Arquivo de março, 2003

Em algum lugar do Oriente Médio

Mamãe, você ainda vai se orgulhar de mim. Vou mostrar pro papai que sou capaz. Sim, eu sou. O Mike sempre foi seu preferido. Olha o seu irmão Mike, o capitão do time de futebol americano. Olha o seu irmão Mike namorando a rainha do baile. Olha o seu irmão Mike entrando na melhor universidade. Olha o seu irmão Mike defendendo o país na Guerra do Golfo. Grande merda. Agora sou eu. Agora eles vão ver. O Mike foi pro Kuwait e nem deu tiro em ninguém. Aposto que ele nunca sequer viu um iraquiano. Comigo não. Comigo vai ser diferente. Vamos invadir Bagdá. Quero ser o primeiro a chutar o Saddam. Maldito. Malditos árabes. Porra, será que eles não percebem que estamos aqui para salvá-los? Burros. Ouvi dizer que já mataram uns 1000 desses. Ainda não matei esses bastardos. Já dei alguns tiros, mas não matei nenhum iraquiano. Depois de tanta espera. Mas minha hora vai chegar. Mamãe. Vou matar mais iraquianos que o Mike. Maldito Mike. O queridinho da família. Só porque eu nunca fui bom nos estudos. Agora sim. De que vale aquele colégio de merda? Agora somos todos iguais. Iguais não, melhor. Eu sou melhor. Eu vou matar muito mais iraquianos. Eles vão ver. Ah, vão ver. O John disse que já pegou 5 safados desses. Ele teve sorte. Esses animais. Como podem atacar a gente? Burros. Têm que morrer mesmo. Ainda tenho que agüentar esses ingleses. Malditos. Se acham os melhores. Aquele jeito esquisito de falar deles. Todo cheia de pompa. Não dá pra entender nada. Não é à toa que perderam a Guerra pela Independência. Imagine a gente tendo que tomar chazinho das 5. Ridículos. Nem se misturam com a gente. Ficam jogando aquele tal soccer. Esporte de menininhas. Maricas. E o críquete? Beisebol de boiola. Rúgbi? Quem entende aquela merda? Eles se orgulham que seus pais lutaram em… Onde mesmo? Falklands. Ninguém sabe onde fica essa merdinha. Quantos iraquianos eles mataram? 20? 30? A gente matou mais de 1000! Eu ainda nenhum, mas eles vão ver. Malditos. Burros. Pelo menos não tem nenhum francês. Eles não têm culhões para lutar. Bichas. Se não fosse os Estados Unidos, a França ainda tava fodida. Se não são os EUA pra salvar o mundo. Mal-agradecidos. Deviam devolver a estátua da liberdade pros canalhas. A gente defendendo a liberdade do mundo e os caras chiando? Franceses boiolas. Mamãe, vou mostrar pra todo mundo. Canalhas. Vou cuspir na cara deles. Vou cuspir na cara do Mike. Se acha melhor que eu. Só que eu vou matar muito mais iraquianos. É só esperar minha oportunidade. Vou provar pra eles. Porra. O que é aquilo? É minha chance. Malditos iraquianos. Burros. Estão vindo em nossa direção. Ah, eles vão ver. Morra. Morra. Morra. Estúpidos. Acho que peguei os dois. Mamãe, espero que você tenha orgulho de mim. Matei os dois. O que? Eles eram ingleses? Malditos ingleses. Burros. Burros.

Autógrafo Telefônico

— Sommelier Vip Club, Cleide, boa tarde.
— Alô, boa tarde, gostaria de saber quando será a próxima reunião…
— Pois não, sr. No dia 12, para os associados e convidados.
— É que eu tenho interesse…
— Peraí. Ai meu Deus. Eu conheço!
— O quê?
— Eu conheço essa voz! Ai meu Deus, eu não acre-di-tooo! Mauro Meirinho, é você, não é?
— Sou, e…
— AAAAAAAAaaaaaaaaaggggghhh! Eu sabia! Eu sabia que esse dia chegaria! Alguém me acuda! Mauro Meirinho, eu so sua maior fã…
— Obrigado…
— Não, você não sabe, eu sou sua fã número um, acompanho sua carreira desde mocinha, tenho to-dos os seus filmes em vídeo, não perco nenhum capítulo de novela sua, e fiquei 3 dias sem sair de casa quando seu pai faleceu e…
— Hã?
— Ai meu Deus! Desculpa por te lembrar dessas coisas, como eu sou burra! Ah, mas eu também fiz uma festa em sua homenagem quando você ganhou aquele prêmio do governador, todas as minhas vizinhas vieram, todas ficaram mor-ren-do de inveja da minha coleção de pôsteres seus, viu?
— Nossa…
— E, agora, você me liga! Eu nem acredito. É o sonho da minha vida! Me dá um autógrafo?
— Claro, quando eu for aí, com o maior prazer…
— Nãaaaao! Quero um autógrafo agora, uma prova de que eu estou falando com o maravilhoso Mauro Meirinho.
— Mas como? Não dá pra dar autógrafo por telefone…
— …
— Alô?
— …
— Alô? Ei!
— Ufa! Achei! Esse gravador velho ainda funciona. Pronto. Pode falar.
— Falar o quê?
— “Falar o quê?”. Não, não é isso, Mauro! Me dá um autógrafo telefônico! Vou preparar de novo. Pronto. Gravando!
— Ahnn… um beijo de Mauro Meirinho.
— Gravando, eu sempre quis dizer isso. Vamos ver. “Ahnn… um beijo de Mauro Meirinho.” Xi… não, não está bom.
— Porquê?
— Ah, minhas amigas não vão acreditar, vão dizer que eu gravei da TV, que é mentira. Tem que ser pessoal, sabe? Fale algo como “Para a Cleide Santos, minha fã número um, um beijo especial do Mauro Meirinho”. Pode ser? Gravando! Ha-haha. Gravando!
— Ai, ai… Para a Cleide, um beijo especial do Mauro Meirinho.
— É, melhorou… mas diga “Cleide Santos”, tá? É o meu nome… Ah! e inclua um “beijo especial e carinhoso”. 3… 2… 1… ação!
— Isso é realmente necessário? Eu só queria…
— Por favor, por favor, por favor! É uma fã número um que está pedindo…
— Ai, ai…
— Vamos lá, Mauro! Cleide Santos, beijo carinhoso, tá? Gravando!
— Para a MARAVILHOSA Cleide Santos, minha fã número um, um beijo especial e SUPER carinhoso do Mauro Meirinho!
— Uaaau! Agora sim! Você até exagerou um pouquinho, mas isso é que é autógrafo telefônico! Olha, brigadão mesmo, tá? Você é especial.
— Ok, ok.. obrigado. Será que agora eu posso agendar presença para o dia 12?
— Claro, claro! Eu crio a ficha agora mesmo. Vamos lá. Nome?
— Maur…
— Mauro Xavier Meira, isso eu já sabia… Nascimento, 12/08/52; profissão, ator; mais isso aqui… ok… e isso… Indicação?
— Como assim?
— Indicação. Quem indicou você para o Sommelier Vip Club?
— Ué, ninguém.
— Não tem nenhuma referência?
— Eu ouvi falar e aí me interessei e…
— Ah, então sinto muito.
— Hã?
— Sim. Este é um clube VIP, restrito a sócios e convidados especiais COM referências.
— Mas eu tenho referência, sou o Mauro Meirinho, ator!
— Sei, sei. Mas isso não serve, senhor. Sinto muito.
— Peraí. Cleide! Cleide Santos! Você é minha maior fã, e só isso não serve como indicação?
— “Indicado pela secretária Cleide”. Os sócios iriam rir da minha e da sua cara.
— Mas eu até te dei autógrafo telefônico!
— Pra piorar, eles nem assistem TV, são pessoas muito sofisticadas… e que, aliás, podem estar tentando ligar para o Vip Club neste exato momento. Um abraço, passar bem.
— Mas, mas…
— (tututututututu…)

Eu sou normal

– Normal?

– É sim. Normal. N – O – R – M – A – L. Normal

– Você acha que uma pessoa que fica olhando a placa dos outros pra ver se eles estão furando o rodízio é normal?

– Lógico que sim. É normal, todo mundo faz isso.

– Todo mundo virgula.

– Ahhh, você não faz?

– Não!

– Mesmo assim, não sou eu que sou pedófilo.

– QUE???

– É isso mesmo. Pedófilo sim. Não vai esconder só por que tem um monte de gente olhando. Você é louco por pé.

– É Podólatra seu estúpido. Pedófilo é quem tem tesão por criança.

– Ahhh sim. Mas não muda de assunto não. Podólatra, petrolífero sei lá.

– Isso é normal. Não existe coisa mais linda do que um pezinho arredondadinho, com aquele dedinho do lado do dedão um pouco mais comprido que os outros.

– Olha como você é pornográfico. Potiguar pornográfico.

– É podólatra.

– Que seja.

– De qualquer maneira você ganha de mim. Você tem 25 anos e ainda faz penteado moicano no banho e sai do box pra se ver no espelho.

– Ahhhh…..é legal.

– Ainda ?

– Cara, como você pode falar algo visto que quem come o queijo que fica grudado na caixinha do lanche é você.

– Isso todo mundo faz.

– Eu não faço.

– Lógico que não você é estranho.

– Ahhh…meu desencana. Já deu. Não tenho mais tempo, ta começando Teletubbies

– Já?

– Já!

– Então vamos correr pra não perder o começo. Adoro o começo.

Descartável

Descartável. Para mim, essa é a palavra que melhor define a nossa era. Todos nós somos incentivados a desejar algo de maneira incontrolável, conquistar este algo passando por cima de qualquer convicção ou princípio, e a partir do momento que esta conquista se torna realidade a satisfação se torna tão insossa que somos obrigados a partir na conquista de mais um desses desejos incontroláveis que não nos satisfarão em nada.

O que mais me incomoda nessa “descartabilização”, é que nada escapa disto. Não são só os bens de consumos, os produtos que compramos nas lojas e supermercados, que sofrem esse tipo de influência.

O meio artístico é uma grande prova de que essa indústria abrange muito mais do que objetos. Ela cria, exalta, suga, esmaga, cospe e pisa em pessoas que bem intencionadas ou não, têm seus poucos minutos de fama e acabam vivendo como viúvas de um pseudo-sucesso, em programas de TV decadentes que mendigam migalhas de um falso reconhecimento público.

Poucos movimentos artísticos são realmente legítimos e muitos destes, perdem sua legitimidade no exato momento em que se tornam populares. Bendito seja o Rap, que consegue manter-se fiel aos seus princípios, mesmo sendo reconhecido por pessoas que nunca ouviram verdadeiramente uma rima.

Neste carnaval tive um exemplo bem claro do que estou tentando explicar: Participei da cobertura do carnaval de Salvador dentro do camarote 2222 (de Gilberto Gil), sem dúvida o maior e mais badalado de todos. Lá dentro, tínhamos grandes patrocinadores que bancavam todo o conforto e requinte para os convidados (de presença mais do que restrita).

Comida e bebida da melhor qualidade, dentro de um espaço enorme (onde funciona, normalmente, um grande bingo) com sacada para o farol da Barra, o local de onde partem os trios elétricos no circuito Barra-Ondina.

O ambiente era decorado no melhor estilo clubber-paulista, o som, por quase todo tempo, era drumn’bass, e as pessoas, sempre, com a postura de “ver-e-ser-visto”.

Detalhe: quando os convidados saíam à sacada para observar o verdadeiro carnaval baiano, um agradável spray com aroma de sabonete líquido garantia que suas sociáveis narinas, não sentissem o cheiro de urina que poderia pairar no local em algumas horas do dia, como em muitos outros pontos da capital baiana. Legal, né ? Só faltava uma tela e o controle remoto …

A primeira pergunta que todos me fazem ao saberem que voltei de lá é: “E aí, como é o carnaval de Salvador?”.

Eu não sei! Acabei indo numa balada que poderia ter sido em qualquer lugar do planeta, em qualquer época do ano. Muito boa, diga-se de passagem, obrigado pelo convite! Mas aquele, de fato, não era o carnaval de Salvador.

Além dos artistas, movimentos e ídolos, a “descartabilização” vem atingindo também às relações humanas. Fidelidade, por exemplo, é sinônimo de babaquice. Como se fosse apenas um conceito rígido, formal e dogmático, que não tem sentido e que não deve ser levado a sério. A fidelidade (em todos os sentidos, não só no lado amoroso) é vista como algo que é imposto num relacionamento, e não como algo ligado ao respeito mútuo, consideração pelo outro e sinceridade de um sentimento.

“Ah, eu não quero ser obrigado a ficar só com uma pessoa!”. Quem foi o idiota que te obrigou a isso, minha amiga?”. Ninguém obriga ninguém a ser fiel, esse sentimento parte da pessoa que verdadeiramente não sente o desejo de trair.

Pois é … eu poderia continuar falando sobre milhares de outros exemplos que me fazem sentir, cada vez mais, um extra-terrestre nos dias de hoje, mas quanto mais escrevo, mais tenho medo que este texto se pareça com aqueles outros milhares que circulam pela Internet, satisfazendo momentaneamente a alma de todos nós, e caducando no exato momento em que são lidos. Lindos! Descartáveis.

Por que?

Por que todos VJS da MTV tem que gostar obrigatoriamente de Coldplay, Radiohead, Bjork, Strokes, Vines, Hives, qualquer coisa antiga e menosprezar as coisas mais “comerciais” como N Sync, Avril Lavigne, Blink 182, Linkin Park, Limp Bizkit?

Por que antigamente quando se falava de higiene bucal nunca era citada a escovação da língua e agora todos falam como se fosse uma coisa óbvia?

Por que depois do filme “Velozes e Furiosos” as pessoas acham que quanto mais acessórios o carro tem mais bonito ele fica?

Por que tanta gente gosta de um mau caráter que nem o Dhomini?

Por que os EUA não fazem nada contra a Coréia do Norte que já assumiu que tem armas de destruição em massa e mísseis de longo alcance? Por que lá não tem petróleo?

Por que o Brasil é tão bom por um lado e tão ruim por outro?

Por que ninguém fala que gosta de “Éguinha Pocotó” e a desgraçada faz tanto sucesso?

Por que alguém não gostaria de Luis Fernando Veríssimo?

Por que a crise é tão feia e os Shoppings lotam?

Por que não matam o Beira Mar logo ?

Por que não tem Burger King no Brasil?

Por que pegam tanto no pé do Barrichello?

Por que não lançam logo o novo filme do Tarantino?

Por que os árabes escrevem de trás pra frente?

POR QUE O BUSH NÃO VAI PRA PUTA QUE O PARIU?

José

“Era um final de tarde comum em São Paulo. O céu estava nublado e as nuvens refletiam um laranja rosado, resultado do por do sol com a poluição, que havia aumentado nesses dias. O trânsito estava pesado, mas não caótico. José parou o carro na calcada e deixou-o com o manobrista. Entrou no bar, eram sete horas, estava vazio.

Sentou no balcão, ia ficar sozinho hoje. não convidara ninguém. Estava cansado de pessoas. cansado não. Estava saturado. Ele mesmo dizia que pessoas dão muito trabalho, exigem tempo, paciência, dedicação. Ele havia desistido, prometeu não se meter onde havia pessoas. Chega de pessoas. Resolveu experimentar relacionamentos diferentes.

Pediu uma dose de uísque, sem gelo, copo baixo. Virou. Apenas para se aquecer. Começaram a chegar pessoas. Ele se concentrou no jogo. havia um telão no bar. Alias, era a sua primeira visita ao estabelecimento. Não queria ir aos lugares habituais. Tinha medo de encontrar alguém.

Mais pessoas chegaram. Quase não haviam mais mesas. Pediu outro uísque. Continuou vendo o jogo. Pediu um bolinho de bacalhau, a especialidade da casa. Seu time, o São Paulo, perdeu, três a dois. Ele não se importou, futebol não e mais problema. É uma coisa de pessoas.

As horas passaram rápido, já era começo do dia. O bar estava vazio. havia apenas José, no balcão. Terminando seu bolo décimo de bacalhau. O último, dizia ele.

Fora isso, aquela era uma manha comum em São Paulo. O céu estava nublado e as nuvens refletiam um laranja rosado, resultado do nascer do sol com a poluição, que havia aumentado nesses dias. O trânsito estava pesado, mas não caótico. Mas havia um pequena diferença. Talvez ninguém vá notar. Talvez nem mesmo faça alguma diferença.

José ficara no Bar. Não foi trabalhar. Dormiu apoiado em uma mesa e lá ficou. Quando acordou, ajudou os garçons a limpar o lugar. Logo de manhã, quando o ar reabriu, comeu um pão na chapa, pediu um suco e mandou um moleque comprar um jornal.

Terminou de ler, tomou o resto do suco, pagou a conta, levantou-se, e foi embora.”