Arquivo de maio, 2003

À Maria Rita

A vida sempre nos prega peças. Duzentos e cinquenta quilometros do litoral, a cidade não tinha movimento próprio, tudo parecia parado, até quem se mexia. Pequena, quase inexistente, Coronel Helano vivia do passado garimpeiro de riquezas. Hoje, sua única riqueza é seu povo: gente simples e de valor. Gente que confia em você antes de perguntar quem você é ou acha que é, porque quem você é não importa, de verdade. Importa quem você vai ser daquele momento em diante. Assim, os dias passam – não se sabe como – em Coronel Helano. Passam pra todos, inclusive Maria Rita. É ela quem organiza o arrastapé de sábado no “Inferninho”. Longe de ser uma casa de meretrício como o nome pode sugerir, o “Inferninho” é o poço das angústias e esperanças da cidade. Tem gente que vai pra beber. Tem gente que vai pra paquerar – os gringos que passam por lá. E tem Maria Rita.

A noite de sábado começa bem cedo pra dar tempo de se arrumar. E como se arruma! Toda bonita e cheirosa. Sabe disso tudo e mais um pouco! Auto-confiança em pessoa. É tanta que fica snobe. Metida. Mal pisa no “Inferninho” e começa a cheirar os perfumes da gente que passa por ali. Zé Pedro é Zé Brutt (perfume inconfundível, quando se tem o dom), Josiel fica Josi-Musk (AVON, muito barato, não interessava!), Diego, Di-Dimitri; o Marco Alencar da padaria era o MarQuasar, tudo da cabeça de Maria Rita. Tinha alguns gringos que facilmente eram reconhecidos pelas fragrâncias mais duradouras e cítricas. Passavam Armanis, Ferraris, Diors, Ralph Lourens, Guccis, Tiffanys e Lâncomes. Maria Rita conhecia cada um e snobava um a um. Nenhum bom dançarino conseguia iludir aquela fixação olfativa. Noite após noite ela se punha toda bonita para o arrastapé. Sempre o mesmo nariz empinado e arrogância que já não afligiam mais ninguém na cidade. Na rua ela nem olhava para os lados, não dava atenção àquela gentinha.

Foi por isso que teve que ser um forasteiro. Leonel. Esse nome tinha pouca história pra contar. Sujeito simples, criador de rebanho, quase não falava. Como todo bom moço, Leonel era tímidamente tímido. Quando chegou no “Inferninho”, arrastado pelo Basílio, nem sequer viu o que estava acontecendo. Maria Rita ficou Alucinada com o novo perfume que pairava no ar que praticamente planou, aspirando o odor enebriante, até Leonel. Foi inevitável, nem a timidez conseguiu interferir. Ele ganhou a sorte grande e assim também o fez a cidade de Coronel Helano que se viu livre de Maria Rita.

Maria Rita nunca soube que fragância misteriosa foi aquela e também nunca atinou com a história que Leonel contava, toda vez que perguntavam como eles se conheceram.

O cavalo tinha “enxucrado” no meio do caminho e Leonel já estava atrasado. O banho tinha sido no rio (caminho mesmo) e o cavalo não saia do lugar. Só conseguiu chegar no baile porque um gambá espantou cavalo que disparou por todo o mato da região até se deparar com uma cerca e arremessar Leonel para o outro lado e quebrar tudo. Ninguém nunca ouviu de Leonel o que tinha depois da cerca. Só se sabe que ele ficou com uma dívida com o “seu Jonas” das carnes, o melhor espetinho de carne de porco da região.

Foi assim que Maria Rita se despediu de Coronel Helano. Essa vida nos prega cada peça!

Feliz Natal

Era um domingo qualquer. Daqueles de julho, bem frios. Ademar acordou radiante, pôs-se prontamente em pé e abraçou a mulher.

– Feliz Natal Ritinha!

– Natal? Tá louco Ademar? Estamos em julho ainda!

– Por isso que te amo, por causa do seu senso de humor. Agora acorda as crianças para abrir os presentes.

– Que presentes, Ademar Augusto?

– Aqueles que colocamos debaixo da árvore, oras!

– Nós não colocamos presente nenhum!

– Ah, ceeeeerto… Nós NÃO colocamos… Foi o “Papai Noel”, claro.

– Não temos mais nem árvore de natal!

– Temos sim senhora! O que é aquilo então?

– Você quer dizer aquele patético pinheiro seco que o senhor ficou de jogar fora há 6 meses, sempre com a desculpa “semana que vem eu jogo”.

– Não vamos brigar. É época de alegria.

– Olha o calendário Ademar!

– Jingle Bell, Jingle Bell, acabou o papel…

– Ai meu Deus! O que deu nesse homem?

– … não faz mal, não faz mal, limpa com jornal… Ainda sobrou o Peru de ontem?

– Ontem comemos feijoada.

– Feijoada na véspera de natal? O que deu em você Ritinha?

– Sábado é dia de feijoada. E ontem não foi véspera de natal!

– Credo, que mal-humor. Desse jeito o Papai Noel não vai te dar presente algum.

– Que mané Papai Noel! Você bateu a cabeça? Estamos em JULHO! JULHO! Em pleno inverno! Não está sentindo o frio?

– Ué? Mas não é inverno no natal? Não até neva?

– Isso lá no hemisfério norte! Não se lembra no ano passado? Você estava morrendo de calor debaixo daquela fantasia ridícula de Papai Noel.

– Claro que me lembro. Mas isso foi ontem, não foi?

– Não, Ademar, não foi ontem. Ontem comemos feijoada, você teve uma indigestão. Passou a dia inteiro no sofá vendo o jogo e arrotando toicinho!

– (pausa para catarse reveladora condicionada pelo toicinho)

– É verdade! Agora pára com essa babaquice de natal e época de alegria e o escambau!

– … mas… mas deve ser natal em algum lugar, não?

– Não!

– … e o fuso…

– Não, Ademar!

– … e comprei esse presente pra você…

– Ah, Ademar, não precisava… Feliz Natal pra você também…

Resolução

Já faz ano que não fiz. Se tivesse feito, ah, s´eu tivesse. A essa altura, tudo seria diferente. Eu, celebridade nacional; internacional, até. Seria conhecido, respeitado, admirado. Nadando em dinheiro, eu, uma máquina de fazê-lo: livros, palestras, colunas em jornais, eventos, feiras, um tele 900 meu só. Eu, também, ser imortal, não meu notório homônimo. Eu não; tudo por causa da crônica que eu não escrevi Dezembro último.

O texto trataria de Ronaldo. Não só de Ronaldo, bem entendido. A tese era: Ronaldo é o futebol brasileiro encarnado. Atualmente. De quando em quando, temos. Um jogador, tão bom, find´as contas, incontestável, ganhador do plano mítico, expressão viva do esporte; bretão nascido, brasileiro criado.

O Brasil cinco vezes coroado, consolado duas. O primeiro segundo, ainda ascendente – principado perto de assumir-se império. Depois, Rei, general, conquistou, três vezes aclamado. Sucumbimos apenas a outro rei, menor, rei na barriga – tirante, vitórias, glórias. Então, rei morto, rei não posto. E muitos, muitos, anos, muitos. Enfim menino-majestade, mesma idade; garoto, do banco, aembasbacante, padrinho do tetra e fã do baixinho marrento. Mas o halo, o halo luzia, lume nos clubes, campos, arenas, terrenos baldios, em nosso território, todo. Era o começo. Tão somente. Dali a anos, no quarto, subiria o degrau glorificante, jovem afinal empossado. Vemos; não vimos: choro, desconsolo de novo.

Ele capengava, seu joelho. Capengávamos cá, iniciando: mesas viradas, reviradas, longa sem vergonhice. De tímido, surdo incômodo, explodiu ruptura. Tendão antes, craque intra-rompido, dirigentes co-rompidos, inter-rompida História da bola. Matemática, exata imoral, de torcidas leis, pobre torcedor: em vinte e cinco, o último foi décimo quinto. Lutas. Para ficar, para rebaixar, para voltar. Recurso do rebaixado julgado, assegurada permanência; refeito dele o joelho. Fagulhas concorrentes. Mas débeis; sete apenas, no mítico, minutos; humanos, dias. Outra cisão. Outra operação. Ainda outra competição. Regras, não, luz, sem.
Apesar, resistência. Operários, sangue azul, desafiando o desmandante cruzmaltino. Na batalha um já, quando fatalidade lá, o alambrado, interrompida novamente a redenção. Gente ferida, muita, deputado, presidente, um ambos, monstruoso: faixa negra rasgando a mortalha branca, adorno da cruz rubra.

Em vermelho-sangue, preto-danação, dali, desenhou-se o verde e amarelo. Brilhos todos, esquecidos. O amarelo, a supernova, opacos. Breu sem brechas. Quase tudo perdido, hora de gritaria, muitas brigas. Dos atritos, faísca, nova ignição, o Fenômeno voltava. Jogou um, gol, jogou dois, gol, promessa de fogo até a traição do músculo frio. Mas era tarde, o rastilho pegara, sua pólvora espalhada. Cá disputavam os bons: azulão e furacão. Este, supremo, lavou o rubro-negro, agora inocentado, mancha removida do pálido, então, ouro. Obra dele, convalescente, Fenômeno sim, amarelo incendiado, no verde, em campos do Sol nascente, provaria, o próprio era.

E eu, eu era o profeta dessa, assertivo, ainda na incerteza, quando ele não fulgurava, ameaçava. Melhor: seria. Não escrevi. Deixei correr, levei outros temas à frente. Parte foi tabu: me prometi não falar de futebol. Desculpa, também, porque de parte a parte, a última foi é medo de errar. Miseravelmente. Intuí, não arrisquei. Vi a quinta estrela na oitava confirmação dele. Gritei quieto. Quieto, vi: a tese amalucada, já provada, encorpar. Mais. Mais. O futebol brasileiro, eu vi, recuperado, saudar mais dois raios na Vila, brilhantes, arrebatadores, esperamos duradouros, enquanto ele, Fenômeno, conquistava o mundo uma segunda, uma terceira, vezes mais do que num ano pode caber. Ano passado, calado, não errei. Este acertarei sem dúvida, embora erre.

Resolvido.

Colheita de Estrelas

Incontáveis estrelas iluminavam o céu naquela noite. A lua aparecia tímida perto de tanto brilho. Diziam não haver céu mais estrelado do que aquele de sua fazenda. Deu um último suspiro e chamou seus filhos para dentro de casa. Queria ficar o máximo possível perto dos dois, mas ainda tinha muito o que fazer. Pediu aos filhos para ajudar a recolher todas as estrelas do céu. Pegou uma sacola e lá foram eles.

Eram tantas estrelas que o trabalho parecia durar séculos. Não se importava, afinal era um tempo a mais que podia passar com os filhos. Com todo cuidado pegaram uma por uma até encher toda a sacola. Voltaram para casa com um ar melancólico e com o céu limpo. As estrelas guardadas ajudavam a iluminar o caminho de volta.

Dentro daquela pequena casa, pegou potes menores e foi distribuindo as pequenas estrelas que haviam recolhido. “Essa eu quero que entreguem para o tio Martinho” “Paguem essas ao Nonato” “Devolvam essas para o delegado Coutinho”. Os filhos, repletos de lágrimas contidas, ouviam atentamente ao pedido de seu velho pai.

O mais velho não conseguiu mais se conter: “Não é justo! Por que você tem que ir?” Ele olhou em seus olhos: “Eu tenho que ir porque chegou minha hora. Vou com peso no coração, mas com a alma tranqüila. Sei que os criei bem e já esta em tempo criarem suas próprias estrelas.” O mais novo inconformado: “Por que você quer que a gente distribua tantas estrelas assim? Fique com algumas pelo menos.” Virou-se em direção ao filho mais novo: “Não, para onde eu vou não preciso mais de estrelas. E se não fosse por essas pessoas eu nunca teria um céu tão estrelado em minha vida. Nada mais justo que retribua com algumas de minha sacola.”

Ambos consentiram e continuaram a separação das estrelas diante à um céu tão escuro. “Eu quero que vocês fiquem com a maior parte. Dividam igualmente. É o suficiente para iluminarem a noite mais sombria. Ainda assim nunca parem de cultivar suas próprias estrelas.” Deu um abraço apertado nos dois e saiu.

Os filhos correram para alcançá-lo antes que cruzasse a porta. “Não vá assim. Aceite pelo menos uma estrela. A mais brilhante, para iluminar seu caminho. Uma lembrança nossa. E quando encontrar com a mamãe, entregue tal estrela e diga que não a esquecemos.” Ele aceitou o presente com carinho e partiu sem olhar para trás. Sabia que teriam um futuro iluminado.

Coisa de Paulista

Foi um dia desses, mesmo. O filho da minha tia Geni – lá do Rio – e portanto meu primo, bateu na porta de casa. Disse que estava de férias e veio pra ficar “um tempo”. Esta história de “um tempo” sempre soa estranho, mas a gente acaba esquecendo e nem liga. Nesse “tempo” ele conseguiu me achar indo pro trabalho. Pegou as minhas coisas (muito solícito) e veio com uma conversa de queria saber o que era idiosincrasia. Me senti pai, como se meu filho estivesse ali, na minha frente, perguntando tudo, querendo saber o que era isso e aquilo. Foi pior. Como eu ia dizer aquilo? Quando é o filho você até consegue tapiar, dar uma desculpa.

Sentei no sofá da sala, bebi o café e fui explicar da maneira mais simples: peguei o dicionário e comecei a ler. Logo de início vi que não estava surtindo efeito e resolvi exemplificar – exemplo sempre ajuda.

É mais ou menos como essa gente aqui de São Paulo. Calma, eu explico. Os paulistanos são cheios de manias, paranóias, coisas que você só vê aqui mesmo. Vamos supor que você está parado no semáforo, em um cruzamento. Todo paulista está lá, atento ao farol da pista transversal só pra poder saber quando vai abrir o semáforo para a pista dele ou então fica olhando de soslaio para o farol de pedestres. De qualquer forma ele vai estar com o pé na embreagem pronto para o início da corrida; sim, porque todo paulista que é paulista mesmo tem que encarar o trânsito como uma corrida contra o tempo, afinal, tempo é dinheiro.

Paulista que é paulista mesmo anda embaixo do sol forte com sua pasta ou bolsa a tira colo e pode acreditar, é só olhar dentro delas (peça com educação para evitar confusões ou mal entendidos) e você vai encontrar um belo e grande guarda-chuva. Não importa o tempo ensolarado, sempre há uma possibilidade de chuva. Pura paranóia. Idiosincrasia paulistana.

Vamos fazer uma outra suposição pra ficar mais claro. Vamos imaginar que você está andando pela paulista acha a mesma bolsa ou pasta de paulista, que é bem provável pois vocês está em São Paulo na avenida Paulista, e abre pra conferir de quem é. Você vai achar a carteira da pessoa com documentos e dinheiro, mas não é só isso. Abra a bolsa interna e confira. Com certeza, se a bolsa for de um paulista que é paulista mesmo, tem o “troco pro ladrão”. É isso mesmo, um dinheiro pra entregar pro assaltante na tentativa de não deixá-lo irritado com a pobreza da vítima, no caso, você. Além do “troco pro ladrão” também está lá o guarda-chuva (olha só as nuvens cinzas chegando!). Tá me entendendo?

É coisa de paulista mesmo, entende. Ninguém mais se sujeita a ficar horas parado nas estradas pra chegar em uma praia que provavelmente estará cheia de paulistas como você, digo, eu. Idiosincrasia vai mais ou menos por aí, são essas particularidades de cada um. Você tá me entendendo?

Veja como ser paulista é ser idiosincrático. Paulista que é paulista mesmo quando sai pela cidade e para em um bar ou um boteco qualquer só come “dois pastel e um chopps” e acima de tudo odeia tudo do Rio de Janeiro, menos as cariocas e o Cristo Redentor. Entendeu?

Depois disso nunca mais o filho da tia Geni apareceu pra ficar “um tempo” em casa.

Sincronizando Relógios

Num beco escuro da periferia da cidade, três homens de roupa preta e encapuzados acertam os últimos detalhes para o início da execução do seu plano ardiloso. O mais baixo, que parece ser o líder, num olhar quase paternal, pergunta aos outros dois:

– E aí, tudo certo!?

-Tudo! – responde o mais alto.

-OK. – responde o outro.

-Então é só sincronizarmos os relógios e entramos em ação.

Os três olham fixamente para seus respectivos pulsos, pressionam os botões de seus relógios digitais, e trocam olhares dizendo:

-OK.

-Certo.

-Ahãm.

Rapidamente os três caminham para a saída do beco, e começam a se dividir.

Quando já estão afastados por mais de meio quarteirão, o mais alto se vira e timidamente solta um grito:

– Ô …

O mais baixo finge não ouvir e aperta o passo. O segundo, de estatura mediana, pára, mas percebe que o líder continua caminhando, e não sabe bem o que fazer. Novamente o mais alto tenta gritar de forma discreta :

– Ei …

O mais baixo se vira rapidamente, e corre até o ponto inicial da separação. Os outros dois imitam a ação.

Novamente os três se encontram na entrada do beco.

– Que foi! – pergunta o baixinho, ligeiramente nervoso.

– É o relógio …

– Que que tem?

-Quando você falou pra sincronizar eu apertei todos os botões e o relógio zerou … Fiquei com vergonha de falar que tinha feito isso …

O líder dá um longo suspiro e se vira para o outro:

– E você ?

– Que foi …

– O que você fez com o seu relógio?

– Eu apertei a luzinha … ela acendeu por uns segundos, eu não sabia o que fazer e também fiquei quieto.

O silêncio domina o ambiente por instantes, os dois esperam por uma resposta do chefe. Após um leve suspiro, ele abre a boca :

– Ufa …

Ninguém responde.

– Na verdade … – continua dizendo, agora olhando para a lua, em tom confessional – … eu nunca soube o que fazer quando dizem “Vamos sincronizar os relógios”.

Mais instantes de silêncio …

– Afinal, nos filmes, ninguém pergunta qual relógio que servirá de referência para os outros, e nem sempre dizem se estão usando a função cronômetro ou hora. Mas no nosso ramo …

Ele dá uma parada, olha para os outros, que com olhar emocionado, concordam acenando com a cabeça, e então ele prossegue:

– … no nosso ramo, as pessoas tem vergonha de perguntar o que fazer. Sabe como é, né ? A concorrência é cada vez maior, o mercado está nos explorando cada vez mais. Fica difícil admitir qualquer tipo de falha …

Finalmente o mais alto resolve dizer algo:

– Mesmo porque, nos filmes tudo sempre funciona de forma tão harmônica, que as pessoas ficam com essa mitificação do ato da sincronização dos relógios, e nem pensam na sua real função …

Os outros dois concordam acenando com a cabeça.

Silêncio.

O rapaz de estatura mediana olha para o seu pulso e timidamente pergunta:

– É … alguém tem horas ? Além da luzinha, eu também acabei zerando o meu relógio …

– Não. Responde o mais alto.

– Também não – responde o chefe – eu sempre deixei o meu no cronômetro, nunca acertei as horas do meu relógio de trabalho. Medo de ser ridicularizado.

– Ah … tá certo então … Acho que está tarde, a Lua já está se pondo. Melhor irmos andando …

– Melhor mesmo, essas bandas costumam ser perigosas nessas horas da madrugada. – aconselha o mais alto.

– É … responde pensativo o chefe.

E lentamente eles começam a caminhar, ouvindo nada além do que seus próprios passos.

Recomeço

Era mais um verão daqueles em que passava na casa da família no interior. Dessa vez era em Monte Verde. Mas também tinha parentes em Piraju, em Avaré, em Iracema e até em Itararé. Há 25 anos era a mesma coisa. Revia parentes, tomava sorvete na pracinha e ouvia aqueles papos desinteressantes dos primos, que embora da mesma faixa etária, com idéias totalmente opostas.

Tudo levava crer que era mais um daqueles feriados monótonos. A situação mudou quando ele a viu. Uma sensação de déjà vu. Conhecia aquele rosto de algum lugar. Um frio gelou sua espinha quando ela o reconheceu.

– Francisco? É você? Quase não o reconheço. Faz tanto tempo, né?
– Sim, muito tempo mesmo!

Não queria matar o assunto, por isso continuou a conversa. Mas sua memória não ajudava. Sim, certamente a conhecia. De onde? Não sabia. Vinham algumas imagens na cabeça, fragmentos esparsos, empoeirados pela memória. Um vestido azul, foi a primeira imagem que veio. Tentava segurar no assunto como podia.

– Aposto que nem se lembra de mim.
– Lembro. Estava com um vestidinho florido de alcinha azul. Margaridas.

Enquanto conversavam o quebra-cabeça de suas lembranças foi se montando. Era a Andréia. Conheceram-se há 5 ou 6 anos atrás nas férias que passou em Praia Grande. Começou com um sorvetinho no calçadão e terminou com um café da manhã no hotel. Depois ela simplesmente desapareceu, deixando-o desconsolado por alguns meses. Andréia não era o tipo de mulher apenas para um caso de praia.

– Aquele dia foi realmente especial.
– Eu diria… único.

Ele não sabia como entrar no assunto do porquê de sua fuga repentina, de não retornar as ligações. Não se achava no direito de cobrá-la ou pressioná-la. Até porque desejava que a conversa continuasse nesse tom agradável. Surpreendeu-se quando ela tocou no assunto.

– Você sabe por que eu fugi aquele dia, não sabe?
– Foi algo que fiz? Algo que disse?

Ainda não se lembrava muito bem do que ocorrera aquele dia. Sabia que conversaram bastante, mas não lembrava exatamente o que havia dito.

– Sim, foi algo que disse. Lembra-se da nossa longa conversa? Eu lembro. Perfeitamente. Pensei sobre ela durante muito tempo. Foi muito duro para mim.
– Desculpe… eu…

Realmente não podia ter dito algo assim tão marcante. Sempre fora um verdadeiro gentleman, não diria nenhuma palavra dura para uma dama. Não pensava em outra coisa no momento além de se desculpar.

– Não, não precisa se desculpar. Você tem razão. Fiquei muito magoada. Refleti muito sobre o assunto. Tal conversa me fez enxergar muita coisa. Abriu meus olhos. Eu devo muito a você.
– Não, você não me deve nada.

Embora gostasse muito da idéia de tê-la em dívida com ele, achou melhor não colher os louros da vitória por não saber nem exatamente de quê estavam falando.

– Oh, sim, eu devo. Mas são águas passadas. Já está superado. Espero que para você também. Sem mágoas, certo?
– Absolutamente.

Que mágoa teria? Apenas pensava em não mais perdê-la.

– Que tal encontrarmos hoje à noite? Só me prometa uma coisa: nunca, mas nunca mesmo, repita para mim aquilo que você disse naquela nossa conversa!
– Prometo.

Não importava mais o que ele havia dito. Estava perdoado. Era um recomeço, uma nova chance. Agora é só tomar cuidado e falar o menos possível.

Nada como um dia após o outro…

Tem dias que simplesmente acordamos, não é mesmo? Mas tem dias que acordamos diferentes, sentindo estranho, que aquele não é o seu dia, que era melhor não Ter acordado ou que, talvez, nem ter nascido. Vou dar um exemplo claro e comovente.

Tudo começou no meio de um matagal, num claro e seco dia. Era só olhar o horizonte e ver aquela luz maravilhosa e dourada brilhando, multiplicando os infinitos raios solares. A brisa era lenta e calma, nem refrescava nem deixava aquecer. Seria mais um dia tranqüilo demais para ser verdade.

De repente, no meio da calmaria do campo me senti solto do meu corpo, parecia a morte, me senti puxado, perdido no meio de estranhos, sinceramente, parecia estar drogado. Tudo foi muito rápido, o mundo girava e não sabia mais se estava olhando para cima ou para baixo.

Não sabia que droga ela aquela, mas com uma série de acontecimentos rápidos me senti úmido e algo a mais, uma espécie de prisão dentro de mim mesmo, parecia que o mundo tinha se fechado e estava sentindo os efeitos mais alucinógenos de minha vida. A sensação era de estar preso dentro de um epicentro, sentindo toda a essência de um terremoto… péssimo.

Aquela droga tinha um efeito muito duradouro. Não conseguia sentir a minha vida novamente, tudo estava sinistro demais e cada vez mais eu me sentia num mundo de estranhos, naquela umidade terrível sob uma escuridão que parecia jamais passar. Depois de muito pensar tudo começou a ficar claro. A Terra simplesmente tinha parado de girar!!! Mas que óbvio! Estava na cara. Que droga que nada! A desaceleração provocou aquele choque, o terremoto e aquela mistura de estranhos que jamais havia visto e, para finalizar, parei do lado que o sol não batia… ufa, grande explicação! Seria noite para sempre!

Mas um dia não passaria tão devagar, acho que fiquei nesse estado por meses, quando de repente acordei. Que loucura, obvio que a Terra não parou, que não havia droga nenhuma nem meses… era só um sonho. Ei, mas não era possível, de repente tudo começou a se mexer novamente, comecei a me sentir oleoso, escorregando sem parar, sem equilíbrio. Isso não era mais um sonho, mas sim um pesadelo, dos piores, cadê o Fred? Já estou até imaginando aquela camisa verde e laranja… cadê você Fred?

Bom, de fato o Fred não apareceu, e me vi novamente feliz, num lindo, porém gelado, gramado. Mesmo com a sensação de ressaca, estava feliz. Parecia dia, era claro e luminoso… mas em mais um desses chaqualhões da vida (o que já estava ficando fácil de se adaptar) vi tudo se apagar novamente. Aliás, agora sim deveria estar no purgatório, meu corpo começou a se auto-corroer e vi dezenas de desconhecidos morrerem. Não agüentei a dor. Voltei a pensar que estava sob o efeito de drogas, porém no julgamento final, dentro de uma clínica de recuperação. Percebi depois de muito tempo, que estava tendo desmaios constantes, até que por fim, o pesadelo acabou.

Mas tudo não acabou de uma forma gloriosa não, o terror se espalhava pela lama que estava ao meu redor. Não via mais ninguém, apenas aquela lama e corpos, cheguei a ver conhecidos mutilados e praticamente irreconhecíveis. É claro, era um terremoto, só poderia ser – pensei novamente, mas já perdendo também a identidade, a não ser que eu fosse realmente um drogado sobrevivendo a um terremoto.

Finalmente, o pesadelo de verdade acabou, mas agora estou sozinho. Estou vendo a luz do dia novamente, o calor é predominante, e não falta água, só companhia. Apesar da lama, não poderia reclamar, mas apenas lamentar que sou apenas… um milho.

São Paulo, eu te amo

“Por que a declaração de amor? Não sei também. Mas não vou dizer, como todos que tenho uma relação de amor e ódio com essa cidade, mesmo porque esses sentimentos andam juntos, mas não toleram-se. Ou se ama, ou se odeia.

Moro aqui há 7 anos. Não posso reclamar da cidade que me serviu de cenário amoroso tantas vezes, que me deu prazeres e desgostos que nenhum outro lugar do mundo foi capaz de me dar.

Posso sim fazer umas observações, as quais não deixariam a prefeita de cabelo em pé, afinal pago meus impostos, todos eles. Podem verificar.

Nunca vou esquecer da primeira vez que entrei na Avenida Paulista, vindo do Paraíso. A visão era fantástica, ainda mais para um caipira. Pena que a rotina a fez hoje nada mais que avenida barulhenta com muito trânsito.

Não há como esquecer também da primeira vez que vi o parque em frente ao Museu do Ipiranga, lá de baixo, no mausoléu de D Pedro I. Não é nenhum jardim do palácio de Versailles, mas dá orgulho.

E, da primeira vez que jantei no Jóquei clube, onde a vista do skyline da cidade é inigualável. Nunca mais fui lá. Deveria voltar, o mais rápido possível.

E mesmo com tudo isso fresco na memória, não vejo a hora de sair daqui, procurar qualidade de vida, sossego, árvores, vacas pastando e tudo mais que deixa um bom e saudoso caipira feliz. Mas é difícil deixar a cidade que sustenta o corpo e encanta a alma. É uma sombra que vai sempre me perseguir.

Eu odeio São Paulo!”