Arquivo de abril, 2002

Murilo Encontra o Murilo

“Murilo?

– Sou eu!

– Eu também!

– Como assim?

– Como assim digo eu, seu impostor!!

– Impostor é você! O Murilo é único. O Murilo sou eu.

– Nos seus sonhos. Franga!

– Não me chama disso que eu não gosto!

– Eu sei. Narigão!!

– Olha o respeito!

– Olha você o respeito, senão eu saio contando para todo mundo o que você fez no dia 01 de janeiro de 1996!

– Dia 01 de janeiro de 1996??….é melhor você ficar quieto, ou..

– Ou eu também conto para sua namorada o que você fez dia 04 de abril de 1997!

– Você não presta seu F&$¨%$*%¨$&%#&&$@¨!!

– Você também não, hehehe.

– Eu jamais faria isso comigo mesmo!

– Faria sim, você faz isso o tempo todo, só que com outros.

– Lógico, é muito mais divertido.

– Viu só como você é ruim!

– Ruim não, divertido. E você? É algum tipo anjo que veio me mandar ser bonzinho? Senão não vou para o céu?

– Isso.

– Já imaginava uma viadagem dessas mesmo.

– Viadagem não, olha o respeito, não tenho sexo mas sou muito macho.

– Sei…Mas vocês precisam de uns disfarces melhores lá no céu.

– Por que?

– Olha a sua barriga.

– Que tem ela?

– É muito, mas muito, maior que a minha…eu sou saradão!”

MICRÔNICA [#7]

Maio sempre abre com manifestações comemorativas e reivindicativas do proletariado, mas pouco se fala do chamado “campesinato”, mesmo depois de todo o barulho que o MST conseguiu espalhar. Em termos emblemáticos, celebra-se muito mais o martelo que a foice. Sem dúvida uma falha publicitária do movimento, cujo marketing tem se aperfeiçoado tanto, a ponto de furar o bloqueio israelense e visitar o QG de Arafat logo após ter invadido a fazenda presidencial sem que os serviços de inteligência tivessem tempo de abortar a operação. Mas sempre é tempo de mudar de tática e renovar a propaganda. Mesmo que a foice não seja um símbolo tão popular por aqui quanto a enxada, pode-se meter a foice alheia na nossa seara e criar slogans tipo “Briga de foice no claro” para ocupações diurnas com cobertura da mídia. Ou: “Mais vale ser martelo que bigorna, mas é melhor ceifar que malhar em ferro frio.” Por falar em lemas e dilemas, o movimento tem um belo pepino filosófico para resolver: é internacionalista (Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!) mas se opõe à globalização. Apóia os muçulmanos no Oriente Médio e os narcoguerrilheiros na América Latina, mas a lei islâmica condena traficantes à morte (exceto os papouleiros do Talibã)… Enfim, como as contradições e incoerências não são privilégio desta ou daquela ideologia, vale festejar o Dia do Trabalho, seja ficando sem trabalhar, seja trabalhando na luta contra o patrão que desfruta o feriado. Quanto aos lavradores, os palavradores como eu só têm a colocar, entre a foice e o martelo, uma pena em forma de espada, ou de alfinete, caso deste soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 370 SEM-TERRA

Não há justiça agrária sem reforma,
repete o campesino rebelado.
“Ou cedem-me o terreno, ou eu invado!”
E o latifundiário se inconforma.

Marxismo primitivo, mas em forma:
Com práxis de guerrilha, lança o brado,
sitia, ocupa, pilha a safra, o gado,
arrepiando o estado, a lei, a norma.

Revolução começa pelo campo
e acaba na cidade, onde se junta
à massa de manobra a mão sem trampo.

No ar, só paira a histórica pergunta
que o inepto agente capta pelo grampo:
“Quem disse que a utopia era defunta?”

O capítulo nosso de cada dia

Vamos lá, reconheça. Você adora novelas. É capaz de perder 3 horas de seu dia, todos os dias, só para acompanhar o desdobramento do gancho do episódio anterior. É claro que você sabe que haverá um outro gancho no final do capítulo. E aí você assistirá de novo. O quê? Não admite? Jura de pés juntos que não faz isso? Ou que só assiste umzinho às vezes, e escondido do pai, só para relaxar? Conversa. E não me venha com essa história de que a última novela a que você assistiu foi “Quatro Por Quatro”, mas isso porque era sua hora de jantar e era um interessante modo de entender a psiquê feminina. Não cola. Admita!

Pronto. Já admitiu? Se sim, então você é um noveleiro.

Se não, então você é um noveleiro mentiroso.

Você pode até argumentar que não assiste a novelas, assim, de forma religiosa. Que não senta para jantar na frente da tevê esperando o Jornal Nacional acabar, sai daí FHC, búúú, só para aguardar o começo da novela. Mas se você vive em Pindorama, não há como escapar. Jade, Sinhozinho Malta, a Mulher de Branco. Impossível não saber do que se trata. Os personagens estão lá, sempre os mesmos, em novos/velhos problemas. As tramas, todo mundo já sabe, a luta da mocinha-pobre-que-ama-o-mocinho-rico-traído-pela-família-que-descobre-o-poder-do-amor e as canalhices do vilão-inescrupuloso-que-tenta-de-todo-jeito-se-dar-bem-passando-por-cima-de-todos. E, claro, o assassinato. Ou então algum bebê trocado. Ou um bebê trocado que morre assassinado. Enfim.

Quando menos se espera, ela está lá, à sua espreita.

Mariovelda:
– O que você acha que vai acontecer?
Luninstácia:
– Não sei, acho que a diferença cultural é muito grande.
– Pois é. Sabe que, se eu fosse muçulmana, agiria da mesma forma.
– Mas é uma atrocidade, não é? Como é que ninguém faz nada a respeito!

E você, de pára-quedas na conversa:
– Eu também acho. Árabes e judeus deveriam buscar uma solução pacífica pra questão da Palestina…

Na-na-não! Que feio, que papelão você faria.

Na verdade, isso nunca iria acontecer. Pura ficção de cronista. Porque, no fundo, qualquer um saberia continuar a conversa de forma adequada, com frases do tipo “mas acho que no fim o Romualdo Rener vai ficar com a Mérilin”, ou “eu também odeio o Róbinson Rômulo”. Você sabe do que eu estou falando. Ao passar nas bancas de jornal, lá estão, estampados em corpo 120, tudo o que você precisa saber. “Golpe de Róbinson Rômulo”. Da mesma forma, em todos os intervalos da tevê, as novidades. “Mérilin vai à Moçambique”. No cafezinho do trabalho, a roda em coro. “Romualdo Rener vai se superar”.

Você conhece todos os personagens. Você conhece a trama principal e as secundárias. você sabe quais emissoras transmitem. você sabe até os horários! E, claro, você tem certeza que tudo vai acabar bem no final, casamentos dos mocinhos, falência/prisão dos malvados.

Não há como evitar, por mais que tente. Você é um noveleiro mesmo.

Via Sacra

Gosto de conhecer lugares novos, de ver paisagens diferentes, de provar comidas típicas. Ou seja, gosto de viagens. Mas tenho sérios problemas com tudo que acontece entre a partida e a chegada. Odeio viajar. Até uns testes de aptidão que andei fazendo acusam a minha aversão a deslocamentos. De um a dez, tirei dois – isso graças aos aviões ( e em um mundo ideal, a trens também ). Só não fui pior porque o exame fez vista grossa. Se ele tivesse se interessado, descobriria que a minha política para transporte rodoviário é republicana: tolerância zero.

Só que, obviamente, nada disso importa quando sou obrigado a viajar. Toda vez que isso acontece tento aproveitar ao máximo a viagem em si. Ficar pensando nas coisas que vou ver e nos costumes que vou encontrar ajudam a me distrair. Foi com esse espírito que embarquei para São Bernardo do Campo.

Pausa! Esse parágrafo é para você que está pensando em me chamar de fresco porque São Bernardo é “aqui do lado”. Os outros podem pular para o próximo trecho. O menor caminho indicado por um site de geoposicionamento – sim, eu faço o que digo – tinha 50 Km. Percorrendo o mesmo tanto, mas indo para o outro lado, eu chego em Itu. E todo mundo diz que ir para Itu é viajar. É a mesma distância. Para quem ainda não se condoeu, posso dizer que atravessar São Paulo não é figura de linguagem, e que além da capital ainda ficam para trás outras quatro cidades. Isso sem contar que é impossível chegar em São Bernardo em menos de uma hora e meia. Claro que se você acha que ficar no carro todo esse tempo é normal para distâncias abaixo de 120Km, eu certamente não consegui te convencer. Nesse caso, bom, leia até o final para poder me chamar de fresco com propriedade. Fim da Pausa.

São Bernardo podia ter menos caminhões e as ruas podiam ter placas informando seus nomes, mas como a observação vale para a maioria das cidades do mundo, não vou ficar pegando no pé. Desconto dado, o resto pareceu legal. Um povoado bem-cuidado e organizado até nos detalhes. A marca do progresso também estava lá: tinha umas avenidas estalando de novas. A civilidade desse simpático povo aparece até nos bairros mais tradicionais. Mais precisamente, desenhada nas ruas dos tais bairros tradicionais. Sabia que lá as vagas são pintadas no chão? Pois é. Todas as vias tem as vagas demarcadas, e o que é melhor, todo mundo respeita. Uma beleza. Facilita pra burro na hora de estacionar.

Tanta diferença na configuração do espaço urbano, no entanto, tem suas implicações. Um olhar treinado com certeza seria capaz de identificar de cara as peculiaridades culturais que elas indicam. Como esse não é o meu caso, conheci um pouco da cultura são bernardense, ou são bernardina, não sei, na pele. Participei de um ritual conhecido como pré-multa. A principal característica da pré-multa, também chamada de Aviso de Prazo de Tolerância, é ser ao mesmo tempo amada e odiada. É o equivalente ao purgatório das repartições municipais.

Quem recebe uma notificação dessas ganha 72 horas para pagar uma taxa em um posto especializado. A quantia é menor do que uma multa e os postos são dedicados exclusivamente a atender aos pré-infratores. Isso é bom – ou menos pior, quem sabe. Mas o que, afinal de contas, leva alguém a ser pré-notificado? Bom, o desconhecimento dos costumes locais. Por isso os forasteiros são as maiores vítimas desse rito. Lembra aquela coisa das vagas pintadinhas no chão, bonitinhas, e tudo isso? Elas não são bem o que aparentavam. Não são um avanço na gestão municipal, mas um dos pilares da decadância de São Paulo. As vagas rabiscadas no asfalto são a expressão máxima e inequívoca do loteamento das cidades. Só pode parar nelas quem paga. Pena que não deixam isso explícito. Não há placas de orientação e os parquímetros eletrônicos são como os tiozões que vendem talão de Zona Azul: nunca estão onde podemos achá-los.

Na Central de Atendimento ao Usuário, nova surpresa. Os são bernardopolitanos, ou beneditinos, sei lá, não são pacatos. Ao contrário. São ferozes e violentos. Pelo menos de acordo com os diversos avisos pregados na parede, declarando que o atendente também é gente e implorando um comportamento cordato. Junto desse papel, uma oração falando de harmonia e cooperação entre os homens. Tudo em vão. Nenhum deles impediu o nativo que estava na minha frente de brigar com a funcionária. Ele ainda trazia o filho a tiracolo, com a clara itenção de ensinar a prole a ser brava e combativa. Quando chegou a minha vez, não quis saber de conversa. Paguei e saí rapidinho. A minha via sacra estava longe de terminar. Eu ainda tinha a viagem de volta.

Bolinhas de gude

Eu não sabia jogar bolinha, foi meu avô quem me ensinou. Na calçada, a tarde era nossa. Toda a molecada se arrastando pelas guias, na esquerda, na direita, era um sobe e desce na rua que parecia até procissão. Aprendi rápido o “mata-mata”, esse aí, jogado nas guias.

Eu sempre quis ser o melhor pra não ter que me preocupar se ia perder ou ganhar as bolinhas; sim porque a gente sempre jogava “a ganha”. Só quando não tinha mais bolinhas de gude que se jogava “a brinca”.

No quintal da Dona Joana, a gente fazia os “boxes”. {“boxe” – buraco redondo, com cerca de 5cm de profundidade, usado para marcar os pontos de um jogo infantil chamado “box”, no qual se utilizam bolinhas de gude. O objetivo do jogo é fazer o percurso de 5 buracos no menor número de jogadas possíveis, assim como o golfe}

O desafio não era acertar os buracos, e sim, desviar do Marcelo e do Duque, a dupla de vira-latas mais conhecida da Vila Constança. Eu até que jogava bem mas sempre tinha o “Nêga”. Que raiva, eu nunca conseguia ganhar dele! No “triângulo”, ou “cela”, então …. O cara era “rato”, conhecia todas as manhas da calçada do Zé do pito. Acho que elenunca teve que comprar uma bolinha. Ele “rapelava” todo mundo.

Eu jogava, jogava e nunca conseguia ganhar dele e acho que isso, de certa forma, me deu forças (“me deu” depois de vírgula sim senhor, e aí? vai encarar?) para continuar jogando e treinando até hoje. Tudo bem que eu tenha 37 anos, mas hoje eu ganho desse maledeto!

A campainha tocou. Amigo de longa data ….

– Chega aí, Nêga.
– Fala Toco, tudo bom?!
– Então, vamos jogar uma?
– Jogar uma o quê?
– Bolinha de gude, lembra?
– Cara, eu tenho 35 anos, olha pra minha cara …
– Tá, só uma vai! Só pra relembrar os velhos tempos.
– Tá bom, mas você sabe que eu vou ganhar. Eu sempre ganhei de você e hoje… não vai ser diferente.

O que ele não sabia é que eu nunca parei de jogar. Treinei dia e noite com os meus sobrinhos. Ensinava e ganhava de todos eles. Eu estava maispreparado do que nunca.

– Tá, vamos logo com isso. Você vai ver.

Tudo preparado, faltavam as bolinhas. Esqueci as bolinhas no carro. Foi o tempo correr até o dito cujo e voltar. Quando cheguei:

– Amor! Você não está escutando a Julinha chorar? Vai, rápido, fazer o mercado enquanto eu troco ela.

Ainda Que Seja um Sonho

Sonho. Visão de outro mundo. Meu mundo. Pequeno, grande, sozinho, cheio de pessoas. Ora, por favor. Sim? Clarisse Lispector, não ! O mundo não começou com um sim. Sei. Você dirá. Eu acho que o não é mais provável. Sonho qualquer, qualquer um é sempre não. O que não aconteceu. Viagem, pagem, pasmem: todos sonhamos.

E no entanto, de que servem. Sério. São os sonhos que impulsionam os homens. Que tipo de sonhos? Todos. Paralisia enquanto dormimos. Um dia eu sonhei que estava viva. Sonho de realidade, de realizar, realizado, impossível. Não. Minto. Sonho não é impossível. Nunca. Impossível é sua realização. Outra vez. Realidade…

Não sei. Que nada sei. Será que Platão sonhava? Nem foi ele que disse isso, foi? Ele pode ter sonhado comigo? Eu já disse: nenhum sonho é impossível. Quer ver, Clarisse, como tudo começou com um não? Assim: Deus não quis preservar a Terra. Não imaginou que os homens pudessem destruí-la. Ah. Deixa pra lá. Você não vai cair nessa. Lógico. Você está morta (desculpe, mas é verdade). Diga: vocês sonham por aí? No ceú. Ou será que vocês vivem e nós sonhamos?

Alice ! Acorda ! Coitada. Caiu, caiu e foi parar no país das maravilhas. Quando Alice atravessou o espelho, a rainha vermelha contou que ela não conseguiria sobreviver, pois estava no sonho do rei Branco. Então, quando ele acordasse, ela desapareceria. Pobre Alice. Só Deus sabe como eu torci para que o rei Branco nunca acordasse. Até hoje o Rei não acordou.

Todavia, toda a via, todas as vias, quase todas as vias. Nenhuma das vias. O sonho. Todas elas. Grande Aretha Franklin. Com que será que Aretha sonhava? Com quem. Comigo também? Acho difícil. Ao menos, uma única vez sonhamos comigo. Eu também sonho comigo. O sonho é virtual? Bem, não é real. Então o que é? É sonho. Eu já sonhei que era Tomas Ripley. Eu. Justo quem. Patrícia Highsmith que o diga.

Foi aquele panaca do Ignácio Brandão que profetizou. Eu não verei país nenhum. Ninguém verá. Veja você. Às vezes passamos mesmo por ridículos. Ele com certeza. Minha certeza. Meu sonho. Sonho meu. Afinal, sabedoria popular: sonhar não custa nada. É. Pode ser. Tudo pode ser. Quem matou Odete Roitmam? Meu Deus. Mataram Odete Roitmam. Quem foi? Não o assassino. Odete? Roitmam. Quem foi? (dizem, as más línguas, que foi assassinada). E daí? Eu nasci também. Um dia. Isso sim é que conta. Sem falar dos sonhos.

Se Pedro veio para o Brasil a bordo de um navio, diga-me. Não sonhamos com o que não conhecemos. Sabe como os cegos sonham? Com sons, cheiros e figuras geométricas. Pedro Álvares Cabral. Gente pequena. Um sonho de passar de ano. Quinta série. Decorar a rota do tal Pedro. E aí, hein Pedro? Por causa de um sonho seu, há quinhentos anos atrás, e eu quase me ferro, hein? Então? Pelo menos meus sonhos não ferram ninguém. Afetam a humanidade.

Confusão. Quando eu morrer, tenho um sonho (acabo de confirmar – os mortos sonham sim. Desculpe Clarisse). Quero que contem meus neurônios. Como? E eu sei? Dêem um jeito. Quero por curiosidade. Minha mãe pode fazer uma aposta com as combinações. Análise combinatória. PA. PG. PCQM (princípio da conservação da quantidade de movimento). Associação. Sonho dissociativo. Associativo. Metafórico. Estrambólico. Meu.

Horas. Sem importância. Eu não posso controlar. Despertador. Acordo. De que? De um sonho. Para onde? Outro sonho? Realidade? Tanto faz. Sem você nada faz, tudo desfaz. Tanto faz, você foi só um sonho.

Dos joelhos

De que ângulo um cachorro enxerga o mundo? E uma criança? Tanta gente fica imaginando esse tipo de coisa que já surgiu até um parque de diversões com móveis gigantes para que os adultos se sintam como crianças vendo as coisas da sua casa. Inclusive o cinema se rendeu ao assunto. Que o diga Steven Spielberg com sua animação “Vida de Cão”, cheia de câmeras subjetivas do ponto de vista do personagem-Cão.

Porém, e os joelhos? Ninguém nunca parou para pensar em como esses aparentemente inofensivos entes arredondados enxergam?

Porque, sim, os joelhos também enxergam. Mais: têm sentimentos e personalidade! Basta olhar com um pouco mais de atenção as pessoas ao nosso redor para sabê-lo.

Há, por exemplo, os joelhos curiosos: aqueles virados para fora, um para cada lado, para não perder absolutamente nada do que se passa nos 180º que os cercam. Alcoviteiros debruçados na janela. Talvez não sejam muito amigáveis, afinal, passam a vida sem olhar um para a cara do outro.

No extremo oposto, temos os joelhos apaixonados – aqueles que não resistiram à convivência diária, na alegria e nos tombos, no calor e no frio, e se renderam à paixão. Passam a vida olhando um para o outro, olhos nos olhos. Como todos os apaixonados, ficam um pouco desequilibrados e transmitem essa sensação a seus sujeitos, que encontram uma certa dificuldade em parar de pé…

Curiosamente, também costumam provocar discórdia entre os pés abaixo deles, que trocam chutes sem parar. Bem, talvez seja culpa dos próprios pés, ciumentos e invejosos de tão intenso amor.

Não podemos nos esquecer também dos joelhos nerds – aqueles que andam o tempo todo olhando para frente, como cavalos marcialmente desfilando (ou apenas puxando carroças, quem sabe?). São joelhos doutrinados pelo sistema, militarmente treinados, incapazes de um movimento original. Formam a grande massa de manobra da sociedade das articulações.

No Curupira, encontramos um caso à parte. Originalidade folclórica.

Não obstante essas variações individuais dos ângulos de visão, a riqueza do universo dos joelhos fica ainda maior quando consideramos sua vida em sociedade.

Que dizer, por exemplo, dos joelhos forrozeiros? Chegados numa relação entre casais, porém volúveis ao extremo, assim que encontram um parceiro fixo e se encaixam, já começam a olhar para as possibilidades que estão à frente. Costumam enxergar tudo um pouco tremido e rodando.

E os joelhos que podemos, carinhosamente, apelidar de muçulmanos? Comuns entre as crentes e os escoceses, vêem o mundo através dos panos flutuantes das saias. São um grupo em franca expansão, desde que as saias de altura média voltaram a ser moda.

E os joelhos tímidos, então? Geralmente barbados, passam a vida escondidos atrás de calças e sem enxergar nada. Quase uma réplica da Caverna de Platão!

Enfim, exemplos não faltariam para povoar mais várias páginas – afinal, como toda sociedade, a dos joelhos também apresenta inúmeros grupos e sub-grupos, com características as mais peculiares. Mas não sejamos exaustivos.

Contudo, não podemos terminar esse texto sem falar de uma última classe de joelhos, que tem justamente a visão mais curiosa de todas, porque convive com aqueles cujo ângulo de visão todos ficam imaginando: os pais de crianças e os donos de cachorros. Aqueles do primeiro parágrafo…

Do Fundo da Gaveta

Abri minha gaveta. Não qualquer gaveta onde guardamos roupas ou sapatos e sim aquela onde guardamos tudo que consideramos importante. Não apenas abri, mas revirei. Boletos pagos, notas ficais, marcadores de livro, ingressos de shows e cinemas, cartas e mais cartas, enfim, memórias em forma de papel.

Abro saldo bancário por saldo bancário. Altos e baixos (mais baixos que altos), onde podem durar até 5 anos se protegidos do sol. Em menos de 1 ano, vão todos para o lixo. Garantias de produtos vencidos, lixo. Volto a guardar na gaveta alguns marcadores de livros, sempre em falta quando os procuro, para provavelmente não os achar quando precisar. Ingressos de cinema, Spielberg, Peter Jackson, Altman. Todos para o lixo (mas com todo o respeito). Mais ingressos de cinema, Mostra internacional, filmes franceses, italianos, espanhóis, independentes, qual era o nome daquele filme mesmo? Eu guardo, afinal onde mais vou conseguir lembrar do nome daquele filme com estranho? Ingressos de shows… Esses é preciso selecionar. Eric Clapton? Fica. Carmina Burana? Lixo. Kiss? Ah, tem aquele óculos 3D. Manual de instrução daquele telefone sem fio? Fica, é claro. Aperte a tecla * duas vezes em seguida a #, assim caso queira mudar para tone aperte a tecla 8, ou para o pulse a tecla 3. Nunca consegui decorar isso.

As cartas. Muitas. Reli cada uma, com um peso no coração. Felicitações de Natal e Ano Novo, cartões postais e de aniversário. Declarações correspondidas, ignoradas ou nunca enviadas. Tão mais fácil escrever ao longe que falar na cara. Ordenar os pensamentos antes de falar alguma bobagem, que invariavelmente muitas vezes já falei. Amigos que nunca mais vi, amigas que desapareceram. Promessas de amor, promessas de viagens, promessas de encontros, promessas poucas vezes cumpridas e constantemente engavetadas. Amores eternos, amizades eternas, momentos inesquecíveis. Pego toda as eternidades e os guardo em seu lugar, no fundo da gaveta.

Ainda descubro botões reservas de camisas, clipes perdidos e peças de alguma coisa que provavelmente nunca descobrirei, mas guardo na esperança de ser útil algum dia em minha vida… Assim como tudo que guardo na gaveta.

Do Telefone para o Divã

“Mauro Vinicius, Telefônica, como posso ajudar?

– Vem aqui em casa tirar esse speedy que não funciona.

– Senhor, eu não posso fazer isso.

– Ah é! E então o que você pode fazer?

– Na verdade temos um livro de procedimentos senhor.

– Para com esse negócio de “”senhor”” que eu não sou general, ok?

– Sim senhor, porém devemos chamar cliente sempre de senhor, senhor.

– Mesmo se seu cliente tiver 10 anos.

– Sim senhor!

– Meu rapaz, você não está me ajudando, quero me livrar do speedy.

– O senhor deseja romper o contrato senhor?

– Lógico! Isso nunca funcionou. Meus filhos estão muito frustrados.

– Bem senhor, no caso dos seus filhos, não posso ajudar muito.

– E quem pediu ajuda? Como me livro dessa parafernalha?

– O senhor precisa relatar qual o problema com o serviço, senhor.

– O problema é que meu speedy não funciona.

– Não existe essa opção aqui no sistema senhor. O senhor deve estar com serviço operando com irregularidade. O senhor poderia, por favor, descrever quais são essas irregularidades?

– A irregularidade é que ele não funciona.

– Senhor, eu estou tentado ajuda-lo e o senhor não está colaborando.

– Aii! Eu vou me matar!

– Não podemos ajudar nesse sentido também, senhor!

– Essa conversa está sendo gravada?

– Para sua segurança senhor. Queria acrescentar que a sua consulta ultrapassou 5 min, e portanto, estaremos cobrando automaticamente, para seu conforto, R$2,30 por minuto adicional na sua conta desse mês.

– Você enlouqueceu. Meu speedy não funciona, você é um incompetente e eu pago a conta?

– Sim senhor, chamamos isso de otimização dos recursos sobre a satisfação de nossos clientes.

– Satisfação? Dá vontade chorar.

– Como disse senhor, não posso ajudar o senhor nesse caso. Mas vai uma dica, procure em psicólogo.”

A vida em 30″ II

Câmera fixa em uma guilhotina. Ouvem-se os gritos e o barulho de uma multidão. Um homem é colocado à força na guilhotina. Rufam os tambores. Com os cabelos desgrenhados e ar desesperado ele olha desorientado para todas as direções. Finalmente, fixa os olhos na câmera. Uma expressão súbita de felicidade brota em seu rosto. ZAPT! A lâmina fria e impiedosa corta sua cabeça e a multidão vai ao delírio.

Outro homem é posto na guilhotina. Rufam os tambores. E novamente a expressão de desespero do condenado dá lugar a uma felicidade instantânea. Ele sorri meio de lado, dá uma piscadinha e ZAPT! Lá se vai sua cabeça pra delírio da galera.

A cena se repete uma última vez, desta vez com direito a um movimento de sobrancelhas e ZAPT! Já era. Após a comemoração efusiva da torcida, a câmera corta para o ponto de vista da guilhotina, revelando o motivo das súbitas alterações de humor: uma mulher extremamente atraente e seu generoso decote revelando lindos e inacreditavelmente avolumados seios. Tela preta. (Fade in): WonderBra (fade out). (Fade in): É de perder a cabeça.