Arquivo de setembro, 2003

Um minuto

Antes de mais nada, eu gostaria que fosse respeitado, aqui, um minuto de silêncio em homenagem a alguém que certamente foi importante para outro alguém e que, também certamente foi insignificante para você leitor. Porém, faça-se o minuto respeitado.

Reparei um dia desses, atrás, essa coisa de um minuto de silêncio em respeito à morte de não sei quem. Coisa mais besta essa. Minuto de silêncio, horas de silêncio, são os familiares e conhecidos que fazem; ou mais alguém também deve fazer? E se eu nem conhecia a pessoa, que compromisso tenho eu, ou homenagem eu posso fazer ficando um minuto em silêncio? Tudo bem, tudo bem, reconheço que estou sendo um pouco insensível e que como diz a minha avó, “Respeito é bom e não ocupa espaço”, mas vamos ser mais racionais e pensar um só pouco. Talvez seja até um desrespeito você que nem sabe quem se foi ou porque está naquele impasse de respeitar os mortos.

Todo jogo de futebol tem um minuto respeitado – e digo isso só por retórica pois ninguém respeita mesmo – antes do início da partida. Tudo bem, muita gente morre. Tudo bem, ele foi alguém importante pra nação. Mas todo jogo tem um Zé ninguém que foi presidente do sindicato do clube dos gandulas de Ribeirão Pires que morreu e os jogadores, do alto de todo o seu mais singelo respeito páram e ficam quietos antes da partida começar. Pergunte para qualquer um dos jogadores que ali estão, se sabem quem foi o tal que está sendo homenageado.

Esta história de um minuto de silêncio virou a maior carne de vaca – para ser mais popular. Se antes, já se dizia que todo mundo queria seus cinco minutos de fama, agora podemos dizer que todo mundo quer seu minuto de silêncio. É, até na morte as pessoas querem os famigerados cinco minutos de fama, nem que seja apenas um minuto de silêncio. Aposto que em algum jogo prestou-se esta popular homenagem ao relacionadíssimo jornalista Roberto Marinho. Talvez tenham homenageado, também, o Mussum e o Zacarias. O Chacrinha com certeza. Uns são personalidades, outros donos de algum país na América do Sul, mas vamos preservar aqueles, que nada são ou foram, para suas famílias. Esqueçamo-nos da popularidade e vamos para o jogo que ultimamente está deixando a desejar mesmo. Também, com tantas mortes antes dos jogos não existe clima que consiga fazer os jogadores ficarem motivados e felizes, de fato, acho que esse tal de minuto de silêncio antes do começo da partida só piora o clima e faz lembrar de como somos vulneráveis a tudo na vida. Ele piora os jogos. Definitivamente, ele os estraga.

Um minuto de silêncio para quem inventou esse minuto.

Mais uma manhã de domingo

Era mais uma manhã de domingo. Eles se encontraram casualmente. Ele estava fazendo seu cooper semanal e ela levando o cachorrinho para passear. Uma calça de lycra branca passando fez com que ele se distraísse e tropeçasse no pobre cãozinho dela. Algumas mordidas e muitas desculpas depois, eles se apresentaram.

Ele, estudante de direito em uma faculdade estadual, estagiário de um grande escritório de advocacia, sagitariano, solteiro, de boa aparência; muito prazer. Ela, estudante, prestando o vestibular para turismo, pisciana, solteira, linda; o prazer é todo meu.

Conversaram bastante. Ele contava como era distraído e as gafes que já deu. Ela ria e concordava, afinal era tão avoada quanto. Foram histórias dele derrubar a taça de vinho em cima da mãe de sua primeira namorada, dela bater o carro da irmã por avistar uma vitrine linda, dele esquecer de dar comida ao peixe durante uma semana, dela levar o gato para tosar e deixar o cachorro na caixa de areia. Muitas histórias em comum.

Tanto falaram que a fome apertou. Ele indicou um ótimo restaurante pertinho dali. Ela aceitou o convite prontamente. Ambos vegetarianos. Ele por motivos de saúde. Ela por pena dos pobres animaizinhos. Comeram um ótimo quiche de cenoura, arroz integral, caldo de feijão branco, salada e uma salada de frutas de sobremesa. Uma delícia.

Saíram caminhando a esmo pela cidade. Entretidos um com outro. Nem perceberam os monumentos do parque. Passaram pelo obelisco, pelo monumento a bandeira, andaram toda Av. Brasil e chegaram até a Rebouças. Não viram a hora passar.

No meio daquela avenida movimentada ele a puxa, salvando-a de ser atropelada por um entregador de pizza em sua moto. Ela assustada o abraça. Olho no olho. Respiração ofegante. Corações acelerados.

Foi um beijo perfeito. Na dose certa de romantismo e sensualidade. Era como se tivessem ensaiado essa cena milhares de vezes. Ela de olhos fechados, sorvendo cada instante daquele pequeno momento. Ele acariciando os cabelos dela, sentindo seu perfume adocicado.

Por um pequeno instante o tempo parou. Os carros desapareceram, os prédios diminuíram, eram as únicas pessoas do mundo.

Após essa pequena folga, o tempo retorna implacável. Ela tem que voltar. Já era tarde. Estava atrasada. Se despedem e ela sai correndo. Ele corre atrás. O telefone. O número de seu telefone. Ela volta e escreve um pequeno bilhetinho. Ela vai embora.

Ele lê o bilhete. “Adorei te conhesser. Você é o mássimo. Beijaum.” Ele abaixa a cabeça e desiste de ligar.

Pós Scriptum

Acho que pouca gente sabe, mas o “P.S.” (conhecido popularmente como “P.S.”) é um recurso muito antigo, utilizado após a assinatura final das cartas escritas à mão (isso mesmo, sem teclado), quando se percebia que algo deveria ter sido escrito, mas foi esquecido.

Por uma incrível coincidência, o “P.S.” foi teletransportado do papel para o monitor, e nós (que nunca mais escrevemos uma carta) ainda utilizamos esse interessante recurso, o que é bem incoerente, se levarmos em conta que em qualquer editor de texto, temos todos os recursos para adicionar um novo trecho no corpo de uma carta (perdão, e-mail) já redigida.

Por muito tempo fiquei me perguntando o porquê da sobrevivência desta solução. É como ver alguém desprezar o controle remoto de uma TV, pela força do hábito de se levantar em todos o intervalos para dar uma zapeada nos seus 128 canais a cabo. Não faz muito sentido.

Depois de muito observar e pensar, cheguei há algumas conclusões. Isso acontece:

Em primeiro lugar pela preguiça. Tem muita gente que não tem mínima a decência de rever seus próprios e-mails, e caso se lembre de qualquer coisa depois de escrever ” []’s ” acrescenta um “P.S.zinho” pra não ter que pensar onde colocaria mais um assunto no meio do seu texto.

Num caso mais nobre, o “P.S.” é usado por educação quando não se tem assunto com o destinatário. Por exemplo, quando você escreve por um motivo qualquer para alguém com quem não conversa há algumas décadas:

“Oi Alfredinho, aqui é o filho da Dona Margarida. Estou escrevendo para comunicar que a minha cadela teve cria de 27 lindos vira-latinhas, e por acaso, me lembrei que a sua mãe, a Tia Josefa, adora cachorros. Olha só … será que ela não quer uns 26 só pra ela?

P.S.: E aí, primo?! Tudo bem com vc? Como vai a vida?”

Outro uso está no reforço de algo que já foi dito ou combinado mas deve ser lembrado. Aproveita-se, então, o fato de que o “P.S.”é a última coisa que a pessoa irá ler:

“Fala Almeida, belezinha?!

O churrasco na casa da Lurdinha foi um espetáculo, né ?! Aliás a Lurdinha na piscina tava coisa de louco …

Aqui vão as fotos que tirei com a minha camerinha digital. Dá uma olhada com calma pra ver se lembra de algo … hehe (você travou, heim?!)

Abs!

P.S.: Não esquece de que terça-feira é o dia do nosso jogo de bocha.”

Nos casos mais extremos, o “P.S.” contêm todo o assunto que realmente interessa. É um eufemismo para uma cobrança severa, um pedido descarado ou uma notícia trágica (uma versão digital do “Pai, estou grávida … passa o sal.) :

“E aí, Cabeça?! Beleeeza ???

Cê viu que louco o lance do cachorro da tia Margarida, véio?!

27 cadelinhos! Mó doideira!

Bom, acho que é só !

P.S.: Quando você vai me pagar a droga guitarra que você quebrou imitando o Jimmy Hendrix naquele dia?!?!”

Ou então:

“Oi Heraldo, tudo bem com você, Chuchu?

Não sei se você está lembrando de mim … mas aqui é a Lú da Escola Moreira Salles, lembra ? (a Lú foi tudo que o pobre do Heraldo desejou durante todo o ginásio e colegial);

Eu sei que a gente não se falava muito no colégio (a Lú nunca olhou pro Heraldo naquela época). Mas acabei me lembrando de você um dia desses, quando te vi naquele programa sobre super-executivo-milionários do novo milênio. Parabéns, viu! Fiquei super orgulhosa.

Manda notícias … tou com saudade!

P.S.: Ah … só pra saber, você sabe de alguém que possa precisar de uma secretária bilíngüe (português fluente!) ?”

E pra piorar :

“E aí Alberto,

Aqui é o Alfredo. Como vão as coisas por aí na pós-gradução?

Legal … bom saber …

Bom … é isso aí.

Té mais!

P.S.: A Mãe morreu.”

É por esses e outros exemplos, que acabamos entendendo porquê o “P.S.” sobrevive e deve permanecer entre nós, ainda por muito tempo.

P.S.: É claro que eu não poderia deixar de fazer essa piadinha sem-graça no final dessa crônica.

P.P.S.: Entendeu ?

Da série “Joe vê”

É uma série de idéias, pensamentos, reflexões, esquetes, piadas e outrem que não caberiam em um formato de conto e crônica. Também conhecida como “Bobagens homeopáticas”.

Joe vê Tarzan:

Ele era pequeno macaquinho perdido no meio de uma grande cidade. Foi encontrado por humanos que o criaram. Hoje em dia, do alto do edifício de sua multinacional, luta contra o Greenpeace e outras ONGs Ecológicas maléficas que querem destruir o cinza de seu habitat. Ele se chama Tarzan, o rei das metrópoles.

Joe vê Deus:

– Deus aqui em entrevista exclusiva. Bom dia Deus, diga para nós, quando o Senhor resolveu seguir a carreira de Deus?
– Bom, isso foi há muito, mas muito tempo atrás. Bem antes dessa moda de hoje em dia, onde todo mundo quer ser Deus. No Meu caso, é que sempre quis ter um negócio próprio. Ser empreendedor, sabe?
– Foi um início tranqüilo?
– Graças a Mim! Eu tive o apoio de toda Minha família. Até Meu filho deu uma mãozinha.
– Mas a passagem dele foi um tanto quanto conturbada.
– É verdade, coitado. Eles não o compreenderam muito bem. Não é fácil ser vanguarda. Na hora o crucificam, mas depois perceberam que ele estava muito a frente de seu tempo. Sabe como são esses críticos de mente limitada.
– Por falar em críticos, há um número crescente de críticos ao Senhor. Eles afirmam que o Senhor não existe. Há quem afirme que o Senhor está morto. Por que o Senhor anda recluso?
– Besteira! Esses críticos não entendem nada. Eu não ando recluso. Apenas desisti daquela pirotecnia do início da carreira. Sem essa de chuvas de fogo e enxofre. Creio que evoluí artisticamente. Não preciso mais dessas “muletas técnicas”. Ando muito mais sutil. Uma arte mais introspectiva. Esses críticos não enxergam mais as sutilezas.
– Para finalizar, dê uma dica para aqueles que pretendem seguir a carreira de Deus-Todo-Poderoso-Onisciente-Onipotente-e-Onipresente.
– Humildade.

Joe vê A Arte Expressionista Abstrata

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Joe vê A Pirataria

– Olha, essa nota é falsa. Não posso aceitá-la.
– E esse aparelho de som que você está me vendendo é original?
– O senhor aceita o troco em Cds do Windows XP?

Joe vê O Silogiosmo

José é um menino de rua. Sempre ouviu que se você fizer algo de ruim para uma pessoa, você estará fazendo algo de ruim para você mesmo. Em vão, constantemente tenta lembrar que ato horrendo ele deve ter feito.

O mundo tem dessas coisas

Era domingo, era dia; dia de ir para casa da minha avó. Dia de cruzar a cidade. o caminho era muito maior doque este de hoje porque era pequeno, criança. Engraçado como você sempre acha tudo muito grande e demorado quando é criança. Aí vem os adultos com os relógios e todos os ensinamentos de como se comportar sendo pontual e tudo fica mais curto e o tempo encolhe.

No farol, semáforo ou sinalera, dependendo de onde você está no mapa do país, havia um moço robusto e bem apessoado, mas que fazia coisas engraçadas. ele ficava ali parado esperando os carros imitarem seu gesto, e então, começava a conversar com os outros moços que estavam dirigindo. Eu nunca entendi muito aquilo porém, era simpático da parte dele. Todos sorriam e seguiam seu caminho. Coisa de adulto, a gente não entendia.

Com alguns anos a mais eu comecei a achar mais estranho ainda essa coisa de farol e gente conversando. Toda vez que eu tinha que ir para casa da minha avó eu cruzava a cidade e eles vinham conversar com a gente, sempre muito educados, mas certas vezes tive medo. Um cruzamento mais à frente e veio um menino decalço de um pé conversar com a gente. Meu pai falou alguma coisa com ele enquanto eu via o seu único pé, descalço. Aquilo ficou na minha cabeça até eu conseguir achar uma solução para o pé daquele menino. Só podia ser isso, era o próprio, era o saci. Pra mim, aquilo tudo era novidade e nem me dava conta do que tudo aquilo se tornava ao longo dos anos. Só fui realmente perceber o que estava acontecendo esses dias atrás quando eu comecei a dirigir pela cidade devidamente licenseado. Era um mais um dia no fundo de garantia, um dia comum. Um semáforo comum. A situação, também, comum. Amarelo. Vermelho. À direita, uma orda de portadores enlouquecidos esperando o verde da largada – portador é um nome bastante estranho para quem já foi motoboy – ; à esquerda, sacos e sacos de balas e doces vendidos no mais novo ponto-de-venda da cidade: o retrovisor do seu carro. Ao longe um sujeito caminhava com dificuldade por entre os carros e com certa intolerância pela vida. A dificuldade era fisicamente visível, com apenas uma perna, aquele jovem adulto não podia correr distribuindo os doces, não conseguia dirigir uma moto e ficava ali, na sinalera, andando e pedindo. A largada foi dada. Primeira, segunda, o rosto era familiar, os olhos, o sorriso, não conseguia imaginar outra coisa. O dia todo foi assim, aquela imagem do menino conversando com meu pai na janela do carro.

Dupla Personalidade

“Pare de resmungar, vai ser melhor assim!

– Não, não vai não! Não é justo!

– Você e essa mania de justiça, esqueça disso, o mundo não e justo mesmo.

– Não é porque ele não foi com você que eu deva aceitar o mesmo. Conformista!

– Ta vendo só, e por isso que você é um frustrado, você quer mudar o que não dá para mudar, não aguenta e fica choramingando.

– Eu sou sincero com o mundo no qual eu vivo!

– Você já devia ter aprendido alguma coisa comigo. É pena que é o seu momento, pois eu lidaria muito melhor com a situação. Você é um desastre!

– Eu não vou ser igual você. Não vou!

– E bom tentar, pois você quase estragou tudo, quase. Por muito pouco.

– Eu não mereço isso!

– Isso não diz respeito ao que você merece.

– Diz sim, e eu não vou mudar minha opinião por sua causa!

– Pois bem amigo, sofra. Eu vou ficar torcendo por nós dois, e quando tudo der certo, vou estar ao seu lado para dizer – eu avisei.”