Arquivo de junho, 2003

Por uma vida menos sedentária

Esporte é saúde. Pelo menos é o que dizem. Estava há tempos sem exercício físico nenhum, sempre com a promessa “semana que vem eu começo”. Freqüentava uma academia de bairro, esta, digna de comentários, em vez de pôsteres de homens e mulheres no auge do físico, ostentava nas paredes quadros do “Corcunda de Notre Dame”. Talvez por isso a academia tenha fechado. Ou talvez pelo fato que várias vezes em que eu chegava cedo, encontrava-a fechada, pois “O fio da muié, que toma conta da acadimia de manhã, teve um troço e ela foi levá o muleque no dotô pra mó di tirá umas chapa”.

Voltando ao mote principal da crônica, finalmente decidi largar essa vida sedentária que estava levando e resolvi correr no parque. Lá fui eu para o Parque da Aclimação, que apesar de morar mais próximo ao popular Parque do Ibirapuera, tenho uma relação mais antiga com o simpático bairro da Aclimação. Comprei até um tênis novo para correr, pus minha bermuda, minha camiseta velha e peguei as chaves do carro. Ok, eu concordo, é uma incoerência, embora fato corriqueiro em grandes cidades, ter que sair de carro para fazer exercícios físicos.

Chegando no parque defini uma meta: 5 voltas no parque. 3 voltas correndo e 2 andando. Como a extensão da pista de Cooper é de 1000m, então acredito que seja razoável correr 3km e andar 2km. Alonguei-me e pus a correr de imediato. Na entrada vejo a placa “Pista de Cooper Antônio Daoud – Homenagem dos usuários do parque ao atleta falecido em 6 de Maio de 1984 durante uma atividade esportiva”. Ótimo incentivo.

Primeira volta. Passo pelos guardas do Parque “Olá guardas!”, passo pelas quadras poli-esportivas “Olá quadras!”, passo por um casal namorando no banquinho “Olá casal namorando no banquinho”, passo pelas garças no lago “Olá garças no lago!”, passo por dezenas de pessoas caminhando e conversando “…sim, e você acredita que o Paulinho não quis entregar a prova no horário?” e um senhor com seus 55 anos e barba grisalha me passa correndo. Fim da primeira volta.

Segunda volta. Passo pelos guardas do Parque “Uf… Olá… Uf… Guardas!”, passo pelas quadras poli-esportivas “Uf… Olá… Uf… Quadras!”, passo por um casal namorando no banquinho “Uf… Olá… Uf… casal!”, passo pelas garças no lago “Uf… Olá… Uf… garças!”, passo pelas mesmas dezenas de pessoas caminhando e conversando “…não! e aí? O que você respondeu?” e um senhor com seus 55 anos e barba grisalha me passa novamente. Fim da segunda volta.

Terceira volta. Passo pelos guardas do Parque “Uf… Olá… Uf… Uf..”, passo pelas quadras poli-esportivas “Uf… Olá… Uf… Uf…”, passo por um casal namorando no banquinho “Uf .. Olá… Uf… Uf…”, passo pelas garças no lago “Uf… Olá… Uf… Uf…”, passo novamente pelas mesmas dezenas de pessoas caminhando e conversando “…pois é! E o pior é que depois o Paulinho…” e um senhor com seus 55 anos e barba grisalha me passa correndo. Fim da terceira volta.

Quarta volta. Passo pelos guardas do Parque “Uf… O… Uf.. lá… Argh… Uf..”, passo pelas quadras poli-esportivas “Argh… O.. Uf.. lá… Arf.. Uf…”, passo por um casal namorando no banquinho “Irc .. O.. Argh.. lá… Puf… Uf…”, passo pelas garças no lago “Eek… O… Argh… lá… Arf… Uf…”, passo novamente pelas mesmas dezenas de pessoas caminhando e conversando “…cada uma viu? Alguém devia dar umas palmadas no Paulinho…” e um senhor com seus 55 anos e barba grisalha me ignora completamente e passa impassível. Fim da quarta volta.

Quinta e última volta. Os guardas do parque me passam “Argh… Uf… Puf… Argh… Uf… Puf…”, as quadras poli-esportivas me passam “Irc… Puf… Arf… Argh… Uf… Puf…”, o casal namorando no banquinho me passa “Arf… Argh… Uf… Argh… Uf… Puf…”, as garças no lago me passam “Urc… Argh… Puf… Argh… Uf… Puf…”, as dezenas de pessoas me passam “…e ainda essa! Essa juventude de hoje em dia…” e o senhor com seus 55 anos e barba grisalha me passa 2 vezes! Filho da mãe! O cara não cansa? Como uma pessoa com mais que o dobro da minha idade, com menos cabelo na cabeça que na orelha, 2 pontes de safena e que só começou a correr por ordens médicas pode me ultrapassar assim? (embora seja bem plausível, admito que inventei o histórico desse senhor de barbas grisalhas) Esporte pode fazer bem à saúde, mas faz um mal ao ego…

Últimos 500 metros. Arf… Urgh… Uf… Irc… Arf… Puf… Argh… Uf… Argh… Puf… Puf… Uf… Ah… Urgh… Quase… Argh… Puf… Puf… Lá… Urgh… Uf… Irc… Arf… Puf… Argh… Uf… Urgh… Uf… Irc… Arf… Puf… Argh… Uf…

Enfim completei as 5 voltas. Cumpri o prometido: 2700m correndo e 2300m andando. Não era essa a minha meta? Aguardo o dia em que terei meu nome estampado numa placa: “Escada Rolante Leopoldo Joe Nakata – Uma homenagem de todos os sedentários ao mártir falecido durante um inocente cooper. Que isso sirva de lição à todos!”. Que venham as dores musculares!

Inagurando a série “Filosofia de Botequim” – Banheiro Feminino

Fico imaginando o banheiro feminino, mais precisamente na cabine com espaço reservado para deficientes: Meia rotação anti-horária do suporte do papel higiênico deve funcionar como a chave de uma passagem para o salão secreto que interliga, de alguma maneira que não podemos explicar, todos os banheiros femininos do Mundo!

Neste, acontece o maior campeonato de jogos de mesa do Globo terrestre: pebolim, pingue-pongue, sinuca, variações da mankala africana, carteado, e etc (todos estes disputados em duplas, é claro).

Lá, as mulheres se digladiam (acreditem em mim, digladiar é com “i”, também achei estranho …) em torneios simples, jogos de exibição, quadrangulares do tipo mata-mata, pontos corrido, liga nacional e até, vejam vocês, copas do mundo.

É por isso que as mulheres estão sempre tão preocupadas em ter algo para retocar a maquiagem. Ou você acha que um semblante plácido resiste à final de um campeonato mundial de pebolim contra vietnamitas gêmeas que trabalham de hostess num restaurante exótico do sul da Finlândia? Impossível!

Talvez você esteja estranhando este começo incomum de crônica. Mas depois de anos de estudo acabei por formular a teoria que explica, pelo menos para mim, um dos maiores mistérios da Humanidade. Por muitos anos, acreditamos que as nossas companheiras e amigas, fossem fofocar ou apenas retocar a maquiagem nos banheiros de estabelecimentos públicos que freqüentamos. Mas pensem bem, nada disso explica a compulsão mortal delas em irem acompanhadas ao sanitário.

Não sei se vocês repararam, mas mesmo quando recém-conhecidas, duas mulheres fazem questão de irem ao banheiro juntas. Não é difícil concordar que elas ainda não tem intimidade suficiente para fofocar. E quase sempre as maquiagens ainda estão intactas. Então porque isso sempre acontece?!

A questão é: ” – Como vou disputar o campeonato sem uma parceira? Preciso de alguém … tudo bem, vai. Vou com essa mocréia mesmo!”.

Nós, os homens, temos a mesma compulsão quando falta apenas uma pessoa para completar o time num jogo de futebol. Na dúvida, pegamos até o entregador de pizza que passa pelo local e escuta um: “Hei! Quer entrar meia-horinha aqui pra completar o time. A gente paga sua parte. E cobrimos o “prejú” da pizza também, vem aí!”

Portanto, não se engane companheiro. A competição é a verdadeira explicação para a obrigatoriedade das mulheres em freqüentar um banheiro público em duplas. E não estou falando no sentido metafórico, dentro da fogueira das vaidades. O negócio é pra valer. E a julgar pelo tempo que elas demoram lá dentro, acho que corre muito dinheiro por lá!

Banheiro feminino

Tá certo, vamos começar sem aquela coisa mais comum sobre o assunto, mas também não vamos delirar como outros. Porque sabemos muito bem que o que elas fazem lá é a mesma coisa que a gente faz guardadas algumas posições estratégicas que preservam a higiene pessoal e colaboram para a contínua assepsia do ambiente – coisa rara, diga-se de passagem.

Também não é nenhum segredo que o que elas falam lá a gente também fala só que não levanta da mesa, fala ali mesmo, sem qualquer medida de bom senso.

A mística do banheiro feminino está mais ligada a prórpia mulher e seus mistérios e menos aos assuntos e curiosidades. Quando se vai ao banheiro, ou “toilet” como preferem os mais educados, já me excluindo dessa categoria tediosa, porque nunca consegui dizer: “toilet”. Sempre que eu tenho que ir ao banheiro (a lá …… falei?), eu vou ao “banheiro” mesmo, pergunto onde é o “banheiro” e pronto, mas quando se vai ao banheiro a gente sabe muito bem quais são as opções e não tem nenhum mistério, este fica por conta mesmo da figura eclipsada da mulher e suas metáforas corporais, sinuosidades e delicadeza. Acho mesmo que é fetiche ou algo assim, parecido. Eu mesmo nunca tive toda essa curiosidade sobre o toilet feminino (só mesmo escrevendo pra usar essa palavra!), a única coisa que me intriga e há tempos eu tenho pesquisado é o comportamento das mulheres no vestiário feminino. Sim, existe uma grande diferença entre estar em um vestiário e estar em um banheiro.

A questão é sobre homens e mulheres, na verdade. Nós homens sabemos que em um vestiário masculino não se deve deixar o sabonete cair, por exemplo. Se você estiver em um vestiário masculino você vai inevitavelmente olhar algumas coisas e como fazia quando era pequeno, só que agora mentalmente, você vai comparar dimensões e funcionalidades; piadas daqui, risadas dali, até chegar no futebol, é claro.

No vestiário feminino ……………… existe uma lacuna mental nesse meu verbete. As mulheres não tem um órgão tão aparente como os homens (pelo menos não deveriam ter) mas podem muito bem comparar como fazemos nós, como disse uma Miss uma certa vez: somos todos seres humanos com sentimentos! A minha questão é sobre a postura feminina diante umas das outras. “… o dela é menor que o meu…”, “… a minha é mais levantada…”, “… nossa, quanta estria…” coisas desse gênero talvez aconteçam, mentalmente, é claro. E se tudo isso se comprovar um dia, talvez as diferenças sejam relamente mínimas, porém essenciais, e as explicações preencham as lacunas do imaginário masculino, pondo fim de vez nas divagações sobre o assunto

Por uma salada

Diego era um garoto tímido. Um bom garoto, órfão desde o nascimento, passou muitos anos no orfanato. Foi bem criado, educado, mas sem família. Tal injustiça seria remediada pelo casal Matheus e Miriam. Amavam-se muito, casados há cinco anos e nada de filhos. O problema era Matheus. Esperma ruim é o que diziam. Mas seu coração era grande demais para uma só pessoa. Só faltava Diego para formarem uma família completa.

Levaram Diego para sua nova casa. Deram roupas, comidas e até uma própria televisão em seu próprio quarto. Foi um começo embaraçoso. Diego ainda não se sentia à vontade. Era como um hóspede de luxo. Foram meses até que Diego respondesse algo além de “sim” ou “não”. Matheus e Miriam eram pacientes. Foram aos poucos ganhando confiança daquele garoto tímido, que logo já perguntava coisas sobre aqueles dois estranhos que o adotaram.

Com os anos eram uma família de fato. Não perdiam uma reunião de pais e mestres no colégio, iam em todas apresentações do coral de Diego, davam bronca quando tirava nota baixa e ajuda nas lições de casa. Assim mesmo Diego continuava os chamando de “Senhor Matheus” e “Senhora Miriam”, para os protestos constantes dos dois, que gostariam de serem chamados apenas de “pai” e “mãe”.

Aconteceu em um jantar. Distraidamente Diego pediu:

– Ô papai, passa a salada do lado da mamãe.

– O que… você disse?

– Passa a salada.

– Não, não, você me chamou de papai! Você ouviu Miriam?

– Ouvi! Que lindinho! “Passa a salada do lado da mamãe.” Mamãe! Finalmente você me chamou de mamãe!

– Nossa… Acho que é o momento mais feliz da minha vida. Fala de novo.

– Fala o que?

– Me chama de papai de novo!

– E me chama de mamãe!

– Er… Papai… Mamãe…

– Espera aí que vou pegar a filmadora.

– Ai, vou ligar para a vovó! Ela vai ficar tão orgulhosa!

– Onde é que liga essa câmera?

– Diego, a vovó quer falar no telefone com você!

– Vai lá Diego que estou te filmando! E chama a vovó de vovó que ela vai adorar!

– Er… Vovó?

– Fala mais alto Diego, senão não sai legal no vídeo. E agora fala Pa-pai para a câmera.

– … Papai.

– Que maravilha! Agora Ma-mãe.

– … Mamãe.

– Fala de novo Pa-pai.

– E Mamãe também!

– E não se esqueça da Vovó!

– … Papai, mamãe e vovó.

– Acho que vou desmaiar! É como se fôssemos uma família de verdade! Fala só mais uma vezinha!

– … mas… eu só queria a salada…

– Então fala mais uma vez, vai.

– É isso, só que fala sorrindo pra câmera.

Depois disso Diego decidiu. Nunca mais os chamaria de Papai e Mamãe novamente.

Todo dia

Todo dia acordo e tenho mais uma chance. Tenho mais uma oportunidade. Mas penso.

Todo dia. Levanto, escovo meus dentes inundado de planos, discursos, telefonemas e. Melancolia. Mas já?

O desânimo é o inimigo direto da ação. Todo dia ele me lembra disso.

Não sei se é uma benção ou uma maldição. Todo dia eu acordo de novo. Tudo se repete.

Juro que sei que é incompetência o amanhã. Mas como posso jurar se não tenho competência nem de cumprir a noite o que prometi pela manhã.

Viver dia após dia é morrer. Quero viver cada dia de uma vez.

Todo dia acordo e consigo fazer disso uma tortura.

Como posso desperdiçar tantas chances.

De manhã o objetivo. De noite a decepção.

Um dia não acordamos mais. E pior do que viver dia após dia é dormir em eterno sono conturbado.

Toda noite eu prometo. Toda noite não vai continuar a mesma. Toda noite vai ser a última.

Toda noite eu durmo sem saber se vou acordar. Isso me apavora. Não por não acordar, mas por não ter dormido tranqüilo.

Mas amanhã será outro dia. E depende de mim. Posso acordar. Ou posso acordar.

Eu prefiro acordar.