Arquivo de fevereiro, 2002

Eu poderia dizer

“Eu poderia dizer que te amo todo o tempo,
o tempo todo
Que a cada pensamento que tenho, um é para você

Eu poderia dizer que penso em ti sempre
ao acordar e
antes do adormecer

ousaria também dizer que nos meus sonhos,
há apenas espaço para você
pois nada mais que sonhe vale a pena ser lembrado.

Eu poderia dizer que nada importa mais do que você
Que a vida é mero cenário para o nosso romance

Eu poderia dizer que tudo vejo
mas só consigo olhar para você,
dentro dos seus olhos

Eu poderia dizer que trocaria toda minha vida,
por alguns momentos com você
Que deixaria tudo para ficar ao seu lado
E não deixa-la mais.

Eu poderia dizer tudo isso, poderia
Eu seria romântico
Eu seria mentiroso

Pois disso, eu nada tenho como certo
Mas uma coisa eu posso te dizer,
te amo.”

Em Frente

Sim, seu gato era preto, mas mesmo assim seguiu em frente. Não olhar para trás, nunca. Foi o que a vida lhe ensinou nesses vinte e tantos anos. Não contava a idade para ninguém. Foi o que sua mãe lhe ensinou no auge de seus eternos “trinta e algo”. Sempre se dizia “a garota mais azarada da face da Terra”. Já não era assim tão garota, mas continuaria se chamando de garota até sua morte por volta de “sessenta e muitos”. Tudo que tinha no mundo era seu orgulho (além de seu gato – chamado de Marquês).

Nunca se sentiu verdadeiramente à vontade na vida. Suas coisas nunca pareciam realmente suas. Não se encaixava no mundo. Nunca foi popular. Odiava tudo que estava na moda. Não assistia novelas nem programas de auditório. Estava mais para David Cronemberg que para Wes Craven. Mais para os irmãos Coen que os irmãos Farrelly. Mais para Fellini que as comédias românticas com a Meg Ryan. Mais para mambembe que para Brodway. Nunca quis ir para Disneyworld, mas adorou Rei Leão. Não acreditava no amor, mas suspirou inúmeras vezes assistindo Amélie Poulain. Nunca gostou dos Ursinhos Carinhosos quando criança, mas seu computador tinha um screensaver da Florzinha, da Lindinha e da Docinho.

Era fã da PJ Harvey, Iggy Pop com o Bowie, Belle e Sebastian, Massive Attack, Portishead, entre tantos outros. Dormiu no show do Sigur Rós no Free Jazz. Foi no show do Kiss (só porque lembrava sua adolescência cantando Rock’n’Roll All Nite) e não conseguiu ver o 3D naquele maldito telão. Amava Oasis na época em que tocava apenas no Lado B com o Fábio Massari e apenas alguns “entendidos” conheciam aquela “banda revelação inglesa”. Odiava Oasis quando começou a tocar em todas as rádios do planeta e os refrões de “wonderwall” eram cantados pelas “patricinhas ignorantes” que tanto repudiava.

Experimentou várias drogas, teve várias bad trips. Fez sexo irresponsável, gozou pouco. Viajou, mas nunca se sentiu em casa. Fez o que pôde, nem assim achou que viveu o suficiente. Sempre faltou algo. Alguém. Abraçava o Marquês bem forte para substituir aquele que faltava. Sempre se envolvia com os caras errados. Tinha uma queda por aqueles que pintavam as unhas de preto, piercing no mamilo e usavam bandanas com glitter. De fato sempre se apaixonava por seu amigo gay. Sonhava com o dia que encontraria o Thom Yorke. Era só no mundo. Ou o mundo a isolava?

Nunca foi a melhor em nada. E também nunca foi a pior. Era sempre mediana. Não se destacava em nenhum lugar em que fosse. Não era daquelas que animavam uma festa, mas também não era daquelas que fica no seu canto sozinha (embora normalmente se sentisse assim). Nunca foi a mais bela das suas amigas, mas também nunca era a mais feia. Já tentou de tudo: tocar instrumentos, pintar, escrever, filmar. Nunca teve paciência e dedicação para levar em frente. Era melhor ouvindo, vendo, lendo ou assistindo do que criando.

Na verdade tinha medo de viver. De virar brega apenas por citar a palavra “felicidade”. Era infeliz por opção (embora nunca admitisse). “Ignorância era o segredo da felicidade”, sempre repetia. Como as pessoas podem ser felizes com tanta merda acontecendo no mundo? Nunca estava satisfeita e sempre se sentia culpada ao menor traço de alegria. Tinha sempre que criticar todos esses seres fúteis que se divertem com seus prazeres mundanos. Chorava escondida em seu quarto. E abraçava mais ainda seu gato Marquês.

Seguiu em frente. Morreu aos “sessenta e muitos” em uma pequena vila no México. Não perdia um capítulo de sua novela, tinha muitos e bons amigos na vila. Fazia dança de salão e chorava nos filmes melosos. Tava mais para Ray Connif do que para Duke Ellington. Mais para John Willians que Danny Elfman. Mais para Homero Brito que Schiele. Achava lindo o quadro de asa de borboleta que sua neta dera de aniversário. Usava vestidos floridos e tinha um santinho na porta de casa. Enfim, era feliz. E sim, seu gato ainda era preto.

O Outdoor

Final de tarde quente, abafado. A cidade inteira é um grande congestionamento. Ele está no seu terceiro engarrafamento de hoje. Foi uma hora e pouquinho para chegar no escritório de manhã, cinquenta minutos até o prédio do cliente à tarde, e agora, terminada a reunião, já são outros sessenta minutos – e contando – para voltar ao escritório. Ele tem que passar lá antes de poder ir para casa. Melhor nem pensar no tanto de trânsito que ainda tem pela frente.

Se pelo menos o carro tivesse ar condicionado. Mas não, tem só aquele arzinho vagabundo que traz o bafo do motor. Além de esquentar mais, empesteia o carro com o mau cheiro de fora. Impressionante como a cidade fica fedida em dias assim. O ar fica carregado demais com esgoto, emissões dos escapamentos e má programação das FMs. Não tem uma que preste. Ele não aguenta mais os seus CDs também. Tanto foi forçado a ouvi-los que acabou enjoando deles. Mas tem que admitir que os disquinhos são duros na queda. Eles esquentam bastante com o calor, é verdade, mas não perdem a compostura. O som continua cristalino, e, por mais quentes que estejam, nunca derretem. Ao contrário dele. A camisa já se tornou parte do seu corpo, e as calças ameaçam seguir o mesmo caminho. Apesar disso, se recusa a tirar o paletó e a gravata. Seria como se render, capitular diante do trânsito.

O jeito é tentar distrair a cabeça. A paisagem é feia, mas interessante. O ar está tão quente que não deixa o mundo ficar parado. A ponte, os prédios, os outros carros, tudo dança diante dele. A única coisa que permance firme é a moça de atributos refrescantes no outdoor. Ele teve sorte de ficar parado na frente desse anúncio. Pelo menos foi o que um marronzinho deu a entender. O funcionário da CET, aliás, o assustou. Se tivesse visto a figura surgindo no meio da miragem vacilante de cidade, com certeza não teria tomado o belo susto que levou. Mas não estava prestando atenção, então só deu por ele quando ouviu as batidas na janela.

– O senhor se importa se eu ficar uns minutinhos no banco do passageiro?
– Não…

O marronzinho agradeceu a hospitalidade e se instalou. Por um instante o constrangimento carregou ainda mais o ar.

– O senhor pode ficar tranquilo. Não é nada, não.
– Não, sem problemas. Estou super tranquilo.
– Sei que é meio estranho, mas de onde o nosso caminhão está estacionado não dá para ver a moça do outdoor.
– Sei.
– É.
– Sabe, se eu fosse o senhor teria procurado um carro com ar-condicionado.
– Ih, enfrento isso todos os dias. Já acostumei com o calor.
– Sei.
– …
– …
– …
– Mulherão, não é?
– Nem fala. Além de bonita é gente fina.
– Sério? Você conhece?
– Claro. Já te falei, estou aqui todo dia. Eu não ia ficar esse tempo todo só olhando, né? Tinha obrigação de tentar alguma coisa.
– Realmente. Não ia fazer sentido ficar só vendo, mesmo.
– É o que eu acho. E no fim foi tranquilo, sabia?
– Fácil, é?
– Ahã. Só tive que puxar papo. Pena que não deu em nada.
– Mesmo? Por que?
– Qualquer hora você descobre.
– Sei.

Os dois ficaram olhando a mocinha em silêncio, até que o motorista viu um ambulante vendendo bebidas geladas. Chamou o homem. Quando se aproximou, recebeu-o elogiando a providencial aparição e pediu uma água. Rapidamente deu-se conta do deslize e perguntou ao seu passageiro se ele aceitava alguma coisa. Aceitava, então pediu mais uma garrafinha ao vendedor. Sujeitinho estranho, por sinal. Ficou olhando esquisito enquanto entregava as águas. O motorista só entendeu o porquê da cisma quando se virou para entregar a garrafa do marronzinho. Não tinha mais ninguém lá. Engraçado como ele conseguiu sair assim, de fininho. Talvez tivesse evaporado. Vai ver tinha sido isso: o vendedor viu o marronzinho evaporando e ficou assustado. E o outro dizendo que estava acostumado com o calor. Deu no que deu, coitado. Bom, melhor. No fim das contas ficou com as duas águas.

Abriu uma delas e voltou a olhar a mulher no cartaz. Estranho. Talvez fosse só o ar trepidante, mas ele podia jurar que a moça tinha se mexido. Redobrou a atenção. Ela piscou uma vez, e outra. Duas vezes. Não era o ar, não. Era ela mesmo. Ela, que agora sorria na sua direção. O motorista apontou para o seu próprio peito, para ter certeza de que não estava enganado, que era com ele mesmo. Mas ele não tinha dúvidas. Os ocupantes dos outros carros tinham seus olhares apagados, perdidos, muito distantes daquele painel radiante.

E pequeno. Ela tentava achar uma posição mais confortável do que a escolhida pelo fotógrafo, mas não estava fácil. Primeiro se espreguiçou, devagar, gostoso, se esticando inteira. Uns pedaços seus até sumiram nas bordas. Depois ela fez o contrário: se encolheu toda e abraçou as pernas. O rosto se acomodou no joelho, meio de lado, e as mãos, em câmera lenta, desceram pelas costas, até acharem o laço do bíquini e soltá-lo. Ele não desgrudava os olhos dela; nem ela, dele. Manhosamente, sem pressa, como convém, a mulher fez sinal para que ele viesse. Ela merecia estar naquele anúncio, em outro, em qualquer um. Era a mais pura imagem da tentação.

Nem passou pela cabeça do motorista não atender a convocação. Ele desceu do carro, tirou o paletó e a gravata – o calor agora era outro – e se pôs a furar as faixas desenhadas no chão. A felicidade esperava por ele do outro lado. Ele atravessou os carros; alcançou, enfim, um muro e o painel. Olhou para cima. Não pôde vê-la. Recuou alguns passos e descobriu alguns pedaços dela. Andou mais para trás e avistou-a melhor; já linda, mas distorcida. Aquele ângulo definitivamente não lhe fazia justiça. Continuou retrocendendo até ter a visão perfeita da mulher. Quando finalmente chegou ao melhor ponto de observação, surpreendeu-se. Estava ao lado do carro que abandonara.

Ele não tinha como se aproximar mais. Não tinha o que fazer. Dava no mesmo ir para frente ou para trás. Qualquer passo, em qualquer direção, só serviria para deixá-lo mais longe da mulher do anúncio. Ela insistia no chamado. Dando de ombros, o motorista acenou em sua direção. A mulher alargou o sorriso, levou a mão aos lábios e soprou um beijo. O afago pousou na boca dele com a delicadeza de uma brisa, cresceu, tornou todo o seu corpo um arrepio e congelou, como a pose da modelo no outdoor. Ele havia entendido.

MICRÔNICA [#1]

Se a crônica é a arte de encher lingüiça, vou tratar aqui de encher uma salsichinha de canapé, já que a proposta é caber tudo num só parágrafo e “atachar” (quase que eu digo “atochar”) um poema à guisa de ilustração do tema enchouriçado, digo, ensalsichado. Ainda bem que a lingüiça é japonesa (isto é, concisa como um haicai), pois já colaboro em outras três colunas de revistas virtuais e nunca uso o mesmo assunto. Ao assinar esta MICRÔNICA vou parar de aceitar convites, pois, se esta é a quarta coluna, na próxima vão me acusar de quintacolunismo. E já pegando o gancho, não estou querendo sabotar a candidatura de ninguém, mas não é só a dengue que pode sujar reputações políticas: o lixo, o esgoto no rio, a comida estragada ou as enchentes generalizam a insalubridade e minam pretensões eleitorais em todas as esferas, federais, estaduais e municipais. Em resumo, nunca foi tão oportuno ser punk para usar a sujeira como bandeira e apregoar o voto nulo. Para requentar o anarquismo punk, aí vai um sonetinho do livro PANACÉIA:

SONETO 339 RECICLADO

Vivemos chafurdando em podriqueira.
Os ares se saturam de impureza.
As fezes empesteiam a represa.
Água já sai fedendo da torneira.

Nas carnes o sabor travado beira
a decomposição. À mesma mesa,
tresanda uma fruteira e mantém presa
a má respiração de quem a cheira.

Socorro! Vou morrer contaminado!
Nas vascas da agonia já estertoro,
somente prelibando meu bocado…

Que nada! O conservante, o vento, o cloro
disfarça a podridão do mau estado…
Vomito, volto, voto, e já melhoro.

CMYK

Era o ano de Bazurka. A miséria assolava a população, que faminta, mendigava nas portas dos nobres Cians. O reinado Bazurkino era um fracasso. A discórdia imperava entre os habitantes. A falta de respeito, tolerância e pagamento geravam as maiores confusões. Criavam um ambiente violento e insuportável. Os Magentas e Yellows viviam à beira de um colapso. Talvez fosse esta a intenção dos Blacks. Deixar a miséria corroer até o último representante daqueles subalternos. Sujos. Pobres. Não importava quem era o dono da terra. Ninguém é dono de nada!

Nobres e intelectuais, os Cians nunca agiram. Sempre souberam o que fazer, mas o intelecto os impedia de agir. Quem era pobre, pobre ficaria. Você é magenta, magenta será seu filho. Com base nesse lema, o reinado seguia. Aos trancos e barrancos. Mas seguia.

Nas esquinas eram os Yellows. Nas ruas. Eram os Yellows. Nas sarjetas. Também. Os Magentas mal podiam trabalhar como serventes. Para a confusão começar bastava um Black cruzar olhares com um Magenta qualquer. Como? Um Magenta olhar nos olhos de um Black? Polícia. Polícia. Polícia. Aí era a covardia. A polícia era toda Black. Causava terror. Mais conhecidos como Black Powers, eles usavam de violência desmedida. Comum.

Magenta-Uzurski de Shoemaker era seu nome. Com muito custo conseguiu um emprego em uma loja de sapatos. De certa forma, pressentia que estava no caminho certo. Todo tipo de gente o procurava. Talvez o melhor sapateiro do reino. Foi assim que, naquela tarde de domingo, eles se conheceram. Digo, olharam-se nos olhos. Cian-Ureta queria apenas consertar sua sapatilha. Acabou encontrando o amor. Ninguém nunca vira paixão tamanha. Ninguém nunca soubera. Só após o ocorrido.

A amizade que aparentavam já era suficiente para causar furor. Cians e Magentas conversando um de frente para o outro. Impossível. Os pais de Ureta já falavam em mudar de casa para evitar os encontros com gente daquela laia. Uzurski era pacato. Trabalhava.

Era na ausência da luz diária que seus encontros ficavam mais quentes e coloridos. Os pais nem sabiam. Na verdade, verdadeira ……. a mãe de Uzurski desconfiava. Dizia, em tom de repreensão, que não se deve contrariar os caminhos da vida. Quem nasce Magenta tem que morrer Magenta. E fim de papo. Foi depois dessa frase que eles mudaram para uma vila afastada. Dias se passaram até que Cian-Ureta soubesse de seu paradeiro. Pois foi no mesmo dia que soube. Pegou um casaco vermelho e foi em direção ao bosque. Percebia que caminhava lentamente. Ao contrário do som de seus passos. Seguida. Definitivamente estava sendo seguida. Em uma tentativa desesperada, cantava. E como tivesse medo de se perder, foi deixando migalhas de pão pelo caminho.

Ao chegar à casa agaixou-se à beira da soleira. Descansou. Os passos no bosque estavam mais próximos. Socou a porta. Gritou por Uzurski. A porta se abriu. Ninguém. Trancou-a e recuou. Começaram a esmurrar a porta. Sem titubear, correu pela porta dos fundos. Correu.

A vila mais próxima ainda estava distante quando encontrou-se parada no meio de um funeral. Um funeral Magenta. Sim, porque todos vestiam mantos verdes e toucas de croché brancas. Misturou-se.

Olhava para os lados. Aflita. Estava salva, fosse lá do que fosse. Neste instante pode perceber que era um funeral que se encaminhava. Perguntava quem e porquê? – Foi de amor – disse o Yellow-manco. – Nunca vi coisa igual. – Também, depois de ser separado daquela … Não conteve a ansiedade. Foi em direção ao caixão. Ombros doloridos. Estava alto, teve que ficar na ponta dos pés. E viu. Olhos nos olhos.

O Destino de Madalena

“Me lembro dessa cena com muita clareza. Entrei no ônibus, ele estava quase lotado. Vi poucos lugares vagos. Um deles do lado da mulher mais bonita que eu já havia visto. O sonho de todo homem é viajar de ônibus sentado ao lado de uma mulher bonita, apesar disso raramente, ou mesmo nunca, isso acontecia. Pois bem, ela era tão bonita, mas tão bonita que não tive coragem de sentar ao seu lado. E assim, com o passar do tempo e dos pontos, o ônibus lotou. Pessoas em pé amontoadas. Apenas um lugar estava vago.

Depois de um tempo descobri que aquela moça era Madalena. Herdeira de uma tradicional família de Bragança Paulista. E que por ser tradicional estava a beira da falência. Ela teve o melhor estudo que o dinheiro pode pagar, era lida, ensinada e formada em direito. Se vestia de forma impecável e era motivo de inveja pela maioria das mulheres e de admiração, e por que não, de suspiros, pela maioria dos homens. Mesmo assim, ela estava sempre sozinha.

Encontrei Madalena muitas outras vezes, o mundo que já é pequeno, era menor ainda. Ela freqüentava todos os bailes da cidade. Me lembro claramente de uma ocasião. Era aniversário do prefeito. Sua esposa adorava aparecer na coluna social e por isso a data foi celebrada de forma suntuosa. Já havia me tornado um médico famoso na cidade. Era um dos únicos. Logo que cheguei na festa, cumprimentei o prefeito, Sr. Machado, homem distinto e respeitável. Fui pegar algo para beber.

No meio do caminho, vejo Madalena. Sentada à mesa com os pais. Ela parecia muito a vontade. Mais uma vez deixei que meus instintos me guiassem e mais uma vez eu passei reto. Não tive a coragem e não fui exceção. Alias, fui regra. Ela não dançou com ninguém naquela noite. Fora seu pai.

Ela sorria pouco e não falava muito. As pessoas do fórum da cidade pouco sabiam da sua vida, que de tão monótona nem era assunto para as animadas rodas de amigos na praça de amigas na porta da igreja. Era a única beleza que passava desapercebida.

Anos depois, quando me aposentei em Bragança, estava andando na praça e para minha surpresa avistei Madalena , que já não era uma moça linda e sim uma senhora muito bonita. Não pude deixar de reparar, ela estava sozinha. Parei e refleti. Me perguntei muito sobre aquela situação, mas não consegui resposta. Por que tal beleza, foi fadada a solidão, que tipo de castigo é esse? Não cheguei a conclusão nenhuma. Acho que era o destino de Madalena. “

O Amor – Parte 1

Todo escritor que se preze deve escrever sobre o amor entre um homem e uma mulher. É uma questão de tempo, momento ou, na pior das hipóteses, obrigação perante a classe.

Eu sempre fugi deste tema pelo medo da força que a palavra ganha quando sai do ar para o papel.

O problema é que não consigo escrever mais sem que esse tema fique martelando em minha cabeça. Talvez por isso deixei as poucas oportunidades que tive de escrever no último mês, para trás.

E nem sobre o amor eu consigo escrever, porque discordo totalmente da minha atual opinião sobre ele. Mas não consigo fazer nada para mudá-la.

Já tive muitas aulas de retórica, onde aprendi a diferença entre o convencimento e a prova, e talvez essa seja a única explicação para esse confronto que sinto.

Tenho todas as provas que preciso para desacreditar totalmente no amor, mas acho que ainda não me convenci disso.

O amor é responsável pelas mentiras mais sinceras que alguém pode cometer. Ninguém pode prometer amor eterno, porque nunca terá como saber o quanto durará o seu amor. E não é sua culpa se o amor acabar. Muitas vezes o amor acaba a contra-gosto, e não se pode fazer nada em relação a isso.

O amor até pode ser infinito (eterno nunca, pois o eterno não tem fim, nem começo e o amor sempre começa de alguma forma), mas essa é apenas uma possibilidade.

Uma pessoa está sendo totalmente sincera quando ama alguém e diz que a amará por toda a vida, por exemplo. O amor é o grande álibi de uma mentira como essas, um álibi tão perfeito que engana até aquele que está mentindo, sem saber.

Por essa e uma série de outras provas, eu poderia aqui, escrever um tratado contra o amor, mas não é isso que eu tenho em mente. Mesmo porque, ainda tenho muito medo de escrever e argumentar sobre algo em que não estou convencido.

Essa crônica é só uma tentativa de afirmar que tudo que eu penso está errado. Sei lá …

Lascas de Cabeça

Outro dia eu estava dando uma olhada nos meus blocos de fichário antigo e nos cadernos que eu usei para trabalhar. Uma coisa me deixou tranquilo: eles são indecifráveis. Quer dizer, quase. Eu consigo ler. Só eu. Cada rabisco torto, cada frase pela metade, cada ilustração, cada pseudo-diagrama, é tudo um código para me levar de volta. Não ao acontecimento. Mais longe. Ao meu pensamento naquela hora. É só ir folheando, minha memória está toda ali. Sempre foi assim, e até hoje me explico melhor se estou rabiscando alguma coisa enquanto falo.

Sei o que pensei de quase tudo.

Eu devia ter rodeado mais, tateado mais, enrolado mais. Até não mais poder. Podia ter caprichado no romance, ou, quem sabe, prestado mais atenção. Devia é ter puxado uma conversa legal, sobre, sei lá, um filme europeu, uma peça ou cabeças. E papos. Mas mandei uma indireta, num sentido, e ela devolveu outra, sem sentido nenhum. Uma sugestão de um lado, uma insinuação do outro, e o mal-entendido está instalado. Tive que correr atrás. Ainda não sei se alcancei.

Deus, no que eu estava pensando?

Aliás, o que será que ela pensou?

Não sei o que pensar.

Não adianta. É perda de tempo procurar duas pessoas que pensem igual. Cada um pensa de um jeito, e acabou.

Então não preciso fazer força para pensar diferente. Já faço isso.

Tem os que gostam de silêncio, os que falam baixinho, os que falam alto, os que falam sozinhos e os que insistem em falar com alguém; os que ficam batendo na mesa, os que ficam martelando uma idéia, os que não conseguem pensar nem de estômago vazio nem de barriga cheia; os que não tem no que pensar, os que pensam sonhando, os que sonham pensar, os que não conseguem parar, e os que não pegam nem no tranco. Tem também os que, como eu, só pensam no papel.

E você, tá pensando o quê, hein? Que isso aqui é sério?

A História do Boi Tornado

Boi Tornado saiu certo dia, como de costume, para pastar. Saiu caminhando e ruminando suas memórias. Olhava o capim. Olhava o céu. Só olhava. E olhava. Viu no capim algo interessante.

Como eu sei disto? Ora, se não fosse interessante ele não olharia, mas se não fosse interessante e ele olhasse assim mesmo, a partir dali seria interessante, não?

Ele viu um anel enquanto pensava, digo, pastava.

Mas ele não sabia que aquilo era um anel, nunca tinha visto um antes. Animais daquela raça não têm dedos para usar anel . Por que será, então, que ele apanhou o objeto no chão? O que será que ele viu naquele objeto? O que será que representava o objeto para Boi Tornado no momento em que ele o pegou no chão? Você já experimentou apanhar algo no chão? Sartre já.

Ele pegou o anel e levou para casa.

Vaca Viquinha, sua esposa, e Bezerro Berrinho, seu filho, ficaram encantados com o novo e misterioso objeto. Viquinha foi logo colocando-o sobre a TV, assim eles sempre poderiam apreciá-lo. Além do mais, ela pensava em um piscar de olhos, Posso agradar e impressionar ao mesmo tempo as visitas aqui em casa. Ótimo Boi Tornado ter encontrado esta coisinha.

E lá ficou o anel, sobre o centro de atenção da família. Em frente àquele ícone de fetiche e hipnose a família se reunia todos os dias por volta das 20h para entender um pouco mais a respeito do mundo em que viviam, recebendo informações transmitidas instantaneamente e, algumas vezes, ao vivo.

Ficaram então sabendo como ia a Guerra na Lósnia Martinovina, as novas medidas do atual Presidente e seus desengonçados ministros, motivo suficiente para todos na sala rirem e se sentirem felizes por serem uma família. Pai, mãe e filho. Todos completando-se uns aos outros.

Através da TV, tomaram parte na homenagem a um amado, bendito, cultuado, dogmático, empolgante, fulguroso, grandioso, harmonioso, ígneo, jovial, luminoso, majestoso, notório, ofuscante, paternal, quente, robusto, sapiente, talentoso, universal, vanguardista, eXamine Your Zipper filho adotivo de uma cidade que não se faz a menor idéia de qual seja.

Muitas outras notícias eram transmitidas também. E causavam outras reações – Um tanto óbvio, não? – tais como indignação ao se saber que certo indivíduo que fazia parte de uma parte lá do governo, tinha ganhado não sei quantas vezes na loteria. De início Boi Tornado pensou, Nossa que cara de sorte!, depois ficou sabendo que não era sorte e sim maracutaia. E, no meio de uma ruminada e posterior reengolida, murmurou, Mas que filho da puta!

Neste dia Boi Tornado foi dormir mais cedo. Ele não podia admitir o que havia visto na TV, contudo encontrava forças para agradecer à mesma TV por poder proporcionar isto a ele. Aquele fato abriu algumas portas de sua percepção.
Em toda sua ira, o que mais irritava Boi Tornado era o fato de ninguém fazer nada para mudar a situação. Ele sabia, no fundo, que aquele sem-vergonha iria continuar roubando as loterias, e isso o deixara terminantemente encolerizado, pois era um ávido apostador em loterias. Para Boi Tornado, loteria é sinônimo de religão, Conheço todas as manhas de se apostar, sei como funciona toda a Matemática dos Números, sei qual o número que mais sai e conheço o número que mais demorou a sair, sei de tudo! Podem me perguntar, assim se gabava ele aos amigos. Fazia sua fezinha semanalmente desde que se conheceu por gente, e segundo relatos de familiares, devidamente catalogados, isso ocorria até mesmo antes de gente Boi se tornar.

Boi Tornado precisava acreditar em algo, e agora, o que restava a ele? Apenas as mãos atadas.
Para Boi Tornado era isso que sobrara.

Matutava ainda, De repente, um dia desses eu acertei os números, mas como aquele filho de uma vaca deu o tombo lá em cima, eu aqui embaixo fiquei a lamber os cascos. Pobre só se fode! Gritava ele dentro de seu subconsciente.

Como eu disse, naquela noite Boi Tornado foi se deitar mais cedo, porém você acha que ele dormiu? Até poderia, isto é apenas uma estória, ou não? O fato é que se ele tivesse dormido esta estória seria diferente, não seria mais esta
estória, ou seria? Será que um dia cessarão minhas indagações?

Não sei se deu para perceber, mas Boi Tornado não conseguiu dormir.

Comprovou que Viquinha dormia. Descobriu pelo ronco do motor do carro dos sonhos dela, ela era vidrada em automóveis, e Boi Tornado viu o REM nos olhos de Viquinha, sabia que ela sonhava com carros toda noite, e se não fosse possível toda noite ter o mesmo tipo de sonho, toda manhã Viquinha afirmava ter sonhado com carros e corridas, para Boi Tornado bastava, ele a amava.

Levantou-se da cama e saiu, passou em frente ao quarto de Berrinho. Também dormia. Que bom! Ao balançar a cabeça afirmativamente pensou ele.

Dirigiu-se para a sala, viu a TV, voltou-se possesso, Amanhã tenho que trabalhar e não dormi até agora! Foi até a cozinha, bebeu um copo de água. Ficou um tempo a olhar a pia, o fogão, o saleiro, os temperos, a têmpera, o fio da faca, o cabo dela. Boi Tornado segurou-a, levantou-a; a lâmina reluzia a luz difusa vinda de um poste que passava através do vidro martelado da janela que ficava ao lado da pia, e de um só golpe cravou a faca. Nenhum líquido, nenhum líquido saiu. Mais uma vez e nada. Outra vez e nada. E nada. E nada, e nada. Boi Tornado se contorcia todo naquele momento de raiva, realmente ele não estava com sorte. No meio de três dúzias de laranjas ele pegou uma que estava completamente seca. Sem uma gota de suco dentro, Vai ver, minha sorte é tão grande que todas as outras trinta e cinco estão do mesmo jeito, arrematou ele, e, sem comer nada, só com a água no bucho, deixou a cozinha.
Voltou na sala, olhou mais uma vez a TV. Sentou-se. Olhava a TV. Foi quando o objeto sobre o hipnótico eletrodoméstico começou a brilhar.

Fachos concêntricos de luz branco-azulada passando ao carmim, depois a verde alaranjado, eram cuspidos fora do objeto. Boi Tornado cravava as unhas na poltrona; os lábios estavam trêmulos, os olhos arregalados, o nariz ofegante, as orelhas mudas. A situação era apavorante.

E uma onda de choque de explosão atômica tal qual a exibida no filme The Day After, ou aquela de Hiroshima ou mesmo Nagasaki – lembra-se? – varreu o corpo de Boi Tornado com um vento que invadia sua alma.

Apareceu uma figura em sua frente. Uma mulher. Uma mulher linda. A mais bela que se pode ver e parecia ser muito mais que isto.

Passada a tormenta, Boi Tornado olhou em volta e qual foi sua surpresa ao ver toda a sala revirada! A mulher então disse, O que você, sua mulher e seu filho cobiçavam neste ato? Agora o que estava mudo em Boi Tornado era o cérebro, que não era lá grandes coisas. Não se deve esperar muito das pessoas… pensava ela neste momento quando algo despertou em sua mente – percebera que havia sido um pouco rude demais com o pobre animal.

Após alguns instantes disse Boi Tornado, Eu não tive a intenção… E como uma avalanche demolidora ela replicou, Aposto que você diz isso para todas!

Aquilo foi a gota d’água, ou como se diz em uma sala de bingo, a boa, e se realmente existem males que vêm para o bem, Boi Tornado se derreteu em prantos, devido ao stress ao qual foi submetido.

A mulher, já um tanto desconcertada, querendo ser gentil, apressou-se em acudir o pobre diabo, Por favor, eu não tive a intenção… Boi Tornado que estava de quatro com os olhos e a cabeça voltados para o chão sem nada ver, levantou a cabeça. Apoiando a mão direita sobre o joelho do mesmo oriente do corpo, forçou e ficou de pé. Já se recompondo e um tanto ressentido, proferiu estas palavras que agora escrevo, Foi isso o que eu disse e nem por isso faço com você trocadilhos!!!

Agora, parecendo tudo mais acertado, sentaram-se no sofá após juntos também retirarem tudo que com o vento voara sobre o móvel. Meu querido, perdoe-me por favor. Ando nervosa ultimamente e quando percebi seu nervosismo a única coisa que me restava é isto que estamos fazendo agora, conversar, … Verdade, ando muito nervoso também. São tantas as desilusões que passamos, Deixe disso, o que o aflige? Muitas coisas me afligem e me magoam. A última foi o logro que levei na loteria, Meu caro Boi Tornado, existem muitas coisas que você sabe e que pode vir a saber, porém existem muito mais coisas de que você nunca se dará conta. Você vive num mundo de muitas contradições. Por exemplo, você não sabe, mas você mesmo é um exemplo disso. Toda sua vida foi planejada muito antes de você nascer. E veja bem, isto não foi feito por seu pai nem pela sua mãe, tampouco é uma mágica que se fez a si própria.

Ninguém sabia de antemão que você iria nascer. Você vive em uma malha que começou a ser montada há muito tempo, e a impressão é que essa trama está criando uma vida própria e envolvendo a si mesma nela própria. Você, meu amigo Boi Tornado, foi feito assim, tornaram você um boi só para ficar mais fácil de manipulá-lo, e para tanto lançaram mão de muitos ardis nefastos com a mesma naturalidade com que se limpam após defecarem. Irmão Boi Tornado, aproveite esta chance de se tornar um homem!

Quer dizer que a minha vida na verdade não existe? Nunca fui o que pensava ser? O que eu era então, se um dia algo eu fui? E neste momento você me diz para eu me tornar de uma hora para outra algo que eu nunca fui. Que devo aproveitar esta chance. Que chance é esta? Como posso fazer isso?

Meu querido, como fazer isso eu não sei, também não sei tudo, e se soubesse não creio que lhe contaria… ou quem sabe contaria… não é importante este fato… só sei que seu nome não foi uma tentativa sem sucesso de homenagear um cantor tupiniquim de Soul da década de 70 que seus pais tentaram fazer, Tudo bem então. Eu vou lá dentro pegar o amendoim e a pipoca pra gente assistir ao Corujão, pois já perdi o sono nesta noite.

O Toque do Telefone

Poucos acontecimentos no dia de uma pessoa podem ser comparados ao telefonema do ser amado. Segundo especialistas, ele tem o poder de iluminar o dia, curar dores de cabeça, melhorar o humor e a pele. Pesquisas mostram que o maior número de simpatias, velas acesas, rezas, trabalhos e meditações têm como objetivo o soar do tão estimado aparelho de telefonia.

Para facilitar a vida dessas almas apaixonadas e tornar a espera menos desesperadora, elaboramos um pequeno manual de como manter a sanidade mental enquanto ele (ou ela) não liga.

A primeira e importante decisão a ser tomada é: dar o telefone de casa ou o celular?

O telefone de casa tem suas vantagens: é mais barato e, no caso do seu pretendente ser um muquirana de primeira, as chances de ele telefonar são inversamente proporcionais ao valor do pulso. Analise o sujeito. Se sentir que se trata de um pão duro, dê o telefone de casa. Outra vantagem é que, em casa, você terá mais tempo e tranqüilidade para falar.

Mas há desvantagens.
Justo na hora em que você resolver comprar 200 gramas de mussarela e 5 pãezinhos, o telefone vai tocar. Sua mãe irá atender e, claro, não lembrará do nome do mocinho. Os diálogos mais comuns são assim:

– Alguém te ligou.
– Quem?
– Não lembro o nome.
– Homem ou mulher?
– Homem.
– Mas quem era?
– Sei lá, um nome com R.
– Roberto?
– Não lembro…
– O que ele falou?
– Perguntou de você.
– E o que você falou?
– Que você tinha saído.
– E ele, deixou recado?
– Não.
– Ele vai ligar de volta?
– Acho que sim.
– Mas… Você falou que eu voltava logo?
– Não, né, filha? Ele só perguntou de você e eu falei que você tinha saído.
– Mas como ele falou?
– Como, como?
– Repete a conversa, exatamente.
– Ué, ele perguntou de você e eu falei que você não estava, saco!
– Mas, falou que eu não estava ou que eu tinha saído?
– Sei lá, que saco, vou lembrar o que eu falei!? É cada uma… Espera que ele liga de novo!
– Mas, a voz dele parecia como?
– Como assim?
– Parecia que ele estava nervoso? Será que ele vai ligar de novo?
– Como é que eu vou saber?
– Ah, sei lá, ele falou alguma coisa assim…”ah, então depois eu ligo”?
– Filha, se você não tem mais o que fazer, eu tenho.

Então, para evitar esses episódios desagradáveis (e para provar à sua mãe que você não tem mesmo mais o que fazer), compre provisões para, pelo menos, duas semanas (ele vai esperar no mínimo uma semana para te ligar, para não parecer muito interessado) e esqueça que tem vida social. Plante-se ao lado do telefone, acenda uma vela e espere. Ah, e tente distrair-se com alguma coisa que não seja a internet.

Não se anime com o primeiro telefonema. O silêncio gritante do aparelho será quebrado inúmeras vezes pelas ligações de seus tios, avós, pais, amigos dos seus irmãos, amigos antigos que não te ligavam há décadas. Acredite: todo mundo resolveu lembrar de você nesse momento. Todos os trotes da cidade cairão na sua casa. Deve ser alguma conspiração cósmica. E após cumprir infinitas vezes o ritual exaustivo de esperar que o telefone toque três vezes (para não parecer que está esperando pelo telefonema), atender com o seu melhor alô (aquele que é bonito, mas não muito eufórico), você pode cometer o erro de responder ao toque do telefone com uma saudação raivosa que mais lembra um latido. Cuidado! Pode ser ele. E pode ser que ele desligue por achar que não é um bom momento para ligar.

Se você leu tudo isso e achou esse enclausuramento todo bobagem, você pode optar por oferecer-lhe o número do seu celular.Afinal, seus tios não têm esse número, trotes são raros e a portabilidade do aparelho lhe parece agora a oitava maravilha do mundo.

Ele será seu companheiro inseparável, talvez você o leve até para o chuveiro. Neste caso, cuidado para não danificá-lo. Qualquer descuido pode ser fatal.

A primeira providência a ser tomada é colocar um identificador de chamadas no seu telefone. Ela pode ser muito útil, pois nenhum tipo de tortura pode ser comparado à mensagem: “uma chamada não atendida”. E “chamadas não atendidas” acontecem, ainda mais quando todos os objetos que se encontram dentro de sua bolsa resolvem se jogar em frente ao seu celular para evitar que você o atenda. Agendas, carteiras, canetas, livros e pentes também têm ciúmes.

Você pode ainda prometer prêmios em dinheiro para as pessoas que deixarem recados na sua caixa postal. Essa já é uma tendência nos Estados Unidos. Tente uma mensagem como essa: “Oi, você ligou para a Joana. Deixe sua mensagem após o bip e concorra a R$100,00 em prêmios. Não deixe de participar! Basta deixar seu nome, telefone e recado e concorrer!”

Se você ainda preferir adquirir um identificador de chamada, fique atenta. Segundo dados da Murphy Consulting, 10% das chamadas telefônicas de amor são feitas de um telefone público, da casa de um amigo ou de outro telefone que você não conheça. Nesse caso, não poupe esforços: se receber qualquer ligação de um número desconhecido, ligue, pergunte de onde fala, procure na lista, contrate um detetive. Apele para a numerologia, se for preciso, e trace o perfil psicológico do dono do telefone. Só assim você descobrirá se era ele ou não. Se era, pode esperar mais tranqüila. Ele provavelmente ligará novamente.

Depois de tanta ansiedade, quando ele ligar (se ligar, pois 19,5% dos amados não ligam), tente marcar um encontro. Se ele insistir em te ligar novamente para combinar local e horário, tome o controle da situação. Não tenha ataques histéricos, nem o mande ligar à ~#* da mãe dele. Finja equilíbrio e naturalidade e se proponha a ligar, pois está um pouco difícil falar com você ultimamente. Mantenha a dignidade e se vingue.