Arquivo de junho, 2004

Leve, redonda e brilhante

Foram, apenas, alguns segundos e fez-se a luz. Do Nada à Criação em um instante, suficiente para que aquela imensidão verde jorrasse e seus volumosos sulcos criassem uma nova geração, espontânea. Que aguardou ali, estática, borbolhando nascimento e destruição na cerâmica reluzente – e luz e sombra é o único estímulo sensorial do qual se pode dizer algo de bom – não era chinesa, muito menos rara, mas era um berço esplêndido.

O nervosismo era incontrolável; as mais antigas não aguentavam, umas se deixavam levar, abriam mão de tudo e explodiam sem deixar vestígios. Mas eu sempre acreditei. Desde o nascimento eu já vislumbrava a perfeição da minha criação, um círculo perfeito de finas paredes, mas de resistência ímpar.

Fiquei em um dos cantos, daqueles que se formam no encontro da ponta da parte curva – em forma de “U” – com a parte de trás, reta. Era ali. Muitos segundos se passaram até que a luz tornou-se um clarão, um imenso raio de luz que me ofuscava e ao mesmo tempo me fazia brilhar. Foi um clique, e não se via mais nada além do branco da cerâmica, era tudo o que se sabia da existência: um branco. A expectativa aumentava a cada novo estrondo que retumbava fora da branca patente; permanecíamos à deriva no verde mar que nos suportava. Já não aguentava mais ficar agarrado ao meu corner quando “O Salvador” desceu ao mar, explodindo sob nossas redondas estruturas; atirando, com força incomensurável, todas para cima e quando digo para cima, digo para fora do vaso, para fora da medíocre e instantânea existência.

Claro que nem todas conseguiram; umas até voltaram para o início, agora, acompanhadas de outras novas; mas eu decolei, ultrapassei as fronteiras do inimaginável, não por sorte e sim por mérito – uma linda combinação entre leveza e geometria.

Foi uma longa e incrível jornada até a pia do lavabo onde, até hoje, as mais aventureiras terminaram. Não fui melhor nem pior do que qualquer outra e no fim . . . . . . . . ah! no fim. No fim, fiquei apenas com aquele lindo som na minha memória: “ploc!”

Puta Mancada

-Porra Ademir, puta mancada, cara!

-Na boa Clébão … Não deu pra evitar …

-Como não deu pra evitar?!

-Não deu, mano!

-Ah … Nem a pau! Eu não pensaria nem em beijar você, quanto mais “te catar”, mano!

-Clebão! Eu não catei você, cara! Eu catei a Belinha!

-Sei sei … e o que você disse pra todo mundo na mesa do bar, antes de ir falar lá com ela?!

-Ah … isso não conta …

-Não conta, Ademir?! Você fala pra todo mundo : “Essa mina até que é gata, mas eu olho pra ela e vejo o Clébão na minha frente. Olha lá, igualzinha! Se eu fosse beijar ela, ia me sentir beijando o Clebão!” , e depois você vai lá e dá uns amassos na mina. Isso não conta?

-Na boa cara, foi ela que me chamou pra conversar …

-Ah, cara, não me vem com essa. Não quero mais falar sobre isso. Puta mancada!

-Beleza, Clebão … Eu também prefiro deixar pra lá …

Um longo silêncio na mesa. Nenhum dos amigos conseguem se olhar.

Depois de uns minutos o Clebão diz:

-Ô …

-Fala aí, mano …

-Eu era boa?

-Heim?

-Fala!

-Você não, porra! A Belinha!

-Que seja …

Um rápido silêncio. Clebão reitera a pergunta:

-E aí … Eu mandava bem?

-Pô cara … era bem boa …

-Sério?

-Porra … puta peitão, “shape” violão, sabe? Fora a …

-Opa, opa!! Ó respeito, cara! Você tá falando de mim, Ademir!

-Calma aí, Clebão! Tou falando da Belinha!

-É … a “mina que eu olho pra ela e vejo o Clébão”! Pega leve mano …

-Ah! Você tá louco, cara!

-Na boa … É melhor não falar mais sobre isso… Puta mancada!

-Melhor mesmo!

Mais um silêncio. Desta vez ainda mais constrangedor. Com a face cada vez mais angustiada, Clébão não resiste e fala:

-Ô …

-Ai caramba … Fala …

-Por que “Ai caramba”? Só porque você me catou, já tá rolando um medo de que eu fique agora, em cima de você, que queria um relacionamento e tal?

-Heim?

-É, Demir! Diz pra mim! Fala pra mim a verdade?

-O que você tá falando, cara?

-Eu tenho sentimentos, tá? Você só me catou porque eu tinha um puta peitão … Um “shape de violão”. Diz pra mim! Eu beijava bem, cara? Beijava?!

-Clebão  … na boa, acho que você …

-Acho nada! Responde pra mim! Eu beijava bem, Ademir!

-Você tá viajando, cara! Eu não …

-DIZ! DIZ PRA MIM!

-Tá bom, tá bom! Beijava, beijava! Beijava bem pra cacete, aliás!

-Sabia! Sabia! É só isso que vocês, homens, querem! É a gente se …

-CLEBÃO! Presta atenção no que você tá falando! Logo, você, o maior “pegador” da galera!!

-É … mais eu nunca tinha me visto do outro lado. Machuca, tá!

-Cara, eu catei a Belinha, porra!

-Eu sou pessoa, tá?!

-Clebão, acorda !!

-Ai … acho que eu vou chorar … Me abraça!

-Ah, vai pro inferno!

-Seu grosso!

-Você está louco, eu vou embora!

(Clebão soluçando) -Puta mancada, Ademir! Puta mancada!

Como escapar da solidão na mesa

E o mundo, hein? Continua uma merda. Estes dias eu fui comprar pão, na padaria (é claro), e encontrei com um dos meus vizinhos que comigo defendia a rua de cima contra a de baixo e ele passou reto. Devia estar atrasado ou coisa assim. O mundo continua a mesma porcaria de sempre, você cresce e isso significa: ficar chato, entediado, refém.

Coisa mais ridícula de se reparar é a solidão. É, a solidão. O desapego as coisas tradicionais e a pífia tentativa de modernização dos costumes vêm trazendo apenas a individualidade e o egoísmo: e por isso, pífia. Incrível a pressão com que isso cai em nossas cabeças. Eu mesmo estava me preparando pra sair e encontrar uns amigos e fiquei tremendamente impaciente porque eu estava saindo e chegaria na hora combinada. Até aí, nada demais. Mas eu tenho que dizer que apartir do instante que eu cheguei no bar eu percebi o que realmente significava a solidão. Não o lado mais romântico da coisa, mas o lado prático mesmo. Entrei e nenhum graçom teve o atrevimento de me atender. Deviam pensar coisas como: “ele está sozinho, vê se não irrita o cara”, “pô o cara veio sozinho que triste, não importuna ele não”. Como se fosse uma doença eles mantinham distância segura e intransponível. Pensando agora, talvez o atendimento simplesmente fosse ruim.

Conseguida a mesa para oito e tendo que aguentar aquelas pequenas vozes na minha cabeça dizendo “mesa pra oito, só se for oito almas”, “oito? quem ele quer enganar? Era só sentar naquela ali mesmo”, ” pobre coitado, não teve coragem nem de pedir uma mesa pra ele” – sentei. Nem vem com essa, sentei como um macho senta. Chutei tudo, arrastei a cadeira e me larguei como um saco de lixo jogado na calçada. Macho pra caramba, tá pensando o quê?

Mesa pra oito, sim senhor. Estava sozinho com todas aquelas cadeiras. As pessoas ficavam olhando, observando o coitado, no caso, eu. Ninguém admite que uma pessoa fique em uma mesa de bar, sozinho. Mesmo sabendo da solidão urbana e da falta de perspectiva alheia, as pessoas se espantam com isso. Experimenta, uma vez, sentar você e sua consciência. As pessoas devem imaginar que você é infeliz, que não tem amigos, o que não era o caso; eles estavam apenas atrasados. A medida que o tempo passa e você olha em volta, mais e mais pessoas reparam na sua momentânea solidão e julgam sua vida em um piscar de olhos. Começam as expeculações afetivas e aí vem a idéia de que a pessoa que senta só, em um bar levou um bolo, ou pior: a outra pessoa do encontro chegou viu e foi embora.

Particularmente eu desenvolvi um método bastante eficiente e consagrado em diversas áreas, infelizmente a afetiva ainda não deu certo mas tenho esperanças. Quando você se vê em uma situação parecida e não sabe o que fazer, primeiro: jamais ligue alucinadamente pra falar bobagens com sua amiga ou pra fingir que lembrou de alguém e começar a conversar. Isso é trapaça. Depois da invenção do celular isso tornou-se um mau hábito, covarde até. Seja convicto da sua situação e criativo na solução. Peça uma bebida, de preferência alcoólica e olhe fixamente para um ponto na parede a sua frente – se não houver parede procure uma, onde já se viu bar sem parede! Quando a bebida chegar, empreste uma caneta da pessoa que te atendeu e improvise. Pegue um guardanapo e comece a escrever. Faço isso por pura comodidade pois tenho que escrever semanalmente e esse tempo que me sobra entre chegar no horário e esperar os outros é bastante produtivo. Mas você pode escrever seus pensamentos, exercitar a caligrafia e a imaginação. Quem sabe você não se descobre um(a) cronista de talento? Você pode até ganhar dinheiro com isso e talvez ficar famoso. Quem sabe, até, o seu vizinho te reconheça na padaria um dia desses.

Jogo da vida

Hoje tive muitas saudades. Aliás preciso fazer alguma coisa a respeito disso. A úinica coisa que tenho sentido ultimamente é saudade, isso quer dizer que não estou fazendo nada ultimamente. Tenho feito algo como os torcedores do Juventus. Sempre lembrando do passado glorioso mas sem ter nada a contar sobre o duro presente.

Tenho pensado na única época que consegue ser mais indefinida do que a adolescência. Aquela fase em que tudo que você quer é jogar video game com uma playboy do lado. Num confornto inimaginável de interesses. Algo parecido com a vida de um programador de computadores.

Bem, nessa confusa época em que eu sonhava com um Phantom System minha vida amorosa era complicada. Sempre fui um romântico. Adorava sofrer por amor. Sentar no chão do meu quarto, encostado no canto da parede segurando a testa com as palmas das mãos tomando um copo de tang. Gostava de sofrer também por que nunca tive opção. Sempre fui muito tímido e nada auto-confiante. Mas sempre me achei poeta. Por isso adorava escrever cartas de amor. Mandá-las era só um opcional, escrevê-las era a grande atração. Imaginar minha amada lendo, chorando ao ver que tinha achado seu principe encantado. Na minha imaginação tudo dava certo.

Eficiência zero, essa minha poesia não me arrumava namorada alguma, mas muitas amigas com certeza.. Com essas amizades comecei desde pequeno a estudar as mulheres. Sem saber que isso seria uma perda de tempo enorme.

Do alto dos meus 15 anos já entendia o que as mulheres queriam. No ginásio era simples. Elas podiam se divertir com os caras errados mas no fundo queriam um certo. Era difícil competir com o cara que era o artilheiro do time, astro do time de vôlei, cestinha do basquete e além de tudo plantava bananeira. Auto -confiança era o nome desses indivíduos que além de tudo não tinham timidez nenhuma. Mas tudo isso fazia-os não valorizar as mulheres e isso uma hora ia fazê-las ir atrás dum cara certo. Um pra valer. Aquele famoso perfil de cara inteligente, sensível, apaixonado, romântico, fiel, companheiro. Mas que ao mesmo tempo fosse arrojado, firme, corajoso e até agressivo quando preciso.

Eu já sabia disso desde a quinta série então por partes fui me forçando a me tornar esse cara. Algumas coisas foram fáceis outras mais difíceis como tudo na vida, mas numa certa época da vida achei que tinha chegado lá. Com toda a modéstia é lógico eu tinha englobado todas as carcterísticas do homem perfeito. Obviamente em doses diferentes mas um pouco de tudo.

Daí pra frente era só encontrar minha pretendente perfeita. Tarefa não muito fácil (talvez impossível). Por muito tempo procurei e chegue até a começar a perder as esperanças pois achei que nunca encontraria minha pretendente perfeita.

Minha alma gemêa. Mas por diversas brincadeiras do destino um dia eu a encontrei. Mesmo antes de se consumar alguma coisa eu já sabia que daria certo. Indôles muito parecidas, interesses muito próximos, convivência pacífica, objetivos de vida similares. Se aquilo não era amor perfeito o que mais poderia ser.

E ENTÃO EU RELAXEI…

Relaxei por que já não sonhava mais. Projetava meu futuro. Nunca mais eu precisaria pensar no que as mulheres pensam ou querem. Eu tinha ali ao meu lado a mulher da minha vida que se precisasse ou quisesse de alguma coisa me falaria e pronto. Simples assim. Achava isso por que era exatamente o que eu fazia.

Pobre ingênuo. Como posso ter sido tão estúpido ao ponto de ter estudado as mulheres a vida inteira e não ter percebido a suprema primeira lei da convivência com elas? Mulheres não mudam. Serão pra sempre mulheres, agirão pra sempre como mulheres assim como homens serão homens.

O amor não nos tranforma em anjos perfeitos. Na realidade somos as mesmas crianças de 13 anos. Os homens geralmente dando a mesma importância para o jogo de futebol e para o aniversário de namoro. As mulheres nunca falando o que realmente querem, sempre fantasiando milhares de universos ao simples “oi”. Isso é o que somos e seremos até o final de nossas vidas.

Hoje acho que ao invés de me enganar com a improvável mudança dos indivíduos devo é me adaptar ao mundo real. Aprender a lidar com esses infindáveis “jogos” entre homem e mulher. Aceitar que o meu romance ideal. Meu amor perfeito que idealizo desde criança só existe mesmo nas letras escritas.

O que existe é um jogo eterno em que o melhor resultado é uma partida fatal que termina num empate.

Pão e leite

Nunca foi tão fácil tirar o carro da garagem. Ninguém perguntou se você estava levando o documento do carro. Ninguém pediu pra você tirar os materiais do banco de trás, antes de sair. Muito menos, vieram dizer que o tanque estava vazio ou os pneus precisavam ser calibrados. Foi coisa simples. Pega a chave, abre o portão, liga o carro e sai. Mas sempre tem o primeiro farol. Ah, o primeiro farol! Você ali andando tranquilamente e ele surge, parado, ali na sua frente. Ele olha pra você e desafia todo o seu dia só com o seu jeito petulante de ficar ali, parado.

A rubra luz que vem de cima não te afeta, você continua em movimento, mesmo que o carro esteja parado. Olha daqui, espia dali. Se você estiver na faixa do meio vai ver à sua direita um senhor de cabelos ralos, escassos, que tosse compulsivamente e cutuca o nariz com o indicador. Quase perde o dedo. Na sua esquerda um moleque, que nem sabe dirigir direito, acelera o seu “carrinho esporte”que o papai deu. O cara pensa que sabe dirigir, que sabe pilotar, imagina. Quando vir o verde nos olhos você mostra pra ele, mostra sim. Deixa engatado pra sair na frente. Isso, agora ele vai ver o que é dirigir. Nem saiu das fraldas, o fedelho, e acha que pode ficar assim acelerando do seu lado.

Vai. Mostra pra ele. Deixa pra trás tudo e queima a faixa antes que ele perceba. Próximo. E o calvo da esquerda? Próximo. Próximo. Só até o próximo. O farol contina olhando pra você. Com ar de superioridade, como quem faz chacota da sua mediocridade e submissão a uma simples luz vermelha. Ha, ha, ha. Você vai ter que fazer alguma coisa. Droga. Olha pra frente. Vê o que está ali. Droga. Não pode ser, uma velhinha! Como, por Deus, ela apareceu na sua frente?! E pior, dirigindo um Corcel II dourado – velhinhas sempre dirigem Corcéis II dourados, ou Del Reys azul-marinhos. Pelo retrovisor você vê que ela nem enxerga direito através dos enormes óculos de armação grossa e preta.

Droga. Não vai dar pra sair na frente dos outros carros. Seta pra direita, droga. Seta pra esquerda, droga. Todo mundo passando. Tem que ter uma saída. De um lado, um sujeito que passeia em pleno dia da semana, cutuca seu nariz largo. Do outro, um motoboy passa esbarrando no retrovisor. Outro motoboy passa, mais outro, e outro. Todos parados na linha de largada e a velhinha na frente. Droga, como o mundo é injusto.

Verde. Sai. Acelera. Pra direita, pra esquerda. Tchau ô barbera. Corre. Os motoboys não estão muito longe, você consegue. Acelera. Mas . . . . . . . .vrummmm. Aquele moleque me paga. Deixa, no próximo eu pego.

Não, não pode ser. Tenho . . . . . . . . droga . . . . . . . . eu tenho que virar à direita. Estava quase alcançando, droga, porquê? Porque parar, quando se pode ultrapassar? Vai, não perturba, eu quero dois litros de leite e cinco pãezinhos. E rápido. Quem sabe eu ainda alcanço eles.

Da série “Investimentos Pessoais” – Parte 1

“É bem simples. Basta você sentar num dos flutuadores. À sua frente está a esteira, a escota, e claro, o burro (não você, outro). Seus pés ficam por baixo da tira de contra-peso. Se você tiver sentado no flutuador a bombordo, sua mão esquerda segura a escota e sua mão direita fica com a extensão da cana do leme. É fácil de lembrar, se você sentar de lado para a proa do barco e deixar espaço suficiente pra passar a cana do leme entre seu corpo e a popa, verá como é fácil mover o leme e equilibrar o barco. Certo ?”

Então, é mais ou menos como você deve estar se sentindo agora, que eu entrei na represa do Guarapiranga, vestindo uma daquelas lindas roupas de neoprene, colete salva-vidas e gostosa sensação de “cadê a minha mãe”?

Explicando: numa dessas manhãs extremamentes frias (sim, só eu sei, foi genial a idéia de iniciar um esporte aquático na véspera do inverno!) eu tive minha primeira aula de vela no veleiro da classe “Laser” (aquela em que nosso brilhante Robert Scheidt foi campeão mundial milhares de vezes). O menor de todos, adequado para o transporte de um único náufrago, digo, tripulante.

Após uma aula teórica-prática da montagem do veleiro, me sentindo uma grande besta-do-mar, eu entrei na represa, amparado pelo instrutor Jaques (isso é que é nome para deixar um aluno de vela seguro!).

Como todo processo que mistura intelecto com procedimentos físicos, à primeira vista é bem complicado coordenar tudo que deve ser feito para que você consiga, pelo menos, ir e voltar com o barquinho.

Depois de um pouco de prática, percebe-se que realmente é muito complicado coordenar tudo isso. Quer dizer, se não tivesse o vento e a vela pra virar a maldita embarcação toda vez que você tiver tentando puxar o cabo (eles chamam isso de “caçar a vela”), puxar o leme, passar perna por cima tira de contra-peso, abaixar pra não tomar uma esteirada (esteira é a base da vela, que inclui um tubo metálico magnético a testas humanas), pular para o outro lado (SEM SOLTAR NADA DISSO!) e manter o leme no sentido certo, talvez o processo fosse mais fácil.

Fora isso, nós, seres terrestres, temos um tempo de reação de movimentos ligado, obviamente, ao chão. Na água, isso é totalmente diferente, e quando o barco parece que vai virar, talvez não vire. Se tentar desesperadamente evitar que isso aconteça, talvez você vire o barco pro outro lado. Enfim, é como chegar num país que não use o alfabeto romano, e tentar ler fluentemente um texto cheio daqueles “simbolozinhos” tão bacaninhas,  mas que não te dizem absolutamente nada.

Depois de uma meia hora (e muito caldo), até consegui fazer algumas viradas (nem um pouco olímpicas, mas que até que funcionaram), e fui percebendo que as coisas até que tinham chance de ficar melhores. O suficiente pra eu perceber que, mesmo eu, poderia velejar.

Apesar disso, comparativamente, meus colegas iam e voltavam nas boias que foram colocadas para que não perdêssemos o rumo, e o melhor sentido do vento. Eu, ia e voltava pra baixo d’água seguro pela bóia que foi colocada no meu colete, para que eu não perdesse a vida.

Findada a aula, eu era (sem dúvida) o mais molhado, cansado, sujo e, claro, aquele que mais ingeriu terra (via água) da represa. Logo, concluí que fui o que mais aproveitei!

Já sabia, mesmo antes de pensar em fazer a aula, que aquilo não era para mim. Eu tenho dentro mim, uma ligação muito forte com motor, gasolina e, de preferência, borracha queimada. Minha “praia” (desculpem o trocadilho) é outra. E pra me certificar  disso, saindo da represa, fui direto para o Kartódromo de  Interlagos, e lá, só de escutar o ronco dos motozinhos dos karts, pude dizer tranquilamente : “Lar, Doce Lar!”.

De qualquer forma, cada vez mais, tento aumentar esse tipo de experiência, pois como disse um amigo (que também fez o curso, e felizmente se deu bem!) esse é o melhor dinheiro que se pode gastar : Investir em você!

Se eu nem vou terminar o curso, e portanto, não me tornar um velejador, posso pelo menos, xingar os adversários do nosso campeão nas próximas Olimpíadas com a propriedade “de quem sabe o que ele está passando”. E isso, muitas vezes, já é o suficiente. O importante é nunca parar de tentar.

Nova Zelândia

Ok. Numa boa. Senhores músicos vamos dar uma variada. 99% das músicas presentes hoje em dia no rádio são sobre desilusões amorosas. Tudo bem, talvez eu esteja exagerando um pouco mas no mínimo 98%. E não estou falando só de música romântica, sertaneja ou pagode. Podem incluir aí todos os genêros. Rock, R & B, Hard core e Reggae. Só escapam o Rap legítimo, o gospel e o Death Metal (que prefere falar sobre larvas?!?!).

Tenho caminhado todos os dias, ou quase todos, por 1 hora, ou quase uma, pela manhã. Como companheiro levo um daqueles radinhos que você prende no braço sabe? Sempre quis usar um radinho desses. È coisa de gente saudável e bonita. Mas hoje percebi que este radinho mais me trouxe tristeza do que saúde ou beleza. Não adiantava eu mudar de estação ou de estilo que lá estavam as famosas frases: ” Não vivo sem você.”, “Volta pra mim”, “Não sei viver sem ter você”, “Since i don´t have you” e etc. Raramente interrompida por um “Move your body”. Não sei o por que disso. Antigamente as pessoas cantavam sobre os rios, sobre as planícies e planaltos. Hoje em dia só sabem dizer que “que quem se ama já não se importa com você.”. Isso me leva a uma triste conclusão. Ou hoje existem mais desilusões amorosas (vulgo pé na bunda) ou nossas paisagens já não são o bastante.

Otimista que sou acredito que a segunda razão seja a mais provável. Acha incoerente? Tome como exemplo a Nova Zelândia, terra do senhor dos anéis. Lá existem paisagens de sobra. Neve, mar, praia, abismos. De tudo um pouco. Ás vezes até combinados. Logo não enfrentam essa epidemia pela qual passamos. Ou você conhece alguma dupla sertaneja neo-zelandeza? Já ouviu alguma música neo-zelandeza que fale “cadê a alegria estampada no meu rosto?” Acho que
não. Nem o Frodo sofreu de amor. Tinha o Sam o tempo todo.

Tá certo que tenho que concordar com o fato de que eu estar passando por uma desilusão amorosa possa estar piorando as coisas. Mas só um pouquinho. Nada que afete o quadro geral.

Passar por uma desilusão não é nada fácil, talvez por isso as pessoas escrevam tanto sobre isso. O grande problema é que nessa situação você só pode pensar sobre o assunto. Já que não é você quem está nas rédeas da situação. Muito pelo contrário. Você é o cavalo.

Algumas pessoas tomam atitudes desesperadas que só pioram as coisas. Eu nunca vou ser um desses.

– Alô

– Oi.

– Por que você está me ligando Kris.

– Por que preciso saber que roupa eu ponho na mala.

– Hein?

– É isso.

– Não entendi.

– Você vai voltar pra mim?

– Não sei Kris. Tinhamos falado que…

– É isso. Já chega. To indo pra Nova Zelãndia.

Que Venham os Marcianos!

Um Homem tem que fazer algumas coisas durante a sua vida, e nada nem ninguém pode mudar isso! Uma dessas árduas e tenebrosas tarefas é assistir ileso, ao vivo, o concurso “Miss Universo”.

Confesso que a primeira vez em que assisti esse evento, ciente desta responsabilidade, foi nesta semana. Não é fácil!

Pra começo de conversa, na transmissão brasileira tivémos 4 pessoas, mais precisamente : Astrid (a âncora ??), Alexandre Hercovich (um estilista ??), Érika Palomino (uma mulher hype ??), e Marcelo Sommer (??).

Vamos lá: nada contra nenhum destes, mas neste caso o “juri” brasileiro foi tão bem escolhido, quanto um grupo de arquitetos vegetarianos para a escolha do melhor rodízio de carne do Brasil. Ouvíriamos comentários como : “Tal lugar tem um buffet de saladas sensacional!”, ou “ O Sushi de salmão do X é um primor”, ou pra piorar “ Me parece que o contra-filet daí deve ser ruim”.

Por mais que estas pessoas sejam competentes nas suas áreas, neste caso não interessa. Estamos falando de CARNE ! E, definitivamente, vegetarianos não entendem disso.

Voltando ao concurso. Logo na apresentação das 80 candidatas, pudémos ver que : 1 – o Brasil é um país realmente maravilhoso, pois poderíamos facilmente, ranquear 79 brasileiras no nível das misses lá apresentadas; 2 – Como existe Miss feia no Mundo !; e 3 – Meu Deus do céu, por favor dêem um close naquela Australiana!

Na primeira passada, 65 candidatas foram eliminadas, e vimos então que o mundo é injusto, e, mesmo que pareça uma contradição, essa história de “ser politicamente correto”, provoca grandes catástrofes na Humanidade.

Passado o susto, apesar dos pesares, percebemos que nem tudo está perdido. Temos ainda, algumas mulheres bonitas, algumas mulheres pré-fabricadas, uma Barbie, e as “politicamente corretas”.

Das negras que vi no concurso, tive a impressão de houve um boicote nos concursos de cada país. Parece que não queriam, realmente, uma Miss Universo negra. Uma pena.

Mais 5 foram eliminadas e chegamos então na hora mais importante para qualquer Homem, num concurso desses: os trajes de banho. Difícil de assistir, admito. Para nós, nada daquilo é real. Não há diferença entre um momento desses e um filme como “Final Fantasy” : é tudo virtual mesmo … tanto faz (ou melhor, no caso do Final Fantasy, pelo menos, não sentimos uma forte pontada no estômago ao ver uma australiana daquelas sorrindo).

Passamos então para 5 finalistas, e chegamos então, na parte mais dramática: as perguntas. Não é questão de machismo, mas é muito angustiante saber que mulheres que se prepararam toda a vida para outra coisa, são colocadas para responder “perguntinhas canalhas” na situação mais estressante que já enfrentaram na vida. É como você colocar os candidatos à Presidência da República no debate final ante-eleições, para desfilar numa passarela de salto alto e trajes de banho exatamente iguais aos usados no concurso que estamos discutindo. É complicado!

Uma pergunta perdida no meio de tudo isso : O aquela americana ainda estava fazendo lá, nessa fase do campeonato ?

Apesar do medo, a maioria das candidatas passou ilesa pelas perguntas. Claro que : uma delas acabou se  atrapalhando um pouco, mas ao contrário do que nossos brilhantes apresentadores brasileiros falaram, ela não errou na resposta pois a pergunta dizia : “Que grande líder feminina, de todos os tempos, você entrevistaria?”, e eles, na ânsia de fazer gracinha em cima da coitada da candidata, falaram que Eva Peron já morreu, portanto não poderia ser entrevistada; a americana parecia um robô de tão segura que estava, ao começar a responder compulsivamente uma pergunta qualquer (como ensina qualquer “Manual de Miss”, nos milhares de concursos que os Estados Unidos está infestado).

Nesta hora, depois do sorriso devastador que a candidata australiana deu ao finalizar sua simples e tranquila resposta, nenhum de nós (sim, estávamos reunidos, vários dos cronistas, para essa experiência tão edificante em nossas vidas) tinha dúvida de qual mulher merecia a sonhada Coroa.

No intervalo para o último bloco, me sentia como na espera da disputa de pênaltis de uma final de Copa do Mundo.

Esperávamos alí, que o belo legítimo vencesse o mal, que o natural e maravilhosamente espontâneo vencesse o adestrado, que a verdade vencesse a Barbie, e antes de tudo, que a carne vencesse os vegetais!

Vimos os nomes de países sendo ditados em ondem contrária ao primeiro lugar, na ânsia de garotos prestes a serem chamados para o recreio em função de suas notas.

Na grande final, vimos o duelo que só poderia ter sido melhor escolhido num filme : EUA (a Barbie) X Austrália (a Verdade).

Foi o juiz dizer: “Em segundo lugar … EUA” que todos nós, pulamos e gritamos – “GOL!” – como nunca vi antes. Era nossa redenção! Era a vingança da seleção de 82 ! Finalmente um campeão moral levou também o título real!

Pra completar, vimos ainda, os vegetarianos apresentadores, se lamentando que a menina mais parecida com uma modelo ganhou, e só porque estava de longo! Que era uma pena que o “modelo de Miss Clássica” não havia vencido. Me pergunto : “Quem mais do que o mundo da moda se diz lutar para que o statuos quo seja modificado?” Se o “modelo clássico de Homem” fosse ser eternamente seguido, não teríamos estilistas! Se o modelo clássico de tantas coisas não fosse substituído, o Mundo teria parado. Por que as Misses tem que ter aquela cara de semi-travesti que foi tanto exaltado nos anos 80 e é construído metodicamente nas pobres mulheres por quase todos os países latinos?  Por que as Misses loiras tem que ser igual a Barbie? Por que a mulher “mais bonita do Mundo” não pode ter aparência de modelo, e andar como a Gisele Bundchen (que aliás, é um dos maiores modelos atuais de beleza) ? Por favor, senhores moderninhos: SE MODERNIZEM !

É por esses motivos, e outros mais, que não é fácil para um Homem, assistir um concurso desses. Mas, de qualquer forma, desta vez, pelo menos desta, Jennifer Hawkins escreveu o final que todos mereciam.

E se ela é a nossa Miss Universo: Que venham os Marcianos!!

P.S.: Eu sei que Marte está no Universo, mas como diria meu finado bisavô : “Aqui, mando eu!”