Arquivo de junho, 2002

Satisfação do Cliente

“Era uma tarde de terça feira. Um dia normal de trabalho, não fosse pela reunião emergencial convocada pelo diretor comercial. Ele estava muito nervoso. As vendas haviam caído muito nos últimos três meses e a diretoria executiva já estava pensando em mudar a estratégia da área comercial (demitir o cara). O diretor passou três horas com seus gerentes de vendas em São Paulo. Os gerentes de outras localidades ouviram o esporro por telefone.

A reunião foi pela manhã. Dois gerentes, daqueles dos tempos antigos, foram almoçar juntos para conversar sobre a tal da reunião.

– Satisfazer o cliente, satisfazer o cliente. Quantas vezes ele falou isso?

– Umas mil pelo menos.

– Se eu pudesse, matava o cretino.

– O cretino tem filhos.

– Eles iam me agradecer. Não agüento mais a incompetência dele.

– Calma, eles são sempre assim.

– Pois não deveriam ser. Quem são aqueles ali?

– Onde?

– Na mesa grande.

– São clientes do Teixeira. Vieram fazer um curso.

– Ah é?! Excelente oportunidade para satisfazer o cliente…

– Calma, calma…volta aqui!

O gerente saiu correndo até a mesa dos clientes, chegando lá gritou:

– Senhoras e Senhores!!!!

Todos olharam com surpresa.

– Meu nome é Vanderlei e estou aqui para satisfaze-los!

Um dos clientes cochichou para outro:

– Eles fazem cada uma para vender…

– Então me digam! Como posso satisfaze-los?!

– Falando mais baixo e nos deixando comer!

– Não! Não posso fazer isso, pois tenho que deixa-los felizes! Vocês não me parecem felizes! Ei povo do refeitório.. eles parecem felizes? Respondam seus babacas! Vocês não sabem! Temos que satisfazer nossos clientes, podem responder! Opa…me solta rapaz…me larga…..”

Crônica válida só para um dia

Olá a todos! Essa crônica só vale por hoje, dia 24 de junho de 2002.

Ela só é valida por hoje pois vai comentar o amanhã e o dia depois de amanhã. Mas se você resolver lê-la daqui a vinte anos, não haverá problema, a não ser que ela esteja totalmente errada, já que retratará um comentário, ou melhor, uma previsão sobre os próximos dias.

Estamos as vésperas da semifinal da copa do mundo do Japão e da Coréia. Caso você esteja lendo essa crônica em 2015 ou 2016, ou qualquer outra data, saiba que nesse momento da história, em junho de 2002 estamos assistindo pela TV a maior revolução do futebol mundial, mesmo que seja só desta vez.

Há um mês, antes de começar a Copa, Argentina e França pareciam imbatíveis e eram favoritas para decidirem uma vaga na final. Ambas foram eliminadas na primeira fase e a Segunda nenhum gol sequer marcou. Outras expectativas sobre Portugal, o time do melhor jogador do mundo, também foram para o espaço.

Amanhã, teremos uma semifinal incrível. Coréia do Sul e Alemanha farão um jogo que entrará para a história. Mesmo que a Coréia do Sul tenha chegado nessa etapa coberta de dúvidas e polêmicas, ela diretamente eliminou a tão proclamada seleção de Portugal, a famosa seleção Italiana e a eterna promessa da seleção espanhola.

Só que a Coréia irá pegar amanhã, a Alemanha, Segunda maior seleção de toda história, só atrás do Brasil (Yeah!). Se isso de fato ocorrer (o que eu não duvido mas também não aposto) ela poderá pegar a seleção brasileira na final. Veja bem, uma seleção que pegou uma das favoritas (Portugal), venceu a Itália, a Espanha e pode vencer a Alemanha, também pode vencer a seleção Brasileira.

Mas antes de concluir, falando em seleção brasileira, antes de começar a copa todos contavam com um Brasil frágil num grupo muito fácil enquanto outras seleções passariam por adversários muito difíceis pela primeira fase. Oras, por que isso? O Brasil vem fazendo uma bela campanha e, ou contrário do que muitos pensaram, o grupo que o Brasil disputou a primeira fase é o mais forte da copa, pelo menos na prática e na estatística, já que dos oito grupos da copa, é o único que tem dois representantes na fase semifinal da copa, aonde só restam quatro equipes.

Essas informações são impressionantes! A Coréia do Sul nunca tinha vencido um jogo de Copa do Mundo (se você tem dúvida a única Coréia que já tinha vencido era a do Norte) e está entre as quatro grandes seleções e o pior, quem está participando de algum bolão, não sabe o que poderá ocorrer com o seu dinheiro, pois se apostou na Alemanha, o favoritismo não contará em nada e se apostou na Coréia, não tem garantia nenhuma, perante um bom arbitro, que vencerá a Alemanha.

O Brasil nunca esteve tão próximo de um título, tudo o que está acontecendo parece com as outras copas que conquistou. Mas também vejo por outro lado. Nada foi tão parecido com a derrota, estúpida, para a França em 98. Jamais pensei que diria isso um dia, mas tomara, tomara mesmo, que a Alemanha vença a Coréia amanhã, só isso.

Bom, provavelmente você já sabe dos resultados ao ler isso, mas gostaria que soubesse, o que eu estou sentindo (ou senti), antes desses jogos. Vibro muito com Copas do Mundo e Olimpíadas, e não estou me contendo. Posso estar totalmente errado ao me expor, mas até me assustaria se estivesse certo, ao ver o que estou vendo.

Até amanhã, ou algum dia.

Domingão Culturete

Domingão. Aquela velha rotina ociosa. Acordar preguiçosamente às 11 horas e ir para o sofá da sala. Ler o jornal e assistir televisão até a hora do almoço, sempre na horizontal, afinal é domingo. Após o almoço uma espreguiçada e mais lesera no sofá. Um domingão típico. Sinto-me até envergonhado de desperdiçar tanto tempo assim. Estamos em São Paulo, a terceira maior cidade do mundo. O maior pólo cultural da América Latina. Centenas de opções de lazer. Não há desculpas. Falta de dinheiro? 31 shows musicais, 5 espetáculos de dança, 13 mostras de cinema/vídeo, 28 exposições e 26 peças de teatro; todos gratuitos. Moro longe? Atualidades e RAP em São Miguel Paulista, Teatro de Antônio Abujamra no Butantã, show do Quarteto Grave em Santana, Tarde Literária em Santo Amaro ou Ópera no Centro; extremos Leste, Oeste, Norte, Sul e o Centro, todos cheios de atividades. E o que eu estou fazendo em casa? Eu tenho que aproveitar o domingão e fingir que tenho cultura. Tirei meu pijama e fui à luta. Mostra de Curtas-Metragens Paulistas no Centro Cultura São Paulo. Gratuito e do lado de casa.

Toda essa introdução para esse pequeno comentário: vocês não odeiam quando encontram aquela pessoa que você conhece, mas não é assim seu amigo, daquele tipo que até é gente boa, mas não rola muito papo, sabe Deus o por quê. Aquela situação onde estão os dois sozinhos e você tentando achar algo para dizer só para quebrar aquele silêncio constrangedor. Pois bem, cheguei ao Centro Cultural numa boa, peguei o ingresso sem problemas e esperei abrir a sala. Enquanto não abria passeava pela exposição de fotos montadas lá. Sentada no canto vejo uma conhecida minha. Aliás, uma daquelas pessoas que você conhece, mas não é assim seu amigo… etc, como expliquei no início do parágrafo. Não, acho que não é ela, está diferente… sei lá. É melhor fingir que não viu que pagar mico e cumprimentar a pessoa errada. E depois sempre tive a impressão que ela não gostava de mim. Abriu-se a sala e entrei, logo atrás veio a suposta conhecida que não é exatamente amiga e etc. Tento olhar melhor para ver se é ela mesma, mas não chego à certeza nenhuma. Ignorar… É… Ignorar é bom…

Saindo da sessão a procuro com o olhar mais uma vez, mas não a encontro. Ficarei com minha dúvida. O que não considero nenhum grande fardo. Sentimento de dever cumprido por aproveitar toda essa cultura da cidade e agora posso voltar para a minha…

– Leopoldo! É você?
– Ah.. (como é o nome dela mesmo? Ai cacete! …Fernanda! Isso! Fernanda!) Oi Fernanda! Tudo bem?
– Tudo bem! E aí? Assistindo a sessão também? Só o último curta que é muito chato! Se tivesse uns 15 minutos a menos seria bem melhor. É longo demais! Nem deviam chamar aquilo de curta!
– (Boa piada. Faça um comentário agora para parecer culto e inteligente) Verdade. É bem chato mesmo. Mas também é uma peça documental. Tem todo o trabalho de restauração dos filmes da Glauce Rocha. (Ainda bem que por sorte assisti o programa Zoom que passou uma reportagem sobre esse curta)
– Essa sessão não foi muito boa mesmo.
– Pois é. A de ontem estava bem melhor. (sim, eu também assisti a sessão no sábado).
– É, claro, tinha o “Palíndromo”. Curta premiadíssimo.
– Mas a que gostei mais foi o “Palace II”. Assistiu?
– Não, não consegui, mas ouvir dizer que é bem legal.
– … (silêncio constrangedor… Odeio isso.)
– …
– Pois é, tenho que ir. Tchau!
– Legal te encontrar. Tchau!

Agora sim, voltei para casa com o sentimento de dever cumprido e, ainda não sei por que, com a mesma sensação de que ela me odeia.

Despertar de um macho.

Numa boa, estou cansado de tudo isso, agora você vai ter que me ouvir, sempre fiz de tudo pra ser seu homem ideal mas não posso mais esconder o macho que existe dentro de mim.

Primeiramente eu não faço amor. Eu trepo. E não venha com discursos feministas pois uma pessoa que emite os barulhos que você emite durante o ato não pode estar fazendo amor. Está trepando. E falando nisso essa história de dor de cabeça é uma afronta, trepadas tem hora pra acontecer, e essas horas são quando eu tenho vontade. E daí que você não está afim, não faz diferença, pois nunca dá tempo de você chegar ao orgasmo mesmo, depois que eu dormir (o que não demora mais de 2 minutos) você dá um jeito nisso. Vai comer um chocolate! Mas diet por favor pois quando eu digo que você está linda é por pura e educação e seguro-trepada. Pô, você não tem espelho??? Olha o seu tamanho! Daqui a pouco vou juntar nossos lençóis e fazer uma camisola pra você.

Futebol. Sim é muito importante, e se você quer realmente saber, sim é mais importante que você. Você sabe o que são 32 times se enfrentando em partidas acirradas com pontapés, cuspidas e 15 minutos de intervalo pra ir até o banheiro? Não queira competir, numa boa.

Sua mãe, não é que eu não goste do tipo de gente que ela á. É que ela não é gente. Tenho sérias suspeitas de que ela não é desse planeta, por que antes pensava que talvez ela fosse um tipo de macaco, mas descartei a teoria pois os macacos sabem se comunicar. Quem sabe ela seja de Vênus, você já viu a certidão de nascimento dela???
A minha mãe, ela também não é gente, ela é uma santa, e para santos não devemos reclamar, apenas agradecer e rezar.

Meus amigos. Você tem que parar de chamá-los de porcos, eles são autênticos. Só por que eles fazem campeonato de arrotos não quer dizer que eles não tem educação.

Se eu te amo? Bem, óbvio que não, só nos casamos por que você ficou grávida e seu pai era coronel. Graças a Deus que o velho se foi pois odiava quando ele me chamava de cadete. Então se poupe e pare de perguntar se eu te amo, você já sabe a resposta, se quiser falar que me ama fique a vontade mas saiba que no máximo vou responder com um “ahã”.

Bom, acho que era só isso, agora apressa a janta que tem jogo hoje e o pessoal vem aqui em casa assistir. Bangu contra América, um clássico.

MICRÔNICA [#10]

Todo 25 de janeiro a TV Cultura tem inserido na programação poemas celebrando a cidade, declamados por vozes aclamadas, entre os quais meu soneto “Ao Metrô”. Resolvi compor outro soneto, mais a propósito, depois de constatar que São Paulo não aniversaria apenas em janeiro. Afinal, datas como 25 de março, 7 de abril, 24 de maio, 29 de junho, 9 de julho, 11 de agosto, 7 de setembro, 12 de outubro, 15 de novembro e 3 de dezembro evocam fatos que, direta ou indiretamente, têm relação com a cidade e, por conseguinte, com o país. Se fevereiro fica de fora é por ser mês de férias e de carnaval, coisas que não condizem muito com a capital do trabalho. Já maio, mês do dito, além das mães e das noivas, tem tudo a ver conosco. São Paulo é mãe para quem aqui nasceu, mãe em cujo coração sempre cabe mais um adotivo — ainda que seja desnaturada e muitos filhos lhe sejam ingratos. E é noiva dos poetas que, como eu, não desistem do compromisso — ainda que fique para tia, cada vez mais decadente e decaída. Para alguns, uma Tiazinha, que se mascara e trata a todos com chicote. Para mim, está mais para Tia Nastácia, a serviço duma Dona Benta federal e desrespeitada por Emílias, Narizinhos e Pedrinhos estaduais. Se Lobato fosse vivo, além de O PRESIDENTE NEGRO teria escrito A GOVERNADORA NEGRA e O PREFEITO NEGRO, enquanto seu Yellow Woodpecker’s Site já estaria sendo visitado virtualmente. Aos poetas restaria escrever O CIDADÃO NEGRO, cuja maternal estátua no largo do Paissandu (ainda estará lá?), somada ao Marco Zero e ao Pátio do Colégio, daria o panorama monumental da pluralidade étnica na edificação da metrópole. Maior capital nordestina fora do Nordeste, maior cidade fora do Primeiro Mundo, maior aglomerado humano fora do Planeta, São Paulo completa anos-luz a cada fração de segundo. Merece aniversariar todos os dias, inclusive no Zero de Zerembro. Inédito em livro, este soneto é, portanto, permanentemente oportuno:

SONETO 501 URBANIVERSADO

Feliz aniversário, Paulicéia!
Do Pátio do Colégio ao infinito,
o imenso não é feio nem bonito:
darás de megalópole uma idéia?

Tens cara de africana ou de européia?
Tens árvore de figo ou de palmito?
Tens catedral de taipa ou de granito?
Tens flor? É rosa, hortênsia ou azaléia?

Te tornas, ano a ano, mais mudada:
quem chega não se encontra com quem parte;
a rua não se avista da sacada.

Poetas não têm jeito de saudar-te;
tu, pois, que cantes, antes de mais nada,
que és obra, em fundo e forma, in progress: arte!

Vila Perdida

Essa é uma história de esperança, estrelada, por que não, por uma criança. O nosso protagonista é Tião, o menino que ora sacoleja na traseira da condução. Fora já é final de tarde, o sol mingua e a noite chega, sem alarde. O carro segue o caminho de barro rumo a Vila, escondida da cidade e, pelas próximas horas, da claridade. O lugar também é chamado de Vila Perdida, pobre povoado de periferia, esquecida do pessoal lá de cima.

Aqui não se encontra água encanada, rua asfaltada ou gente empregada. É terra de vida que se sustenta a duras penas, de quem mal e mal se alimenta. Esse povo molambo vive mesmo à base do escambo. Uns poucos têm trabalho, mas que consolo: a carteira assinada os leva para o outro lado da estrada. O coitado é obrigado a deixar o lar se quiser trabalhar, porque para quem mora aqui o traslado é por demais demorado. O operário não é mais que marido de sábado e pai de feriado. São as famílias de vigília, como se diz, dividindo o grotão com as famílias que por um triz são, e que se ainda são, é graças à caridade de algumas pessoas da cidade, não por outra razão. A vida não passa de uma contingência na Vila do eterno estado de emergência.

Hoje, porém, o dia vai acabando bem. Foi data de lhes estenderem a mão. A missão distribuiu comida na comunidade ferida. O cheiro de janta já se espalha sem demora pelos barracos afora. Será noite de bucho forrado, sono embalado e corações confortados. Mas daqui a pouco. Por agora ainda um coração palpita com aflição. É o daquela mãe ali no ponto, ansiosa por ouvir o ronco que anuncia o retorno da cria. Quando vê o ônibus do seu Tião, acaba-se a preocupação. Ela espicha o pescoço, acha o garoto solto, folgado. A semana não é terminada, por isso o menino não teve companheiros durante a jornada. Neste dia pôde vir esparramado, mas há outros, muitos, em que o filho padece no coletivo lotado.

Todo dia é, para ambos, o mesmo sofrimento, mas a causa é de grande merecimento. Essa mãe e esse filho têm o sacrifício por ofício. Ela, de esperar o menino retornar, ele, de estudar. Sim, estudar. Quem vê dupla tão esfarrapada pensa logo tratar-se de gente iletrada. Enganam-se em tudo, pois os pais de Tião têm estudo. Trabalhavam muito, e bem, honestos, perseverantes, como convém. Tinham tudo encaminhado, aí veio o petardo. Uma crise insistente tornou a companhia insolvente. Nem a boa formação lhes garantiu a função ou mesmo, ainda que pior, nova colocação. É a depressão, diziam uns, recessão, diziam outros, que desastre, as empresas não alcançaram a projeção. Os acionistas, bravos, faziam questão de todos os centavos. Diretores, gerentes, supervisores seguiram cortando vaga, até que não sobrou nada. Nem para eles, nem para ninguém. Lutaram por cada vintém e no fim acabaram sem trabalho também. Como se vê, a saga de Tião e sua vida mal tratada é fruto de uma longa derrocada.

É a mesma história do resto da escória. Toda essa gente arrasta semelhante corrente. Muitos outros sacrificados também eram qualificados. Tinham formação e ambição, ausentes na nova geração. Prostrados, não vêem mal em terem filhos desarticulados. De que lhes vale ler e escrever se trabalho não hão de ter? Se querem mesmo saber, não tem importância. A escola, além de distante, é irrelevante. Pobres pais, substituem ganância com ignorância.

Nisto que a família de Tião é diferente: fazem questão de que a escola ele frequente. O menino também acredita na necessidade da escolaridade. Desde cedo carrega esse credo. Sabe que ser entendido e entender são formas de poder. Por isso se empenha enquanto as letras desenha. Uma a uma estica, pouco a pouco desembaraça o novelo da escrita. Sem pressa faz do caderno uma peça mágica em atmosfera tão árida.

Isso é tudo do Tião, autor falastrão? – inquire o leitor com certo rancor. Entendo. Afinal, no início fiz um anúncio: propus uma trama de esperança, depois enveredei pelo drama. Que triste texto este, um retrato do esgoto que só de pretexto usa o garoto. No papel principal, Tião deveria é conduzir a ação e não ser veículo de mera ilustração. Usei um artifício, admito, mas em seu benefício. Não incorri na mentira, não me esquivei da premissa, ao contrário, cheguei no destino sem desatino. Apesar de toda lamentação, os pais do Tião sabiam que a educação era a saída para sua condição. Mostraram o horizonte, ali defronte, apontaram a via da cidadania. Então, já descobriram a minha picardia? Não? Pois dou a resposta que tanto queria: lhe incutiram coragem e agora é Tião quem age. Forjo a minha narração de outra declinação. Alcancei o fim da estrada, a promessa de menos apuro. Conto tudo daqui, do meu futuro.

Mais Uma Teoria

Como diz Veríssimo na sua mais brilhante teoria, o Homem evoluiu do macaco, sim. Darwin tinha sua parcela de razão; mas a Mulher, sem sombra de dúvidas, foi criada por Deus e perfeita que era, nem precisou de “recall”, ou modificações pós-criação.

Nós, os homens, pobres seres em evolução, estamos inventando maneiras de conquistar e impressionar as mulheres, há milênios. Desde a criação de desodorantes mais eficazes, que consigam fazê-las esquecer do nosso passado simiesco, até as grandes guerras mundiais, no fundo, no fundo, é só isso que queremos: impressionar e conquistar.

Elas, já perfeitamente desenvolvidas e seguras, observam e se deliciam por todos esses milênios, com nossas ridículas tentativas, e quando querem impressionar, derrubam qualquer resistência com um simples sorriso malicioso, uma piscadela dissimulada, ou um decote mais generoso, nos casos mais extremos.

Por mais inteligente, importante, culto, letrado e erudito que seja um homem, ao se deparar com uma Mulher que realmente considere bela, volta a ser um simples macaquinho.

Exagero meu ? Acho que não. Repare, por exemplo, que por mais revoltado que esteja um homem(ídio) ao se deparar com uma bela atendente do serviço ao consumidor, tem toda sua ira suprimida, pelo medo de que Ela, finalmente, perceba que ele era sim, há alguns anos atrás, um pobre chipanzé vagando pela mata silvestre.

Conheço homen(ídio)s que compraram roupas que nunca usaram numa determinada loja, só para impressionar a vendedora. Impressionar o quê ? Ela trabalha com isso, todos que passam por lá, compram, ou não, roupas! “Mas você já me viu assinando um cheque, sou irresistível quando termino com os três pontinhos …”.Quanta besteira!

Também é verdade que vez ou outra, conseguimos o que queremos (ou seja, Elas), mas como toda mentira que se preze, um dia nossa máscara de seres que não sofreram a intervenção Divina na criação, cai e aí, voltamos à nossa primitiva condição, vagando como animais peludos, maltrapilhos e esfomeados que somos, chorando a nossa triste condição, e desejando, pelo menos algum dia, chegar ao nível delas …

Imaginação

“Eu tive uma infância de primeira. Para falar a verdade, não tenho muito do que reclamar desse período da minha vida. Não que eu não reclamasse na época, reclamava: quero isso, quero aquilo, compra isso, compra aquilo. Reações normais por parte de uma criança. Porém, hoje, ao olhar para o passado, não considero as frustrações infantis como traumas, e sim aprendizado.

Grande parte dessa infância feliz pode ser atribuída à imaginação. Era meu brinquedo favorito. Em uma época em que a TV e o cinema não contavam com grande apoio de efeitos especiais, os vídeo games eram toscos, o computador era uma coisa distante e a internet simplesmente não existia, tudo era feito a base de imaginação.

Esses dias, andando em um parque de diversões, me deparei com um dos meus brinquedos favoritos. Um gira-gira de helicópteros. Uns seis, sete que giravam no mesmo eixo e subiam e desciam. Parece simples, mas a simples experiência de entrar naquela cabine, podia significar uma guerra, um salvamento, um vôo rasante, até um looping.

Hoje, crianças do mundo inteiro podem ter acesso aos mais modernos instrumentos de guerra, simuladores de vôo precisos, jogos que beiram a realidade. Me assusta a capacidade que temos de criar ambientes virtuais semelhantes aos nossos. E quando não são semelhantes, são tão completos que o espaço para imaginar fica pequeno. Nós paramos de inventar, criar e cada vez mais aceitamos o que nos é imposto, deixamos que outros criem por nós. Lamurias nostálgicas.

O contraponto disso, e que a vida nunca vai ser linear ou completa como esse jogos, ela e imprevisível, exige malícia, criatividade, imaginação. Como pessoas treinadas em brinquedos como esses, com começo meio e fim pré determinados, podem desenvolver a capacidade de sair de situações inusitadas? Acho que essa pergunta não tem resposta.

Eu mesmo, as vezes, me pego querendo entrar no helicóptero novamente. Alguns dizem que estou regredindo. Eu discordo.”

MICRÔNICA [#9]

Quando enxergava, lembro de ter visto na TV uma reportagem policial bem escabrosa mas que me rendeu dividendos excitantes. A notícia em si era broxante: aqui mesmo em Sampa, um homossexual enrustido (barbudo e com pinta de machão), que levava michês para casa, foi achado morto em seu apartamento. Das perfurações de arma branca o corpo sangrou muito (creio que houve luta) e o assassino, descalço, pisou nas poças e deixou pegadas pelo chão. A perícia, então, registrou a pista e por ali começaram a investigar. Todos os michês da área foram “convidados” a cadastrar seus pés para comparação. Em vez de “tocar piano”, deixando impressões digitais numa ficha, dançaram aquela música “Ai bate o pé, bate o pé, bate o pé…” e deixaram a impressão plantar num inusitado álbum podográfico que, para mim, revelou-se pornográfico quando a TV mostrou algumas das solas cadastradas. Parece que a polícia chegou ao culpado, mas o que me chamou a atenção foi o pé chato dum dos inocentados, cujo formato era tão reto que supriu minhas punhetas durante longo tempo, fissurado que sou pelos arcos caídos. Claro que não fui atrás, mas só o fato de saber que havia uma tábua daquelas disponível na praça aumentava minha alegria de viver. Não generalizo, mas ao compor o soneto abaixo (ainda inédito em livro) não pude deixar de lembrar daquele caso particular, cuja ameaça paira sobre todos os gays que decidem passar da fantasia à prática.

SONETO 505 MICHETADO

Mais serve ao cavalheiro do que à dama.
Mais jovem aparenta que o cliente.
Mais másculo se diz do que se sente.
Quer ser mais que um garoto de programa.

Nem tudo que combina faz na cama.
Se dá não quer. Se come não é quente.
Se chupa não engole. Se o diz, mente.
No par sempre é mamado. No bar, mama.

Seu pênis é mais canto que instrumento.
Seu tênis é maior do que seu pé.
Seu riso é menos gozo que lamento.

Aluga o que não tem e o que não é.
Mas cobra a fantasia e, ciumento,
“Amor!” espera ouvir, pago ao café.

Reclame

Reclamar é uma espécie de esporte nacional brasileiro. Só não dá para ser categórico porque reclamar dispensa disputas e adversários. Quando uma queixa leva ao confronto já não estamos mais falando de reclamação, mas de discussão, de elevação de voz ou de pugilato. Reclamação que se preza foge de briga. Seu isolamento do nascimento até o último resmungo é questão de sobrevivência. Como não é sinônimo de injustiça, reclamação nem sempre é muito coerente, e portanto se torna presa fácil até para argumentos de adolescentes. Tudo isso talvez a afaste dos ideais olímpicos e do fair play, mas não do coração brasileiro.

Se a gente pudesse chamar reclamação de esporte, não tenho dúvidas que ela seria mais popular que futebol. Reclamar é muito mais democrático que jogar bola. Primeiro porque as mulheres adoram, segundo porque está ao alcance de todas as idades e tipos de condicionamento físico. Nunca se é velho demais, ou gordo demais, ou fumante demais para reclamar. Sem contar que o Brasil tem as condições ideais de treinamento. O brasileiro pode reclamar do trânsito, dos políticos, do serviço público, dos preços, dos políticos, do trabalho, dos impostos, uns dos outros e até dos políticos. Ou de qualquer outra coisa que der na telha, porque a questão não é apenas de infra-estrutura e dedicação, mas de talento também. E reclamar é uma coisa que está no nosso sangue.

Temos, inclusive, um calendário para isso. Informal, vá lá, mas muitíssimo organizado: o planejamento de trabalho é sério e seguido à risca. Além do treinamento intenso no dia-a dia, ele prevê a utilização das eleições minoritárias e das Olimpíadas como preparatórios para o grande evento. A apoteose da reclamação ocorre mesmo a cada quatro anos. Por uma dessas coincidências fortuitas que só o destino explica, fomos agraciados com a Copa do Mundo e as eleições presidenciais caindo na mesma época. Durante esse período o país pára para se queixar da seleção e dos políticos, nessa ordem. Especialistas e anônimos se reúnem em volta de mesas pelo Brasil afora para detonar o desempenho do time, a convocação, o penteado do técnico, o salto dos jogadores. Em rede nacional ou em botecos, as pessoas não fazem outra coisa senão reclamar das derrotas, empates, e já que estão no embalo, das vitórias.

Passado o frisson esportivo, as atenções se voltam para o campeonato de vale tudo. Aí é a vez de a classe governante mostrar que golpe abaixo da cintura também vale, desde que bem aplicado. Sempre, claro, com a consciência de que mais importante do que levar o adversário à lona é fazê-lo com classe. Por isso os candidatos mantém uma conduta livre de preconceitos e um discurso inclusivo: reclamam indiscriminadamente do que aparecer pela frente. De vez em quando um deles escorrega e ofende uma minoria, como o molequinho que comparou o trabalho quente de um instituto de pesquisa com paezinhos recém-saídos do forno dos patrícios. A febre é tão grande que até o governo, esse grande reclamado, se anima a distribuir suas lamentações. Então oposição, situação e ocasião se abraçam para reclamar das siglas internacionais, do mercado e da imprensa. Envolvida pelo clima, até a imprensa reclama da imprensa. E nós, sortudos, reclamamos de todos eles.

Tanta organização e paixão colocaram o Brasil no mapa da reclamação institucionalizada. Hoje fazemos parte do primeiro time da diplomacia mundial e podemos dizer com orgulho que o Itamaraty é uma das grandes forças na produção de queixas. O engraçado é que a nossa supremacia parece não incomodar as ciosas potências tradicionais. Talvez seja porque só se reclama daquilo que não se pode mudar.