Arquivo de julho, 2003

O Diálogo

O Diálogo. O diálogo é uma conversação entre 2 ou mais pessoas. Embora sempre pensei que o prefixo “di” significasse 2 e não “ou mais pessoas”. Conversação é o ato de conversar. Conversar nada mais é que falar, discorrer. Falar é se expressar por meios de palavras. Palavra é a unidade mínima da linguagem com um som que possui um significado.

O diálogo em si é uma coisa. Uma coisa um tanto quanto chata em seu significado literal. Claro que pode ser mais ou menos chato, dependendo de quem dialoga. Um diálogo entre dois marombeiros-pitbulls do jiu-jitso normalmente é plano, chato. Agora um diálogo entre dois culturetes sobre a evolução do movimento dadaísta sobre a cultura hebraico-sertaneja no âmbito antropofágico neo-baiano pode não ser um diálogo plano, mas ainda assim é chato. O diálogo em geral é chato pela suas limitações.

O objetivo do diálogo é comunicar, expressar idéias. Comunicar é o ato ou efeito de emitir, transmitir e receber mensagens, não importando o meio, seja através de sons, grafismos ou até símbolos gestuais. Apesar de tantos meios disponíveis, o diálogo se utiliza apenas da palavra. Em um diálogo, os gestos, expressões e onomatopéias são apenas coadjuvantes. Coadjuvantes são aqueles que auxiliam, que servem de escada para o ator principal, como o Dean Martin para o Jerry Lewis ou o Dedé para o Didi. Existem algumas exceções, como quando comentamos, com palavras em um diálogo, algo sobre a genitora do ouvinte e este retribui com um ato multimídia denominado “Soco na Fuça”. Neste caso o diálogo se torna um coadjuvante para o dito “Soco na Fuça”. O “Soco na Fuça” é comumente substituído pelo “Chute no Saco”, principalmente por interlocutoras do sexo feminino. Apesar de equivalentes, resultam em reações desiguais, tanto física quanto moralmente.

Pude provar tal observação da sub-utilização da linguagem em diálogos na viagem que fiz por alguns países latinos na América do Sul. Países estes vulgarmente chamados de Peru, Bolívia e Chile. Por ser um turista e freqüentar ambientes com muitos outros turistas, tive a oportunidade de entrar em contato com muitos gringos. Gringos é uma denominação pejorativa para turistas, principalmente americanos (Americanos do norte para ser preciso). Mas no caso podemos utilizar o termo “gringo” para qualquer branquelo com uma máquina fotográfica procurando um “hostal” barato em seus respectivos guias de viagem Frommers ou Lonely Planet. Portanto conheci gringos franceses, gringos alemães, gringos finlandeses, entre outros.

Apesar do Brasil ser um país latino e estar localizado na América do Sul, os brasileiros não falam a mesma língua dos supra citados Peru, Bolívia e Chile. Como todo bom brasileiro, minha língua nativa é o bom português. E nem sempre tão bom assim. E todo bom brasileiro sempre acha que sabe um bom espanhol. Espanhol este falado nos já supra-supra citados Peru, Bolívia e Chile. Mas na verdade o bom espanhol brasileiro é equivalente ao bom alemão americano (Americano do norte). Ou seja, apesar da mesma origem lingüística, português falado no Brasil é diferente do espanhol falado nos supra-supra-supra citados países.

Apesar dos países europeus estarem muitos próximos uns dos outros, há uma diversidade lingüística enorme. Portanto os gringos franceses não falam a mesma língua dos gringos alemães que vivem perto deles. Os gringos franceses, como todo bom francês, falam francês. Assim como os gringos alemães falam alemão, os gringos finlandeses falam finlandês e assim sucessivamente. O fato é: quase nenhum gringo fala um bom espanhol. Gringo este americano (do norte) ou não. Com exceção dos gringos espanhóis, estes, que pela lógica, falam espanhol. Lógico que esta lógica não se aplica na América, onde os brasileiros não falam brasilês nem os americanos (do norte) falam americanês. A lógica é um processo mais europeu que americano (do norte).

Em 1887 o médico judeu-polonês, de nome esquisito, Ludwig Lazar Zamenhof criou uma língua para auxiliar de comunicação internacional. Esta língua, denominada de Esperanto, era a esperança de uma língua universal. Universal não no seu significado cósmico, relativo ou pertencente ao universo, mas no sentido de abrangência mundial. A esperança do Esperanto foi quebrada pela influência cultural americana (do norte). Através do domínio financeiro, do marketing, de Hollywood e de música pop barata (no quesito qualitativo e não antônimo de caro, muito menos no sentido de inseto que apavora a dona de casa) conseguiram transformar a língua inglesa em uma língua, de certa forma, universal (não o estúdio de Hollywood). Língua inglesa essa falada na América (do norte).

Conseqüentemente, nós brasileiros, que não falamos espanhol bem, e os gringos (não necessariamente americanos – do norte), que também não falam espanhol bem, ambos falamos inglês, não necessariamente bem também. Obviamente o inglês não é a língua nativa de ninguém (exceto dos gringos americanos – do norte – e dos gringos ingleses – não necessariamente do norte), que resulta em algumas falhas na comunicação verbal, devido a uma menor amplitude lexical. Comprovando tal fato: eu não saberia escrever “menor amplitude lexical” em inglês (se em português já foi difícil…). Estes buracos na linguagem provocam a impossibilidade do diálogo, já que este é composto apenas de palavras. Uma gringa francesa teve que sair do diálogo propriamente dito e fazer malabarismos, gestos e onomatopéias para conseguir me explicar que torceu o tornozelo em uma trilha que fez. Eu levei uns quinze minutos gesticulando para conseguir comunicar para um gringo alemão que alguns jogadores de futebol do oriente médio eram chicoteados se perdessem um jogo. Admito a falta da praticidade de tais atos, mas são bem mais divertidos que o simples e puro diálogo composto apenas por palavras. Divertido no sentido oposto ao de chato. Uma simples conversa se transforma em um prazer quase sinestésico, com mais cores, movimentos e sons.

Este texto está meio confuso? Está meio chato? (Chato no sentido oposto de divertido.) Então espera aí que vou fazer um desenho.

O mundo tem dessas coisas mesmo

– Seis.
– Oito.
– Cinco.
– Doze!
– Jambarjan, traz um pra mim?!
– Por que Jambarjan?
– É que quando você não sabe o nome do cara você vai logo falando, Jambarjan que ele atende.
– Porra zé, a gente vem aqui toda quinta-feira desde que inaugurou e você não sabe o nome do garçon?
– Não, qual é?
– Wilson.
– Cleyson.
– Anderson.
– …
– Jambarjan, mais um pra mim também.
– Vamo logo com esse jogo, vai.
– Cinco.
– Três.
– Dois.
– Dez!
– E esse governo, hein! Com essa história da Previdência ……
– Ninguém quer repartir o bolo.
– O Delfim Neto podia ter morrido!
– Um.
– Seis.
– Quatro.
– Dezessete!
– ……..é mas na época dele tinha que crescer o bolo mesmo …….
– Eu discordo.
– É mas você tem que ver que a época dele é a época dele, agora é tudo diferente. Por exemplo: esse bando de homens sentados em um bar jogando e bebendo, é difícil ver,hoje em dia. Tem mais mulher bebendo do que homem.
– É o que dizem.
– Deixa de ser besta, não tem nada de diferente ………. é só que o bar do Zito mudou um pouco, horas.
– Agora é Lime lounge.
– Olha, as coisas estão tão diferentes que até inventaram um outro sexo, o terceiro.
– Três.
– Dois.
– Lona.
– Treze!
– Terceiro sexo ……….. Terceiro o escambau! Homem é homem e mulher é mulher que história é essa de terceiro sexo?
– Carlão, você não sabe de nada mesmo. tem que ser moderno, aceitar as coisas.
– É ….. meu filho trabalha na T.V., ele disse que agora tá na moda esse papo de GLS.
– Que GLS que nada. Se eu vejo um sujeito na minha frente eu sei se é homem ou não, e ele que se engrace comigo pra ver.
– Dois.
– Quatro.
– Um.
– Onze!
– Porra, Marcão! Vê se presta atenção no jogo!

Sonhei que voava

Sonhei que voava. Um sonho repetido, um desejo recorrente, algo que nunca tinha percebido. Eu sei voar. Não como um pássaro, não como um super-homem. Apenas e tão-somente voava. Um sonho inteiro vendo coisas por cima. A rua da casa de meus avós, fios (cuidado!), árvores no quintal. E, claro, pessoas me olhando, espantadas.

Mas mais espantado estava eu: era muito fácil voar. Simples. Como nunca ninguém tinha voado sozinho antes? Basta esticar as palmas das mãos como se se quisesse aparar o vento, jogando-o para baixo delicadamente. Nada de bater os braços, dar impulso com os joelhos, não não. Palmas em diagonal ao chão, e pronto. A mão esquerda um pouco mais pra lá e a curva se faz. E com as mãos mais juntas ao corpo a descida é confortável.

No começo, voar dá medo. É estranho ver que é suficiente o desejo de voar. Meu pesado corpo mais-leve-que-o-ar? Como se sustenta? E na hora de descer? E se eu me machucar? E a dor? Percebi que essas inseguranças são incompatíveis com o vôo. Não se pode voar pensando nisso. Não pense. Voe.

Voar serenamente, silenciosamente. Ver de longe as pessoas indo pra lá e para cá, observar o fluxo dos carros, conhecer os tetos das casas. Brinquedos esquecidos no fundo de uma piscina. Lá na frente, um parque de diversões com uma roda-gigante. Será possível ir tão alto? Sim, é possível, mas não é necessário. Não é necessário quebrar nenhum recorde de velocidade, altura, tempo. Só voar.

Acordei. Mas a sensação veio comigo: era preciso voar. Era preciso ser livre. E, com a consciência de um ser flutuante, serenar a liberdade. Continuar voando, mesmo de olhos abertos.

Salada de Frutas

Aquele parecia ser apenas mais um almoço comum. Eu estava na fila do buffet de um simpático restaurante por quilo próximo ao meu trabalho. Distraído, preocupado em nada além do que escolher a comida. Só isso.

Repentinamente algo me chamou a atenção para a pessoa que estava na minha frente (o buffet era daqueles que podem ser servidos pelos dois lados, ou seja, você observa quem está do outro lado como se fosse em um espelho).

Nada demais. Era só uma menina. Bela menina, por sinal. Acompanhada pela (suponho eu) irmã, e um carinhoso avô ou tio, que não tirava sua mão direita do seu ombro.

Por instantes olhei-a fixamente. Deveria ter uns 14, no máximo, 15 anos de idade. Corpo de mulher insinuado em uma criança. Inocente, apenas uma estudante escolhendo o que comer.

Logo voltei a me preocupar com meu almoço e esqueci a guria. Sentei e comecei a conversar com meus amigos enquanto comia.

Novamente vi minha atenção sendo chamada para a menina do buffet, agora umas 2 mesas na minha frente. Seu avô (ela havia o chamado assim) não comia. Apenas observava a neta com um carinho maior do que o comum. Bonito de se ver. Lindo, na verdade.

Fui me distanciando da conversa na mesa e voltei a olhar fixamente para a garota. Algo nela me intrigava profundamente. Talvez, fosse seu jeito de falar com a irmã. Ou sua atenção diferenciada ao segurar a taça em que comia a salada de frutas. Não sei.

Percebi que ela não parecia ter aquela preocupação exacerbada e precoce em se tornar mulher. Era uma menina. Bonita. E sabia disso. Mas de alguma forma, se mostrava isolada das preocupações mesquinhas que envolvem os adultos, hoje em dia.

De vez em quando eu tentava disfarçar minha consternação, esquivando meu olhar da sua irmã mais velha (acho eu …), que já sabia me intimidar com um simples olhar de mulher sugerido.

Mais uma vez olhei para a bela menina. E ela, sem nunca se preocupar com o meu olhar, continuava a comer a sua salada de frutas. Seus olhos eram negros. Sua íris era tão escura que se fundia com a pupila. Olhar parado. Forte.

Numa de suas últimas colheradas, uma das frutas despencou de sua colher e caiu na mesa. Ela não percebeu. Seu avô, rapidamente, limpou a mesa e a afagou como se dissesse: “Tudo bem, minha querida, não se preocupe”.

Ela sorriu ternamente e não olhou para ele. Nunca olhava … Ela era cega.

Naquele momento senti uma pontada dentro do peito … É claro que ela era cega! Como eu não tinha percebido isso antes?! Só alguém que não vê o mundo que estamos vivendo para conseguir comer uma salada de frutas com aquela dignidade.

Só uma menina que nunca vira um sorriso dissimulado de mulher, para agradecer seu avô de forma tão simples e franca. Um sorriso sincero como eu nunca tinha visto.

Um sorriso que me fez sentir vergonha do mundo que estamos. Talvez fosse melhor ela não ver o mundo em que estamos. Pelo menos grande parte desse mundo.

Ela era cega, mas naquele instante, tinha toda certeza que os verdadeiros deficientes do restaurante éramos nós. Cheios de imagens distorcidas da realidade.

Eu queria falar com ela. Queria talvez, ser presenteado por um sorriso daqueles. Ou no mínimo, ter certeza de que ela era real, como uma prova viva de que nem tudo está perdido.

Mas não fiz nada disso, é claro. Nós podemos ver, mas temos medo deixar que os outros nos vejam verdadeiramente. O que achariam de mim, se eu dirigisse qualquer ação para aquela bela guria?

Fui embora.

Triste por não poder agradecê-la. Mas feliz, ao menos, por ter visto uma mulher (ainda que insinuada), dona de um sorriso tão cristalino.

Talvez nem tudo ainda esteja perdido …

O mundo tem dessas coisas…

Outro dia, tentando escrever algo, me deparei com uma pequena situação. Situação esta que escrita não tinha nada demais porém fora dela, era um tanto quanto impensada – para ser ameno.

Karina estava, só, com seu marido antes que ele saísse por aquela porta e fosse ganhar o pão de cada dia. O apartamento não era grande o bastante para Karina. Ela vivia dizendo que precisava de mais espaço, que não tinha passado sua vida toda estudando e tentando ser a melhor para ficar ali, daquele jeito. Ela vivia dizendo isso e ele nem sabia porquê. Era simples: quando ela começava a falar ele desligava, ensurdecia, e assim os dias passavam.

Deu um beijo em sua esposa, ainda na cama e pegou o paletó amarrotado.

Tinha que ser assim mesmo, uma solitária, uma estranha em um prédio estranho, só mesmo um cara sensível como o vizinho do lado para entender seu drama. Pobre Karina.

As chaves foram para o bolso. O cigarro ficou no criado-mudo. Ele tinha prometido que iria parar. Saiu pela porta, altivo, senhor de si. Desligado como sempre.

A Karina restava esperar o fim do dia. Pelo menos era o que ele estava pensando no hall do prédio. Foi então que tomou-se de culpa. Coitada, passar o dia sem vê-lo, sem ninguém por perto, sozinha, conversando quando muito com o vizinho do lado. Como era mesmo o nome dele ………..? Aquele grandão, parrudo ………………….Ricardo. Isso, Ricardo ……………Meu Deus!

Voltou correndo e atravessou a porta como um tiro de AR15 atravessa a blindagem das viaturas. Nada no quarto, nada na cama, nada embaixo. O armário. É aqui, caro leitor, que a situação se apresenta, porque, veja você, eu tenho um cara no armário que se chama Ricardo, grande e largo, e que em breve eu precisarei escrever que “o Ricardão saiu do armário”. Você entende, amigo, que o Ricardão saiu do armário? Como pode ser isso?

…………….. o mundo tem dessas coisas mesmo.

Gastro-psicologia

– Gostei do divã novo.

– Tudo pelo conforto dos pacientes.

– É mais confortável mesmo doutor.

– Então aproveite que está confortável para começar a contar como você está.

– Bem doutor. Não mudei muito. Continuo com os mesmos sonhos.

– Fernanda Lima né?

– Sim

– Ela continua falando a mesma coisa?

– Sim. Ela vem na minha direção. Maravilhosa. Com aquelas blusas de um ombro só sabe doutor?

– Sei

– A franjinha caindo no olho. Os lábios cintilantes. E então quando ela deveria falar “Fica comigo”, ela diz…

– Feijão no umbigo.

– Isso doutor.

– E depois?

– O de sempre. Ela tira a blusa e está com uma camiseta por baixo com os dizeres “Oh mon´amour te amo pra chuchu.”

– Com ch ou com x

– Com ch.

– Hummm…

– É grave né doutor. Só pode ser esquizofrenia. Eu nem gosto de chuchu…

– E feijão?

– Só com bacon e da mamãe.

– É uma delícia né?

– Nossa se é. Com uma couve então.

– Nossa você já comeu…Ran ran. Voltando ao assunto.

– Sim

– Acho melhor termos mais atenção a isso já que não cessa.

– Como doutor?

– Na próxima sessão trarei um especialista pro seu caso para ajudar-nos.

– Ok doutor não sei como te agradecer.

– Ah, já que você quer me agradecer um pouco daquele feijão cairia bem.

– Hein?

– Ran ran. Não precisa agradecer, você pra mim é um irmão meu bem.

– Ah sim. Claro doutor.

– Até a semana que vem.

– Até.

———————-uma semana depois——————————-

– Olá doutor

– Olá. Hoje você vai conversar com o especialista.

– Claro, o senhor é?

– Olá meu nome é Carlos. Eu sou cozinheiro. Como que é esse prato que sua mãe faz?