se põem de vítimas, dizem que não estavam lá. Dizem que a culpa é do bode Luxemburgo que há pouco se livrou do Leão, mas logo, outro entrou em seu lugá. Sai bode, entra Leão até que chega um tal de Felipão. Puro sangue dos Pampas. Sabe onde fica Tubarão? Sabe, então andas. É depois.
Já bebemos Coca-cola, usamos Nike e agora o guaraná. Brasil, ame-o ou deixe-o. Mas que há mutreta, há. Tudo bem, não estamos uma maravilha. Só não podemos perder da Argentina, o resto a gente dá um jeitinho, afinal, vem aí o Ronaldinho. O fenômeno, o tal; que nos faz acreditar que o futebol do Brasil, ainda é animal. Tanto aqui quanto lá. “Vi dois siri jogando bola. Vi dois siris bola jogá.”

Frente Fria

A mulher tem o poder sobre a vida e a morte da nossa espécie. E os homens, o impulso de perpetuá-la – ou de tentar, que é mais divertido – com o maior número de parceiras possível. Ou seja, nós temos a vontade e elas têm o doce. Elas descobriram isso muito antes de nós, e transformaram esse conhecimento em poder. Tornaram-se – ou decidiram se assumir – inconstantes e caprichosas, sim, com muito orgulho.
A proibição no uso da lógica nos relacionamentos entre os gêneros foi o golpe de misericórdia. Elas haviam vencido. Nunca mais um homem pôde formular uma resposta usando argumentos práticos, e a lógica passou a ser de uso exclusivamente científico – aplicada apenas na construção do mundo que elas desejam. Acuados, os homens se mantém atentos às vontades femininas e reféns de suas mudanças de humores. A natureza tem um fenômeno parecido com a mulher: o clima.

O clima é uma força poderosíssima e insondável à qual todos estamos sujeitos. E que apesar de tudo isso gasta grande parte do seu tempo espezinhando seres insignificantes ( como os metereologistas ). Narcisista como a famosa da semana, o clima adora se exibir para as câmeras dos satélites e não se importa de ver as suas frentes frias na TV. Ele mostra tudo! Mas isso não quer dizer que se torne mais acessível. Só sabemos que não somos ignorados porque ele insiste em nos infernizar. Olha o caso de São Paulo. Aqui temos umas 7 estações por dia, com a temperatura variando mais de dezessete graus em menos de 24 horas. É um desses lugares em que o sol some em questão de segundos e em que a distância entre o calor desértico e um dilúvio não é maior do que alguns minutos.

A convivência forçada com a instabilidade acaba dando algumas pistas – não comprováveis empiricamente – para as possíveis flutuações de humor. Se você sai de casa carregando um guarda chuva, por exemplo, as chances de chover caem. Especialmente se o seu guarda chuva for grande e você for obrigado a carregá-lo o dia inteiro. Nesse caso a chance de haver precipitações beira o zero. Agora, se você saiu sem guarda-chuva e tiver que andar um bom trecho a pé, a possibilidade de pegar uma tempestade no meio do caminho é enorme. É claro que temos poder também sobre o sol. Ele é diretamente proporcional à quantidade de casacos que estamos vestindo. Quando mais agasalhos, maior o calor. Uma das técnicas mais eficientes para levantar a temperatura é vestir meias grossas.

Meias grossas e calor, todos sabem, é a receita do desastre. Afinal, o pé é a nossa parte mais sensível a temperaturas. Um pé com calor provoca transpiração intensa em todo o corpo, e não pode ser combatido nem com ar condicionado. O frio no pé é igualmente resistente e ainda mais irritante. Ele tem mania de fazer pouco das nossas tentativas de aquecê-lo, ignorando solenemente bolsas de água quente e pantufas. Continua lá até ter arruinado completamente a sua noite de sono.

O mais assustador é que o frio no pé chega para todos. Conheço muita gente que dizia não ter, mas que com o passar do tempo teve de recorrer aos meiões. Nenhum deles sabe dizer quando o frio chegou. Para uns parece ter sido na primeira noite no apartamento de solteiro. Outros especulam que pode ter sido quando a roda de amigos afrouxou e, sem aquela animação de antes, acabaram sentindo o orvalho da madrugada. Pode ter sido a necessidade de congelar planos em favor de questões mais urgentes. Ou será que foi quando os pés dela deixaram os dele sozinhos debaixo da coberta? Ninguém sabe. Só sabem que precisam de muitas meias – daquelas, que nos matam de calor – para se sentirem aquecidos.

Pensando bem, de repente o clima não tem só a volubilidade feminina… Talvez tenha também um pouco daquele carinho maternal. Vai saber se ele não está dando uma de mãe e fazendo a gente guardar nossas meias grossas para quando precisarmos delas.

Pra Não Dizer que Não Falei Sobre Rimas

Um dias desses, estava eu, folheando um livro,
desses bem famosos, quase como um Calvino,
e para minha surpresa, confesso, fiquei estupefato,
toda a obra, sim toda ela, estava escrita em verso.

Assustado com essa possibilidade,
pensei em quão ínfima é minha capacidade,
já que muitos dos clássicos, em prosa nunca escrevem,
e eu para a rima completar, tenho que digitar Iêmem.

Muitas vezes, na música, vemos rimas de extremo primor:
Como naquelas em que rimam amor,
Com algo tão oposto como a dor.

Mas a língua portuguesa, meu caro,
pode muitas peças a nós pregar,
fazendo uma riminha funcionar,
com “vesícula biliar”!

E eu que há algum tempo, tento textos criar,
acho que talvez agora, fosse prudente parar,

porém por respeito a você, meu querido leitor,
mais um pouco ainda vou insistir,
Ainda mais se entre vocês, eu encontrar um vizir !

Escrever rimando, só se aprende tentando,
mesmo que para isso, acabe-se errando
ou ainda mesmo, apelando. Quer ver como ?
Tentando, tentando, tentando …

E por aí vou seguindo, aos poucos admirando,
como algo tão delicado como um alfinete,
pode ser esmagado, e ao mesmo tempo rimado,
com um pesado e nervoso porrete.

Agora sim, que quase uma página acabei de completar,
posso enfim sossegar, relaxar, e até me deitar,
e com esse estranho texto, de uma vez por todas, acabar.

Sai. Sai Sai

ZzZzZzZzZzZz. Riiiiing. Alô. Balada. Fechou. Banho. Roupa. Qual. Essa! Não serve. Essa mesmo. Elevador.15o. andar. Droga. Carro. Som. Acelerador. Acelerador. Acelerador. FREIA!!! Ufa. Reza. Chegou. Porta. Valet Service. Seis real. Fila. Fila. Fila. Saco. Nome na lista. Rogério Sanchez. Por favor. Consumação de 50 reais. Oi. Bar. Whisky. Whisky. Whisky. FREIA!!!

– Onde você está levando esse sorriso lindo?
– Pra bem longe de você.
Ai. Whisky. Whisky. FREIA!!!

– Onde você está levando esse sorriso lindo?
– Lá pro lado do meu namorado mas de qualquer forma obrigada.
– De nada.
Valeu. Whisky. Whisky. Pista. Whisky. Tontura. FREIA!!!

– OI ONDE VC ESTÁ…É…QUAL O SEU NOME?
– QUE?
– SEU NOME?
– LAURA! E O SEU?
– HEIN?
– E O SEU?
– ROGERIO. VOCÊ ESTÁ SOZINHA?
Tontura.

– ESTOU. POR QUE? ALGUMA PROPOSTA?
Tontura. Tontura.

– BEM NÓS PODÍAMOS IR VOMITAR.
– QUE?
Tontura. Tontura. Tontura.

– NÓS PODÍAMOS IR SENTAR.
– AH! CLARO.
Tontura. Tontura. Tontura. Bílis. Sobe. Desce.

– Aqui dá pra conversar. Então Rogério qual a sua sugestão para o nosso fim de noite?
Tontura. Tontura. Tontura. Bílis. Sobe. Desce. Tontura. Tontura. Tontura. Bílis. Sobe. Desce.
– Bem…Eu podia deitar a cabeça no seu ombro…
Tortura. Tortura. Sobe. Sobe. Desce. Sobe. Sobe. Desce

– E o que mais…
– E dai eu podia me reclinar e…
– E…
Sobe. Sobe. Sobe. Sobe. Sobe.
– Eu poderia …
Sobe. Sobe. Sobe. Sai. Sai. Sai. Sai. Bílis. Bílis. Bílis. Whisky. Whisky. Whisky. Whisky. Whisky. Whisky.

“Sorria, você está sendo filmado!”

Em qualquer lugar que você vá, fatalmente encontrará uma plaquinha com esses dizeres. Eu sempre penso o que esta frase realmente significa. Eu compreendo perfeitamente a parte que diz “você está sendo filmado”, mas o “sorria” que me confunde. Se fosse um “Atenção, você está sendo filmado”, eu entenderia, ou até um “Não faça cagadas porque estamos te observando”. Mas “sorria”?

Talvez signifique o que o Andy Warhow já falava sobre a cultura pop onde todos um dia terão seus 15 minutos de fama. Sorria, pois você é famoso no momento, onde sua imagem viaja através das câmeras para o deleite de porteiros e seguranças que voyeristicamente a tudo observam. “Sorria, pois aí estão seus 15 minutos de fama.”

Pode ser também que esse “sorria” represente a alegria que devemos sentir ao saber que essas pequenas câmeras nos protegem de eventuais contraventores. O que é algo no mínimo interessante. Isso para mim significa que chegamos à um ponto que precisamos nos vigiar para não se fazer besteiras. Uma sociedade que precisa ser controlada pelo “grande irmão”, e ainda sorrir de alegria por isso. “Sorria, pois ainda não aprendemos a viver socialmente.”

Ou então signifique que seja apenas uma piadinha de alguém que se ache realmente “criativo”. Provavelmente aconteceu o seguinte: numa conversa de bar, depois de muitas cervejas alguém disse para um dono de uma gráfica, por que não fazer um paralelo com o “sorrir pra câmera” com as câmeras de vigilância? Todos caíram na risada e acharam uma grande idéia. Foi aí que surgiram as placas “Sorria, você está sendo filmado”. Coincidentemente nessa mesma conversa devem ter surgido também os adesivos “Só diretoria”, “Xique no úrtimo” e o fantástico desenho dos alienígenas fazendo 69. “Sorria, fizemos uma piadinha infame!”

Talvez o grande motivo da existência dessa frase é o motivo inspirador que gerou aquela obra-prima da MPB: “Sorria que eu estou te filmando” do “Os Travessos”, ou algum outro grupo parecido. Com sua poética letra “Sorria que tô te filmando… sorria que o prazer já vem vindo…” (o que significa essa letra? Algum fetchismo? Bom, acho que isso já é assunto para outra crônica) Mas aí já é uma teoria existencial, onde estou afirmando que a frase só veio ao mundo para cumprir seu destino de propagar o pagode pelo mundo. Acho que seria cruel demais pensar assim. “Sorria, ouça música ruim”.

Pode ser milhares de outras coisas como “Sorria, assim poderemos ver se há um pedaço de alface entre seus dentes” ou “Sorria, não aceitamos banguelas nessa loja”. Eu apenas posso especular. Se alguém tiver alguma teoria ou realmente souber a verdade por trás desse sorriso, escreva-me… E talvez eu pense em premiar a melhor resposta com jujubas de ursinho.

Bailão

A semente do homem social não foi a pinça nem o polegar opositor. Muito menos o domínio da agricultura. O nosso salto evolutivo foi aprender a articular sons, variar os fonemas e formar palavras. Foi aí que abandonamos os ruídos e cada coisinha do mundo ganhou um som próprio, característico. Quando o homem das cavernas terminou de dar nome às coisas, voltou-se para ele mesmo. Intuiu a alma, e aprendeu a cantar ( ou o contrário ). Finalmente as civilizações que floresciam podiam ser cantadas por seus filhos.
O problema é que eram filhos demais, e poucos deles eram talentosos. Que civilização poderia se sentir homenageada sendo mal cantada? Não havia como. Assim, para evitar o suicídio dessas pujantes sociedades, os músicos foram profissionalizados. Apenas aqueles dotados de um talento mínimo poderiam seguir cantando. Além das vantagens óbvias para o ouvido das pessoas, a regularização dos bardos instituiu o banho privado. Sozinhos, em seus banheiros de paredes grossas, os piores cantores do mundo podiam cantar tão mal quanto pudessem sem serem importunados.

Agora profissionais, os músicos passaram a exigir um mínimo de condição de trabalho. Depois de uma rápida greve, conseguiram a criação de espaços reservados e a obrigatoriedade do silêncio durante as suas apresentações. Logicamente esses dois itens dependiam do prestígio do músico e do lugar onde ele se apresentava. Os melhores conseguiam o respeito da platéia em qualquer taverna, mesmo nas mais fuleiras. Já os piores corriam o risco de terem dedos e línguas arrancados pelo rei. Mas de forma geral foram conquistas importantes dos bardos.

Por causa delas a segunda revolução do som começou sem barulho. Era uma apresentação das mais respeitáveis e todos estavam quietos. Os bardos tocavam concentrados. Até que, devagar, alguém começou a se mexer. Sentado mesmo. Depois levantou e começou a fazer uma série de movimentos desconexos. Notando a perturbação da banda, um dos freqüentadores mais tradicionais e mais temidos da taverna partiu a cabeça daquele inconveniente em duas. Para comemorar a vitória e debochar da sua vítima, o agressor começou a imitar o recém falecido. Só que ele gostou da brincadeira e não parou mais de pular. Ao contrário, até chamou uns amigos para pularem com ele. Foi o primeiro show de heavy metal da história. É claro que a novidade se espalhou e mais e mais pessoas começaram a se mexer quando havia música – sempre observando a regra de partir a cabeça de quem levantasse primeiro. Foi também só uma questão de tempo até as pessoas encaixarem os seus movimentos ao andamento da música.

A popularização da dança revelou alguns grandes talentos, e ela ameaçou se profissionalizar. Logo surgiram espaços especiais nos salões para os mais hábeis. As pessoas adoravam. Tinha até gente que ia só para ver os outros dançarem. Os músicos foram perdendo cada vez mais espaço e acabaram deslocados para um fosso. No palco colocaram os melhores dançarinos. Mas ao contrário do que aconteceu com a música, a profissionalização da dança não restringiu os maus dançarinos ao banheiro. Ela permaneceu ao alcance de todos.

Povos inteiros passaram a se identificar com movimentos específicos. Os espanhóis expansionistas e quixotescos tinham o flamenco de movimentos fortes e sensuais. Os portugueses, sem rei e quase fora da Europa, tinham o fado. Ficavam girando em torno de si mesmos indefinidamente, procurando pela glória perdida. Já as culturas orientais dançavam com gestos graciosos e estudados. Os brasileiros também acharam a sua dança: o samba.

O samba não tem coerência nenhuma, regra nenhuma. Só ginga. E ainda assim, tem um jeito certo de dançar. A misteriosa gingada brasileira se estende também às danças regionais, seja ela funk, axé ou forró. Os gringos – duros e burocráticos – não entendem como nos mexemos desse jeito. Ficam fascinados. Não fazem idéia de que a nossa cintura é solta porque nunca sabemos qual música teremos que dançar amanhã.

O Padre, a Loira e a Liga

Como todo cronista que se preze, eu sempre fui uma pessoa curiosa. Esta curiosidade já me colocou em situações não muito agradáveis, como quando pesadelei (se existe o verbo sonhar, porque não “pesadelar”?) durante uma semana com a Bozolina (algo próximo do Lombardi, só que no programa do Bozo). Mas isso é história pra outra crônica.

Sempre que via um padre, ficava me perguntando que espécie de gravata borboleta (sem asas) branca era aquela que eles usam, dentro da gola.

Pesquisando em mosteiros, documentos proibidos, e outras várias fontes, que não merecem ser citadas aqui, acabei descobrindo a verdadeira origem deste curioso artefato.

No início do século XX, nos tempos do charleston, todo Mundo sofria um sério problema com a proliferação de bordéis, já que o “stress” abatia a maioria dos pais de família. A revolução sexual ainda estava longe de acontecer, portanto, a única opção que os cansados operários tinham para liberar a tensão absorvida nas linhas de produção (Carlitos que o diga), eram as casas de tolerância.

A Igreja Católica, sempre preocupada com a moralidade, resolveu atacar esse mal pela raiz. Como a inquisição já havia acabado (e não pegaria bem para os padres andar por aí com um lança-chamas queimando todas as moças de reputação duvidosa), foi decidido que cada cônego entrasse nas casas com abajur vermelho pelo menos uma vez ao dia, o que constrangeria os clientes de tal forma, que pouco a pouco, a demanda para esse tipo de serviço, digamos específico, iria diminuir até um ponto aceitável.

O que eles não contavam, era com o poder de sedução das mocinhas de vida fácil. Ao encarar o diabo de frente, os jovens (e inocentes) padres acabavam se atrapalhando, e muitas vezes não continham suas pulsões reprimidas por anos e anos de monastério. Resultado: Os pais de família se sentiam até aliviados ao verem que nem os representantes do Senhor resistiam às tentações, e o tiro da Igreja acabou saindo pela culatra.

Um dia, porém, um jovem padre francês resolveu virar o jogo. Foi ao bairro mais sórdido de Paris, entrou no mais famoso cabaret da Europa e esperou que a grande estrela da casa começasse seu jogo de sedução. Todos queriam ver em quanto tempo a moça domaria o pobre coitado.

Nicole (a grande estrela) surgiu no palco. Linda, loira, com um vestido de levantar morto, e o que era pior, dançando. E como dançava a bela Nicole. Padre Jean-Pierre (esse era seu nome) se ajeitava na cadeira, tentando disfarçar o turbilhão de sensações que percorriam seu corpo. Quanto mais ele tentava se conter, mais ela aproximava. E dançava, ah como dançava!

Aos poucos, Nicole foi encurralando os olhares e atenção de Jean-Pierre, até que sentou em seu colo, e num cruzar de pernas criminoso, deixou a fenda da saia se abrir, mostrando sua escultural perna envolvida por uma invejada cinta-liga branca.

Pagando todos seus pecados, Jean-Pierre começou a abraçar a moça, que apresentava um leve e jocoso sorriso. As mãos do jovem começaram a percorrer as longas pernas que se levantavam lentamente. Pé, tornozelo, joelho… ante-coxa ……. coxa. Seus olhos se fecharam, e sua boca se aproximou da face da meretriz, que já dava por certo a vitória.

Quando todos menos esperavam, Jean-Pierre agarrou a liga da perna direita da moça, e num só puxão, arrancou-a de sua perna. Como um troféu, levantou-a e, se esquivando rapidamente da moça que ainda tentava beijá-lo, disse:

– De hoje em diante, carregarei em meu pescoço essa liga, como prova de minha abnegação e lealdade ao Senhor. Todos que aqui me olham, saberão que eu, homem comum, de carne e osso assim com vós, resisti à tentação em prol dos preceitos que me regem. Levarei esse objeto danado para onde for, mostrando a quem quiser ver, a vergonha que sinto de vós e todos aqueles que se tornaram reféns de seus instintos primatas. Espero, e lutarei como puder, para que a decência volte a imperar em nossa sociedade, e assim sendo, retiro-me deste antro com a certeza de que a vontade divina será cumprida.

Jean-Pierre colocou a liga por dentro de sua gola, e saiu sendo seguido por todos os homens, que viram credibilidade naquele que resistira a maior de todas tentações (Nicole dançando de liga branca).

Rapidamente a história se espalhou no mundo ecumênico, e o Vaticano, sabendo do poder dos fetiches, distribuiu a todos os padres ligas brancas, para que estes seguissem o exemplo do jovem francês.

Em pouco tempo o problema estava resolvido, e o Alto Clero pode descansar em paz. A única pessoa que não descansou em paz, nunca mais, foi a pobre Nicole. Como ela poderia saber que o seu fracasso acarretaria na maior recessão de todos os tempos no mercado de entretenimento adulto? E para piorar sua triste condição, ela não conseguia nem se confessar para se sentir melhor… Aquela cinta branca no pescoço dos padres a fazia chorar. Compulsivamente!

Aêêêêêê…

— Aêêêêêê !!!
— Porra, o que é que está acontecendo no 104?
— Sei lá, deve ser uma festa daqueles peruanos…
— Aêêêêêê !!!
— Brincadeira, esse pessoal não pára de gritar. Será que é aniversário de alguém?
— Pode ser. Ou é só uma festa mesmo, comum.
— Como assim? Festa comum? Existe festa comum? Pra mim só tem aniversário, ou comemoração de alguma coisa, ou alguma festa “festa”. Não existe festa comum.
— Aêêêêêê !!!
— Claro que existe! Você chama seus amigos, todo mundo se reúne, ficam felizes, a festa começa, e aí…
— Aêêêêêê !!!
— Ah, mas aí não é “festa”. É reunião de amigos. Pra ser festa, tem que ter alguma coisa diferente. Por exemplo, esses aí do 104…
— Aêêêêêê !!!
— … só podem estar comemorando alguma coisa. O campeonato da Colômbia, por exemplo.
— Ué? Mas eles não são peruanos?
— Sei lá. Podem ser colombianos, também…
— Aêêêêêê !!!
— Sejam peruanos ou colombianos, eles podem estar fazendo uma festa comum, ué, dos amigos latinos, certo?
— Mas aí não seria uma festa comum, entende? É uma festa “diferente”, especial, “dos amigos latinos”.
— Aêêêêêê !!!
— Não concordo. Eles são amigos entre si, por isso pode ser uma festa comum.
— Como você disse, “pode ser”. Mas não é, porque eles estão gritando…
— Aêêêêêê !!!
— … toda hora. E isso só pode ser comemoração.
— Mas também pode ser uma festa comum, pode estar rolando um concurso de tequila, ou então dançando aquelas músicas e tentando passar por debaixo do cabo de vassoura sem cair, ou estão fazendo uma outra bobagem tradicional do Peru…
— Ou do Chile…
— Do Chile?
— Aêêêêêê !!!
— Cara, essa gritaria já está me irritando. Vou lá falar pra eles pararem de gritar, já passou da meia-noite!
— Não esquenta, fica na sua…
— Duvido muito que eles vão parar sozinhos. Do jeito que esses bolivianos são folgados…
— Aêêêêêê !!!
— Bolivianos? Até agora pouco não eram chilenos?
— Não, ou peruanos, ou sei lá. O que me importa é que eu não aguento mais!
— Relaxa, rapaz. Como você se sentiria se aparecesse algum chato de outro país pedindo pra você terminar a festa?
— Pôxa, mas alguma hora essa comemoração tem que acabar!
— Comemoração? Por que você insiste com isso?
— Aêêêêêê !!!
— Olhaí! Tá vendo? Eles não páram de comemorar alguma coisa! Devem estar saudando o aniversariante, sei lá…
— Aniversariante? Tá maluco? Ninguém grita tanto assim pra um aniversariante. Nem pra uma final de campeonato. Se fosse uma final de basquete…
— Aêêêêêê !!!
— Vou matar esses paraguaios!
— Calma…
— A próxima vez que eles gritarem, eu juro que eu vou lá e acerto a cara de algum muchacho. Espera só, que agora eu quero ouvir eles gritando !
— Calma !
— Vamos, gritem seus cucarachos !
— Fica frio…
— Gritem !!!
— Relaxa…
— Ué?
— Ué!
— Pararam?
— Pararam !!!!
— Maravilha. Finalmente podemos jogar em paz, então.
— Ótimo !
— Truuuuuuuuuuuuuuuuuuco ladrão !!!
— Seeeeeeeeeis !!!