Arquivo de janeiro, 2002

Cinco Dedos de Prosa

– Não tem nada para beliscar?
– Não, desculpa. Esqueci de passar no super.
– Sem problemas. Mas me fala… Como anda a vida?
– Ah, tudo indo, né?
– Naquelas, pelo jeito…
– É que o dia hoje foi pesado.
– Acontece.
– É.
– Hehehehehe
– Que foi?
– Nada. Só tava lembrando quando você encanou que seria artista plástico.
– Hah! Eu lembro. Achava que era o jeito mais fácil de ver mulher pelada…
– E você ainda inventou de ter uma musa.
– Verdade! A Ciça! Pena que ela nunca topou posar para mim.
– Nem ela, nem ninguém.
– Bom, fazer o que, né?
– Hahahahaha… verdade…
– Não sei como você lembrou disso. Faz um bom tempo, não faz?
– Uns quinze ou dezesseis anos
– Caramba! Tudo isso?
– É.
– Puxa…
– …
– A gente não se via há um tempão também…
– Mais ou menos esse mesmo tempo…
– Fico contente de ter cruzado com você.
– Eu também.
– Não, é sério. Você nem sabe.
– Bom, agora que a gente se esbarrou, é só você não sumir de novo.
– Ih, fica tranquilo… Não vou sumir, não!
– Só quero ver.
– Juro! Além do mais, a gente tem muita conversa para colocar em dia.
– Ahã.
– …
– …
– Olha, já é meio tarde, e eu preciso acordar cedo….
– Tudo bem. A gente continua depois.
– Legal.
– Combinado.
– Bom, então é isso… Até amanhã.
– Boa noite.

Ele ainda ficou um tempo olhando para a meia que vestia a sua mão. Até que ela era engraçada. Tinha bigode, óculos, e até um chapéu. Depois tirou-a devagar e guardou-a em uma caixa de sapatos. Mas só até o dia seguinte.

Maíra e o Estojo

Mais uma daquelas festas chatas. Um monte de gente semi-desconhecida com papos desinteressantes. E sem poder beber, pois estou dirigindo. É duro ser responsável. Não estou com um mínimo espírito aventureiro para arriscar alguma aventura romântica hoje, ainda mais depois dos foras das últimas vezes. Acho que não levo muito jeito para o cargo de conquistador. A melhor coisa a se fazer é sair de fininho antes que alguém perceba e emende um “mas já está indo?” ou “a noite ainda é uma criança”.

Peguei a chave do carro e quem eu vejo em minha frente? Maíra. Linda como me lembrava. Aliás, muito mais linda do que eu poderia lembrar, pois a última vez que a vi ainda estávamos na quinta série. Os anos realçaram sua beleza de mulher, mas ainda possuía aquele ar jovial, quase moleque. Estudamos juntos da primeira até a quinta série, quando acabei mudando de colégio. Éramos amigos, pois ela era a única garota que brincava com os meninos. Jogávamos bola e brincávamos de polícia e ladrão. Para ela não havia aquela besteira de brincadeira só de meninos ou só de meninas.

Na quinta série é que tudo começou a dar errado. Ela começou a gostar de meninos e nós meninos começamos a gostar dela. Também, quem resistiria àquela doce loirinha de olhos azuis? Mas como todas as meninas, ela não dava bola para gente, só queria saber dos garotos mais velhos da sétima série. Dizia que éramos muito imaturos. Eu, para provar toda minha maturidade e chamar sua atenção, roubava seu estojo e saía correndo pelos corredores do colégio com ela me xingando atrás de mim. Nunca tive a oportunidade de dizer o quanto gostava dela.

Para saber o quanto ela me marcou, posso fazer algumas comparações. Digamos assim, se o Don Juan a tivesse conhecido, ele seria monogâmico até hoje; se o Humphred Bogart em Casablanca a tivesse conhecido, ele não teria ficado com o comissário de polícia no final; se David Cronemberg a tivesse conhecido, só dirigiria comédias românticas interpretadas pela Meg Ryan; se Roberto Carlos a tivesse conhecido, trocaria as músicas sobre as gordinhas, as mulheres de quarenta e as de óculos por músicas sobre loirinhas de olhos azuis; se o Stephen King a tivesse conhecido, só escreveria romances açucarados. Acho que deu para pegar o espírito.

O importante é que ela está em minha frente agora. É a oportunidade que sonhei em toda minha vida. Sou muito mais maduro que na quinta série, não roubo mais estojos de ninguém e estou mais desinibido que antes (apesar das minhas pernas ainda tremerem e sentir aquele friozinho na barriga sempre). Mas o que eu falo para ela? “Oi! Lembra de mim? Eu roubava seu estojo na quinta série.” – Essa é provavelmente a frase mais babaca que alguém poderia falar!

Ela me viu e está sorrindo para mim! Ela está vindo em minha direção! Meu Deus, o que eu faço? Não estou acostumado com garotas lindas como ela vindo desse jeito falar comigo. Será que tem algum buraco no chão para eu enfiar minha cabeça?

– Oi! Lembra de mim? Você roubava meu estojo na quinta série! Sou eu, a Maíra! (Caramba, acho que foi a frase mais poética que escutei na minha vida! Agora responda a altura, algo do tipo: “Claro que lembro, nunca me esqueci de você. Aliás está mais linda que nunca”.)

– Ah-Bah-Buh-Nah-Uuhnn… (??? O que foi isso que disse???)

– Sabe que eu sempre lembro de você? A gente se divertia naqueles tempos! (Ela se lembra de mim! Isso é um bom sinal. Agora é só conseguir balbuciar algo mais que monossílabos. Que tal “Pois é, como nos divertíamos! Que bom que nos encontramos! Senti sua falta”.)

– Ih-Noh-Ah-Buh-Bih-Gah… (Minha boca não responde aos meus comandos!)

– Coincidência encontrarmos na saída. Sabe como é, estava de saco cheio da festa. Sabe quando tem um monte de gente semi-desconhecida com papos desinteressantes? (Ela pensa a mesma coisa que eu! Estou apaixonado! “Eu te amo, quer casar comigo agora?”.)

– Eeh-Iiic-Tah-Mah-Ooh… (Eu já sou um homem maduro, não posso travar desse jeito por causa de uma mulher!)

– É, acho que você não está muito para conversar hoje, né? Desculpe por te incomodar. Já estou indo. Foi bom te encontrar. (Não! Não vá! Fique mais um pouco! Rápido, implore, peça que ela fique! Fique de joelhos, chore, monte um escândalo!)

– Buh-Gah-Guh-Bah… (como sou idiota!)

– Bom, a gente se esbarra por aí. Até mais então. (O telefone! Peça pelo menos o telefone!)

– Guh-Nha-Boo… (Burro! Burro! Burro! Burro!)

Ela se foi. E não consegui falar o tanto que gostava dela. Mas tudo bem, da próxima vez que a encontrar estarei muito mais maduro, desinibido e formulando frases inteiras! Quem sabe eu até roube o seu estojo?

Cores

“Desde a Pré-história o ser humano se preocupa com a comunicação, seja ela verbal, por gestos, por pintura, por sinais de fumaça e por aí em diante. Um dos fatores que desde o princípio tem ajudado os homens na arte de comunicar e criar novas formas de comunicação é a cor.

A cor ajuda muito. Basta reparar na diferença entre filmes e programas de TV em preto e branco e coloridos. Com o uso das cores, as possibilidades visuais são muito maiores. É possível criar mais detalhes e chegar mais perto da realidade. Existem muitas cores, umas primárias (vermelho, azul, amarelo, branco), outras secundárias (verde, laranja, preto, cinza…), sem contar as milhares de variações dessas já citadas.

O ser humano é um dos animais que mais consegue enxergar cores e tonalidades diferentes, milhões delas. Essa característica nos possibilita uma visão incrível do mundo em que vivemos, pois a natureza na qual vivemos, é composta dos mais coloridos seres (flores, borboletas, pássaros, etc).

O mundo das cores parece ser algo muito definido e até acomodado; permaneceu por um tempo intocado. Era apenas aperfeiçoado com a criação de novas tonalidades e misturas. Porém, toda essa tranqüilidade se foi com um novo advento do mundo moderno, um advento maligno devo acrescentar: o esmalte de unha!

Isso mesmo, o esmalte de unha é a oposição radical do mundo das cores. Um contestador feroz e impiedoso da atual ordem. Seus argumentos não são dos melhores, eles dizem que as cores atuais têm nomes com pouco sentimento, nomes frios que não correspondem a seus pares naturais.

Você pode até se perguntar, qual o problema com as cores do esmalte? Qual o grande prejuízo para a humanidade? Para variar, não é a humanidade que sofre com esse problema, e sim os homens:

– Ahã, não viu meu esmalte novo?
– Não, puxa! Que bonito esse branco!
– Não é branco, seu grosso insensível!
– Não??
– É gelo claro!
– Ahhhh! E qual é MESMO a diferença?
– Olha, você não faz meu tipo MESMO, tá. Tchau!”

Viagem

Primeiro foi o sol. Aquela luz que era luz tamanha que olho nenhum suportava, só alma. Aquele calor que obrigava meu rosto a ficar vermelho sem que eu tivesse vergonha, a menor vergonha de nada. Um calor que me despia de roupa, de medo. Que desidratava todas as minhas inseguranças.

Depois foram as nuvens. Cachorros, gatos, montanhas, amantes. Todos flutuando na minha frente, contando histórias, devassando suas vidas, convidando a novas jornadas. Aquele monte de ar palpável, de algodão voador, de escultura de anjo olhava pra mim e me provava que o céu era possível.

Logo após foi o vento. Ah, o vento. Carinho, prazer, abraço, força. Tudo num só elemento. Eu sorria e ele me envolvia. Eu fechava os olhos e ele soprava mais forte meu rosto (talvez para eu não esquecer que ele estava por lá). Eu abria os braços e ele mexia nos meus cabelos. Brincava com meus cachos, criava nós que chegavam em minha cabeça e que me deixavam quase sem sentido.

Naquele instante o vento foi homem. Naquele instante o vento foi meu.

Daí veio o chão.

ELA

Ela era linda! Seu perfume invadia o corredor por onde passava. Todos notavam. Todos sentiam. Olhar para ela ativava os hormônios, os sentidos!

De longe, era a mais graciosa e elegante figura que já se viu na 8ª série. Morena, olhos castanhos como duas pedras de bálsamo inglês. Nunca vi um bálsamo inglês, mas deve ser lindo! Seu cabelo sedoso. Cheiroso.
Eu, um pobre coitado. Mal cabia nas minhas próprias roupas. Coisa de adolescente que cresce mais rápido que o tempo livre para as compras. Era um sujeito comum. Tomava banho todo dia e ia pra escola, mas o perfume dela era mais forte. Não havia quem não notasse. Se por acaso deixasse cair o lápis …….. Todos em um só movimento. Abaixavam e pegavam o pobre coitado do lápis. O lápis dela!

De certo, muitas notas foram diminuídas pela falta de atenção na aula. Era impossível olhar para a lousa. Não havia matemática, português, nem educação artística que desse conta de intererssar aos caras como nós. E se ela sentasse na sua frente?! É ……… na minha frente! Eu bem que me esforçava nos estudos. Mas era covardia. Imagine como acelerava o meu coração só de ouvir sua voz se dirigindo a minha pessoa – carinhosamente. Pedindo a borracha empresatada. Borracha é uma coisa que tem um valor muito pequeno quando se é jovem, serve mais para munição nas guerrinhas de sala de aula. Mas eu tinha muitas. Tinha tantas quanto ela precisasse. Imagina se eu ia deixá-la sem a borracha?! Nem pensar. Ela era minha inspiração diária. Era ela que me fazia ir à escola. Ela era a minha “garotinha ruiva” !!!!!!!!!

É. Mas o dia mais triste da minha vida foi quando ela me convidou para sair. VOCÊ PODE IMAGI………… calma. Ela-me-convidou-pra-sair! Você sabe o que é isso para um garoto de 14 anos? Tirando a gagueira e os cinco minutos de mudez posteriores, acho que eu acabei aceitando, dizendo sim ou coisa parecida. Não lembro. Sei que no outro dia estávamos nós tomando um sorvete ………… olhando as estrelas ……… É, olhando as estrelas (a sorveteria tinha teto sim. Não estrague o momento!)! Olhando as estrelas ………… estava tudo indo muito bem, nem podia acreditar. Eu estava fazendo tudo certinho. conversamos um pouco para tentar nos conhecermos. Modo de dizer. Eu conhecia cada parte do corpo dela. Cada perfume que ela usava. O cheiro do cabelo. As roupas que ela usava. Era a garota perfeita.

Mostrei as constelações da Ursa Maior, as Três Marias, a estrela de Belém. Contei para ela todas as histórias que eu conhecia até que cheguei na lua ( modo de dizer). A lua é o ponto estratégico de todo encontro romântico. Não é à toa que é a madrinha dos enamorados. Aquele ponto brilhante no céu exerce um fascínio milenar sobre nós que chega à beira do inexplicável. Ia ser na lua que eu finalmente tentaria algo inédito no mundo. Falei nas sombras do coelho e no lado negro da lua. Contei todo o folclore de São Jorge e o dragão. Atenta a todos os detalhes, ela olhava fixamente para o satélite. Era esse o momento. Minhas pernas tremiam. Fui me aproximando como quem não quer nada. Meu braço já estava abraçando todo aquele corpo de mulher. Fui em direção a sua lânguida boca. Úmida. Entreaberta. Foi quando ela deixou de olhar para cima e virou em minha direção. Olhou-me nos olhos. Era o meu momento. O que procurei por anos. O momento que só havia nos filmes, ou nos livros. Quando minha boca aproximou-se da boca da mais perfeita garota da escola, ela sussurrou:

– Você acha que algum dia ……………………………………. São Jorge vai voltar para a Terra?

Vitória Pessoal

Ivan sempre foi um cara muito tímido. Daqueles que precisam sentir um fio de reciprocidade para soltar um simples sorriso, um “alô” ou qualquer gesto desse tipo.

Por conta dessa timidez, muitas vezes era visto com antipático: “Nossa como o Ivan é metido! Passa e nem olha na nossa cara”. Mas era timidez, pura timidez. Na verdade, ele implorava em pensamento para que as pessoas dessem qualquer sinal para que ele conseguisse mostrar sua simpatia.

Com as mulheres então, era catastrófico. Jamais conseguira abordar uma desconhecida, por mais que desejasse. Ficava olhando, quase com idolatria, os conquistadores que conseguiam conversar com uma garota qualquer, com a fluência de velhos amigos. Sonhava em conquistar uma mulher deste modo, como se isso fosse algo realmente impossível.

Mesmo após anos de auto-análise, ele nunca conseguiu descobrir se seu bloqueio tinha como principio um orgulho incontrolável, ou medo de rejeição. “E se ela começar a trocar segredinhos a meu respeito com a amiga, e ficar rindo da minha cara?! Não vou agüentar!”

Um certo dia, por acaso do destino, Ivan caminhava sozinho pela rua. Tranqüilo. Com uma serenidade que não experimentava há muito tempo. Resolveu entrar num bar e lá, antes de escolher um local para sentar, viu numa única mesa, cinco garotas conversando, desacompanhadas, lindas e bebendo drinques diversos. Poucas situações amedrontariam mais o pobre Ivan como: Mulheres, várias, juntas, rindo, sob influência alcoólica, prontas para acabar com qualquer um que ousasse a se aproximar. Principalmente um tímido confesso como ele.

Normalmente Ivan escolheria um local onde pudesse observá-las da maneira mais discreta possível, para que, em eventuais olhares de soslaio, pudesse checar se não estaria sendo alvo de piadinhas e dos pavorosos risinhos cúmplices de fofocas femininas.

Porém, nessa noite, ele fez questão de se sentar de costas, como se tivesse conseguido abstrair seus sentimentos, deixando para trás o orgulho e o medo. Por mais de uma hora, Ivan ficou sentado, curtindo seu uísque, sem se preocupar com olhares retalhadores e jocosos.

Quando estava quase se levantando para ir embora, Ivan viu descendo do ponto de ônibus em frente ao bar, um simpático vendedor de rosas. Um senhor negro, grisalho e de sorriso contagiante que se aproximou do bar, e foi passeando de mesa em mesa, na esperança de efetuar uma boa venda.

Ao ver Ivan, somente sorriu e com uma leve meneada de cabeça, ameaçou a se despedir, pois sabia que solitário rapaz não teria para quem oferecer uma de suas belíssimas flores. Antes que conseguisse se virar, Ivan fez um discreto gesto com a mão, e com um sorriso de criança fazendo coisa errada, pediu para que o vendedor de rosas entregasse uma rosa para cada uma das senhoritas há umas 5 mesas atrás da sua, com uma condição: total anonimato.

O senhor levantou levemente a cabeça, identificou a mesa a que o rapaz se referia, sorriu, recolheu o dinheiro que já estava sobre a mesa e apenas disse – “Parabéns meu rapaz, conheço poucos homens capazes de fazer o que está me pedindo”.

Ivan sorriu, e pediu para que o senhor se dirigisse ao bar e conversasse um pouco com o barman antes de completar sua tarefa. O vendedor seguiu as recomendações do rapaz, e ficou no bar a espreita de um sinal para que entregasse as flores. Ele já fazia isso há mais de 30 anos, mas desta vez estava ansioso, até um pouco nervoso para saber o que aconteceria nesse episódio. Sua experiência de vida o garantia que aquela não seria uma situação comum. Os homens de hoje em dia já não agiam mais assim. Esse garoto tinha algo de especial.

Alguns minutos de espera, e finalmente ele decidiu entregar as rosas. As garotas estavam tão empolgadas e preocupadas com suas próprias estórias que não tinham percebido a entrada do senhor no bar, quanto mais à sua aproximação. Todas se sentiram extremamente enaltecidas. Não estavam acostumadas a serem abordadas por homens que não fossem munidos de frases feitas e de uma charla batida e típica dos conquistadores atuais. Queriam muito saber quem eram os 5 homens capazes de um gesto tão simples e bobo, mas ao mesmo tempo tão raro nos dias de hoje.

Ficaram ainda mais surpresas ao saberem que não eram 5, mas apenas 1 homem que havia provocado um terremoto naquela que era apenas mais uma saída feminina descompromissada.

Apesar da promessa, o velho vendedor não se conteve ao ver o entusiasmo das garotas, e encobrindo sua mão com o próprio corpo apontou na direção da mesa onde estava o culpado pelas rosas que acabaram com um papo que parecia hermético e refratário a qualquer interferência externa.

Como numa cena de cinema, ele se despediu e saiu da frente da visão delas, descortinando a paisagem para que finalmente pudessem saciar sua curiosidade.

Na mesa do tímido Ivan, a cadeira ainda estava afastada. Podia-se ver algumas notas de 10 reais, a conta, e uma rosa deitada sobre o dinheiro.

As garotas, o vendedor e o barman trocaram olhares, como se tivessem perdido alguma parte da história, como se algo tivesse faltando. Após alguns segundos, a frustração começou a dominar o ambiente. Ninguém falava mais nada, ninguém ria.

Há alguns quarteirões dali, um jovem e tímido rapaz caminhava sorrindo, assobiando, realizado por, na primeira vez em toda sua vida, ter conseguido vencer sua timidez e, mais importante do que isso, ter feito algo sem se preocupar com as conseqüências, fossem elas boas ou más. Naquele momento, o que menos importava para Ivan, era o que as pessoas tinham achado da sua iniciativa. Ele estava feliz, e isso bastava.

Um Certo Seu Ivan

De certo, o passado afeta a todos. Poucos são os que podem dizer-se imunes aos assédios da nostalgia, ao que há muito não alcança os olhos. Raro mesmo é o que não deixa rastros.

Nem bem começava o dia, lá ia o velhote para a banca de revista. O itinerário era sempre o mesmo, a busca pelo jornal quentinho, mal saído do forno da gráfica, era como um vício impiedoso que tirava aquela alma recurvada de casa, fizesse chuva ou sol.

Seu Ivan era parte da paisagem corriqueira dos longos dias de minha infância, e dos quais eu era observador atento e fiel. Do alto relativo de meus oito anos, confortávelmente instalado – com a ajuda de uma almofada macia – no parapeito da ampla janela de casa, eu analisava o leve cotidiano da estreita e acolhedora Vila Farah.

Seu Ivan era uma figura estranha e um tanto enigmática, mesmo para minha fértil imaginação de menino. Um velhinho magro e ligeiro, de roupas sóbrias e chapéu de fibra gasto na cabeça, a idade indefinida apenas um pouco menos fantástica do que supúnhamos eu e meus pontuais comparsas na peteca e no fura-fura, ao avistá-lo pelas ruas, apressado, faminto das últimas notícias.

Nunca fui muito afeito de falar com quem nada me pergunta. Conselho sábio de minha avó: em boca fechada não entra mosca, mosquito ou qualquer outro inseto de gosto desagradável. Pra ser exato, sempre fui um tanto tímido, e na infância vivi os momentos áureos de minha agora combatida insociabilidade. De fato, fui de uma timidez tão absurda que chegava a corar ao perceberem o quanto era tímido.

Nunca conversei com seu Ivan, nem sequer vi seu rosto de perto, sempre meio encoberto pelo inseparável chapéu. Devo tê-lo cumprimentado não mais que umas duas vezes, de longe, sem encará-lo um só momento, e apenas porque minha mãe obrigou-me, entre resmungos sobre educação e respeito para com os mais velhos. Para acentuar sua estranheza, diziam os garotos mais velhos da vila que seu Ivan tinha um jeito de falar com as pessoas olhando no olho um tanto de banda, com um tenebroso sorriso torto lançado a todos os que, como eu, mediam menos de um metro e meio de altura. Mas os mais altos que os garotos mais velhos até que o achavam bem simpático.

Ainda hoje, lembro daquela manhã com muita clareza. O vento chacoalhava as folhas do jornal, como fazia com as do jambeiro da vizinha dona Cota, e o papel amarelado, manchado de letrinhas negras, encobria o rosto de seu Ivan. O caminhão dos sorvetes Kibom primeiro me encheu de uma infantil e saborosa alegria, inundando d’água a boca, mas só para logo depois me transbordar de uma impressão estranha, nunca antes sentida. O jornal esvoaçou por todos os lados da rua, pleno de liberdade, suas folhas soltas flutuavam num sem fim…, pareciam não ter como ou onde cair.

Tempos depois, descobri que seu Ivan, na realidade, não se tratava de um leitor febril, de um cidadão informado sobre os vais e vens do mundo. Não. Com uma alegria estranha, que travestia-se em tristeza de momento a momento, a bel-prazer, fiquei sabendo que o velhinho tratava-se, sim, de um avô dos mais amorosos, que sofria de saudades da neta jornalista, transferida havia algum tempo para um vespertino de São Paulo, e que encontrara a forma de amenizar o vazio que sentia através das folhas amareladas do diário paulistano encomendado, nas quais devorava com um profundo orgulho as parcas linhas assinadas pela garota.

O dia seguinte ao atropelamento de seu Ivan marcou minha vida como o primeiro em que comprei um jornal, com dinheiro roubado da caixinha de jóias de minha mãe (quando esta descobriu o pequeno delito, a confusão só não foi maior do que a minha própria ao tentar abrir e segurar aquelas folhas enormes, quase do mesmo tamanho de meu corpo inteiro). E sempre que me lembro daquele velhote magro, ágil, de chapéu de fibra amarelo-desbotado, algo que vem de dentro mansamente me diz que, de um jeito meio enviesado como o sorriso que lançava ao interlocutor, seu Ivan foi um pouco responsável por minha incursão na fugaz e atropelada rotina do jornalismo.

Grandes Enigmas da Humanidade

Hoje eu acordei intrigado. Várias perguntas insistiam em “martelar” na minha cabeça. Tudo o que eu faço provoca o surgimento de uma nova pergunta, sinceramente não consigo imaginar o que fazer. Antes que eu enlouqueça buscando as respostas para estes grandes enigmas que assolam a humanidade, resolvi passar as perguntas a você, meu leitor, para que, com sua inteligência, possa resolver ao menos alguma dessas charadas.

Começarei por uma das mais conhecidas: Por que a torrada sempre cai com a manteiga virada para baixo? Quer outra? Por que a pizza é redonda? Ela não poderia ser quadrada? Por que o biscoito se chama água e sal se ele não é feito de, somente, água e sal? Se fosse assim o mar seria um enorme biscoito. Isso me ocorreu apenas no café da manhã. Resolvi sair e dar uma volta pela cidade, peguei o carro e saí sem destino.

Passando por um bairro tranqüilo, encontrei um grupo de garotos jogando vôlei no meio da rua. Quando me aproximei com o carro eles levantaram a rede para eu passar e então me ocorreu outra pergunta: Por que nos abaixamos ao passar, de carro, por baixo de uma rede de vôlei? Resolvi procurar a nova casa de um amigo que mudou para aquele bairro recentemente. No rádio eu ouvia California Dreamin, e ao encontrar a rua passei a procurar o número da casa. A primeira coisa que fiz foi abaixar o volume do rádio e, logo em seguida, pensei: Por que abaixamos o volume do rádio do carro ao procurar algo?

Depois de rodar um pouco encontrei a casa. Entrei e meu amigo assistia televisão, fato que me fez pensar: Por que a série se chamava Missão Impossível, se eles sempre conseguiam realizar as missões? Ou então, por que a novela da Globo se chama novela das oito e começa sempre às nove horas? Mais uma: Por que o Super-Homem usa cueca por fora da calça? Quer outra? Como o Freddy Krueger faz para se limpar no banheiro? Bem, talvez ele seja canhoto… Ainda sobre televisão: O piu-piu é macho, fêmea, ou nenhum dos dois?

Já que falei sobre banheiro, aí vão mais alguns questionamentos: Onde vai parar a cor do sabonete? A espuma é sempre branca. Por que o Pato Donald se enrola na toalha ao sair do banho? Ele não usa calça mesmo… Por que quando vamos tomar banho temos a mania de avisar? A gente sai gritando: Vou tomar banho! Existem outras: Por que alguns cocôs bóiam e outros afundam? Mas deixa pra lá, já estou indo muito longe no quesito banheiro…

Saí da casa de meu amigo no instante em que começava uma partida de futebol na televisão. Aliás: Por que os jogadores de futebol ficam cuspindo no gramado? No caminho de volta para casa fui pensando: O que acontece quando um tubarão martelo encontra um macaco prego? Cheguei em casa com o telefone tocando, era uma amiga minha reclamando da briga que ela teve com o namorado:

– Os homens são todos iguais!

Falando nisso: Se os homens são todos iguais, por que as mulheres escolhem tanto? Perguntei isso a ela, como resposta ouvi o telefone sendo batido em minha cara. Cansado de tantas perguntas liguei a tevê, passava um filme de terror. Mando outra: Se uma casa é mal-assombrada, o fantasma é incompetente? Para encerrar mando mais duas: Por que os cronistas escrevem tantas bobagens? Como você conseguiu ler até aqui? Parabéns e obrigado!

Bang!

Assim começou o filme da sua vida. Primeiramente viu-se ainda garoto, mãos sujas de barro, kichute no pé, correndo, sorrindo, atrás da bola, sempre a bola. Uma criança. Passou pela bomboniére da Dona Luzia, cruzou para o Luizinho. Gol. Ninguém reconhecia a assistência no futebol.

Ainda criança mais uma vez em sua antiga casa perto da estação Bresser. Vivia na rua mas dessa vez estava dentro da casa. Na sua a frente a figura autoritária de seu pai. Ele dava uma bronca por uma vidraça quebrada ou algo assim, ele se lembra disso mas não claramente, lembra que havia ficado fulo da vida, tinha sido sem querer, mas pela primeira vez tinha conseguido enxergar doçura e preocupação no olhar de seu velho.

Adolescência. Ele estava numa festa do colégio, viu a garota por quem ele e seu melhor amigo eram apaixonados, de canto ela fazia charme para seu amigo, com seus típicos, porém fatais, truques. Viu o seu amigo olhar para ele e rapidamente correr pela tangente, fato inclusive estranhado pela garota. Ele sabia que o seu amigo estava com medo dele ficar bravo por estar paquerando sua pretendida, mas não, seu amigo apenas estava dando espaço para ele conseguir o que tanto queria.

Conseguiu. Sua esposa herdada dos tempos do colégio foi o que assistiu a seguir. Seu casamento, a primeira vez em que chorou compulsivamente. Na frente de todos mostrando sua gratidão por receber tamanha graça. Viu sua mãe chorando de felicidade e tristeza, mal sabia ela que ele sentia o mesmo.

Um campo de futebol, de terra batida, time de sem camisa contra com camisa. O placar estava dependurado no alambrado. Mas não havia placar mais bonito no mundo. Marcava um gol. De seu filho, que comemorou radiante como prometido ao pai. Ele. Chorou pela segunda vez, mas dessa vez escondido. Não podia envergonhar o filhão. Papai é macho.

O último ato foi a apenas alguns segundos, ele voltava da missa com sua esposa, entrou na garagem, ouviu um barulho na cozinha e estranhou já que o filho estava na casa da Vó, foi ver o que era. Bang!

Bundonice

(para ler ouvindo Socorro, do Arnaldo Antunes)

Gente, bundei. Não, calma, peraí: não é des-bundei. Não caí no desfrute e saí por aí dando pra qualquer um. É diferente: eu bun-dei. Claro, isso também não quer dizer que eu tenha colocado silicone nas nádegas, tampouco passado a usar aquelas meias-calças de palhaço, com enchimento. O bundar de que estou falando é bem diferente. Ele é aquele estado de letargia que nos ataca de vez em quando e nos faz ficar bobos, inertes.

Então, bundei. Não estou ligando mais para nada. Aliás, estou ligando, sim: o piloto automático. Nesses casos, ele é muito útil, diria que até um acessório fundamental do bundonista. Sim, porque o bundonista perde a vontade própria e tem que apelar para “tééé!!” – ir pro trabalho; “téééé!!” – namorar; “tééé!!!” … E assim por diante.

A bundonice tem vários estágios. O primeiro é o “não estou com saco, hoje”, que é o mais light, usado por pessoas normais, em situações específicas ou até para um dia inteiro. Agora, o mais heavy de todos é aquele em que você dá uma bela desistida, não se importa com nada e só faz as coisas porque elas precisam ser feitas. E, mesmo assim, só com o mínimo esforço necessário.

Bom, no momento, eu estou nesse estágio. Não tenho saco para estudar, trabalhar, namorar… Já aderi ao lema dos bundonistas: “tanto faz como tanto fez”. O quê? Como eu cheguei aqui? Bom, eu não sei. Cientificamente, a causa do bundonismo ainda não foi descoberta. Muitos defendem que elas variam de caso a caso. Particularmente, acho que um pequeno desvio na rota, uma pedra no caminho, ou no sapato, tudo isso pode levar a esse estado. Um ambiente propício e uma boa dose de covardia também devem ajudar bastante.

A boa notícia é que, apesar da dificuldade, a bundonice tem cura. E, por incrível que pareça, sua cura é seu próprio excesso. Explicando: quando chega a um nível “ótimo” , a bundonice se torna insustentável – é o momento em que você fica de saco cheio dela. Geralmente, é nesse instante que se profere a frase que marca a cura da bundonice: “EU NÃO ME AGUENTO MAIS!!!”