Arquivo de fevereiro, 2004

Terminação

A terminação nervosa inexistente em meu corpo não comporta, mais, indiferença. Por muito esquecida, lá atrás, na infância, ela pede atenção e predisposição para aguentá-la em qualquer posição irritante ou curiosa que esteja. Na sua longa jornada suportou tantos ataques que, pra mim, achava ser a razão da feiúra e dureza de estilo. Não sintia nada assim há muito. Fez parar pra pensar, a mim.

Escrever assim, contorcido, uma mistura de pseudoconhecimento com prolixia, faz-me lembrar daquela época em que eu judiava dela, não que na mesma época eu escrevesse assim, mas era como eu gostaria de escrever, sempre achei um saco ler esse tipo de texto mas achava lindo escrever assim. Que normal, não acham? É, nunca fui assim “normal”. Comecei até, a gostar de ser diferente e fui perceber, anos depois, que todos sempre quiseram ser diferentes uns dos outros. Aí eu queria ser igual. Ai! Ok, eu continuo falando sobre você. Tá certo, sem digressões bobas. Eu sei quem é que manda aqui, mas com você assim, quem consegue se concentrar? Você pode parar de imcomodar, ao menos para eu continuar?

A dor . . . . . . . . essa dor, isso: Essa dor que me abandonara a tanto me dizia muito, dizia- me para ficar e esperar até que tudo fosse resolvido. Tentei até métodos pouco ortodoxos, simpatias mil; e foi só esperando que me dei conta que ela estava ali, mesmo insensível, mas estava ali. Parada. Cumprindo sua função concomitantemente (êta palavra bonita) com a sua tormenta aguda que apunhalava cada movimento brusco feito, eu lembrava dela. Só quando ela conclama a sua existência que você atina como são estreitas as portas, como os corredorers podem ser opressores e como o simples ato de repousar sobre a mesa pode ser incômodo. Um simples trocar de roupas pode ser inesquecível, sem a conotação costumeira, esqueça a primeira interpretação, tudo passou para segundo plano; e agora o que você mais quer é se livrar da dor miserável que você sente.

Ela, a terminação nervosa inexistente em meu corpo, na verdade é ele; não que isso mude alguma coisa, pois a diferença no gênero não pode sequer diminuir a dor. Bate na cadeira do mesmo jeito, enrrosca na camisa e ainda assim continua sendo ele, mas podia ser ela. A dor dele é prima-irmã daquela do dedinho do pé que bate na quina da porta. Mas eu não bati ele hoje, eu simplesmente acordei e ele estava lá……. latejando por atenção. Deve ser alguma inflamação. Tá, eu digo! É apenas um pêlo encravado e eu sou um maricas. Porque você faz questão de me humilhar na frente deles? Não, eu não vou fazer isso não! E quer saber mais? Vai você . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . droga, sai de mim. . . . . . . . . . . . pára. . . . . . . . . . . . seu furúnculo miserável, você vai ver só. . . . . . . . . . . . . . . . ai. . . . . . . . . . . . ow. . . . . . . . . . . . . . . .pára. . . . . . . . . . . . seu joelho mal feito. . . . . . . . . . . . sai daqui. . . . . . . . . . . eu vou arrancar você, daqui, na faca. . . . . . . . . . . Ah!

Walk-man

Nunca fui um adepto do walk-man. Desde da minha adolescência, por mais que tentasse, não conseguia (como a maioria dos meus colegas) viver com os fones enfiados na orelha, cantarolando e balançando a cabeça para frente e para trás, como um pombo andando, no ritmo das batidas.

Sempre achei essa característica um pouco estranha, em relação a mim mesmo, pois gosto e me interesso muito por música, e portanto, deveria ouví-la sempre que possível.

Depois que comecei a dirigir, e tive a felicidade de ter um carro com som, percebi que o fato de não curtir o walk-man talvez fosse um sistema inconsciente de auto-preservação. Trancado no meu carro, com os vidros fechados, e com o som alto, posso viajar no universo da música. Sem medo.

Nessas viagens, descobri, entre outras coisas, que sou um grande letrista. Pelo menos nesses instantes de extrema intimidade, me sinto no direito  de conhecer uma canção, a ponto de discordar veementemente do seu autor e mudar sua letra no trecho que me convier.

Por exemplo, no último disco do grupo Los Hermanos (Ventura) acabei adaptando parte da letra da sua música mais conhecida: Cara Estranho.

Uma música que fala de um homem que não é feliz em ser como é. Estranho e sozinho. Num certo momento, eles perguntam se ele não seria melhor se vivesse de outro modo, dizendo: “talvez se nunca mais tentar viver o cara da TV, que vence a briga sem suar e ganha aplausos sem querer”.

Na minha versão, eu canto: “talvez se nunca mais tentar viver o cara da TV, que vence a briga sem suar e ganha QUASE sem querer”.  Acho essa metáfora bem mais forte, pois um galã, é muito mais invejado se vence mesmo quando não mostra empenho, displicentemente.

Como sei que essa mania, pode me trazer problemas, mantenho minhas letras só para mim, dentro de um ambiente isolado. Sei bem que um fã do Chico Buarque nunca admitiria uma única mudança em qualquer parte de da extensa obra do poeta. Mas confesso que, na minha loucura, até com o Chico eu já fiz parceria.

Na música “Sem Fantasia” (fantástica, diga-se de passagem), Chico descreve um romance sofrido entre uma mulher que pede desesperadamente para que seu amor vá até ela, com toda a força de sedução de uma mulher apaixonada. O homem responde, contando o quanto sofreu para chegar até o amor dela. Uma letra que fala de sentimentos, ela dizendo coisas como “vem perder-te em meus braços, pelo amor de Deus”, e ele “só vim te convencer, que eu vim pra não morrer, de tanto te esperar”.

Num certo momento o homem narra todo o seu sofrimento para chegar à amada, a música cresce epicamente “eu quero te contar, das chuvas que apanhei, das noites que varei, no escuro a te buscar”, aí entram os metais, dando mais força à letra que continua “eu quero te mostrar, as marcas que ganhei nas lutas contra o Rei, nas discussões com Deus”. Como assim, Chico? Que Rei ? Do que você está falando ? Não tinha Rei em nenhum lugar nessa música. Estávamos falando de amor, sofrimentos, metáforas!

Isso ficaria bem mais forte com “ … as marcas que ganhei nas lutras conta O VENTO, nas discussões com Deus”. Bem mais poético. O Homem, fraco e tolo, lutando contra Deus todo-poderoso, enfrentando o vento irracionalmente, na busca de sua recompensa: “a prenda imensa” dos carinhos da amada.

Já me disseram que, o “Rei” é por causa da rima, pois após esse verso, ele diz: “E agora que cheguei…”. Ainda sim, prefiro a minha versão.

Além disso, como o meu show é particular e em ambiente controlado, priorizo o lirismo em detrimento da  métrica, desafino na altura que consigo, faço o que quiser. Algo que, definitivamente, eu não poderia se estivesse somente com um walk-man, junto de outras pessoas, sentado num banco de ônibus.

Felicidade

“O que diabos é preciso fazer para ser feliz? Vivo eu me perguntando. Existem umas mil explicações que são tão específicas que não podem ser consideradas como universais, elas válidas para uma situação e não para todas. Há de haver algo maior, genérico, que possamos aplicar em qualquer caso, até nos mais graves.

Andei pensando que a felicidade é sim uma coisa pessoal, isto é, ela reside no indivíduo. Ela emana de você e vai para o entorno (nossa!). É óbvio. Porém esse mesmo entorno é o grande responsável por aquele estado, seja ele bom ou ruim. A partir do que recebemos do nosso entorno é que criamos o conjunto de sensações que pode resultar ou não na nossa felicidade.

Meu amigo Marquinhos por exemplo. Sempre infeliz por aí o pobre coitado. A vida dele era a pior, ele estava deprimido todo o tempo, um rapaz para baixo. No início do ano passado ele foi fazer um curso de wind-surf num desses aroubos de loucura que todos nós temos as vezes.

Pois logo ele voltou outra pessoa. Ainda depois de meses e até hoje ele é está em um estado de felicidade muito melhor que o anterior. Curioso, eu quis saber:

– Me diga amigo, porque tanta felicidade?
– Não sei. Depois que conheci o pessoal do wind-surf, tudo ficou melhor, sei lá. Não dá para explicar.

Pois é, o Marquinhos é a prova viva de que assim como tudo, a felicidade é muito relativa. Acho que a felicidade não se encontrar nas coisas e nos atos das pessoas possuem e fazem, e sim no relacionamento e no papel das coisas e atos nesse relacionamento.

Não acho que haja fórmulas para nada, mas nesse caso segue minha sugestão para os tristonhos: faça aulas de wind-surf.”