Arquivo de dezembro, 2001

Inutilidade Pública

“Nenhum homem sabe porque realmente ele existe. Muitas teorias já foram formuladas, muitas esquecidas e muitas radicalmente defendidas. Mas ninguém ainda provou qual a nossa utilidade. De onde viemos? Para onde vamos? O que devemos fazer? O que está além da inexorável rotina da vida: nascer crescer e morrer?

Um religioso otimista diria que Deus criou a Terra com todas as suas características, recursos e ambientes para que todos os seus habitantes pudessem exercer os valores da irmandade, fraternidade, paz, respeito ao próximo, amor e outras coisas mais.

Um religioso pessimista diria que Deus cometeu um erro ao criar esse maldito ser humano (que seria sua obra-prima) e que todos eles serão julgados, condenados e queimados no fogo do inferno. Não podemos esquecer que Deus também inventou o conceito de sala de espera quando criou o purgatório.

Um religioso sádico diria que Deus se diverte com tudo que nós fazemos. Fica vendo tudo em seu home teather. A vantagem é que quando ele quer mudar alguma coisa na trama, ele consegue.

Um ateu acha que tudo é muito normal, esse negócio de morrer, nascer. Ele acha que quando morrer vai virar pó, assim como sua consciência. Para ele igreja é uma bela construção, um lugar para meditação e reflexão. Nada tem um papel divino, as coisas são como são, seguem as leis da natureza.

Mesmo assim, nenhum desses seletos grupos conseguiu chegar perto de alguma conclusão. Será que somos causa? Ou será que somos conseqüência? Nossa existência pode ser fruto da força da natureza (Deus, ou qualquer outra entidade) que nos criou do nada.

A diferença do homem para os outros animais é o tal do dedo em formato de pinça (isso tem um nome bonito mas eu não lembro). Porém, eu acho que a verdadeira diferença, que nos gerou tantos benefícios é a mesma que nos causa essa frustração. O homem escolhe para onde quer ir, quando e como. Ele tem uma infinidade de possibilidades que me parecem ausentes de outros animais. E talvez por ter esse leque tão grande, já não sabemos mais qual o nosso papel. Enquanto isso, acho que continuamos sendo uma grande inutilidade pública. “

Uma Noite Qualquer

Era uma festa típica dos anos 2000. Muita bebida, algumas drogas, techno inundando os ambientes e gente de todos os tipos.

Almeida circulava na pista meio perdido. Ele não estava mais acostumado a festas assim. A calça jeans com cinto e a camisa de botão já não faziam o sucesso de antigamente. O velho cigarro de cravo Gudam Karan, então, nem pensar!

Quando ele começava a se empolgar com algumas músicas mais parecidas com as do começo do anos 90, a batida parava, as pessoas continuavam se movendo e algo estranho acontecia, como um discurso do Martin Luther King, ou então Deus falando sobre a sua suprema criação.

Kelly Maluquete se aproximou dele e com um ácido na ponta do dedo e disse:

-Fala aí, Mino! Bem loco esse seu visu meio retrô.
-Acho que é naquela porta ali, mas cuidado que vi um cara entrando lá, há uns minutos atrás.

A música estava muito alta.

-Taí, o Lóqui nem tchum proqu’eu falei!
-Olha, pra ser sincero, também tou procurando algo pra comer. Você viu algum docinho por aí !?

A música estava definitivamente alta.

-Tá na mão, trutinha!

E sem que ele esboçasse qualquer reação, Kelly enfiou o seu dedo doce dentro da boca do Almeida, que não entendeu nada. Ele estava com fome, mas nem tanto.

Kelly, então, começou a beijá-lo, lambendo seu dedo, sua língua, tentando roubar um pouquinho daquele ácido, e ele que só fechou os olhos depois de uns 10 segundos de beijo, resolveu entrar na dança, se é que tinha dança para aquele bate-estaca maluco.

Quanto mais tempo passava, melhor Almeida e Kelly Maluquete se entendiam. Ou melhor, ele não entendeu uma palavra do que ela disse, e ela adorou aquilo.

Lá pelas 07h30 da manhã, Almeida já estava deitado no meio da pista olhando para o céu estrelado, e mostrando as poucas constelações que conhecia para Kelly Maluquete e um gnomo que conheceu um tempo depois do doce beijo.

Kelly gargalhava, já que eles estavam deitados dentro de uma sala fechada, e não havia céu, estrelas e muito menos gnomo. Aquele cara sabia divertir uma mulher como ela.

Logo depois, os dois começaram a dormir. Ali mesmo, no meio da pista.

No final da tarde Almeida acordou, sozinho. Não havia mais ninguém dentro da sala. Ele procurava o céu estrelado, aquela garota doida que ele nem conseguiu saber o nome, e até o anão engraçado que conheceu durante a noite. Ninguém estava lá.

Sem opções, Almeida foi embora e nunca mais teve uma noite como aquela.

Feliz Natal!

“Nunca entendi muito bem o Natal. No meu caso, sempre foi uma época do ano atípica. Quando era pequeno e acreditava em Papai Noel passei várias noites em claro para descobrir como diabos o bom velhinho entrava na minha casa, sendo que essa não tem chaminé. Até eu descobrir que o bom velhinho na verdade eram meus pais (bons velhinhos) eu não dormia em paz no dia 23 de dezembro.

Não, eu não pertenço a uma religião estranha do Fimdomundoestão. É que como todo ano passamos o Natal em Ituverava, os bons velhinhos não tinham como esconder os presentes no carro, por isso, a gente sempre ganhou presente dia 23 ou 22 ou até 21. Mas, na verdade, eu nunca achava ruim, afinal ganhava sempre antes de todo mundo.

Aliás, passar o Natal em Ituverava é uma experiência incrível. Lá, eles tem mania de juntar umas 200 pessoas da família que não se falaram uma vez sequer no ano e jogar todo mundo numa festa ao som do “”É o tchan””. Natal, no meu conceito, é algo que você aproveita com a sua família, em casa, com uma ave morta na mesa. Para os religiosos rola até uma oração. Acho que dá para entender a frustração.

Frustração maior ainda é saber que o Natal, cujo sentido maior é o nascimento de Cristo, tem um grande significado para os cristãos do mundo, se tornou um motor do consumismo. Talvez isso não seja um problema, pois a economia precisa desse tipo de aquecimento e tal. Mas e Jesus Cristo? Quem canta parabéns para ele? Alguém cita o nome do rapaz, à meia noite, no meio daquele monte de abraços? Acho que não. Talvez Jesus também não ligue para isso. Talvez ele pense: como pude me sacrificar por essa gente?

Voltando ao aspecto dos presentes. Até os 12 anos eu adorava abrir presentes debaixo da árvore de Natal. Hoje em dia eu mesmo os compro, um mês antes. Há algum tempo eu pergunto, o que, afinal, estamos comemorando? A resposta padrão não me é suficiente. Ao mesmo tempo, me recuso a não participar, não sei se por respeito às outras pessoas, ou até por falta de determinação. Finalmente, só posso dizer uma coisa: FELIZ NATAL! “

Uma Conversa com Veríssimo

Participações especiais são bastante comuns em crônicas. Elas são boas porque além de emprestarem brilho ao texto, não cobram cachê nem dão furo. Sempre aparecem na hora e nunca dão vexame – a menos que o autor queira. É claro que nem todas as aparições são por interesse. Na maioria das vezes o que fala mais alto é a satisfação em receber o visitante, quase sempre um assíduo frequentador da cabeceira do anfitrião. No meu caso, a presença constante no criado mudo é o Veríssimo.

O problema é que os convidados ilustres só aparecem em crônicas alheias depois de mortos. Lógico que eu não insistiria em ter o Veríssimo aqui se ele precisasse morrer para dar as caras. Longe de mim. Essa coisa de visita póstuma nada mais é que uma convenção, um jeito que os autores vivos encontraram para não sofrer represálias pelas palavras que colocam na boca dos outros. Só convidam quem não pode reclamar. Apesar de o Veríssimo ainda estar vivo ( e eu torço para ele continuar assim por muito tempo ), acho que não corro perigo. Primeiro porque a chance de ele descobrir esse texto é nula; segundo, por causa do seu notório laconismo. Não é fácil arrancar uma palavra dele, e não vai ser uma bobagenzinha dessas que vai conseguir. Então, como estou abaixo do radar, vou receber o Veríssimo nessa crônica.

Minha primeira providência é criar as condições para a conversa acontecer. A situação tem que ser pelo menos um pouquinho verossímil para funcionar. Deixa eu ver… Posso estar em uma dessas livrarias de bairro, fuçando, quando o Veríssimo entra. Hum, não. Forçado. Quem me conhece não ia acreditar. Também não dá para simplesmente topar com ele na rua, do nada. Até porque ele só viria para São Paulo por causa de compromissos profissionais e, nesse caso, se a gente se cruzasse por aí ele não teria tempo para ficar conversando. Ainda mais com um estranho. Mesmo se eu me fizesse esbarrar com o Veríssimo mais tarde, quando ele estivesse menos ocupado, não daria muito certo. Qualquer tentativa de abordagem no meio da rua provavelmente ia acabar com ele correndo ( compreensivelmente ). Encontro casual não funciona. Bom, pelo menos ele está em SP. E a noite paulistana é obrigatória, especialmente para quem está só de passagem e gosta de jazz. Legal. Isso é plausível.

Como eu também gosto de um jazzinho, vou para esse agradável bar-restaurante com música ao vivo e me instalo. A minha namorada está atrasada, aliás, muito atrasada, como descubro depois de uma rápida ligação. Enquanto espero a Coca, dou aquela olhada em volta para mapear o ambiente. Com quem me deparo? Ahá! Com o Veríssimo. Pronto. Estamos no mesmo lugar. Agora é só fazer ele falar.

Não deve ser tão difícil. Esse jeitão quieto do Veríssimo deve ser apenas uma fachada para manter os inconvenientes longe e deixar o Jô se entrevistar à vontade . Ele deve ser mais falante do que dizem. Seja como for, ainda preciso de alguma coisa interessante para falar. Tem que ser um comentário inteligente, instigante. Mas não posso me esquecer de que ele está ali para relaxar. Melhor não falar de trabalho. Nem do meu, porque estou sem. Eu estava bem perdido, até que o garçom apareceu com o assunto: comida. Sem dúvida um tema empolgante para nós dois. E ainda dei sorte, porque o prato que ele pediu não é sofisticado. É só uma travessa de coxas empanadas. Pequenas coxas, na verdade. Não deve ser de galinha. Deve ser… deve ser… Já sei: galeto! Galeto empanado.

Com o assunto na manga, tudo o que tenho a fazer é mudar para a mesa ao lado da dele e arrumar um pretexto para puxar papo. Fácil. Peço o cardápio e o examino minuciosamente. Não achei o tal do galeto empanado no menu, mas não tem importância. Deve ser um daqueles pratos secretos que só os habitués e as pessoas que o chef quer agradar conhecem. Essa era a deixa:

– Isso aí parece estar ótimo. Mas não estou achando esse franguinho, quer dizer, galeto empanado aqui no cardápio….

Nada. Talvez sendo mais direto:

– Como você descobriu esse prato?

Dessa vez consegui uma resposta. Um leve “não” com a cabeça. Percebendo meu apuro, um garçom veio me socorrer. Prestativo, apontou no cardápio o prato que eu não conseguia encontrar. Agradeci e pedi um. No fim das contas, minha conversa com o Veríssimo não passou do meneio desaprovador. Acho que para ter direito a algumas palavras eu preciso pelo menos aprender a distinguir perna de rã de coxa de frango. Pelo menos.

Sonho de bandido

O racismo em uma visão invertida

Tem me entristecido a ausência de maneiras criativas de dizer “para você não há lugar aqui”. Mas desta vez vai. Há de ir. Não entendo por que tantos “não”. Afinal, minha trajetória tem sido exemplar ao longo dos anos. Invejável até. Estudei os grandes contrabandistas albinos do início do século (os temidos “Ultra-alvos”). Pesquisei a fundo e visitei os mausoléus da gang de Joseph, o Esbelto. Minhas práticas da arte gerson-picaresca estão num degrau avançado. Tanto é que nas terras da grande gente honesta e trabalhadora da cidade – o extremo-sul e o leste – minha presença não tem sido festejada. Pelo contrário. Não desejo mais continuar junto aos meus de nascimento. O lugar aqui, com os brancos de origem, parece ser mais gratificante. É verdade que há pouquíssimos de pele escura nos mais festejados assaltos, mas comigo a participação há de ser disseminada. Lutarei por isso.

Enquanto minha vitória na Normandia não vem, me contento com as observações e sonhos. E audições também. “Bebendo e aprendendo, meu filho”, dizia embriagado o traficante de narcóticos muito branquelo e de longas barbas também brancas. Frente ao calor, usava as mesmas peças vermelhas invernais. Na grande trouxa que carregava às costas, injetáveis, aspiráveis e fumáveis de toda a espécie. Mas que inveja eu sentia! O que não me sujeitaria a fazer para me tornar pilantra de tal categoria? O meu desapontamento era causado, entretanto, pela discriminação das organizações criminais distintas aos nascidos da minha laia.

– O sangue de sua gente, emendou meu ídolo daquele dia, não é como o nosso. Temos a canalhice subindo pelas artérias, hic!, e descendo pelas veias, isto lhe digo. Sua gente é correta demais. Não dá para este ofício.

De onde viria minha obstinação de encaixar-me ao modus operandi dos brancos? Deve ser razão interna, acredito. Sequer conheci minha mãe, para que tivesse certeza. Contam-me que faleceu dentro de seu automóvel, em uma noite durante meus dois anos. E que a causa não foi um choque de veículos. Somente isso sei. Mas desejaria de fato ver meu pai, ainda mais depois do banquete aos sonhos que me foi oferecido em ocasião recente:

– Deves ter pai branco, Adolfo. Sua cor não é como a nossa, nem como a deles. Ficas num termo intermediário. Como sei de sua mãe que era negra, não resta opção. Concordas?

Meus olhos brilharam.

– Emprego, vida saudável, com privilégios, não há de faltar por estes lados. Nem a você, se preferir continuar entre nós. Estou me convencendo que não é seu desejo. Estou certo, Adolfo?

Meus olhos concordaram.

Irritava-me a vontade desse negro puro em ajudar-me desta maneira. É claro que não desejo ficar entre eles. Em minhas linhas, hei de assaltar dois, três bancos, ao lado de especialistas renomados. Mostrarei que sou forte, que os mulatos merecem chances nas empresas de bandidagem. Porém, se me ver fraco, representarei a mim mesmo, e só. Ajudar os próximos nunca foi virtude de quem penso em seguir. Pelo contrário.

O maior comentário daqueles dias em bares, botecos e adjacências era o anúncio de aposentadoria do Elevadorzinho, um ladrão respeitadíssimo e atuante que vivia na parte sudoeste da cidade. Diziam-me, nunca meus olhos haviam visto, que sua residência era uma fortaleza inatingível na favela Xenonópolis. Para vê-la, era preciso atravessar corredores de pobreza, cercado de habitáculos de madeira com até dois andares, imundos e mal cuidados. Em toda esquina, uma pequena aglomeração. Era o ponto de comércio das traquitanas alucinógenas, ao lado da banca daquela loteria em que se apostava nas espécies da fauna nacional. A propriedade destes pontos, aliás, era de enorme valor. Disputadíssima. Mantida à guerra com os concorrentes. Ouvia-se que ser dono de um bem localizado garantia respeito (ou medo?) de toda a comunidade de brancos que por perto se amontoava.

Voltemos, porém, à casa de Elevadorzinho. Naquela ampla demonstração de falta de recursos, sua residência, é claro, chamava atenção. Era a única que dispunha de algum luxo. A parte exterior, de tijolos bem postos, diferenciava-se e muito da fragilidade das casas da vizinhança. Por dentro, contavam-me, as paredes eram pintadas de branco. Eram poucos os móveis no maior cômodo: um mesa de cerejeira grande, com seis cadeiras estofadas em couro, um sillone colombiano, excessivamente confortável, de frente ao aparelho de televisão, e só. Quartos, cozinha e banheiro também valorizavam o espaço livre e o branco das paredes. Havia o “escritório do chefe”, mas minha fonte dizia que era lugar impenetrável por visitas. No telhado, uma antena das grandes com a forma de tampa de laranja oca.

Comentava-se que Elevadorzinho estava de partida. Para longe. Iria abandonar o crime e viajar o mundo, fazer uso da riqueza acumulada em anos de esforço. E isto abria espaço para uma ampla reformulação na estrutura de empregos de Xenonópolis. Via aí uma chance, pequena, mas era uma chance, de mostrar àqueles homens que eu poderia ser um dos novos componentes da organização. Começaria num patamar modesto, como os novatos o fazem, mas com vontade, e com todos os estudos a que me tinha submetido, as promoções seriam inevitáveis.

Fui me apresentar ao homem da casa luxuosa no velho restaurante La Cocina, no centro. Era uma despedida daquela culinária apetitosa, mesmo que servida em louças e ambiente simplórios.

– Boa tarde, meu senhor, eu disse, não recebendo resposta. Aguardei um pouco. Será que poderia tomar-lhe um instante de atenção?

Desta vez ganhei um olhar como resposta, como se instigasse: “O que quer?”

– Sei que no Xenonópolis estão se abrindo vagas de assaltante de faróis e batedores de carteiras. Tenho um currículo de estudos exemplar, amplamente dedicado aos delitos modernos, sem abandonar os clássicos, e gostaria de oferecer meus…

Fui interrompido por um seco “para você não há lugar lá na favela”. Tentei ainda alguma argumentação, mas em vão. Sentia que minha presença era mal-vinda outra vez. Talvez nunca fosse conseguir um lugar ao sol daqueles homens, a quem tanto admirava. Minhas características inatas impediam o sucesso entre eles, embora sem dúvida tivesse formação e esforços mais significativos do que a maioria. Mesmo assim, custava-me a aceitar que não me aceitavam. E se a justificativa maior fosse a minha falta de experiência prática no ramo? Afinal fora por isso que Bem-Bem quisera Nhô Augusto em seu bando. Precisava de uma oportunidade ao menos. Uns dois ou três comparsas para invadir uma casa rica do leste da cidade. Provaria meu valor.

Passei o resto daquela tarde andando, sem rumo programado. Cheguei em casa logo após o anoitecer. Ainda hesitei algumas horas antes de dormir. Arquitetava alguma maneira nova de ingressar àquela vida tão sonhada. Acabei cochilando no sofá mesmo, sem nenhuma planta em mente que solucionasse meu problema.

Monografia, monotonia e outras manias

Trabalho de conclusão de curso, trabalho de graduação individual, PGE. Enfim, monografia. A experiência nos diz que tudo o que leva nome pomposo fatalmente esconde algo terrível. Exame de densidade de hemácias, por exemplo (que ninguém sabe o que é, mas que eu só faria sob recomendação de um médico muito, muito forte e que ameaçasse o perfeito alinhamento dos meus olhos).

Como se sabe, o trabalho final surgiu nas primeiras universidades européias, no fim da Idade Média, só para sacanear os alunos. Não poderia ser diferente, afinal, a Idade Média é o período de maior sadismo da história, em que foram inventados a vassalagem e o cinto de castidade. Ou você acha que uma monografia serve realmente para alguma coisa? A única função de uma monografia, óbvio, é fazer pressão psicológica sobre o estudante. Ainda por cima (sacanas!), querem que o coitado faça uma apresentação a um pelotão de fuzilamento, quer dizer, a uma banca. E que tenha uma encadernação bonitinha, senão…

Um monógrafo é um ser diferente do resto da humanidade. Todas as demais pessoas têm interesses, vontades, alegrias, decepções, contatos, dores, etcéteras. Mas um monógrafo só tem o seu TCC. Nada mais. Um único tema preenche toda a sua pobre existência:

– E aí, cara, terminou sua monografia?
– Não, estou fazendo ainda…
– Claudiéverson, mas já fazem 3 anos!
– Pois é, estou esperando o tema amadurecer… mas acho que vai ser algo sobre “O Pêndulo Romanesco”.
– O quê?
– De novo não! Não pede pra explicar, não pede pra explicar !!!

Ou então:
– Oi ! Você vem muito aqui?
– N-não, na verdade não venho aqui há 10 meses. Estou fazendo minha monografia, e, sabe como é, não sobra tempo…
– Ahnnn, e sobre…
– Pssssssssssst !!!
– Hein?
– Não fale muito alto!
– Por que?
– Meu orientador não pode saber que estou aqui. Vim escondido. Não aguentava mais escrever aqueles parágrafos rebuscados. E, se ele me pega neste bar, me dá mais 2 bibliografias de castigo!

Felizmente, é muito fácil identificar alguém assim e se livrar de sua monotonia. Na primeira citação das expressões “meu trabalho final”, “orientador” e “banca”, pule fora. Ou você entrará no mundo monotemático do monógrafo.

– Oi, tudo bem?
– Mais ou menos. Tenho que terminar meu TCC.
– Tá… mas vamos bater uma bolinha?
– Não, não dá, porque meu orientador já me avisou que, seu eu não desenvover bem a justificafiva, minha pesquisa não valerá de nada. Além disso, as conclusões que eu estou obtendo não estão lá muito interessantes, e aí acho que vou mudar um pouco o foco.
– Ahnn… e a Patrícia Paola?
– Bom, a gente terminou, porque ela não queria me ajudar a tabular os dados… sabe, tudo fica muito complicado quando nem sua namorada te compreende. Cara, sabe quanto tempo eu parava de escrever meu trabalho só pra ficar com ela? Quinze minutos! Quin-ze-mi-nu-tos toda semana, e a ingrata ainda reclamava!

Monografias causam problemas graves ao cérebro desses pobres estudantes. Seus neurônios formam sinapses que nunca mais serão apagadas, e o monógrafo continua em um mundo rodeado por referências bibliográficas, transparências impressas de última hora, e pessoas que foram esquecidas nos agradecimentos. Alguns deles se curam magicamente, logo após a colação de grau. Outros, entretanto, mantêm as conseqüências dessa monotonia durante muito tempo, e (absurdo!) chegam até a escrever crônicas sobre o assunto. Lastimável, realmente lastimável.

Sombra

Cansado e aborrecido, ele saiu para mais um dia de trabalho. A mesma hora, a mesma rua cheia de gente, a mesma multidão anônima em busca de algo que se perdeu. A sua frente, andava um homem apressado. Olhava a todo momento para o relógio. Era tão incrivelmente diferente, porém igual.

Sem perceber, ele e o outro estavam andando nos mesmos passos largos. As mangas da camisa do outro não estavam dobradas. Ele desdobrou as suas. O relógio do sujeito estava no pulso esquerdo. Ele colocou o seu na mesma posição. O cabelo do outro, impecável. Risca bem feita, sem embaraços. Ele lutou para que o seu ficasse igual. E quando terminou, andavam lado a lado.

Ambos entraram num prédio alto e pomposo. Uma reunião. Ele aprovava qualquer decisão que o outro tomasse, aliás, nem as contestava. Foram para uma festa. Os flashes das máquinas fotográficas lhe proporcionavam uma sensação incrivelmente boa. Almoço com pessoas importantes. Aquilo era como nascer de novo.

Tudo era tão novo e diferente… Logo os dois tinham os mesmos pensamentos. Ele não precisava mais escolher, somente seguia o outro. Era agradável não ter que se preocupar, decidir. Tinha a impressão de flutuar, porém uma força sempre o puxava para baixo. Quando percebeu, seus pés estavam grudados aos do outro. Mas ele não se importava com mais nada. Vivia agora num mundo em que só havia luz.

Lembrou-se que tinha uma família aguardando-o em casa, quis voltar, mas o brilho do novo mundo impedia-o de pensar. Foi para a casa daquele homem. Conheceu sua família, seus problemas, e então quis correr, sair, gritar. E foi aí que ele se deu conta, não passava de uma projeção. Era somente o contorno daquele homem, a luz daquele incrível mundo o atraia, e era essa mesma luz que o prendia. Ele era agora a ausência de luz, era uma imagem negra presa a impassibilidade e conformismo do não saber. Era agora, apenas sombra.

Ele queria pensar, porém não sabia mais quem era. Ele queria correr, porém não comandava mais suas pernas. Ele queria se encontrar, porém não sabia como havia se escondido. Ele queria voltar, porém não sabia como havia se perdido.

O outro foi para o quarto. E ele também. O outro deitou em sua cama. E ele também. O outro desligou a luz. E ele sumiu.

Entre o Céu e o Inferno

O Rock foi colocado entre o céu e o inferno. Quantas vezes não foi dito que ele é uma ‘coisa do Demo’?? Hoje em dia falam também que ele é ‘coisa do Senhor’.

A nova febre agora é o Rock Gospel. Sim, o Rock de Deus. Um dia um moleque trouxe aqui em casa um disco de uma banda chamada Mortification.

Eu odeio Death Metal, mas fui gentil com o moleque e parei para ouvir. Era uma banda onde o vocalista urrava mais que um cão louco com raiva. Quando ele me disse que era uma banda de White Metal e explicou o que era isso , “o contrário do Death Metal com as letras falando de Deus”, fiquei estarrecido de vez.

Quem diria também que uma banda que roda demais nas Fm’s , onde o tal do vocalista é um cover piorado do Renato Russo, cantaria ‘aleluia’ tentando usar aquele mesmo timbre de voz que algum dia o Renato usou para cantar algo sobre ‘um general que ficava atrás da mesa com o cú na mão’ ?.

É uma maravilha imaginar que o Rock hoje em dia é que nem uma bolinha de tênis. Uma hora jogada para o lado do Senhor e logo em seguida rebatida para o lado do ‘Demo’…

Mas afinal, Rock é coisa do bem ou do mal? As pessoas que fazem o Rock são do mal ou do bem?

Vou pegar um exemplo clássico do nosso amigo Ozzy Osbourne, vocalista da ‘ternura’ de banda que é o Black Sabbath. Aquela velha reputação que o quase sexagenário Ozzy Osbourne sempre quis ter de um enviado maligno que come morcegos e jorra sangue pela boca , num espetáculo circense, teve um golpe enorme nos últimos dias. Tudo porque o mesmo disse que começou a freqüentar a igreja e ainda parou de fumar maconha depois dos atentados terroristas de 11 de setembro.

Será que a pessoa Bin Laden é mais temerosa do que o próprio Satanás a ponto de fazer um Ozzy se converter? Ou a força da palavra de Bin Laden é tão forte que conseguiu o que inúmeros enviados do Senhor tentaram e não conseguiram : levar o Ozzy para a igreja por causa do medo?.

Uma vez na casa de um velho amigo, o Julião, vi uma versão da capa de disco em vinil do Black Sabbath mais sinistra e medonha da minha vida . Era a do disco ‘Born Again’ . Detalhe : nesse disco ‘Born Again’, o vocalista era o Ian Gillian (Deep Purple). Ele que apareceu numa das ‘centenas ‘de trocas de vocalistas na carreira do Sabbath.
A capa do ‘Born Again’ do Julião estava toda roída nas pontas, deixando a forma do vinil em toda a sua volta . Perguntei o que tinha acontecido e ele me disse :” foi uma ratazana que roeu”.
Outro detalhe : ‘Born Again’ é aquele disco que tem um desenho que lembra um felino gordo com chifres e ‘rabo de seta’ sugestivos.

Será que esse acontecimento com a capa do disco foi uma obra das forças do mal? Garanto o seguinte : o que restou da capa do disco é a obra-de-arte mais sinistra que eu já presenciei na minha vida. E era a capa de disco mais fedida também : uma mistura de bolor, xixi de rato, veneno e afins…

Bem Rock n’roll mesmo.

Uns 6 anos atrás eu assisti uma banda nacional de Heavy Metal , com os caras no palco cheios daquela ‘velha atitude Headbanger’, bem infernal mesmo. Eles faziam bem o que mandava o script para a rapaziada fã e vestida de camisetas do Iron Maiden, Metallica , Sepultura e similares.

Os caras da banda interpretaram muito bem aquelas músicas pesadas e energéticas, com todo o seu visual negro típico. As músicas tinham letras que destacavam temas sobrenaturais, algumas com referências a anjos negros e também de figuras que representavam os seres das profundezas. A performance muito marcante da banda dava a impressão também que eles vieram do mesmo lugar.

Após o show acabei nos bastidores conhecendo melhor os caras e presenciei um outro mundo, esse bem real.

O baixista eu percebi que estava muito triste, cabisbaixo, com os olhos molhados… Descobri que ele tinha brigado com a namorada e estava em trapos arrependidos, louco para se abrir.

O baterista, com o rosto cheio de espinhas denunciando a sua adolescência , estava eufórico e só tocava num único assunto: o vestibular que iria prestar no final do ano, as provas que tinha perdido por causa dos shows ,o vestibular que iria prestar no final do ano, como era difícil estudar e o vestibular que iria prestar no final do ano.

O tecladista, muito tímido, quase não falava uma palavra. O seu pai, que era empresário da banda, era o contrário com o seu cheiro de cachaça pura. Era impossível entender alguma palavra que ele dizia de tão mamado e agitado que estava. De repente, conversa vai e conversa vem , o garoto de 19 anos apareceu com a sua inseparável garrafinha de água mineral na mão e, envergonhado , falava para ‘o véio cinquentão’ : “Pô pai, manera ae”.

Na internet eu vi outro dia uma noticia, num site de uma cidade do interior, que um show Gospel terminou em pancadaria. O vocalista da banda acabou brigando com algumas pessoas da platéia e acabou saindo com o rosto ensangüentado pelo belo corte na testa. Ele foi atingido pelo seu adversário de luta com um microfone, o mesmo que tinha acabado de usar para dizer palavras de paz para a rapaziada presente.

Também de maneira curiosa, entrei no site de uma banda nova do rock britânico. Uma banda chamada Simian. O site, muito bem feito, tem várias imagens de pentagramas e desenhos medievais de bodes e afins. O som da banda? Tão fofinho e inofensivo como o do Belle and Sebastian.

Bem… é isso… o Rock vive entre o céu e o inferno. O tempo todo. Será que ele ‘é uma coisa do Demo’ ou ‘uma coisa do Senhor’?. Eu sinceramente não sei. A única coisa que eu sei é que é bom demais !!!

O Rock para mim é algo inseparável na vida. Sou um amante praticamente desta religião.

O Box do banheiro

Quase a metade da minha vida eu usei óculos. Meus pais usam óculos. A minha irmã usa óculos. A maioria dos meus parentes usam óculos. Não havia muitas chances de escapar da genética. Maldita genética que tirou todos meus sonhos de ser alto e ter olhos claros! Por causa dela usei óculos desde a sétima série do primário. Mas nunca achei tão ruim usar óculos. Tirando as vezes que amassava a armação jogando bola ou tinha que entrar na água sem enxergar nada.

Antes meu mundo era embaçado. As luzes possuíam um brilho especial. Nunca havia notado que precisava de óculos. Viva bem, brincava com os amigos, assistia a televisão, estudava, lia, jogava videogame normalmente. Sim, era uma visão míope, mas como ainda não sabia o que era ser míope, a considerava normal. O meu próprio mundo através de 1 grau de miopia. Em um fatídico dia, resolvi de brincadeira colocar os óculos novos de um amigo. Meu mundo caiu! Nada do que via era verdadeiro! As luzes na verdade não são embaçadas! Os gráficos do Pac-Man que jogava eram muito mais mal feitos que imaginava! Eu era um deficiente visual!

Após essa descoberta tive que fazer meus primeiros óculos. Tudo era novidade! Não passava uma placa sem ser lida! Era um novo Miguilim surgindo. A sensação era maravilhosa! Um mundo inteiro a ser descoberto, explorado. Vivia naquela casa há anos, mas para mim era uma casa nova. Os lugares que passava todos os dias não eram mais os mesmos. Aliás, eram os mesmo, mas não para mim. Tive que reaprender a ver as coisas. Substituir as imagens da minha memória por imagens nítidas. Apagar a visão embaçada da velha árvore da esquina, que possuía na minha mente, e substituir pela visão clara e límpida através das lentes de vidro.

Após anos usando óculos, nada mais era novidade. Já havia desmistificado tudo que acreditava como verdadeiro mas que na realidade era míope. Agora sabia exatamente a diferença entre o mundo míope e o mundo nítido. Nada mais me surpreendia. O mundo nítido era cotidiano. O mundo míope também. Não chocava mais a transição entre os dois. Para cada objeto no mundo míope sabia exatamente o que esperar do correspondente do mundo nítido. Até o dia que coloquei lentes de contato! Não exatamente as lentes de contato que me surpreenderam, mas graças a elas que descobri o último reduto do mundo míope intocado pelo mundo nítido: o Box do banheiro!

Logicamente não se toma banho de óculos (embora algumas vezes já tenha acontecido por descuido, mas é uma situação ridícula demais para se contar que o fez), o que torna o Box do banheiro um lugar embaçado por natureza (e pelos vapores d’água). E eu na minha confiança adquirida através dos anos resolvi entrar sem medo no banho com a lente de contato pela primeira vez. Foi quando meu mundo caiu novamente! O Box do banheiro não é como eu imaginava! Não está certo! O Box é embaçado! Por que está tão nítido? Os meu pés! Estou conseguindo ver bem os meus pés! Consigo ler o rótulo do shampoo sem nenhum esforço! Vejo as pequenas rachaduras no azulejo nunca antes notadas! E eu que esperava nunca mais ser pego de surpresa. Achava que não havia mais nada que pudesse descobrir, desvendar. Ingenuidade minha acreditar que a sua visão de mundo é a única existente. Atualmente operei a minha vista, mas ainda espero encontrar vários Boxes de banheiros pela vida.

Novela da vida quase real

Carlos Miguel chega ao seu apartamento cansado do trabalho.

– Samanta, onde você esteve a tarde inteira? Por que não buscou Pedro Augusto no colégio?
– Eu não sou Samanta, me chamo Gabriela.
– Onde está Samanta então, sua impostora?
– Está com Felipe Daniel! Eles são amantes.
– Oh, não! Deus, por que eu, por que eu?
– Você mereceu Henrique Antônio!
– Epa, espera um pouco. Eu não me chamo Henrique Antônio! Meu nome é Carlos Miguel.

Nisso ele confere a identidade para ver se era isso mesmo.

– Se você não é Henrique Antônio, com quem está meu marido?

Os dois se dirigem ao quarto às pressas. Samanta e Henrique Antônio no maior amasso.

– O que é isso Henrique Antônio, seu cafajeste!
-Samanta sua piranha!

– Não, Carlos Miguel. Não! Seja forte. Eu não sou Samanta. Sou Felipe! E o nosso filho Pedro Augusto é adotado. Todos esses anos e você nem reparou que eu tenho um pênis.

Henrique Antônio também não tinha reparado e começa a vomitar na beirada da cama. Carlos Miguel atônito. Gabriela em choque se intromete.

– O que está havendo, quem sou eu então?

Ela olha desesperada a carteira de identidade e descobre que seu nome não é Gabriela, é Pedro Augusto. É filha, melhor, filho adotivo de Carlos Miguel com Samanta, quer dizer, Felipe. Ah, ela tem um pênis, também. Ela olha para Carlos Miguel:

– Papai!

Ao ver que sua esposa Gabriela, que na verdade é Pedro Augusto – filho adotivo de seu rival – e que tem um pênis, Henrique Antônio volta a vomitar.

Carlos Miguel tem um súbito de iluminação e acende a luz do quarto que estava na penumbra. Descobre que Gabriela/Pedro Augusto se transformou em um guinomo e Felipe Daniel/Samanta e Henrique Antônio tornaram-se gremilins. Ao verem a luz pulam todos pela janela e morrem na queda. Em desespero e incrédulo, Carlos Miguel volta a olhar a sua identidade em busca de uma identidade. Estava escrito: Josildo Oripo da Silva.

– NNNÃÂÂÂÂÂÂOOOOOO!!!!

A polícia chega e prende Josildo por homicídio culposo.