Arquivo de dezembro, 2002

Fato

Olha procuro sempre um jeito melhor de dizer isso mas não acho. Sempre que digo as pessoas ficam assustadas e nem querem escutar minha explicação. Passo por homicida, anti-semita ou no mínimo anti-social. O fato é que, EU ODEIO GENTE. Isso, falei, pronto. Odeio o ser humano. Não todos, só ele.

Agora vou me explicar.

É lógico que os exemplos aqui não podem ser aplicados a todos os seres humanos mas sim a massa.

Cinema. Adoro cinema. Mas do mesmo jeito que eu amo o Rio de janeiro. Adoro o local mas a freqüência é péssima. Quando assisto um filme não vou lá pra falar. Se fosse pra falar iria a um Sarau ou coisa parecida. Não vou no cinema pra falar que tal cena é impossível, pra dizer que a tomada foi mal feita, para informar que eu conheço tudo sobre o ator principal, muito menos pra gritar que a atriz principal é “UMA GOSTOSA”. Isso tudo me irrita muito, e é causado por gente. Sempre tem ao menos um indivíduo pronto para falar. Num lugar onde tudo que você tem que fazer é escutar e ver.

Amo meus amigos, pais, namorada, o próximo mas odeio gente.

Odeio gente que fala mal do gosto dos outros. Odeio gente de mal gosto. Tem coisa pior do que ver gente se achando gente. Acha que está lindo, acha que é original, acha certo, acha errado.

Odeio hipocrisia natalina. “Te liguei pra desejar feliz natal”. Grande coisa, pra que ligar no Natal, dia em que nem você nem ele tem tempo pra conversar direito. Liga num dia qualquer, isso é legal, aí sim significa alguma coisa.

Odeio trânsito. Odeio os lerdos, odeio os apressados. Existe uma fila para entrar a esquerda de 15 carros. Mas gente é muito malandra para esperar. Tem que ir pela direita pra cortar todo mundo. Gente não pode esperar o farol abrir, tem que buzinar. Odeio buzina.

Odeio shopping. Cheio. Chiiii. “Charles vem aqui, solta o cadarço do homem”.

Odeio “politicamente correto”, pela frente acaricia o cachorro, por trás compra casaco de pele.

Odeio a mim mesmo, cheio de palavras mas com pouca ação.

Odeio tudo. Amo tudo.

Lágrimas de Matias

Não sei se essa pequena história é real. Não sei se posso considerar um conto de natal. Não me importo. Não tem mensagens bonitinhas ou crianças felizes (aliás, há crianças felizes, mas não passam de meros coadjuvantes). E para piorar ainda comecei o texto com uma negação.

Que imagem temos quando falamos em natal? Papai Noel, árvores de natal, presentes e neve, muita neve. Justamente essa a fixação de Matias, em sua cidadezinha de interior. Nunca havia visto neve na vida e provavelmente nunca veria. Não era exatamente uma cidadezinha, na verdade era um vilarejo, há 50 minutos da “cidade” propriamente dita. Entenda “cidade” como um lugar que agregue uma igreja, uma pracinha, um mercadinho (e, dizem as más línguas, uma casa de pernoite). Essa era todo o mundo de Matias, pequeno demais para caber neve.

A primeira vez que Matias viu neve foi em uma ilustração em um livro muito antigo, e aquela capa branca cobrindo todo o desenho o fascinava. Imaginava que textura poderia ter. Seria como andar nas nuvens? Macio como floquinhos de algodão? Cheiroso como espuma do sabão de coco? Mistério. Não entendia por que nunca nevava em seu pequeno vilarejo.

E a festa que fizeram na chegada do primeiro refrigerador na cidade? Aquele congelador branquinho só atiçava mais a curiosidade de conhecer a neve de perto. Diziam que caiam do céu em pedacinhos tão macios como pequenas folhas. Imaginava pequenos anjinhos descendo do céu.

Matias cresceu, apaixonou-se e casou-se com a primeira e única mulher que realmente amou. Clara era seu nome. Clara como neve, sempre a elogiava. Companheira, nunca o abandonou. Estava sempre ao seu lado, inclusive no fatídico episódio em que inundou a igreja de sabão ao tentar produzir uma neve artificial. Ainda o apoiava, mesmo tirando sabão dos santinhos barrocos.

Era uma tradição. Todo ano Matias e Clara cobria o gramado de sua casa com um grande tapete de algodão, luzes piscando e fazia a festa natalina da cidade. Mesmo franzino, Matias se vestia de vermelho e colocava uma barba branca para receber as crianças em seu tapete branco. Clara distribuía seus famosos biscoitos de nata para todos.

Assim foi por cerca de 60 anos. Matias e Clara. Até o dia em que Clara não mais pôde acompanhar o marido. Ela se foi, em plena véspera de natal. Fora levada por anjos, diziam todos. Nessa noite Matias não vestiu sua tradicional veste vermelha. Recolheu-se e chorou. Choro gelado. Choro dolorido. E o inacreditável aconteceu. Neve. Neve em pleno verão. Nevava como se fossem as próprias lágrimas de Matias.

Nevou durante dias. As crianças maravilhadas amontoavam-se e jogavam neve uma nas outras. Diziam que era algum milagre. Chegavam pessoas vindas de dezenas de cidades faziam a novena em frente à casa de Matias. O natal mais lindo de todos os tempos. O natal mais dolorido.

O verão passou e com ele a neve dissipou. Matias retornou à sua vida normal. Mantinha uma lojinha no centro da cidade, jogava dominó com o seu Domingues e o jovem Geraldo e tomava sua cervejinha junto com o Manuelzão, o dono do boteco. Não parava mais um minuto, sempre se ocupava ajudando na igreja, construindo uma edícula na casa da Dona Edite ou criando suas galinhas.

O ano passa e novamente o natal dá as suas caras. Matias não mais conseguia se esquivar da memória de Clara. Não montou seu tapete de algodão nem enfeitou o telhado de luzes. Nunca mais haveria biscoitos de nata na porta de casa. Pôs-se novamente recluso. E a cidade foi tomada por uma fina neve que caía. Bonecos de neve brotavam em cada esquina. Garotos improvisavam trenós. Casais passeavam maravilhados com tal cenário. A cidade novamente viva. O natal alegrado pela tristeza de um.

Todo ano era a mesma coisa. Já havia se transformado numa tradição. Neve, neve de verdade. Tanta dor. Matias não podia mais viver assim. Decidiu então que não mais sofreria. E a cidade aguardava ansiosamente pela neve que nunca mais cairia.

Sacaneando o Gúgôu

Dizem que a internet é revolucionária, que permite isso e aquilo, que é o paradigma do futuro. Shania Twain. Você acha que inventaram isso aqui pra trazer produtividade? De jeito nenhum. Internet só serve pra mandar emails com correntes de crianças desaparecidas e pra ver mulher pelada. Dragon Ball Z. Isso quando não é pior: tem gente que publica crônicas e outras inutilidades.

A maior prova da inutilidade da web é o tipo de gente que acessa o site dos Cronistas Reunidos. Sandy e Júnior. Não, eu não estando falando de vocês, namoradas e amigos nossos que ficam constrangidos toda vez que a gente pergunta “você leu meu texto?”. Vocês são demais, são especiais. AB Tronic. Uma coisa assim, de coação, entende?

O detalhe é que boa parte dos nossos acessos provem de mecanismos de busca, como o iarrú e o gúgôu. Padre Marcelo Rossi. E, olhando os relatórios de acesso (yes, we have webtrêndis!), a gente fica assustado. Las Ketchup.

Por exemplo, há gente que encontra nosso site procurando por contos, crônicas, cronistas. Rouge. Até aí, tudo bem. Mas a coisa muda de figura quando aparece Paulo Coelho fortemente colocado nos relatórios. Gata molhada. A gente tem muito, muito acesso por causa do nosso amigo cronista. As pessoas gostam sinceramente do nome dele. E procuram por isso no gúgôu.

Numa das nossas reuniões, inclusive, alguém sugeriu que mudássemos nossos nomes, pra trazer mais acessos. Sim City. O Ricardo seria o George Clooney, o Kris seria o Gianeccini e o Léo seria o Pikachu. Só não decidimos sobre o Hermínio, que ficou entre A Coisa e Curinga.

Além disso, mais coisas devem ser feitas: todas as crônicas deveriam ter como título alguma combinação de palavras chamativas. E o miolo do texto deveria ser pontuado por nomes de famosos e coisas pop para chamar a atenção dos mecanismos de busca. Assim que alguém procurar por “loira do tchan”, vai cair aqui. Não é o máximo? Se bem que alguém que procure pela Carla Perez nunca vai ler um texto desses. Enfim.

As cartas estão na mesa. Mário Prata. Torçamos para que dê certo. Em breve, vamos ter mais acessos que o The Girl. Xuxa.

Pequeneza

Gênero menor…..uf!

Queria ver escrever o que eu escrevo, quero dizer, o quanto eu escrevo. Todo dia é dia de crônica. Tudo bem, não tenho sido tão frequente assim. Mas quer saber, vou escrever sobre as pequenezas do dia. Vou e vou fazer do meu jeito. Bem ao estilo gênero menor, mesmo.

Vou falar sobre a nervosa e roída unha, sobre a caminhada frenética por entre as riscas da calçada – uma linha e você perdeu. Escreverei sobre os motoristas desavisados que cutucam o nariz toda vez que estão desacompanhados e parados nos semáforos da cidade, sobre a mocinha da recepção que sempre chega cedo, diz bom dia e você sempre acha que tem alguma segunda intenção, mas nunca tentou nada.Vergonha. Um cronista tem que falar dessas coisas pequenas sem tratá-las como um romance ou literatura do gênero. Imagina um cronista (nem escritor, nem jornalista), escrever um romance sobre miudezas da vida cotidiana. Não pode.

Se não posso, então escrevo crônicas. Crônicas pequenas, quase excertos de um grande livro que ainda não foi escrito. Desço a caneta para falar dos cruzamentos das avenidas da cidade – parece uma feira livre, tem de tudo: malabaristas, hare krishnas, celular, infláveis, etc. Posso falar, também, da esperança dos solteiros em encontrar alguém que vá mudar a sua vida, em um simples dia de trânsito; da pequena timidez frente-a-frente no metrô e o instante que você se pega observando a pessoa que segundos atrás estava a te observar (situação mais constrangedora). Gênero menor tem que tratar das picardias de todo dia, do cara que tropeça e quase cai, da velhinha que não consegue uma boa alma para ajudá-la a atravessar a rua, do cachorro que sempre segue o mendigo, ou do mendigo que sempre tem um cachorro seguindo, coisas menores mesmo, mais superficiais.

Cronista não pode filosofar nem tratar de coisas maiores, isso é coisa de escritor. É quase um postulado. Quem faz literatura são os outros, nós fazemos um pouquinho de tudo e acabamos fazendo crônicas. Isso, um pouquinho de tudo. Quão pequenas são, na verdade, as mentes destes tais que assim pensam e não vêem a riqueza dentro da pequeneza diária. Não enxergam sobre o que realmente falamos e quando falamos. Não é o mendigo e o cachorro, é a amizade incondicional; não é o semáforo, é a pobreza material e a presença de espírito de um povo trabalhador. Perceba que por mais escritores que sejam nada os faz compreender que gênero literário não importa. O importante mesmo é escrever e registrar seus pensamentos; para que fiquem marcados na história, mesmo que seja na pequena história dos seus conviventes.

Squish?!?!

squish …. squish …. squish…. squish …. squish …. squish …. squish …. squish…. squish …. squish ….

SQUISH …. SQUISH …. SQUISH…. SQUISH …. SQUISH …. SQUISH… SQUISH …. SQUISH …. SQUISH
…. SQUISH …. SQUISH …. SQUISH…

( grrrr )

squish squish squish squish squishsquishsquish squish squish squish squishsquishsquish squish squishsquish squish squish squish squish squish squish squish squish squishsquishsquish squish squish squish squishsquishsquish squish squishsquish squish squish squish squish squishsquish squish squish squishsquishsquish squish squish squish squishsquishsquish squish squishsquish squish squish ….squish….squish….

( GRRRR )

SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH SQUISH…. arf, arf….

squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH SQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISHsquishSQUISHsquishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISHsquish SQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISHsquish SQUISHsquishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH squishSQUISH SQUISH squishSQUISH squishSQUISH squish… SQUISH…. squish…. uf… uf…

… squiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiish

… squiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiish

SQUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIISH

 

SQUish… Squi… Sq…. s …. pfffff …. pfffff….*

ps: tanto espremi que pari uma crônica.

Mal Sabiam Eles …

Após 35 anos de seminário Padre Romião se cansou. Pela primeira vez em todos aqueles anos não acordou cedo para rezar. Não adiantou o Padre Fernandez chamá-lo por cinco (Deus sabe quanto!) infindáveis minutos.

Naquela manhã (que Deus o perdoasse) Padre Romião ia apenas dormir. Dormir como nunca dormira desde seus 14 anos, logo após a formatura do ginasial, onde bebeu 3 litros de cubra-libre, numa típica aposta adolescente com o Fefê (Fernadez, Pe. Fernandez).

Naquela noite, lembrou Romião, dançou como nunca, festejou, bebeu, amou a Ritinha (Deus do céu!) e dormiu, como dormiu.

Depois disso, como eram os filhos mais velhos, Romião e Fernandez ingressaram no seminário, e a Deus entregaram suas vidas (e suas horas de sono).

Durante toda manhã, o clima do seminário estava conturbado. Se lá fosse um congresso de secretárias, todas estariam fofocando ininterruptamente, comentando o A-B-S-U-R-D-O que Rôrô estava cometendo. Como lá era um seminário, ninguém falava nada.

Perto da uma da tarde, Padre Romião apareceu no pátio. Estava de chinelas, uma bermuda laranja fosforescente (com a inscrição “Deus me livre!” na parte traseira), sem camisa, mascando o crucifixo como se fosse um pedaço de palha, e o dedo mindinho esquerdo coçando insistentemente o tímpano da respectiva orelha.

Todos pararam, estupefatos com a surpreendente cena. Ao chegar na cruz do centro do pátio, ele olhou ao seu redor, e sabendo que as suas primeiras palavras estavam sendo aguardadas por todos, como numa última esperança de uma explicação plausível para toda aquela loucura, estendeu sua mão direita (que não estava ocupada com a coceira no tímpano) e disse lentamente:

-“Dia …” (ele estava com muita preguiça, para dizer “Bom Dia!”, somente “Dia … ” já cumpriria a sua função).

E continuou sua marcha. Sem dizer mais uma palavra, abriu o portão, saiu do seminário e não fez nenhuma questão de fechá-lo.

Em sua caminhada pela calçada, nada causava-lhe mais prazer do que o “plec” das sandálias batendo contra seus santos calcanhares. Dois quarteirões depois, Romião (apenas Romião), entrou no Bar do Seu Jesus. Repetindo a expressão utilizada anteriormente:

– “Dia …”
– “Dia …” respondeu, em coro uníssono o grupo de senhores que jogavam caixeta.
– Ô Jesus … Vê um copo de groselha com leite pro velho aqui.

Jesus (Seu Jesus, melhor dizendo) atendeu o pedido do velho barrigudo com coceira na orelha. Lentamente, Romião pegou o copo, se virou para o grupo e disse:

– Quanto é o cacife pra entrar no jogo ?

Enquanto isso, todos os membros do alto clero se reuniam no seminário para resolver qual seria a punição do pobre Romião ao voltar.

Mal sabiam eles …