Arquivo de novembro, 2001

O Caso Soninha

“Na semana passada, a capa da Época criou uma certa polêmica. Eu sabia que algo tinha acontecido, mas não sabia exatamente o que. Logo em seguida, a Soninha foi demitida, e aí eu fiquei sem entender nada. Pois bem. Ontem eu assisti ao programa “”Observatório da Imprensa”” na TV Cultura. Um programa muito bom, que discute a mídia, o jornalismo em todos os seus aspectos e vários outros temas ligados à comunicação.

Para minha surpresa, lá estavam ontem Soninha e um representante da TV Cultura debatendo o tema da demissão dela. Esse tema é polêmico por vários motivos, porém, antes gostaria de discutir outro aspecto.

O grande causador da bagunça toda foi a revista Época, ao meu ver. Jornalisticamente, eles fizeram tudo certo. Entrevistaram pessoas que podiam opinar com conhecimento e serenidade sobre a questão, escreveram de forma clara e até construtiva e ainda levantaram questões importantes como a descriminalização e o uso medicinal da droga com visões opostas. Do ponto de vista da reportagem, tudo foi feito de forma coerente e profissional.

Pois bem, na hora de fazer a capa da revista, os jornalistas se traíram, e da pior forma possível. Eles se tornaram publicitários, no sentido mais claro da palavra. Aquela capa não foi criada para gerar polêmica, nem para ser informativa, e ainda por cima não retratou o conteúdo da matéria. A capa da revista, naquele momento, se tornou uma peça publicitária, em todos os aspectos, do texto ao layout.

Espero não ter ofendido os puristas mas, sinceramente, é isso o que eu acho. Outro detalhe importante: a TV Cultura tomou uma decisão muito rápida, muito impensada, e até agora não conseguiu justificar de forma coerente a ação. A percepção que se tem é de que a emissora buscou se proteger. Mas não vamos ser injustos, como bem disse Alberto Dines: a emissora permitiu ser criticada, de forma dura inclusive, dentro de seus próprios estúdios.

Outro aspecto importante: como uma apresentadora e radialista com a experiência da Soninha deixou-se, ingenuamente, enganar pela revista? Afinal, é do conhecimento de todos a famosa “”edição jornalística””. Por isso, é até indicado não falar frases longas com conteúdo de efeito. Mas quem vai ficar se policiando o tempo todo?

Isso me faz pensar no seguinte: até que ponto a imprensa é confiável para suas fontes? E se deixarem de ser, até quando vamos poder confiar (o que já não é muito possível hoje em dia) em nossos meios de comunicação?”

Deus e o Diabo na Terra

– Uma gelada, por favor! Puxa, eu amo uma loirinha geladinha!
– Eu também. Mas prefiro dizer que gosto. O amor é outra coisa.
– Que nada! É tudo a mesma coisa, não é?
– É …… atualmente pode ser, mas quando eu inventei, não era.
– Pois é, quando você inventou não era. Tantas coisas que você inventou e não são! Você não fica meio frustrado?
– Fico não. As pessoas sabem o que é o amor; só usam a palavra de um jeito errado. Elas sabem que o amor é algo grandioso, um sentimento abnegado de reciprocidade. O amor é algo entre pai e filho, homem e humanidade. O amor é aquele que se tem ao próximo, à vida. As pessoas tem esse discernimento; só não sabem utilizar a palavra.
– Óh! Você, sempre um romântico! Acho que você tem conversado muito com o Camilo. Você, meu xará, devia prender-se a coisas mais terrenas, como eu.
– Pare com essa utopia avantajada! Venha comigo uns dias e vou te mostrar o que as pessoas realmente querem. Vou te mostrar a minha invenção.
– Que papo furado é esse? Sabe muito bem que não posso sair daqui. Você, tudo bem.
– Anjo caído sempre pode dar uma subidinha.
– Bom, você é quem sabe; e não estou sendo irônico, apenas sarcástico. Mas eu preciso te mostrar a paixão. É ….. porque é isso que as pessoas querem. Apaixonar-se. Elas querem a cumplicidade, a sacanagem. Nada de amor, querem paixão e toda a sensualidade que vem junto. Querem o sexo! E é aí que elas se embananam com essa história de amor, paixão e tudo.
– Mas quando eu criei a humanidade, dei-lhes a capacidade de pensar justamente para que não se desviassem do caminho.
– É, mas eu fui “caído”, lembra? Então, tenho que mostrar serviço; afinal, não é todo dia que se é promovido. Mas, calma! Você chega lá.
– Tudo bem, eu tô meio cansado dessa politicagem mesmo.
– O negócio é se desprender dessa coisas etéreas, por o pé no chão e seguir em frente que a vida é bela. Mas se disser que eu falei isso, eu nego! Na verdade, além dessa confusão de amor e paixão, ainda tem aquela coisa do gostar. Porque gostar é um sentimento menor, menos intenso e que muitas vezes se usa indiscriminadamente substituído pela palavra amor ou paixão.
– “Ah, eu amo viajar!”, “Eu me apaixonei por Boipeva!” e assim eles vão usando palavras no lugar do gostar e complicam tudo. E tudo isso culpa sua! Tinha que inventar o amor? Porque não deixou do jeito que tava? Não, tinha que pegar os alemães e desenvolver. Agora agüenta os italianos!
– Bom, acho que esse negócio de amor não tá com nada. E tem mais, “no avançar das horas e na má sinalização”, eu tenho que ir senão a patroa me mata!
– Tá apaixonado mais uma vez?
– Não, acho que estou amando mesmo!

Extraordinário!

Fizemos um mundo extraordinário. Pode não ser tudo o que imaginamos, mas com certeza é muito mais do que outros imaginaram. Não descemos vinte mil léguas nem fomos ao centro da Terra, mas chegamos à lua. Aproveitamos e dominamos os céus, que estavam no meio do caminho. Agora, entre um foguete e outro, ondas viajam pelos ares levando de tudo um pouco. Levam até aviões, em uma rotina impensável há pouco mais de cem anos.

Na verdade não faz muito que tudo com que estamos acostumados eram apenas idéias. Imaginem o que foi pensar pela primeira vez em transmitir informações pelo ar – e o tamanho da encrenca para provar a sanidade do “iluminado” – ou o assombro ao descobrir como transformar e distribuir energia. Isso sem contar a satisfação orgulhosa de tantas outras pequenas descobertas, que hoje são tão comuns que mal damos por elas. Construímos um histórico impressionante de transformar devaneios em realidade, ainda que alguns levem ( literalmente ) séculos para virar realidade.

É intrigante tamanha obstinação. No fim das contas, o que levava arquitetos a construir duas, três, dez vezes a mesma abóbada até que as forças estivessem equilibradas e ela não caísse? Só pode ser teimosia. Quem já viu a construção de uma estrada sabe disso. Da mesma forma, nada mais consegue explicar o que nos faz encarar naturalmente o fato de um airbus voar. Pelo amor de Deus, estamos falando de um tijolo de sabe-se lá quantas toneladas. No ar. A única alternativa que poderia fazer algum sentido é senso de sobrevivência. Vai ver enfiamos na cabeça que o melhor modo de nos garantirmos era dominar o ambiente, vencer a natureza. Só que colecionamos mais vitórias do que se poderia supor, levamos o adversário à lona e ainda não paramos. Nem há sinal de que vamos parar. Sobrevivência não é a razão.

Pensando bem, teimosia também não é. Não fazemos nada porque somos teimosos, ao contrário: somos teimosos quando queremos fazer algo. Depois de investigar terra, mar e ar, tentamos agora o espaço. E desde sempre tem quem acredite que existem outros mundos em outros planos que podem ser vasculhados. O que procuramos com tanto empenho?

( A Felicidade

A felicidade é absoluta, certo? É a plenitude, é saciedade permanente, é embevecimento eterno, prazer perene. Tudo o que não é. O estado natural das coisas é inconstante, impreciso, imperfeito; não é inteiro, não é o suficiente, é mais ou é menos. Não é a felicidade. Não deve ser infelicidade também; pode ser não-felicidade.

Mas é certo que qualquer coisa diferente do ideal não é a felicidade. Como, por exemplo, ter de lidar com a idéia de ser capaz de imaginar mas não de realizar. Ou de não ter. Pôxa, temos o direito de ter tudo o que queremos, como queremos e quando queremos. É justo querermos a amante perfeita na esposa perfeita e vive-versa, o texto perfeito nas palavras e as palavras perfeitas no texto, e desejo após desejo, tudo o mais que for ideal.

Mas como nem todo mundo tem disposição para ir atrás, tem gente dizendo que é bobagem perseguir a felicidade. De repente eles podem estar certos. Parece que ninguém nunca a viu mesmo. Há registros de gente que avistou uma felicidade aqui, ou uma alegria ali, mas nada sobre a felicidade. As testemunhas contam que de vez em quando cruzam com uma alegria, puxam conversa e ficam um tempo com ela. Depois, se separam numa boa. Dizem que não correm atrás dela nem se sentem rejeitados. Acham que qualquer dia eles se cruzam de novo. Ou trombam com outras. E assim, de alegria em alegria, uma felicidadezinha de cada vez, vão levando a vida. Nada de novo nisso. )

Extraordinário – Cont.

Seja o que for que estamos procurando, de duas, uma. Ou o que buscamos não existe ou achamos mas não percebemos. Está mais do que provado que a ordem natural do homem é imaginar e depois materializar, por isso é possível que estejamos à cata de um delírio que nunca será concreto ( será esse o nosso limite? ). Por outro lado, nos acostumamos tanto a querer mais que essa coisa de pensar-e-depois-fazer virou um hábito. Virou uma rotina mecânica que nos faz tropeçar no que queríamos sem notar. Várias vezes, aliás. Afinal, se nossos quereres são tão facetados porque nosso objetivo deveria ser absoluto?

Passeio no Shopping

Domingão. Véspera de feriado (sim! É isso mesmo). Brasil e Argentina na TV, cervejinha gelada no refrigerador e, para completar, minha sogra viajando para o Pantanal. E eu aqui no shopping fazendo compras com a Dani. A Dani disse que o Carlinhos já está muito grande para ir no banheiro feminino com ela, e muito pequeno para ir ao masculino sozinho. Por isso eu vim, para levar o Carlinhos ao banheiro! Tudo bemS talvez daqui a uns 10 anos esse momento se repita, e com sorte a minha sogra já vai ter morrido e o Carlinhos será grande o suficiente para fazer xixi sozinho. Quem mandou ter filho cedo? Pior, quem mandou engravidar a mina mais Paty da faculdade!

Faz um século que a Dani entrou na última loja, mas nem se compara com o tempo que eu estou segurando esse menino no colo procurando um banheiro. Aposto que a Dani está comprando algum acessório preto para mim. Ele diz que preto emagrece e nunca sai de moda. Deve ser uma gravata preta, para combinar com a calça preta que ela me deu no Natal e com a camisa preta que ela me deu no meu aniversário. Mas se a Dani quer tanto que eu pareça mais magro, por que ela pediu para eu sair da academia? Primeiro ela me obrigou a ir junto, porque ela detesta fazer ginástica sozinha. Depois insistiu para eu sair. Acho que foi por causa daquela loira gostosa que vivia pedindo para eu ajudá-la com os pesos. E ainda tem marmanjo que acredita que mulher bonita gosta mesmo de músculos. Elas não resistem à uma barriguinha sexy de chope.

Isso me faz lembrar que eu também preciso mijar. Já posso quase sentir a calça úmida. Na verdade, totalmente molhada. O Carlinhos não foi homem o suficiente para esperar chegar ao banheiro. Esse menino não se parece com o pai. Se eu não tivesse certeza de que a Dani nunca me traiu, eu diria que o Carlinhos é filho do Cabeça, o cara mais babaca do time. Não tem uma partida que o cara não pede para ir ao banheiro. Aliás, cadê a porra do banheiro?

Eu já passei trocentas vezes por esse corredor e ainda não encontrei. Aposto que já virei motivo de piada para os seguranças: ” QAP Oswaldo. QAP Oswaldo. Elemento na área pela terceira vez. O idiota passou de novo na frente do banheiro” Quer saber? Perdi a vontade de ir ao banheiro, só de raiva. Ainda bem que a minha calça é preta, pelo menos disfarça a mancha, agora, o cheiro está insuportável.

Cheguei na loja onde a Dani estava e para variar levei uma bronca. A Dani adora me dar bronca na frente dos outros. Ela acha que isso sedimenta o papel da mulher moderna e põe abaixo conceitos ultrapassados de submissão feminina. Eu acho que ela devia parar de ler essas revistas da moda. Principalmente porque assim, sobraria mais dinheiro para eu tomar cerveja com a galera.

– Você é mesmo um incompetente, Carlos Henrique! Eu te trouxe no shopping só para levar o Carlinhos ao banheiro e você ainda deixa o menino fazer xixi na roupinha nova!
– A culpa é sua Dani! Quem mandou ficar na loja escolhendo presente para mim ao invés de tomar conta do menino? Tá certo que é papel da mulher cuidar bem do marido, mas também não vamos exagerar, né?
– Que presente Carlos Henrique?
– Ué, a gravata preta!
– Que gravata preta, Carlos Henrique?
– Ô Dani, eu pensei que você tivesse empacado nessa loja porque estava comprando algum presente para mim.
– Ai, ai..! Quando o meu pai disse que você era muito devagar, e que eu devia ter escolhido ir morar na França ao invés de ir morar com você, eu achei que ele estava exagerando. Eu demorei porque estava escolhendo um shortinho preto para combinar com o top de suplex que eu comprei para usar na academia.

Antes de sair da loja, decepcionado, carregando uma dezena de sacolas e um garoto mijado, só tive tempo de perguntar:

– Dani, você anda pedindo ajuda para alguém na academia com os pesos?

Querido Papai Noel

Querido Papai Noel,

Se você abriu essa carta, você corre um sério risco.

Nós, do governo dos Estados Unidos, estamos muito preocupados com as novas séries de atentados biológicos e temos informações confidenciais de que você poderá ser a próxima vítima.

Querido Papai Noel, chegamos a essa conclusão depois de verificar que todas as pessoas já contaminadas acreditam em Papai Noel e nas boas intenções do governo dos Estados Unidos.

Querido Papai Noel, essa carta não é para pedir um presente ou “Paz ao Mundo”. Estamos pensando em coisas mais importante, como a sua segurança. Dezembro está próximo e cada vez mais você irá receber cartinhas e mais cartinhas. Mas, não confie nas crianças. Elas não são todas americanas.

Querido Papai Noel, lembre-se que Hitler e Murilo já foram crianças um dia. Não se deixe enganar por letrinhas mal feitas e por palavras simples e sinceras.

Se algo de ruim acontecer com você, querido Papai Noel, o que será de milhões de crianças, ou do espírito natalino, ou das cantigas durante a ceia e quem irá alavancar nossas vendas de final de ano?

Portanto, pensando exclusivamente no seu bem, pedimos para que siga
as seguintes recomendações:

1º) Rasgue todas as cartas de crianças pobres. Elas se julgam excluídas e
são potencialmente perigosas. Segundo nosso departamento de inteligência, você já adota este procedimento, pois elas não receberam presentes nos natais passados. Continue assim.

2º) Nunca mais abra qualquer cartinha de pedidos, mesmo as mais
coloridas ou com colagens. Deixe esse serviço para um duende; e se ele morrer, troque por um outro. Se acabarem todos os duendes, nós enviaremos anões de Hollywood. Temos um grande estoque das últimas produções natalinas.

3º) Está estritamente proibida qualquer brincadeira com neve. Algum duende terrorista pode estar infiltrado na sua organização e não irá perder a oportunidade de camuflar o Anthrax. Para acabar com esse risco, estamos mudando sua corporação para um país onde não haja essa camuflagem natural e com impostos para exportação mais vantajosos. Paraguai. Grande parte de seus presentes já passam por lá mesmo.

4º) Utilize os acessórios anexos a essa carta. Máscara de gás e roupa protetora. Tivemos a liberdade de pintar a roupa de vermelho. Espero que goste. Para fotos promocionais, iremos utilizar as mesmas do ano passado apesar de você não ter gostado das fotos de perfil.

5º) Alguns duendes estão, devido às longas horas de trabalho para atender a demanda, usando cocaina. Não se preocupe, pois estamos enviando outros tipos de entorpecentes para que não seja necessário abaixar a jornada semanal de trabalho. O Anthrax é muito parecido com a Cocaína, apesar de não dar o mesmo barato.

Querido Papai Noel, seguindo todas essas recomendações, esperamos não ter que cancelar nossos contratos comerciais. A “Bunny Corporation” já se mostrou contra a possibilidade de antecipar a Páscoa.

Querido Papai Noel, para aquelas crianças que sempre pedem “Paz ao Mundo” em suas cartinhas, informe que Papai Noel vai mandar um presente bem bonito pra elas ficarem contentes. Nós pagaremos a conta.

Governo dos EUA.

Diário secreto de um Pitbull

– Porra mano, eu sou sensível!
– Fala baixo porra!
– Não fala assim comigo cara.
– Que que você ta com essas bichices agora Alê?
– Que bichice cara? Você também não vai respeitar meus sentimentos?
– Tá bom, tá bom, tá bom mas fala baixo, chega mais aqui escondido.
– Foda cara…
– Conta aê. Qual é a parada?
– Não é assim simples brother.
– Manda aê. Eu sou seu parceiro não sou?
– È acho que é sim…
– Acho porra nenhuma. Sou sim. Fala o que que ta te bolando.
– Sabe o que é cara. Eu não consigo mais fingir que não tenho sentimentos. Sinto coisas que praticamente brotam pela minha pela pele bro. Muito foda.
– Saquei.
– …
– Sinistra a parada hein…
– O que?
– Tu tá virando boiola…
– Boiola porra nenhuma cara. Tu ta me tirando???
– Se não ta virando que parada é essa de sentimento bro. Nunca vi tu falando esses palavrão.
– Então, esse é o problema. De uma hora pra outra não consigo mais ser o Alezão que eu era antigamente. Me sinto carente, ás vezes choro em casa sozinho.
– …
– …
– …
– …
– HAHAHAHAHA!!!!
– Qual é Marcão? Achei que tu era meu bródi.
– Mal aê. Escapou. Mas me diz uma coisa. O que você viu que te fez matutar nessas parada aê?
– Cara, de vez em quando me sinto meio pra baixo saco. Daí eu tenho que fazer umas paradas pra me sentir melhor.
– Que tipo de parada? Arrumar uma briga, pega umas mulé?
– Não. Assistir Breakfast at Tiffanys, escutar my funny Valentine, comer chocolate…
– O QUE???
– É cara…
– Sinistro hein…
– O que?
– Tu ta virando boiola meismo.
– Ah…vai se fuder…
– Não cara juro. Numa boa, sabe o que você precisa, sair pra night com geral, pega umas mulé, deitar no tatame com a galera…
– É verdade né.
– É cara. Você é o Alêzão porrrra. Vamo volta as antigas.
– Pode crer bro. To de volta na parada. Vamo apavora cabeçada.
– Fechou então. Hoje a noite então vamo sai com a galera. Vo liga pro Cabeça, pro Mamute e todas aquelas mulé lá do 9.
– Pô bródi, hoje não dá.
– Por que?
– Vai passar Casablanca na T.V e eu adoro o Humphrey Bogart.
– …
– …
– Casablanca…Sinistro…
– O que?
– Tu virou boiola meismo…

Ajude a CNCAMEHGSAFFTA

Não há como negar o nível da produção dos filmes norte-americanos. Você pode não gostar dos roteiros, atuações, trilhas sonoras e até direção. Mas na qualidade de produção, não temos como negar que eles estão muito à frente de qualquer outro país.

Aviões, helicópteros, prédios explodindo, casas monumentais, carros-sonho voando pelos ares, celulares inventados especialmente para um personagem, tudo que eles fazem tem o nível máximo de perfeccionismo e precisão.

Até nas cenas internas eles não fazem economia. Lustres de 1 milhão de dólares, escadas de mármore, pianos caríssimos que nunca serão tocados, etc e tal.

A única coisa que não evolui nos filmes, e não há nenhuma explicação para isso, são os telefones das cozinhas (americanas, obviamente). Estamos no século 21, um órgão humano foi clonado (morreu, é verdade, mas que foi clonado, isso foi), a internet dominou o mundo, a tecnologia chegou em um nível espantoso, e todos os telefones de cozinha, nos filmes, ainda tem aquela maldita extensão helicoidal gigante que separa o aparelho do fone.

Será que eu sou o único ser humano que não percebe um erro de cronologia nisso! Esses telefones foram ótimos nos anos 70 e 80, quando inventaram a necessidade de se conversar ao telefone, cozinhando.

Posso até admitir que esse erro continuasse no começo dos anos 90, já que os telefones sem fio ainda não eram muito eficientes. Mas hoje ?! Se você for assistir qualquer comédia romântica recém produzida, pode ter certeza: aquela maldita lombriga helicoidal gigante que separa o aparelho do fone estará lá, e branca, ainda por cima !

Há uns 4 anos atrás, eu me incomodei tanto com esse assunto, que comprei uma extensão dessas e instalei-a no meu quarto. Não tenho palavras pra expressar o dissabor dessa experiência. Quantas vezes não me encontrei totalmente mumificado por aquela maldita coisa, com o fone apoiado na orelha, gritando desesperadamente por socorro, e a pessoa do outro lado da linha aflita perguntando: Em quanto eles estão?! Eles estão armados?!

Não há diretor, roteirista, produtor ou qualquer outro que me convença que esse tipo de aparelho não destrua com a caracterização de qualquer cozinha contemporânea. É como ter uma vitrola na casa do James Bond, ou ver o Neo do Matrix atacando um dos Vigilantes com um tacape.

Produtores de longa metragem, pelo amor de Deus, USEM O TELEFONE SEM FIO! E vocês, queridos leitores, me ajudem a acabar com esse mal terrível, na CNCAMEHGSAFFTA (Campanha Nacional Contra Aquela Maldita Extensão Helicoidal Gigante que Separa o Aparelho do Fone nos Filmes que Tanto Amamos), e saiam do meio de qualquer filme que esse monstro faça uma aparição. Afinal, se teve gente se mobilizando pra deixar o Alexandre Frota na Casa dos Artistas, porque nós não podemos fazer isso!

O Armazém

Velho, sujo. Uma aparência sombria, de um tempo antigo, até mesmo para aquela época. Suas prateleiras cheias de garrafas coloridas empilhadas uma a uma. Cheias, vazias, não importa; eram muitas. O balcão de mármore branco marcado de cachaça. Copos de cachaça ….. o bom e velho copo americano! Eu passava por ali que nem um foguete, não queria nem conversa, ia direto no armarinho de doces. Acho que ele nem se importava se os doces vendiam, eram todos para mim. Que delícia! Sempre quando abria aquela portinha de vidro, lá estava meu doce preferido, porém com ele estavam todos os outros doces preferidos. Não eram caseiros mas eram deliciosos. Eram todos meus! Meu avô nunca se importou se a molecada comprava aqueles doces, ele ganhava mesmo era na pingaiada dos fregueses. “Uma pra mim, outra pra você e as duas na conta” (hehehe). Isso quando não era uma no copo do freguês e água no copo do meu avô. Os doces? Eram para mim.

Uma vez me surpreendeu ver no lugar dos doces um saco de bolinhas de gude. Ele dizia que ia começar a vender as tais bolinhas e por isso aquele saco estava lá. Nem desconfiei. Hoje eu sei que elas eram para mim; mesmo porque eu sempre pegava umas antes de ir pra escola e nunca perguntei se podia. Os salames pendurados no teto, os ovos atrás do caixa, os cereais ensacados ali na frente e o armarinho. Tinha a porta da geladeira que ficava embaixo do balcão, com aquela maçaneta que abria de lado e aquele barulho quando fechava. Tantas crushs, ginis, tubaínas e guaranás Taí, que me dói só de lembrar. Passar a tarde enfiando a mão nos sacos de feijão e de milho. Fazer guerrinha com os grãos! A balança que eu adorava! Punha todos os pesos de papel em cima dela e ficava horas tentando equilibrar a pequena balança de miudezas. Parecia tudo muito velho e sujo, mas era o lugar onde as pessoas se encontravam pra conversar e passar a vida. Era o armazém do seu João “carvoeiro”!

Lembranças de seu neto.

Casa de Família

Duas e meia da manhã. A porta do sobrado se abre devagar, sem fazer barulho. Uma pessoa entra na ponta dos pés. Dá uns quantos passos e se volta para o vulto que permanece na porta.

– Está tudo bem. Pode vir.
– Tem certeza?
– Tenho, pode vir.
– Olha lá, hein….
– Quer parar com isso, Távio? Já falei que tá tudo bem. Você quer ou não quer?
– Quero, mas…
– Então pára de se afundar e vem logo.

O Otávio seguia a Roberta sem dar um pio. Não que estivesse calmo, não estava, mas porque conhecia os sogros e não queria arriscar qualquer ruído. Ainda bem que a Roberta sabe as manhas da casa. Já no quarto dela os dois se atracaram sem perder tempo. Dali a pouco a janela estava toda embaçada, dando uma idéia da temperatura ambiente quando o Otávio gelou de novo.

– Tem certeza que não dá para ouvir?
– Tenho, Távio.
– Mas e se, sei lá, você se empolgar?
– Eu não vou me empolgar….
– Não?
– Não… Quer dizer, vou, mas não vou me empolgar assim… Fica tranquilo que eu me empolgo em silêncio, tá bom?
– Tá… Mas…
– Mas o que, Otávio? Cacete! Não tem problema. É seguro, ok? É só a gente ficar quieto que ninguém ouve nada. Podemos continuar? – e o agarra antes que ele abra a boca de novo e destrua a noite de uma vez.
– Hum…
– Nhaaaaaaaaaa…..
– Huuuuummmmmmmmmm…..
– NhaaaaaAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHH!!
– Que foi, Rô? Que foi? Lugar errado?
– É, mas não foi isso. Acho que eu vi alguma coisa….
– Hehehehe… É?
– Larga de ser idiota. Acho que eu vi alguma coisa se mexendo aqui no quarto.
– Como?
– Ai, Otávio, sai, sai…. Deixa eu acender o abajur.
– Deixa que eu acendo.
– Foi você, Távio?
– Eu não falei nada.
– Então quem…. ai…. AAAAA – Uma mão impede um novo grito. A luz se acende.
– Fui eu quem falou. – o homem está vestido todo de preto e tem o rosto coberto por uma máscara de esqui. – Se tu prometer não gritar eu tiro a mão, beleza? Tu promete? Aê, taí.
– Quem é você?
– Ninguém, mas tu pode me chamar de Tucão.
– E o que é que você está fazendo aqui?
– Nada.
– Como assim, nada? Você invade o quarto da minha namorada e diz que não está fazendo nada?
– Shhhhh! Olha o volume! Você quer que meus pais acordem?
– Desculpa.
– É isso aí, feio, não tô fazendo nada. Só entrei aqui, valeu?
– Opa! Peraí. Ouviram isso?
– Ouvi. Passos. Ai…. Meus pais!
– O que é que está acontecendo aqui? AH! O QUE É ISSO?
– Nada, mãe.
– NADA? NADA? Como você pelada com dois homens no quarto é nada? E um mascarado ainda por cima!
– Aí, dona, eu não sou tarado, valeu? Essa coisa de três não é comigo. Eu já tava aqui quando eles chegaram, sacou?
– Sei, e quem é o senhor?
– Ninguém, mas tu pode me chamar de Tucão.
– Muito bem, Sr. Tucão…
– Senhor, não, dona. Só Tucão mesmo.
– Tá. Então, Tucão, o que você está fazendo aqui?
– Nada.
– Nada?
– É, tipo, nada….
– Tucão!
– Tá… eu e uns manos távamos armando um lance, mas deu treta, aí a gente teve que espirrar. Eu tava dando um tempo aqui enquanto não liberam a parada, sacou?
– Você está se escondendo, é isso?
– Só.
– E o senhor, senhor Otávio?
– Olha, dona Sônia, não é o que a senhora está pensando…
– Você podia pelo menos colocar a cueca antes de falar isso, meu filho. E você também, Roberta, quer fazer o favor de se cobrir? Ai, que vergonha! O que eu faço com vocês?
– Ó, dona, se a senhora quiser eu posso ensinar o feio aqui a respeitar a mina.
– Hum…. Não sei….
– Mãe!
– Ô, dona Sônia, não brinca com isso…
– Deixa, Tucão. Eu me acerto com os dois aqui.
– Tem certeza, dona?
– Tenho.
– Então eu vou vazar, beleza?
– Tá bom. Você vai como?
– Não tinha pensado nisso. Não tem busão até as cinco… Acho que vou puxar um carro.
– Melhor não, Tucão. Pega esse dinheiro e vai de táxi.
– Valeu, dona Sônia. Se a senhora mudar de idéia sobre o mané aí é só deixar recado nesse número, beleza?
– Combinado.
– Quanto a vocês dois, a gente conversa amanhã.
– Bom, vou indo então…
– Mas tá tarde, Otávio. Mãe, deixa ele dormir aqui?
– Hum….
– Ô, mãe! Esse tal de Tucão ameaçou o Távio, vai saber se ele não está lá fora esperando ele sair…
– Tá bom, ele pode ficar. No quarto de hóspedes.
– Ué, por que não aqui?
– A senhorita está pensando o que, dona Roberta? Isso aqui é casa de família.

Peso

“Nunca havia parado para pensar
Mas fui obrigado

Nunca aquilo iria me pesar
Mas pesou, e como

Nunca achei que fosse cair
Mas caiu com cólera

Nunca mais serei o mesmo
Não poderia ser diferente
Não será

Não sai das minhas costas
Nem da cabeça

É um peso que não há como carregar
Invisível, porém, cruel

É a responsabilidade não desejada
Aquela que te dão sem perguntar

Agora penso
Penso muito
De como deste peso, me livrar”