Arquivo de setembro, 2002

Meu Último Pedido

“Pode se assustar mesmo. É isso que você está pensando. Está é minha carta de despedida, um clichê do suicídio comum. Mas sendo eu um homem comum, nada mais justo. Só tenho um pedido, que pode ser realizado após minha morte, mas não antes do meu enterro. Algo produtivo, prometo.

Você deve estar se perguntando por que eu me mataria. Afinal, eu sempre fui muito feliz, nunca aparentei depressão e sempre aproveitei a minha vida, quase numa filosofia de carpe diem. Bebi, fumei, namorei, estudei, trabalhei e bebi de novo. Não há motivo aparente, é verdade. Porém, os que não podemos enxergar são os piores.

Eu bem que entendo porque os japoneses se suicidam muito. A gente sempre escuta: “”eles são loucos””, “”não lidam bem com o fracasso”” e outras coisas mais. O problema, na verdade, é que o japoneses estabelecem metas e punições. Ou eu faço isso, ou me mato. Ou passo na prova, ou me mato. Nunca vou ser instalador de telefone. A teoria se fecha quando constatamos o compromisso desses indivíduos com essas metas. Eles fracassam, eles se matam.

Comigo foi a mesma coisa. Consegui muitas coisas boas na minha vida. Minha família, a que eu faço parte e não criei, é ótima. Não há do que reclamar. Tenho muitos amigos, são ótimos, divertidos, inteligentes, quase irmãos. Nesta área também não tenho do que reclamar. No campo do dinheiro, tenho muito mais que muita gente, mas tenho muito menos do que gostaria. È difícil conviver com isso. No campo do amor, o fracasso é total. Não consigo entender as mulheres. Impossível.

Pois bem. E se eu disser que ter muito dinheiro e entender as mulheres são metas claras na minha vida? Isso explica muita coisa. Esses dias eu parei para pensar. Será que vou ficar rico? Não. Um dia, quem sabe, quando eu tiver 100 anos, vou entender as mulheres? Não. Para que viver, então?

Minhas metas se tornaram distantes e perdi minha motivação. A paciência já havia perdido há algum tempo. Não tenho mais nada a dizer. Espero que você não esteja chorando, odeio gente que chora.

Finalmente, por favor, publique está crônica, a última.”

O Neocomunismo

– Salve, companheiro Marcos!
– Salve, meu camarada.
– Uma dose?
– Hoje estou afim, pede duas logo.

A conversa segue sem muitas novidades e como sempre acaba em futebol, mulher ou política. E foi assim que surgiu a questão.

– … porque o que realmente falta ao comunismo é uma releitura. Do jeito que estamos acostumados a aprender, ninguém aceita mesmo. Mesmo porque, quem ensina são esses filhos do capitalismo selvagem!
– Apoiado Inácio! Precisamos revisar e reescrever o que seria o comunismo hoje. A única referência que nós temos é de uma época ultrapassada, que já não faz mais sentido.
– Pois é. Por exemplo, esse negócio do Capitalismo ser uma fase preparatória, anterior e obrigatória para se chegar ao comunismo. Pra que subjulgar os capitalistas? Pra que criar inimizades? Nunca se sabe o dia de amanhã, não é mesmo!
– É verdade, precisamos aceitar mais “o outro”.
– Apoiado camarada. No Neocomunismo – vamos chamar assim, ok? – “o outro” terá prioridade!
– Chega de revoluções. Vamos propor uma coisa mais plausível e paulatina pra ganhar adesão daqueles que ainda temem “os comedores de criancinhas” (não respondo por padres e afins).
– E a propriedade privada? Você acha que a gente mexe nela?
– Acho melhor não, camarada. Isso sempre foi um ponto fundamental no Comunismo antigo.
– Mas no Comunismo antigo eles não defendiam a propriedade privada.
– Como eu disse: acho melhor a gente não mexer nela.
– …
– …
– Afinal ela é privada.
– E é propriedade.
– Companheiro Marcos! Como nós faremos com as classes sociais, os mais ricos e os mais pobres!?
– Bom, a minha primeira idéia é criar uma unidade real de vida, a URV. Ela funcionará como uma espécie de transição fictícia para aqueles que tiverem que se adaptar a uma nova situação. As pessoas se adaptam e com o tempo tudo se resolve.
– URV! …………gostei dessa solução!
– Pois é como você disse: “o que realmente falta ao comunismo é uma releitura.”

Medo de Crônicas

Boa noite, boa noite, boa noite, ai amigos! Esse estranho medo de crônicas parece me contagiar! Há meses não consigo escrever e por pouco não me associei aos crônicas anônimos reunidos! Meses e meses sem escrever e cada segundo que se passava, quilos e quilos a mais em minha consciência.

Aquela famosa frase “”e as suas crônicas”” não saia de minha cabeça. Pensei seriamente se precisava pedir ajuda, procurar um pai de santo ou até mesmo fazer simpatias.

Não havia meios de vir uma idéia em minha cabeça. A rejeição sobre tudo e todos os temas me acanhava e me assustava. A força “”acrônica”” parecia ter tomado conta de minha vida, quando percebi que tudo poderia ser superado e reconstruído.

Um dos pontos fundamentais para essa “”virada”” foi uma festa que fui no último Sábado. Quando já parecia estar tudo perdido a luz foi reacendida! Estava numa discussão aonde o tema era “”Cronistas Reunidos”” e, a noiva de um amigo falou que conhecia um tal de Paulo Coelho. Me surpreendi. Depois citou um tal de Murilo. Ai caramba, me surpreendi novamente! Não faltaram também nomes como Volponi e Leopoldo!

“”Ai, não é possível, eles existem mesmo!””, Pensei. Tudo começou a ficar muito confuso e passou a ficar claro quando eu percebi que eu também fazia parte desse grupo. Foi nesse momento que percebi que a força existia, e estava comigo novamente! “”Eu sou um deles!””

Como a adrenalina ainda estava em meu sangue, e a incerteza também, resolvi “”cutucar”” toda essa mistura de força com existência e fui dormir, afinal de contas, tudo parecia ser um sonho.

Acordei sorridente, feliz e surpreso! Foi então que percebi… que ‘Os Cronistas Reunidos mudou a minha vida””! E graças aos cronistas, eu sei de muita coisa e com certeza, isso mudou a minha vida!

O medo finalmente passou, o meu sangue voltou a circular com força de um cronista e o mais importante, eu continuo existindo! E qualquer um, que duvide da minha existência , pode ter certeza, que se não me conhecer ou me reconhecer como cronista, irá me conhecer em seus sonhos! Isso mesmo, já sei como entrar neles!

Bom, isso foi só uma reapresentação, rapidamente, surgirão, crônicas!

Papo de Trabalho

Eles trabalhavam juntos. Ainda não eram amigos de longa data, mas já se davam muito bem. Como não faziam parte da massa trabalhadora de salário fixo, trabalhavam quando tinham trabalho. Dia da semana ou feriado, horário comercial ou madrugada, enfim, qualquer hora era hora.

Muitas vezes, as madrugadas eram cenário de seriíssimas discussões filosóficas, políticas, religiosas, sexuais, e de qualquer tipo que os interessasse. Eles realmente gostavam de conversar.

A televisão ligada nunca atrapalhava os papos de madrugada. Pelo contrário, servia de como uma “juke Box”, que jogava, aleatoriamente, temas para a discussão.

Numa noite dessas, eles assistiam um jogo de tênis de um famoso jogador brasileiro e a câmera (como andam fazendo em todos os jogos)freqüentemente focava a apreensiva mãe do competente tenista, entre todos os intervalos de pontos, games e sets.

Nesses momentos, no canto superior esquerdo da tela, sempre aparecia uma belíssima jovem, de cabelos loiros, e um rosto tão belo, a ponto de um deles empurrar a tv para esquerda, na frustrada tentativa de centralizá-la no quadro.

Depois de um longo e atento silêncio um deles disse:

-Esse cara é um sortudo!
-Por quê?!
-Olha lá! Olha a mina do cara!
-Imagina, ele namora aquela modelo famosa, sabe ?
-Eles não tinham acabado?
-Que eu saiba não …
-Parece que uns jornalistas viram ela com outro cara numa balada.
-Sei lá …
-Pois é, e agora ele está com essa gracinha aí!
-Imagina! Você está louco.
-Claro, olha lá!
-Não dá, o câmera só enquadra a mãe do cara, a mina quase não aparece inteira. Deve ser viado, esse desgraçado!
-O tenista?
-Não, o câmera!
-Só !
– …
-Ela é um show.
-Deve ser prima dele.
-Prima?!
-É, e como ele quase nunca joga no Brasil, ela aproveitou para ir vê-lo jogar, junto com a tia.
-Nem a pau! Ela não é a prima dele!
-Então é a irmã!
-Você acha que a Playboy já não teria chamado ela para um ensaio se fosse irmã?! Olha lá!
-Não consigo, câmera viado! Vai ver que ela é uma menina de família e não toparia um ensaio nua.
-Então a Trip, VIP, ou até AUDI Magazine já teriam chamado. Hoje, qualquer menina de família posa nessas revistas.
-Só pode ser prima!
-Como assim?!
-Olha a cara dela, o jeito que ela mexe o cabelo!
-Que é que tem?
-Típico mexer no cabelo de prima vendo o primo jogar tênis…
-Nunca! Prima de tenista não mexe o cabelo assim! Isso é mexida de cabelo de namorada, olha só!
-Não deu, o câmera cortou a cara dela no meio, viado! Mas se não é prima, é uma vizinha, ou uma amiga de infância que vê nele um irmão.
-Se é vizinha, ele já comeu!
-Você está louco!
-Olha lá !
-Esse filho da mãe do cinegrafista não me deixa, porra! Mas que é prima é prima!
-Me dê um argumento plausível provando que ela é prima.
-Se o câmera mostrasse ela inteira você veria, é que eu vejo essas coisas de longe, pra bom entendedor meia prima bast…
-Ah! Vai te catar!!
-Cara, vai por mim, é prima, agora dá pra ver, olha o pulinho de comemoração do break point … Falei! Só podia ser prima!
-Típico pulinho de não-prima! Nenhuma prima pula assim …
-Você não entende nada de prima de tenista pulando!
-E você entende?!
-Bem mais do que você, pelo visto!

Entram os comerciais.

-Viu ?
-Fala …
– Tou com uma baita fome. Vamos pedir uma pizza?
-Beleza!

E assim seguiram estes bons amigos, por muito tempo, entre pizzas, primas e brigas, conversando durante o trabalho.

Bolsa

“Um dos objetos mais misteriosos do mundo é a bolsa de uma mulher. Vamos considerar aqui, bolsa, aquela que está sendo usada, afinal cada mulher tem umas 5 pelo menos. Não sei quem nasceu primeiro, a utilidade ou a carga estética que a bolsa leva. Independente disto, a segunda foi a que sobreviveu e dominou o imaginário feminino.

Afinal, para que serve a bolsa, pergunto eu ingenuamente?
– Para combinar com o cinto e com o sapato, ué.
– Como assim? Não é para carregar coisas?
– Não, também, digo, é…. pode ser.
– Ou é ou não é?
– Tá bom, tá bom, não é!

Pois veja só esse testemunho feminino. É possível. Tudo me faz crer que os fabricantes mundiais de sapato e cinto estão por trás dessa manipulação macabra. De alguma forma, eles enviam mensagens subliminares para as mulheres durante toda sua vida. Dessa forma a reação imediata à compra de uma bolsa nova seria:

– Preciso de um cinto e de uma sapato para combinar.

Logicamente, elas sempre compram bolsas que não combinam com o estoque atual de 50 pares de sapato e 35 cintos. Mas como eu não acredito em conspirações, vou ter que achar outra teoria.

Se nós olharmos para o lado amoroso da coisa, a bolsa, é nada mais nada menos que mais uma das características das moças para atrair os rapazes. Como assim?

– Ficou com ela? É gatinha?
– Não!
– Como não?
– Não usa bolsa.
– E daí?
– Onde você acha que eu vou colocar o som do carro, o celular, a carteira (sem cartão de crédito) e outras bugigangas. Nem pensar.

Pois é, e não é que a bolsa passa a ser de uso dos homens?! Algo me diz que a teoria amorosa é mais válida que a da conspiração. Existe apenas um furo, não posso afirmar que a motivação principal para o embelezamento feminino, sejamos nós homens. Afinal, as mulheres se produzem para competir entre si. Difícil de dizer. Porém, a pergunta fica guardada para outra crônica.”

Manual do franco-atirador

Veríssimo já escreveu sobre o falso entendido que só fala jargões ininteligíveis (“isso é problema do hedge overnight”). Também sobre aquele que parece ter informações privilegiadas (“isso é o que você pensa”), mas que no fundo não sabe nada. Já se falou até daquele metido a historiador (“o preço da batata pode ser explicado pela minha teoria da insuficiência renal de D. Pedro I”). Nunca ninguém falou sobre o franco-atirador. Mas eles já têm até um manual de conduta.

Primeiro: um franco-atirador não pode ter medos. Frescura não faz parte do seu vocabulário. Indecisão, tatibitate? Fora. Um bom franco-atirador sabe o momento certo de disparar o seu petardo, independente da situação:

– Essa cara morreu foi de nevralgia. Percebe os olhos?

Não, não estamos falando aqui de um daqueles malucos que saem atirando contra qualquer um nas guerras civis. Não é a mesma coisa, mas é parecido. Os alvos são iguais. Os motivos, idem. E quero ver alguém provar que um tiro de escopeta é mais perigoso que um palpite bem aplicado:

– Isso eu lembro da época da faculdade. É só igualar o “x”. Dá certo.

Segundo: o que importa é passar uma informação de forma consciente, verossímil e, acima de tudo, defensável. Não precisa ser verdade. Mas o franco-atirador deve acreditar naquilo que atira, mesmo que a capital da Turquia seja Ancara:

– A capital da Turquia? É fácil: Istambul, que meu professor de história insistia em chamar de Constantinopla.

Terceiro: um franco-atirador não pode deixar dúvidas sobre a qualidade de seu tiro. Deve-se embasar cientificamente tudo aquilo o que se atira. Ou quase embasar, o que dá no mesmo:

– Corredor? Vem de co-rredor. Se você prestar atenção, vai perceber que tudo o que tem “co” significa “junto de”, “a par de”, por exemplo, colateral, co-responsabilidade. Já “redor” se aproxima do inglês “ride”, que significa nada mais nada menos que “correr”. Então, no fundo, um corredor é alguém que “ride” junto com outras pessoas. Certo? Portanto, um co-rredor. Entendeu? É etimológico.

Quarto: o franco-atirador deve estar preparado quando o tiro errar o alvo. No caso improvável de ser pego atirando pro lado errado, a retaguarda deve estar sempre protegida:

– Ah, mas eu sabia que a data final de entrega terminava com 4… pelo menos, isso, né?

Quinto: só em último caso, deve-se tentar o chute. Mas o bom franco-atirador sabe o quanto isso é arriscado. É o fim:

– Sabia que você dança muito bem?
– Que nada, é você quem está me levando, um verdadeiro dançarino profissional…
– Imagina… não sou assim nenhum Zubin Metha, mas gosto de dançar.
– Zubin Metha… Zubin Metha… ele não era maestro, ou algo assim?
– Não, Margarida, com certeza é dançarino e…
– Ahn!? Margarida? Meu nome é Rosa!
– Ah, desculpe, mas é que é tudo nome de flor mesmo…
– Tudo bem, normal.
– Que bom. Então, o Zubin Metha em 98…
– Seu cretino!

Presunto

A turma se juntava para falar da vida mais ou menos todas as semanas. Já era um evento semi-tradicional, apesar da sua periodicidade não ser lá grandes coisas. Reconheciam o fato, mas se defendiam dizendo que uma vez marcada a reunião, a reunião estava marcada. Ninguém podia faltar. Até porque senão a noite não seria completa. É que o acordo era que quem cedesse a casa não precisava se preocupar com mais nada. As comidinhas e bebidinhas eram responsabilidade dos visitantes. Eles decidiam os itens da lista e a sua divisão.

Desta vez o encontro era no apartamento do Aurélio e da Bete. O Beto e o Rafa chegaram com o vinho, a Jô com mais um namorado novo e umas azeitoninhas e o Tonho com o gelo. Sempre deixavam o gelo para ele levar de sacanagem. Diziam que ele já estava acostumado, já que era o único que sempre aparecia sozinho. Só estava faltando o Deco para completar o cardápio. Como a falta dele significava uma ausência importante – a da comida – ele era o assunto. Ficaram ciscando em volta do tema um tempo, mas finalmente a Bete fez a pergunta que todo mundo queria fazer.

– Será que ele vem?
– Tem que vir – retrucou o Aurélio – Ele sabe que quando a gente marca, tá marcado! Ninguém fura.
– Mas e se ele furar ?
À pergunta do Beto se juntou a observação da Jô:
– É. Afinal, ele não é de se atrasar. Pelo contrário, o cara é maníaco com horário.
O Tonho, abrindo o vinho, foi direto ao ponto:
– Se ele não aparecer vamos ter que sair para comprar alguma coisa. Ou pedir uma pizza.
– Opa, pizza, não!

A discussão agora era entre o Aurélio, o Beto, o Tonho e a Jô. Eram eles, mais o Deco, a formação original. A Bete e o Rafa já tinham uns bons anos nas costas, mas sabiam que quando a conversa começava assim era melhor dar uma de agregado mesmo e ficar de fora.

– O pior é que ele se ofereceu para trazer a comida. Sacana. Podia ter avisado que não vinha, a gente se virava.
– Calma, Beto, ele não vai deixar a gente na mão. Ele vai aparecer e vai trazer a comida. Aposto. – O Rafa não se conteve:
– Sei… Será que ele vai trazer mais alguma coisa?

A maldade na pergunta não passou despercebida. Aliás, o Rafa fazia questão que as maldades no que ele falava não passassem despercebidas. E morria de satisfação quando elas incendiavam o ambiente. O Beto ainda ensaiou uma censura, mas era tarde demais. A Jô já tinha se animado.

– É mesmo. Será que dessa vez a Cris vem?
– Faz tempo que ele não aparece com ela, né? Acho que nem lembro quando foi a última vez.
– Deixa eu ver…. No nosso último encontro ela não foi porque tinha viajado para um congresso. E no outro, porque estava trabalhando até mais tarde.
– Isso. No aniversário da Jô ele também apareceu sozinho. E no jantar do Rafa e do Beto, ele disse que a sogra não tava muito bem e que ela precisou ficar com a mãe. Acho que a última vez que encontramos com a Cris foi na reunião na casa deles, né, amor?
O Aurélio confirmou – A Bete tá certa. Foi aquela vez mesmo… Isso tem o quê, uns dois meses?
– Por aí – concordou a Jô. E continuou – Engraçado… Agora que me toquei…. Nem no telefone eu falei com ela. Toda vez que eu ligo ou é o Deco que atende ou cai na secretária eletrônica….
Todos concordaram. Não tinham reparado antes, mas pensando bem, era verdade. Fazia dois meses que ninguém sabia da Cris. Quer dizer, sabiam o que o Deco contava. E ele não andava ele mesmo nos últimos tempos.

– Esquisito…. O que será que está acontecendo?
– Deve ser uma daquelas crises que todo casal tem de vez em quando.
– Não pode ser. Se fosse, alguém aqui saberia. É outra coisa.

O clima estava ficando cada vez mais carregado. Então, para desanuviar o ambiente, o namoradinho da Jô resolveu descontrair:

– Hum…. O cara estranho, a mulher sumida… Diz aí, quem sabe ele não deu um jeito nela, hein?

Ninguém riu. Ficaram quietos, se encarando, até que a Bete, de novo, falou o que todo mundo estava pensando:

– Será?
– Bom, ele é todo metódico, certinho. Vivia com a Cris para cima e para baixo. Aí, sem mais nem menos, só aparece sozinho, começa a dar umas desculpas que dá licença…
– Ele sempre foi ciumento… –
O Tonho resolveu emendar o comentário do Beto
– E não é de estourar fácil, mas quando estoura, é melhor sair da frente. Perde a cabeça mesmo, todo mundo aqui sabe.

Todos olharam para o Aurélio, que além de ser o amigo mais antigo do Deco era uma espécie de oráculo. Vira e mexe ele soltava umas previsões e umas análises completamente tortas que acabavam acontecendo mesmo. Encurralado, sacou uma citação:

– “Eliminadas todas as possibilidades, a que restar, por mais improvável que seja, é a verdadeira”

A sala mergulhou num silêncio grave de novo. O Aurélio tinha razão. Não tinha outra explicação para a mudança do Deco. Ele matou a Cris e deu sumiço no corpo. E estava evitando todo mundo para despistar. Vai ver ele até estava arrependido, morrendo de culpa pelo que fez, certamente num acesso de fúria cego. Mas o que ele podia fazer? Agora tinha que acobertar o acontecido, arquitetar o desaparecimento da Cris, afastá-la da sua vida aos poucos. Aí, um dia qualquer, passado tempo suficiente, ele vai chegar para todo mundo e dizer que acabou, que ele e a Cris se separaram. A coisa não vinha bem, eles tentaram, deram um tempo, mas no fim não teve jeito, cada um seguiu o seu caminho. Será que ele veria nos olhos deles que eles sabiam? E agora que eles sabiam, o que iam fazer? Não podiam denunciar o Deco. De repente até foi legítima defesa, vai saber. A coisa ia por esses rumos quando alguém se dispôs a ser a voz da razão.

– Duvido que ele tenha matado a Cris… Acho que teve só uma uma crise de ciúmes ou coisa do tipo e está mantendo ela em cárcere privado. Faz mais sentido, nao faz?
– Ah, é? Mas e aí? Se ela escapa, acaba com ele. O Deco até pode ter prendido a Cris um tempo, mas cedo ou tarde ia ter que se livrar dela…. Pensa só, ela presa, ameaçando denunciá-lo quando escapasse… Não tem outra saída….
– A gente está falando do Deco, pelo amor de Deus! Tudo isso é um absurdo! – protestou o Beto. Os outros ficaram mudos, e aquele “será?” ficou no ar.

Nesse momento tocou a campainha. Era o Deco, em pessoa. Ele estava sorridente, relaxado, mas não parecia contente. Entrou com uma peça de presunto defumado debaixo do braço se desculpando pelo atraso. Enquanto ele acomodava o presunto na mesa, a Bete foi buscar uma tábua e uma faca. Assim que o Deco começou a fatiar, o Rafa perguntou da Cris.

– Ela não vem – respondeu seco, mas com a voz meio embargada.

11 por 7

Estou ficando velho. E não adianta fazer essa cara de “Mais uma crônica sobre esse assunto” pois você sabe o quanto essa questão aflige os cidadãos com mais de 20 anos.

Semana passada tive dias atarefados. Principalmente no hospital. Calma, não aconteceu nada comigo. Justamente pra isso estava lá. Fui fazer exames. Exames de velho.

Ressonância magnética, Mapa de pressão arterial e o tradicional exame de sangue.

Comecei pelo exame de sangue. Vejo que estou velho desde esse momento pois eu não estou com medo, afinal isso é uma coisa praticamente normal para mim. Sinal dos tempos. Sento e aparece a enfermeira. Ela tem a minha idade. É menor do que eu também. As agulhas também são menores e flexíveis. Não que eu esteja reclamando delas serem menores (as agulhas não as enfermeiras) mas isso tudo indica evolução. E eu aqui, olhando para meu braço. Ela diz que achou minha veia. Eu penso: “Aonde?”. Ok. O sangue começa a sair e é depositado em tubinhos multicor. Tudo esterilizado e descartável. Ela deixa uma pulsão no meu braço. Até então nunca tinha precisado de uma, nem ao menos sabia o que era. Mas todos sabemos. É aquele negocinho onde os atores-médicos engatam o soro nos filmes-hospitais.

Próxima parada, ressonância magnética. Uma palavra que no máximo me lembraria uma propaganda da Amil agora é meu destino.

Coloco uma meinha ridícula que parece de papel e um avental que com certeza é uns 3 números menores que o meu e vou para a prancha. A outra enfermeira que também é mais nova do que eu me diz que durante o exame não posso engolir saliva. Eu penso: “Isso é impossível”. Onde está o maldito sugador nessas horas? Entro na máquina e logo percebo que aquelas propagandas da Amil eram mentirosas. Aquele tubo não é um lugar agradável e muito menos espaçoso. Eu sou uma sardinha.
Descubro de onde surgiram as músicas tecno. Com certeza de uma aparelho de ressonância magnética. Sons eletrônicos, repetitivos e extremamente ALTOS.

Agora estou chegando ao fim. Da linha. Mapa de pressão arterial. Ok. É só um aparelho.
Medição de 15 em 15 minutos. Ok. Estou almoçando o aparelho funciona. Meu braço é esmagado.13 por 8. Estou no carro. Funciona. Esmagado. 13 por 9. Escritório. Esmagado. 13 por 8.

Vou dormir.

Estou na cantina do meu antigo colégio. Estou pelado. Todas as outras pessoas estão vestidas. O bedéu aparece horrorizado, tento explicar para ele que sempre tenho esse sonho mas ele nem presta atenção, me pega pelo braço. Esmagado. Cama. Esmagado. 14 por 9. Durmo de novo. Esmagado. 12 por 8. Esmagado. 12 por 8. 11 por 8. 11 por 7. 11 por 7.

Criatividade tem limite

Eu tentei, mas não consigo mais esconder. Eu já não consigo, mais, pensar em nada engraçado. Na verdade eu até consigo pensar mas escrever já não dá mais. Talvez seja a síndrome da criatividade. Sempre ouvi falar mas nunca acreditei. Pra mim, era tudo papo furado de publicitário decadente; imagina, de uma hora pra outra você começa a se achar pouco criativo e começa a realmente tornar-se aquilo que mais teme ser: pouco criativo.
Por mais que eu tente contar uma história qualquer não sai nada realmente engraçado; nem um pouquinho engraçado, eu posso chamar. Ultimamente eu só tenho pensado em catástrofes ou papos muito sérios e consequentemente ……….

– Caramujos!

….. consequentemente eu escrevo sobre pensamentos filosóficos, sobre a vida e a morte, sobre a existência humana. Não que eu escreva bem, ou tenha um raciocínio lógico maravilhoso, mas como pauta, só saem coisas sizudas, assuntos de natureza complexa. Eu tentei escrever sobre o Pum. Tem coisa mais banal e terrena que o Pum? Acabei enveredando por um lado totalmente metafísico do gás e acabei falando do sincretismo cultural da …….

– Onde estão os Caramujos!?

O caso é que eu estou ficando – realmente – preocupado com a minha capacidade. Acho que estou passando por uma fase de depressão na qual o meu superego inibe o meu, blábláblá …….. a quem estou querendo enganar?
Bom, o mais difícil é começar a escrever e isso eu já fiz, pelo menos, até agora. Mas sempre tive problemas com finais. Se o texto fosse bem-humorado teria um final surpreendente que faria as pessoas acharem graça e rirem da improbabilidade do fato, do fim. Mas até pra isso eu estou com dificuldades. Veja só você, não consigo começar um texto engraçado e quando consigo começar um texto qualquer não consigo achar um fim imprevisível que seja cômico ou inesperado. Acaba que eu tenho que fechar com conclusões burocráticas e abertas – e portanto, não concluem nada – sobre o devir e a ………

– Mas que droga! Cadê os Caramujos!?

…. a insensatez das coisas. Tema muito preocupante que afeta milhares de jovens em início de carreira ……. ah!!!! estou fazendo de novo ……. droga. Para terminar eu podia, mesmo, simplesmente escrever fim e acabar com toda essa coisa de texto bem feito, bem amarrado, coeso ou coisa parecida. Simples: Fim. Será que alguém já pensou em fazer isso …….? Quando chega o fim da história você só precisa dizer fim, a história é sua mesmo. Mas eu queria algo mais inesperado pra tentar sair da banalidade dos textos que tenho visto – lido.

– Mais que droga! Onde é que estão meus Caramujos? É tão difícil comer nesta cidade ……..

A Sétima Arte

Entre todos os grandes inventos do século passado, o cinema talvez tenha sido o que mais alento e esperança trouxe à vida de muitas pessoas. Porém uma coisa é certa, foi sem duvidas o que mais glamour e fantasia trouxe ao cotidiano delas. Sua popularização se deu de modo vertiginoso. As salas de exibição se multiplicaram por todos os cantos desse Brasil. Toda cidade, vila ou vilarejo que se prezasse, tinha que ter seu próprio cinema. Entre as décadas de 40 e 60 ir ao cinema, mais que um simples entretenimento, era um programa “chic”, culto, para o qual as pessoas se aprontavam como que para ir a um baile ou à missa de Domingo. Para muitos era quase um sonho conviver, mesmo que por alguns momentos, com os ícones sagrados de Hollyhood…
Nessa época, Orlando Pereira, então um jovem carismático que exercia incontestável liderança em Jacuí, sua terra natal, empreendedor nato e já possuidor de um vasto patrimônio, decide que já era tempo de Jacuí possuir também seu próprio “cinema”. Entra então em contato o Sr. José Figueiredo – o popular Zé Magro – o mais renomado e experiente empresário de cinema que nossa região já teve.
– Sr. José, já passa da hora de Jacuí ter um cinema. Tenho certeza que vai ser um sucesso por lá… Mas como é uma coisa nova, eu não entendo nada disso não!
– É coisa à toa, Orlando! É só arrumar uma sala, uma maquina pra passar a fita, fechar as janelas e exibir o filme!
– Isso eu imagino sô Zé, mas e essa máquina e essa tal fita? Onde é que eu arranjo isso? Pelo que sei, isso vem é do estrangeiro…
– Fácil! Arranja comigo mesmo. Eu lhe arrumo a maquina, contanto que o senhor me alugue os filmes e pelo menos um seriado a cada seis meses…
Sim, pois naquela época era praticamente obrigatório passar, como uma novela, um capítulo de algum seriado após a exibição do filme em cartaz.
Assim, de um modo muito mais fácil que Orlando Pereira pensara, o negocio foi logo fechado, e ficou combinado que daí a 2 semanas o Sr. José Figueiredo lhe enviaria uma lata do filme do seriado e outra do filme em cartaz propriamente dito.
Foram 2 semanas de expectativa intensa. Em Jacui não se ouvia outra prosa que não fosse a abertura do cinema. Especulava-se de roda em roda qual seria o filme, e quem seria o artista a estar em Jacui pela primeira vez: “Vai sê um cobói de lascá, e o mocinho vai sê o tar de Jonvaine” – diziam uns. “Que nada, ouvi dizê que vai sê firme de amor com uma tar de Dilamar” – diziam outros.
Enfim, chega o grande dia, ou melhor, a grande noite. Era uma noite de sábado e os ingressos já estavam esgotados. Só quem levasse sua própria cadeira e se acomodasse em algum canto da sala poderia conseguir alguma entrada extra. Mesmo assim, as “vagas” eram muito limitadas custando o dobro do preço.
Num tabuleiro fixado na parede do cinema foram colocados dois cartazes. Um anunciando o filme do dia: “Sangue e Areia”, com Tyrone Power e Rita Hayworth. E outro anunciando o seriado: “Buck Jones – o pistoleiro misterioso”.
Na sala de projeção a correria era enorme, ninguém ainda entendia direito o funcionamento daquela geringonça, mas com jeitinho, no horário marcado tudo parecia estar em ordem, e às 7:00 horas da noite a exibição do “filme” se inicia…
Domingo, 7:00 horas da manhã, o sino da igreja não parava de tocar. O padre, impaciente, indagava as beatas pelo paradeiro dos fieis. Até que do outro lado da praça, saindo do cinema, começa aparecer gente bocejando, olhos vermelhos, cabelos atrapalhados, cadeiras sendo carregadas… Enfim, de tão surrealista, a cena faria arder de inveja o mais criativo dos cineastas. Porém, assunto era o que não faltava entre os agitados tresnoitados:
– Uai, mais aquele tar de Buquijonis é danado memo sô! Cê viu a hora qu’ele acertô o bandido bem no meio dos óio?
– E a hora daquele tiroteio? Ieu inté iscondi por di tráis das cadera! Cruiz credo, ave Maria sô!
– Eu gostei memo foi da hora qu’ele sarvô a mocinha… Num fosse a intiligença dele, unha hora dessa a coitada tava mortinha, mortinha…
– Êh trem bão esse negóço sô! Ieu num saía daquela sala in antes di terminá o firme de jeito manera!
– Aqui, mode que nem num carecia desse firme ser tão bão assim… Eta firminho cumprido esse sô!!!
Foi a gafe mais bem sucedida que se tem noticia até hoje. Ao invés do filme em cartaz, foi exibido, de uma só vez, todo o seriado do Buck Jones. Assim, por um longo tempo, “BuquiJonis” foi o herói mais querido (e temido) em toda aquela região…