Arquivo de novembro, 2002

O aplauso da menina

Primeiro, era o cheiro. Palha molhada, terra batida. Ela não conhecia muito bem aqueles sabores do ar. Só sabia que era diferente de todo o resto. A intercalação dos matizes na frente de seu rosto. O gosto rosa do algodão-doce.

Entrou. Um picadeiro oval dava boas-vindas. A arquibancada de madeira abraçando todo o entorno, crianças por toda a parte. Nem percebia mais a companhia de seu pai. Respeitável, o espetáculo começou.

Chegaram os animais, com seus odores ferozes. Ela não conseguia olhar para frente, para sentir o bafo dos felinos e ouvir as chicotadas. Pessoas começaram a se jogar dos céus, arriscando a vida. Outros ensurdeciam com o barulho de suas motocas. Malabarismos da morte. A menina apertava forte a mão do pai. Não apreciava nada daquilo. Queria voltar pro algodão doce, ver a tenda do lado de fora.

De repente, um pé enorme. O palhaço colocou triste seus olhos para aquém da cortina, abriu um sorriso e pulou para dentro. Pegou dois chapéus e começou a trocá-los na cabeça. Depois, três chapéus. E quatro, cinco, milhares deles. Todos caíram sobre o palhaço, atrapalhado. Sorrisos nos lábios das crianças.

A menina só voltou a si e começou a aplaudir quando a platéia tinha quase desistido. Todos olhavam para ela, e a menina aplaudia. Palmas, sorriso, entusiasmo. Parou. O circo todo em silêncio.

Suas mãos latejavam, de tão vermelhas. A primeira borboleta se desprendeu de seus dedos e titubeou pelo ar. Estava vermelha como a mão dela. Depois, uma atrás da outra, foram se multiplicando borboletas vermelhas, violetas, azuis, verdes, amarelas, povoando o ar. A última, pequenina e branca, saiu delicadamente da palma de sua mão.

Todas as borboletas se espalharam pelo recinto, sobrepondo-se às jaulas, ao globo da morte, aos trampolins, em camadas multicores. Só o picadeiro e o palhaço eram reconhecíveis. À volta deles, tudo o mais eram matizes indefiníveis e saltitantes.

Quando a borboleta branca resvelou no nariz do palhaço, não havia mais ninguém no circo. Só ele, a borboleta e a menina. O palhaço fez sua reverência, agradecido. E, ao se despedir, pousou fundo seus olhos nos dela.

A menina olhou de volta para suas mãos, e a borboletinha branca estava lá, aninhada entre seus dedos. Desse momento em diante, ela tomou conhecimento do belo. E sabia que nunca mais poderia aplaudir novamente.

Luffa

Banho é uma coisa ótima, pena que os franceses não saibam. Obrigado, índios de todo o Brasil, por ensinarem o que é bom na vida (e higiênico também).

Não consigo nem me imaginar sem tomar banho; é quase um credo. Dormir sem me banhar é certeza de sono ruim. Sabe quando você dorme com a sensação que esqueceu de fazer alguma coisa importante no dia?!

Esses dias atrás eu estava nesse meu momento postular, nú como vim ao mundo, quando, então, eu percebi. Faltava alguma coisa (Epa! Esperaí que não é nada disso que você está pensando), (e não, não estava frio!). Faltava mesmo, era a bucha. Saca, bucha? Pois é: bucha, esponja, aquela mesma que as nossas mães pegavam e esfregavam nas nossas pernas pra ver se saía a fuligem de um dia inteiro de molecagem.

É, na verdade, não sei se vocês conhecem a bucha da qual eu estou falando. Não é aquela “coisa” que se compra no mercado! Aquilo é espuma, sei lá o que é aquilo. Eu estou falando da bucha, Bucha, mesmo; da Luffa cylindrica, conhecida como bucha-dos-pescadores ou fruta-dos-paulistas. Sim, é a bucha vegetal, a esponja vegetal que a sua avó tinha no quintal de casa. Se bem que hoje, as pessoas nem casa tem. Moram em “apertamentos”. Vai entender.
O que eu sei é que fazia anos que não via essa bucha, ou esponja vegetal. Fiquei bastante melancólico, ali mesmo, dentro do box cheio de vapor lembrando da infância. Quando se é moleque, a hora do banho é um temor (a gente nem entendia o porquê de tomar banho), ou você era esfregado com a bucha (pra arrancar a casca de sujeira do corpo), ou era caco de telha. É. Vai dizer que no meio da choradeira, do diz-que-me-diz-que do banho, sua avó ou sua mãe nunca te ameaçou esfregar com caco de telha pra arrancar o encardido?

Poxa, sujeira era legal, era questão de status. Os melhores, os Bam-bam-bans da rua, brincavam mais, aprontavam mais, sujavam mais. Todo um trabalho jogado fora em 10 minutos de bucha, água e sabão. Tratamento de choque. Mas funcionou. Obrigado vó, obrigado mãe.

Pinduca

Pedro Duarte Carvalho nasceu em uma família de classe média, sempre simpático com todos e com aquele sorriso largo no rosto. Pedro Duarte Carvalho (Duarte de parte de mãe e Carvalho de parte de pai) era um nome sisudo demais para sua feição de bonachão. Pinduca era seu nome. O Pinduca era mais Pedro Duarte Carvalho que o próprio Pedro Duarte Carvalho. Todos o conheciam como Pinduca, desde criança. Dezenas de vezes Pinduca tomou falta por não reconhecer quando o professor chamava um tal de Pedro Duarte Carvalho. Pinduca era Pinduca.

Marta Bragança Machado sempre foi séria. Um pouco cabeça dura às vezes, tenho que admitir, mas sempre uma grande amiga. Ela nunca teve apelido nenhum. Marta Bragança Machado sempre foi Marta Bragança Machado. No máximo Marta Bragança Machado foi apenas Marta. Havia apenas algumas variações como “Senhorita”, “Senhora” ou “Dona” (o qual ela odiava) anterior ao Marta. Marta era Marta.

Sou amigo do Pinduca desde que ele era chamado de Pinduca. Marta eu só conheci na faculdade. Tínhamos muitos amigos comuns, mas eles não se conheciam. Fui o responsável, um grande motivo de orgulho, pelo primeiro encontro dos dois. Nunca esquecerei de tal momento:

– Faaaala Pinduca!!! Chega aqui que quero te apresentar aquela amiga minha que tanto te falei. Pinduca, esta é a Marta. Marta, este é o Pinduca.

– Pinduca? Isso é nome de gente?

Algo que nunca acreditei foi em amor à primeira vista. Não existe essa coisa de “química”, “almas gêmeas” ou “karma”. Talvez paixão, daquelas arrebatadoras. Que te incendeia como pólvora. Mas no fim é apenas mais um daqueles ralados que ardem até seus olhos lacrimejaram, mas que se curam com um pequeno Band-Aid. Amor sincero é diferente. É preciso conhecer para amar alguém. Seus hábitos, gostos e até birras, e só depois disso você pode realmente ter certeza que ela é Aquela pessoa (se é que algum dia você pode ter certeza disso). Apesar dessas minhas convicções, Marta e Pinduca tiveram certeza nesse breve encontro que ficariam juntos para sempre.

Começaram a namorar no mesmo dia. Marta e Pinduca, ninguém poderia imaginar. Mesmo assim todos adoraram o novo casal na turma. Com excess”ao de um pequeno detalhe: Marta nunca admitiu que namorava um Pinduca. “O nome dele é Pedro Duarte Carvalho, e não Pinduca!” como incontáveis vezes já a ouvi bradar. É engraçado como namorada nunca chama o namorado pelo apelido. Acho que provavelmente devido a um sentimento de exclusividade. Algo como “só eu o chamo pelo verdadeiro nome!”. E depois não se devem sentir muito confortáveis para declarar que namoram algum “Cabeção” ou um “Melancia”. A única concessão é se for um apelido próprio, só do casal, como “Pimpão” ou “Tchuquinho”, afinal a exclusividade continua. Mas Marta ia além. Ela se recusava terminantemente a aceitar que Pinduca era (e sempre foi) Pinduca. No começo até achávamos engraçado tal atitude, mas esperávamos que com o tempo ela se conformasse, fato esse que nunca ocorreu.

Casaram-se 2 anos depois. Soube que teve gente que não compareceu por não saber que o Pedro Duarte Carvalho que estava no convite na verdade era o bom e velho Pinduca. O padre teve ordens expressas de não mencionar o nome Pinduca em nenhum momento. Marta ficou brigada comigo alguns meses só porque no meu discurso eu me referi ao Pinduca como Pinduca. Convenhamos, eu o conheci Pinduca e não me sentiria confortável se o chamasse com outro nome que não Pinduca.

Era um casal feliz. Nunca vi tamanha harmonia em um relacionamento, apesar de serem tão diferentes. Acho que foi por isso que deu tão certo. Um completava o outro. Separados, cada um tinha seus defeitos, suas particularidades. Mas juntos eram mais que um casal perfeito, era a pessoa perfeita. Um parecia anular os defeitos do outro. Por incrível que pareça, preferíamos sair todos juntos que apenas com a Marta ou com o Pinduca. O problema era conseguir chamar o Pinduca de Pedro. Às vezes era irritante a cobrança da Marta:

– Alô? Fala Marta! Tudo bem? Chama o Pinduca que é urgente!

– Tudo bem Leo! Mas Pinduca? Aqui não tem nenhum Pinduca.

– Marta é sério! Chama o Pinduca, por favor.

– Desculpe, mas acho que você se confundiu. Aqui só mora o Pedro, não esse tal de Pinduca.

– Bom, então avisa esse tal de Pedro que o Pinduca acabou de perder o último ingresso para o jogo.

Apesar desses pequenos incidentes, Pinduca nunca achou ruim dessa cobrança da Marta em cima de seu nome. Nunca entendi bem o porquê. Talvez ele nunca gostou de ser chamado de Pinduca, ou a amava tanto que relevava essas pequenas picuinhas. O fato é que perdemos o Pinduca para esse desconhecido Pedro. Pedro era legal também, talvez até mais que o Pinduca. Mas Pinduca era aquele velho amigo de quem tínhamos saudades.

Nunca mais vimos o Pinduca. Em compensação, vimos um Pedro feliz. Acho que no final das contas perder o Pinduca não foi assim tão ruim.

Os Americanos Vão Dançar

Olá amigos! Antes de mais nada, é um prazer voltar a escrever, depois de alguns longos meses. Como devem ter notado pelo título, venho falar de guerra. Aliás, se eu estudar um pouco de reencarnação, vou me provar que eu vivi em alguma guerra. Sou fascinado por estratégias de guerra, por ataques, por revoluções e por fatos que marcam a história da humanidade. Devo, com certeza, ter participado de alguma guerra, mas não sei como. Acho que isso justifica minha estranha – mas argumentável – mania de estocar alimentos.

De qualquer forma, não estou me pronunciando para falar de minhas manias, outras vidas e crenças, e sim de coisa séria. Como todos estão notando a grande angústia presente no cenário mundial dos últimos meses, a não ser que um grande milagre aconteça – o que eu piedosamente acredito – uma grande desgraça irá acontecer.

Acredito, e aposto a maioria das minhas fichas, que a desgraça acontecerá na América, infelizmente sobre milhares ou milhões de inocentes. Mesmo que um milagre salve o mundo desta guerra, será muito difícil os Americanos continuarem sendo o grande império (ou algo parecido com isso) mundial. A situação chegou a um ponto, que se os Americanos não atacarem, sofrerão uma grande perda de credibilidade e confiança mundial, já que passaram meses ameaçando e não fizeram nada

Mas considerando que a guerra de fato aconteça, é visível, que o Iraque não estaria tão calmo esperando um ataque dos Estados Unidos e do Reino Unido, sem já ter preparado algo. Com a coragem e determinação marcante naquele povo (e nos seus possíveis aliados) algo de muito pesado – e muito louco – pode, ou melhor, deve acontecer, infelizmente. Já estou imaginando cidades explodindo, fogo por todos os lados, ambulâncias e coisas parecidas com o atentado ao World Trade Center de Nova York, mas sem envolver aviões.

Assim como esse grande atentado ocorreu com anos de preparação, provavelmente muita coisa já deve estar planejada a ponto de ser executada. Os Estados Unidos, antes dos atentados, eram muito vulneráveis à entrada de pessoas de diversas etnias, ou seja, há mais de décadas grupos terroristas devem estar instalados por todo o território americano e também pela Europa. O campo de batalha não será no Oriente Médio, mas sim nos principais países desenvolvidos do mundo. Aliás, não fica bem colocar o termo “”campo de batalha””, já que as forças americanas e britânicas estão inteiras no Oriente Médio, deixando seus países, completamente abertos em termos militares, para ações de guerrilheiros, terroristas e quem quer que seja.

O massacre dentro dos Estados Unidos e da Europa pode ser tão ágil e pesado, que não dará tempo das tropas voltarem para proteger seus territórios e suas dignidades. Provavelmente não haverá tempo para reação.

Não sei como devo, ou melhor, devemos, proceder, mas essa guerra comercial, marcada pela ganância, deixará milhões de vítimas, diretas ou indiretas em todo o mundo e conseqüências sérias. O mundo jamais será o mesmo e as pessoas também não serão as mesmas. A possibilidade de destruição em massa ou de utilização de armas biológicas poderão marcar para sempre a humanidade, e deixar cicatrizes enormes.

Mas como toda grande mudança, principalmente ocasionada por guerras, novas potências podem surgir e esse pode ser o grande momento do Brasil e de outros países emergentes se desenvolverem ainda mais, possibilitando a conquista de maior espaço no cenário mundial.

Bom, independente das conseqüências e oportunidades para os países emergentes, gostaria de justificar claramente o título desta crônica: a ganância e a prepotência americana nesta guerra será tão grande, que os maiores atingidos serão eles mesmo. A vontade é tanta de atacar que esta nação está cega e não está conseguindo enxergar o que pode acontecer embaixo de seus próprios pés, enquanto eles esperam liquidar seus adversários como se fossem pequenos insetos indefesos. Aliás, não tão indefesos, já que supostamente essa guerra será causada por uma desconfiança sobre o poderio militar e bélico adversário e, já que por enquanto nada estão encontrando, quando encontrarem – se encontrarem – poderá ser tarde demais.

O grande encontro

Piriquito era o seu melhor amigo. Maurício adorava cães. Quando ganhou o Piriquito logo soube que esse seria, realmente, o seu melhor amigo. O Mau era um sujeito bastante pragmático e inteligente. Formado em duas faculdades (as melhores do país) e trabalhando dia e noite – correndo atrás do seu futuro promissor (pelo menos foi o que disseram na faculdade quando se formou) – nem se dava conta da sua situação.

Não é por nada não, mas o Mau era uma figura. Vaidoso, nunca saía de casa sem se arrumar. Bem apessoado, ninguém da turma soube dizer porque ele não havia tido uma namorada. Uns diziam que era muita frescura, critério demais. Outros diziam que faltava álcool na cachola, o que acaba dando no mesmo.

Seu amor por bichos era inenarrável, Cláudia sempre os adorou, desde pequenina. A paixão pelos animaizinhos só não era maior que a paixão pelos estudos. Sempre muito aplicada, inteligente e bonita.

Os mais “exigentes” (outros diriam “otimistas”) diriam que igual a ela existiam milhares. Não. Não, como Cláudia. Bonita, inteligente e ainda tinha a ousadia de ser a Miss simpatia; sorriso largo e fácil, humor nas estrelas – até em dias cinzentos e chuvosos. “Femme fatale”.

Na cabeça de todos, o Maurício era o cara que mais facilmente conseguiria dar razão ao excerto bíblico: “crescei e multiplicai-vos”. Mas ainda estava naquelas de procurar a mulher ideal. Difícil. Muita idiossincrasia.

Dizer que a Claudinha “ficaria pra titia” era blasfêmia. Se bem que ela nunca namorou, firme, mesmo. Muito independente, idiossincrática.

Maurício só queria achar uma mulher que valesse a pena, uma mulher simpática, de sorriso largo e fácil; que fosse bem humorada e inteligente – do tipo “aluna aplicada”. Ele só queria ser feliz. Ele; e a torcida do corinthians.

Não tinha culpa, todo homem que ela conhecia era um bolha! Bolha intelectual, bolha fofinho, bolha fortão, bolha bolha, etc. A Claudinha só queria ser feliz com um homem bonito, que gostasse de bichos como ela (não era um postulado, mas…), inteligente, com um futuro promissor; só isso.

Ele andava apressado (como se o mundo fosse acabar naquele instante), passos largos em direção à farmácia. Resfriado, nada demais; duas aspirinas e já estaria curado.

Cláudia, sentada na mesa do bar, precisava acordar cedo. Levantou.

Na mão esquerda ele levava umas moedinhas pra facilitar o troco. Na mesma calçada havia o “Bar do Pedrão” (um dos mais legais da Zona Sul) – seu preferido.

Ela estava terminando de pagar enquanto pensava aflitamente, olhando os casais nas mesas, quando iria encontrar o seu amor (talvez fosse mais difícil, ali, no “Bar do Pedrão” – quarta-feira não é um bom dia!).

Moedas na mão. O nariz estava incomodando. Contava as moedas, por distração mesmo. Para esquecer o resfriado e não olhar os casais felizes dentro do bar.

O troco. Saiu. Neste exato momento alguém vinha pela calçada e deixou cair algumas moedas. Ajoelhando em seguida para pegá-las. Foi só o que ela viu.

Você Decide

Nota dos Cronistas: recebemos esse texto no dia 25/07, antes de o Brasil ser penta. Apesar do atraso, valem o registro e a discussão filosófica do futebol, sempre atemporal.

Especialmente agora, época de copa do mundo, o assunto é sempre o mesmo. Seja nos botecos, nas festas, nas lojas, no trabalho ou, como bem nos contou o mestre Adelmo Leonel, até nas filas de banco! A conversa é uma só: Futebol.
Já que o papo é esse, então vamos lá: Independente das burradas do Felipão, da ida ou não ida do Romário, da fraca defesa verde e amarela, e etc, tenho uma duvida que gostaria de compartilhar com vocês. Duvida esta que me persegue desde o ultimo jogo do Brasil e, como não sou um “especialista” no assunto, não saberia responder com certeza, qual a resposta correta. Portanto, aproveitando época tão oportuna, conto com a ajuda de vocês para redimir de uma vez por todas essa pendenga.

Em nossas reuniões festivas, nas quais a “tchurminha” se encontra, independente de ser ou não copa do mundo, o assunto futebol sempre pinta, algumas vezes em tintas fortes e coloridas, outras vezes em cores pálidas e acinzentadas, porem está sempre na pauta do dia. Afinal, não é à toa que cerveja rima com “peleja”! Pois bem, numa dessas festas, após o chorado 2×0 contra a Bélgica, a bola tava correndo solta com Waguinho de um lado e Pezinho do outro. Esclareço:

Waguinho é Wagner Lemos Soares Maia, dono da Village Imóveis e filho do saudoso Dr. Breno Soares Maia. Waguinho, ou melhor, professor Wagner, comandava seus alunos nos idos e bons tempos do colégio de Passos, professorando tanto questões acadêmicas como esportivas, com sábia autoridade.

Pezinho é João José Stockler Calixto, meu tio e filho da nossa querida Vó Ritoca. Grande atleta em sua juventude, campeão “Junior” da então alardeada Copa Tiradentes de futebol de salão, até hoje futebolista juramentado, e palmeirense roxo.

Assim sendo, argüiam ambos:

– O mais importante, o burro do Felipão não há meio de por na cabeça: é o esquema tático. O passe! De dez passes, aqueles pernas-de-pau não tão acertando nem dois! – dizia irritado Pezinho.
– O pior não é isso não Pezinho, o Felipão precisa trabalhar melhor é a finalização. Os três Rs têm é que desentortar o pé. Acertar o gol! – argumentava o professor Wagner.
– Ora Waguinho, o gol só nasce de um passe bem feito!
– Tudo bem… Mas do que adianta um passe bem feito se o atacante tem pé torto e manda a bola pra fora?
– Tudo bem também… Mas muito mais importante é o passe!
– Nada disso. Mil vezes mais importante é o gol! Nunca vi time nenhum ganhar só dando passe bonito. Só ganha quem faz gol! Lembra da seleção de 82, do Paolo Rossi? Quem não faz, toma…
– E eu também nunca vi time nenhum ganhar sem pelo menos um passe bem feito, que é de onde se origina o gol. Portanto o passe é mais importante!
– Larga de sê bobo Pézinho! Cadê a tática no jogo contra a Bélgica? O time estava todo desarrumado, e ganhamos! O GOL é muito mais importante!
– Certeza q’ocê nunca jogou bola Waguinho… Mesmo contra a Bélgica, os gols só saíram por causa de 2 passes bem feitos! O PASSE é tudo num jogo!
– Nada disso, é o GOL!
– Lógico que é o PASSE!
– É o GOL!
– É o PASSE!

E a coisa se inflamou a tal ponto que chamou a atenção de todos na festa, e logo todo mundo queria participar com uma opinião… Era tanto palpite que nenhuma conclusão foi possível. Balburdia total.

Na tentativa de organizar a pendenga, armamos então uma “enquete” (palavrinha em moda esta, não?). Botamos a polêmica em votação.
Votantes devidamente contados e catalogados, urna arrumada, a votação iniciou-se… Terminado o plebiscito, e após angustiante espera pela esclarecedora resposta das urnas, o resultado:

– 3 votos nulos, 2 abstenções, 13 votos “GOL”, 13 votos “PASSE”…

Xiiiiii! Deu EMPATE TÉCNICO! Portanto, mais uma vez peço a sua ajuda.

– Se você acha que o mais importante num jogo de futebol é o PASSE, ligue 3521 9033.
– Se você acha que o GOL é o que vale numa partida de futebol, ligue 3521 7557.

A decisão é sua!

Duas Crônicas – 2 de 2

#2

Segui-me no caminhar. Rindo muito por dentro. A loucura, às vezes, assusta por trazer à luz os medos das profundezas escuras do ser.
Em frente a uma banca de jornal, um velho parou-me. Olhou-me. Silêncio.
Senti-me ofendido, mas não disse nada, apenas dei um passo à esquerda e entrei na banca. O velho… não sei. Por que devo dizer algo a seu respeito ?

Na banca, os chicletes…ah, os chicletes de sabor morango. Comprei dois, mascava um, folheando a revista pornô mais famosa da época, enquanto aguardava o troco que o vendedor contava com agouro, atrás do balcão. Contava e recontava aquelas míseras moedas enquanto chiava algo como: “…e esse merda nem pra levá a revista…”, sim, a revista… página 37, que curvas…

Recolhi as moedas ao bolso direito e saí da banca. Para meu desatino, o velho. Saco, de novo na minha frente parou. Dessa vez fiz diferente: “Velho, o que há de errado ?”

Após minutos, dois para ser exato, aguardando uma resposta, tomei conta de perceber sua mão esquerda, imunda, levantada com a palma para cima: mendigava.

Saquei as moedas do bolso, míseras, e joguei-as ao velho que sorriu com dentes podres. O dono da banca observara tudo. Quando me afastei, ouvi os gritos de fúria…que cena exdrúxula.

O dono da banca espancava o velho com porrete para tomar-lhe as míseras…moedas.
Peguei o outro chiclete de sabor morango e, masquei-o enquanto observava a luta. E que paulada o velho tomou na cabeça, caiu desmaiado sobre a grama ainda cheia de orvalho. O dono da banca sacou as moedas, as pôs no bolso, correu até a esquina e chamou o guarda. Este último, pegou o velho e levou-o embora dali.

O dono da banca sorria, contando as míseras…uma a uma.

O Outro Lado da Rua

Fazia sol do outro lado da rua e ele continuava ali, preso, no frio, respirando o ar congelante, no meio fio da vida, andando numa linha reta, paralela a escuridão.

O barulho das máquinas o ensurdecia. A luz verde o deixava cego. Os sons dissonantes, marteladas ininterruptas, uma gota de água pingava incessantemente em sua cabeça. Ele ia ficando louco. E perdido. E louco, e cego, e mudo às palavras bonitas da vida, e paraplégico para os campos de flores, e aleijado para os abraços carinhosos, e solitário.

Estava trancado em uma caixa fria, na contramão das emoções. A ele restava apenas a infeliz tarefa de observar o mundo, apenas olhar, nunca tocar, através das pequenas gretinhas da armação de papelão.

Trancado em uma cela, encarcerado em seus medos, asfixiado por suas esperanças, ele via o dia passar. E o dia passava e chegava outro igualmente cinza, e outro um pouco mais negro, e nada mais fazia diferença.
O frio púrpura mantinha seus dedos sempre no mesmo ato incessante. Batia na mesma tecla sem parar, e o barulho que fazia só deixava-o mais infeliz.

Olhava para o outro lado, perto, porém inalcançável. Um céu azul, um carpete verde, o barulho da água correndo, alguém que canta. Mas isso era apenas ilusão. Estava preso, entocado, guardado, encurralado em um corredor cinza, apenas a espera da morte, de algo que o levasse, que trouxesse a felicidade e colocasse um ponto final em seu parágrafo.

De todas as tristezas, ele tinha certeza apenas de uma coisa. O Inferno era frio, e não prendia ninguém. Estava ali porque queria, preso por algemas de medo, amarrado com cordas de insegurança, e sua falta de confiança pesava como bolas de aço.

Andava torto e manco pelos cantos escuros esperando encontrar um lugar para se esconder. Pensava forte e perdia, e um dia caiu tão fundo que não podia mais subir. Mas isso não o incomodava. Porque agora o ar que respirava era claro, era leve, era fino, e seu corpo agora era quente, e seus cabelos eram soltos, e estava coberto por um cobertor verde e macio, e uma luz forte o encorajava e aquecia, enquanto uma voz doce embalava-o num sono de paz, alegria, e enfim, eterno.

A Caixa

Quando seu pensamento recaía sobre a caixa, ela dizia: “Nunca!”. Era tudo o que restava a ela, mas o senhor que lhe entregara aquela pequena caixa dissera para que nunca a abrisse. E ela tinha palavra; e essa palavra era “Nunca!”. Não tinha mais nada, ninguém com quem contar, mas se agarrava à certeza de que aquela caixa nunca deveria ser aberta.

Sentada na cadeira, cotovelos sobre a mesa e mãos apoiando um rosto cansado, deixava que seus olhos definissem os contornos do objeto quadrado, fechado apenas por um durex. O que haveria lá dentro? De que vale a posse de algo que nunca poderemos ter de fato? Essas dúvidas pareciam a ela tão imorais quanto a simples idéia de puxar a fita adesiva e abrir a tampa. Mas o que sairia dali? Que segredos deixariam de existir se a caixa fosse aberta? E que pessoa horrível seria ela se não cumprisse sua palavra? Mas a realidade econtra-se muito longe da ética e seu dilema não era uma simples questão de lealdade. O verdadeiro obstáculo que se colocava entre ela e aquela caixa era um medo ainda inconsciente: o que teria ela se desse cabo de sua última expectativa?

Toda essa reflexão não resolvia seu problema de forma alguma, talvez a solução estivese lá dentro, quem sabe a desobediência fosse a única condição. Definitivamente as esperanças estavam todas depositadas no interior daquela caixa. Se algo ainda lhe pertencia, esse algo estava lá dentro. Era dela e estava ao seu alcance. Com um leve tremor nas mãos tocou a caixa e raspou com as unhas o durex que a lacrava, mas subitamente o movimento de seus dedos foi interrompido por um pânico incontrolável. O medo da perda se instalara em seus músculos e a fizera refém. De súbito, ela se deu conta de que a caixa poderia estar vazia e que poderia perder a única coisa que realmente restara.

Ficou, então, dessa forma decidido: na última prateleira da estante, lá no alto, fora do alcance de suas mãos, iria morar a caixa. Fechada e intacta. Agora ela sabia, aquela esperança era sua e jamais iriam tirá-la de si.

Sexta-feira (hoje é dia)

Estava ele sentado na mesma mesa, olhando a mesma tela que olhara ontem. Sua barriga já topava no móvel que sustentava o teclado em que seus dedos de ponta chapa pulavam. Saltavam como se fossem programados para tal; enquanto isso acontecia, sem perceber, seu pensamento avaliava: Será que está correto o que estou fazendo? Será que a lei permite ou será que há uma brecha para dizer que ela permite?

Era Sexta, todos já sabíamos que “hoje é dia”. Seus poucos cabelos, que ainda serviam para dizer que estava preocupado quando os coçava, já estavam entrelaçados; hoje começou cedo, quando ainda não havia chegado ninguém que o observava.
Seu chefe “zen” quase deixou de ser assim apelidado. Houve um “pega pra capá” e a coisa estava preta. Era a ordem versus a legalidade e parece-me que a ordem estava intransigente.

Do seu pequeno mundo administrativo e do alto de seu conhecimento adquirido olhou um outro companheiro que estava seguindo o mesmo rumo; chegaria aos poucos cabelos, coçaria a cabeça, seria amigo do mouse, teclado e monitor e admiraria a rede apesar de falar mal dela. Levantou, pegou o lápis que estava sobre a mesa e se dirigiu à mesa do seu companheiro. Tentou acompanhar seu raciocínio e lógica do sistema que ele manipulava. Decidiu não se meter, pensou em retrair, sua cabeça o questionou: O que fazes aí? Por que não está trabalhando? Vamos, para o trabalho já!
Era o momento de puxar uma reflexão, parece que não queria deixar seu companheiro no mesmo caminho. Puxou uma cadeira, sentou-se e mostrou a ponta do lápis. Apoderou-se de um estilete e com a ponta do pé deslizou o lixeiro onde colocaria as farpas que iriam pular ao apontar o lápis.

O companheiro que estava se encaminhando para o mesmo rumo que ele e seria salvo naquele momento, era eu. Com cuidado apontava o lápis e contava a história de uma professora que o havia ensinado “como apontar um lápis de verdade” e como usa-lo como se fosse uma ferramenta de produzir arte.

– Tem que ter a ponta longa e arredondada, para deslizar na folha e poder desenhar cada letra como se fosse a última letra a escrever.
– É estamos perdendo para o ritmo.
– E não é? Estou imaginando como será o futuro de nossa crianças, não sabem usar nem a magia do lápis. Vejo pelos meus filhos, a beleza, o sentimento, nada mais tem importância.

Não pude ficar alarmado e prestar atenção direito no que ouvira, porque estava intermitentemente apertando as teclas do meu mundinho administrativo. Após sua saída, que foi da mesma forma que a chegada (meio sem querer), percebi que eu também não olhava mais e não esculpia a ponta de meu lápis como se fosse prepará-lo para mudar o mundo, aliás, acho que faz tempo que não o uso mais.