Arquivo de agosto, 2002

Salvando Coníferas

Primeiramente gostaria de explicar que este título serviu exclusivamente para chamar sua atenção. Ainda não estou louco ao ponto de escrever uma crônica sobre coníferas, apesar de apreciá-las muito, coisa de primeiro mundo né…

Quero discursar aqui sobre a insistência das mulheres em dizer que não existe homem o suficiente no mundo. Que homem está em falta, difícil de achar.

Isso tudo é um engano. Tenho muitos amigos solteiros, bem sucedidos, apresentáveis e pasmem, inteligentes.

Sem ir muito longe já apresento três. Nossos amigos cronistas Ricardo, Rafael e Leopoldo. Os três estão abertos a negociação e não tem muitas exigências imagino. Não os consultei antes de escrever isso mas pra agitar mulher pra camarada nem precisa perguntar.

Saindo um pouco do ambiente cronista tenho muitas outras opções pra você encalhada, digo, mulher solteira. Na minha galera tem mais uns cinco(solteiros) de um total de dez(homens).

Vocês devem estar se perguntando aonde eu quero chegar com isso. Bem, os números só comprovam minha teoria de que o homem interessante existe, porém as mulheres não sabem onde .

Quando você pergunta a Kátia, solteira, que tipo de homem ela deseja, esta descreve alguém com virtudes como inteligência, sinceridade, fidelidade, companheirismo, etc. Mas na hora de flertar ela escolhe quem? Tiago, o bonitão do RH. O cara que entrou na empresa por indicação, só continua no emprego por que a chefa paga um sapo e já traçou praticamente todas as mulheres do escritório. Ele diz que não.

Agora me explica de onde Kátia tirou a idéia que Tiago é companheiro, sincero, inteligente e pior de tudo FIEL. Nem corintiano ele é.

O pior mesmo é que eu cheguei a conclusão de que Kátia na verdade nunca achou que Tiago fosse alguma coisa do que ela descreveu. Kátia se interessa mesmo é pelos músculos definidos e a cabeça desmiolada. Tanto é verdade que nunca olhou para Rodolfo, solteiro, estagiário do CPD. Ele sim tem todas as virtudes, porém usa óculos, aparelho móvel, é magricelo e gosta de Rock Melódico.

Ok, eu sei que Rodolfo não é sim uma pessoa super atraente mas com certeza tem melhor integridade do que Tiago.

Resumindo, queria avisar vocês mulheres solteiras que estão procurando no lugar errado.

Esqueçam os casados (só querem cama), esqueçam os pit bulls (só querem tatame), esqueçam os modelos (só querem eles mesmos), invistam nos normais. Afinal qual o problema deles? Nada que uma boa produção não resolva. Já cafajestice nada cura. Se insistirem nos bonitões procurem meus amigos pois eles são todos boa pinta, afinal são meus amigos (tem que puxar o saco né).

Libertem-se, desesperadas do mundo, uni-vos, e aceitem que corpo de Gianechini com cabeça de Veríssimo para a alegria de nós normais, não existe.

Enjoy

Eu queria uma vida que valesse mil vidas, mas só tenho uma. Talvez meia. Como posso saber o quanto vale minha vida e quanto eu realmente aproveitei. Nunca é o bastante. Você pode correr por praias paradisícas, coqueiros pendendo frente a força dos ventos e mergulhar em um profundo e azul mar refrescando seus pensamentos do sol, atroz, que faz iluminado o seu dia perfeito. Andar por caminhos inexplorados e sentir-se um verdadeiro explorador, cultivar o contato com a natureza e ainda assim: pra que serve a vida? Egoísmo pensar que você ganhou a vida pra simplesmente realizar seus desejos. Você não nasce, e, então, não existem “seus desejos”. Vamos ser altamente altruístas e pensar que nascemos para ajudar as pessoas, para semear a paz e cumprir com uma tarefa “maior”, uma indicação divina – preste atenção que não estou falando de Deus e sim de divindades, seja lá quais forem. É muito bonito descobrir que o ser humano pode ajudar as pessoas que precisam e com isso fazer o bem. Mas …………… e se não houvessem pessoas? Por qual motivo alguém teria que nascer? Não existiriam pessoas para serem ajudadas e o propósito da vida seria vão. Aliás, o primeiro a nascer não teria função nenhuma e sua vida não teria um sentido, pois seria o único; e ajudar a si mesmo seria um tanto quanto individualista: o que foge da teoria altruísta.

Não vamos desistir. Vamos dizer que nós nascemos porque nascemos, sem uma explicação lógica. Simplesmente nascemos. Nascer não é o problema, o problema é o porque nascer. Não há necessidade de mais pessoas no mundo. Estamos cheios de políticos, assassinos, miseráveis, milhonários, famintos, empresários, mendigos. Pra quê mais? Por que eu deveria ter um filho e largá-lo nessa porcaria de planeta? Eu mesmo não consigo explicar porque estou aqui (tá, eu sei a história da cegonha), por quais motivos eu teria que fazer uma outra vida passar por tudo isso? Porque eu teria a iniciativa de trazer à vida uma pessoa que vai enfrentar um sistema vendido e injusto que transfigura a humanidade com a qual nascemos e cria a crueldade daquele que mata e destrata contratos sociais, seja lá o que isso represente hoje. Para quê tanto masoquismo? Vamos morrer em paz e esquecer que a raça humana um dia existiu.

Vamos deixar a natureza nos consumir e dar fim a essa raça que por onde esteve nada criou e só fez desmerecer qualquer plano divino ou o que quer que seja esse propósito inalcansável.

Cansei de ser o filho, não nasci pra ser filho e muito menos pai. Não nasci para ser publicitário, médico ou garçon. Não sou uma profissão nem um tipo estigmatizado pelas negras páginas de revistas comportamentais. Não sou irmão, nem neto; sobrinho ou tio. Sou apenas …………. eu. E o que isso significa ninguém consegue me dizer. Eu não consigo explicar.

Amnésicos

-Putz, cara … Viajei!
-Como assim ?!
-Então …
-Hmm?!
-Lembra daquele bagulho que você pediu pra eu tomar conta pra você?
-A minha sobrinha ?
-Só!
-O que é que tem ela?
-Então …
– …
-É … eu viajei, tá ligado?
-Nem ! Nem tou ligado. Fala logo!
-Então …
-Então o quê?!
-Viajei ! Viajei, cara!
-Viajou como?
-Ah, como sempre …
-Olha, se você não me disser logo, eu quebro a sua cara!
-Disser o quê ?!
-O bagulho!
-Que bagulho?
-Ela!
-Ah … tua sobrinha?!
-Só!
-Putz, cara … Viajei!
-Tou começando a ficar realmente preocupado!
-Por quê?! Alguma coisa séria aconteceu?
-É isso que eu tou tentando descobrir.
-E o que tá te deixando encanado?
-O idiota que eu deixei cuidando da minha sobrinha!
-Só …
-…
Aliás … esse papo me lembrou dum bagulho.
-Fala!
-Tá ligado a minha filha?!
-Sei …
-Então … Eu tinha deixado ela com alguém, tá ligado?!
-Só …
-Só que eu acho que o cara ta me enrolando.
-Por quê ?!
-Sei lá, impressão, saca?
-Tou ligado.
-Falando nisso, você tá ligado que domingo é aniversário da mamãe, né?!
-Claro, ela me ligou dizendo que eu esqueci alguma coisa lá, e que se pá, eu aproveitava pra pegar no domingo.
-Sei … E o que você esqueceu lá?!
-Então …
-Então o quê?!
-O bagulho que eu esqueci na mamãe …
-Que é que tem?
-Num lembro, acho que tinha a ver com você…
-Beleza, nem deve ser nada demais.
-Só …
– …
-Do que a gente tava falando mesmo?!
-Do bagulho!
-Que bagulho, cê tá ligado que eu sou mó esquecido.
-Putz cara …
-Que foi!
-Viajei!

Espera

“Cheguei no horário marcado. Sete horas da noite. Uma hora para os que apreciam a moderação. Nem muito cedo, situação preferida pelos apressados e nem muito tarde, situação preferida pelos boêmios, que emendam qualquer compromisso em um bar. Se é que já não comecem nele.

Andei de um lado para o outro, não sou muito paciente. Ia da sala 1 até a sala 10, por um longo e silencioso corredor. Depois voltava, olhava em cada uma das salas novamente. Não havia ninguém.

Liguei o celular, telefonei para as pessoas. Caixa postal. Não costumo, mas deixei recado. Liguei novamente. Telefones celulares não são muito confiáveis, é sempre bom ligar mais de uma vez. Caixa postal. Que inferno.

Precisava sentar e comer alguma coisa. Todas as mesas da lanchonete estavam ocupadas e odeio comer de pé. Inferno novamente. Fui para a entrada do prédio tomar um ar, esfriar os ânimos e xingar os malditos sem que chamasse muita a atenção das pessoas.

Depois de gritar um pouco eu estava mais calmo, mas já se passavam trinta minutos da hora combinado. Entrei no prédio novamente. Fumei um cigarro. Um momento. Eu não fumo. Não fumei nada. Preciso me ocupar. Odeio ficar sem fazer nada.

O telefone tocou, eram eles:

– Cadê você?
– Cadê vocês pergunto eu?
– Aqui no prédio um.
– Mas não era no dois que havíamos combinado?
– Não mesmo.
– Estou indo para aí.
– Não precisa.
– Como assim?
– Hoje é sexta, vamos direto para o bar.”

Depurador de Ar é um Bom Presente?

A mesa de centro deu uma grande demonstração de força. Suportou o peso dos dois por quase uma hora, tempo suficiente para a jovem dona de casa ir ao ápice três vezes. O sofá dado pela avó também foi bastante útil, mas a autora do presente não poderia nunca imaginar as posições em que ele seria usado. A mesa da sala teve também grande utilidade, bem como as suas seis cadeiras. Nenhuma delas escapou ao grande apetite do jovem casal. Quem deu o cabideiro, também conhecido como “mordomo”, não imaginaria que seus braços seriam tão resistentes para suportar pernas. Tamanha era sua atividade que, naquela casa ele foi rebatizado como “bailarino”. Os utensílios de cozinha eram muitos, mas foram insuficientes para as primeiras nove semanas e meia de amor. As bandejas e cha wans acompanharam sushis, sashimis e palitinhos em jogos que, como rotina, adentravam a madrugada, tendo como protagonistas o jovem casal.

Os travesseiros nem sempre serviram às cabeças de seus donos, mas se mostraram macios até nas situações mais difíceis. O aparelho de som, presente da tia mais animada, teve grande utilidade: tocou muita Sade e Amor I Love You. Passaram a fazer parte dessas melodias, gritos deliciosos, que tinham total compreensão dos vizinhos, afinal o prédio era, em sua maior parte, habitado por recém casados. O criado mudo, presente de um antigo cliente da noiva, segurou chantili e outros ingredientes estranhos, mas no quesito discrição, foi sempre perfeito. Eles já haviam feito amor em todos os locais da casa. E a televisão esteve sempre desligada.

Lá pelo sétimo mês de vida em comum o dono da casa encontrou a sua dona fazendo batata frita de tamanquinho e avental na cozinha. Quando ela virou de costas, ele percebeu que, por baixo do avental, havia apenas lingerie, mas não se animou. Ele nem levantava os olhos do jornal.

Ela estava quase perdendo as esperanças para aquela noite, quando confundiu o interruptor de luz e, sem querer, ligou o depurador de ar. O cheiro de gordura foi embora. E aquele barulhinho de motor girando… hmmm… que delícia! Mais uma noite de amor naquela casa!!!

PS: Iara e Celso: Cada um de vocês escolheu uma pessoa deliciosa para casar. Escolhemos nosso presente para ser mais um motivo de amor nesta casa. Parabéns aos noivos!!! Felicidades para sempre.

Guto, Patty e Aniké.

Gafes no Planalto

Este nômade trocou a quinhentista Salvador pela Brasília quarentona e futurista, uma ilha sem turistas, mas onde todos os gastos são pardos – de dia ou à noite. Na capital federal, “pardais” são os “chupa-cabras”, os postes que fiscalizam o trânsito, cuja velocidade máxima é de 60 km/h.

Apesar de uns filhinhos de papai terem queimado um índio aqui – mais um nos anais da impunidade -, na cidade de Brasília todo motorista pára o carro para o pedestre passar. Você põe o dedão do pé na pista e… stop!… pára o motorista.

Pois é, se no trânsito é toda essa civilidade, no elevador ninguém (nem deputado, nem pé-rapado) tem o hábito de dar “boa-noite” ou “bom dia” – tenha ou não tenha mau hálito. Pior: eles também não respondem quando é você que toma a iniciativa.

Sou tabaréu do interior, de onde trago a mania besta de cumprimentar as pessoas a qualquer hora da noite ou do dia. E se na Bahia eu era um cara esquecidiço e desligado, aqui, logo no primeiro dia, peguei um elevador errado (e era justamente o privativo!).

Sou mesmo um azarado, me bati logo com um mangangão (vi que era uma “otoridade”, não pelos seus dois metros de altura, mas pela tintura do sapato e pelo paletozão que o sujeito usava). Ele vinha sozinho, lá no fundo, e eu entrei de fininho, disse “bom dia” com a cara mais lisa deste mundo.

Para meu espanto e perplexidade, o doutor-deputado ficou também de canto, mas respondeu bem educado: “Como vai? Tudo bem?”. Também, pudera!, estamos em período eleitoral… Mas o que importa é que eu, um zé-ninguém, um pé-rapado e cara-de-pau, me senti um ministro de Estado ou o Presidente do Congresso Nacional.

Mais tarde, na hora do almoço, nova gafe – em outro elevador. Vi um antigo colega de Salvador, e perguntei pelo pai dele (meu ex-professor na faculdade). Ele falou, cheio de formalidade:

-Meu pai morreu há seis anos.

Fiquei sem cor, engoli a saliva, procurei um buraco para enfiar a minha cara, um rabo-de-foguete para subir e sumir para todo o sempre. Para tudo, porém, dá-se um jeito, eu pensei. Então, levantei os ombros, estufei o peito e tentei uma emenda ao soneto:

– Morreu para você, que é um filho ingrato. Para mim, ele continua vivinho da silva.

O elevador explodiu em gargalhada. Ele fez cara enfezada, cara de poucos amigos. E com essa graça, logo na chegada, tive a certeza de que ganhei o primeiro inimigo na praça.

Elevador

O elevador de seu prédio tinha a mesma rotina todos os dias. Subia para pegar o homem do 34, que ia trabalhar, a mulher do 31 saia correndo de seu apartamento, desesperada, gritava para o homem: “Peraí! Segura o elevador! Segura, moço! Segura que eu vou entrar!!”. Após descer, o tal elevador era logo chamado para o segundo andar, era a família do 22. Os três meninos iam para a escola e os pais iam trabalhar; “O elevador chegou!” gritava o filho mais velho. Eram pastas, mochilas, bolsas, casacos, sacolas, malas e lancheiras voando elevador adentro. A família se espremia enquanto o elevador subia – eles iam buscar a viúva que morava no apartamento de cima. A velha entrava de nariz empinado e com a coleira de seu poodle no pulso, como uma pulseira. Aquela miniatura de cachorro entrava latindo e mordendo as três crianças que via todo dia, naquele mesmo local, naquela mesma hora, todos os dias… Os seis desciam, havia um aviso na parede: “Este elevador agüenta só 6 pessoas, ou 420 kg”, com aquela senhora robusta lá, será que o elevado ia cair? descia para o 2, para o 1, chegaram. Ufa! Nada aconteceu! Ele, o elevador, depois de um tempo, era chamado pela mulher do porteiro, que subia para o segundo andar para fofocar com a empregada do 23. Ficava parado por alguns minutos, tinha pouco tempo para descansar, até o chamavam no térreo. Era a faxineira do 30 que ia subir para o serviço. No terceiro e último andar, ela encontrava com a patroa, que ia levar a filha ao berçário. Ele descia. O vizinho do 13 saia para ir ao clube, tinha que esperar o elevador subir de novo, pois ele estava parado no saguão. O homem descia. Ah… paz, o elevador podia ficar parado por algum tempo, isto é, quando a senhora do 33 não ia para o super mercado.

Aquele elevador de um prédio de três andares trabalhava sem parar, estava lá desde que construíram o prédio. Um dia, depois de pegar um menino, namorado da garota adolescente do 14, ele se enfureceu e gritou, para si mesmo: “CHEGA!! Essa vida de elevador cansa muito, enjoei, cansei, não vou mais funcionar!!”.

E ele cumpriu a sua promessa, a partir daquele momento, ele parou, desligou…

No dia seguinte, o zelador estava comentando com sua esposa: “Sabe, Jucemara, eu não sei o que aconteceu com esse elevador… ele quebrou de uma hora para outra! Já fiz de tudo, e ele não quer voltar a funcionar…!”. A mulher respondia, surpresa: “Nossa, nunca aconteceu nada com esse elevador antes… o que será que há com ele?”. “Não sei, viu; não sei…”.

O elevador, contente, sorria para o mundo, parado no primeiro andar, com suas portas fechadas, finalmente, paz e silêncio…

Os moradores do prédio começaram a andar de escadas.

Os dedos podiam ficar livres de apertar o botão do elevador e as pernas podiam se movimentar, em vez de ficarem paradas, em pé…

Todos já se acostumaram com a rotina, era um sobe-desce sem parar, mas era divertido encontrar com todo mundo nas escadarias. Estava tudo em paz, isto é, até um dia em que as escadas gritaram: “CHEGA!!”…!

Uma Gelada, por favor

Todos os amigos concordavam que o Caneco era o melhor copo da região. Daí o apelido. Para o Caneco, não tinha desafio: se tivesse álcool, ele topava. Mas, pessoalmente, achava que nada se comparava a uma boa cerveja. A cor, a espuma, o aroma, o sabor, as bolinhas, ah!, as bolinhas! Todo dia, deixava o escritório e religiosamente dava uma esticada no bar do Carlão para matar a sede. Sempre na cerveja.

– Estupidamente gelada!

Encontrava o pessoal, falavam muito sobre um pouco de tudo, e bebiam até cair. Na sexta em que entrou aquele mulherão no bar, o pessoal da mesa do Caneco dedicou uma rodada em homenagem à moça. Mas o Caneco não abriu mais a boca a noite inteira. Ficou só olhando, hipnotizado. Ninguém reparou, e se reparassem não iam dar bola. Conheciam o Caneco. Não era de ficar correndo atrás de rabo de saia.

O Caneco já estava chegando na casa dos quarenta, e ainda era solteiro. Dizia que nunca ia trocar a vida boêmia com os amigos, a cervejinha de cada dia, para ter que ir para casa encontrar a janta na mesa. A verdade é que nunca dera muita sorte com as mulheres. Ainda mais agora. Depois de quase duas décadas de cerveja, o Caneco já virara Barril, e a barriguinha não ajudava muito na hora da abordagem. Mas aquela noite mexeu com ele.

Passou a semana seguinte inteira meio caladão, e a turma começou a estranhar a quietude do amigo tradicionalmente tagarela. Só na sexta-feira é que ele voltou ao normal, depois de sentar na mesa e ver que a mulher da semana anterior estava encostada no bar, acompanhando uma amiga. Achou uma coisa esquisita: na frente dela, um copo e uma garrafa de água tônica. Mesmo assim ficou contente de rever quem lhe tirara o sono por uma semana. Era loira, magra, cabelos longos, uma pele muito clara, aparentava uns vinte e tantos. Comentou com os amigos.

O Caneco estava encantado. Não parou de falar na moça o tempo todo. Aqueles cabelos amarelos, o pescoço branco que ele insistia em chamar de colarinho, a silhueta que lhe lembrava a beleza das curvas de um copo. Era a mulher por quem procurara a vida inteira. Bastante encorpada.

– Só faltava estar coberta de gotinhas!

Decidiu que ia falar com ela. Os amigos acharam graça, e, como todos bons amigos, tiraram um grande sarro da cara dele. Nada disso abalou a determinação do Caneco. Tá certo que ele estava um pouco barrigudo e os fios que ainda não haviam caído já davam sinal de desbotamento, mas se caprichasse na conversa ainda tinha alguma chance. Foi.

Esperou a amiga se afastar e chegou meio sem jeito, e o primeiro contato foi um pouco difícil. Pelo menos descobriu logo seu nome: Fernanda. Descobriu também que ela odiava bebidas e que seu bafo de álcool não estava fazendo muito sucesso. Sentiu a frieza com que ela cortava suas tentativas de iniciar um diálogo, e isso lhe deu calafrios de felicidade. Era estupidamente gelada.

Desse dia em diante, Caneco não pôs mais um pingo de cerveja ou qualquer outra coisa na boca. Sua turma estava chocada, mas o Caneco estava decidido a conquistar a Fernanda. Valeu a pena. Depois de muito esforço e algumas semanas, já estavam íntimos, e ela já estava bem mais receptiva. Começaram a sair. Os amigos tentavam se conformar.

– Trocou uma loira por outra, ué.

O papo do Caneco não era lá essas coisas, mas algo de bom devia ter, porque a Fernanda logo estava completamente apaixonada por ele. O relacionamento do dois foi esquentando, e finalmente ele convidou a garota para o seu apartamento, “tomar um cafezinho”.

No dia seguinte, chegou no bar meio abatido. Os amigos só perguntaram o que ele tinha quando o Caneco quebrou o jejum de um mês e pediu uma cerveja para o garçom.

– Acabou tudo.

Contou a história, e disse que fora enganado. A Fernada tinha ficado quente demais. E o pior de tudo, segundo confidenciou com uma certa melancolia, desiludido:

– Era tingida.

Momento Especial

Já foram escritos inúmeros textos sobre as vantagens de ser solteiro, ou uma contra-parte de como é bom estar namorando. Estou solteiro e gozo de algumas vantagens de sê-lo. Mas existe um certo momento, o qual não dura mais que alguns minutos, em que invejo profundamente todos os “namorandos” de plantão. Apesar dessa importância, nunca a vi descrita ou comentada por nenhum literário, cronista ou autor anônimo de E-mails que circulam pela internet. Todo adolescente deve esperar ansioso para chegar à maioridade e poder apreciar esse momento. Antes que pensem bobagem, eu esclareço de que momento estou falando: aqueles poucos minutos compreendidos desde a hora que você entrega o ticket do estacionamento para o manobrista até a hora que seu carro chega.

Pode parecer bobagem, mas reparem que esse momento é o ápice de intimidade de um casal visto em público (a não ser que sejam exibicionistas, ou que sejam pegos em flagrantes). Nas noites frias a coisa piora. É obrigatório aquele abraço apertado para se aqueceram enquanto o manobrista não encontra seu carro. Companheirismo, comprometimento, cumplicidade e o sexo (ou coito, só para manter as palavras começadas com “C”) são importantes para um relacionamento homem/mulher (nos dias de hoje não necessariamente apenas homem/mulher), mas se for para escolher uma imagem onde se representa tudo o que há de melhor no namoro, não trocaria o momento em que se espera o manobrista com o carro por nada desse mundo.

– Oi. Você também está esperando seu carro?
– Sim, estou.
– Não pude deixar de notar que você não está acompanhada.
– …
– Não, não quero que me entenda mal, mas é que odeio esperar o manobrista pegar meu carro sozinho. É meio deprê, sabe. Olha aí em volta, tá cheio de casaizinhos abraçados esperando o carro. Você não quer ficar abraçado comigo também?
– Olha o respeito! Eu nem te conheço!
– Não, tudo bem, só queria uma companhia para esses poucos minutos, prometo que não tento nada mais.
– É cada um que me aparece, viu?
– To falando sério. Esse momento em que esperamos o carro é especial. Queria compartilhar com alguém.
– Não obrigada. Estou bem aqui sozinha.
– Mas é um momento de pureza. É só ficarmos abraçados, sem pensar em nada, esquecer do mundo, aproveitar esses pequenos momentos singelos da vida.
– Hahaha, desculpe, mas essa foi a cantada mais furada que já ouvi.
– Mas é a maior prova de amor que alguém pode dar!
– Fico lisonjeada, mas eu passo.
– Estou sendo sincero, troco tudo que tenho por um momento desses!
– Desculpe, mas meu carro chegou, fica para a próxima, ok?
– E que tal apenas uma noite de sexo descompromissado?
– Ufa, eu pensei que você nunca ia perguntar. Vamos no meu carro ou no seu?

Da série “Quem Não Morre Não Vê Deus” – O Parto

As contrações continuam no ritmo normal. A gestação incomoda um pouco. Já se passou o tempo ideal de gestação. Eu não agüento mais a expectativa, mas ela não vem. Talvez eu tenha que partir pra cesariana … Ou tentar o suicídio!

Toda vez que espero um filho é assim!

Sinto uma pontada no estômago, será que é agora?! Talvez seja. Me lembro da respiração cachorrinho. 1,2 …. 1,2 … 1,2 … Ai! Mais uma pontada!

O grande medo neste momento é a perda. Não posso perdê-la justo agora. A perda já foi inevitável em casos bem mais simples.

Começo a me preparar para o grande momento, tanto tempo esperando, e quando chega a hora a gente nunca acha que está pronto: 1,2 … respira …. 1,2 … inspira…

Ela já está saindo, isso não posso mais negar. Mas como será?! engraçada, triste, legal, chata … Ai!! Cachorrinho, cachorrinho ! Au! Au … 1,2 … vai logo, droga!

O pior é que sempre estou sozinho nessas horas. O olhar atento de outra pessoa sempre pode ajudar num momento desses.

As contrações aumentam … Acho que agora é fase mais crítica, o clímax! Ah! Tá doendo ! 1,2 …1,2 !!

Aqueles que tentaram segurar esse momento por muito tempo acabaram se dando mal! Não vou cair nesse erro. Vai! vai!

Já está acabando, só falta o finalzinho. Outro momento perigosíssimo. Aliás, muitas vezes broxante!

Olho pra cima, seguro o seu pezinho recém-nascido. Reconheço que não é das melhores, mas também não acho a pior das que na minha frente. Há sempre um pouquinho de emoção nesses horas. Minha filha!

Agora só falta chorar e aí estará viva, correndo o Mundo e provocando reações que nunca poderei imaginar. Vai filha, vai que eu continuarei aqui com meus olhos de criador, orgulhoso e feliz, e com a sensação de dever cumprido!

P.S.: A série “Quem não morre não vê Deus …” sempre trará crônicas criadas num momento de “branco” total, onde qualquer coisa que me passe pela cabeça se tornará o tema.