Arquivo de novembro, 2003

Vida Boêmia

Eram quatro amigos. Desses das antigas. Amigos de faculdade, onde, durante anos, iam beber naquele mesmo boteco depois das aulas. Com o passar do tempo, esses encontros se tornaram cada vez mais escassos. A vida, enfim, domou a rotina boêmia; esta trocada por mulheres, filhos, família, trabalho, responsabilidade. Mas da chama boêmia ainda resistiam algumas fagulhas, o que levou aqueles quatro velhos amigos a se reencontrarem.

O velho boteco da faculdade há muito havia fechado suas portas. O centro da cidade não era mais aquele marcado em suas lembranças. A solução foi apelar para um daqueles guias que acompanham as revistas semanais. Optaram por um lugar recém-aberto no Itaim, muito bem conceituado pelo guia.

Chegaram e se aconchegaram em uma mesa. Aguardaram o garçom. Surge uma figura jovem, com cabelos espetados, piercing na sobrancelha, todo vestido de preto.

– Pois não? Em que posso servi-los?
– Nós estamos esperando o garçom.

– Eu sou o garçom de vocês. Pode me chamar de Dee Jay.
– Di Jei? Isso lá é nome de garçom?
– Ah, bons tempos em que os garçons se chamavam Silveira ou Leôncio.
– Ninguém mais se chama Leôncio hoje em dia.
– Deixa disso pessoal, Dee Jay, traga uma cerva gelada para começar.

– Só temos chopp.
– Que absurdo! Vamos para outro lugar!
– Será que eles têm Malt 90?
– Não fabricam mais essa cerveja.
– Então 4 chopps, certo?

– Claro. Chopp normal? Ou prefere com menta ou groselha?
– Groselha no chopp? AAAAARGH!!! Prefiro uma caipirinha então.
– Chopp bom era do Polonês. Alguém sabe que fim levou o Polonês?
– Morreu em 88.
– Então anota aí Dee Jay. Uma caipirinha e 3 chopps normais.

– Ok, 3 chopps. A caipirinha é de que? Limão, morango, kiwi, frutas vermelhas?
– Frutas vermelhas? Que diabos são frutas vermelhas? Tem caqui também?
– A Dona Clotilde fazia um doce de caqui…
– Morreu também.
– Traga uma de limão, tradicional.

– Então são 3 chopps e 1 caipirinha de limão. Caipirinha de pinga, vodka ou saquê?
– Quem em sã consciência ia botar saquê na caipirinha? Vamos embora!
– Eu falei para irmos para o Bar do Pascoal.
– O bar fechou em 92.
– Ô Dee Jay, são 3 chopps normais e 1 caipirinha de limão com pinga.

– Adoçante?
– AAAAHHHHH!
– Irrrcc…
– Tsc, tsc…
– Não! Sem adoçante. E traz uma porção de calabresa, dessas tradicionais mesmo. E sem mais perguntas!

Quando o Dee Jay chegou com os pedidos, aquela chama boêmia definitivamente se dissipou. Não há boêmia que resista ao molho de maracujá em cima da calabresa.

A mulher do chefe

Esses dias eu estava lembrando de uma coisa terrível. É, uma coisa terrível que eu fiz e nem acredito. Eu tinha tudo pra evitar, deixar passar, mas não. Eu estava lembrando do dia que eu beijei a Rose. Porque eu fui fazer aquilo, eu ainda não sei. Instinto animal, solidão, sex appeal, sei lá. Mas eu não lamento por ela – porque ela era realmente linda – mas por mim que não lembrei da questão profissional mais importante para um sujeito: nunca, eu disse nunca, jamais beije a mulher do chefe. O Valdir era um cara legal e tudo, mas eu nem liguei e beijei a mulher dele, mas quando digo mulher eu não quero dizer aquela coisa careta de marido e mulher. A Rose era a “mulher” do Valdir no seu jeito mais sensual e sexual de dizer essa palavra, mulher. Vivia cheia de presentes secretos que todo mundo sabia de quem eram, mas a surpresa era fingida com uma certa fluidez da hipocrisia parlamentar.

Depois de tudo, acho que a Rose, em algum momento, gostou de mim. Eu estava nas nuvens e ela me puxava mais pra cima. Largou o Valdir e começamos a namorar. Foi um choque para muitos, inclusive o novo chefe que despediu o próprio Valdir e toda a equipe, inclusive eu. Esqueci o trabalho, esqueci o Valdir. Só pensava na Rose, só falava na Rose; bebia e respirava Rose. Ela também me adorava, chorava cada jóia que eu pendurava em seu corpo. Nosso amor era intenso como um carro esportivo acelerando em uma arrancada; ela não chegou a participar de arrancadas mas fizemos amor loucamente dentro daquele porsche que eu dei de presente no nosso aniversário de um ano de namoro.

Viagens de lua-de-mel foram umas quinze, beijos quentes e enlouquecidos, incontáveis. Acho que o dia mais feliz da vida da Rose foi quando eu encontrei outro emprego; nesse mesmo dia eu quis fazer uma surpresa pra ela e comprei um loft; pequeno, porém confortável, e dei de presente pra ela. Eu estava nas nuvens e ela me puxava pra cima. Aquilo é que era mulher. Contudo, depois dos cinco anos mais maravilhosos da minha vida a coisa toda foi esfriando, não sei como, mas foi. O trabalho já não dava conta de tanta frustração e comecei a me desligar da empresa até me desligarem. A Rose até que segurou a barra durante um tempo, depois saiu pela porta de trás à francesa. Não durou seis meses e eu estava sem perspectiva na vida. Ligava pra casa dela e ninguém atendia. Acho que ela deve ter mudado do loft ou perdido o telefone, pobrezinha.

No final das contas eu acabei sem emprego, sem mulher, sem dinheiro – não que eu me importe, sem casa, sem comida, dependendo da ajuda alheia como estas pessoas que nos ajudam com comida e roupas.

– Mais sopa?
– Por favor, obrigado.

Esses dias eu encontrei o Valdir em um albergue aqui perto, ficamos horas sentados sob a marquise, conversando sobre a injustiça da vida e como chegamos a tal ponto. Discordamos em tudo. Só houve trégua quando o assunto foi a Rose.

– Um espetáculo de mulher!
– Sem dúvida, uma santa mulher!

Sem palavras

Era uma festa à fantasia, a mais original ganhava um prêmio especial. Lá Caio e Adriana se conheceram. Caio pensou em que poderia ir vestido e acabou fazendo uma fantasia de um “orelhão”, afinal adorava conversar com todo mundo. Se vestiu todo de azul, montou um telefone com uma coberturinha laranja nas costas e saiu falando para todos: “liguem para mim!”. Do outro lado da festa estava Adriana, abafando com sua fantasia que achava que era original, com um tubinho azul e um “orelhão” nas costas ouvindo dezenas de “me dá seu telefone”. Quando se encontraram não acreditaram na coincidência. 2 “orelhões” na mesma festa? “É que eu gosto muito de conversar” Adriana se justificou. Foi uma empatia imediata. Ambos perderam em originalidade, derrotados por um ornitorrinco de cuecas e suspensórios, mas passaram a festa inteira conversando, melhor que qualquer prêmio especial.

Assim seguiu o relacionamento entre eles. Intermináveis conversas. Eram os primeiros a chegarem e os últimos a saírem. Falavam sobre relacionamentos, sobre política, sobre filosofia, sobre infância, sobre religião, sobre artes e Adriana ainda esbanjava conhecimento sobre futebol. Quando os dois disparavam a falar não havia quem conseguisse encerrar a discussão. Muitos tentaram acompanhar, mas aqueles que não tinham assunto o suficiente logo desistiam, e aqueles cheios de cultura não possuíam resistência física nem corda vocal para resistir até o fim da conversa. Sempre sobravam apenas os dois na mesa.

Logo se tornaram inseparáveis. Começaram a namorar. Eram constantemente vaiados no cinema por não pararem de falar. Passavam noites em claro discutindo questões metafísicas. O sexo era bom, mas os embates sobre o feminismo e o orgasmo eram geralmente melhores e mais demorados. Sempre tinham uma teoria diferente para cada aspecto. Metade do salário de Caio era para pagar sua conta telefônica, e antes que falisse resolveram morar juntos.

Dormiam todos os dias depois das 2 da manhã, conversando abraçadinhos na cama até que o sono derrotasse o assunto. Era de praxe se atrasarem no trabalho por ficarem conversando demais no café da manhã, afinal com o sono derrotado, poderiam terminar a discussão, esta aparentemente interminável. Tanto coisa para falar para tão pouco tempo. Acabaram se casando. O Padre teve que brigar com os noivos para que parassem de cochichar durante o próprio casamento.

Durante anos conversaram, dialogaram, discutiram, comunicaram, trocaram idéias, desabafaram, discorreram, palestraram, argumentaram, alegaram e foram felizes.

Um dia Caio acordou e percebeu que não havia mais o que ser dito. Tudo que ele gostaria de dizer já o tinha feito. Sorriu para a mulher, abraçou-a ternamente e simplesmente emudeceu.

Adriana em nada estranhou o silêncio de seu companheiro. Entendia e sentia a mesma coisa. Acompanhou seu silêncio e seu sorriso, retribuindo o abraço com um delicado beijo.

Assim, com um sorriso no rosto, continuaram em silêncio para o resto de suas vidas. Afinal, palavras já não eram mais necessárias.

O Erro da Fernanda

Não basta namorar, tem que participar, não é? Foi com esse espírito que me deixei arrastar para um show da Fernanda Porto. O concerto estava prometido para as nove da noite, mas começou um pouco antes. Pelo menos essa foi a minha impressão ao ver os tipos que iam chegando e tomando seus lugares à frente do palco. A coisa toda estava rolando num galpão de uma antiga fábrica, transformado em lanchonete de centro cultural e que, naquela noite, como em outras, faria às vezes de casa de espetáculos. As pessoas circulando pelo salão estavam em total sintonia com a esquizofrenia do local. Era gente de todos os orientações sexuais e estilos desse começo de século – tinha arrumados, modernos, desencanados, estragados, descolados e, claro, deslocados. Não estava muito empolgado com o show, mas a inesperada mistura de tribos me levantou um pouco, sugerindo, quem sabe, uma boa surpresa.

No horário marcado uma voz deu as boas vindas e anunciou a abertura da noite. Todo mundo se virou para o palco e deu de cara com um PC montado no canto direito, lá no fundo. Junto do computador, um DJ solitário com nome de banda inteira fazendo os últimos ajustes antes de soltar o som. A hora seguinte foi de muita batida eletrônica e bases sampleadas, mas de pouca empolgação. Só uns três ou quatro gatos pingados dançando; de resto, uma meia dúzia balançando para lá e para cá sem muita convicção e os outros conversando, esperando pelo principal. Junto com essa hora foram embora também meu fio de esperança e a paciência geral. Depois de uns quarenta minutos, o DJ quase foi corrido pelos assovios da platéia. Apesar dos protestos, manteve o micro ligado até o horário combinado. De um jeito ou de outro, saiu ovacionado.

Quando todos achávamos que tinha chegado a hora, que a Fernanda Porto finalmente ia entrar, eis que aparece no palco um homem com um iBook debaixo do braço. Sem pressa, colocou o aparelho em cima do suporte do teclado – pertinho do microfone – conectou todos os cabos, fez uns testes e saiu. A essa altura já tinham acendido as luzes. Avisaram que dali a um tempinho, mas só um pouco mesmo, começaria o show. Quando as vaias reiniciaram, uns dez minutos mais tarde, apagaram as luzes de novo. Apareceram então o baixista e o percussionista, depois o baterista, mais uns técnicos e finalmente a Fernanda, batucando um tambor pendurado no pescoço. Pulou até o microfone para cumprimentar o público, apertou uns botões no iBook e começou o concerto.

No final da primeira música ela trocou o tambor por um saxofone, apertou mais uns botões no micro e continuou. Entre a segunda e a terceira, substituiu o saxofone por uma guitarra, foi até o iBook de novo e mandou ver. Já estava até vendo a hora que ela ia aparecer encaixada num souzafone. Era divertido, engraçado, mas esquisito. Ela fazia o que tinha que fazer, mas ia no automático: acabar a música, trocar de instrumento, apertar um botão, cantar. Lá embaixo, a platéia continuava morna, com um outro espasmo de ânimo. O show ia nessa levada até que, no meio do que parecia uma pausa ensaiada do vocal, ela soltou um constrangido “deu branco”. Levou a música até o final e se desculpou: “Lugar de errar é em casa”. Ganhei a noite. Não por ela ter errado, mas porque ali o problema ficou claro.

Aquele foi um dos poucos momentos autênticos que elas nos deu. Não por acaso, foi uma das raras vezes que teve uma resposta do pessoal. Todo o resto – pausas, solos, transições – estava dentro do script. Tudo tão milimetricamente programado, tão cronometrado, que se bobear não faria diferença se em lugar dos músicos estivesse tocando o CD deles. Mas aquilo não. Aquilo foi espontâneo. Foi quando, pegos no contrapé, foram convidados a improvisar, mesmo que por um instante. Ali, talvez sem perceberem, nos ganharam de volta, porque nos transformaram de espectadores em testemunhas. Mais ainda, em signatários de um acordo de cavalheiros, cúmplices do silêncio pelo deslize. Bem mais empolgante, convenhamos, que ver a banda concentrada em seus fones para não sair do compasso eletrônico.

Depois fiquei sabendo que aquela foi a última parada antes de sua turnê européia. Tinha tudo planejado para fazer a pista ferver, mas não passou do morno – isso graças a ( e por causa de ) – um imprevisto. Espero que ela aproveite bem a mudança de ares e esqueça o seu laptop por lá. Assim, quando voltar, poderá mostrar a diferença entre jogo de cena e espetáculo.

Brasil

“Eu amo mesmo o Brasil. É um país de infinitas possibilidades. Seus recursos naturais, humanos, biológicos, genéticos e sociológicos mal foram explorados. E pelo que tenho lido nos jornais, não que isso seja grande coisa, ainda vamos deixar de explorar isso por muitos anos.

Andei pensando no porque dessa situação precária. Certamente já se viu que não é uma questão de poder político, ele muda de um lado para outro, mas a situação não. As intenções e os atos que estão nas estrelinhas desse poder são os mesmos, não há como deixar de enxergar isso.

Acho que todos os países do mundo são assim, tem os seus meios para que os grupos dominantes ganhem dinheiro e poder. Acho que a maneira que o Brasil escolheu é apenas mais prejudicial do que a outros.

A França por exemplo, decidiu ganhar dinheiro e poder com vinhos, queijos, armas, turismo, climinha e astral. Coisas típicas e muito regionais. Através disso se faz poder e dinheiro na França. O país trabalha em torno disso de tal forma que não há um governante que não apoie essas práticas. Elas são muito benéficas para o círculo do poder e para a população em geral.

Os Estados Unidos são os melhores em fazer dinheiro e poder. Ultrapassaram o mestre, a Inglaterra. Lá eles fazem dinheiro com armas, cinema e tecnologia em geral. Lá tudo tem alta tecnologia. Com guerra ou sem guerra, com assédio sexual ou sem, os governantes vão dar todo o apoio para que essas atividades recebam toda a atenção do mundo e continuem sendo fabulosas máquinas de dinheiro.

No Brasil estamos começando a fazer dinheiro com a agricultura e talvez industria de base, mas muito timidamente. Mas o governo ainda acha que a nossa melhor máquina de fazer dinheiro é ele mesmo. E não só, usar a estrutura é a forma de se manter no poder. Uma combinação explosiva. Estou no governo e vou tirar o maior proveito, ou dinheiro, possível para me manter no poder. É por isso que não estão aí para as duas industrias acima citadas.

Nosso governo trabalha sem medir esforços para criar entraves, processos e conflitos que lhe gerem poder. A nossa verdadeira vocação é fazer com que o dinheiro público não chegue onde a constituição manda chegar e esse é provavelmente o nosso maior legado para o mundo.

Dá orgulho, não?”