Arquivo de janeiro, 2003

Promessa

Alô? Dani? Tudo bem?

Como assim quem é? Sou eu! O João!

Que João? Que estudou com você!

No colegial.

Isso mesmo! Se bem que eu tirei o aparelho e não uso mais óculos fundo de garrafa.

Se são horas de ligar? Por que? Está ocupada?

O que? Ela está sendo esquartejada? Por macacos alados? Ah, não liga não, acabou de acontecer isso com minha vizinha.

Na verdade eu liguei para você pra te convidar pra sair.

Nem vem com essa de “os céus estão em chamas”. Perfeito para tomarmos uma cervejinha.

Maremotos também? Estamos a mais de mil metros acima do mar.

Qual o problema do bar?

Acho que o bar deve ficar aberto sim. Não é por causa de um meteoro que o seu Juca iria fechar.

Se o problema são as hordas do inferno rondando seu bairro, eu te pego na sua casa.

Espera um momentinho? Ei! Dá para parar de gritar aí? Tô no telefone! Ah, vão pro inferno vocês!

Oi, desculpa, é que meus vizinhos são meio escandalosos mesmo.Só porque estão sendo perseguidos por mortos-vivos acham que podem dar “piti” no meio da rua.

Seus vizinhos também estão gritando? Ah, chuva de fogo. Por isso a barulheira.

Mas e aí? Vamos sair?

Não? Mas você prometeu!

Quando? Foi quando me disse que sairia comigo apenas no dia do juízo final.

Não, não desliga! Alô?… Dani?… Alô?…

Um pingo

“Quem fez essa porquera?” – foi o grito que eu escutei.

Eu já estava quase pegando no sono sentado na forma que o meu corpo decalcou no sofá da sala. O sofá é um lugar mágico, de onde vêem todos os sonhos! Acreditem! Contudo não pude deixar de escutar esse berro, mesmo porque lá em casa nunca ninguém foi, vamos dizer assim, discreto.

Foram os cinco segundos mais longos de toda a história mundial, mas eu levantei; músculo após músculo, parte após parte, eu fui me erguendo do servo de Morpheu para ver o motivo de tal ato escandaloso.

No banheiro. Sim ………….. no banheiro. Uma simples gota. Digo gota porque não sei o que ela continha. Podia ser, mas podia não ser. Podia ser apenas água. De qualquer forma, ela estava lá: repousava sobre a tampa do vaso sanitário (na verdade eu pensei em “privada”, mas é uma palavra muito feia de escrever). Mas quando falo “tampa do vaso sanitário” quero dizer, não a tampa de tudo, aquela que encerra o assuto, quero dizer aquela na qual se pensa. Foi essa que você pensou? Então: essa mesma.

– Quem fez essa porquera? – indignada com a situação.
– …

Eu não respondi porque não consegui. Fiquei a ver a posicão das coisas no banheiro, o espelho sobre a pia, a pia ao lado do vaso, ao lado do cesto de lixo. Podia muito bem ter respingado da pia. Podia, sim. Dependendo da força da água do próprio vaso, ela respinga também. Repare.

Observava, observava muito, acho que era o sono mal acabado que fazia voar entre o etéreo e o terreno. De repente um estalo. A vida! É, a vida! Estar na cuba rodopiando até o ralo. Cair torneira abaixo pela cuba ………… o tempo vital que se vai sem que se possa estancar a trajetória natural. Mas o Homem pode. Tem que inventar, não se atém ao propósito inicial, é muito ansioso e intervém com seus tampões e o que mais for evitar o livre correr da vida. Tudo isso é a mais pura acuidade da vida: seguir da torneira para a cuba e por lá ficar seus ínfimos segundos até que se vá. E poucos, somente uns poucos conseguem, entre o abrir da torneira e o escorrer pelo ralo, respingar para a tampa do vaso ……… privada – vou escrever privada mesmo – e viver o que não se está programado, viver o que não é o mais fácil, não ser como deveria, mover-se. É preciso mover-se da inércia humana, nascer, crescer e morrer como fizeram outros antes de você. Você precisa marcar a história, fazer a história nem que seja a sua própria, porque no fim ………….. no Fim meu caro, todos desaparecemos: ou escoando pela cuba da pia ou evaporando da tampa. Porém quem evapora aproveita o tempo de ir que de fulgás e pouco comparado ao tempo que o jato da vida te leva para o ralo.

E depois de tudo, só vai restar a lembrança daquele pingo na tampa do vaso sanitário.

Um novo Homem

Homem. Ser forte. Duro, Insensível. Nunca derrama uma lágrima. Homem afinal. Arruma a torneira, troca o pneu. Homem. Forte. Insensível.

Bela descrição para tempos atrás. Hoje o homem evoluiu. Sente, ama, chora. E que evolução podemos dizer. Afinal negar instintos é um atraso incalculável. “Oh yes i was a great pretender!”. Mas não finjo mais.

O novo homem gosta de falar que ama, não deixa de assumir quando está com medo e amigo-irmão merece beijo no rosto. Lógico que sem boiolice. “Sô macho pô”.

Isso é tanto verdade que os papos nas mesas de bar andam mudando. Os homens não procuram mais a maior quantidade e sim qualidade. Frases como “Vamo catá as vagabunda!!!” estão dando lugar a “Preciso arrumar uma mulher direita”.

O espírito de coletividade continua como sempre mas foi desviado para novos usos. Em vez de ” Vou agitar aquela perva pra você” ouve-se “Cara, eu não vou deixar você cair no mundo da putaria de novo.”

Existem novos homens compromissados também. Hoje em vez de aproveitar qualquer brecha pra sair escondido, faz questão de levar a cônjuge ou ao menos avisar onde, quando e com quem vai. Não por controle e sim por respeito. O novo homem compromissado já deixa a mulher sentindo saudade. Ele aprendeu a valorizar pois sabe que a demanda está altíssima mas a oferta mínima.

Por tudo isso, mulheres deliciem-se, pois cada vez mais encontramos homens que ligam pra dizer que estão com saudade, correm de mulheres prosmícuas e só esperam por você pra dizer: “Eu te amo”. Mas preparem-se, pois se um dia você estiver num sítio, ouvir um barulho e pedir pra ele ver o que é não estranhem se ele estiver embaixo da cama.

Homem de Família

Todos no bar se viraram para olhar aquela mulher que entrava assim tão bruscamente. Sem levantar a cabeça, Jorge, que tomava seu choppinho sagrado de sexta, apenas olhou de soslaio. Nunca a vira antes, mas era o seu tipo de garota. “Essa é pra casar!” – como ele costumeiramente falaria. Ela parecia procurar alguém, ao bater os olhos em Jorge não teve dúvidas, ajeitou seu vestido florido, pôs o dedo em riste, caminhou em sua direção com ar indignada e esbravejou:

– Jorge! Seu viado! Você esqueceu de pegar o nosso filho no colégio de novo! Não quero mais ouvir suas desculpinhas! Volte já para casa e peça perdão para ele!

Jorge, com seus 34 anos, nunca se casou, nunca teve filho algum (pelo menos que ele saiba) e menos ainda prometeu algo sobre buscá-lo no colégio (de novo). Jorge mantinha sua cabeça baixa. Vinha de uma família tradicional do interior paulista e desde a infância aprendia os valores familiares. Casar na igreja, respeitar a esposa, dar o máximo para os filhos, todas aquelas coisas que ensinavam nas chatas aulas de catequese nos sábados. Jorge admirava seus pais por conseguirem seguir tal cartilha ao pé da letra. 40 anos de casados e ainda se amavam, se namoravam, passeavam de mãos dadas. Jorge cresceu com aquele sonho de infância de encontrar alguém, constituir família e (como diria Belchior) ser como seus pais.

Mas algo deu errado no caminho. Virou um bom-vivant de primeira. Playboy, almofadinha, filhinho-de-papai, mimado, é só escolher o adjetivo. Desconhecia a palavra “relacionamento”. Solteiro convicto. Comeu famosas, chutou modelos, destruiu lares, produziu muitas lágrimas desiludidas sem se arrepender em momento algum. Aproveitar a vida. Liberdade. É tudo que um homem deseja. Agora vem uma louca qualquer cobrando desculpas para um filho que nunca teve?

Jorge terminou de beber o último gole de seu chopp, respirou fundo, pensou em seus pais, e resignadamente respondeu com uma voz pesarosa:

– Sim senhora.

E todos do bar acompanharam a figura sair cabisbaixa atrás de tal mulher. Há quem diga que apesar disso conseguiram ver um discreto sorriso no rosto de Jorge.

Ah! O futuro

Um bezerro. Coisa bonita que é um bezerro, toda aquela vitalidade e dinâmica próprias de uma jovem criatura – celebração da vida! Quando olho para aquele ser criado pela grande mãe natureza até esqueço que o bezerro de hoje é o bife de amanhã. É verdade, aquela coisinha linda que passeia pelos campos vai crescer e tornar-se um grande e suculento, bife. Pois é; é o que e vejo quando olho para um bezerro.

Muitas pessoas, apesar de fisiologicamente enxergarem – vocês não imaginam que susto tomei quando escrevi esta palavra; que palavra horrível: enxergar – não conseguem ver o que existe pra ser visto, admirado, olhado e todos os outros sinônimos que seguem. Na verdade é um exercício de projeção, daqueles que se faz em dinâmicas de grupo (“onde você imagina estar daqui a 10 anos?”), bem chatos. Você vê hoje e enxerga longe, projeta o futuro daquilo visto …… é bem divertido.

Muitos de nós enxergamos, mas, ainda assim, não vemos a sociedade – odeio usar essa palavra – que se cria sob nossas barbas. Uma civilização bastante democrática e respeitadora do livre arbítrio (tudo bem, exagerei!) na qual as pessoas adoram, por exemplo, furar a própria pele e marcar-se com idéias, imagens; usam o próprio corpo para dizer, quando a boca e a voz não bastam. O mais engraçado é imaginar o dia em que nós estivermos bem, mas bem mais velhos andando por um país, cidade ou rua e olharmos inocentemente para o lado: idosos, como nós, cobertos de tatuagens, pequenas ou enormes, contudo enrrugadas. Difícil acreditar que haverão velhinhas com piercings em seus umbigos ou velhotes marrentos com seus mamilos perfurados.

O baile da terceira idade será uma grande curtição. Um bando de senis chacoalhando o esqueleto ao som do mais puro Tecno ou Drum’bass, enchendo a cara de cerveja e energético – talvez o energético tenha algumas contra-indicações.
Grande terra da democracia! Verão, enfim, o fruto da proliferação da liberdade sexual e todo o aparato GLS desfilando pelas ruas em boas e enormes rugas. Na fila do Banco, naquela preferencial para idosos, estará lá um amontoado de velhos como quaisquer outros esperando a pequena aposentadoria como sempre. Nesse palco vexatório, um velhinh(o) mais simpáico irá virar para trás e beijar aquele outr(o) velhinh(o) bigodudo. Sim, meus caros, veremos tudo isso, mas não de um jeito avesso; de um jeito inédito, afinal ainda não estamos velhos, tão velhos.

Espero que não me condenem pelo tom mais forte da imagem mental que eu provavelmente criei (“eu criei um monstro!”). Espero que haja discernimento entre a percepção do ineditismo e o mau gosto e que passado alguns anos mais, talvez muitos; outras estréias imagéticas possam percorrer nossas mentes antes que percamos a capacidade de, realmente, enxergar.

Ramón?

Era uma cidadezinha pacata. Pacata até demais. Chata eu diria. Daquelas onde até o tempo tem preguiça de passar. Uma cidade exatamente assim que Ramón procurava. Chegou discreto, procurou um hotel, não achou. Acabou na casa da Dona Neide.

– Me informaram que a senhora está alugando um quarto.
– Oi! Estou sim! Claro! Tudo bem? Eu sou Neide! Qual o seu nome? É raro aparecer alguém diferente por aqui! De onde você é?
– Eu… Você não está me reconhecendo?
– Não, deveria? Desculpe, mas é que quando chegamos a uma certa idade, estava até comentando isso com a Lurdinha e…
– Não é possível! Essa cidade não pode ser tão pequena. Até no exterior eu sou reconhecido pelas ruas. Você nunca ouviu falar de mim? Ramón?
– Ramón? Que Ramón? Não… Nunca ouvi falar de nenhum Ramón. Mas é que sou meio desligada e até outro dia…
– Tá bom, tá bom, melhor assim. Até é melhor que a senhora não fale para ninguém que eu estou aqui. Sabe como é a imprensa. Estou procurando sossego.
– Você é artista? Aimeudeus! Eu nunca recebi um artista aqui em casa, quer um bolo, café, biscoitinhos, não repara que a casa é simples e você pode ficar…

– Lurdinha! Você não vai acreditar! O Ramón está hospedado aqui! Quando ele chegou eu nem acreditei e…
– Ramón? Que Ramón? Você tá doida Neide?
– Ai Lurdinha, você não conhece o Ramón? Ele é uma estrela! Internacional! E está aqui em casa! Que emoção! Acho que meu coração vai explodir. Lembra aquela vez que…

– Martinha, a Neide acabou de me ligar. Adivinha quem está aqui na cidade!
– Fala logo Lurdinha!
– O Ramón!
– Ramón? Que Ramón?
– Como você é desinformada Martinha! O Ramón é um artista e trabalha na Globo!

– Odete? O Ramón está na cidade.
– Ramón? Que Ramón?
– É astro da novela!

– Ramón? Que Ramón?
– Adelaide… O Ramón… É modelo…

– Maroquinhas… Ramón… Cantor…

– Carminha! Ramón! Hollywood!

– Ramón…

– Ramón!

– Ramón? Que Ramón?

Uma multidão já se acotovelava em frente à casa da Dona Neide para ver de perto uma grande estrela de verdade! Essa sumidade; astro de televisão, cinema, cantor, poeta, escritor e modelo internacional. Por onde andava era cercado por fãs insandecidas em busca de autógrafos, beijos e até pedaços de sua roupa.

– Você pode cantar para a gente? – Recita um poema para mim! – Eu li o seu 15 vezes! – Eu quero me casar com você! – Me dá uma cueca sua! Mas tem que ser usada! – Posso te entrevistar pro jornalzinho do colégio? – Você pode batizar a nossa filha? – Que cor eu pinto a cerca de casa? – É verdade que você já namorou a Madonna? – Receba a chave dessa cidade. – Agora a cidade terá o nome de Ramonópolis!

Ramón desesperado com tanto assédio fugiu repentinamente e nunca mais voltou para a recém batizada cidade de Ramonópolis. Deu as costas em definitivo para a placa “Bem-Vindo à Ramonópolis, a cidade escolhida pelo grande Ramón.” que intrigava os visitantes desavisados:

– Ramón? Que Ramón?

Estranheza

Carlos havia acordado com uma sensação estranha de alegria que não consegui saber o porquê de tudo isso. Há muito tempo estava sozinho, seus amigos haviam sumido, alguns inclusive haviam morrido de overdose ou por algum tipo de ato violento. Seu trabalho não lhe trazia nenhum prazer, seu gato havia desaparecido há duas semanas.

Mas como um germe que percorria suas estranhas aquela sensação ia se espalahndo pelo seu corpo e pentrando no seu íntimo. Seus lábios rasgados pelo frio esboçavam um sorriso meio atrapalhado e seus olhos emanavam m brilho desconhecido. De repente começou a se achar bonito.

Aquela sensação de alegria começou a despontar como um princípio de felicidade. A partir desse momento Carlos entrou em desespero. O que iriam pensar dele? Queria fumar e não conseguia: estava envenenando seu corpo. Queria beber e o mesmo pensamento lhe vinha a mente. Tento tragar uma dose de uísque barato e aquilo voltou na mesma velocidade que veio. Tentou drogas. Suas mãos não atendiam seu comando.

Correu para a rua. A vizinha, uma senhora de uns 70 anos que plantava violetas e distribuia santinhos para nos arredores como num passe de mágica sorria para ele. Desceu as escadas correndo enquanto escutava os pássaros cantarem ao fundo e no seu caminho pequenos filetes de um sol da manhã cortavam aquele corredor de forma quase poética. Chegou a portaria e o porteiro lhe dava um “Bom Dia Sr. Carlos” de forma que ele nunca havia escutado antes.

No seu caminhar atrapalhado e desconcertado, porém leve, bebês riam para ele, pessoas estranhas sorriam e o dia de certa forma bizarra, estava lindo. Foi quando encontrou Clara.

Ela estava lá, parada, seus cabelos ruivos ao vento, seus olhos azuis reluzentes e suas tatuagens adornavam seus ombros de uma forma singela e delicada… toda sua crise desapareceu. A razão de tudo aquilo estava 20 m a sua frente e sua vida a partir daquele momento tomava um novo rumo… só pensava em cruzar a rua e ir ao encontro da amada…

Nas capas dos jornais sensacionalistas no dia seguinte a manchete era: “Drogado é atropelado por ônibus em avenida da cidade”.

Crônicas de Um Preguiçoso

Existe dia pior que a segunda-feira? Você já vai trabalhar cansado, freio de mão puxado, pegando no tombo. Domingo, quando a tarde vai caindo, eu já estou dormindo acordado. Se fosse candidato a presidente eu proporia o fim do expediente de segunda, pois tudo que é de segunda, pode ter certeza, não presta.

Agora, veja só que festa, que beleza de Creuza: quatro dias pegando no duro e, depois, três dias só na moleza, na maciota – sombra, rede e água de coco. Ainda assim, neguinho vai dizer que só vota em mim se eu também propor dois meses de férias, vinte folgas e as licenças namoro e amizade (antes das licenças paternidade, casamento e maternidade). Tenha santa paciência! Aí também já é demais, gente!. Não se compra mais voto como antigamente (e a eleitor comprado olham-se os dentes?).

O melhor dia da semana é a … quinta-feira. Só porque está longe da segunda e pertinho da sexta… e só de pensar na sexta já dá excitação e ansiedade. Impossível não pensar na cerveja estupidamente gelada. A sexta é a sexta maravilha desse mundo, é hour concurs, é dia santo. Um amigo meu, sempre quando batia o ponto, dizia cinicamente: “Hoje é sexta: só trabalha quem é besta”.

A sexta é tão boa que é sinônimo de vários predicados mundanos: amante, barregã, manceba, muruxaba, rapariga e concubina. É o que nos ensina o Aurélio, o pai dos burros (e se Aurélio é o pai, Houaiss é o quê – tio, avô?). “As reuniões da maçonaria são às sextas, mas em vez de irem às lojas, os homens vão é às casas de suas teúdas e manteúdas. Daí a gente chamar essas mulheres de sexta-feira” (Mário da Silva Brito, em “Conversa Vai, Conversa Vem”).

Já o domingo, que é véspera da segunda, literalmente é um dia inútil. Tenha ou não missa, praia ou futebol, domingo é um dia que não cheira nem fede. Quando não se exaure no ganha-e-perde do futebol, o domingo se acaba logo ao pôr-do-sol. É o dia mais curto da semana: acorda-se tarde e dorme-se cedo. A tarde cai, o dia vai…

Diz-se que o trabalho dignifica o homem, mas todo mundo vive sonhando com as férias, planejando a aposentadoria, aguardando um feriado prolongado, uma licencinha remunerada. Ah!, eu me sentiria realizado na vida se achasse uma mecena para bancar minha literatice de segunda! Não me importaria se fosse rotulado gigolô de letras ocultas.

E se você pensa que os caminhoneiros amam o trabalho, você “está viajando na maionese”. Veja o que eu li em pára-choques de caminhões: “Um péssimo dia de pescaria é melhor que um ótimo dia de trabalho”. Outro: “Preguiça é o hábito de descansar antes de estar cansado”. E mais: “Trabalhar para patrão pobre é pedir esmola para dois”.

Pois é, eu queria que o mundo se acabasse em barranco… para eu morrer encostado! Mas se meu chefe ler essa crônica, acho que vou é ser colocado no olho da rua – para aprender a não escrever besteiras, inutilidades, coisas que não levam a lugar algum. E lá na empresa onde trabalho, é certo, quem vai me dar o cartão vermelho será um desses caras que odeiam a segunda, mas fingem amá-la, venerá-la, idolatrá-la.

Eu tinha um vizinho que, aquele sim, amava o trampo. Era “pau para toda obra”, um cidadão que, enquanto descansava, carregava pedras. Tanto era assim que passou a própria noite nupcial sozinho no escritório, trabalhando – enquanto a mulher estava em pleno gozo da lua-de-mel, num pedaço de céu. Também, pudera!, o cara foi se casar logo numa segunda-feira! Só podia ser um casamento de segunda (não foi amor à primeira vista).

Para encerrar essa apologia à preguiça, uma piada mais velha que a posição de andar para frente: numa segunda, um cara apareceu num lugar onde estavam oferecendo emprego. O suposto candidato chegou lá se espreguiçando, esticando os braços e falando pausadamente: ” É… a-qui…. que… es-tão… o-fe-re-cen-do… um… em-pre-go…?”

O responsável pelo recrutamento, admirado com a “disposição” daquele cara-de-pau, de imediato questionou: “O senhor tem certeza de que quer o emprego mesmo?” E o preguiçoso – esticando os braços e bocejando – respondeu com a maior naturalidade deste mundo: “Não…é… pra… mim… não… É… pro…meu… ir-mão… que… fi-cou… em… ca-sa… dor-min-do…” .

Adoescer, ops! Adolescer

Ser adolescente é a coisa mais complicada do mundo. Que fase mais cheia de problemas! Eu mesma estou nesta fase e sei quão complicada ela é…

No momento, pelo menos para mim, é aceitar que aquelas “criaturas”, que até alguns anos atrás faziam parte de outro mundo, começaram a partilhar do seu mundo, que antes parecia ser particular, tranqüilo e livre de preocupações. Esses seres, que chamamos de garotos, entram de repente, sem serem convidados, nos nossos mundos, que pensávamos ser exclusivo, e quando percebemos, estão lá, dividindo o mesmo espaço.

Em princípio, achamos isso uma coisa horrenda e totalmente sem sentido. Como criaturas tão repugnantes ousam se aproximar de nós? Mas depois, sem aviso prévio, mudamos totalmente de opinião. No final eles não são tão maus assim…E começamos a pensar que nossa convivência com esses até então, desconhecidos seres será pacífica.

Como num efeito dominó, nosso primeiro pensamento errado gera outro, e isso continua, até a última peça. Erradas estávamos novamente, pensando que esta nova experiência não traria problemas. Mas ela causa. Não como nós pensávamos, mas causa.

Dessa aproximação pode surgir “algo mais”, que cada um dá um nome: atração, paixão, amor…Esse sentimento, que antes era estranho, começa a mudar o nosso jeito de agir e conseqüentemente deixa bem claro que está presente (ele não é nem um pouco discreto). E normalmente, ser indiscreta é a última coisa que você quer…Além do mais te deixa mais confusa do que era antes…

Eu mesma passo por isso agora e sinceramente não sei o que fazer. Mas pensando bem, que graça teria o amor se soubéssemos exatamente o que fazer? O legal mesmo é não saber, se confundir (certo que na hora você não pensa bem isso…).

Mas o que mais confunde nossas cabeças, são os sentimentos dele. Nós até podemos saber o que sentimos, mas… E ele? O que ele sente? O que ele pensa de nós?

Por mais confuso que pareça no fundo gostamos…Nem tentamos fugir, pois sabemos que não ia adiantar mesmo. Assim continuamos neste jogo complicado, a que teremos de nos acostumar, porque provavelmente não será a última vez que será jogado. Deixamo-nos levar e o que tiver de ser, será.

O Velho da Filosofia

Havia acabado a primeira parte da aula e desci para tomar um café. Chegando no bar me decidi por uma coca e fui tomá-la na companhia do sol. Fazia calor, embora ventasse, estava um belo dia. Enconstei-me no muro, sozinho como sempre, e comecei a tomar meu refrigerante enquanto observava as pessoas passando. Vi algumas garotas lindas, outras nem tanto assim e um cara velho e mal vestido que olhava para mim. Desviei meu olhar para a escada ao meu lado e jovens felizes conversavam empolgados sobre alguma coisa. Voltei minha cabeça novamente na direção do velho e pude ver que ele se aproximava.

– Será que você poderia me arranjar cinqüenta centavos para eu tomar cerveja?- perguntou o velho – é que tenho apenas cinqüenta.

Não sei muito bem porque, mas eu disse:
– Claro, deixe ver se eu encontro algum trocado.

Enquanto procurava em meu bolso o velho se encostou no muro ao meu lado; arranjei algumas moedas e dei uma espiada, eram três moedas de cinco centavos e uma de dez; voltei a procurar, no outro bolso dessa vez, e enquanto isso o velho começou a falar:

– Sabe, eu não sei onde nós vamos parar. As coisas não andam nada bem por aqui, esse governo não está tratando as coisas com a devida seriedade. Eles pensam que nós somos palhaços.

O velho era um sujeito mal vestido, com a barba por fazer e os dentes mal cuidados. Ele cheirava a álcool e estava claramente bêbado. Falava muito baixo.

– E o Fernando? Você viu como ele está mudado? Não é mais o mesmo que conhecemos – dizia o velho como se eu o conhecesse há anos, e nós ao Fernando Henrique – e tudo que ele acreditava? E seus ideais?

Era espantoso, apesar da aparência de mendigo, aquele cara falava corretamente e sabia se expressar, parecia ser instruído e falava de assuntos atuais. Eu não encontrara mais nenhuma moeda em meus bolsos e recorri então à minha carteira, onde encontrei uma nota de um real e dei a ele. Eu não me sentia dando uma esmola, assim como não podia me sentir emprestando dinheiro, pois sabia que não o teria de volta. Não sei se estava daquela forma querendo apenas me livrar dele ou simplesmente em um dia de bondade, apesar de não saber se fazia bem ou mal em lhe dar o dinheiro, e pra ser sincero, eu nem pensei nisso, simplesmente dei a grana pro cara, sem saber muito bem porque. E ele continuava a falar:

– Eu sou fotógrafo – respondia ele a uma pergunta que não havia sido feita – faço uns trabalhos por aí. O que é que você tem lido?
– Ultimamente tenho lido Rousseau e Hume, aqui pra faculdade – respondi timidamente.
– Você faz o quê? – me perguntou.
– Filosofia.
– Qual professor você está gostando mais?
– Maria das Graças – respondi.
– Ah – murmurou ele como se recordasse de um anjo – eu gosto da Marilena Chauí.
– Eu não a conheço. É que estou no primeiro semestre.
– Ah, começou agora, filosofia é muito difícil. Quer dizer, não é muito difícil, é apenas trabalhoso e eu sou muito preguiçoso. Tem que ficar pensando, pensando . . . eu tenho preguiça.
– Eu também sou preguiçoso – respondi sendo sincero, mas sem estar muito interessado na conversa.

Foi então que ele retornou ao assunto de política e também se deu a liberdade de falar algumas besteiras, o que me tranqüilizou, pois era exatamente isso que eu esperava de um bêbado mal vestido. Porém, o que eu vira até ali era uma conversa entre dois estudantes, só que um com vinte e um anos de idade e o outro, por volta de cinqüenta.

– E essas alianças do Fernando Henrique, o que ele pretende com isso? – começou o velho – Você acha que a Dona Ruth vai agüentar? E você acha que ele vai querer continuar com ela? Vai nada, ele vai querer é menininha novinha, o que ele quer é ninfetas.

Durante toda a conversa, eu mantinha meus olhos adiante, olhando as pessoas passando e as duas meninas sentadas no banco da frente que, estranhando o fato de eu estar conversando com um bêbado, não paravam de me olhar. Porém, nessa parte do nosso diálogo, eu olhei intrigado para ele, sem saber o que ele quis dizer com aquilo. Teria ele feito alguma metáfora que a minha simples mente não entendeu, ou estava apenas me sacaneando ao perceber que não estava dando a mínima pro que falava. O fato é que ele deixou de lado aquele assunto das possíveis escolhas sexuais do presidente da mesma forma em que entrou nele.

– O Chiquinho é um cara bacana, esse eu respeito, e muito, continua íntegro. Mas o Fernando, de que maneira posso respeitá-lo. A gente andava aqui por esses corredores, os três estavam sempre juntos, eu sabia o que eles pensavam. E o Fernando Henrique é um traidor.

Estaria ele querendo dizer que fora amigo do presidente na época em que este estudou na USP? Estávamos no prédio de Filosofia e Ciências Sociais, onde estudou e deu aulas Fernando Henrique, mas acredito que naquela época o curso se dava em outro lugar. Já não sabia se ia embora e deixava aquele velho falando sozinho, ou se prestava mais atenção no que ele dizia. Não que tivesse acreditado naquela história, apesar de não ser completamente inverossímel, mas de repente achei que aquilo poderia ser interessante, além do mais, não tinha nada melhor pra fazer, e ninguém com quem conversar.

– E o Lula – continuou o velho – saiu de São Bernardo. Acho que ele nunca deveria ter saído do sindicato dos metalúrgicos. O que você acha disso?
– O que eu acho do Lula? – perguntei surpreso por ter pedido a minha opinião.
– Não, o que você acha de tudo isso?
– Bem… – percebi o quanto aquele velho bêbado tinha mais a dizer do que eu – eu acho que uma vez dentro da política, é normal que você acabe mudando e não tem muito como ficar fiel ao seus princípios, mesmo porque, estes vão se alterando.
– Entendo, – respondeu de forma pensativa o velho, como se eu tivesse dito coisa com coisa – você está falando dos caminhos inevitáveis do nosso sistema político, econômico, social . . .
– Isso mesmo – respondi sem entender nem mesmo o que tinha dito.
– Você faz um som, não é verdade? – me perguntou o velho.
– Já fiz, – respondi – mas não toco mais.
– É engraçado essa coisa. Você pode estar aqui no Brasil, na China ou no Nepal. Se você vir um artista andando na rua, você aponta e diz: “ali vai um artista”. E não tem como errar.
– Não é bem assim.
– Mas é legal isso, essa integração. Parece egoísmo, mas não é, os artistas procuram se ajudar e isso é muito bom. Sabe, eu também sou escritor. Escrevo algumas coisas.

Senti que a conversa já tinha dado o que tinha que dar. Comecei a me encher de todo aquele papo. Principalmente por não saber se levava em consideração ou não o que o bêbado dizia. Foi então que me virei pro velho e disse que teria que ir andando, pois minha aula iria começar. Ele me agradeceu pelo dinheiro e disse:

– Vamos fazer um som um dia desses… eu trago o violão.