Arquivo de janeiro, 2004

Coisa mais idiota

Era até motivo de briga, mas não foi. Você é idiota? Ele perguntou. A minha vontade foi de arrancar a ripa do encosto do banco e acertá-lo lateralmente nas ventas com força média, porém certeira, afim de que se fizesse justiça e ele ficasse, alí, parado no chão, convulsivo. Ele era bem maior que eu, com certeza aguentaria até se a força fosse máxima. Isso claro em minha cabeça, comecei a pensar em qual teria sido a coisa mais idiota que eu já fiz nesta mínima e miserável vida.

Caso pareça piegas, sugiro que pare de ler; mas eu acho que foi mesmo…………………………….. a maior idiotice da minha vida, ter deixado a Amanda. Tudo por causa de um par d……………………ela vivia me perturbando por causa de um par de …………….. eu juro que nunca quis magoar a Amanda, mas o futebol de terça é sagrado, né? Tudo por causa de um par de chuteiras que eu deixava largado na lavanderia. Vivia dizendo que eu “não ligava pra ela”, só ligava “praquelas” chuteiras, “que não passava mais tempo nenhum com ela”, “que era capaz de sair com as chuteiras” e deixá-la em casa assistindo novela. Eu amava a Amanda, mas ela bem que mereceu. Onde já se viu privar um homem de sua chuteira? Aqui na “berada” da zona norte isso dá até morte. É verdade, já vi morrer disso aí. É, a Amanda foi idiotice, ela era boa, coitada.

Idiotice mesmo foi roubar playmobil no supermercado. Olha só a que ponto chega a burrice. Eu tinha de 10 pra 11 anos e fomos, eu e uns amigos (não vou citar nomes para manter a integridade moral do Cesinha, Robsão e do Nêga) “guentá” uns “playmobils” no supermercado do bairro. Um monte de moleque, sujo e remelento, entrando sem levantar suspeita alguma. Quanta ingenuidade. No final, mesmo, estávamos dividindo os bonecos no estacionamento do mercado. Tem cabimento? Quanta ingenuidade, quanta idiotice. Mas talvez não tenha sido essa a coisa mais idiota que eu já fiz. Voltando à vaca fria, e por consequência à pieguice, acho que a coisa mais idiota que eu fiz foi acreditar que um dia, amor, sexo e trabalho pudessem caminhar juntos.

Trabalhando éramos muitos, mas pra facilitar vamos ser só nós três, e éramos só nós. Na minha cabeça. Que idiota que eu fui. Primeiro uma. Foi muito bom e parecia que continuaria, mas o deslize veio com a segunda, que não bastasse fosse a segunda era odiada e odiava a primeira. O sentemineto entre elas era recíproco e hipócrita, cheio de sorrisos falsos e tapinhas nas costas. Isso foi idiotice das grandes, abandonar um bom emprego por causa de uma coisa como estas; quem diria que um pós-graduado e duplamente graduado no exterior teria mais uma escola por cursar. A escola da vida é cruel, as avaliações são diárias e você não tem acesso às notas no fim do mês.

Nunca pensei tanto nessas coisas, nunca pensei que uma odiasse tanto a outra, nunca pensei que eu amasse tanto a Amanda, nunca pensei que aquela ripa fosse tão dura. Agora eu tenho bastante tempo pra pensar. É sempre assim, durante o banho de sol eu fico aqui pensando …

Estive em São Paulo

Estive em São Paulo. Dos prédios, dos monumentos, dos prédios, dos oceanos de sobrados, dos prédios, dos túneis do Maluf, dos prédios, do Viaduto do Chá, do Itália, do Martinelli, do Joelma, do Copam, da Central do Metrô, da Beneficência Portuguesa, de Congonhas, dos Birmanns.

Estive em São Paulo. Da fumaça preta dos caminhões, do cinza dos amontoados das construções, do azedume mórbido do Tietê, das pichações nas fachadas, nas frutas podres do lado de fora e dos vitrais perfumados do lado de dentro do Mercado Municipal, do verde molhado da Praça da Paz.

Estive em São Paulo. Das pessoas que não se olham no Metrô, das pessoas que não se vêem na República, das meninas que fitam os carros na Augusta, dos mesmos acidentes recorrentes na Marginal Pinheiros, do palhaço malabarista passando o chapéu na esquina da av. Brasil, das crianças fazendo o mesmo em todas as outras esquinas, dos policiais descendo da viatura em movimento com gestos intimidadores, da extorsão dos flanelinhas, da violência velada e da violência escancarada do dia-a-dia.

Estive em São Paulo. Das costelas vermelhas do MASP, do silêncio do MAC, da corcunda alva da Oca, dos gritos de guerra da Gaviões da Fiel no Pacaembu, dos comentários-cabeça na saída do Unibanco, das crianças da Sala Disney, do bar charmoso do CineSesc?, das filas para conseguir ingresso nas mostras de cinema, dos domingos preguiçosos no Ibirapuera, da decadência do Cultura Artística, das experiências do Labotarório da EAD, dos blues nas salas subterrâneas do Centro Cultural.

Estive em São Paulo. Dos chopes do Original, do groove do Grazie A Dio, do cachorro-quente gigante atrás da USP, das calçadas do Democrata, dos pastéis do Filial, dos sofás coloridos da Lov.e, da salada do Cacilda, das rãs do Dona Felicidade, das empanadas de onde todo mundo sabe, do burburinho do Olímpia, dos nachos do El Kabong, das patricinhas da Marcenaria, dos milk-shakes do Joakin’s, das tardes praianas do Jacaré, dos rodopios do Conexión Caribe, das madrugadas no Fran’s Café.

Estive em São Paulo. Das discussões políticas, dos grandes cardeais, do movimento modernista, do DOPS, das empresas de tecnologia, das pesquisas de opinião, dos outdoors gigantes, da mescla de culturas por vezes tão falaciosa, dos núcleos de estudos sociais, dos homens-sanduíche, do movimento hip-hop, do movimento punk, do movimento ambientalista, do movimento do carnaval, do movimento, do movimento.

Estive em São Paulo. Um dia, talvez, São Paulo esteja em mim.

Cornistas Esportivo

O pai recebe uma carta de seu filho que foi estudar na capital.”Pai aqui tudo é bonito, estou adorando o tempo que passo aqui. Tenho ótimas notícias, já decidi qual carreira irei seguir. Quero ser um cornista esportivo” assim começava a carta. O pai sentou no sofá e ficou tentantdo se acostumar com aquela idéia. “Mas que diabo é um cornista esportivo?” pensou o velho, começando a formular explicações para esta profissão. Talvez fosse uma coisa nova, que estava surgindo, coisa modernosa, não haveria de ser tão estranha assim lá na capital.

Tentou se acalmar com esta possibilidade. Mas pensamentos tenebrosos começavam a brotar: será que o cornista esportivo não era uma pessoa especializada em dormir com mulher de jogador? Se fosse assim, menos mal; pelo menos seu filho estava se dando bem, ele era o esperto de toda a história. Sorriu com satisfação. Seu filho iria enganar os grandes do futebol, quem sabe conseguiria fama. “Tá vendo aquele ali? Dormiu com a do Pelé ontem, fez um golaço” diriam os cornistas invejosos. Talvez se tornasse uma lenda no esporte. Começou a gostar da idéia, quem sabe essa coisa de cornista não fosse de todo mal. Mas algo assustador foi crescendo no seu inconsciente: e se o corno da história fosse ninguém menos do que seu filho? “Mas de jeito nenhum que eu deixo isso acontecer. Quem fizer isso com meu filho leva bala!” gritou o pai em fúria. Já podia até ver, “Pai ganhei o campeonato, achei três no armário, cinco em baixo da cama e dois no banheiro. Ah! Tinha uma na cozinha, imagina pai, até na cozinha! Foi uma goleada!”. Não tinha jeito, a verdade estava ali, seu filho seria o maior corno do Brasil.

Voltou a ler a carta, queria ver se achava alguma explicação para tudo aquilo – “Sabe pai, depois que eu li Armando Nogueira e Nelson Rodrigues, não tive dúvidas, queria ser como eles” – mas a coisa só complicou. O velho recostou-se na cadeira e ficou pensativo. Estava realmente intrigado com tudo aquilo. O Nelson Rodrigues ele até entendia, sempre teve uns livros meio esquisitos, com histórias cheias de traição e sacanagem; tudo bem, talvez ele fosse como o Pelé dos cornistas esportivos, o melhor de todos os tempos. Mas o Armando? Não, o Armando não. Foi a gota d’água. O pai já tinha decidido ir para a capital tirar essa história a limpo quando foi ler o final da carta. “Estou com saudades, um abarço de seu filho”.

A Mulher Perfeita

Eu escuto constantemente meus caros amigos afirmando que sou muito exigente. Não exigente com picuinhas ou detalhes descuidados. Mas exigente para mulheres. Afirmam que busco a mulher perfeita, chegam à conclusão que ela não existe (com devida exceção à Ana Paula Arósio. Ainda assim há quem duvide de sua existência.) e logo emendam um: “Assim você vai ficar solteiro para sempre”. Desculpem-me, caros amigos, mas estão redondamente enganados. A mulher perfeita existe.

Ela está lá, uma mulher comum, com todos seus defeitos e manias, quando de repente ela solta aquela risada gostosa, meiga, sincera, até meio tímida, por causa de uma bobagenzinha; então você percebe: a perfeição. Durante aquele sublime instante ela é perfeita. Cada movimento, cada nuance é a mais pura magia. Aquele olhar perdido para o chão, o jeitinho em que ela arruma o cabelo, a forma em que a luz bate em sua face. A derradeira prova da existência divina! E logo no instante seguinte ela se vai. Mas por um breve momento ela era perfeita. Assim é a perfeição.

Há mulheres que são perfeitas em pequenos momentos. Há outras que foram perfeitas para aquele momento da sua vida, mas não são mais perfeitas para o momento que você está passando. Mas há aquelas (e são essas que todos nós procuramos) que são perfeitas em sua vida, apesar de muitos momentos imperfeitos. A perfeição é o momento e não a falta de defeitos. É um aspecto temporal e não qualitativo. É aquele exato ponto em que todos as imperfeições não importam, apesar delas continuarem lá. Acredito em mulheres perfeitas. Todas são, foram e serão perfeitas para alguém em algum instante. Ela pode ter aquela “gordurinha a mais” ou aquele “jeito estabanado”. Na perfeição isso é o que menos importa.

Todos já encontraram pessoas perfeitas em suas vidas. Quando seu coração bate mais depressa, quando parece que suas mãos estão sobrando e você não sabe o que fazer; esse é o momento em que você a encontra. Não acho que meu problema seja a exigência, como afirmam meus caros amigos, talvez seja apenas um problema de atitude. Como me comportar diante de uma criatura tão perfeita? Balbucio bobagens, falo do tempo e da vida, quando o que mais queria era estar em seus braços. Não é exigência. É valorização.

Assim é a perfeição que busco, uma perfeição humana, branda, plausível, que me permita também ser perfeito para alguém.

Santo Homem

O dia não poderia ser outro. Nublado e quase frio, daqueles em que blusa é demais e camiseta é pouco. Sua lenda já ecoava na minha imaginação, num misto de medo e admiração. Houve quem dissesse que, certa feita, ao ser cumprimentado por um cidadão, o deixou com a mão estendida, sem resposta, em situação vexatória. Também se falou na sua habilidade com a arma, do modo em que abatia sua caça certeiramente, na junção da técnica e da parceria de sua cadela, a qual não me recordo o nome agora. Por falar em cadela, esse foi o primeiro motivo que fez eu ver o mito demonstrar sentimentos ao se emocionar pela recordação de quando sua companheira de caça foi vitimada por atropelamento.

Os comentários ao seu respeito não param por aí: sabe-se que foi delegado numa época em que política fazia até vítimas, além de outras histórias que, de tamanha riqueza, não cabem nestas linhas. Mas o dia chegou, lá vinha ele em nossa direção, lentamente como se quisesse torturar-me a cada passo. Últimas recomendações de sua neta: _Não vá estender a mão! Tinha medo de que houvesse alguma rejeição por parte dele. Foi um breve acenar com a cabeça e nada mais. Confesso que, para o festejado encontro, senti-me frustrado, esperava algo mais. As conversas giravam em torno de assuntos, nos quais não havia espaços para uma interjeição minha ( temas familiares sempre são obstáculos aos recém-chegados ). Eis que, num gesto rápido, se dirigiu a mim e proferiu uma anedota, que diante da minha surpresa passou desapercebida. Sorri meio sem jeito e fui retribuído.

Daí em frente comecei a perceber outras virtudes da raça humana. Percebi que o indivíduo hospeda em seu ‘mundo’ razões para seu comportamento, que possui um rastro e esse rastro é sua identidade. Num contexto, sua trilha se resume em ‘aprender a pescar e não somente dar ou receber o peixe’. Lições de política social que faltam a alguns próximos governantes. Ah! Já ia esquecendo, ele foi também locutor da Rádio Clube de Ribeirão, em tempos idos, em anos dourados.

obs.: texto escrito em homenagem ao avô de uma pessoa especial que conheci. Uma lição de dinamismo num interior de tantos bixos preguiças…Seu nome é Santo.

Amigos ad eternum

Tem gente que pode pensar que isso é apenas um desabafo de alguém que agora vende cachorro quente no cepê ou água de coco na praia. Pô, o que há de errado nisso? Por fim, entendam como quiserem, é uma crônica e ponto final.

Certa vez estava me lembrando de encontros com velhos amigos. Depois daqueles apertos de mãos e abraços calorosos a pergunta que não quer calar, Trabalho. Você se esforça para não cair no assunto esquivando-se para um básico e íntimo “tem visto o povo?”. Melhor seria se conhecesse o mínimo da vida pessoal e perguntar da namorada, paquera, bem pelo menos aquela que ainda era em 19.. e veja bem, já faz um tempo. Melhor ainda se terminou o relacionamento, você alonga sua estratégica retirada com aquela pseudocompaixão, muito sorriso amarelo e tapinhas nas costas. Abraços. Tchau. Não, nem tente recorrer a “Como vai o Beto? E o Serjão?” que vai levar um “O Serjão tá bem abriu uma empresa sozinho e agora é microempresário.” na cabeça.

Infelizmente, encontros com velhos amigos não são assim tão amistosos.

– Trabalha…?
– Sim.
– Quero dizer, onde você trabalha?
– Ah, numa editora.
– Que editora?
– Ah, uma de livros científicos você não vai saber.
– Fala que eu te surpreendo.
– Não, não. São livros médicos você não vai saber mesmo.
– Tenho um cunhado que é médico, quem sabe…
– (Não vem ao caso, um nome qualquer)
– Ah…

Existem os que estão melhor que você…
– Cara, tô trabalhando como vice-presidente diretor executivo da Ultrasoft
– Bom!
– Meu, o trabalho lá é barra! Todo dia às cinco tô pegando no batente, só saio depois da uma!
– Barra.
– Pelo menos vou garantindo o meu futuro.
– Graças a Deus!

Existem os que estão pior, não seja vingativo…
– …
– É.

Um acena a cabeça para o outro e se despedem com abraços calorosos e apertos de mão. Prometem que se verão em breve etc.

Mas o pior de todos os tipos…

– Cara, a situação do país tá difícil, o Lula ganhou, a gasolina só sobe, o dólar não desce e, quem sabe, seremos enviados como FEB rumo ao Iraque. A Maria me largou, fugiu com meu primo e desde então tô numa pior. Bebo, bebo, bebo e nada de alegria é só ressaca, direto. Bati o carro e esqueci de pagar o seguro. Meu pai me deserdou, descobriu que não sou filho dele. Outro dia na fila do ônibus fui abordado porque algum patife parou a BMW perto de mais do ponto, só porque estava em frente ao carro fui seqüestrado. Claro que eu não tinha dinheiro me surraram e me enviaram direto pro PS. No hospital pensaram que eu fosse um indigente e não quiseram me atender.

– Trabalha…?

Primeira Barba

O garoto acordou e foi para o banheiro. Ainda com sono, jogou água no rosto e olhou a própria imagem no espelho. E o que pôde ver naquela manhã o deixou maravilhado: um pêlo, bem no queixo. Não um pêlo qualquer, como os que formavam a imperceptível penugem que ele vinha cultivando há algum tempo. Desta vez era um pêlo significativo. Um pêlo incontestável. Ele se arrumou como sempre, pegou o material do colégio, beijou a mãe mas não foi estudar. Assim que virou a esquina, correu para o cabeleireiro. Ou barbeiro, já que se tratava do velho salão de um português conversador, figura antiga no bairro. O moleque entrou, sentou-se na cadeira com apoio para os pés, onde se podia ler o nome do fabricante esculpido em ferro, e disse para o homem, sucinto: _ Barba.O português achou graça, mas manteve a expressão séria de quem sabe respeitar o freguês. Pegou a minúscula bacia, preparou uma espuma bem grossa e encheu o rosto do rapaz de branco. Tirou a navalha do estojo de couro, afiou bem numa tira e começou pela costeleta. O fio deslizava removendo a espuma e revelando a mesma pele de antes. O menino não se agüentava de tanta satisfação. Em seguida, o velho passou para a costeleta oposta e acertou a linha que delimitava o cabelo do rosto. Um senhor agora esperava a sua vez, folheando uma revista com a Magda Cotrofe na capa. Quando a lâmina se aproximava do queixo, o rapaz fez um gesto indicando que o português parasse. E, olhando pelo espelho o resto de espuma que agora só cobria o queixo e a pele acima dos lábios, anunciou sua decisão:_Pode parar. Eu vou deixar o cavanhaque.

Sai

– Sai.
– Ããhh?
– Sai. Sai agora.
– Como assim? Sair do carro?
– Não. Sair do planeta. Lógico que é sair do carro!
– Cê tá brincando, né? Eu não vou sair do carro.
– Sai agora, ou eu te empurro pra fora.
– Você não teria coragem!
– Tá, te empurrar eu não empurro, mas então vamos ficar parados aqui. Até você sair.
– Eu não vou sair aqui, no meio do nada, só porque você tá tendo um ataque de ciúmes!
– Não é ataque de ciúmes. Pelo contrário. É um ataque de lucidez. Pela primeira vez na minha vida, na nossa vida juntos, eu tô vendo a sua verdadeira face.
– Ai, não começa, vai…
– Não estou começando, estou terminando. Sai. Anda logo.
– Eu tô começando a ficar irritada. Dá pra fazer o favor de dar partida nesse carro? Eu não quero ficar parada aqui no ………..
– Não! Eu não acredito! Você não vai atender o celular agora, vai?
– Qual o problema?
– O que pode ser mais importante pra você do que essa conversa que a gente tá tendo agora? Me diz!
– Conversa? Conversa? Você tá me enxotando do seu carro e ainda chama isso de conversa?
– Deixa tocar.
– …
– …
– Olha, eu não agüento, deixa eu atender, qual o problema nisso?
– Se você atender, quem sai do carro sou eu.
– Mas a gente não tá nem conversando. É idiotice ficar em silêncio, escutando o telefone tocar, sem poder atender.
– Idiotice é você se recusar a sair do carro.
– Esse é o seu problema, sabia? Você vê problema em tudo, nunca tá satisfeito com nada…
– Com nada não! Estou satisfeito com muitas coisas na minha vida. Só não estou satisfeito com você!
– Como o que, por exemplo?
– Meu trabalho. Meu time de futebol. Meu carro…
– Ah, pelo amor de Deus! futebol? Carro? Você só se preocupa com essas coisas pequenas. Quer saber? Você enche o saco às vezes!
– Tá, agora eu é que sou o vilão da história. Eu devo merecer mesmo. Deve ser algum castigo.
– Deve. Deve ser castigo mesmo. Deve ser falta de te castigarem quando você era criança. Aí cresceu e virou esse bobalhão mimado que é agora.
– …
– Você devia me agradecer. Me agradecer por relevar essas suas maluquices e por continuar contigo depois dessas crises de auto-estima.
– A minha auto-estima é muito alta, se você quer saber…
– Tô vendo. Altíssima. Tava quase me atirando pra fora do carro por causa de uma coisa que nem sabe se aconteceu realmente.
– …
– Vai ficar aí, calado, igual um pastel, sem falar nada?
– …
– Chega! Tá satisfeito agora? Pois fique sabendo que, quem quer sair do carro agora sou eu….
– Pára, não faz isso. Fecha a porta, vai.
– Tchau! E nem precisa me ligar. Gostei desse lance de não atender o celular…
– Peraí, pára com isso! Entra no carro. Volta aqui, eu não vou te deixar aqui sozinha! Volta aqui! Merda….

Reforma Intelectual

Além da Reforma Agrária, temos no Brasil, a necessidade urgente de um tipo de reforma que não costuma ser comentada. Uma Reforma Intelectual.

A “elite” brasileira (e me incluo nessa) tem uma educação formal relativamente boa e vive, muito além da questão econônico-social, numa ilha intelectual.

Estudamos em colégio particular, temos aulas de línguas (por obrigação, é claro, pois como todo adolescente que se preze, achamos isso tudo um saco!), depois fazemos cursinho, entramos em uma boa faculdade e tudo bem se não passarmos na universidade pública, porque nossos pais se apertam um pouco, mas conseguem pagar mais alguns anos de uma faculdade particular; temos nossos canais a cabo, podemos viajar para o exterior nas férias e até fazer intercâmbio, que maravilha!

Até aí, tudo bem. Não acho que temos que nos culpar por termos essa “sorte”. O que me realmente incomoda, é o orgulho em que muitas dessas pessoas (e aí, felizmente, não me incluo nessa classe), em ter a “exclusividade” de acesso ao conhecimento.

Há muito tempo fazem questão de afirmar que toda  produção intelectual voltada para o povo é ruim.

Muitas vezes isso realmente acaba acontecendo. Porém quem produz esse material, são essas mesmas pessoas que o criticam.

Na publicidade, por exemplo, somos bombardeados por lixo disfarçado de propaganda de varejo, e os próprios criadores deste lixo já se convecerem de que se “está ruim, tudo bem, é pra varejo mesmo …”.

O mesmo cara que cria um slogan “genial” e irritante para um grande anunciante, passa a sua tarde de sábado, tomando um café num cine clube metido a besta, assistindo algum filme de nacionalidade excêntrica (e provavelmente com o nome substantivado como, “ O Escafandro”).

Como eu trabalho com cinema e publicidade ao mesmo tempo (sim, eu faço cinema publicitário, que beleza!) acabo tendo o desprazer de ver, muitas vezes, curtas e vídeos que exprimem bem a necessidade que essas pessoas têm em produzir coisas completamente sem sentido e que de preferência que remetam, em algum espasmo perdido, à outras coisas sem sentido (porém conhecidas pelos frequentadores desse mundinho), com a desculpa de que isso só pode ser apreciando por quem “entende de arte”.

Um dia vi uma entrevista em que o diretor Daniel Filho afirmou não gostar de novelas … Isso mesmo, aquele cara que já fez par romântico com a Renata Sorrah numas 25 vezes nas novelas dos anos 80, não gosta de novela. Como assim ?

Para piorar, quando resolve fazer um filme para o cinema (local onde teria espaço para sair da linguagem que aparentemente odeia), acaba fazendo um filme dentro dos mesmos moldes da novela. Mas com muitos palavrões, para que todos se convençam que “isso sim, é cinema!”.

Esse tipo de pensamento acaba por revelar um certa prepotência que tenta estabelecer dois patamares de produção intelectual. Um que é bom demais para ser entendido pelo povo, e outro que é ruinzinho mas é para os pobres mesmo, tadinhos.

Prefiro a postura do Jorge Furtado (diretor de “O Homem que Copiava), que respeita a inteligência do público tentando sempre fazer algo popular, mas nem por isso “burro”. Ou ainda, a coragem de uma diretora como Flávia Moraes com a produção de um filme com um ícone da popularidade brasileira (a dupla Sandy e Júnior), correndo o risco de ser execrada pelo meio em que trabalha (sim, ela também faz cinema publicitário, que beleza!) e realizando um trabalho competente a ponto de obrigar muitos críticos a engolirem o fato de que um filme de cunho extremamente popular pode ser competente.

Acho que, no Brasil, a arte verdadeiramente engajada, é aquela em que o povo consegue acessar, e com ela, pode aprender, crescer, se emocionar, enfim, entender e a partir disso, discutir, pensar e se interessar a ponto de procurar mais. Se o filme da Sandy e Júnior fizerem milhares de “teens” (de todas as classes) voltarem há uma sala de cinema que esteja passando um outro filme nacional, ótimo.

E não me venham dizer que um cara que faz um show dentro de um hotel de luxo, com ingresso na base dos R$ 500,00 e é amigo do ministro, faz arte popular brasileira, né Caetano?

Bichinho “Daqueles”

Numa dessas madrugadas da vida, havia começado a escrever apenas para chamar o sono, quando senti uma coceirinha na perna. Cocei. Percebi que algo caíra ao chão. Olhando, de imediato reconheci o minúsculo vivente, ainda a se recuperar da queda. Inofensivo, um simples bichinho. Daqueles.

Não tenho a pretensão de que faça alguma idéia do inseto ao qual me refiro, a não ser que seja meu irmão. Pois um bichinho ‘daqueles’ é nada menos do que um daqueles serzinhos alados aos quais perseguíamos avidamente – há décadas atrás – e prendíamos em seguida num recipiente qualquer. Finda nossa atividade, os soltávamos, ainda com vida.

Eram encontrados aos montes, às beiras dos brejos ou arredores de matagais. Em popularidade, só perdiam para os desengonçados bitus. Estes, de pouquíssima personalidade, se permitiam ser ‘desbundados’, ferventados, fritos e enfarinhados. De tanto tentar agradar, acabavam virando tira-gosto.

Com os bichinhos ‘daqueles’ a coisa era diferente: chamavam-nos a atenção pelo brilho das asas, pelo içar vôo, pela simplicidade ímpar. Mantinham sua postura, causando-nos verdadeiro encanto.

Deste modo recordavam-nos de que cada ser humano é, apesar de todos os outros, único a seu próprio modo. Pois quando duas pessoas se relacionam mais de perto, surge sempre um certo vínculo, quase um código. Com o tempo, criam um vocabulário particular, tornando-se capazes de despachar uma visita incômoda, rir de si mesmos e dos outros sem que ninguém mais o perceba. Escolhem seus mútuos apelidos a dedo, sendo identificados pela simples pronúncia do nome. Eu mesmo conheço uma ‘Magrela’, um ‘Ósso’ e um ‘Perigo’, exemplos concretos deste rol. Geralmente, peculiaridades assim já bastam para identificar a parceria, como o famoso ra do Patrick Swayze e seu famoso ‘Idem’ no filme ‘Ghost’?)

Um bichinho ‘daqueles’ é, antes de tudo, um anônimo. Nunca figurou em livros de Ciências – nem sequer foi identificado com um nome em Latim! Nem sei se tem família. Tivessem os garotos da época lhe inventado um nome de batismo, ou biólogos mais detalhistas divulgado seu verdadeiro nome, teria sido relegado ao lugar-comum. Mas o destino lhe reservara tarefa maior: eternamente anônimo, um bichinho ‘daqueles’ transcende épocas e distâncias.

Fico a pensar: será que o bichinho ‘daqueles’ não nos pertence – ao menos com esse nome – ou se em algum outro lugar, dois outros irmãos (dois bons amigos, talvez) não tiveram a mesma idéia. Se nos encontrássemos, poderíamos finalmente fundar a APOBIDA – Associação de Proteção aos Bichinhos Daqueles!

Pois dentre as muitas escolhas que a vida nos oferece, se me fosse possível optar por outro destino que não o humano, já teria me decidido: queria ser um bichinho mesmo. Daqueles.