Arquivo de maio, 2004

OI RÊ!

– Se você pudesse fazer uma pergunta a Deus qual seria?

– Não sei não. Só uma? – Sim só uma. O que quiser mas só uma.

– Pô cara. Pergunta difícil.

– Pensa aí rápido.

– Você sabe o que você perguntaria?

– Eu sei mas quero saber de você.

– Fala a sua. Talvez me dê uma idéia.

– Bem. Eu perguntaria qual é o telefone da Rê.

– Rê? Que Rê?

– Como assim que Rê? A Rê.

– Você diz a Rê?

– È caramba a Rê.

– A Rê, angelical, maravilhosa, soberana, nunca-vou-ficar-com-um-mortal Rê?

– Isso cacete!

– A Rê daqui da faculdade você diz.

– Isso.

– Pô.

– Que?

– Boa pergunta.

– É. Eu sei. Pensei muito tempo nisso. Decidi que isso era a coisa mais importante.

– Agora você me ferrou. Tava pensando numas perguntas mas todas meio babacas tipo: “Haverá paz na terra?” ou “Existe vida em outros planetas”

– É. Tem que pensar direito. Afinal é o cara né. Só uma chance.

– Você tinha alguma segunda pergunta de reserva? Talvez eu possa usá-la.

– Na verdade eu tenho sim. Mas não sei se devo contar.

– Ah larga de charme. Conta logo.

– Bem. Minha segunda pergunta é totalmente diferente da primeira.

– De que tipo? Mais profunda?

– É. Mais ou menos.

– Fala logo então.

– Minha segunda pergunta é qual é o endereço da Rê.

– Putz. Mandou bem de novo hein.

– É. Essa é ousada.

– De vez em quando você tem que arriscar né.

– É. Quem não arrisca não petisca.

– Mas voltando ao assunto. E aí. Qual seria a sua pergunta?

– É Muito dificil falar de uma hora pra outra.

– Se esforça.

– Já sei.

– Fala.

– Nossa perfeita. Como não pensei nisso antes?

– Fala então.

– Cara eu sou um gênio.

– Fala logo então caramba.

– Eu perguntaria, qual é o e-mail da Rê.

– Nossa. Nessa eu não tinha pensado.

– Boa né?

– Fantástica.

– Vê. Nós sabemos as perguntas só não temos a oportunidade.

– Verdade.

– Oi meninos.

– OI RE!

– Olha ela aí.

– É. Deus cadê você essas horas.

– Sacanagem.

Mais Uma Daquelas

Num típico quarto de casal, vemos (adivinha?) um casal deitado assistindo um programa de TV qualquer. Eles estão naquela fase do relacionamento onde o que menos importa numa situação dessas, é o programa de TV.

Numa das várias posições de carinhos e abraços que eles ficam, o homem (conhecido por todos como “Almeidinha”, e por sua esposa como “Nhinhô”) deita no colo da amada (conhecida por todos como “Beta”, e pelo Nhinhô como “Nhinhá”) e fica lá por alguns minutos. De repente sente uma pontada mortal ferindo seu tímpano:

–       Ai, ai!! Nhinhá!! Que é isso, pô!?

–       Ai, Nhinhô … nem apertei tão forte. Você precisa ver o cravo e-nor-me que tem na tua orelha!

–       Caceta, Ninhááá! Mas não precisa tentar me assassinar por excesso de dor por causa disso!

–        Ai, Nhinhô … não fala assim … Tou fazendo isso pro teu bem …

–       Pro meu bem, Ninhá?! Como assim, Ninhá?! Você nunca parou pra pensar que eu nunca vou conseguir olhar dentro da minha própria orelha. Não faz mínima diferença pra mim, se existe esse cravo ou não!

–       Ai, Nhinhôôô ! Não fala assim … sempre que eu te pergunto “de quem é essa orelhinha” você diz que ela é minha, tá!

–       Tá certo, Nhinhá … Se bem que a gente casou em comunhão total de bens, então tecnicamente, você só tem direito a uma orelha. E como eu sou canhoto, escolho a orelha esquerda como a minha. Ou seja, a orelha “cravolenta”, portanto : Tira a mão do que não é teu!

–       Ai, Nhinhôôô ! Que coisa horrível …

–       Nhinhá ! Horrível é você tentar fazer “suco de orelha de Nhinhô” ao invés de ficar curtindo esse momento …

Um rápido silêncio.

–       Nhinhô ….

–       Que foi.

–       Nhinhôôô …

–       Fala, Nhinhááá …

–       Deixa eu ver a tua orelha direita …

–       Ah, não …

–       Deixa vai! É a minha orelha …

–       Vamos fazer um trato, então.

–       Qual ?

–       Eu deixo.

–       Ai, Nhinhô! É por isso que eu te amo tanto, sabia? Nhinhô-nhinho-nhinho-nhinho!

–       Mas … tem uma condição …

–       Nhinhô-nhinho-nhinho-lindo!

–       No sábado a noite a gente vai alugar “Velozes e Furiosos” e você vai ver o filme comigo, vestida de colegial!

–       Ai Nhinhô! Tudo isso só por um cravinho?!

–       É, Ninhá! Pra você ver como é duro pra mim.

–       Ah, não vale! Eu até deixo você tirar quantos cravos você quiser de mim.

–       Ah deixa sim! Primeiro que você não consegue ficar um dia sem fazer o check-up de completo anti-cravos do teu corpo inteiro, e segundo, que se sobrar um, você sempre diz que eu não sei fazer direito, que eu não espremo até sair o “sanguinho” . E além do mais, eu não tenho prazer nenhum nisso! Já no “Velozes e Furiosos” com você vestida de colegial …

–       Pára, Nhinhô! Eu estudei num colégio de freiras e o mais sexy que você iria me ver naqueles tempos, era ajoelhada no milho com uma túnica marrom que cobria até meu pescoço.

–       Em plenos anos 90 ?

–       É, Nhinhô !

–       São Paulo, capital?

–       É, Nhinhô !

–       Isso não faz sentido!

–       Aí é culpa do Ricardo!

–       Quem ?

–       O cara que está escrevendo isso!

–       Ah, já imaginava.

–       Péra aí, gente! Tou olhando meu arquivo de crônicas aqui, e já faz mais de um ano que eu não apelo pra essas metalinguagens canalhas!

–       Um ano nada, em Agosto do ano passado você fez uma crônica bem “mais-ou-menos” chamada “Qualquer Coisa”, que pelo amor de Deus, heim?!

–       Nhinhô, fica na manha aí, irmão! Que se você vacilar boto a Beta pra espremer até o teu olho direito !

–       Ai que coisa horrível, eu nunca faria isso com o Nhinhô.

–       Ah não ? Dá uma olhada na pálpebra dele … Olha o cravo que tem quando ele fecha os olhos.

–       Olha! É mesmo! Nhinhôô!

–       Ô, Ricardo, você tá perdendo a mão, filho. Cravo na pálpebra é pior que novela mexicana. Acaba o texto que é melhor pra você.

–       Ai, Nhinhô, mas esse cravo é horrível mesmo!

–       Nem a pau, Nhinhá!

–       Eu acho melhor parar por aqui mesmo.

–       Ufa …

Infeliz saber

Hoje eu acordei bem. Não sei o que era, mas acordei bem, como há muito eu não fazia. Não sei bem o que era, talvez o ar gelado soprando no rosto quando você põe a cara na janela e recebe uma bofetada de ar de esquerda e um direto de raios luminosos. Bang! bem no meio do nariz. Isso sim é acordar bem. Mas o que me fez bem de verdade foi acordar sem preocupações – não que não tivesse com o que me preocupar e, acredite, eu tenho – como se o mundo todo fosse atender seus pedidos e desejos, como se fosse posível pensar em algo e pronto: estava lá, acontecia, feito.

É engraçado, porque minha última lembraça desse estado de espírito é da infância ou pelo menos adolescência e tal descoberta me jogou contra a parede do auto questionamento (acho que tenho lido muitos livros de auto-ajuda). Seria o passar dos anos e o amadurecimento um sintoma da infelicidade, ou simplesmente a consciência das coisas nos tornaria infelizes?

De certo não deixei muitas opções, mas perceba a intenção da questão. Se você concordar com o amadurecimento paulatino já está sendo traçado um caminho que um dia será congruente em algum ponto com a questão da consciência das coisas e dos fatos, na realidade são maneiras diferentes de perguntar a mesma coisa e perguntando eu quero na verdade afirmar (a pergunta foi apenas um argumento retórico para deixar você, leitor, mais à vontade). O conhecimento, não substantivamente, qualquer conhecimento, até os mais simples, que nos pegam nas esquinas da vida são de fato fatores de infelicidade. Quanto mais você conhece ou sabe, mais você quer saber e diante da impossibilidade – porque sempre haverá uma impossibilidade – você se frustrará. Mais uma frustração . . . . . . . . . mais uma dose de infelicidade.

No caminho contrário, imagine por exemplo, um ignorante; não pejorativamente, mas imagine essa pessoa, que ignora os fatos que você não. Você pode imaginar, vamos lá, você consegue, é só imaginar toda vez que você reclama de alguma coisa como seu salário que não muda, ou a droga do seguro do carro que venceu, ou então quando você pragueja a porcaria da situação dos países como o nosso que ficam sempre à mercê dos “yankees malditos”. Imaginou? pois então: esta pessoa não. Porque ela não sabe o que é salário, porque ela não tem carro e muito menos faz idéia do que isto seja e jamais soube o que essa palavra, “yankees”, queria dizer. Sem dor, nem frustrações, como uma anestesia mental, alienação.

Não fique aqui uma névoa de “locus amoenus” em favor da destruição dos automóveis perseguindo uma vida movida a carro-de-boi, ou uma imagem política de alienação popular e domínio do poder, porque isso seria um erro e porque também já foi feito. Eu estava aqui apenas tentando fazer você acordar bem, como eu.

Reminiscências Londrinas

Ontem sonhei que viajava. Coisas de sonhos. Pesadelos com a “Madrugada dos mortos” e vapt. Estou em Londres. Sozinho. Apenas uma pequena mochila a tira-colo. Minha primeira vez em Londres. Desci em uma rodoviária. Era uma rodoviária? Parecia um shopping center. Sem libras, sem orientação, sem objetivos. Fui trocar meus Reais pela moeda local. Muitos gringos. Quem mais estaria numa rodoviária fazendo câmbio? Existe um Banco do Brasil em Londres? Uma libra vale R$ 4,512. Tiro meus R$ 120 da carteira e pego o equivalente. Não deu pra nada. Um sanduíche por 2 libras! Mais de 9 reais! R$ 9,024 pra ser mais exato. Não, não estou com fome… ainda. Bom, no caso de emergência estou com meu cartão de crédito. Peraí. Eu nunca tive cartão de crédito. Coisas de sonhos. É hora de conhecer a cidade. Excitação, ansiedade. Londres, aqui vou eu.

Cidade bem arborizada. Céu claro e ensolarado. Avenidas largas. Poucos carros. Grandes passarelas. Por que todos se vestem como o Fatboy Slim? Londres é assim. Para onde agora? Sem guia. Sem mapas. Sem referências. Raquel! Minha amiga Raquel está em Londres. Saudades da Kel. Ela poderia me ajudar. Se soubesse onde ela está. Por que eu não a avisei que viria? Por que não peguei o endereço dela antes de vir? Aliás, por que eu vim assim tão repentinamente? Eu avisei meus pais que estaria aqui? Não importa, já estou aqui. Lembro-me dela ter me contado que trabalha em um Starbucks na frente de uma praça. Será fácil encontrar, afinal Londres não deve ser tão grande.

Andei a esmo pelas ruas da cidade. Fascinante. Muita gente nas ruas. Uma pequena pracinha. Uma fonte de pedra. Mesas ao ar livre aproveitando o dia lindo. Casais namorando. Uma banda tocando beatles:

“The long and winding road, that leads to your door,
Will never disappear, I’ve seen that road before,
It always leads me here, lead me to your door.”

Uma faculdade logo em frente. Pessoas bonitas, estudantes jovens discutindo todos os tipos de assuntos. A faculdade parecia daqueles castelos medievais. Londres respira história. Saindo da rua principal uma pequena vila. Muitas lojas com artigos brasileiros. Brasil está na moda. Todos falando em português. Orgulho do meu país. Já estou no alto da cidade. Ali o Tâmisa. Um rio grande, caudaloso, sinuoso, com suas margens de pedras acinzentadas. Vejo Londres inteira. Grandes montanhas esverdeadas por todos os lados. Encho meu peito e meu corpo arrepia. Mágica.

Está tarde. Tenho que encontrar a Kel. Desço para continuar minhas andanças. O despertador. Acordo. Era um sonho. Aperto no coração. Essa Londres não existe. Nada daquilo era real. As sensações, os sentimentos. Viagens da minha cabeça. Nunca estive nessa Londres e nunca estarei. Mais aperto no coração. Sonhos vãos que com pesar temos que deixar de lado. Londres verdadeira está lá. Cinza, escura e fria. Mas com seus encantos reais e palpáveis.

Telefone

“Uma ligação qualquer.

– Alo?
– Alo?
– Quer falar com quem?
– Eu é que pergunto?
– Como assim, você que ligou aqui?
– E daí, só por que eu que liguei não significa que você não queira falar.
– Mas eu não quero falar.
– Duvido.
– Olha, não posso perder mais meu tempo com você. Vou desligar
– Duvido.

Namorada.

– Onde você está?
– Na casa do Marcelo.
– Você acha que eu sou uma idiota né?!
– Não, você só tá nervosa.
– Nervosa, nervosa quem está é a senhora sua mãe. Eu estou furiosa. Você prometeu que ia me ajudar a escolher a cor das almofadas novas da minha sala.
– Eu odeio cores, eu nem sei nada de cores, só ia atrapalhar sua vida. Já aqui no Marcelo eu estou fazendo uma coisa que eu faço muito bem modéstia a parte.
– Eu sei. Bebendo! Vá a ….

Trabalho.

– Cadê o relatório?
– Que relatório?
– Não viu o e-mail? Te mandei faz 5 minutos.
– Não vi ainda não.
– Mas já faz 5 minutos que eu te mandei.
– Acabei de voltar do almoço.
– E ainda não viu os e-mails?
– Ainda não escovei os dentes.
– Seus dentes pagam o seu salário?”