Arquivo de março, 2002

Memórias póstumas do meu fim

A vida nômade nunca me agradou por completo. Conheci em profundos detalhes cada canto da parte sul da cidade, é verdade. Disso, nunca tive nada a reclamar. O que sempre me incomodou foi justamente ter sido um incômodo para as pessoas. Vivi a desbravar cozinhas, salas e quartos; fui um intruso em todos os meus dias.

A manhã de minha morte começou tranqüila. Entrei por uma festa da porta de trás de uma residência não muito simples e também não muito requintada. Eram três quartos, o maior para o casal de adultos e os outros dois para duas jovens moças. A sala, grande, tinha o formato de uma esquina, o que às vezes confundia meus sentidos. Mas era a cozinha o meu lugar predileto. A porta que saía do corredor central abria o disputado cenário de farturas. Nesse instante começou minha derrocada.

Meus olhos viram mas não deram atenção para o par de sapatos tamanho 35 ou 36 logo à direita. Fixaram-se no bolo de chocolate com cerejas que estava esparramado no chão. Não tive a mais leve pretensão de pensar o que o bolo fazia ali, mas, de qualquer forma, ele estava. Alguns segundos de distração (ou seria de tentação?) foram suficientes para os sapatos se multiplicarem e virarem quatro pares. Era domingo – me esqueci de lembrar antes da invasão – e todos da casa estavam lá. Deu-se início à perseguição.

A cozinha, antes imensa, diminui. Mesmo assim, as frestas das portas pareciam cada vez mais longe. Senti a aproximação fulminante de uma sola de borracha e saltei para o lado. Escapei. De repente, mais outra pisada. Outro pulo, já suando. A esta altura já não eram apenas seis pés atrás de mim – seis porque, dos oito, dois eram tímidos, quase imóveis. Havia uma vassoura também, operada pela mais alta daquelas pessoas.

A janela parecia um escape viável, não fosse tão alta. Um momento de hesitação entre arriscar um salto até ela e correr para debaixo do fogão seria mortal. Fiquei com a segunda opção. Ouvi aquelas vozes nervosas, histéricas:

– Nojenta! Mate-a logo, papai! – logo pensei ser a voz daquela pessoa mais distante, que evitava me perseguir.

– Querida, como o bolo foi ao chão desse jeito?

– Mamãe, foi um acidente. Não pude evitar. Esbarrei na mesa depois de escorregar neste piso, que parece feito de sabão! – entendi: minha tentação foi causada por uma ação involuntária.

– Essas coisas são a desgraça. Trazem-nos doenças, sujeira! E o que é pior: quase sempre escapam . É realmente intrigante.

Subitamente fui iluminado por todos os lados. Meu teto – o fogão – havia sido arrastado e eu estava ali: no centro da mira dos meus inimigos. Esforcei-me para pular cerca de meio metro à frente onde um corredor, surgido pelo deslocamento do fogão me levaria à saída de trás. Em vão. Atingido, vi pedaços de mim mesmo separados do todo. Mais um pancada decretaria meu fim.

Desta forma terminou minha última história.

Vaquinhas Pastando

“Hoje eu olho no espelho e sinto saudades da época de criança em Ribeirão Preto. Saudade que nunca achei que fosse ter, já que me considerava senhor do meu próprio tempo. Mas, aos 23 anos, sinto falta de ter 10. Considero que a minha infância foi sensacional: eu brincava o dia inteiro. Brincava de Lego, de guerra de futebol, de bets (taco), de bicicleta e outras coisas mais. Não haviam limites, já que o limite era a imaginação. Essa imaginação, a de uma criança, não é corrompida como a nossa: pelo trabalho, convívio social, compromissos e outras coisas de adulto e acho que até hoje luto para não deixar essas coisas se intrometerem tanto.

Odeio lugares em que você tem que se comportar. Como assim me comportar? Qual o problema de imaginar que um dragão de três cabeças acabou de entrar no restaurante e meu super raio laser (o garfo) vai me ajudar a salvar o mundo? Qual o problema disso? A grande diferença é que um adulto precisa beber, fumar ou cheirar muito para chegar nesse nível de ausência de sobriedade. E quando isso acontece a cena não é bonita.

Você já andou do lado de pessoas que ficam falando como você deve se comportar? – Não fale alto! – Ande ereto! – Olhe para cima! Que vá andar sozinho então! O ser humano vai ficando chato com o passar dos anos. Às vezes, é necessário termos pessoas que não se desvencilharam da sua infância. Nesse caso, por exemplo, o Volponi é nosso guru. Ele, como bem disse o Rafael, tá sempre brincado ou sacaneando com alguma coisa. Lógico que ele tem seus momentos ruins, mas são exceção.

Vídeo Game. Lembra da cena da sua mãe parando em frente à TV quando você estava no última fase do Mário Brother e ia matar o Bowser? E, detalhe, você ia fazer isso antes do vizinho. Pois bem, até hoje eu adoro vídeo game e até hoje minha mãe faz isso…(adoro você mamãe)

A grande verdade é que nossa rotina infantil era mais flexível, a gente estudava de manhã, almoçava, fazia uma lição de casa meia boca e depois era só diversão… o tempo dava de sobra, dependendo do dia e das circunstâncias eu tinha tédio. Hoje, eu acordo e, quando percebo, já estou indo dormir…e a parte divertida do dia não é a maior…ela se torna exceção.

Agora, se você não entendeu o porquê do título das vaquinhas, eu explico. Quando minha casa em Ribeirão Preto ficava em um lugar isolado, cheio de terrenos baldios as vaquinhas iam pastar do lado de casa. Um dia, quando estávamos jogando bola, ela caiu do outro lado do muro e era minha vez de ir buscar. Eu era novo e pequeno. Fui passando pelas vaquinhas, peguei a bola e quando estava saindo do terreno eu escutei:

– MUUUUUUUUUUUUUUU!!!

Não tive dúvidas, sai correndo e fui para casa gritando:

– Mãe! Mãe! Socorro! A vaca está me chamando.”

MICRÔNICA [#4]

O Brasil faz mesmo o gênero do país mambembe-envergonhado, que tenta disfarçar sua indigência atual e quer varrer as mazelas do passado pra debaixo do tapete. Nossa história pouco estuda conflitos como a Guerra dos Farrapos ou a Guerra dos Mascates, talvez porque gente maltrapilha e vendedores ambulantes dão má impressão na foto colorida do cartão postal. Pelo mesmo motivo os governantes do momento não sabem como lidar com moradores de rua ou camelôs, cuja presença nunca foi lá muito decorativa nas pranchetas dos projetistas das belezuras. Dos rueiros falarei noutra oportunidade. Agora penso nos marreteiros e exemplifico com uma experiência pessoal. Quando quis comprar novos óculos escuros para proteger meus olhos cegos dos ciscos e esbarrões, procurei num shopping um modelo que tapasse bem dos lados com haste larga. Caí de costas com os preços dos “sun glasses” importados, mais caros que um televisor. Só por causa da grife? Um simples pedaço de plástico! Num camelô achei o modelo que queria pelo preço dum chinelo. Fiquei com mais raiva das butiques e já encaro os ambulantes com mais simpatia. Acho que estes são mais brasileiros e mais iguais a mim e a meu bolso, embora o Brasil oficial seja mais cego que eu face à realidade. Ao vendedor dos meus óculos escuros dedico este soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 365 MARRETEIRO

Miçangas, badulaques, miudezas.
Ao sol, quinquilharia, livre feira.
Na esquina, na calçada, na ladeira,
ofertas, novidades e surpresas.

Muambas que deixaram de ser presas.
Comidas que não vão à geladeira.
Gorjetas na sarjeta, na sujeira.
Achaques a pessoas indefesas.

O rapa passa rápido e reprime.
Mais rápido, o ambulante se mistura
ao povo, cuja luta não é crime.

Nas veias da metrópole, a fartura
afronta a autoridade, que se exime
da culpa, da lição, da ação, da cura.

Gota d´Água

Nunca esqueci a primeira vez que a vi. Foi durante um belo dia de verão europeu, no banheiro de um castelo. Não tinha como deixar de notá-la. Ela, tão contemporânea, bem ali, no meio de tanto passado. Fiquei até sem jeito, sem saber como chegar nela. Como pegar nela. Afinal de contas, não tinha registros. Pôxa, como é que eu ia fazer para usar uma pia sem torneira?

A sorte é que eu tinha entrado no banheiro para jogar uma aguinha no rosto. Já imaginou se o objetivo fosse outro? Ia ser dramático. Ainda bem que o que eu queria era usar a pia, mesmo. Assim pude gastar tempo à vontade para tentar entender como ela funcionava. Procurei por botões na parede, no balcão, em tudo que é lugar. Procurei até por um pedal, igual àqueles que acionam a água em consultórios de médicos e dentistas. Palavra. Só muito mais tarde descobri que ela era acionada por células fotoelétricas. E depois ainda que soube que não devia me sentir estúpido por ter tomado tamanho baile dela. Aquela não era uma pia qualquer. Era uma pia inteligente.

De lá para cá, o banheiro todo ficou mais esperto. Além das torneiras com diferentes QIs, temos também os secadores de mãos e exaustores superdotados. Mas, convenhamos, é difícil de acreditar na superioridade intelectual dos lavatórios. Especialmente porque não fizeram nada além de complicar os processos. Lavar as mãos costumava ser bem mais fácil. Antes nós só tínhamos que regular a pressão, esfregar as mãos, enxaguar, e depois usar umas oito toalhas de papel para secar. Nada mais. Tente fazer isso em um banheiro moderno. Ou você meleca a pia de sabão, de tanto apertar o botãozinho para ligar de novo a água, ou você fica mexendo as mãos feito um tonto até o sensor se dar conta de que elas estão ali. Para enxugar, outro tormento. O mais normal é sermos obrigados a usar a máquina de ar quente, conhecida por conseguir, ao mesmo tempo, queimar a pele e mantê-la molhada. Outra opção é o pano moto-contínuo. O pano moto-contínuo é uma imitação de papel toalha gigante que fica presa na parede. Aquele troço que você tem que ficar puxando e teoricamente faz uma auto-limpeza a cada volta que dá. Teoricamente, porque no mundo real ele fica cada vez mais nojento. Agora, o golpe de misericórdia é o exaustor. Mais comum em lugares menores, ele começa a funcionar quando a pessoa acende a luz do lavatório. Assim o estabelecimento todo fica sabendo que tem gente e pressupondo o pior. Adeus benefício da dúvida. Um banheiro desses não pode ser considerado inteligente. Pode ser chamado de sádico, e olhe lá. De inteligente, jamais.

Os sanitários automatizados só vão funcionar direito quando os inventores desses trecos desistirem de tentar padronizar o comportamento humano no WC. Ir ao banheiro é um ritual único, pessoal e intransferível. Não existem duas pessoas que façam igual. Por isso, enquanto a pia não souber a pressão certa para a água não espirrar e o secador não adivinhar a temperatura que eu gosto, eles não serão mais do que engenhocas. Só vou chamá-los de inteligentes quando aprenderem que cada um faz o que quer entre quatro paredes azulejadas. Até lá, lavo as minhas mãos.

Paixão Pessoal

Quando eu tinha 5 anos, passei um dia todo pedindo para minha mãe me ensinar como era “carro” em inglês porque eu queria que essa fossa a minha 1ª palavra aprendida nesse novo idioma.

Me lembro que nesse mesmo dia, eu andava de bicicleta na rua em frente ao meu prédio, e fazia Sol, muito Sol. Eu estava bem preocupado porque teria corrida no domingo, e o Ayrton Senna (ainda no seu primeiro ano de Fórmula 1) era bom no molhado, mas no seco, o Piquet tinha mais chances. Não me lembro se choveu ou não, e muito menos do resultado da corrida, mas o fato é que a corrida não era no Brasil, e o Sol daqui não influenciaria em nada na chuva de lá (e disso eu ainda não entendia).

Com o passar dos anos, eu continuei completamente fanático por motores, rodas e gasolina, e junto com esse fanatismo, aprendi a reconhecer e apreciar o trabalho daqueles que pilotam os carros por todos os locais onde se pode fazer isso.

Ayrton Senna foi, sem a menor dúvida, o maior de todos que vi pilotando um monoposto. Graças a Deus nasci na época em que já tinha consciência suficiente para entender como ele pilotava, mas ainda era criança o suficiente para vê-lo como ídolo.

Lendo, vendo TV e vídeos, estudando e até sonhando, fui aprendendo com o Senna a fazer a coisa que mais me fascina e dá prazer nessa vida: pilotar.

Fico extremamente chateado quando vejo as pessoas (na maioria das vezes mulheres, infelizmente) encarando essa paixão por pilotagem como uma banalidade, ou coisa de moleque metido a besta que quer impressionar os outros. Até o fanatismo pelo futebol é melhor compreendido. Afinal, é a paixão nacional! O Boxe é a nobre arte, o Atletismo é o esporte da Grécia Antiga, mas automobilismo é sempre visto como aquele esporte onde um monte de bobos fica dando voltinhas e não chega a lugar nenhum.

O pior de tudo é que a Fórmula 1, que sempre contribuiu para que o esporte fosse bem visto, morreu, independentemente do desempenho dos pilotos brasileiros. E agora, a população só tende a se desinteressar mais e mais.

Já formulei muitas teorias que explicam o porquê do meu fanatismo: nenhuma outra atividade exige por tanto tempo concentração total (com o risco de iminente de morte) de uma pessoa; nenhum outro esporte trabalha com o limite de uma forma tão concreta e objetiva, nenhum outro esporte tem tantas variáveis técnicas … Apesar disso, nunca consegui convencer alguém, por palavras, do prazer inebriante da velocidade.

Só me resta portanto, apelar e se você, então, quiser entender o que estou falando, experimente acelerar seu carro, numa noite qualquer, numa estrada qualquer, com os vidros abertos, ouvindo atentamente cada ruído proveniente do motor, do atrito dos pneus com o chão, do carro perfurando o ar e sentindo nas suas mãos e pés o controle de absolutamente tudo o que estiver acontecendo. Talvez assim, esse texto lhe faça um pouco mais de sentido.

Carta Cartográfica

É um dia como qualquer outro. Você está lá, tranquilo, tudo na mais perfeita normalidade. Aí chega o e-mail. Um e-mail inesperado, vindo sabe-se lá de onde – quer dizer, você sabe, mas assim é mais dramático. Seja como for, chega o e-mail. Nele, o convite para uma festinha no sábado. Até aí nada de mais. Só o simpático desejo de um amigo de comemorar o aniversário dele com você por perto. Legal, legal. O convite segue o roteiro de sempre. Primeiro os gracejos habituais, depois a informação que é tudo de graça – detalhe importante nesses tempos de consumação mínima e festas em bares ou danceterias – aí vem a data e, por fim, o endereço.

Engraçado. Você nunca ouviu falar dessa rua. Será que leu direito? Pára tudo, nova olhada. Agora com atenção redobrada. É, é isso mesmo. E a rua continua sendo desconhecida. O jeito é procurar um amigo na lista de destinatários e ver se ele pode ajudar.

– Faaaaaala!
– Beleza, carinha?
– Opa, só.
– E aí, o que pega?
– Sabe o lance da festa do Zuê?
– Sei. Que tem?
– Onde é essa jaca?
– Nem idéia, mas fica tranquilo que ele falou que vai mandar um mapinha.

Claro, que bobagem. O tal mapinha é obrigatório. Normalmente é feito à mão e sempre, repito, sempre, faz a coisa parecer mais simples do que é. Para isso conspiram também os deuses. Pode reparar como todas as vezes que partimos com rumo incerto o céu está azul, a temperatura está amena e a idéia de cair na estrada até parece convidativa. Tudo artifícios para nos distrair de nosso ignóbil destino. Basta chegarmos ao fim do trecho que conhecemos para aparecer uma certa instabilidade. Na gente e no céu. O firmamento balança por causa das risadinhas divinas, satisfeitas com a peça que pregaram; nós trememos porque de repente fica claro que não sabemos para onde estamos indo.

A essa altura você já está num caminho sem volta. Na verdade, vocês. Sim, vocês, plural, porque ninguém é louco de embarcar numa dessas sozinho, espero. É indispensável contar com no mínimo mais uma pessoa no carro. Afinal, alguém tem que segurar o mapa e levar a culpa quando as coisas começarem a dar errado. Isso deve acontecer em algum ponto entre a metade e três quartos da viagem. Esse fenômeno tem uma explicação bastante simples. É como o clássico “tenho que atravessar um descampado com chuva”. À medida que o meio do caminho se aproxima, cai cada vez mais água. No nosso caso, quanto mais andamos, mais longe ficamos de qualquer lugar remotamente conhecido. Com um agravante, ainda por cima: um simples desvio é suficiente para nos lançar em um mundo completamente estranho. E aparentemente não-cartografado, uma vez que é impossível achar no Guia de ruas aquela em que você se encontra. Para completar, você não está apenas irremediavelmente perdido, mas também distante o suficiente da casa do seu anfitrião para ele não fazer idéia do seu paradeiro. Nem adianta tentar ligar.

Diante de uma situação dessas, o primeiro reflexo de uma pessoa sensata é achar um posto de gasolina para pedir informações. Os mais paranóicos podem aproveitar a parada também para encher o tanque. Nunca se sabe, certo? O problema é que você e a população local não falam a mesma língua. Assim, cruzamentos viram rotatórias, ruelas se transformam em avenidas e o termo “centro” acaba sendo tomado por “distrito industrial”. Pior ainda é descobrir que os nativos não têm uma língua mãe, mas dialetos; daí as informações recebidas em cada parada serem contraditórias. Ou isso ou eles são o tipo de gentinha que se diverte jogando os perdidos de um lado para o outro, os malditos. Mas, verdade seja dita, nós não facilitamos para eles. Quem pode culpar o solícito cidadão por não saber em qual praça está a Farmácia Alegria indicada no mapa? Ninguém tem a obrigação de saber que é a que fica perto da padaria Santo Avozinho. O mapa que o desgraçado mandou não serve nem para conseguir orientação.

É que todo bom mapa de festa de aniversário não traz coisinhas prosaicas como nome de ruas, praças e bairros. Eles são práticos. O único endereço que consta é o da casa do infeliz. O resto das ruas rabiscadas vêm acompanhadas de referências melhores, como a orientação para pegar a saída da direita no viaduto depois do terceiro farol ou para não perder a entrada à esquerda depois do galpão com a parede lateral rosa-choque. Aquela ali, logo depois do McDonald´s. Aliás, estar perdido e ter um McDonald´s como referência é uma das maiores desgraças que podem acontecer.

– O McDonald´s é subindo ou descendo a avenida?
– Isso.

Não sei o motivo, mas mapas feitos à mão têm essa irritante mania de excluir informações precisas e achar que a pessoa não vai errar o caminho. Não tem como se enganar com uma trilha de migalhas como essa, deve pensar o bem-intencionado aniversariante. O que ele não lembra é que quem nunca andou pela região não sabe de que lado e em que altura da estrada vai aparecer o tal galpão com parede cor de rosa. Nem que existem outras coisas cor de rosa pelo caminho. Além disso, muitas vezes o que um chama de galpão não passa de ruína abandonada para o outro. É melhor deixar as intimidades para a festa, não para os mapas. Que eles tenham a liberdade de indicar a saída 28B da rodovia, de dizer que o lado certo do viaduto é o da placa “Belo Horizonte/Atibaia” – ainda que pareça esquisito – e de informar o nome das ruas e praças perto do local das comemorações. As chances de alguém se perder seriam menores, e se acontecesse, seria mais fácil o desgarrado reencontrar o rumo.

Até entendo que o autor do mapa não lembre de todas as placas do percurso. O sujeito fica tão acostumado com o trajeto que pára de prestar atenção. Nesse caso, aqui vai uma dica: entrem em um desses sites de geoposicionamento, pesquisem o melhor caminho e mandem o link no e-mail. É mais rápido do que desenhar e escanear o mapa. Mas se mesmo depois desse apelo os aniversariantes nômades do mundo continuarem insensíveis, exerça seus direitos. Diga “NÃO” ao mapa manuscrito. E largue mão de ser preguiçoso: olhe você mesmo como chegar lá.

Um momento de prazer

Eis um dos prazeres da vida: defecar! É isso mesmo, defecar, traduzido pelo Aurélio como “separar as fezes ou impurezas de (líquido); expelir os excrementos”. Sei que sua reação foi de espanto, mas ao longo dessa crônica tentarei te cu-vencer de tal afirmação. Vejamos. O pressuposto para encarar esse ato com prazer é deixar de lado algumas frescurinhas muito peculiares as mulheres que se julgam finas o suficiente para se horrorizarem com o assunto. Defecar deve ser encarado com naturalidade por todos, independente de sexo, raça ou credo, afinal, é uma função fisiológica executada tanto pela Ruth Cardoso e Gisele Bündchen quanto pelo Bin Laden e o Brad Pitt. A maior prova do que eu digo está na sabedoria popular que afirmar sermos todos iguais, na dor e no prazer, sobre o “troninho”.

Pois bem! Vamos então encarar as coisas com naturalidade. Comecemos por tratar do tema com mais intimidade, como de merecido. O verbo defecar soa erudito demais pro meu gosto e sugiro substituí-lo por um similar. A palavra evacuar é pior ainda, é coisa de médico, de modo que só nos sobrou a popular Cagada.

Deixada às frescuras de lado, Cagar pode vir a se tornar um dos prazeres de nossas vidas, desde que: 1)- você não sofra de nenhum distúrbio intestinal ou algo do gênero. 2)- não sofra de hemorróidas ou abscessos na região anal. 3)- siga algumas recomendações que em seguida darei, recolhidas a partir de vivências e experiências compartilhadas com quem entendem do assunto.

Já adianto que essa crônica não pretende ser nenhum dogma a respeito de tão nobre momento de intimidade, mas ressalvo que algumas dicas que aqui darei são importantes para um devir mais prazeroso.

Primeiramente, encare a Cagada como um ritual. Não seja afoito. Se você por alguma razão se precipitar pode acabar precipitando coco sobre suas calças. Inversamente, se você deixar o momento certo passar a cagada depois lhe exigira muito mais força, proporcionando assim menos prazer. Por isso, espere o momento ideal que varia conforme a solidez do coco. Ao sentir esse momento chegar, se sólido, caminhe em direção ao banheiro dando tapinhas laterais na barriga, eles aliviarão a força que será feita (juro que isso funciona, aprendi a técnica com meu tio). Aproveite o percurso para soltar puns, se for o caso é claro. Se líquido, os tapinhas são opcionais já que a força exigida para a Cagada será quase nula. Já os puns, nem pensar, são arriscados demais. Jamais caia na bobagem de levar gibis, revistas ou jornais ao banheiro. Lembre-se que esse é um momento muito íntimo e que, querendo ou não, está em primeiro plano neste instante de sua vida, por isso dedique-se exclusivamente a ele.

Chegando ao vaso retire a roupa da cintura para baixo ao invés de somente abaixa-la até os tornozelos, assim você fica mais à vontade.Sente-se! Jamais cague na posição de cócoras, ainda mais se você estiver em idade ou peso avançados, o que na melhor das hipóteses, pode acabar em cãibras ou distensões musculares e na pior o vaso quebrar e você ir parar comicamente no hospital – conheço uma senhora que quebrou a bacia depois do vaso partir-se em pedaços. A posição de cócoras é definitivamente uma limitadora do prazer. Você tem que dividir sua atenção entre o equilibrar-se e o Cagar, o que resulta em algo não muito prazeroso caso você se desconcentre de uma delas. Se por acaso um dia alguém lhe dizer que Cagar de cócoras é mais saudável, ignore, é intriga da o-posição, apesar de que é bem verdade que os orientais vivem mais por cultuarem tal posição. Mas de qualquer forma, para que esse momento se torne agradável exigi-se a adoção de uma filosofia epicurista.

Enquanto estiver Cagando não se apresse, relaxe e aproveite o momento. Os gemidos e ahhh….. ficam a seu critério. Um detalhe importante em cagadas que se prolongam por mais de dez minutos é usar aquela tática ensinada pelos militares; mexa os dedos dos pés e se possível contraia os músculos da perna para ajudar na circulação e evitar os incômodos formigamentos ao se levantar.

Por fim, não se levante e já vá dando descarga(s). Use a imaginação. Olhe para o vazo e confira a letra do alfabeto que você fabricou. Estabeleça metas ou disputas com seus amigos, como, por exemplo, Cagar um “W” ou um “X”. Se quiser peça dicas ao Bi do Paralamas do Sucesso, ele já conseguiu Cagar um quase impossível “W”. Vamos lá, coloque em prática essas dicas e seja testemunha de que Cagar é um dos prazeres da vida. Ah, não se esqueça de dar descarga(s) e lavar as mãos.

CineMarx

Enfim, no meio da floresta equatorial colombiana, as FARC abriram um cinema para a população. Não é um cinema comum, não. É o CineMarx, baseado nas redes de cinema internacionais que pululam pelo mundo, inclusive São Paulo. Mas, ao invés de tentar explorar ao máximo o dinheiro do telespectador com qualquer coisa sendo colocada em cartaz, aqui há uma proposta diferente.

Primeiro: nenhum filme hollywoodiano será exibido. Nunca. Isto significa que os colombianos dominados pelas Farc não terão o prazer de assistir a Armaggedon, Independence Day ou Pânico 5. Nem Blues Brothers 2000. Pokémon 2, então, nem pensar. No lugar, serão exibidos filmes sobre Trotsky, Lênin, Stálin (para polemizar um pouco), além de especiais sobre as discussões do Karlito. Sim, é Karlito com “k”. Não tem nada a ver com Chaplin, mas sim com uma forma carinhosa de chamar o patrono do cinema.

Certa vez, um miguelito chamado Miguel foi, inadvertidamente, assistir a “O Revolucionário do Futuro”, pensando que se tratava de mais alguma produção com o Stallone e a Sandra Bullock. Apesar da frustração inicial, ele saiu do cinema muito impressionado com as possibilidades utópicas da implantação da Quarta Internacional. E nem ouviu Backstreet Boys naquele dia.

Filmes pornográficos também não estarão na programação, apesar de haver relatos de certos FARCanos que ficaram extremamente excitados ao ver um trio de barbudos usando aquele ridículo chapéu russo. As fontes não quiseram divulgar seus nomes.

Segundo: cocacola, pipoca com manteiga e mcDonalds estão abolidos. O telespectador que tentar entrar no cinema portanto algum desses produtos será imediatamente conduzido para fora, numa ala especial, onde será julgado por traição dos valores marxistas. Para comer, haverá um mutirão, em que cada um ajudará na preparação de alimentos regionalmente produzidos. Tudo simulando uma cooperativa, inspirada nos esquemas de assentamentos sem-terra brasileiros. Só que sem capangas de fazendeiros para distribuir balas. Balas, só de folhas de coca. No lugar da pipoca, snacks de mandioca assada. Snacks não, tortillas. No lugar da cocacola, refresco de limão. E, em vez de McDonalds, nada, que por lá ninguém é louco.

Terceiro: O ingresso será de graça, por motivos óbvios, e cada morador terá direito a assistir 1,33 filmes por semana. Só há um detalhe muito importante. Os ingressos não são transferíveis.

Uma curiosidade: por um estranho costume, somente metade dos assentos da sala serão ocupados. Todas as cadeiras do lado direito foram removidas, já que ninguém queria se sentar nelas. E, segundo informações, o pessoal que senta na extrema esquerda olha cada vez mais preocupada pro pessoal do meião.

Cadeira de plástico

Da janela do carro dava pra ver aquele monte de gente que corria lá fora. Meu pai sempre me mandando sentar e eu queria era ficar em pé pra ver as pessoas passando. Aquele tanto de gente que pra mim não combinava: não achava nenhuma igual a outra.

No caminho de casa sempre tinha um monte de moleque que ficava jogando bola na rua a tarde toda. Só um menino é que ficava sentado em uma cadeirinha surrada. De plástico com pés enferrujados, já estava pela hora de trocar. O menino, sentado, só ficava olhando para a lombada eletrônica. Toda vez que a gente passava por lá havia muita molecada na rua e o menino da cadeira. Não dava pra entender. Todo mundo brincando e o menino lá, parado, olhando para a lombada. O papai passava e, de novo, só no outro dia. Fiz isso muitas vezes. Subia no banco de trás do carro só pra ver o menino da lombada eletrônica.

Foi até engraçado quando eu levei uma multa na lombada dele. Era época de Copa e eu já estava na faculdade, atrasado para a aula. O relógio não havia despertado e saí correndo de casa. Quando passei por ele eu tomei um susto. Chapéu verde e amarelo, todo decorado com uma bandeirinha na mão. Foi inevitável, não lembrei da lombada e pronto! Sete pontos na carteira. Depois disso eu acho que nunca mais vi o cara da lombada de outro jeito que não aquele mesmo de quando eu levantava no banco de trás do carro do meu pai.

Sempre lá, parado, olhando a lombada eletrônica. Ele foi ficando, ficando, de menino ficou moço e na mesma cadeira de plástico surrada e já meio enviesada pelo tempo, ele foi ficando. Como uma pessoa deixa a vida passar por entre os dedos apenas olhando uma lombada eletrônica? Eu já pensava mil coisas. Fantasiava que devia ser alguma doença ou paralisia, essas coisas (a gente sempre imagina desgraça). Mas foi um dia, voltando do trabalho, que eu fui abordado pela vizinha. Dona Joana. Vocês não são capazes de acreditar nesta senhora. Tudo ela sabia, pai do avô da irmã da prima do dono do bar da esquina: ela conhecia. Foi Dona Joana quem me disse que o homem da lombada era perfeitamente normal e se chamava Ovídio, mas não soube me dizer se ele tinha família. Engraçado, sempre quando a gente se sente só logo pensa na família, mesmo que você não esteja só, pode ser um simples sentimento passageiro de solidão.

Muitas vezes, ainda, eu voltei do trabalho e olhei para o Ovídio. Sentado. Depois de anos eu havia descoberto o nome daquele menino que não jogava bola nem brincava com as outras crianças. Eu me sentia íntimo daquela pessoa. Pra mim, era o “Vidinho da lombada”. E parece que o apelido pegou, muita gente conhecia o Ovídio por “Vidinho da lombada”, chegou até a ser ponto de referência da rua.

Quando eu era uma criança eu ainda não conseguia atinar direito com as coisas, mas agora, homem feito, eu me perguntava sobre a vida do Vidinho e passei a me inquerir sobre isso e ocupar grande parte do meu dia no trabalho tentando imaginar qual seria a profissão, ou até se tinha estudado como os outro garotos. Cheguei a sentir muita pena do pobre coitado que passou a vida inteira em uma cadeira velha que mal conseguia segurar o peso dos anos que tinha e continha naquele vai e vem da rua, sempre olhando para a lombada eletrônica com o mesmo olhar de menino que sempre teve. Como um homem pode passar a vida toda preso a uma rotina diária de eventos sem importância e deixar de viver a aproveitar um dia de sol, um domingo no parque? O meu sentimento de culpa foi crescendo já que eu podia há muito, ter parado, conversado, tentado entender e nunca o fizera. Será que o Vidinho tinha amigos? Eu precisava fazer alguma coisa com aquele bolo de angústia que subia a garganta e pressionava meus olhos até lacrimejarem de raiva. Peguei as chaves do carro, desliguei o computador, desci o elevador até a garagem e saí.

No caminho eu refletia sobre as chances que eu reprimi e as vezes que eu quis falar e não falei. Lá mais na frente estava o posto e depois do posto a lombada eletrônica. Eu podia jurar que tudo iria mudar na minha vida e na dele também. Era uma dessas coisas de pressentimento ou coisa que o valha.

Contornei o posto e lentamente foi surgindo a cadeira enferrujada, toda rota e desmantelada. Vazia. Passei reto pela lombada e segui em frente. Minha vida também havia passado.

Verônica

Aquele silêncio matinal infernal, acentuado pelos rostos tranqüilos de pessoas que tiveram uma noite contínua de sono, perturba mais uma vez os pensamentos de Verônica. Perturbam porque assim eles parecem gritar dentro de sua cabeça, e aqueles rostos tão amenos parecem levianos diante da vidinha medíocre que Verônica enxerga neles. Por que parecem tão satisfeitos com essa abundância de convencionalidade? Nenhum desespero, nenhuma olheira que denunciasse alguma aflição e logo um lampejo de consciência que lhes tirasse o sono, nem mesmo um atraso causado por uma noite em claro de puro sexo selvagem com seu vizinho que acabara de se mudar, ou mesmo por um ataque de preguiça que revelaria alguma proximidade ao ser humano e não a um ser sistemático e tão encaixado nas regras sociais. Nada, nada, só o maldito silêncio. A angú! stia de Verônica aumenta a cada minuto que passa e o silêncio não é cortado pelo toque do telefone, um chamado de alguém que a salvasse , de alguém não, “o alguém”, o mesmo alguém e o mesmo toque que não aconteceu e lhe tirou o sono nas últimas noites. Apenas o silêncio a que pensava um dia se acostumar porque o sentia mesmo estando entre amigos, numa festa ou alterada quimicamente.

A idéia de ser uma mulher nascida numa era pós-feminista, cheia de direitos, mais esclarecida e sem preconceitos a irritava mais por ainda ter que se sujeitar a este papelzinho de sombra feminina. Uma raiva enorme que brotava do fundo de seu útero e subiu até seu corpo a fez gritar:

– Chega!

Aqueles olhos apáticos que a rodeavam se centraram nela e neste momento ela desejou nunca ter quebrado o silêncio que tanto a incomodava, ainda mais porque agora queria se entregar a seus pensamentos. Não podia perder este momento de revolta que poderia se! r o início de sua libertação. Então, levantou seu rosto enrubrecido, jogou sua franja com o movimento de sua cabeça e encarou todos como quem diz “fodam-se todos, isso não lhes diz respeito e eu não tenho medo de ser louca” . Afinal, quem nunca pensou alto que atire seu manual de boas condutas primeiro. Além do mais, tentar ser normal é um saco. De repente lhe veio um pensamento à cabeça – Será que valeria a pena acabar com uma fonte tão segura de sexo bom e fácil?

Verônica já não tinha mais paciência para agüentar conversas que na verdade não passam de cantadas baratas de pessoas que dizem um monte de baboseiras para se parecerem interessantes, e nem tão precipitadas em transar com você (mas que na verdade só querem é te comer mesmo). Todo esse ritual de acasalamento parecia uma verdadeira tortura, às vezes até achava que deveria aturar isso de vez em quando para uma boa trepada, mas realmente não dá para se ter um sexo bom ! se não se pode admirar quem te fode.

Isso é uma merda mesmo, pensou ela. Aliás esse é um mal de que os homens não sofrem, afinal eles parecem nunca ter critério; tanto eles podem estar contando vantagem por ter pego a menina mais gata da balada quanto terem comido uma bagaceira qualquer. Pensando bem, Verônica começa a ter consciência que existe uma sabedoria mesmo que estúpida nos homens, a sabedoria de se divertir com o que tem à sua volta sem expectativas, apenas se divertir. Ela olha para o visor de seu telefone num lampejo feminino e não vê nenhum rastro de chamada nele, desvia seu olhar com raiva e só então percebe que ao seu redor, no meio daquele mar de convencionalidade, há alguém que parece esconder debaixo daquelas roupas caretas um corpo firme e macio louco para ser tocado. Era um rosto simpático e receptivo.

Num impulso da sabedoria adquirida ela se dirige à mesa de Joana e diz:
– Oi, Jô. O que você está pensando em fazer hoje?