Arquivo de maio, 2002

Amizade Dolorida

“Depois de um episódio que me aconteceu resolvi revisar meus conceitos sobre o relacionamento de amizade moderno.

Estávamos, eu e mamãe, fazendo compras no supermercado. Lembro-me bem, estava procurando um queijo para petiscar antes do almoço. Foi aí que aconteceu:

– Eles crescem mais rápido do que a gente imagina
– OI! Como vai? (ela esqueceu o nome dele)
– E aí? Quem é esse moção (sou eu) ? O mais velho?
– É! Está grande né? (podia ter dito algo melhor)
– É…
– Eles crescem mais do que a gente consegue acompanhar! (tomei um tapão nas costas)
– É…..
– É verdade, os outros dois também estão bem grandes.
– É….
– Olha, meu amigo, se você visse seu pai há 25 anos… hehehe! (mais um tapão)
– É…. (já cansei de apanhar)
– Bem agora temos que ir…
– Sabe o que é pior? Encontrei todo mundo careca, gordo e acabado. Ainda bem que eu continuo assim.
– É…. (que panaca)
– Bem, vamos agora..
– Tchau, campeão! (cotovelada no estômago, vai entender!)

Não sei se vocês conseguem imaginar a situação, mas eu apanhei de um louco que eu nunca tinha visto, e minha mãe nem lembrava o nome do rapaz. O problema é que eu apanhei por que ele quis ser camarada. Como você pode revidar tal agressão? É impossível! Imaginem como seria a conversa:

– Oi! (tapão)
– E aí? (chute na canela)
– Tudo tranquilo? (soco no estômago)
– Excelente. (tapa na orelha)
– A gente se vê! (cotovelada no ombro)

As pessoas mediriam o grau de amizade pela violência despendida em cada golpe, ou ainda pelo número de golpes despendidos. Quanto mais porrada, maior a amizade.

Por outro lado, teríamos os benefícios dessa insanidade declarada, por exemplo: seria o fim da falsidade nas relações; – Ela passou por mim e nem puxou meu cabelo, aquela vaca!; Aquele cara outro dia me espancou no shopping e hoje me deu um tapinha na testa, é um mascarado mesmo!”

Barbosa Silva e Silva

Nosso personagem nasceu no dia 14 de julho de 1950. Filho de eletricista e neto de pescador, sua mãe buscou nas redes inspiração para o nome do primogênito. Escolheu Barbosa, goleiro da seleção que perderia aquela partida histórica para o Uruguai dois dias depois. Pouco deu bola que Barbosa tinha mais cara de segundo, de terceiro ou até de quarto nome. Ficou assim mesmo, Barbosa Silva e Silva, no registro providenciado pelo tio Joel. O pai ausente andava doente da cabeça, em virtude de um acidente com um poste que lhe rendera dois galos na testa.

O garoto, pelo nome, foi ridicularizado pelo mundo antes mesmo de poder enxergá-lo. Teve infância sofrida e cresceu sempre envolto do azar e da injustiça. Há quem diga que, às vezes, esta se transveste daquele, ou então que o azar, como a sorte, não existe e tudo na vida é uma questão de injustiças. Cultivou o costume de ouvir pelo rádio as notícias do futebol e por ele se apaixonou. Sua definição do esporte era a soma do que ouvia dos locutores e com o que via em peladas na rua. Na Copa de 1958 pegou uma meningite daquele tipo mais severo, cuja cura é demorada e incerta, e ficou isolado num quarto de hospital até meados de julho, quando o fogo da comemoração já era brando.

Quatro anos depois, ainda menino, viu o pai ser vítima fatal de um estranho quadro febril, causado por vírus e raro na espécie humana. Foi obrigado a trabalhar para dar sustento à casa. Tio Joel o ajudou na falsificação dos documentos para provar que tinha mais de catorze anos e condições trabalhistas de virar ajudante de farmácia. Em tempos de Copa, todos sabem, os serviços que exigem plantonistas caem sempre na mão dos empregados mais moços. Foi assim que, para sua tristeza, Barbosa não acompanhou de perto o segundo título mundial da seleção brasileira de futebol.

O tempo foi passando e o jovem Barbosa aos poucos virou homem, escaldado pelas peripécias do destino e gato na idade, para usar palavra do jargão do futebol, tema principal do que tratamos aqui. Em 1966 serviu o exército nacional, lembrando que, para todos os efeitos legais, já tinha a idade requerida para a atividade. Pouco lhe importou a obrigação de ter mudado para uma cidade sul-mato-grossense, distante de até aonde a cobertura da Copa alcançava. Tinha sérias desconfianças na equipe brasileira como todos os torcedores mais fanáticos. Ruim mesmo foi ter permanecido ali, por compromissos da carreira militar, até agosto de 1970, se afastando mais uma vez da festança popular que é a conquista de uma Copa do Mundo.

A partir de então pouco se ouviu falar de Barbosa. Magoado com a vida, deprimido com as restrições que ela causava ao seu apreço pelo futebol, caiu no ostracismo. Um certo tipo de exílio, tão comum naquela época, mas com caráter voluntário. Perambulou por aí só com a companhia de garrafas de cachaça e nem em 1982 teve vontade de se reaproximar do mundo da bola.

Viveu assim até 1993, quando um certo jogador, convocado na última hora para o combate contra o velho conhecido Uruguai, teve a honra de classificar o país para o mundial do ano seguinte. Barbosa assistiu ao renascimento daquela paixão pelo esporte, por tantos anos dona exclusiva de seus sentimentos – e nos últimos 23 trocada pelo mal devastador que é o alcoolismo. Passou a se alimentar da animação e da ansiedade que os meses antecedentes à Copa dos Estados Unidos traziam. Contudo, refeições tão carentes de vitaminas e proteínas não eram suficientes àquele corpo tão maltratado pelos freqüentes baques do exagero. Um derrame cerebral manteve em coma nosso personagem entre maio e setembro no ano do tetracampeonato.

Barbosa deixou o hospital e passou a viver vida regrada e tímida. Menos por vontade e mais por conseqüência das lesões funcionais irreversíveis que lhe acometeram. Sustentado por pensão militar, vive quase há oito anos em frente à televisão e, quando a compaixão vem lhe visitar, toma banho de sol. Viu e não entendeu a convulsão de Ronaldo em 1998. Venha o penta no presente ano, em 2006 ou em qualquer outra oportunidade, seu significado para o pobre Barbosa será nulo.

Todas as cores

Marcos era um sujeito simples, trabalhava como funcionário público, namorava, saía nas sextas, sonhava com uma casa própria, muito honesto, enfim, um cara como qualquer outro. Nasceu na periferia de uma grande cidade, em um quarto todo azul. Seu pai adorava a cor azul, comprou um enxoval todo azul, a casa era toda azul, e afirmava: “Esse aí vai ser um fanático por azul!”. Mas Marcos sempre preferiu a cor branca, o que levava a seu pai especular a razão – foi a má influência dos amigos! – a culpa é de seu tio branquelo! – genética é que não é! – o que fiz de errado? Na realidade nem mesmo Marcos sabia a razão. Era irracional, apenas gostava de branco, oras! Achava a melhor cor, mesmo quando era um branco meio bege, ou quando o branco estava meio sujo.

Apesar dessas diferenças, os dois sempre se deram bem. As discussões sobre cores eram sempre divertidas. Nunca chegavam à lugar nenhum, mas continuavam discutindo. Nas sextas ainda se reunia com os amigos no bar do Zecão. Carlos, que gostava de amarelo, Aurélio, vermelho de coração e o Roberto, preto até o último fio de cabelo! O branco é muito melhor, pois é a união de todas as cores! O preto que é muito mais chique! O vermelho é a cor da paixão, da emoção! O amarelo é a cor que significa riqueza! Seu amarelão de merda! Vermelho é cor de boiola! Preto é coisa de marginal! Branco é cor de almofadinha! Riam muito, bebiam mais e voltavam para casa com as almas lavadas.

Um dia, voltando para casa depois de encontrar os amigos, Marcos é parado por um grupo de pessoas vestidas de preto. Leva 15 pontos na cabeça apenas por estar vestido com uma camiseta branca. Segunda vez no mesmo ano que isso acontece. Essas brigas sempre pioram nos dias em que decidem de que cor pintar a estátua da cidade.

A pintura da estátua é um ritual que se repete todos os anos. Um juiz é chamado junto a um grupo de consultores estéticos e de decoração, onde decidem a cor da estátua de acordo com a tendência da moda na estação. É sempre a mesma coisa, milhares de torcedores cromáticos gritando: Braaaaancooooo!!!! Preeeeetoooo!!!! Amareeeeeeelooooo!!!! Juiz ladrão!!!!! Filha da P…..!!!!!!!! Esse ano o preto ganhou por pouco, o que causou uma confusão entre os torcedores. Paus, pedras e rojões voando. Alguns mortos, centenas de feridos, poucos presos e menos ainda punidos.

Marcos pego ainda com um pedaço de cano na mão, é condenado a 2 anos de prisão, dividindo a cela com Pedrão, Dedé e o Zé Rato. Pedrão preso em briga entre fãs de música baiana contra fãs de música americana, Dedé preso por assassinar uma pessoa que colocava mostarda na pizza e Zé Rato preso por atirar uma bomba nos usuários de Windows em vez de Linux.

Lá os fãs de branco ou de preto não tem escolha, sempre usam uniformes listrados.

P.S. Logo após a publicação dessa crônica, Marcos foi encontrado morto no presídio por trajar um uniforme branco com listras pretas ao invés de preto com listras brancas.

Insólito

O que mais me incomoda nesse lugar, é que a única pessoa que eu conheço é o Humberto Gessinger (ele mesmo, o exército de um homem só). Ele não é só o único que eu conheço, mas também o único que se comunica por meio da fala. Tirando eu, e ele, só vejo pessoas (se é que podem ser chamados assim) emitindo grunhidos e ruídos totalmente horríveis. Sinceramente acho que eles não são humanos.

Sempre busquei soluções criativas em situações como essas. Já que vou estou cercado de seres estranhos, vou encarar o problema de frente, vou falar com o Engenheiro do Hawaí.

-Opa, beleza ?! Estranho esse lugar aqui, né? Você sabe onde estamos ?
-Um dia desses, num desses encontros casuais, talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação …

Minha coragem começou a se tornar receio. Com uma tranquilidade assustadora ele começou a cantar, e de uma maneira que muitos até podem achar natural, começou estabelecer contato com sua música. Os ET`s pareciam gostar do som.

– Você não percebe a gravidade dessa situação?!! Pára de cantar, só nós dois somos assim aqui!
– Nós dois temos os mesmo defeitos. Sabemos tudo a nosso respeito! Somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos!

E os ET`s fechando a roda, em nossa volta.

-Só eu estou percebendo o absurdo dessa cena?! Como vou bater nessas caras todos, sozinho!
-Somos um exército. Exército de um homem só ! Com o difícil, exercício de viver em paz.

O sorriso dominando a face dos seres de outro mundo, e eu começando a acreditar no poder dele.

-Pelo amor de Deus, já que eles gostaram de você, manda eles pararem de vir pra cá!
-Ela pára e fica ali parada … olha-se para nada … Fica parecida paraguaia …
-Pára! Por favor!!!

Eu já não sabia mais o que fazer com aquele cara.

– Qualquer coisa !! Uma metralhadora!
– Ratatatatatatá !
-Não me venha com “Era um Garoto que Como Eu”! Meus Deus !!
– O Papa é pop. O Papa é pop, o pop não poupa ninguém.
– Vou fugir!
– Na infinita hiiighway !
– Rápido!!
– 120, 130, 160 … só pra ver, até quanto, o motor agüenta.

E quando tudo parece perdido, o desespero já toma conta de mim, eles, todos eles, extraterrestres e engenheiros, se dão as mãos, e em um coro uníssono olham para mim, cantam e sorriem, como naqueles sarais a beira mar.

– Ei mãe, eu tenho uma guitarra elétrica… Durante muito tempo isso foi só o que eu queria ter …

A sorte de Maciel

A vida nos prega peças, não!

Maciel era um rapaz magro e baixinho. Sempre fora assim, desde que percebeu que era gente, nunca crescera. O mundo era muito grande! – dizia toda vez que comentavam sua altura. Cabelo curto e penteado, Maciel era um ser único. Filho de pais muito velhos, logo cedo aprendeu que era ele quem cuidava dos pais. Sujeito puro, amável, Maciel adorava contar histórias para seus pais, sempre no cair da tarde. Tudo da sua cabeça, jamais havia ouvido uma história. Seus pais, Dona graça e seu Manel, eram muito velhinhos, nem se lembravam de como era ser criança. Criança que é criança, um dia cresce. Maciel, não; era baixinho. Também, “o mundo era muita grande!”.

A criança não cresceu, mas o curso natural da vida se fez! Desolado, sem familiares, Maciel não sabia o que fazer. Ele não sabia como viver sem ter pra quem esquentar o café de manhã, sem ter pra quem fazer a cama ou lavar barra da calça. Maciel estava só.

E no campo, quando se está só, é hora de ir ganhar a vida na cidade grande. Era assim que seu Manel falava. A inocência foi à cidade, curioso, Maciel aproveitou a multidão – nunca tinha visto tanta gente junta, devia ter umas 10 pessoas – e subiu naquele troço engraçado que mais parecia uma carroça sem cavalo. Aquele troço balança mais que cavalo chucro. Foi em um desses balanços que Maciel percebeu um homem sentado com cara de mau. Não que Maciel achasse que o homem ali parado fosse realmente mau, mesmo porque ele não sabia o que era esse tal de mau – só ouvira falar nisso uma vez que sua mãe leu a bíblia pra ele dormir – mas parecia descontente com alguma coisa. Maceil sempre aprendera a amar os homens, acreditar na palavra deles, muito da sua credulidade vinha de dona Graça, carola de nascença.

Aquele mundo de gente passando pelo homem e entregando uns papéis estranhos. Foi, então, que ele lembrou que seu pai havia lhe dado uns papéis como aqueles. Fora as lembranças, era tudo que sobrara dos pobres coitados. Devia usar sabiamente, não podia se desfazer daqueles papéis por qualquer coisa. Dona Graça e seu Manel nunca tiveram muitos pertences, uma frasqueira, um cachimbo preto e as coisas de casa que todo mundo tem. Maciel deveria ser esperto. A fila andando e ele observando o processo que se repetia. O homem sentado pegava os papéis e as pessoas passavam.

Chegou sua vez. Então, era ele e o homem que estava na sua frente, descontente. Maciel enfiou a mão – preta, calejada da lida – no bolso roto de sua calça que sua mãe costurara antes de morrer. Pensou nela com tanta força que seus olhos se espremeram formando umas rugas no canto do rosto. Lentamente, tirou um papel. Cem reais. Olhou tenramente para o papel como se olhasse nos olhos de seu Manel antes de dar boa noite e fazê-lo tomar o chá de camomila (seu Manel tinha problema pra dormir, era muito agitado). Entregou o papel e viu seus pais partindo outra vez. Não podia deixá-los ir novamente, aquele papel era sua única lembrança. Decidido, Maciel tomou da mão do homem e fez o percurso inverso da fila pulando para fora e disparando a correr. De súbito, o cobrador assustado, gritou pega ladrão. Puro reflexo. Reflexo, também, do policial bem treinado que deu voz de prisão. Maciel só gritava: “meus pais, meus pais” e corria, corria. O policial, bem treinado, fez o que tinha que fazer.

Maciel foi sepultado como indigente no cemitério da LAPA.

Seleção e eleição

Para muitos, a coincidência entre Copa de Mundo e as principais eleições do país deveria se estender para muito além do caráter quadrienal que as acompanha. A seleção de homens públicos que representam o país do futebol no maior evento esportivo do mundo deveria ser eleita pelo povo.

Antes, porém, um plebiscito decidiria, majoritariamente, se necessário em dois turnos, o esquema tático de jogo. Como fizemos aquela opção, há anos, entre o esquema de governo presidencialista ou parlamentarista. No mesmo pleito a nação votaria ou na chapa “futebol de resultados” ou na “futebol-arte” – sem nenhuma referência à monarquia e à república.

A televisão, obviamente, teria de ceder espaços para as propostas de cada candidato a técnico, preparador físico, massagista, quarto-zagueiro e por aí vai. Talvez o espaço não fosse gratuito e sim comercializado como propaganda. Uma espécie de vingança das emissoras contra o futebol. A mesma parte que recebe pelo direito de imagem em transmissões de jogos pagaria pelo direito de exibição no horário eleitoral do futebol.

Os jogadores formariam blocos ideológicos. A esquerda teria liderança de Roberto Carlos e Rivaldo, com Júnior e Denílson como seus suplentes diretos. Defenderiam um plano de jogo baseado na força da individualidade, com propostas de chutes fortes e incansáveis dribles. Às críticas que os líderes da chapa seriam egoístas e pouco objetivos responderiam com a experiência de já terem feito parte dos eleitos em outra Copa. Sem falar na pós-graduação no futebol espanhol e italiano, o que seria, digamos, comparável a estudos na Sorbonne. Ainda faria parte da coligação o moderado e calado goleiro Dida.

A direita entraria esvaziada na campanha. Há tempos nenhum grande nome não brilha tão intensamente naquela faixa de campo. Talvez a estrela do velho e finado índio de pernas tortas ainda ofusque novos ídolos. Mas estariam lá, pelo sim e pelo não, Cafu, Belleti, Juninho Paulista e Edílson. Vampeta iria na onda desse último, mais pelo companheirismo do que por real posição política. Meio a contra-gosto, para não se isolar, Rogério Ceni também. O partido representaria o equilíbrio e a polarização, elementos tão importantes numa democracia.

O centro estaria bem servido com a liderança carismática de Ronaldo. Ele, a bem da verdade, teria simpatia tanto por um lado como pelo outro. Uma habilidade de relação pública incomum, junto à bola ou longe dela. Só para evitar desagrados procuraria manter-se em cima do muro. Aproximações poderiam ocorrer, às vezes com a esquerda, às vezes com a direita, como que para mostrar desde já sua capacidade de embaixador, profissão possível a um jogador de futebol aposentado. Que o diga o rei do futebol.

O baixinho seria o candidato independente e certamente não ficaria fora dos eleitos. Levantaria a bandeira do “homem que faz” e pouco precisaria falar – ou chorar. Um populista por natureza, naquele sentido da palavra que diz “o que busca no povo os seus temas”.

Bom, no final das contas, já dizia aquele ex-presidente que a democracia não é mesmo um regime tão bom assim, mas, não havendo outro melhor, vamos com ele. Nós aqui, experientes em tempos de autoridade única, sabemos que, onde há sargento, há normas militares. Onde há normas militares, não há voz democrática. Se não há voz democrática, não há escolhas legítimas. E sem escolhas legítimas, haverá o penta?

Meu Dom,

“Desde pequeno, eu tenho um dom um tanto quanto estranho. Eu consigo ouvir os cabelos das mulheres, não pelos, e sim cabelos. Até a minha adolescência eu apenas ouvia alguns sussurros, umas vozes distantes. Eu nunca sabia de onde elas vinham e muito menos para onde elas iam.

Com o passar dos anos eu fui percebendo que eram muitas as vozes, muito perto, sempre. E elas mudavam, mas dependendo de quem estava ao meu lado, a voz era a mesma. Fui perceber que ouvia os cabelos com 17 anos.

Eu e minha namorada, na época, estávamos no banco de trás do carro, namorando, inocentemente, como qualquer um nessa idade. No meio da confusão de mãos para lá, bocas para cá, eu ouvi um grito:

– Pelo amor de Deus! Tire essa boca de mim! Estou ficando nojento!

Na hora eu me afastei da moça e tentei entender como poderia estar com mau hálito depois de escovar os dentes 5 vezes seguidas, antes de encontra-la. Ela também sem entender nada me perguntou:

– Que foi? Não está gostando é?

E se seguiu de um:

– Que alívio.

Que também veio da direção dela, mas não de sua boca, e sim da sua cabeça. E o mais engraçado é que só eu ouvia. Nem preciso contar que aquela noite não teve final feliz.

Durante alguns meses minha vida não ficou nada fácil, os cabelos perceberam que eu poderia ser um interceder por eles, e tentavam me usar a seu favor:

– Me solte dessa piranha!
– Manda ela parar de usar o secador!
– Essa shaampo de aveia de cacau é um lixo!
– Não quero ser loiro, não quero, não quero.
– Quero me enrolar todo em você!

Isso mesmo, tinha até cabelo tarado, fazer o que. Mas, como tudo na vida esse episódio teve um fim. Eu passei a ignorar os cabelos, ao ponto deles não falarem comigo. Quase nunca.

Apenas as vezes, lógico, quando algum deles está preso em elásticos, piranhas, presilhas e outros, eles pedem socorro. Eu chego perto, discretamente, e os liberto, fácil. Difícil é explicar para sua dona.”

Mundo Animal

O sol acabara de nascer quando Esther já estava exaltada pulando e falando rápido para a mãe “Já sei! Já sei! Já sei o que quero ser quando crescer!”. A mãe ainda fazendo força para abrir seus olhos responde com um “Ahã” desinteressado. “Quero ser um Gueopardo!” repetia continuamente a garota entre os 5 e 6 anos. “Mas que diabos ela está dizendo? Gueopardo? O que é um Gueopardo? Que horas são?” pensou a mãe ainda sonolenta. “Gueopardoéumfelinomuitolegalqueandamuitomuitomuitorápidoomaisrápidodomun
dosabiaqueelechegaaté96kilômetrosporhoraquandoestácaçandoequeelecomecarn
eefazumgritoassimroargrrrrrau!!!!!!” E não parava de falar desse tal Gueopardo. Corria pela casa inteira fingindo estar caçando, rosnava para seu biscoito com leite e ronronava quando estava no colo de sua mãe. Ela por sinal não ligava, achava que era bonitinho ter uma filhinha Gueopardo na sua casa. Imaginava que era apenas uma brincadeira de criança.

Na semana seguinte antes do sol raiar a pequena Esther chega correndo ao quarto dos pais “Cansei de ser um Gueopardo! Quero ser outra coisa!” O que vem dessa vez? “QUERO SER UM ELEFANTE! UM BEEEEEM GRANDÃO COM AQUELA TROMBA E COME AMENDOIM E SABIA QUE ELE COME MAIS DE CEM QUILOS DE COMIDA TODOS OS DIAS E SEMPRE ANDA COM UM MONTE DE ELEFANTES JUNTOS QUE NEM NÓS, NÉ MÃE E SÃO MUITO INTELIGENTES E FAZEM UM BARULHO ASSIM UÓÓÓÓÓÓHHHH!!!!!” E lá ia Esther andando devagar, com passos pesados. Fazia questão de tomar banho com a mangueirinha para dizer que era sua tromba.

A mania de elefante durou exatamente uma semana, quando decidiu “Agora quero ser uma tartaruga!” toda empolgada continuou “u-m-a t-a-r-t-a-r-u-g-a d-o m-a-r, b-e-m d-e-v-a-g-a-r-i-n-h-a e b-e-m g-r-a-n-d-o-n-a e c-o-m a-q-u-e-l-e c-a-s-c-o l-e-g-a-l e c-o-m a c-a-b-e-c-i-n-h-a q-u-e e-n-c-o-l-h-e e s-a-b-i-a q-u-e a t-a-r-t-a-r-u-g-a p-õ-e m-a-i-s d-e m-i-l o-v-o-s d-e u-m-a v-e-z e s-a-i u-m m-o-n-t-e d-e t-a-r-t-a-r-u-g-u-i-n-h-a-s p-a-r-a o m-a-r, m-a-s t-e-m u-n-s b-i-c-h-o-s m-a-l-v-a-d-o-s q-u-e c-o-m-e-m a-s t-a-r-t-a-r-u-g-u-i-n-h-a-s c-o-i-t-a-d-i-n-h-a-s d-a-s t-a-r-t-a-r-u-g-u-i-n-h-a-s!” A mãe já sabia o que ia ter que agüentar o resto da semana “Esther, já estamos atrasados! Anda rápido!” “M-a-s m-ã-e, s-o-u u-m-a t-a-r-t-a-r-u-g-a, e-u a-n-d-o d-e-v-a-g-a-r-i-n-h-o.”

Como já podia prever, Esther chega pulando na semana seguinte “Dessa vez eu quero ser um porco bem sujinho!” Antes que a pequena Esther dissesse mais alguma coisa a mãe ligou para o canal de assinaturas e cancelou o Discovery Channel.

Mais um Ano de Copa do Mundo

Faz tempo que não mostro minhas palavras. Mas desde já quero dizer a todos que estou com saudades e feliz por escrever novamente.

Essa semana – deveria Ter escrito nesse semestre – pensei intensamente sobre o produto mais aceito no mercado brasileiro e provavelmente no mundo: futebol.

Após assistir o jogo da seleção brasileira contra a Islandia não sei se comemorava o jogo fácil e inexpressivo ou se chorava.

Se o futebol é o maior produto brasileiro tanto para o mercado interno como para exportação, porque a mais importante seleção do mundo ainda não tem um time montado para a Copa faltando menos de três meses para o início da competição?

O mundo todo está se preparando, jogando amistosos marcados há meses de antecedência e o Brasil definiu um adversário (se é que pode-se chamar assim) há menos de um mês do jogo.

O que eu quero dizer, é que o Brasil, cheio de tradições e competências no futebol, por mais que não esteja no seu melhor momento da história, tem capacidade de levar essa Copa brincando, mas se continuar a desorganização, falta de profissionalismo e falta de respeito de alguns jogadores, acabaremos mal.

A Seleção Brasileira tem que tomar um enorme cuidado para não cair na nova onda do futebol mundial chamada zebra, ou melhor, uma substituição de antigos valores por novos valores poucos conhecidos, não se sabendo se essa será uma substituição permanente ou apenas temporal, voltando tudo de volta ao normal à médio prazo.

Por mais que todos vibrem e se interessem, o São Caetano chegou a duas finais seguidas do Campeonato Brasileiro e lidera hoje um grupo na Libertadores. O Chievo é sensação na Itália e está entre os primeiros colocados. O La Coruña e a Lazio foram campeões em 2000 na Espanha e na Itália, sendo que nesse caso não considero uma zebra, mas sim uma rotina quebrada de títulos conquistados por uma “”panela”” de equipes como Real Madrid e Barcelona, ou Milan, Inter e Juventus.

A própria conquista do Atlético Paranaense no ano passado foi uma quebra de rotina, mas no Brasil a panela é maior, já que as mesas são maiores e consequentemente tem mais gente com fome.

O mais importante disso tudo, é a seleção brasileira não entrar nesse ciclo – assim como outras grandes seleções – e ser desclassificada por seleções que poucos conhecem e eu, particularmente, não tenho referência nenhuma, como Senegal, Turquia, China e Equador. O momento é propício para mudanças, para novas surpresas surgirem e grandes caírem, só que o Brasil tem um potencial enorme para se levantar e aproveitar esse momento de transição para crescer, ao contrário de outras seleções, muitas vezes grandes, que não recursos semelhantes ao nosso.

Independente do que for acontecer, confio na seleção brasileira (assim como a maioria dos brasileiros, que por mais que critiquem estão se empolgando com os amistoso e pagando duzentos reais na nova camisa), sou patriota e já comprei muita pipoca de microondas para assistir a Copa, seja a hora que for e contra qualquer time.

Afinal, qual profissão seguir?

Outro dia desses, eu estava falando com um amigo meu sobre escolher profissões. Estou fazendo ADM em MKT, falou pomposo. É mais amplo. Falei que quem faz ADM, além de ter uma visão bem ampla, tem que ter um c… bem amplo também. Minha família quase toda tomou o rumo do paletó e gravata. A barriga do meu tio Jorge, por exemplo, não vê a luz do sol faz uns 3 anos. Meu amigo, coitado, enveredou pelo mesmo mundo das baias e escaninhos. Está estudando para ser administrador. Vê se pode: ADM em MKT. Taí uma combinação consonantal que não me desce a garganta. VÁTKTÁ! ADM em MKT? É como vagina de meretriz. Você não tem idéia do lugar onde está entrando. Pode até dar um certo prazer. Uma sensação de alívio. Cara, vê se faz uma coisa que dá tesão – aconselhei.

ADM dá tesão cara – retrucou o marketeiro. ADM é como as batalhas campais dos séculos passados. Vacilou, morreu. Só sobrevive quem é bom com a espada (isso vale para ambos os sexos). Só você que não quer ver: ADM é um tesão, pura adrenalina. Trabalhe como um condenado, rale feito um estagiário, puxe o tapete dos outros e, no final, o trabalho vai te recompensar com o imenso tesão de ter uma secretária só pra você. E você, é claro, vai despedir aquela secretária velha, gorda e eficiente, vai despedir a sua esposa e vai contratar uma secretária bem gostosa. Quer aventura? Faça ADM ou vá viver como um pobre. Prefiro ADM – argumentou.

Pensando por esse lado – ponderei – até que dá um tesão. MAS VOCÊ SÓ VAI GOZAR LÁ PELOS QUARENTA ANOS. Eu quero gozar hoje. E amanhã. E, com o divino perdão da expressão, todo santo dia.

Como eu gosto muito dos meus amigos, resolvi tentar ajudar esse jovem sofredor. Apliquei-lhe um teste vocacional infalível. Todo ser humano deveria fazer. As damas que me perdoem, mas não é machismo nem nada. As perguntas abaixo foram relacionadas para um homem responder. Se você, caro leitor, for do sexo feminino, faça os devidos ajustes. Todavia eu recomendo seriamente que as senhoritas façam esse teste no aconchego do meu divã. O que Freud não explica eu posso mostrar de um jeito mais prático.

Voltando ao teste, comecei: Qual área você mais gosta: Exatas, humanas, biológicas, bunda, peito ou um conjunto bem equilibrado? Hummm….Peito! Resposta até que sensata. Continuei. Agora responda rápida e sinceramente. Qual é o primeiro carro que vem à sua cabeça? Na lata veio a resposta decor e salteada: Golf GTI Turbo 1.8 140 HP. Carárroles! Mais uma sigla, porra! Por que todo administrador gosta de siglas? É FMI, BC, FUDÊ, FHC, HP, ESTAT, MKT…PQP!!!! Tudo bem. Essa eu perdôo. Vamos tocando em frente. Questionei-o ainda mais uma vez: você se considera preguiçoso, muito preguiçoso, mais rápido que uma lesma, mais inteligente que um asno ou menor que o Chapolin Colorado (perguntei isso porque ele é baixinho como eu)? Menor que o Chapolin – respondeu já irritado.

Coloquei os dados do meu amigo no meu PC (aproveitando uma carona nessa onda de siglas do administracionês). Dentro dele tem um programa que cruza os dados do analisado, como se fosse um BAT-Computador, só que é uma fábula mais moderna: um sistema de ERP-SAP. Meu amigo, como todo bom administrador, meteu na cabeça a idéia de instalar um desses na sua empresa. Assim, acredita ele, a empresa valoriza, o banco de dados fica mais integrado com o MKT e…..e chega de bullshit (senão a SAP vai me processar).

Aí veio toda aquela ladainha do Mr. Gates. Primeiro o “PAM!!!” e aquela janelinha-cinza-frieza. Depois o bom e velho “waiting-for-connection”, seguido do seu bom amigo “you-have-been-disconnected”. Byte vai, byte vem, byte-catar-computador-filha-da-puta…78% complete…pronto, ou melhor, ready.

Nosso grande oráculo moderno respondeu: Se você acha que vai ser rico, casado com uma peituda, dono de um Golf GTI Turbo 1.8 140 HP e feliz, então desista. Apenas 0,00000456389% de todos os homens formados em ADM são bem-aventurados. O resto deles faz parte de um mundo cheio de escaninhos, reuniões tediosas, baias, memorandos, memórias e arrependimentos. Foi assim que o Programa respondeu. Frio e calculista. Depois arrematou: profissões sugeridas para o perfil digitado: 1- cafetão (aí ele pode ter uma peituda e um carro fodidos), 2- Manobrista (ele pode roubar um Golf do estacionamento, seqüestrar uma peituda, roubar um banco e, já que ele vive no Brasil, pode ser feliz para sempre) e 3- dublê do Chapolin Colorado.

Confesso que fiquei surpreso com o resultado. Esperava um pouco menos para o perfil do meu amigo. Afinal, depois de anos de estudo em excelentes escolas, eu não acreditava que ele ainda tivesse capacidade de raciocínio suficiente para ser um cafetão.

Vou me embora, está ficando tarde – falou o desolado. Eu insisti: que tarde que nada! São apenas duas horas da tarde e você ainda está no primeiro semestre. Já está tarde, falou retrucando. Já passou da hora de eu tentar ser alguém, de tentar ser humano, de tentar ser feliz – falou ele com aquela voz pastosa de choro.
Lá foi ele. Largou ADM. MKT nem pensar. Ele é meu ídolo. Ainda bem que eu já sei o que eu quero ser da vida…o que era mesmo?…Ah, deixa pra lá. Isso eu nunca vou saber mesmo. Um dia desses talvez eu descubra. Só não quero ter sobrenome de empresa, do tipo: sou o Fulano da Coca-cola ou José da Jonhson. Quero ser eu, quero ser minha própria carreira, minha própria vida, quero ter meu próprio sobrenome.

E como dizia o velho Vinicius de Moraes: no final das contas o que sobra é uma laje e embaixo escuridão. Tô com ele e não abro. Garçom, desce mais uma rodada. Preciso de mais uma loira. Amanhã tenho que chegar cedo no trabalho para redigir um memorando antes da reunião.