Arquivo de abril, 2003

Epílogo

Final de caso. Reencontro. Acerto de contas.

– Vim pegar minhas coisas.

– Já imaginava que você viria. Deixei tudo separado. Se você não se importar gostaria de ficar com os discos dos Beatles.

– Claro, sem problemas. Você quem sempre escutou mais. Só gostaria que você me deixasse o Revolver. Sabe como é, tem o Eleanor Rigby.

– Ok, pode levar. Deixando o Abbey Road para mim já está ótimo.

– Pode levar o resto. Só quero o Revolver mesmo.

– (…)

– Poderia ter dado certo, não é? Eu quis dizer, a gente.

– Sim. Mas quem disse que não deu? Foram 10 anos maravilhosos.

– Pois é, nos divertimos muito. Onde foi que erramos?

– Tomamos rumos diferentes. Acho que cada um queria ter sua própria vida.

– É, acho que sim. (…) Ei, não vai querer nenhum do Pink Floyd?

– Não, pode levar todos.

– Tem certeza? Nem o Wish you were here?

– Tenho certeza. Para ser bem sincera, eu nunca fui muito fã do Pink Floyd.

– Hã?

– É, eu nunca gostei muito. Achava meio chato.

– Mas e todas as vezes que escutávamos juntos?

– Ah, eu escutava porque você gostava.

– E… e… e quando fomos para o show deles em Pompeii?

– Foi legal. Mas mais pelo show que pelas músicas em si.

– E quando o Roger Water deixou a banda? Ficamos de luto por quase um mês.

– Na verdade eu estava dando pulos de alegria por dentro.

– Não! Não com o Roger Waters!

– Pois é, eu achava ele pretensioso demais. Odiei o The Wall.

– Ninguém fala mal do The Wall na minha frente! Não é pretensioso! É eloqüente! É genial! É… é…

– É chato!

– (…)

– Desculpe… Mas é o que eu realmente acho.

– Moramos juntos por quase dez anos e agora descubro que realmente não conhecia você. Te respeitava por tudo que você foi, por tudo que passamos, pela pessoa maravilhosa que pensei que fosse. Percebo agora que me enganei.

– É só uma banda.

– “Só uma banda”? Que desprezo é esse? É “A BANDA”! Dark Side of the Moon revolucionou o rock! Foi o primeiro álbum a usar o sistema quadrifônico! E o fantástico Animals ou Atom Heart Mother? Não me venha com essa de falar que é só uma banda!

– Para de fazer escândalo por causa dessa bobagem!

– Escute aqui, eu gostava de Pink Floyd muito antes de imaginar que pudesse um dia te encontrar. Gostava mais de Pink Floyd antes mesmo de gostar de meninas!

– Não acredito que você ache essa bandinha de quinta categoria mais importante que eu!

– Não fale assim da maior banda de todos os tempos!

– Bandinha de quinta mesmo! Dá sono só de pensar naquelas musiquinhas chatas!

– Cale a boca!

– Bandinha! Bandinha! Bandinha! Sempre achei ruim! E agora finalmente posso falar! E quer saber mais? Eu te traía com seu melhor amigo, o Davi! Escutou bem? EU TE TRAÍA COM O DAVI!

– (………)

– Olhe… Eu… Não…

– Não… Não fala mal do Pink Floyd…

Madrugada

Nos últimos 2 anos, praticamente todas as crônicas que publiquei, foram escritas depois da meia-noite e antes do nascer do Sol.

Sempre considerei esse o melhor horário para se escrever e pensar. O telefone não toca, a televisão está desligada, ninguém te chama pra conversar, e a trilha sonora pode ser totalmente voltada à ambientação do momento de criação e busca pelas melhores palavras.

A madrugada porém, é também aquela parte do dia onde todos aqueles medos e questionamentos atacam os seus pensamentos de modo mais hostil. Aquele momento de indignação que já passou durante o dia, volta rasgando o peito, lembrando que a indignação não passou, fora apenas abrandada por diversas razões que normalmente envolvem o medo de ser visto como um animal irracional dentro de uma sociedade tão “politicamente correta”.

Durante o dia, tenho diversas idéias para textos divertidíssimos, que só precisam ser escritos, mas que já foram criados. Diálogos e situações que me fazem rir sozinho, nos momentos mais inesperados.

O grande problema é que no momento em que sento em frente ao computador na madrugada, eu encaro o monitor e penso seriamente em como escrever meu texto engraçado, mas só vejo palavras de revolta, indignação e receio.

Muitas vezes, pensar demais atrapalha.

Já estraguei várias cenas divertidíssimas, que começaram a ser escritas com um humor leve, passaram para a ironia, sarcasmo, até chegarem num ponto tão ácido e melancólico que perdiam o pique de texto humorístico, porém ainda eram canalhas demais para um texto verdadeiramente sério e engajado.

No último mês, trabalhei que nem um cachorro por duas semanas e meia, e por isso não escrevi absolutamente nada. Nos outros dias, briguei comigo mesmo, tentando definir estilo, tema e abordagem, porém não passei de vários começos de textos sem perspectiva de um fim aceitável.

Sei que esse texto também não pode ser considerado uma crônica. Porém, é meu modo de dividir com vocês minha aflição e também de pedir sinceras desculpas por estar tanto tempo sem, aparentemente, pensar no site.

E nós que éramos tão civilizados…

O ser humano é um animal social, e para isso são necessárias algumas regras básicas de convivência. Hamurabi com seu dente por dente, a política de Platão, direito romano, o estudo da moral (das inúmeras correntes filosóficas), Jesus, Buda ou Maomé e suas religiões, as cortes francesas e as aprimoradas etiquetas, Gandhi com o pacifismo, a constituição de 1988 (e suas inúmeras emendas) e até as regras do condomínio são algumas tentativas de transformar esses seres humanos em animais um pouco mais domesticáveis. Afastamos daqueles primórdios daquilo que chamamos de humanidade, onde nós homo-sapiens extingüimos ferozmente qualquer traço dos concorrentes neanderthals. Fugimos das leis das selvas, onde o mais forte sobrevive subjugando o próximo. Temos direitos iguais, oportunidades iguais e respeitamos nossos companheiros.

Pelo menos é o que está escrito durante milênios de aprimoramento das relações sociais civilizatórias.

Todo esse esforço em busca de uma sociedade mais aceitável, mais justa e equilibrada está ruindo com o advento de uma única invenção: o automóvel. Ah, se Henry Ford soubesse em 1908 que seu Ford T geraria um retrocesso no processo civilizatório, hoje seríamos pessoas muito melhores.

Stevenson já previa uma fórmula para transformar um senhor respeitável na sociedade em um poderoso monstro Mr. Hyde em seu Médico e o Monstro. Embora eu acredite que ele não imaginasse que um veículo pudesse ser o catalizador de tal transformação. Vi muitas mulheres pudicas (“pudica” – eu tinha que usar essa palavra em algum lugar) virarem vulgares, sujas, cheias de palavras indelicadas. Acompanhei inúmeros gentlemans (daqueles abrem a porta do carro para uma dama) acelerando para não dar passagem para senhora alguma. Presenciei pacifistas (que protestam contra a invasão territorial dos EUA no Iraque) invadindo faixas alheias com propriedade absoluta.

Insanidade. O fim do bom-senso. No trânsito existe apenas uma verdade absoluta: “a culpa sempre é do outro”. Não fazem parte do léxico automotivo as expressões “desculpe” ou “pode passar”. Não adianta argumentar sensatamente “Deixe-o passar, que diferença faz?”; “O sinal está fechado mesmo.”; “Não estamos com pressa.”; “Para quê xingar o cara se você acabou de fazer igual no cruzamento anterior?”. O pára-brisa do automóvel nubla nossa visão, o cheiro de gasolina altera nossos sentidos, as lanternas dos carros vizinhos geram ódio.

O senhor Marcos por exemplo. Pai de família exemplar. Moral rígida. Freqüenta a igreja todos os domingos. Vizinho de Estela. Aquela vizinha exemplar. Essa uma senhora com seus 60 anos. Carinhosa e zelosa.

Ambos chegam ao prédio no mesmo horário. Marcos abre a porta para Estela que agradece prontamente. “Por Favor! O Prazer é meu.” Estela pega a revista com o porteiro e aproveita pega a de Marcos também. “Aqui está a sua Veja.” Marcos agradece enquanto segura a porta do elevador para Estela entrar. “Obrigada!” Ela entra aperta o botão de seu andar e de Marcos também. “Quinto andar, né?” Abre a porta do quinto e Marcos pede licença educadamente. “A senhora poderia dar uma licencinha, por favor?” Marcos sai e se despedem. “Até mais, manda abraços para sua família.”

É uma cena comum. Plenamente civilizada e condizente com as personalidades de cada um. Muito diferente da personalidade que adquirimos diante do volante.

Ambos chegam ao prédio no mesmo horário. Marcos dá um empurrão na Estela pois ela estava demorando muito para abrir a porta. “Ah, tinha que ser velha!” Estela pega a revista com o porteiro e Marcos corre para pegar a dele. “Filha da puta! Você pegou a revista antes que eu!” Marcos tenta fechar o elevador antes que Estela pudesse entrar. “Tá com pressa viado?” Estela aperta o botão do seu andar e Marcos o dele. “Só porque você mora no andar mais alto que o meu você pensa que pode ficar atrapalhando a entrada?” Abre a porta do quinto e Marcos brada para Estela sair da frente. “Passa por cima, Caralho!” Marcos passa por cima e se despedem. “Vai pilotar o fogão!” “Ah, vai se fuder!”

E nós que éramos tão civilizados…

The piano has been drinking

– Acho que o piano está bêbado.
– Do que você está falando? Olha, acho que a gente deve vender.
– Eu não sei. A carteira não me deixou pensar direito.
– A carteira?
– É, ela ficou me encarando o tempo todo.
– Paulo, a empresa tá falindo. Os caras vão pedir nossa falência.
– Te sufoca?
– O quê, a situação?
– Não, a gravata. A minha tem crises de auto-estima. Me aperta de um jeito…
– Acho melhor a gente sair deste bar. Você está muito melancólico para discutirmos isso.
– Eu até gosto daqui. Me traz boas recordações. Só que a garçonete nunca tem um sismógrafo. Nunca! E aí ela te xinga, sabe?
– Paulo, você está bem?
– Eu estou. Mas acho que o piano tem bebido muito.
– Não presta atenção na música. Escuta. A gente tem que pensar no que fazer. Esse lance de off-shore não ajuda.
– É verdade… e o que a gente faz com o nosso balcão?
– Sei lá o balcão! Não tem a menor importância o balcão.
– Já pensou se ele ficar que nem este aqui? Está cheio de manchas de pele. Coitado.
– Paulo, você está brincando comigo? Tá usando drogas?
– Eu não. Mas o telefone tá sem cigarros, olha lá.
– Já sei, a Marisa saiu de casa de novo, é? Não vai me dizer, que justo nessa hora em que a empresa…
– Shhhh!
– ?
– Os cinzeiros estão lá, reclamando da aposentadoria.
– Ah, eu desisto. Você está bêbado! Uma coisa séria dessas, e você bêbado. Bêbado, ouviu?
– Nãaao! É o piano que está bêbado. É o piano. Não eu. Eu não. Aliás, olha o resfriado dos menus…

P.U.B.

(experiência com registro do fluxo de pensamento)

Nunca pensei estar aqui. Uma vida inteira que poderia ter sido e não foi. Às vezes eu me sento na varanda para escrever e tomar os primeiros raios do sol. O sol da vida. Agora, à meia luz, só as sombras me confortam. Aquela vela que olha pra mim; dança lentamente ao sabor da brisa que entra pela janela. A penumbra me abraça enquanto os vultos andam por trás dos copos pendurados ao contrário. Copos de muitas vidas que aqui passaram. Homens, mulheres, passam. Eu nunca me imaginei aqui nem por fantasia nem por nada, mas a noite era esta. Lá fora muitos graus Celsius a menos que a minha confortável e solitária cadeira de madeira. Mogno. Bem escuro. tudo é muito escuro.

Ela passou e me olhou. Pobre coitada, não sabe o que faz. Está sozinha. Eu também. Não posso crer. Não nesse momento. O que pode querer ela com essa dança ?

Nada, foi só um olhar. O ritmo aumenta e eu já não consigo acompanhar. Mal posso ver o que escrevo. A posição da luz projeta a minha própria sombra sobre o papel amassado em que escrevo. Escrevo para não esquecer os pensamentos. Eles não estão aqui, não adianta procurar. Eles estão bem longe e eu cansado, não consigo mantê-los vivos. Preciso de ajuda. Dizem alguns que preciso de amor. Não sei, é uma dúvida ……………………

Nesse tempo que passou ela veio até mim. Não, era outra. Beleza ímpar também, mas era outra. Conversamos um pouco e nada aconteceu. Quem sabe no avançar das horas.

Eu preciso de fôlego. Não sei quanto eu vou aguentar. A chama está diminuindo. Só ela pode me ajudar agora.