Arquivo de outubro, 2001

Eu sou assim

“Sei que tenho o rosto um pouco surrado. Isso porque sempre espremi todas as minhas espinhas, cutuquei todas as feridas e sempre me esfolei fazendo a barba. Barba, aliás, também não me falta (como bem retratou meu amigo Paulo Coelho na minha caricatura). Uso óculos, pois esses não me atrapalham, e não tenho paciência com lentes de contato. Em resumo, apesar dos meus 22 anos, pareço um rapaz mais velho.

Sinceramente leitor, não ligo muito para isso não. Afinal, não tenho vontade, e muito menos dinheiro, para bancar uma mudança radical de imagem. Na verdade, quero que se fod…

Esses dias, porém, uma observação feita a meu respeito me incomodou muito. Fui rotulado de velho e sério de espirito. Vamos pingar alguns “”is”” por aqui.

Se sou sério porque não vejo oportunidade de fazer uma piada ou uma gracinha sobre tudo que vejo na minha frente, não acho ruim. Quem gosta disso é o palhaço fedegoso.

Se sou velho porque não saio toda quarta, sábado e domingo para dançar e trair minha namorada, eu também não acho ruim. Odeio lugares apertados e barulhentos, filas, máscaras (mesmo não sendo uma festa a fantasia, essas pessoas usam isso normalmente). Prefiro um bar, onde posso sentar, beber, comer e, principalmente, conversar com meus amigos.

Se sou velho porque não saio comendo todas as mulheres que vejo por aí, eu também não acho ruim. Eu tenho esse problema de querer ficar com pessoas que eu conheça bem, respeite e admire. Se alguém aí acha legal acordar no dia seguinte e não lembrar o nome da pessoa que está do seu lado, ou ainda não ter ninguém do lado, tudo bem.

Para os que me acham essa aberração, só posso responder da seguinte maneira:

Acordo todos os dias e me olho no espelho. Digo para mim mesmo:
– Ontem foi um dia excelente. Hoje também vai ser ótimo.
Ou então:
– Ontem foi um lixo, acho que preciso tomar uma providência.

A diferença é que avalio minha vida de acordo com a minha felicidade e a das pessoas que me cercam. Vou estranhar se um dia eu acordar, me olhar no espelho e disser:

– Ontem parecia que eu tinha 35 anos. Hoje vou tentar me comportar como se tivesse 22.”

Gramaticão

Não sou gramático
Não sei conjugar o verbo gramar
Mas sei plantar grama
Não sei quantos gramas
Ou quantas gramas
Gastei no meu gramado
Sei q foram muitos gramas/força
Isso eu sei

Já o meu cachorro
Sabe tudo de gramática canina
E por isso o chamo de gramaticão
Late com perfeição os fonemas,
Rosna afugentando os estrangeirismos,
Se coça até eliminar todas as concordâncias incorretas,
Finge de morto quando perguntam por que performance não tem acento,
Fareja qualquer sujeito oculto,
E não se cansa de cagar regras,
Todas dentro de casa
E nenhuma no meu gramado.

Inútil.

Gramaticão: S. m. Deprec. 1. Aquele que se presume de bom gramático. 2. Aquele que só sabe gramática.

Venha…

…ser minha namorada.
Mas venha correndo pois não agüento mais essa corrente que me prende a vida promíscua. Venha correndo pois não consigo mais pensar sozinho, decidir sozinho dormir sozinho. Venha correndo pois não consigo mais dormir. Não consigo mais assumir meus medos nem para meus travesseiros. Meus dois travesseiros, o ombro e o abraço.

Venha ser minha amiga.
Mas venha sem pintura pois desaprendi a enxergar. Venha sem fantasia. Não quero mais decifrar, dilacerar, disfarçar. Venha sem perdão pois não quero mais dormir tranqüilo ciente de que sou réu confesso.

Venha ser minha amante.
Mas venha de noite pois não preciso do sol para perceber a graça que recebi pela sua presença. Venha no escuro pra me surpreender com uma fala doce ao pé d´ouvido levando meus pelos ás alturas. Venha de mansinho para eu acordar com a surpresa de que não preciso olhar para os lençóis emaranhados.

Venha ser minha esposa.
Mas venha trazendo meu coração pois ele já não está comigo há muito tempo. Venha zelando minha esperança que além de última é única. Traga também seus problemas que eu anseio por vivenciar mesmo sem poder resolver. Traga seus defeitos. Todos eles. Para eu amar até. Traga seus traumas para eu provar que eles não tem fundamento.

Venha ser minha amada
Mas venha de qualquer jeito pois te amo inteira, integra, intermitente. Venha logo e correndo. Traga o que quiser pois aqui tem muito espaço. Venha depressa e olha nos meus olhos pois assim você poupa todas essas palavras que te escrevi e me faz entender. Me faz entender que nem a tentativa lírica nem o desabafo poético é o bastante para suprir sua falta.

Venha ser.
Mas venha.

Joe e o pé de maconha

Então, tava lá o João, lagartando na prainha, quando bateu uma nóia nele, queria fumar um. Daí ele deu um ligo nos bolso, assim, e os mundrungo já tinham queimado tudo. Não rolava mais ficar na nóia. Ele não agüentou e foi para a casa pegar o Vinil dos Mutante pra bate um rolo com o cara da banquinha. Chegou lá se achando sabugo e acabou saindo no preju. Pediu 10 G e só levou uma paranguinha cheia de sementinha.

Aí ele foi pro C.A e encontrou o Flavião chamando pra acender um. Ele deu as parada pro Flavião, que falou que ele era um marmota, que aquilo não era beck não, e jogou tudo no chão. O cara ficou injuriado e foi puxar um ronco. Aí o João acordou e tinha um pé de maconha gigante que ia até o céu.

Ele ficou viajando no pé e começou a subir alucinado. Chegou lá em cima….Puta cara, a nuvem é de marofa…. Aí tinha um vovô com black power irado sentado num ampli, rolando mó rock’n’ roll com uma guitarra de canhoto. Ele tava fumando numa marica de ouro, soltou uma fumacinha, e aí bateu a larica. Fi, Fó, Fu, Joe, sinto cheiro de mundrungo.

João ficou noiado, mas não podia ser marmota, tinha que pegar a marica de ouro. Aí o Gigante Jimmi foi na jaulinha, deu uma azeitada no último mundrungo e mandou vê. Aí foi puxar um ronco. O João foi chegando na miúda, e roubou a marica de ouro. Mas aí ele deu uma marmotada e derrubou o azeite do Jimmi e o Gigante acordou. Fi, Fó, Fu, Joe, sinto cheiro de mundrungo. João saiu correndo e foi escorregando com azeite pelo pé de maconha.

No chão, lembrou da história do João e o Pé de Feijão, mas achou que era muito trampo cortar a árvore e acendeu um na marica de ouro e ficou vacilando embaixo do pé. Aí o Gigante apareceu, comeu ele, acendeu um, e bateu a brasa no prédio do CCA.

Nota do Editor
Pra entender este texto, só com o dicionário ecanês – português:

lagartear – ficar sussu, moscar
prainha – área de lazer com bancos de cimento
nóia – nóia
mundrungo – o que não é sabugo
sabugo – o supra-sumo dos seres, o bam-bam-bam, mora?
cara da banquinha – vendedor de discos/livros/marihana usados
CA – centro acadêmico
Flavião – junkie-padrão ecano
marmota – um mundrungo que não é nem um pouco sabugo
beck – pô, cê num sabe?
marofa – também não sabe?
ampli – amplificador, seu marmota
marica – instrumento para o beck
CCA – Centro de Comunicação e Artes, incendiado em outubro/2001

Falando no Chuveiro

A maioria das pessoas canta no chuveiro. Pelo menos é o que elas dizem. Eu não, já que as paredes têm ouvido, prefiro poupá-las. Mas sou humano, e se tem um momento em que posso descarregar todas minhas aflições e agonias, é no banho. Só que faço isso de uma forma diferente: eu represento.

Como cronista amador que se preze, eu sempre tento olhar o cotidiano de uma forma inusitada. Isso já me colocou em situações ridículas, como quando deitei no chão do banheiro, debaixo da pia, para entender como é a visão de uma barata se escondendo.

Essa busca incessante por uma análise “descolada” do meu dia-a-dia tem seu ápice no meu banho. Onde faço meu show particular de “Stand-Up Comedy” (aqueles shows onde um humorista fica no palco, sozinho falando um monte de besteiras pra platéia).

Pelas minhas contas, já fiz mais de 500 espetáculos, discutindo sobre os mais variados assuntos: A trajetória do sabonete num banho comum (num dia sem muita idéia), a trajetória do sabonete num banho a dois (na época em que eu era feliz), e diversos assuntos mais.

Mas na última temporada, confesso, só um assunto surge na minha cabeça. Eu entro no palco, abrem-se as torneiras e começo: “Quando um não quer, dois não fazem muitas coisas (pausa para os pingos me aplaudirem) : Brigam, conversam, jogam pingue-pongue, se beijam, namoram e até, a não ser em casos extremos, copulam.

Toda e qualquer forma de relacionamento humano depende única e exclusivamente da vontade (ou necessidade) das pessoas envolvidas.

Quando A e B se encontram, temos 4 situações possíveis:

-O A quer e o B também, isso é bom, veremos risadas, beijos, abraços, carinhos … enfim … como diria Tim Maia, o que importa é o amooor!

-O A quer e o B não. Partindo-se do pressuposto que o A é um homem e o B é uma mulher, a situação se complica. Veremos vários copos de cerveja na mão do A pra conseguir abordar o B, veremos papinhos ridículos como: Belle e Sebastian pra mim é TUDO!, veremos o A se expondo ao ridículo e o B vendo seu ego crescer, crescer e crescer. Veremos os amigos do A rachando o bico da cara dele depois do pé na bunda que ele tomará, e finalmente, veremos o
B beijando outro A logo depois, só porque ele é mais “in” que o primeiro.

-O A não quer e o B quer. Se continuarmos pensando na condição anterior, dizer que o A não quer é só uma questão de tempo. O B tem diversos recursos para mudar a opinião de A, a não ser que esse B seja tão feio que pareça um W, e o A esteja ainda sóbrio.

-A e B não querem. Isso é bom, aliás, é a mais fácil de todas a situações. Nada acontece.

Não tenha dúvida que as situações 2 e 3 são responsáveis por quase todos os problemas da humanidade.”

E por aí vai …

O mais interessante é que quanto pior está a vida, mais engraçado fica o show. Já teve caso da água se recusar a entrar pelo ralo, até eu atender aos pedidos de “bis”, quase afogado dentro do box. Se as coisas continuarem assim, tenho medo de inundar o bairro. Afogado no sucesso.

As Ordens da Dona Síndica

Um prédio residencial em POÁ:

– Nome por favor.
– Que isso seu Ademar! Não está me reconhecendo? Eu moro aqui, no 504. Abre aí a porta.
– Desculpe, mas foram as ordi da Dona Síndica. O Dotô vai ter que falar o nome completo.
– Ordens da Dona Síndica? Tá bom, eu sou o Sr. Augusto Mello Leitão. Posso entrar?
– RG, por favor.
– Larga de palhaçada Ademar, você sabe que sou eu!
– Sim, eu sei, Seu Augusto, mas sabe como é, as ordi da Dona Síndica.
– Mas para quê tudo isso?
– É que a Dona Síndica tá preocupada com a segurança do prédio, com esses atentado e tudo.
– Ah, mas quem iria querer bombardear esse prédio, hein Ademar? Estamos em Poá e nesse prédio só mora velhinhas aposentadas.
– Vai saber, né Dotô. Sabe como é, as ordi da Dona Síndica.
– Tudo bem, tudo bem… Aqui está o RG. Posso passar agora?
– Só um momentinho. O Dotô ta levando algum tipo de arma ou explosivo?
– Que tipo de pergunta é essa?
– Ah, tá aqui na lista de perguntas que tá nas ordi da Dona Síndica. O Dotô tá levando ou não?
– É claro que não Ademar!
– Pode abrir a pasta preu confirmar?
– Isso tá indo longe demais! É alguma brincadeira? Se for não tem nenhuma graça!
– Que isso Seu Dotô. Tenho o maior respeito pelo Sinhô.
– Não vou mostrar a minha pasta não!
– Então não posso deixar o Dotô entrar.
– Abre logo essa porta Ademar!
– Não posso Seu Dotô, até você mostrar o que tem dentro da pasta. São as ordi da Dona Síndica.
– Aqui toma essa P*&*$%!!! Não tem nada demais aí!!
– Ah, tá limpo Dotô.
– Ótimo, agora posso entrar em meu próprio prédio?
– Esvazie os bolso primeiro.
– O que? Não tem nada no meu bolso!
– E que saquinho é esse aí?
– Ah, esse? É o adoçante que peguei no restaurante!
– Ai meu Jesusinho! Ah minha Santa Nossa Virge Senhora! Meu Padi Ciço! É o diabo do pozinho branco!
– Que nada, é só o adoçante!
– É o tal do Antraxi!!! Eu vi nas notícia!!! Vou chamá a polícia!!!
– Ademar, quer parar com isso! Eu jogo fora o saquinho! Quer me deixar entrar logo?
– Só depois que os médico examiná o Sinhô. Eu ouvi dizê que é contagioso!
– Anthrax não é contagioso, Ademar. E depois para quê eu iria querer fazer um atentado nesse prédio, oras?
– Só sei que foram as ordi da Dona Síndica!
– Eu sei, eu sei… Eu não tenho o Anthrax! Me deixe entrar logo!
– Não Sinhô Dotô!
– Ademar, estou perdendo a paciência!
– Traz um exame médico falando que o Sinhô não tá com esse tal de Antraxi que eu deixo o Dotô entrá. São as ordi da Dona Síndica!
– É assim? Tudo bem! Então depois eu volto!

Duas horas depois…

– E aí Dotô? Trouxe o exame?
– Tá aqui nessa caixa!
– E o que tem nessa caixa?

Noticiário:
– Atentado à bomba destrói prédio em Poá. Ainda não desconfiam o porquê de um ataque a um prédio em Poá, onde a maioria dos moradores eram velhinhas aposentadas. Encontrado um bilhete com os seguintes dizeres: “Para as ordens da Dona Síndica”. Mais notícias depois dos comercias…

Solteirice

Certa vez, uma amiga me perguntou como se deveria comemorar o “Dia dos Solteiros”. E logo comentou saudosa sobre a nossa solteirice, aquele tempo em que também ela era livre…

Minha resposta:

Engraçado, ser livre, pra mim, é poder querer o que se quer, sem ter que querer os quereres dos outros (neste caso, do outro).

Outro dia via um programa sobre as terras onde formaram-se os antigos quilombos, que são hoje reservas onde vivem os descendentes dos escravos fugidos. Um dos chefe de uma destas comunidades falou que apesar de hoje serem livres (referindo-se ao tempo em que seus antepassados eram escravos), ele se sentia preso, encadeado pelo amor àquela terra e sua história. Minha mãe definiu a liberdade como a possibilidade de escolha pelo quê vamos nos prender.

Por isso, digo para não esquecermos nunca de que somos livres, de que podemos escolher qual será nossa prisão, por quanto tempo lá ficaremos enclausurados e quais os gostosos crimes que nos condenam.

Quanto ao Dia dos Solteiros, comemora-se numa mesa de bar com os amigos, no sofá do quarto vendo antigas fotos e memórias ou dizendo para o seu amor: “Que bom que somos livres! Te amo!”

Minha solteirice sempre foi igual, sempre com coisas gostosas. Mas também sempre diferente, com peculiaridades como perucas pretas e meias arrastão para um baile de máscaras, Porsches e risadas, cappuccinos e bebidas coloridas, cinema sozinha, sofá da sala e TV até sábado ou domingo de manhã, balada só de mulheres, fondue só de mulheres, o celular ligado o dia todo e nada… Coisas gostosas, coisas tristes, coisas de gente independente, coisas agoniantes, coisas, coisas e mais coisas.

Minha solteirice sempre foi cheia de coisas, mas as melhores foram os momentos gostosos junto de alguém!

Acho que ser solteiro é ser livre, mas ser casado é saber ser livre. Pena que nem todos sabem disso.

G, vamos sempre rir e lembrar da nossa solteirice. A minha continua, mas a nossa já faz tempo…

Pontuando

Um autor mata a sua obra a cada ponto final. Termina uma f(r)ase para iniciar outra, que por sua vez terminará. Hesita, mas dá um basta. Coloca um fim numa conversa, numa cena, num personagem. Mesmo que não queira. Ele pode tentar adiar, usar uma, duas, três vírgulas; ponto-e-vírgula, até. Mas sempre acaba no ponto final. Na morte matada, mas não morrida.
Não morrida porque sempre chega alguém e abre o livro. Aí aquelas palavras mortas se juntam, alimentam-se umas das outras, renascem, existem. Vibrando de novo. Como antes daquele ponto final. Os acontecimentos voltam a se suceder e pessoas nascem ali mesmo, diante dos nossos olhos, vindas não se sabe bem de onde. Puxamos conversa, perguntamos seus nomes, e de repente a pergunta se transformou em uma enxurrada de palavras inundando o mundo de sentimentos.

As palavras não param. Ao contrário, fluem cada vez mais, cada vez mais fortes. Não querem mais saber do ponto final, acham que estão livres dele. Quer dizer, sabe-se que ele chegará, mas não já; ainda está longe. Enquanto procuramos o ponto definitivo lá na frente tentamos esquecer dos outros, transformar todos em vírgula. Se a coisa apertar, concordamos com uma pausa maior e apelamos para o ponto-e-vírgula. Mas ponto final só pode ter um.

Só que não tem. Os pontos finais estão por aí, sempre esperando o fim de um período. Podemos enfiar mais e mais verbos, enrolar o quanto quisermos. De nada vai adiantar. Os verbos farão cada vez menos sentido, dirão cada vez menos. Teremos parado de nos entender há muito tempo, mas continuaremos falando, e falando, e falando. Até esgotarmos o nosso vocabulário ou o esforço não valer mais a pena. Por que estávamos fazendo tanto sacrifício mesmo? Não sei. Nessa altura é provável que lembremos das reticências, aquela que deixa o dito pelo não dito. Na falta de um, três pontos finais. Uma morte três vezes não morrida.

E mais de três vezes pior, porque esse é o fim sem final. É quando o mundo continua girando, com tudo nele. Quando não fomos pegos de surpresa nem ficamos com coisas por dizer. É quando tudo continua ali, em suspenso, com o que seria ou deveria ter sido esperando. Mas quem sabe se nessa insinuação de futuro a gente não ganha tempo para seguir os verbos desconexos, as vírgulas, tudo, e ver se a trilha leva ao motivo não da primeira palavra, sempre casual, mas da segunda, essa sim a primeira, porque intencional, que dissemos. Aí, enfim, conseguiremos colocar o ponto final no período. Mas um só, que é para podermos começar outro.

Metade de Mim

Algo está faltando aqui. Sinto que algo maior do que eu penso está faltando em mim. Olho minhas mãos. Cadê minha mão direita? Cadê meu braço direito ? Minha perna ?! Metade de mim sumiu!

Eu ainda me sustento como se tivesse todo o corpo, mas sei que só tenho metade. Andando pelas ruas ninguém percebe. Amigos, familiares, conhecidos … como ninguém me alertou ?! Metade de mim sumiu!

Tento falar com alguém, num momento oportuno. Ninguém me ouve. Todos me vem inteiro. Muitas vezes sinto partes de mim se reconstituindo, mas de uma forma diferente. Isso não sou eu. Cadê aquela metade de antes? Metade de mim sumiu!

Caminhando, passo em frente de uma vitrine qualquer, numa calçada qualquer. A imagem refletida está inteira. Como um vampiro as avessas. Minha imagem está intacta, talvez por isso ninguém fale nada. Mas não estou inteiro. Metade de mim sumiu!

Vou trabalhar, uma guerra idiota acabou com o trabalho. Agora tenho mais tempo pra olhar pra mim. Sem espelhos. Sinto muito, Ricardo. Metade de você sumiu.

Por alguns momentos me vejo inteiro de novo. Ufa, voltei. Mas não, é só pele, não tem nada por dentro, e essa superfície frágil, quando eu menos espero, explode, revelando, nos piores momentos, a verdade. Metade de mim sumiu!

Um dia, quem sabe, a pele voltará a revestir algo inteiro e maciço. Real. E aí, novamente, a imagem voltará a ser fiel ao corpo. Por enquanto, espero. Olhando no espelho e torcendo pra que o meu reflexo inteiro, acelere a minha reconstrução, lenta e vagarosa, doendo um pouquinho, sarando um pouquinho. Aos poucos, porque agora: Metade de mim sumiu!

Esporte é isso aí

– Olha, eu tenho uma bola!
– Mas eu tenho o último lançamento do tabuleiro especial do Kasparov. Edição limitada.
– Tá! Mas isso não é esporte.
– Claro que é!?!
– É não. Olha, eu tenho uma bola!
– E daí? Eu sou campeão Paulista de Gamão da categoria infantil, tá?
– Gamão é esporte?
– Claro? A gente treina e tudo.
– Olha, eu tenho uma bola!
– Deixa, tá. Meu pai foi chefe e principal corredor do time de atletismo lá da faculdade dele. Ele participava do decatlo e era muito bom, falô?!
– Ah! Aquele joguinho do Atari?
– Não, besta. O de verdade! Ele que corria, saltava, pulava e tudo.
– Mas isso é esporte?
– Claro. Tem preparação, treino, salada, não pode beber.
– É, mas eu não bebo também.
– Claro, você é criança.
– Olha, eu tenho uma bola!
– Você tem uma bola, mas não conheceu o meu tio que foi medalhista da Copa Regional de Maringá. Ele fazia as argolas e as barras paralelas. – Ele era muito bom, pena que desistiu do esporte!
– Mas isso aí, é esporte?
– Lógico! Você nunca viu nas Olimpíadas?
– Olha, eu tenho uma bola! Vamos jogar?
– Tá, tá bom. Vamos jogar.
– Agora sim! Vou te mostrar um “dibre” que meu pai me ensinou. Ele sempre foi um grande esportista, mas nunca jogou em lugar nenhum nem foi campeão de nada. Mas sempre praticou esporte.
– Ah, é? O que ele jogava?
– Ah, não lembro. Mas sei que tinha uma bola.