Arquivo de outubro, 2003

Coisas de criança

Quanta coisa aprendemos quando criança. Não coloque o dedo na tomada. Não coma coisas que encontra pelo chão. Não coloque a mão em uma panela no fogo. Apesar de tantos avisos e ensinamentos, insistimos a contrariar os avisos e experimentarmos por nossa conta. Certamente tomamos muitos choques e quedas pelo caminho. É que chamamos de viver. Viver muitas vezes é mais eficiente que aqueles sermões de “não faça” que tantas vezes ouvimos. Assim crescemos, assim aprendemos.

Aprendemos a confiar em nossos pais. Quantas vezes já não nos arrependemos de levar aquele agasalho que sua mãe tanto insistiu para que botasse? Sempre preocupados e pensando no seu bem-estar. Experiência. Essa é a palavra. Eles já viveram tudo aquilo que você passou ou está passando: aquela vontade de riscar paredes, a curiosidade de desmontar os brinquedos, aquele temor de ligar para aquela garota ou aquele primeiro porre. Escutamos e aprendemos.

No fim crescemos. Aprendemos. E descobrimos que eles mentiram.

O mundo não é como nos ensinaram. Quando somos pequenos, se acreditamos em nossos pais, somos bem-educados e elogiados. Quando crescemos, se continuarmos acreditando, viramos otários e desiludidos.

Comi todo o feijão do prato e não cresci forte e bonito. Trabalho 12, 14 horas diárias e estou longe de ficar rico. Procuro e não encontro aquela princesa encantada prometida. Sou honesto e fiel, mas nunca valorizado por isso. Procuro ser bom com os outros, mas não há um Papai Noel no final do ano para ser recompensado. Os desonestos não são punidos no final. O mau-caráter sempre fica com a mocinha.

Na vida adulta não há espaço para “crianças”. Hollywood não existe. O romantismo morreu há muito tempo. As últimas peças de resistência sofrem a via-crucis. Não há charme em ser bom, enquanto há uma aura sexy em ser mau. A malandragem é fator diferencial (eu diria até crucial) na ascensão de uma carreira. Ter princípios é antiquado. Fidelidade é careta. Honestidade é burrice. Apanhamos e aprendemos.

Aprendemos? Ou desaprendemos? Em quem confiar? Em nossos pais que sempre zelaram por nós ou em um mundo que sempre nos acerta na cabeça e no coração?

Ser uma criança eterna, sonhar, viver, buscar e por muitas vezes chorar e apanhar de um valentão qualquer. Ou abrir os olhos, se encaixar em um mundo canalha e roubar o lanche daquele otário fracote?

Sigo com minha decisão. Fecho meus olhos ainda com esperanças de um dia o mocinho vencer no final. Continuo em meu canto solitário, brincando com meus blocos de madeira e bolinhas de gude, esperando que um dia tenha companhia para brincarmos juntos. Talvez eu seja o maior otário do mundo, ou talvez o mundo precise da mais blocos de madeira. Alguém quer brincar comigo?

Mulheres

Primeiro foi a primeira, evidente. Eu chorava muito, não aguentava aquela sujeira toda. Aí ela vinha e me enfiava leite e mais leite. – Esse menino não tem sossego? Só quer saber de comer. Eu ficava todo encharcado, mas também não se pode culpar ninguém por isso. Coisas de primeira viagem. Pelo menos eu ainda tomo leite, meio litro por dia, e sei porquê.

Depois, e foi bem depois, veio a Letícia. Uma menininha encantadora, graciosa, tomou minha atenção por completo e sem saber nada sobre Platão e suas idéias, ele se fez conhecer na forma de amor. Coisa de criança, só observando ………… sem saber o que fazer. Mais tarde eu descobriria que isso aconteceria mesmo não sendo mais uma criança e que algumas mulheres continuariam a me ignorar e eu sem entender porque. Dura lição ininteligível. Achei que depois disso eu iria me adaptar e entender, depois, o que antes havia acontecido. Deveria ter alguma relação com maturidade, não sei.

Ainda longe da puberdade foram muitas as musas na escolinha e ginásio (se é que ainda existe tal nome). Mas a mais imcompreensível de todas foi a Ritinha, lá da rua. A família inteira sempre foi amiga e conspirava para que acontecesse alguma coisa, mesmo sabendo que a gente era muito novo e inocente para tal. Sei que era só por diversão dos adultos, mas a gente levava a sério, mesmo que sério significassem ela dizer que era minha namorada e eu nunca ter podido/conseguido beijá-la. Era namoro sem beijo, depois, um dia, viraria beijo sem namoro. As coisas são assim, quem entende. Com tanto na frente e as mulheres insistem em dar a volta e correr atrás de poeira.

A saga seguiu-se por toda a puberdade, aflita, apressada. O namoro virou caso, que se transformou em “ficar” que virou “beijar”. Que fique registrado: na minha época eu já “ficava”. Não faz tanto tempo assim, mas sabe-se lá por quanto tempo esse texto irá perdurar.

Tudo muito difícil. Elas querem mas não pode ser assim, tem que ser assado. Aí pode, aqui não. Todo dia eu me perguntava porque quem eu queria não me queria, porque era tão difícil “aceitar” o outro. Foi só quando eu fiquei com a Pri que eu tive a certeza: as mulheres, realmente, prestam atenção em outra coisa. Não tinha explicação racional para aquela escolha. A minha pessoa não estava preparada para suportar tanta perfeição, acho que, afinal, nunca estamos preparados. Talvez tenha sido este o meu maior erro: racionalizar o amor.

Mais dias se perderam na batalha imcompreensível entre os sexos, não necessariamente com ele envolvido.

Depois de tudo, eu conheci a Mi e foi uma completa e desenfreada busca pelo caos. Não nos envolvemos além, do mais objetivo processo de acasalamento animal e posterior amizade. Incomum. Ela não tocava no assunto, eu, o mesmo. Impressionante como durou muito mais que qualquer outro relacionamento já vivido. Essa coisa de compromisso está totalmente fora de moda. Hoje as mulheres já não são criadas para serem esposas e tomam suas vidas como deve ser. Ainda acho que essa coisa de “conquistar” o próprio espaço está se perdendo e virando uma simples substituição de papéis, o que as torna homens de saia. Passam a ser fúteis como nós trogloditas egoístas que só pensam em aparência, e satisfação pessoal. Hoje um, amanhã, outro. Esse é bonitinho, esse não. Não gostei do cabelo daquele, esse é m-u-i-t-o feio. Não estão prestando atenção em outras coisas como antes, mesmo dizendo que sim. Os sexos estão cada vez mais próximos e não é à toa que a onda homossexual cresce sobre nossos antigos paradigmas. Já ouvi dizerem que “o mundo é gay”, sinceramente acho que eu tive a oportunidade de passar por uma fase de muitas transformações e já não consigo mais, não tenho forças par entendê-las (as transformações e as mulheres também).

Afinal do que se trata a vida, se não, entender as mulheres?

Da série “Investimentos Pessoais” – Herança Familiar

Desde pequeno, eu sempre fui muito ruim para pular de lugares. De um muro para o chão, do chão para o muro, de um muro para o outro, enfim, nunca fui dos melhores para esse tipo de atividade. Herdei dos meus pais, um medo inexplicável por esse tipo de atividade. Motivo pelo qual nunca fui muito adepto dos brinquedos e brincadeiras que exaltassem essa qualidade.

Ao longo da minha adolescência fui cultivando esse medo, porém após o colegial e faculdade, comecei a lutar contra essa característica. É curioso, mas na época em que isso mais poderia me incomodar, eu não pensava em mudar, e com a experiência (quando precisamos cada vez menos enfrentar esses tipos de desafios) comecei ficar “cabrero” com isso. Talvez por causa de um orgulho extremo (também uma herança genética).

Quando a moda do bungee-jump estourou em São Paulo (1996-97), eu nunca cogitei em experimentar a brincadeira.

Não que eu tivesse medo de altura. Ao contrário, sempre fui fascinado por lugares altos e, de preferência, sem cercas de segurança (sou daqueles que sofrem do ímpeto besta de pular desses lugares). Também nunca temi um defeito técnico que viesse a me matar. Realmente isso não me passava (e nem passa) pela cabeça.

Meu grande problema sempre foi comigo mesmo. Temia que a sensação de uma experiência dessas, pudesse causar uma sensação tão desconfortável que não valesse a pena. Eu tinha (e tenho) medo do trauma.

Há alguns dias atrás, fui convidado por amigos para ir até São Roque filmar e (se quisesse) saltar de bungee-jump, de cima de uma ponte que faz parte de uma linha férrea. Provocado pelo meu orgulho e curiosidade, aceitei em ir.

Chegando lá, me deparei com uma ponte de concreto, com colunas de 53 metros de altura (uns 17 andares), separadas por arcos gigantes, no meio de uma paisagem maravilhosa.

Conforme subi na ponte e fui chegando ao lugar do salto, ia olhando para baixo, apreciando a altura. Comecei também a ficar sério em meio às brincadeiras e provocações que todos faziam.
Sentamos e observamos toda a preparação e montagem do equipamento. Tudo muito bem feito.

Logo, veio um dos instrutores com a maldita prancheta e o termo de compromisso para os que quisessem saltar. Daqueles que se propuseram a saltar, fui o último a assinar.

Pessoas que não estavam na minha turma começaram o dia. E atentamente, eu buscava compreender a expressão e as reações de cada um. Incluindo um desmaio de uma garota que, confesso, não era o que eu precisava ver, no momento.

Faltavam 2 pessoas para que o primeiro da nossa “equipe” saltasse. Mais uma vez meu sangue falou mais alto (assim como meus pais) decidi encarar de vez o problema, e avisei a todos que seria o primeiro. Dali em diante, virei um poço de serenidade. Ainda ria com as brincadeiras, mas estava verdadeiramente centrado no meu medo.
Chegou a hora de colocar a cadeirinha e as cintas dos tornozelos. Ao apertar todo equipamento, a sensação era de segurança. Me senti bem fazendo aquilo.

Levantei, e quase sem esperar, fui avisado que deveria subir no cano de proteção para o salto. Esse cano estava colocado na horizontal, a meio metro de altura, e eu teria que subir nele, e me equilibrar nos seus fantásticos 5 centímetros de diâmetro. Justo eu, que sempre fui ruim pra esse tipo de coisa, e ainda estava usando um sapato de camurça de solado liso se comparado há um tênis comum.

Apoiando em 2 instrutores, eu subi. E apenas preocupado em me estabelecer ali em cima, fui me ajeitando calmamente até buscar uma posição confortável.

Do meu lado esquerdo, havia um pilar de metal onde eu me agarrava com o braço esquerdo, e engatado nele, um instrutor (também em cima do cano de proteção) que me segurava pelas costas. Do meu lado direito, outro instrutor ficou no chão da ponte, e avisou que soltaria o elástico. Senti então, um tranco nos meus pés, me puxando para baixo.
Finalmente olhei para a frente, e encarei a paisagem. Linda, tal qual momentos antes, só que agora com um sabor diferente.

Fiquei equilibrado naquele ponto, por quase 2 minutos. Sentindo, ao mesmo tempo, medo, coragem, ansiedade e calma. Eu já sabia que não voltaria atrás, mas estava preparado para ficar ali o tempo que fosse necessário para que não saltasse antes da minha hora.

Olhava para frente e via o cume de uma montanha, na linha do meu horizonte. Olhava para baixo e não me assustava com a altura. Sempre gostei disso. Ouvia as vozes comentando sobre minha demora, mas não escutava nada.

O único fator externo que me ajudava, era o instrutor murmurando para que eu demorasse o quanto quisesse. Para que tomasse meu tempo, para que saltasse apenas quando realmente estivesse decidido.

Esses 2 minutos foram, talvez, os momentos em que mais eu fiquei sério em toda minha vida. Eu sabia que 30 segundos após o salto, eu estaria em terra firme, sem problemas. Mas eu queria dominar meu medo nos 2 ou 3 segundos em que estivesse voando para baixo.

Eu respirava fundo, e lentamente ia me persuadindo a soltar do pilar. Depois de um tempo, consegui.

Pela primeira vez na vida, eu estava no beira de um grande “penhasco”, à mercê de um simples movimento para me jogar (como sempre tive o ímpeto).

Fui levantando meus braços para frente, com uma única preocupação: não perder o controle.

Olhei mais uma vez para baixo, e comecei a inclinar meu tronco. A voz do instrutor me incentivava. Meus braços recuaram um pouco. Dobrei levemente minhas pernas, como se quisesse pegar impulso para um salto. Mas o salto não veio. Despenquei de cabeça.

Quando realmente me desliguei da ponte percebi que estava praticamente de cabeça para baixo, com os braços totalmente abertos, vendo o chão se aproximar vertiginosamente, e puder curtir então, o vento rasgando no meu rosto.

O elástico começou a me segurar, e como já estava quase na vertical, não senti muito o tranco. Parei, e fui estilingado novamente para cima. Perdi completamente a noção de onde era o céu e a terra. Eu apenas voei. E mais uma vez caí.
Nessa hora, já sabia que a experiência não seria traumática. E então soltei um berro, com muita vontade. Primeiro um sonoro “urrúúú”, seguido de um “tesããão”. Fiquei orgulhoso (tinha medo de tentar gritar e passar vergonha com a voz embargada).

Dali em diante, entrei em uma transe que só passou de verdade, 2 dias depois. Lá, olhava pra cima, e me maravilhava. Eu repetia pra mim mesmo – “Eu vim dalí!” – e apontava para a ponte e o céu. Depois, assistindo aos vídeos, eu não acreditava ser aquele cara despencando lá de cima.

Para muitas pessoas, essa experiência pode parecer boba, mas para mim, a sensação de vitória foi inacreditável. Não sei se, um dia, eu voltarei a saltar de bungee-jump. Queda-livre e pára-quedismo, provavelmente. Vôo-livre, nunca. Mas independente disso tudo, consegui provar pra mim mesmo que meu poder de auto-persuasão é maior que meu medo. Finalmente minha família foi vingada!