Arquivo de outubro, 2002

Esquisitices

— Cara, agora eu me superei.
— O que é que foi?
— Eu não consigo acreditar em mim mesmo. Devo ter batido algum recorde.
— Fala!
— Acabei de comer tempurá depois de um acarajé.
— Não!
— Sério.
— Mandou bem… mas não ainda não conseguiu me ultrapassar. Eu sou muito mais esquisito do que você.
— Duvido.
— Você já almoçou comigo?
— Não, não que eu lembre.
— Pois quando almoçar, prestatenção. Veja se eu como a salada antes ou depois da sobremesa.
— Há!
— É.
— Antes?
— Exatamente. E sem tempero.
— Peraí. Salada sem tempero? Nem um salzinho?
— Nada. Nadinha. O limão até fica morrendo de vontade, mas passa longe do meu prato.
— Impressionante… Tudo bem, e eu, que fui ao cinema vestido de FBI? Com crachá oficial e tudo.
— Que mico! Como foi isso?
— No meio do shopping. As criancinhas apontavam para mim. Foi divertido. “Olhalá, mãe, o moço vai me prender! buáaaa…”.
— Brincou.
— É verdade. Pré-estréia do Arquivo X.
— Aaaahh bom… então tá explicado. Mas assim, também… até eu!
— Mas eu fiz. E é mais esquisito que essa sua salada.
— Mesmo assim, há uma coisa que me faz ganhar de você.
— Conta.
— Acho que você nem vai acreditar. Vai pensar que eu inventei, sei lá.
— Fala, eu acredito.
— Lembra do Mussum? Dos Trapalhões?
— Ãhn.
— Eu fui no enterro dele.
— Ããhn?
— É. Quando eu tinha 8 anos, o Mussum morreu e foi enterrado perto de casa. Foi um evento e tanto.
— Ãããããhhhnnnn?
— Eu chorei muito, ele era o mais “legalzis”.
— Não acredito.
— É sério.
— Não, não pode ser.
— É verdade!
— Pára!
— Estou falando sério. Fui no enterro do Mussum.
— …
— Eu fui!
— …
— E então, sou mais esquisito que você ou não?
— …
— Ei!
— Dá licença, preciso ir pro banheiro.
— Por quê?
— Aquele tempurá com acarajé não me fez bem.

A Maior de Todas as Polêmicas

Poucas coisas são capazes de causar polêmica hoje em dia. Num século onde política, futebol e religião já não são capazes de fazer a maioria da população brasileira partir para as vias de fato numa discussão, a gastronomia assumiu o papel de grande centro de discussões ideológico-filosóficas nas mesas de bar.

Posso dizer isso por conhecimento de causa, já que nunca usei meias-palavras nas minhas controvertidas opiniões neste segmento, seja como Gourmet de X-Salada que sou, como apreciador da única e verdadeira pizza (a de muzzarela), ou como contumaz crítico do presunto na lasanha.

Mas nada, eu garanto! Nada causará tanto pânico, horror e revolta quanto o que escreverei nas próximas linhas.

Se você não se julga capaz de controlar seus sentimentos em relação a algo que fere os seus princípios mais primitivos, rogo para que pare de ler esse texto agora. Por favor!

Se você continuou, a escolha foi sua. Eu tinha que escrever esse texto para me livrar desse tormento que me persegue por anos, mas você, caro leitor … você tinha escolha. Você poderia ter evitado isso:

Eu odeio a casquinha do sorvete!

Considero esse cone maldito uma aberração da culinária moderna. Quem, meus caros, quem é que sente uma louca vontade de devorar um prato de porcelana enquanto janta um delicioso faisão? Quem é o maluco que deseja, mais do que a mulher amada, mastigar cacos de cristal enquanto degusta o mais nobre bouquet francês ?! Será que algum infeliz, em toda a história da humanidade, fez questão de triturar taças de metal ao se refrescar com um legítimo sundae ou colegial?

Então por que, MEU DEUS, por que devemos comer o cônico recipiente que segura (muito mal e porcamente, diga-se de passagem!) o sorvete de massa que tanto adoramos!

Aquele cruzamento de cortiça com isopor deve ter sido utilizado pela primeira vez, como um desesperado improviso de um químico desempregado e ambicioso, que misturou diversas matérias primas de polímeros cancerígenos criando algo que aparentemente não atrapalhasse o gosto sorvete.

Um defensor da casquinha um dia ousou me argumentar que o “Cornetto” conseguira resolver bem o problema do finalzinho da ponta que fica sem sorvete:” Puseram um chocolatinho lá, que quebra com gosto seco da casquinha …”.

Como assim?! Se fosse bom, não precisavam colocar chocolatinhos alí!

O que mais me revolta, é que vivem falando que McDonald’s é comida industrializada, que tem gosto de isopor, que não é saudável. E A CASQUINHA?! Ninguém nunca disse que aquilo é isopor, mas olhem os furinhos, droga!! Isopor puro!! E as pessoas comem !!!

O McDonald’s deixou o isopor nas caixinhas de Big Mac na década de 80, atendendo a milhares de pedidos ecológicos, mas os sorveteiros continuam ferindo o nosso planeta! E vocês, comedores de casquinhas, não só compactuam desse mal, como ainda COMEM ISSO!!

Já que vocês gostam tanto desse tipo de comida, por que não experimentam os copinhos plásticos que pelo menos são mais sinceros e dizem: “Sim, eu sou um produto químico manufaturado!” Ou se você é bom mesmo, coma o palitinho dos sorvetes de praia! Vai lá! Come! Quero ver na hora de sair!

Agora me dêem licença, que o calor dessa noite, e principalmente dessa discussão me obriga a acabar logo com essa crônica!

– Garçom, um sorvete por favor… Copinho, heim ?! De copinho!

Miss Brasil

O Brasil é a terra da pegação. Umas coisas pegam, outras nem tanto, sejam elas restaurantes, músicas, leis, enfim, o que for. Natural para um povo conhecido por sua firmeza. Não é só porque alguém disse que seria daquele jeito que tem que ser daquele jeito. Se a proibição de falar ao celular ao volante não parece lógica, é só ignorá-la; se achamos que as restrições ao cigarro ferem a nossa liberdade, azar delas. Ser firme, porém, não é ser contra. Por isso, do mesmo jeito que existe o repúdio instantâneo, há a adoração imediata. Aquelas coisas que simplesmente, inexplicavelmente, pegam. Mais ainda, grudam. E não fica só nisso. No meio dos dois extremos, espremidas entre o amor e o ódio, se alojam as coisas que nós gostaríamos que pegassem mas que não pegam. Apesar de ser impossível prever se algo vai pegar ou não, a observação atenta pode dar algumas pistas. As leis, por exemplo, estão sempre na lista dos que não pegam. O que aparece na TV, por outro lado, vive pegando. Como eles, o terreno do que seria legal se pegasse também tem um gênero dominante: concursos de beleza. Ou, para ser mais exato, os concursos de miss. Desfiles e concursos patrocinados pela circuito da moda não entram nessa categoria. É só ver a SP Fashion Week. Sem dúvida, pegou. Isso acontece porque eles não são verdadeiros concursos de beleza, mas uma espécie de feira anual para reposição de peças da indústria. A busca de new faces é a resposta pragmática a uma necessidade comercial. As candidatas, inclusive, sabem disso e não ligam. Estão atrás de retorno financeiro e um bom plano de carreira. São operárias em busca de ascensão profissional. Bem diferente das meninas concorrendo para miss. Quem quer ser Miss sabe que não basta ser só um rostinho bonito e um corpão de tirar o fôlego. Miss que se preze precisa ser bonita por dentro e por fora. Ser pura de coração. A garota que participa desses concursos não está de olho nas recompenas. Pergunte para qualquer uma. Elas vão dizer que as oportunidades, se aparecerem, serão apenas consequência. Importante mesmo é a chance de participar de algo tão bonito. A candura dessa e outras respostas marca bem a diferença entre uma miss e uma top model. Chega a ser injusto comparar os concursos de Miss à decadence sans elegance dos feirões da moda. Os jurados e fãs de concursos de Miss querem ver tanto o conteúdo como a embalagem. O formato dos eventos é uma prova disso. O regulamento é complexo e o sistema de pontuação leva em consideração muito mais do que o enchimento do maiô. As candidatas têm oportunidade de mostrar que são antenadas, ligadas em cultura e que podem opinar sobre os problemas do mundo. Demonstram até talentos insuspeitos, em um desfile ímpar de números musicais, dramáticos e acrobáticos. Só não se vê muita verve para o humor, mas ninguém parece sentir falta. Humor, afinal de contas, é politicamente incorreto. Terminadas todas as apresentações, é escolhida a menina mais bonita e carismática. Ela, a vencedora das vencedoras, a virtuosa entre as virtuosas. Esse anjo é corada Miss. Apesar dessa fórmula magnífica, os concursos de Miss nunca vingaram no Brasil. Houve uma época em que eles até ensaiaram, mas ficou só na promessa. No fim, acabaram mesmo morrendo. O motivo é um mistério. Talvez tenha sido a falta de seriedade de setores importantes, como a TV. De repente foi porque as nossas misses entendiam errado o conceito de beleza interior e acabavam em revistas masculinas. Seja como for, concurso de Miss não pegou por aqui. Curioso, se pensarmos no prestígio que eles alcançaram em outros países. Em muitos deles as misses atraem a atenção da imprensa e vêem tudo o que dizem ganhar repercussão nacional. Na Venezuela, o sucesso em concursos de Miss pode levantar carreiras políticas. Lá tem até Miss Universo se candidatando à presidência do País. Uma considerável diferença cultural, já que aqui é presidenciável que se comporta como Miss. O eleitor vota no candidato mais bem apessoado e ele, abnegado, devolve a honra: faz questão de ficar só com a faixa. A coroa ele crava na cabeça do povo.

Hipocrisia

Dentre todos os defeitos gerados pela sociedade, pessoalmente, a hipocrisia é um dos mais irritantes. Eu me lembro bem que 1ª vez que ouvi falar na dita cuja foi em uma música do Claudinho e Buchecha (provando que até o funk já foi cultura), eu devia ter uns 12 anos. Como toda boa pirralha curiosa, fiz o que toda criança faz quando pinta uma dúvida: perguntei pra mamãe. Ela logo me respondeu que era um jeito elegante de chamar a mentira.
Depois eu aprendi na prática o que era uma pessoa hipócrita, aliás o que eram várias pessoas hipócritas…
Enfim, o que levo aqui em questão é nosso bom e velho POR QUE? Por que existem seres que se dizem humanos, tão hipócritas?
Já ouvi de alguns que para se viver na sociedade todos temos que carregar um pouco de hipocrisia na bagagem. Será?
É aquele tipo de coisa que ninguém aprecia… eu finjo que gosto de você e você finge que me atura. Bastar virar as costas para rasgar o verbo e destilar o veneno…
– Oi amiga! (Aposto que ela vai ficar se gabando… essa ridícula!)
– Amiga! Tudo bom? Que saudades! (Ai que saco…)
– Tudo maravilhoso! E você?? (Maravilhoso nada, tá tudo uma bosta, mas NUNCA vou dizer isso à você.)
– Ah! Melhor impossível! Sabe o Robertinho? Aquele gatinho lindo do 12? Pois é! Está dando em cima de mim! Não tira o olho. (Ela não saber que quem mora no 12 é a dona Alzira… o Robertinho mudou semana passada… não ela não sabe… que trouxa)
– Sério? Que bom! Boa sorte! (Começou, agora ela vai falar que até o filho do vizinho do porteiro é afim dela! E o Robertinho é horroroso!)
– Poxa! Obrigada amiga! (Rá que trouxa… sabia que ela ia acreditar)
– De nada! Eu torço muito por você viu? (Eu quero que você morra sua lambisgóia azeda)
– Bom, o papo tá muito bom mas eu estou com um pouco de pressa sabe? ( Eu tenho que contar essa pras meninas!)
– Eu também! Hoje estou super atarefada! ( A galera deve estar me esperando no barzinho já, essa ultima eu tenho que contar.)

Meia hora depois as duas encontram as amigas… se essa historia de orelha esquentar com gente falando mal… ui. Outra situação que, ao meu ver, é no mínimo ridícula, são aqueles indivíduos que vêem uma pessoa do seu circulo social mudando ou indo pra intercâmbio…
– Oi João! Quanto tempo! Por onde andas ( Ué? Esse cara não tinha ido embora?)
– Ah Ricardo, você não sabe da nova? Vou fazer intercâmbio! (Finalmente vou me livrar de você pentelho!)
– Sério? Que legal cara! (Porque esse babaca faz intercâmbio e eu não? Que inveja!)
– Pois é… tô indo sexta! (Finalmente)
– E então? Vai fazer um bota fora? Temos que fazer né! (Oba! Boca livre!)
– Pô nem vou… (Já fiz já… e nem te convidei porque você é um porre e sempre fica de porre e vomita no sofá da minha casa, seu ridículo. Você acha que eu esqueci? Cara de pau me perguntar isso!)
– Que pena! Vou sentir muitas saudades! Volta logo! (Tomara que você fique por lá seu bosta!)
– Eu também! Aparece no aeroporto! (Com presentes, de preferencia)
– Ah! Pode deixar! (Espera sentado! Vê se eu vou acordar cedo pra ir pra lá e gastar minha grana com você!)

*3 meses depois*

– Oi Aline! Tudo bom?
– Ricardo! Que saudades! Tem noticias do João?
– Quem? João? Que João?

Isso me irrita. São por essas pequenas coisas que eu sinto saudades da minha infância… No meu mundo não existiam hipócritas, mentirosos e falsidades. A gente falava o que dava na telha e aceitava o que os outros falavam. É… realmente não é preciso refletir demais pra sabe porque as crianças são tão felizes.

Duas Crônicas: #1 de 2

#1

Já passava do meio-dia quando a fome atacou. Minha gastrite, claro, agradecia de maneira singela: pontadas horríveis. Da sala ao lado, o pedreiro continuava a martelar o piso…ótimo, agora são duas as pontadas, uma nos tímpanos e outra, a minha amada gastrite.

Estava sentado na mesa do escritório do Osório, meu chefe, esperando-o chegar para podermos conversar a respeito do meu aumento de salário…! Fiquei vidrado no seu relógio de parede cinza de ponteiros brancos e números amarelos. Via os ponteiros interagirem entre si. Contava junto com o ponteiro de segundos: “11, 12, 13, 14, 15…59, 12 horas e 27 minutos, 1, 2, 3…”

Não dei conta de reparar o Osório adentrar no escritório e, prestar atenção na minha atitude. Ele não disse nada. “56, 57, 58, 59, 12 horas e 51 minutos, 1, 2…” Que patético. ‘Pois não ?’ , perguntou ele. Fui pego de supetão, estava contando o tempo….

– Diga-me, este é seu hobby ?
– Não senhor, só faço isso quando fico impaciente.
– Sei.
– O senhor…é…
– Sim.
– Sabe… a minha situação é a seguinte…
– Não me interessa sua situação, se quiser pode se retirar, não lhe darei o aumento, mesmo sabendo que seu trabalho mereça uma retribuição maior, entende?
– Claro, bom, então deixe-me voltar ao trabalho, e obrigado por sua compreensão Sr.
– Disponha.

Sentei-me na minha cadeira, da minha mesa e continuei o meu contar, no relógio central, da Praça XV, através da janela a minha frente…”59, 13 horas e 01 minuto.”

Solteira, Avulsa e Desamarrada

Bom, existem certas coisas que a gente não sabe como começar a contar. Certas coisas como aquelas burradas que a gente faz na vida e que todo mundo descobre e você não sabe como contar para se livrar um pouco da mão pesada que aperta a consciência. Hoje, penso que precisava urgente de um lap top porque minhas grandes idéias, ou as piores idéias surgem no período da madrugada seguidas de minha inseparável insônia que me persegue mais fortemente desde o começo desse ano.
Todo escritor diz que o difícil é começar que se você começa o resto é fácil. Difícil também, creio eu, seja agradar o leitor com aquele fim maravilhoso que as pessoas falam esse cara é muito bom. E saber que eu escrevo para quem??? Boa pergunta que me fiz agora. Fico pensando se pelo menos o maravilhoso, divino, lindo Mário Prata passasse os olhos por aqui, mas é impossível, porque acho que o vou contar pelas linhas afora o faria pensar: quem é essa louca??? A Lygia Fagundes Telles também me deixaria felicíssima. Mas, vamos ao ponto.

Há uns dois fins de semanas passados parei numa praça de uma pacata cidade do interior de São Paulo e fiquei horas observando um menino de mais ou menos uns oito anos empinando uma pipa colorida e com uma rabiola enorme. Naquele momento daria tudo a minha vida em troca da paz dos movimentos daquela pipa e a trocaria também pela vida daquele menino. Tive uma fase que pensei que sabia tudo, mas se tratando de você eu não sei nada. Nessa praça tinha uma cigana ela se aproximou de mim e o mais interessante é que não me pediu dinheiro apenas afirmou: você tem alguma dor no coração. Virei o rosto respirei e pensei: era o que me faltava. Irritadíssima disse que quem não tem dor no coração, principalmente, de amor. Ah, dor de amor, não tem coisa pior. O homem ainda não inventou coisa pior nessa vida. Você não decidi se você não quer mais a pessoa porque não gosta mais, ou porque prefere coisa melhor, ou porque magoou tanto que acabou perdendo, ou foi traída, ou desfez e depois se arrependeu…. o dor inconsolável, amarga, sufocante, estressante, dolorida.

Vamos analisar uma vida de solteiro. A vida de solteiro, ou avulso, como queiram, eu particularmente prefiro usar a palavra solteiro porque solteiro é aquela pessoa que ainda não se casou, mas o avulso é aquele que é jogado para as cobras. Esses dias estava ao cinema de forma “avulsa”, evidente cercada de casais e num momento existencial pensei comigo: não tem nada me incomodando. É bonito ver as pessoas se amando. Acabou o filme, um filme romântico- detalhe- fui ao encontro da saía quando notei que uma chuva horrível caía. Fiquei debaixo de uma parte coberta esperando a gentileza de São Pedro fazer com que pelo menos diminuísse para que fosse de encontro ao carro. Do meu lado parou um moço, fiquei imaginando sua idade, sua história de vida, seus pais, sua família, se era uma pessoa irritada, se era calmo- virtude rara atualmente- já que não existem mais pessoas calmas nessa vida. Esta todo mundo nervoso, ninguém esta calmo e quando está logo fica nervoso. Mas tudo bem, me deu vontade de pedir a ele que me pedisse para encostar mais perto dele. Fiquei imaginando nós dois ali abraçadinhos esperando a chuva se acalmar. Ou então, que a chuva caísse mesmo e cada vez mais forte. Quer coisa melhor de estar abraçado com alguém escutando o barulho da chuva??? Pensei em perguntar se ele estava com frio. Pensei em perguntar se ele não queria viver comigo, porque sou extremamente agradável e romântica. Será???? Doce??? É muita qualidade para uma pessoa só.

Nessa hora senti saudades, saudades de mim, saudades de minha infância, saudades dele, que nem conhecia. Vontade de tê-lo comigo, para sempre. De levá-lo para casa e de saber seu dia. Sim, assumo que tive essa vontade. Essa é a maior carência de uma pessoa solteira ou avulsa quando se sente sozinha. Sozinha na vida e só por dentro de si. Só sem você própria. Freud, pai da Psicanálise não soube nos ensinar a sentir dor de amor na prática.

Um solteiro desprovido, assumido e feliz pensaria: vou sair correndo daqui e vou direto para o bar tomar umas e ter aquela ressaca de dar gosto no outro dia. Daquelas que a gente pensa antes de abrir os olhos no outro dia. Abre no máximo um olho, só para sentir o movimento do estômago. Uma pessoa solitária e feliz pensaria assim. Agora, um avulso feliz, mas que embora esteja procurando por alguém fica com a cabeça cheia de teorias que quando vão embora o sono é perturbado por elas. É fogo. Mas sabe o que é isso? É o amor. É a necessidade de amar, de ter alguém, mas ser feliz. Isso Freud não explicou, logo ele pai da Psicanálise.

A chuva estava lá melhorando, quando o moço olhou para mim e disse: agora dá para chegar ao carro, saiu correndo e se foi. Eu pensei: quer ir no meu? Mas ele não ouviu meu pensamento. E eu fiquei ali solteira, avulsa, linda e loira. Quando será que vai cair outra chuva forte para pegar um cineminha? Bom, vou consultar a previsão te tempo.

Tomates Italianos

Nunca acreditou em amor à primeira vista, por isso nunca se arrumava para ir ao supermercado e descia o elevador de pijama quando tinha que buscar algo na garagem.
Por isso, naquele dia ela usava uma calça de moletom desbotada, camiseta velha, chinelo e… meia. Sim, eu não queria contar, mas a verdade deve ser dita. Ela usava chinelo e meia porque achava que, na feira, ninguém ia mesmo reparar. E fazia frio. Então ela estava escolhendo tomates italianos quando suas mãos quase tocaram essas outras mãos. Não é exagero dizer, eles escolheram o mesmo tomate. Olhou para ele, sorriu e enrubesceu. Ele era lindo (o homem, não o tomate), havia escolhido o mesmo tomate que ela, a mesma feira que ela e a mesma manhã de terça para fazer a feira. E ela de chinelo e meia, devo enfatizar. Ele só poderia ser o homem perfeito, pensou, um homem que faz feira terça-feira de manhã. Deve morar sozinho, ter um emprego flexível. Não sei se deu para perceber, mas ela o mediu de cima em baixo. E é lindo, muito lindo. Bom, ela precisava dizer alguma coisa. Ele queria o mesmo tomate que ela. Isso deveria ser um sinal. Sentiu a pele do rosto queimar. Isso porque estava frio (o chinelo e a meia, como já foi dito…).

– Pode pegar. – ele falou. E sorriu, que gentil!
– Bom, pega você. Acho que você escolheu primeiro – Respondeu, e se sentiu estúpida.
– Bom, sei lá. Eu nem sei escolher tomates muito bem.
– Ah, tomate não tem segredo. O problema é escolher abacaxi – Ah? Abacaxi? Do que estou falando?
– Ah, abacaxi eu sempre peço pra alguém escolher pra mim. Minha mãe sabe escolher, ela cresceu na roça, sabe? Mas eu… Aliás, eu não sei cuidar muito bem de mim, não.
– Você mora sozinho?
– Moro com meu irmão. Já faz dois anos, mas cansei de comer congelado, enlatado e ensacado. Este ano quero aprender a cozinhar, sabe? Comer frutas, salada…
– Ah, promessas de ano novo, né?
– Pois é… Você fez alguma?
– Ah! Sim, fiz. Andar de bicicleta todo dia.
– E você está cumprindo?
– Não. Hahahahá!

Riu, e ele riu também, e falou do quanto ele também gostava de andar de bicicleta, de quão próximos eles moravam (e nunca tinham se visto), dos seus trabalhos, dos seus cachorros, das suas famílias, das suas dúvidas em relação ao sentido de tudo aquilo, e a mulher dos tomates só olhando, mas eles não a viam, e ele também não via o seu chinelo e a sua meia, só via o brilho que saía dos olhos dela, e dos dele. E falavam, e tá barato, freguesa, e falavam, e é só escolher, minha senhora, e falavam. E largaram os tomates, e comeram um pastel, ela esqueceu as pêras e ele, o alface na barraquinha do caldo de cana. Ela esqueceu das horas, e ele, do que tinha ido comprar lá. Esqueceram promessas de fim de ano. Esqueceram que era terça-feira. Depois que a feira acabou, já tinham esquecido completamente como era a vida um sem o outro.

Democracia! Democracia! Democracia! Falei Certo?

Olá amigos, mais uma vez estou escrevendo. Acreditem, é a Segunda vez em uma semana. Aliás, essa semana por sinal, foi bem tumultuada com assuntos e questões eleitorais. Foi também a semana que mais ouvi a palavra democracia nas ruas. Milhares de jovens gritando “”Democracia!””, ou então “”Chegou a vez da democracia!”” e outras dezenas de frases elogiando e coroando a palavra democracia, mas nem em todos os casos, a democracia propriamente dita.

Sinceramente, achei um absurdo total todos esses jovens passarem a imagem de que finalmente a democracia aconteceu. Que ela aconteceu, não tenho a menor dúvida, mas por favor, ela está ocorrendo em eleições presidenciais no Brasil há mais de 13 anos! Não consigo me conformar no tanto de absurdos que vejo! Segundo o grande e inquestionável “”Aurélio””, Democracia é o Governo do povo; soberania popular. Ou então Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder. Resumindo, o direito do povo escolher o seu líder e governante. Simples.

Mas o que está aparentando é que é a primeira vez na história que a democracia acontece no Brasil ou pior, que votamos em favor da democracia, o que é um absurdo muito pior. Parece até que vivemos num regime comunista como Cuba, Fidel morreu e três ou quatro cubamos disputaram uma eleição pela primeira vez em mais de cinqüenta anos, realizando, pela primeira, a democracia para essa geração.

Ao escrever uma crônica é importante deixar claro que respeito a opção de voto de qualquer um, mas ao mesmo tempo acho muito importante os eleitores entenderem o que está se passando para que, caso o seu candidato seja eleito, saia nas ruas para comemorar um sangue novo no poder, com novas idéias e valores, além de tudo o que se leva em consideração na hora do voto, em vez de ficar gritando “”Democracia! Democracia! Viva a democracia!””. De qualquer forma, desejo toda a sorte do mundo para nossos novos governantes, mesmo não estando ao seu lado na hora do voto e ter torcido contra antes do resultado final das eleições, mas ao mesmo tempo torcendo agora, para que o seu governo seja excelente.

Aliás, condeno esse masoquismo social, aonde todos que não votaram no candidato eleito, fiquem desejando todo o mal e o pior para o país. Isso é ridículo. Somos uma nação! De forma DEMOCRÁTICA, como de costume nessas ocasiões, um candidato foi eleito presidente. Ele será o governante e ponto. De nada vai adiantar ficar xingando e secando o cara e seus eleitores, para que tudo dê errado nos próximos anos. Isso é tortura e burrice! Temos que desejar o bem necessário para que ninguém saia prejudicado e, caso a sua forma de governo entre em conflito com os interesses sociais, utilizar novamente a DEMOCRACIA para colocar outro governante no poder.

Não quero dizer que todos devem se conformar, muito pelo contrário, a manifestação com relação ao que está acontecendo é de importância vital para a nação. Acho que todos devem ter pensamentos positivos para o nosso futuro, acreditar muito em nosso país, mas jamais deixar de julgar ou criticar o governo, de forma construtiva ou destrutiva , para que cada vez mais a nação evolua, se desenvolva, encontre e corrija seus erros e supere tantos os problemas primários como os secundários, existente em qualquer país.

É por isso que eu digo, mesmo não tendo escolhido o novo presidente, que o Brasil tem potencial suficiente para se tornar uma grande potência mundial. Cada vez mais acredito nesse país e, também sei, que o imperialismo presente em qualquer outro país desse planeta não será eterno, ou seja, a nossa vez irá chegar, só depende de cada um de nós, brasileiros, para que chegue rápido e com força suficiente para superar todos nossos problemas sociais, ou melhor, praticamente todos, pois senão, não seria necessária a morte para se chegar no paraíso.

Celulares

Acho isso uma coisa incrível – todo mundo tem celular. Todo mundo tem aqueles mini telefones sem fio que são levados na bolsa. O pior é que tem de vários tipos diferentes: com capinhas, sem capinhas, grandes, minúsculos, redondinhos, quadrados, fofos, estranhos, para jovens, para coroas, que vibram, que ficam parados, que pulam, com internet, sem internet, que toca música, que nem toca direito, coloridos, de uma cor só, que tem joguinhos, que só funcionam para receber e dar telefonemas, de modelos novos, de velhos, que abrem, que dobram, que desmontam, Motorola, Gradiente, Nokia, Startac, dele, dela, do outro, e de muitos outro jeitos.

Bom, tem todo mundo e daí tem eu. Eu e o orelhão. Claro, o orelhão. Todo mundo batendo papo nos seus celulares e eu procurando um orelhão. Eu uso o telefone público simplesmente pelo fato de que eu me recuso a virar um deles… um… bem, o que eles são mesmo? Uns celulentródofos. Isso. Eu me recuso a virar uma celulentródofa. Eu me recuso a ter que parar uma conversa para meter a mão na mochila em busca daquele treco que toca desesperadamente o “Last Resort” do Papa Roach (ele toca Papa Roach porque se tem que tocar, que no mínimo toque algo que não seja tão irritante como a musiquinha de marinheiro que tem no celular da minha mãe). Eu me recuso a ter que trocar a capinha para combinar com a roupa. Eu me recuso a ter que ficar numas posições patéticas para que o negócio fique com sinal. Me recuso de ter que emprestar o meu Lulinha (porque claro, ele precisa ter um nome que seja melhor que Céulo) para as amigas descelularizadas. Também me recuso a escrever mensagens com aquele teclado infernal que você precisa apertar uma tecla 15 vezes para sair a letra que você quer. E eu me recuso especialmente de ter que pagar a conta (que acreditem em mim seria gigantesca) no final do mês ou então de comprar aqueles cartõezinhos de recarregar o telefone pré-pago. Então pronto. Fica só eu e o Lhãozinho (Lhãozinho porque como não posso apelidar meu celular tenho que apelidar o orelhão).

Claro que eu até gostaria de ter um celular numas horas, como por exemplo para combinar um programa de última hora com as amigas ou para avisar para minha mãe me buscar. Mas para isso acho que as pessoas não deveriam ter um celular… elas deviam ter sim um chipzinho no cérebro. Um censor que capta todos os sinais de quando alguém está pensando em fazer/pedir algo a você: “Opa!! A Lubis quer combinar um programa!! Mas ela não tem dinheiro pra pegar um ônibus então vou ter que lhe dar carona.”. Mas não pensem que é só… Ah não!! Este chip também serve como uma agenda automática que você nem precisa saber de algo (como um aniversário, algo que precise comprar no super mercado, o nome daquela tal pessoa, etc) e ele já te avisa: “Amanhã tem o aniversário do Carlos… Quando você for comprar o presente dele, vê se não esquece de comprar batata, que acabou.”. Além disso, quem quiser, pode comprar um pacote muito popular especialmente para os jovens que faz você lembrar de fatos históricos e faz você saber todas as respostas matemáticas: “x13 + (675 : 43332) – y/1098 : -z + 234 . 4486236712 = 525,000093”. Outro spe-cial feature que você pode adquirir é tele transportação, que provave-lmente não precisa de uma explicação. Como esse chipzinho foi inventado por moi, o chamariam de Lubilar, Lulilar ou até mesmo Luizar.

Bom, mas daí teria um problema… Todos teriam o tal Zeelar (ou seja lá qual seria seu nome) menos eu. Eu me rebelaria, me recusaria, e voltaria a usar o bom e velho celular… Ou até mesmo o Lhãozinho, pobre coitado, esquecido com toda essa tecnologia.

Milkshake é de Chocolate

“Já que gastronomia é o tema do momento, acho interessante trazer à tona mais uma grande polêmica do mundo da boa comilança. Vamos iniciar com a tradução literal da palavra:

Milk Shake é igual a leite com sorvete batido, em português.

Pois bem, não há especificação de qual é o sabor do sorvete, mas o bom senso diz que o melhor sorvete para tal mistura é o de chocolate. Talvez o senso comum não diga o mesmo, mas entre o bom e o comum eu fico com o primeiro.

Sempre vai aparecer algum goiano perdido para dizer que bom mesmo é milk shake de goiaba, fruta que é usada na tradicional goiabada, que jamais vai ser feita de manga, lógico. Mas opinião de goiano não vale; eles comem pizza de chocolate com maionese e mostarda ao mesmo tempo.

Outros vão dizer que milk shake de morango é tão bom quanto. Mentira. Com morango, bom mesmo é merengue. Milk shake de baunilha então nem se fala, não tem gosto de nada. Além do mais, baunilha tem outras utilizações mais proveitosas. Não sei quais, mas deve ter.

Cheese salada, por exemplo, é sempre com hambúrguer. Não existe de frango, e sim Cheese Salada Frango. O hambúrguer é implícito. No caso do milk shake, o chocolate é tão implícito quanto.

A verdade é que quase todo ingrediente fica muito bom em alguma receita específica. O chocolate, ao contrário dessa tendência, fica muito bom em muitas receitas diferentes. E uma delas é o milk shake!

Eu espero, de coração, que todos os donos de estabelecimentos dignos observem essa injustiça e coloquem orgulhosamente em seu cardápios apenas: milk shake. E quando algum desavisado ou goiano perguntar:

– Tem de morango?

Então o garçom, vai encher o peito, e soltar:

– Não. De morango, só merengue.”