Arquivo de julho, 2002

Dia Mundial do Orgasmo

“Mulher tem orgasmo?

Silêncio na mesa do bar.

– Como assim? Lógico que tem.
– Mesmo?

O susto passou e estávamos todos rindo sem parar.

– Você acha que elas gritam, gemem…por que?
– Gritam?
– Normalmente sim, mané. Não acredito nisso.

A essa altura o bar inteiro estava se divertindo com a cena.

– Você nunca viu uma mulher gozar?
– Não.
– Nem em vídeo?
– Não.
– Então por que veio comemorar o dia mundial do orgasmo?
– Vim comemorar os meus.

Mais risadas, era uma piada, era real, era muito engraçado.

– Qual foi seu relacionamento mais longo?
– Um mês, por que?
– O que as mulheres diziam quando te largavam?
– Que eu me doava muito e que elas não poderiam retribuir e que eu merecia alguém melhor.
– Nenhuma delas reclamou da sua indiferença na cama?
– Não.
– Você tinha orgasmos pelo menos?
– Tinha. Mas nunca entendi por que logo depois elas ficavam tão putas da vida. Talvez elas quisessem ter orgasmos também…

Silêncio novamente.

– Lógico que sim. Depois do trabalho, do voto, da independência financeira e da chapinha, as mulheres também querem orgasmos.
– É verdade.
– Um brinde ao Dia Mundial do Orgasmo!
– Um brinde.
– Mas elas gozam mesmo?
– Gozam sim…
– E sai alguma coisa?”

Acredite Se Quiser

É engraçado como as coisas vão acontecendo e, muitas vezes, a gente nem se dá conta. Não sei se vocês sabem, mas há 7 anos atrás (isso mesmo, 1995, o Brasil já era Tetra) só umas 50 pessoas tinham Internet no mundo todo! Dá pra imaginar a vida sem ela, hoje em dia? Acho que não, nos acostumamos com certos confortos e privilégios e nos esquecemos que já vivemos sem eles.

Se nós, que estivemos presentes num passado tão próximo, e ao mesmo tempo distante, temos essas dúvidas, imaginem só, como será a cabeça das próximas gerações. Nosso cotidiano soará de uma forma tão absurda, que poderemos inventar milhares de aparelhos (que nunca existiram), afirmando, com toda propriedade, sua existência e até modo de funcionamento. Uma espécie de Flinstones, na vida real.

Com um pouco de esforço já consigo pensar numa série de aparelhos e procedimentos extremamente “comuns” no nosso pseudo-passado pré-histórico:

-Telefone celular com disco (que fazia um barulhinho – ta- ta- ta- ta- ta – quando você discava o número);
-Palm top a corda;
-Refrigerante com tampa de rolha;
-Cd-rom em vinil;
-Monitor de computador preto e branco, de madeira com o seletor manual que tinha que esperar esquentar pra funcionar;
-Luzinha de relógio do tipo Indiglo, à querosene;
-Walk man à válvula;
-Disqueteira de vinil (para os rádios de carro);
– Mostrador de relógio de pulso digital com aquelas plaquetas pretas que ficam caindo
(que nem relógio de aeroporto);
-Cartão de crédito com furos (caiu o cartão?);
-Tinha ligar pra telefonista pra passar o “e-mail” para alguém;
-Quando os programas de tv tinham pouco movimento, era porque demoravam para carregar (sabe como é, né? Naquela época, a rede era muito lenta);
-Jogos de rpg em atari;
-Raspar a sola do tênis novo no chão pra não escorregar;
-Boneca “inflável” de madeira;

Acredite se quiser …

Porque eu não gostei de Matrix

Mas por que você não gostou de Matrix? Essa é a pergunta que mais escuto quando discuto sobre cinema. Aliás, como todo chato, eu provoco tal pergunta. É que parece um dogma supremo gostar de Matrix. Pois bem, eu não achei o filme essa maravilha toda. A razão desse texto é na verdade um forma de poupar tempo argumentando sobre o assunto. Situação semelhante ocorre quando alguém aparece com o pé, ou o braço (ou qualquer parte do corpo possível) engessado – “Mas o que houve?”; “Como você se machucou?” – E dá-lhe explicações. Quem nunca sentiu vontade nessas situações andar com uma plaquinha dizendo “Quebrei a perna caindo da escada” para evitar ter que repetir a mesma história 6854 vezes seguidas? Pois bem, essa é minha plaquinha. Da próxima vez que alguém me porguntar por que eu não gostei de Matrix, é só responder: entre no site www.cronistasreunidos.com.br que além de poupar meu tempo, ainda gera acessos no site.

Antes de qualquer coisa, acredito que nós somos intensamente influenciados pela expectativa. Se nossa expectativa é baixa, você não cobra tanto do filme. Para terem uma idéia, até me diverti assistindo Tomb Raider. Pela lógica se você espera um filme -10, e assiste um fime -8, acaba saindo com um lucro de 2, certo? Pois bem, a minha grande besteira foi esperar demais do Matrix. Um filme surpreendente, idéias revolucionárias, o novo Blade Runner!

Surpreendente? Um filme que você sabe o final no começo do filme para mim está longe de ser surpreendente. Logo no início já sabemos que ele é o “The One” e vai detonar todo mundo que aparecer pela frente. Está mais que claro a Trinity irá ficar com ele no final. Logo que “o cara que trai o grupo” aparece, dá para ter certeza que ele vai ser “o cara que trai o grupo”. Nem vale a pena tecer maiores comentários na cena “não morra porque eu te amo”. É, estraguei a surpresa caso não tenham assistido ao filme, mas aliás, que surpresa? São apenas clichês em cima de clichês. roteirinho básico seguindo todas as regrinhas de Hollywood.

Idéias revolucionárias? Talvez. A premissa é interessante. Embora seja uma colagem de todas as ficções científicas existentes. Futuro apocalíptico, guerra entre robôs e homens, cyberpunk, realidades virtuais, enfim, nenhuma grande originalidade. A Matrix é como um Grande Irmão do 1984, a batalha contra robôs inteligentes já foi filmada pelo James Cameron, sobre o espaço virtual temos discussões interessantes em “Ghost in the Shell” e até a idéia sobre a humanidade ser um vírus é (provavelmente) chupada dos “Invisíveis” de Grant Morrison. A grande sacada dos irmão Wachowski foi juntar todos esses elementos ao mesmo tempo agora sob um visual da Gucci e som techno. Ponto para eles. Pena que escorreguem na história.

Novo Blade Runner? Os Wachowski ainda precisam comer muito arroz com feijão para chegarem no nível do Ridley Scott. Duvido que sejam tudo aquilo que falam deles. Eles fizeram o roteiro do “Assassinos” dirigido pelo Richard Donner, com o Stallone e o Antônio Bandeiras. Nenhuma maravilha da natureza. Escreveram e dirigiram “Ligadas pelo desejo”. Hã? Alguém já ouviu falar? Li alguma coisa a respeito. Sem grandes elogios. E produziram o péssimo “Romeu tem que morrer”. Convenhamos, uma filmografia dessas não é das mais conceituadas. Ainda são péssimos diretores de atores (se bem que o Keanu Reaves também não ajuda) e faltou clima ao filme. Se eles estão em um mundo onde tudo é controlado pela Matrix, onde qualquer um pode ser um inimigo, nada mais lógico que colocar um clima mais tenso, mais paranóico, gerar mesmo um clima de dúvida “o que será essa Matrix?”. Um filme que se propõe em descobrir os mistérios da Matrix (incusive o site é www.whatisthematrix.com) e logo no começo do filme já são revelados todos os segredos, é, ao meu ver, um erro grotesco. O grande “escorregão” que vi nesse filme foi justamente esse: clima! A falta de clima acabou por limar a história, deixá-la em segundo plano, dando preferência à um roteiro fraco que encaixasse mais tiros e lutas de kung-fu. Imagine que maravilhoso seria esse filme se fosse dirigido pelo David Fincher.

Sim, o filme tem seus méritos, e não são poucos. A direção de arte é linda, os efeitos são muito bons, edição de qualidade, há boas cenas de ação, mas nada que alguns muitos milhões de dólares não fariam.

Sem sombra de dúvida revolucionou os filmes de ação em Hollywood. Mas nada que os filmes de ação chineses não faziam há anos. Assistam “Golpe Fulminante” do Tsui Hark, com o Van Damme. O filme é ruim, mas toda a linguagem “revolucionária” de câmera, edição, movimentação e coreografias que Matrix usou estão lá anos antes. O efeito de “paralisar no ar” (que esqueci o nome do efeito) já era usado em clipes e propagandas. Novamente o mérito do filme é juntar todas esses recursos.

É um ótimo filme de ação, mas longe de ser o ”Primeiro filme do novo milênio”, como os próprios realizadores do filme definiram. Esperei 10, vi 8 e acabei no prejuízo de –2. Claro que poucos concordam com a minha opinião, inclusive os meus companheiros cronistas, mas acho que expus meu ponto. E afinal, um pouco de polêmica não faz mal algum. O espaço de comentários está aí para isso. Só não vale xingar a mãe.

Flores

“Tu és a mais bela entre as belas.
– Quero flores.
– Meu amor por você é infinito.
– Quero flores.
– Ficaremos juntos para sempre.
– Quero flores.
– Serei o mais fiel dos homens.
– Quero flores.
– Ficarei com você na tristeza…
– Quero flores.
– … e também na alegria.
– Quero flores.
– Quando você estiver para baixo, levantarei seu astral.
– Quero flores.
– Em momento nenhum vou sair do seu lado.
– Quero flores.
– Meu respeito sempre terás…
– Quero flores.
– …e também minha admiração
– Quero flores.
– Está bem, aqui estão suas flores.
– Precisam ser do campo.”

Carta aos missionários

Meus Caros,

É com muito pesar que constato, agora, a incapacidade geral da espécie masculina. A arte da conquista está sucumbindo à modernidade. Conquistar sempre foi um desafio, a suposta facilidade e simplicidade praticada por alguns nunca desvendou a verdadeira dificuldade para as espécies medíocres como nós, sim porque mais da metade de nós faz a média: medíocres. Os poucos que se salvam parecem manter segredo sobre suas capacidades. Desconfio que há uma sociedade secreta e que neste exato momento seus fundadores e membros estão em seus trabalhos, agindo como nós: os medíocres.

Na verdade, é tudo uma questão de segurança e auto-confiança, dizia minha terapeuta. Mas ela era mulher. Não, não; fiquem tranquilos leitores, não matei a minha terapeuta eu disse “era” só porque parei de ir às sessões.

A dificuldade destes tempos modernos está exatamente no cultivo da auto-estima e segurança quando um mundo de gente bonita e fantástica é o modelo. As mulheres estão cada vez mais próximas daquilo que só se via em lugares reservados e pagos, não só estetica como comportamentalmente. Até aí, alguns entusiastas podem ver seus sonhos realizados, mulher na vida, devassa na cama. Sinceramente; sabemos que não passam de devaneios pueris.

A perfeição passa a ser parte de uma exigência comum, “- Pra começo de conversa eu sou perfeita. E você?” e você não vai escapar de ouvir isso de uma qualquer. Assim, realmente, não dá. Já tentou trocar duas palavras em qualquer lugar onde média audível bate os 150 decibéis?

Elas realmente não tem idéia do nível de concisão, criatividade e charme que isso exige. Cada vez mais, nós temos, cada vez menos, tempo para tentar estabelecer uma comunicação qualquer (a palavra conversa foi considerada impossível no contexto).

“Opa, ela vem vindo: – Oi voc ………..”.

Percebeu? Você, caro medíocre, não pode vacilar um só segundo, tem que ir direto ao ponto; se é que esse ponto existe (talvez a mulher seja tantos pontos que ela mesma tenha se transformado em um verdadeiro ponto de interrogação). Estão todos lá, no mesmo lugar, querendo a mesma coisa e dependendo do lugar, até, com a mesma pessoa. Porque é tão difícil?

Dadas as circunstâncias sou obrigado recolher a bandeira da tradição e ousar em novas tentativas e estratégias para tentar surpreender e talvez, e só talvez, conseguir mais 5 segundos.

……………………. uma abordagem chocante pode dar resultados …………………………quem sabe, se ao invés do tradicional “Oi”, usar algo do tipo:

“- Papiloscopista?
– Hãã …..?”

………………………………. talvez eu consiga mais 5 segundos, é, isso pode dar certo. Beta teste, depois eu conto os resultados.

Me despeço agora. Até breve meus caros.

Cantiga de Amigo

Eu olhava para ela totalmente embasbacado pela perfeição de suas formas.
Uma peça de precisão milimétrica, com suas formas redondas e perfeitas.
Alguém com capacidade de fazer muito mais do que aparenta, desde que bem trabalhada.

Percorrendo seu corpo, observava que força nenhuma a modificaria e que,
todo seu contorno era algo difícil de se compreender tão grande era sua perfeição.

Com meus dedos tão ávidos, não queria tocá-la com medo de quebrar seu encanto,
mas o meu fascínio se tornou tão grande, que a vontade foi maior do que o receio.
Uma vontade quase psicótica de tê-la em minhas mãos,
e por um instante que fosse, sentir-me parte daquela obra magnífica.

Segurei-a e mal pude conter meus sentimentos
Com as mãos trêmulas, toquei-a e pressionei-a
Até manchar de escarlate minha pele rija.

Subi, e enfim cheguei em sua cabeça, por pouco não soltei-a
e em qualquer parte que fixasse meus olhos me deslumbrava
com sua simetria e precisão.

Resolvi descer todo seu corpo, com cuidado tal para que tocasse-a integralmente,
e por fim fixei-me na sua última extremidade, no limite de não sentí-la mais.

Analisando-a pela última vez, me impressionei em como alguém tão meigo e delicado pudesse ser tão forte.
Suportando tantas pressões, em qualquer lugar que estivesse, lidando com quem quer que fosse.

Por fim, refleti e acabei concluindo: É … por incrível que pareça, até uma peça metálica como um PARAFUSO,
pode ser alvo de um texto poético.

Verde / Amarelo

Certos acontecimentos não têm motivos, ou razões específicas para existir, eles apenas acontecem. Claro que nem sempre são creditados ou acreditados. Há relatos de homens lagartos na Indonésia, lobisomens no México ou monstros de neve no Canadá. A breve história que contarei aconteceu no Brasil. Fato este desconhecido por todos, simplesmente por não ser assustador, não ter o apelo de uma lenda ou uma moral definida. Seria uma história casual, como tantas outras que vivemos dia a dia, se não fosse por um pequeno detalhe do nosso protagonista: uma pele de cor verde-oliva e amarelo-ouro.

Seu nome era José. Fora abandonado quando bebê por sua mãe. Talvez por não ter dinheiro para sustentar um filho, talvez por algum acidente do destino ou o simples fato de ter rejeitado a aberração que pariu. Encontrado e adotado por um grupo mambembe em Andratinhoso, no interior do Piauí, Zé passou a infância viajando de cidade em cidade. Aprendeu muito sobre as pessoas, sobre a vida no interior do país, sobre a cultura em cada povoado.

Morria de vergonha de sua coloração estranha. Verde e amarelo? Isso é cor de gente? Queria ser uma pessoa normal como qualquer outra, mas sempre era marginalizado. Ninguém se importava com as inúmeras qualidades que Zé possuía. Inteligente, sem dúvida, mas nunca deram a oportunidade para provar. Caridoso, como nunca se viu antes, chegava a tirar a escassa comida de seu próprio prato para dar ao próximo. Simpático, é claro, sempre com sorriso no rosto. Bom de bola e de batuque. Mas alguém se importava com isso tudo? Claro que não! Franzino como ninguém, apanhava todos os dias por ser assim tão diferente.

Zé resolve que não quer passar o resto de sua vida apenas como uma aberração verde/amarela de um grupo mambembe. Abandona seus companheiros de infância e parte para a cidade grande com o objetivo de se tornar alguém na vida, de ser respeitado enfim. Ser um “doutor” é seu sonho. Na capital estuda, estuda e estuda até começar a desbotar sua cor natal. Zé se adapta muito bem à vida urbana e no fim se forma como primeiro da turma. Consegue um emprego em uma multinacional e faz MBA no exterior.

Volta ao Brasil com o cargo de world wide system network management. Ganha em dólar e em ações da Nasdaq. Muda para uma casa no Brooklin, almoça um hambúrguer com Coca-Cola no McDonald’s, faz compras na Gap e até trocou o futebol (aquele esporte de garotas) pelo basquete da NBA, assistindo os jogos pela Direct TV.

Atualmente José, também chamado de Joe, leva uma vida normal, como sempre sonhou. É igual a todos, inclusive no tom de pele: vermelho, azul e estrelinhas brancas.

MICRÔNICA [#11]

Tenho a impressão de que a consciência da nacionalidade é tanto maior quanto menor for o território duma nação. Portugal e Cuba são bons exemplos, pelo menos nas glórias e vanglórias literárias. O mesmo parece valer para estados dentro de países muito vastos, até como indício de preservação cultural local contra uma diluição artificial tipo macumba para turista. No caso brasileiro, o cartão postal, quando não é praia e morro, é baiana vendendo acarajé na roda de capoeira ou canoinha perdida num rio cercado de selva tropical. Tudo bem, mas e os Pampas? E a Oktoberfest? E a festa do peão? E o Pantanal? E a caatinga? Também para consumo interno algumas regiões puxam com mais êxito a brasa para sua sardinha quando se trata de inventariar o que seria uma suposta brasilidade. Até as palavras soam como que cunhadas para ter sentido: mineiridade, baianidade, por exemplo, traduzem uma carga valorativa da qual o brasileiro tem quase que obrigação de se orgulhar. Já “paulistidade” é estranha ao ouvido e ao dicionário, como se prevenisse ser coisa feia alguém se orgulhar de São Paulo. “Paulistanidade”, então, é palavrão cabeludo. Engraçado, né? Por que será que o baiano é incentivado a se gabar das boas coisas de sua terra e o paulista se envergonha de fazer o mesmo? Mais curioso ainda é que, quando um paulista perde a vergonha e se gaba, os brasileiros de outros estados não lhe dão o mesmo crédito que dão ao baiano. Não bastante, os baianos e outros brasileiros que vivem em São Paulo falam mal do estado e da capital. Por que será? Enquanto os sociólogos do IBGE não oferecem uma tese conclusiva sobre essa má vontade contra o patinho feio da federação (que em vez de virar cisne se revela uma galinha dos ovos de ouro), eu, que já fui à Bahia e já vi in loco o que é que o baiano tem, resolvi fazer coro ao resto da nação e ao próprio mano soteropolitano. O Senhor do Bonfim sabe o quanto é sincera minha homenagem neste soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 338 BAIANO

Caymmi já cantou. Não quero tanto.
Gregório poetou. Apenas sigo.
Amado descreveu, e estou contigo:
é tua terra altar de todo santo.

Me toca o berimbau. Me encanta o banto.
Retoca o pelourinho meu castigo.
Atrás do trio elétrico me instigo:
sou pós-tropicalista, e aqui te canto.

Baiano, tens meu sonho e meu tesão:
bananas, cocos, caras, cores… yes!
Pirocas, carurus, cuscuz, pirão…

Moquecas, vatapás, acarajés…
Delícias que, de longe, abaixo estão
do gosto salgadinho dos teus pés!

Eu, Eu Mesmo e a Metalinguagem

Ninguém nas ruas. O vento cortante e a chuva fina espantaram todo mundo. Na verdade, ele pensa, o frio e o feriadão. Por um motivo ou pelo outro, não encontrou nenhum dos mendigos, viciados e putas que se espalham pela sua rua e redondezas. Apertou o passo quando avistou o prédio. Queria fugir do frio, e até aquele caco velho, caindo aos pedaços, parecia aconchegante. Entrou, passou pelo vigia, um velho que roncava feito o diabo, pelo elevador quebrado e seguiu direto até as escadas. Subiu uns vinte lances antes de chegar à portinha com seu nome no final do corredor estreito. Destrancou a porta e entrou. Destrancou a porta e entrou. – Tá, já ouvi. Destrancou a porta e entrou. – Eu ouvi, pô. E não vou entrar, ok? Destrancou a porta e – Ô! Pára! Não vou entrar, Paulo! – Que droga é essa de “Não vou entrar”? Você não pode ficar parado aí na porta! – Mas eu vou. – Por que? – Ué, e eu vou saber? – Deveria. Se insiste em não entrar, tem que ter um motivo. – É você que está escrevendo. Como é que eu vou saber porque você inventou de fazer essa coisa de metalinguagem? – Bom, o Ricardo vive fazendo, me deu vontade de ver o que pegava. – Tá, beleza. Mas e agora? Como é que vai ser daqui para frente? – Não sei, ainda não decidi… Só queria ver como era, mesmo… E eu vi. Acho que agora posso retomar a história – e o outro, interrompendo – Opa, opa, opa! Não é bem assim. – Claro que é. Como você disse, sou eu que estou escrevendo. – Ah, é? E eu, hein? Sou só um personagem para você usar como bem entender? – É. – Não mesmo! Eu fui isso aí, mas agora eu mando em mim. Sou independente, tenho opinões e só vou fazer o que eu quiser. Chega dessa coisa de ser pau mandado. Tenho direitos! – Direitos?! – Direitos, sim senhor! – Que tipo de direito? O que você quer para eu poder continuar? – Quero sair da história. Ela tá uma droga. Canastrona demais. E a alternativa é fazer uma coisa tipo Ed Mort, que não é nem original nem fácil. – Aí sobra o quê? – Já que estamos aqui, podemos continuar nessa conversa. Mas para ela ficar decente precisamos de uma uma abordagem mais legal. – Olha, acho que já vi todo tipo de metáfora nessa coisa de personagem falando com autor. Com certeza é bem mais clichê que a minha historinha com ar noir. – É nada. Só te digo uma coisa: P-S-I-C-O-L-O-G-I-Z-A-Ç-Ã-O – Psicologização?!?!? – Exato. A gente transforma isso aqui em um diálogo de você com você mesmo, entende? – Hum…. Não deixa de ser uma idéia… – Mas nem pense em se aventurar muito. Esquece o Jung, o Lacan, que você não tem bagagem para isso. Fica com os seus rudimentos de Freud e tenta não passar muita vergonha. – Vamos dizer que eu topasse. Como é que seria? Quem é quem? – Eu sou forte, alto, e o mais importante, tenho belos e fartos cabelos. Falo o que penso e sou o que sou. É mais do que claro que eu sou tudo o que você gostaria de ser. – E eu? – Você é o autor, o cara que fica regulando, me dizendo o que eu posso ou não fazer. Você é a prisão. Todos os fatores limitantes. Ó o drama aí, o conflito entre o que se quer fazer – eu – com o que querem que eu faça. – Sei. Então, numa abordagem mais psicológica, como você chamou, você sou eu? – Sim…. – Tá bom, fecho com você. Tem uma coisa que eu quero fazer mesmo, e como eu sou você, acho que vai funcionar. – o outro eu, concordando com a cabeça, pergunta: – O que é? – Olha só: Ele destrancou a porta e entrou.

Xique no Urtimo 2

“Pois bem. Há um ano e alguns dias eu escrevi a segunda crônica da minha vida: Xique no Urtimo. Esse ano ela merece um novo capítulo. Nesse final de semana eu estive em Capitólio, lembram? A cidade onde tinha a quermesse diferente, com leilão itinerante, palmito de R$81,00, bingo etc. Isso mesmo, eu estive lá novamente e, dessa vez, foi ainda mais emocionante.

O lugar estava mais cheio do que no ano anterior, afinal, depois do bingo tinha um show de dupla caipira, um espetáculo. Comemos alguns pastéis, os de sempre. Eu, a Má, seu pai e sua mãe (deixamos de usar a palavra sogro e sogra por motivos de força maior). Ah, e os pastéis eram de queijo.

Descemos para o mesmo lugar do ano anterior, a coisa toda parecia um dejavu. Foi quando, de relance, eu o avistei. Lá estava ele, imponente, encostado na parede, aguardando ser levado. Parecia calmo e descontraído e, dessa vez, estava acompanhado. Eram dois palmitos. O mesmo palmito que eu zombei o ano passado.

Meu coração bateu um pouco mais forte e, por um momento, eu quis aquele palmito. Era como se eu tivesse esperado um ano por ele. Passou um pouco mais de tempo. Acabamos por adquirir um pudinho (pudim com queijo dentro) e uma garrafa de melaço (um subproduto da cana-de-açúcar que é muito bom com farinha de trigo. Vai saber).

Nesse meio tempo o maldito palmito virou uma obsessão. Eu precisava adquiri-lo. Foi quando colocaram o primeiro palmito em leilão.

– Palmito e frango caipira, dez reais.

Frango caipira. Pensei. Que fazer com isso? Depois eu vejo. Voltemos ao palmito. Demos muito lances, mas um engraçadinho que gostava de arrematar tudo levou a melhor. Só pensava em me vingar, e no palmito, lógico.

Saiu o segundo palmito. Lá fomos nós de novo. Muitos lances, gritos e batimentos cardíacos se seguiram, até que o pai e a mãe da Má (que aqui publicamente eu agradeço) arremataram o palmito (com o frango) e me deram de presente.

O final dessa história pode parecer bobo, sim. Mas não deixa de ser histórico, pois o palmito, finalmente, é meu.

Ps: O frango, foi chamado de Dagoberto, e hoje vive bem em Ribeirão Preto
Ps1: O Palmito, logo logo, vai virar janta.”