Arquivo de dezembro, 2003

Dia de Natal

No dia 24 de dezembro de 100.000 antes de Cristo, alguns primatas tupiniquins tentavam desesperadamente acender o fogo para a noite de Natal. Não que eles fossem festejar algo, já que cristo nem tinha nascido e essa data (convenhamos), é um puro egocentrismo do homem cristão moderno. 24 de dezembro de 100.000 a.C. nunca existiu. Não havia folhinhas naquela época. Eles queriam o fogo para não morrer engolidos por animais selvagens

No dia 24 de dezembro de 1499, milhares de índios se preparavam tranquilamente para a noite de Natal.

Na noite de Natal dos índios Xingu, por exemplo, eles não faziam nada de mais. Afinal, não conheciam o Papai Noel, os doendes e trenó não fazia parte do vocabulário deles. A Coca-Cola não tinha sido inventada ainda, portanto, a típica fantasia natalina do nosso amigo Santa Claus (como eles dizem lá) nem entrava nos planos dos vovós de cabelo, barba branca, e pele vermelha.

Já os Ianomamis, preferiam agir naturalmente, como se aquela noite fosse igual a qualquer outra. Mesmo porque, para eles, era uma noite como qualquer outra e eles não tinham motivo algum para agir de outro modo. Pra não dizer que sou intransigente, o filho do Pajé Paiacan (ancestral do Paulinho, aquele mesmo) espetou o artelhão (se dedo do pé é chamado de artelho, o dedão só pode ser artelhão, não é?) direito numa espinha de peixe. E como berrava o Paiacanzinho. Fora esse pequeno incidente, nada do que aconteceu naquela fatídica noite foi caracterizado como uma festa natalina.

Milhares de escravors, por sua vez, não faziam nada na noite de 24 dedezembro de 1788.

Na Fazenda Santa Helena (sul de Minas Gerais), toda a senzala central com escravos das tribos Vatuzi e Utu, dormia silenciosamente antes do nascer do sol esperando que o capitão do mato chegasse para acordá-los na base da chibata. Um pequeno Vatuzi (o que é uma grande contradição, diga-se de passagem) não conseguia dormir de tanta ansiedade. Ele não esperava qualquer visita do bom velinho pra colocar um lindo presente embaixo da sua linda árvore de Natal, afinal, nem sabia o que era árvore de Natal, bom velinho e muito menos, lindo presente. A insônia do Vatuzinho era crônica. Qualquer um que apanhasse todo dia de um cara que nem fala a sua própria língua teria motivo para isso.

Essas e muitas outras histórias me fazem pensar sobre o verdadeiro sentido da noite de Natal. Acho que é Norte-Sul.

Arroz e feijão

Você gosta de arroz e feijão. Eu sei, todo mundo gosta. Meu vizinho adora o feijão mais grosso, encorpado, já lá em casa, o Feijão é bem aguado, mas o arroz é Cardeal, sempre. Quase Papa, ele gruda nos dentes e causa uma sessão de risos toda vez que alguém come e logo em seguida pretende falar alguma coisa. Mas quer saber? Cansei de feijão com arroz. E pior de tudo é encarar o feijão com arroz imaginando um suculento strogonofe. Droga. A gente faz tudo certo na vida, quando faz uma coisa besta, inesperada, pronto. Pode esticar a palma da mão e esperar a crucificação. Poxa, eu juro que não queria fazer aquilo, mas sabe como é, coisa de homem, coisa de estômago, não dava pra evitar.

Dava, sim. Mas eu esperei tanto por aquele momento e agora eu ia deixar de lado? Você não entende, você devia ficar feliz por mim, eu realizei meu sonho de anos e anos e você não compreende. Uma coisa não impede a outra, foi momento, realização e pronto. A realidade continua sendo você todo dia, dia-a-dia.

A gente nem combina direito, você gosta de coisas totalmente diferentes das coisas que eu priorizo ou admiro, nem dá muita chance pra gente se entregar; enquanto tudo o que eu quero é estar nos seus braços. Como a gente continua isso? As coisas estão muito difíceis pro meu lado, mas entenda: você teria feito a mesma coisa se a situação fosse inversa.

Não adianta negar porque ninguém é de ferro e você acabaria sedendo. Eu só acho que você poderia ser mais compreensiva e tentar entender a minha angústia, e talvez a minha sina. Quem sabe eu não tenha mesmo merecido este castigo e você só está aqui para me mostrar isso. Quem sabe.

Eu pretendia te dar tudo, tudo o que você nunca experimentou ou teve coragem de fazer, dar experiências para você, ficar gravado na sua memória pra sempre como uma boa lembrança. Era por isso que eu te queria, pra te fazer feliz, e você sabe que eu era o melhor pra você mas mesmo assim não me viu. Deixou o orgulho falar mais alto e seguiu em frente, não se importando com os outros e nunca se importou mesmo.

O fim é assim mesmo, não começa, só acaba. Ninguém nunca soube de onde ele veio e nem como veio. O certo é que quando ele vem, finda. Agora é recolher os cacos e seguir a vida, tanto pra você quanto pra mim. Eu precisava escrever isso antes de deixar você, de deixar todos vocês.

Por aqui termino o que nunca teve seu início como deveria ter tido tempos atrás quando, no balcão, você me ofereceu a cadeira ao lado para comer o prato feito do Jerônimo. Tinha um feijão delicioso, acho que porque era requentado, ficava bem grosso, cremoso. O arroz não ficava atrás, soltinho, de grãos grandes e estufados, macio. Um dos melhores pratos de arroz com feijão que eu já comi. Mas um dia o arroz e feijão cansa.

Cueca

Engraçado reparar nessas coisas, mas foi inevitável. Estava eu no dentista quando inventei de ler alguma coisa, já que a colsulta estava atrasada. Dentro das múltiplas escolhas que eu tinha, peguei a porcaria da revista Cláudia, eu acho; ou era a revista NOVA . . . Fui então ler alguma coisa pra distrair a cabeça e não pensar na droga do motorzinho assassino. Impressionante o que a gente encontra nestas revistas, por exemplo, você sabia que 67% das mulheres não aprovam as cuecas com estilo shortinho (êta palavrinha ruim de escrever) “Carla Perez”? No momento em que eu li, eu tive um choque, afinal, o que seria uma cueca estilo shortinho “Carla Perez”?

Passado o episódio do dentista eu comecei a pensar além da “Carla Perez” e imaginar porque cargas d’agua a maioria das cuecas têm que vir com uma droga de uma estampa ou etiqueta G-I-G-A-N-T-E da marca bem no front de ataque. Afinal, trata-se de um momento íntimo, imagina você em pé com suas calças sendo descidas lentamente, o tesão vai aumentando até que aquela coisa enorme – estou falando da marca da cueca – aparece na frente da moça; cara-a-cara com aquele desenho ridículo ela começa a rir, e você, ainda constrangido, sobe as calças, sai correndo e nunca mais liga pra ela. Fica pensando, imaginando – durante dias – quem foi que, por Deus do céu, inventou de colocar aquela “joça” bem ali na frente, mas atenção, isso só acontece em um estágio avançado da conciência sobre a cueca que você veste, caso contrário você vai ficar pensando e imaginando – durante dias – que sua preformance ou fisiologia não foram tão bem quanto você imaginava.

O mais engraçado é que apesar de toda essa possibilidade, nós homens não damos muita atenção para esse tipo de vestimenta e pouco ligamos. A praticidade impera na mente masculina, coisas do tipo: “vou tirar mesmo, quem liga?”, ou “vai ser no escuro, ela não vai ver …” . Deste pensamento troglodita surgem as cuecas roxas, as furadas, sem elástico, sem estilo, passando longe de qualquer coisa atraente para as mulheres, pelo que li na revista. Na verdade, quem lê esse tipo de publicação percebe que existe um discurso muito além das entrelinhas que põe em cheque a utilidade masculina e a atração feminina por nós, exemplos de insensibilidade e truculência. Homem não sabe se vestir, não sabe o que elas querem, não sabe de nada.

Máquina do Tempo

O menino tinha só oito anos no dia em que viajou no tempo pela primeira vez. A tarde estava chuvosa, e a casa, vazia. Não vazia, sem ninguém, mas sem atividade nenhuma. Todos dormiam – menos ele, claro. Ora essa, imagine só, dormir assim, só por dormir. Que desperdício! Já chegava ser obrigado a dormir quando não tinha sono, quando ainda estava cheio de coisas para fazer. Nunca que ia querer dormir quando podia ficar acordado.

Estava decidido a aproveitar a tarde. Perambulou pela casa inteira: assistiu-se na TV, deitou-se nos almofadões para ouvir a sinfonia muda tocando no aparelho de som, imaginou quantas aventuras estavam presas na estante. Acabou aconchegado no calor gostoso do tapete polar. Estava quase dormindo quando ouviu o trinco da porta. Tomou um susto, que no fim das contas foi à toa. Era só o seu avô chegando para encontrar o neto sonado e, por isso mesmo, emburrado. O menino imediatamente se empoleirou no colo do vovô, reclamando que não tinha o que fazer, que estava chato.

– Então por que você não tira uma soneca? – perguntou o velhinho
– Ah, vô, a gente perde um tempão quando dorme.
– Que bobagem! É o contrário! Você ganha!
– É?
– É.
– De verdade?
– Ahã – o avô se aproximou do menino e segredou baixinho – É que dormindo você pode viajar no tempo….
– Duvido! Eu nunca vi o futuro, nem acordado nem dormindo.
– Ah, mas é que só dá para ver o passado. Além do mais, é muito difícil fazer isso sozinho. Mas se você quiser nós podemos ir juntos – os olhos do menino brilhavam – Que tal? Quer?
– Quero!

Àquela primeira viagem se seguiram muitas outras, que por sua vez foram seguidas por muito mais viagens ainda. O destino dos exploradores podia ser diferente a cada vez, mas o ritual era sempre o mesmo. Tão logo acordavam, avô e neto se punham a comparar o que tinham visto – as pessoas, os lugares, tudo.

Os relatos do avô deixavam o menino fascinado, e, ao mesmo tempo, um pouco frustrado também, por não conseguir ver as mesmas coisas. Nessas horas o velhinho o tranquilizava, lembrando ao neto que tinha um passado maior que o dele e que ia lá há muito, muito tempo. Garantia que se ele continuasse indo acabaria conhecendo os mesmos lugares e as mesmas pessoas das histórias. Quem sabe, até mais.

O garoto não desistiu. Parou de ir apenas quando, obrigado a viajar sozinho, percebeu que não sabia como. Acabou redescobrindo o lugar em que pretérito e presente se encontrarm depois que filho nasceu. Tinha voltado a conjugar o verbo dormir na primeira pessoa do plural.