Arquivo de julho, 2004

Um final feliz

Vera e Dora eram super amigas.

Daquelas que não tem nada a ver mas tem tudo a ver sabe.

Vera vivia falando para Dora para se soltar mais. Aproveitar as coisas da vida. Vera achava que Dora era muito submissa. E Dora sabia que era verdade. Mas não sabia é claro.

Vera era desbocada, determinada e prática. Por um acaso um pouco do que Dora queria ser. Já Dora era doce, meiga e boa. Um pouco do que Vera deveria ser.

Vera era de Cassio. Dora era de Flávio.

Cassio e Flávio sempre foram amigos.

Daqueles que eram mas não eram.

Cassio sempre insistia para que Flávio tomasse um rumo. Muito de leve mas insistia. Cassio achava que Flávio merecia uma chance. E Flávio parecia não aproveitar. Não aproveitava do jeito que Cassio queria pelo menos.

Cassio era culto, aplicado e bom. Um pouco do que Flávio deveria ser. Flávio era esperto, malandro e individualista. Um pouco do que Cassio depois descobriu que deveria ser.

Cassio era de Vera. Flávio era do mundo.

Depois de muito tempo em que Vera insistia para Dora largar de Flávio. “Esse fdp não presta” dizia ela delicadamente. Dora tomou a atitude. Ficou só mas não mais mal acompanhada.

Foi questão de tempo.

Dora conheceu esse carinha. Vera e Cassio aprovaram. Eles continuaram.

Foi questão de tempo.

Vera conheceu Flávio. Mais do que devia. Algo esperado por parte de Flávio, mas não menos revoltante. Cassio ofereceu a mão e Flávio pegou a mulher. Atitude de homem isso não é. Uma surpresa por parte de Vera. Quer dizer ela não parecia ser dessas. Mas parecia. Ela não parecia gostar de Flávio. Mas parecia.

Cassio ficou arrasado. Perdeu a mulher e o amigo numa tacada só. E ele pra variar não é o tipo de pessoa que merece ess tipo de coisa. O mundo realmente é injusto.

Foi questão de tempo.

Um dia Dora não se entendeu com o carinha mais. Eles eram perfeitos um pro outro. Mas não eram. Ela não era o tipo de pessoa que merecia isso. O mundo é injusto.

Foi questão de tempo.

Finalmente, Dora era de Cássio.

Moral da história: O mundo não é injusto, só tem caminhos estranhos.

PS: E o carinha? Ele conheceu uma garotinha. Eles não pareciam. Mas pareciam. Mas isso é uma outra história.

Rio de Janeiro pede Concordata

Bom dia amigos! Hoje resolvi escrever uma crônica não muito alegre (pelo menos para os cariocas), para retratar a realidade da nossa capital turística, Rio de Janeiro.

Se já não bastasse a vergonha dos políticos que vem desse estado, a calamidade social e econômica não para de crescer. Não agüento mais ver tantas e tantas vezes na televisão que mais rebeliões se formaram, que o exército está nas ruas, que a polícia invade o morro… peraí, olha o que está acontecendo!

Semana após semana a desgraça carioca é maior. Um exemplo claro é o que está acontecendo com os times de futebol do Rio de Janeiro, que beiram o ridículo. Em 2002 o Botafogo foi rebaixado no brasileiro, não sei como conseguiu voltar à primeira divisão, e agora segue, tentando sobreviver de forma humilhante, no campeonato desse ano.

O Vasco da Gama é outro exemplo de mediocridade. Mal administrado, quase falido, teve vários atletas de diversas modalidades contaminados pela dengue (isso mesmo, DENGUE) há dois anos atrás, e hoje é uma marca de vergonha para seus torcedores.

Não tenho nem o que falar do Fluminense. Aliás, o que mais apanhou e foi humilhado na década de noventa é o que consegue chegar mais longe, pelo menos no campeonato brasileiro. Além de ser a moda dos “”bad boys”” do futebol (outra coisa ridícula, só falta chamar o Alexandre Frota pra jogar bola), é por incrível que pareça, o mais humilde, ao meu ver, e está dando passos mancos mais longos que os outros.

Mas o mais legal de tudo é falar do Flamengo, um clube com um poder de Marketing fantástico, patrocinado pela MAIOR empresa do Brasil, tendo a MAIOR torcida do Brasil, é também a MAIOR dívida do Brasil. Como isso pode acontecer? Deveria ser o maior exemplo, já que influencia um maior número de pessoas!!! Ontem na final da Copa do Brasil, ao mesmo tempo que torcia pelo Santo André, fiquei realmente preocupado com o vexame no Maracanã. Sem tirar os méritos do Santo André, mas pelo que vi ontem a falta de organização se tornou uma calamidade pública e o Flamengo um time medíocre. O Flamengo teria que melhorar MUITO para vencer o Santo André.

Para mudar essa situação só criando vergonha na cara. Ou esses clubes fecham ou se acertam de vez, contratando dirigentes competentes e liquidando suas dívidas sabe lá como. O futebol tem que ser um exemplo. O povo carioca que vive algo semelhante deveria levar a vida um pouco mais a sério para reverter a situação. Modéstia a parte, olhem para seus estados mais ao sul e busquem exemplos de como melhorar a situação. Mesmo existindo toda a rivalidade Paulistas x Cariocas, espero que a situação do Rio de Janeiro seja superada, para que o Brasil possa crescer em conjunto, e não em blocos isolados.

Salve Dona Shigueko

Não sei por onde começar. Ainda mais para falar sobre o fim. Desculpe-me se esse texto fique um tanto sem nexo, mas vou escrevendo conforme vou pensando. Terça-feira, dia 16 de junho de 2004, perdi minha última avó, a já saudosa Dona Shigueko Nakata, ou simplesmente Bá (contração de “baatchan” que significa avó em japonês). Foi um descuido, um escorregão, um tropeço, uma queda besta, uma perna quebrada, uma operação simples e um pós-operatório complicado. Idas e vindas pela UTI até que, aos 87 anos, a minha Bá não resiste.

Sempre tive uma relação um tanto quanto distante de meus avôs. Morava em Brasília e só os via nas férias de final de ano. E ainda tinha a dificuldade lingüística. Eles mal falavam português e eu na minha eterna ignorância não entendia mais que 2 palavras seguidas de japonês. Comunicávamos como podíamos. “Orrá-iô”, “arigatô”, “oishii”, “futon”, “makurá”, “yassuminassai” e de vez em quando algum “bacá!”. Mas não tinha aquela coisa de avôs de contar histórias, causos, ensinar bobagens e comprar doces. Talvez seja a educação oriental, pois eram mais fechados. Ou eu que me fechei? Acho que ambos. Não sou das pessoas mais fáceis de se aproximar. Não sei se por medo, insegurança ou simples desprendimento, eu sempre me mantenho a uma certa distância das pessoas até que alguém me estenda a mão. Não digo isso com orgulho, mas nunca me senti muito à vontade com eles. Eram quase estranhos para mim. Seria um tanto clichê falar que gostaria de ter me aproximado mais deles, de fato gostaria, e sabia disso, mas não tinha, e até hoje não tenho, jeito de lidar com as pessoas, de invadir e compartilhar seus mundos.

Recebi a fatídica notícia sobre minha Bá numa quarta-feira após o almoço. Minha mãe dizendo para voltar para casa quanto antes. “Mas eu ainda tenho que terminar umas coisas aqui no trabalho.” Ainda não tinha percebido a importância da notícia. Demorei para assimilar o fato. Só percebi realmente a relevância do ocorrido em seu velório.

Sempre achei uma bobagem todo o ritual em torno da morte. É um momento de catarse combinado: Chore agora! Com um monte de gente arrependida e agoniada prestando respeito em morte o que deveria ter prestado em vida. Achava mais saudável, útil e menos hipócrita que cada um refletisse individualmente sobre a pessoa, que restasse a admiração e seu legado. Sem pirotecnias e exibicionismo que segue todo o ritual.

Tive que mudar minha opinião ao ver o velório da Bá. Vi o quanto era amada e venerada. Pude perceber o quanto deixou, o quão querida e numerosa é nossa família e que minha Bá é uma das responsáveis por isso. Passei a admirá-la mais. Não haviam ressentimentos, culpas e arrependimentos. E sim uma profunda estima e agradecimento. De fato todo o ritual ainda me soa estranho, mas passei a respeitá-lo.

Não chorei momento algum. Doía, mas não saíam lágrimas. Não choro em filmes, nem por mulheres ou crianças. Não choro. Não consigo. Meu coração é tão seco assim? Senti-me mal por não ter chorado. Mas sentiria falso se chorasse. Distancio-me tanto das emoções?

Distância. Talvez seja essa a palavra. Eu já não estava em mim, estava vagando como um mero espectador diante todo o drama. Refletindo sobre o ocorrido, viajando em digressões, tirando conclusões. Agarro-me ao racional e enxugo meu coração.

Chegamos ao humilde mausoléu da família Nakata. Não conseguia segurar minha mente fugidia. Escapava observações inoportunas que guardavam para mim “Nossa, o mausoléu é de azulejos iguais ao da cozinha da casa da Bá. Devem ter comprado de milhar e aproveitado as sobras. Bom, ainda bem que não são iguais aos azulejos do banheiro”. Já me disseram que sou um piadista compulsivo. Humor como forma de defesa, de distância. Assim fujo novamente.

Tijolos, cimento e argamassa. Esse é o final de 87 anos de vida. Tudo termina com um pedreiro lacrando o sepulcro. Sem romantismo ou clímax. “João, traz mais areia que o reboco ainda tá mole” Naturalismo prevalece.

Uma vida sem avôs. Agora eles se foram. Não serei hipócrita dizendo que sinto a falta deles. Mal os conhecia para tanto. Mas sem dúvida resta-me uma tristeza no peito. Não por eles, mas por nós que ficamos. Eu tenho uma formação espírita, e no fundo creio, e torço, que estejam bem onde estiverem. Sei que estão. É um pensamento reconfortante, ainda que possivelmente enganador. E mesmo os mais céticos deveriam pensar que acabou. Não há nada depois. Portanto sofremos nós que estamos vivos. Que sentimos falta, apego e saudades. Sinto tristeza por nós. Por meu pai, minha mãe, minha irmã, meus tios e primos. Não pela minha Bá. Sei que ela está bem. Que é amada e respeitada. Resta-nos seguir em frente. Salve Dona Shigueko!

Testemunho e dou Fé

Há muito tempo tencionava escrever algo sobre algumas observações verificadas em minhas andanças pelo interior do país. Agora chegou a vez. Falarei então de remédios que não se enquadrariam na classificação conhecida, utilizados em povoados distantes, onde não existem farmácias e hospitais. Poderia até mesmo denominá-los de remédios caseiros, mas como a ética e o bom senso impedem-me de fazê-lo, prefiro tratá-los de remédios de beira de estrada. Quem viaja pelos sertões certamente tem noção do que estou falando, principalmente das dificuldades encontradas para se conseguir qualquer informação ou coisa que o valha. Esses remédios, aos quais me refiro, além de eficazes, não custam quase nada em relação aos convencionais. Esclareço que sou totalmente contrário à automedicação e, por isso, em contrapartida, sou favorável a que todo remédio tenha a respectiva indicação médica, seja ele, caseiro, homeopático, alopático ou outro qualquer. Somente em casos excepcionais, como os citados aqui, não ofereceriam quaisquer riscos, tendo em vista que foram testados e verificados “in loco” e que, certamente, já constam do receituário do sertão. Além do quê, pela eficácia demonstrada na cura de alguns males, posso afirmar com toda a certeza do mundo, que testemunho e dou fé, justamente por tratar-se da verdade , verdadeira.

Certa ocasião, num desses lugares, vi uma senhora recomendar para uma mocinha, que padecia de dores provocadas por cólicas pré-menstruais, que tomasse um remédio preparado assim: ” colocar água numa chávena, como medida. Logo após, colocar essa mesma água, juntamente com 5 lascas de canela, numa outra vasilha mais apropriada, levando-a ao fogo para ferver. Em seguida, retirá-la do fogo e, após abafar um pouco, adicionar 3 gotas de álcool (comum) e dar para a pessoa beber”. No caso, a moça. Dentro de 5 minutos a jovem estava livre das dores.

Outro caso que merece destaque, cujo desenrolar poderá ser útil a alguém, aconteceu justamente comigo e ocorreu da seguinte maneira: estava trafegando em um Fusca, novinho em folha pela BR- 70 com destino à capital do Estado de Mato Grosso, Cuiabá. Naquela época, 1.984, a BR-70 ainda não era asfaltada e quase não havia moradores em todo o seu percurso. De repente senti uma forte dor atravessada no tórax (peito) que passou a me incomodar bastante, tirando-me toda a destreza para continuar dirigindo meu automóvel. Temendo que a dor aumentasse de intensidade, me vi obrigado a pisar fundo no acelerador, objetivando encontrar, o mais urgente possível, algum povoado onde pudesse pedir algum tipo de socorro. A cada momento a dor ficava mais profunda, deixando-me acreditar que meu dia havia chegado e que irremediavelmente iria a óbito. Continuei meu trajeto, sempre em alta velocidade, e após rodar cerca de 150 quilometros, para minha alegria, avistei um povoado.Ao me aproximar, notei que havia um restaurante, onde estavam estacionados alguns caminhões carregados. Parei meu automóvel e me dirigi ao bar daquele restaurante, onde estavam várias pessoas conversando. Perguntei ao atendente se tinha algum remédio (comprimido) contra dor. Antes mesmo dele me responder, uma outra pessoa, que estava ao lado, um caminhoneiro, intrometera-se na conversa e me perguntou onde doía. Mostrei-lhe o local da dor, diante do que esse caminhoneiro, que se apresentara como sendo um gaúcho de nome Hildegard, chamando a atenção para si, dirigiu a palavra a todos os presentes, dizendo, “tenho vinte anos de estrada e sou o único nessas paragens que sabe o remédio capaz de curar esse rapaz”. Tentando impressionar aquelas pessoas, meteu a mão no bolso, tirou o documento de seu veículo, uma carreta Scania, e a carteira de identidade, afirmando que se o remédio dele não me curasse, me daria seu caminhão de presente. A mim não restava outra alternativa, a não ser acreditar nas palavras que aquele homem simples dissera com tanta convicção. Era esperar para ver. Em seguida, o caminhoneiro solicitou ao atendente que enchesse um copo de pinga branca, de preferência a 51 e solicitou ainda que trouxesse 9 dentes de alho. Socou bastante o alho e o jogou dentro do copo com a pinga. Olhou para mim e disse, é só esperar uns minutos para a pinga entremear no alho que o remédio estará pronto. Passados alguns minutos, uns 10, me dirigiu novamente a voz, autorizando-me a tomar aquele goró, engolindo tudo, menos o copo, ressaltando em tom brincalhão. Dito e feito. Foi só o remédio bater no estômago. A dor que me atormentava foi para o espaço, como num passe de mágica. Curado, e já com outro ânimo, perguntei àquele cidadão, como eu o pagaria pelo remédio que salvara a minha vida. Ele respondeu assim: mas bá tchê! Não me deves nada! Que Deus ilumine tua estrada e a minha, para que eu possa continuar transportando o progresso por esse rincão brasileiro, fazendo novos amigos, sem também correr o risco de perder meu “possante” numa eventual aposta.

Síndrome de Clouseau

Há momentos na vida que merecem ser lembrados, e há um monte de outros que poderíamos esquecer sem problemas, muito obrigado.

O que vou relatar a seguir é evidentemente uma situação do segundo tipo, e se estou transcrevendo-a para a prosperidade, como estou, acho que apenas confirmo que sou o tipo de pessoa que passa por situações assim, em primeiro lugar.

Antes de começar, gostaria que mantivessem em mente algumas palavras-chave, para apreciar melhor a narrativa. São elas: “Arquimedes”, “morsa”, e “banana”.

Certo, vamos lá. Para quem não me conhece, sou um animador 3d. Isso significa que programadores e outros técnicos me consideram um artista sem valor, e animadores 2d e outros artistas me consideram um técnico sem valor – o que é ótimo para fortalecer o caráter, espero.

Também sou um freelancer , que é o mesmo que dizer que se eu ficar dois, três meses no máximo sem um trabalho, vocês provavelmente vão me encontrar na esquina da avenida Brasil fazendo malabarismo com filhotes de animais em troca de grana. Ou, vocês conhecem o tipo, fazendo ameaças sinistras dentro de ônibus: “Olá. Estou desempregado. Eu podia estar por aí roubando/matando/traficando/estuprando mas estou AQUIIII…”.

Bem, de qualquer modo, por ser animador 3d freelancer, gosto de frequentar lugares onde posso encontrar outros nessa mesma triste condição. E não há melhor lugar para isso que o Anima Mundi – o mais importante festival de animação da América Latina, e geralmente um lugar muito seco, digo, seguro.

Nesse ano, um dos locais onde o festival ocorreu aqui em Sampa foi no Centro Cultural Brasileiro Britânico, um prédio absurdamente moderno, que cheira a sacos de libras esterlinas. Eles também tem um restaurante excelente, que serve pudim de atum com molho de uva, e cujos garçons são com certeza agentes secretos disfarçados, dispostos a cortar sua garganta numa fração de segundo se você reclamar que pediu um guaraná sem gelo, só que te trouxeram uma água com gás e limão. Mas isso não vem ao caso.

Uma das características mais marcantes do CCBB é que, a exemplo de antigas fortificações medievais, ele é cercado por um fosso escuro e assustador. Hmm, talvez eu esteja sendo tendencioso. Na verdade, é um fosso muito bonito, que combina perfeitamente com a arquitetura deslumbrante, dando um ar de pântano fétido aos arredores. Gás metano salta em bolhas esverdeadas…

Está bem , está bem. O lugar é lindo, e tem vários espelhos d´água, capicce? Espelhos d´água calmos, tranquilos… gelados… mas já chego lá (há, há! Que frase espirituosa).

Depois de esperar agradáveis duas horas e meia em pé numa fila para conseguir um ingresso para uma sessão de videos com uma hora de duração, eu e duas amigas resolvemos participar de uma sessão de animação com areia. Isso na verdade não é tão animado quanto soa, mas deixarei os detalhes para serem completados por sua imaginação fértil.

Minha primeira amiga já tinha terminado (epa!), então chegou minha vez (opa!), enquanto minha outra amiga só observava (putz!!). Toda essa atividade frenética estava acontecendo num dos lados do grande saguão de entrada do lugar, onde devia haver pelo menos um zilhão de pessoas zanzando, entretendo-se em esperar em filas diversas e, como pude perceber alguns dramáticos instantes mais tarde, em NÃO despencar num dos espelhos d´água.

Agora, não sei se você, prezado leitor, gosta de mergulhar em espelhos d´água (ou, pratica, como preferimos chamar,”espelho-mergulhismo ornamental”). Não é tão fácil quanto pode parecer. Requer , entre outras coisas, massa corporal acima da média (para um bom efeito de “splash”), visão periférica vestigial, e uma absoluta falta de coordenação motora, forjada graças a anos de sessão da tarde e toneladas de biscoitos são luiz com piscinas de ovomaltine.

Sem querer me gabar, mas nasci para coisas assim. Realizar proezas embaraçosas em lugares públicos é um verdadeiro dom – meu super poder mutante. Se eu vivesse num mundo de super-heróis, eu teria provavelmente um nome como Patzo-Man, e junto com meu fiel ajudante Kid Toupeira livraria o mundo de malfeitores por puro acaso.

Estou dando voltas, tentando dourar a pílula. Mas a verdade nua e crua é essa: caí dentro da água, quase exatamente como um elefante-marinho (ainda que sem tanta graça e leveza).

Como já disse, isso faz parte de um talento instintivo – não tenho certeza de como aconteceu. O sujeito que tomava conta do estande de animação de areia disse que eu devia esperar do lado de fora do lugar. Para isso, eu precisava afastar um desses cordões de isolamento de filas de banco, pisar com o pé esquerdo no que me pareceu um degrau de mármore escuro e rebaixado, e voilá! Ou melhor, “tchibum”.

Em minha defesa, se o espelho d´água fosse rente ao chão acredito que o pior não teria contecido. Eu teria apenas enfiado um pé na água gelada, ficado constrangido, e escapado ileso. Mas a água estava abaixo do nível do chão uns bons trinta centímetros, e quando meu pé procurou o tal degrau de mármore preto que meu cérebro insistia com ele que estava lá, encontrou apenas uma certa quantidade de ar.

O pé girou duas vezes em falso, e mandou um aviso urgente para o sistema nervoso central abortar o passo. Mas o cérebro , a exemplo daqueles grupos de jovens que visitam casas mal assombradas em filmes de terror de quinta categoria, disse : “Puxa, o pé esquerdo foi dar um passo, e sumiu. Vamos todos lá para baixo procurá-lo?”.

E foram. Digo, e fui. Foi tão rápido que não deu para sentir medo. Num instante, girava no ar. No seguinte, estava debaixo da água. Isso é algo que eu não suspeitava sobre espelhos d´água: que são fundos o bastante para comportar um adulto inepto completamente submerso.

Nos poucos segundos que fiquei por ali, notei duas coisas interessantes. A primeira é que, quando a gente grita dentro da água, o som que fazemos é mais ou menos um “blublublublublu…”.

A segunda, e mais dramática, é que por algum motivo que me escapa, o arquiteto do Centro Cultural Brasileiro Britânico achou por bem fazer o espelho d´água entrar por baixo do chão cerca de meio metro.

Bem, meu caro arquiteto maquiavélico, fico satisfeito em informar que sua armadilha funcionou direitinho! Nem sei como descrever a expressão de divertido pavor no meu rosto, quando nadei para cima, e ao invés do óbvio ar encontrei uma boa e honesta laje de concreto.

O único senão é que escapei muito rápido: só precisei dar umas duas braçadas para a direita, e saí na superfície (mas não desanime – basta você instalar uma grade sob a borda, ou uns ganchos de aço, e você começará a colecionar esqueletos num piscar de olhos).

Depois que saí, foi tudo um grande anti-clímax. Um segurança me ajudou a sair da água, e a primeira coisa que ele disse foi:

– O senhor não precisa ficar envergonhado, acontece sempre.

Aaah, bom, pensei. Folgo em saber que estou num prédio onde é absolutamente normal pessoas mergulharem de cabeça nos espelhos d´água. O que vocês fazem na época de racionamento, se jogam nas vidraças?

Mas nada disse. Apenas segui o sujeito, que resolveu me guiar até o banheiro masculino mais distante de onde eu estava, de modo a me exibir para todo mundo.

Plotch, plotch, plotch, “Olá, tudo bem?”, plotch, plotch, plotch, “Que tempo, hein? Numa hora faz sol, e na outra…”, plotch , plotch, etc.

Eles designaram um faxineiro com um rodo para me seguir, e enxugar meu rastro. Acho que ele já estava cansado depois de enxugar os rastros de todos os outros despencados. Uma hora, já dentro do banheiro, perguntei a ele se ele tinha um pano seco para me emprestar. Ele disse que não.

– Tem certeza? Pode ser qualquer pano seco, uma flanela… – arrisquei.

– Aqui não tem pano seco. – respondeu ele, enigmático.

Pensando bem, talvez eles tenham gasto toda a verba de panos secos com o pudim de atum. Com molho de uva!

Finis

Sábado à Noite, Lapa

Recomendo um estado de suave calibre ao entrar nos domínios do planeta Lapa. Encarar aquele esparramo de diversidade de cara limpa pode assustar visitantes desavisados. O velho bairro boêmio carioca abriga músicos, poetas, velhos e novos hipies, playboys, bandidos, pintores, vagabundos, rastas, traficantes, políticos, prostitutas, jornalistas, travestis, humoristas, velhos e novos malandros, djs, rapers, sambistas, hip hopers, biriteiros de todas as laias e bagaceiros de todas as linhagens. O melhor é que toda essa fauna está misturada, não se divide em tribos. Ali, o sincretismo da alma carioca acontece plenamente. É o melhor e o pior da geléia geral brasileira.

Meu amigo santista Nico Lessa, que me acompanha nesta expedição airada, não conhece o bairro e está em estado de graça. O combinado é esperar nosso amigo Fausto Gomes num pico chamado Nova Capela (famoso boteco de que voltarei a falar), na rua Mem de Sá, artéria principal do bairro. Acontece que fomos tragados, feito ímãs, para a suntuosidade dos tricentenários Arcos e acabamos por cair nas quebradas que o circundam. Beira as 23 horas e a noite da Lapa só está começando.

No antigo Beco da Alegria, da sacada de um dos sobrados, fico esperando a saída e o aceno de Portinari, que tinha ali seu ateliê. Ou a aparição de Manuel Bandeira, que sempre morou na área.

No meio da barafunda sonora que sai das casas e toma as ruas (vai de samba de gafieira e choro a techno, regge e hip hop), lembro-me do imperdível livrinho Lapa, um levantamento do jornalista Moacyr Andrade sobre o bairro. Moacyr abre o livro falando de uma noite nos anos 20, em que Manuel Bandeira e Zeca Patrocínio (filho de José do Patrocínio, o “Tigre da Abolição”) presenciaram um dos mais fantásticos concertos de violão brasileiro da História. E também o mais secreto. Deu-se num rendez-vous da Rua do Riachuelo, talvez o bordel da cafetina Elvira, e, de mão em mão, o violão passou pelo lendário Jaime Ovalle (autor de Azulão), o até hoje cultuado João Pernambuco, o esperto Catulo da Paixão Cearense e, por fim, Villa-Lobos. Como platéia, apenas os dois citados e algumas “belezas venais”, na definição de Bandeira. E, se vocês querem saber o que Villa-Lobos estava fazendo ali, saibam que, de todos, sua presença era a menos surpreendente: era habitué do piano e das almofadas de cetim do bordel.

Na travessa da Mosqueira, próximo a Sala Cecília Meireles, topamos com o Cosmopolita. O legendário boteco, fundado em 1926, como mostra o letreiro no espelho, acima da prateleira de bebidas, viveu sua época de ouro nos anos 40 e chegou a ser o “escritório” do grande sambista Ismael Silva. Num rápido papo com o portuga Maneco, dono da casa, fico sabendo que, na era Vargas, um dos mais assíduos frequentadores do botequim era o famoso chanceler Oswaldo Aranha. Um certo dia, Aranha, faminto, pediu um filé alto, forrado de alho e acompanhado de batatas portuguesas. Nascia ali o célebre filé à Oswaldo Aranha, presente no cardápio de nove entre dez bares e restaurantes do Rio.

Enxugamos alguns chopes muito bem tirados – acompanhados de uma porção de um dos melhores bolinhos de bacalhau que já comi – e seguimos nossa jornada.

A moringa fervilha tentando buscar tudo que já se escreveu sobre a Lapa em prosa, poesia e música. De Mário Lago a Seu Jorge, passando por Noel, indo até Aldir Blanc, voltando à Bandeira, Wilson Batista, Macalé, Moringueira. Zriguidum, oba! E Sérgio Buarque de Holanda, Bororo, Orestes Barbosa, Lucio Rangel, os poetas Dante Milano e Raul de Leoni, o malandro Camisa Preta, as prostitutas Beatriz Cabeludinha e Alice Cavalo-de-Pau. Ziriguidum…

Lá está a igreja Nossa Senhora da Lapa do Desterro, de 1751, mantendo-se intacta entre as criminosas adulterações urbanas. A rua Joaquim Silva fervilha de sons e gente. Uma roda de samba compete com uma miserável banda de reggae. Entro num sobrado atraído por um regional de meninas e rapazes que cantam em vozes afinadas o samba Escurinho, de Geraldo Pereira. Pergunto ao mestre de cerimônias da casa se a entrada é paga. O negão, malandríssimo, manda: “a entrada não, major. Só a saída.” Juro que vou dar de cara com o próprio Geraldo Pereira abraçado à seu desafeto Madame Satã quando um sensato Nico me chama à real, lembrando que nosso amigo Fausto deve estar careca de esperar no Nova Capela.

O cardápio informa, abaixo do nome: “casa tradicional onde se toma o bom chop e incomparáveis vinhos”. O Capela existe desde 1903. O Nova do nome deve-se a mudança do estabelecimento, em 1967, do Largo da Lapa para a rua Mem de Sá, onde funcionava um Banco (o banheiro feminino ocupa o lugar do cofre!). Para um bar/restaurante encravado em pleno bas fond da Lapa, o Nova Capela até que apresenta uma atmosfera tranqüila. No salão refrigerado reina a mistura de estilos, classes sociais e faixas etárias. O prato que faz a fama da casa é o cabrito assado com brócolis. Mas optamos por uma farta e correta pescada inteira com batatas cozidas.O chopp, gelado e bem tirado, na caldereta, nos cunduz à mais genuína conversa fiada até alta madrugada.

Vou pagar a conta no caixa e, na parede, ao lado de um São Jorge, vejo o retrato de uma linda mulata com faixa de miss. Pergunto ao Ramon, dono do estabelecimento, quem é a beldade. Com os olhos marejados, o galego conta que trata-se de Esmeralda, a madrinha do Capela. “Quase que acaba com a minha vida, essa cachorra”, diz o cara. Chama dois garçons como testemunhas e continua: “Foi a rainha da Lapa nos anos sessenta e setenta. Dava pra mim e pra esses dois malandros aí. Viviamos todos felizes”. Olho incrédulo para os dois garçons que confirmam a história balançando positiva e respeitosamente as cabeças. “Até que, há uns cinco anos, apareceu por aqui um tal conde suéco, milionário, e levou nossa Esmeralda, que nunca mais voltou.” E aí, com voz embargada, arremata : “Mas nós ainda a amamos e, eu sei, um dia ela volta”.

Ébrio de chopp e extasiado com a história de amor do Ramon, deixo a Lapa com um samba de Noel tocando no coco:

Foi num cabaré da Lapa que eu conheci você. Fumando cigarro, entornando champanhe no seu soireé. Dançamos um samba, trocamos um tango por uma por uma palestra …

O Aposento da Cuíca

Quem esperava por essa? Ninguém!

Na tv, o bem-falante e simpático repórter, aquele das boas e más notícias, o mesmo que mediou o último debate dos presidenciáveis; ele dava ao país uma das mais chocantes notícias que se pode ouvir.

Eu, particularmente, tive o maior susto do mundo. Pulei do sofá e, aos gritos, alarmei pra todos de casa: – acabaram com a CUÍCA, acabaram com a CUÍCA. – Gritei bem alto pra todos ouvirem. Foi aquele corre-corre pra frente da tv.

– Mas quem diabo é essa tal de CUÍCA, será que é uma delinqüente? Indagaram-me. – Fiquei sem ação: estático, inerte e boquiaberto. – Não, isso não é possível! Maldita notícia. – Eles não podem aposentar a cuíca, assim, tão cedo. Ela é uma coisinha sem defeito, nova, bonitinha; nasceu outro dia. Por essa eu não esperava. Fizeram injustiça com uma indefesa. Eles têm que aposentar os velhos, os cansados. Saí falando com as paredes.

– Por favor, deixem a CUÍCA em paz. Resmunguei com raiva, socando nas paredes e concluí, – sacanagem!

Abri bem os meus ouvidos, para não ter dúvida daquela triste notícia.

– Vocês ouviram, vocês ouviram? Alguém vai ter que pagar por isso, – falei indignado, rangendo os dentes. Tenho certeza que depois de ouvirem do simpático repórter o indispensável “boa noite”, nenhum brasileiro vai ter sono. Com uma notícia dessa, ninguém dorme. – Finalizei desligando o aparelho.

– Ah! Pobre e indefesa CUÍCA. Porque fizeram isso contigo? Logo você que é tão alegre e faz todo mundo feliz. Não acredito que vá sentir-se bem como aposentada. Não posso imaginá-la de chuteira pendurada. Chega de injustiça, chega.

Como é que ela vai se sustentar? Como, como? Eles ficam dizendo que o INSS está na pendura. – Será que ela tem pecúlio? Aposentado aqui, vive na fome dois, fome um e até mesmo na fome zero. Isso é coisa nostra, fome em escala.

Morro de pena da CUÍCA .

Nem Aí

No fundo ele sabia que um dia isso aconteceria, ele seria mais um. Outro ser humano acometido pela doença mais prejudicial à evolução da humanidade: a indiferença. Fiel militante de um partido de esquerda, já tinha enfrentando a dura realidade da desigualdade social e a não menos dura repressão das cacetadas da polícia durante as muitas manifestações por justiça de que tinha participado. Agora, nem ele sabia porque, nada mais importava. Os sintomas se manifestaram, pela primeira vez, numa entrevista à tv, durante uma passeata. Enquanto os mais exaltados seguravam faixas e gritavam palavras de ordem, ele se limitava a seguir a marcha, resignadamente. Era uma vítima fácil para a repórter iniciante.

– O que o senhor está achando dessa passeata? – perguntou a animada jornalista.

– É, está indo – respondeu cabisbaixo.

– O que efetivamente vocês pretendem com isso? – tentou provocar.

– Olha, moça, tem uma faixa lá na frente com todas as reivindicações escritas bonitinho, é só filmar lá. – Sua voz saía com dificuldade, arrancada das profundezas do peito.

Inconformada, a jornalista tentou argumentar.

– Mas o senhor não é o João da Silva, o líder desse movimento?

– Eu mesmo, minha filha. – suspirou.

– Então, não tem a nada a dizer?

– Já disse, filma lá na frente. – E apontou com visível esforço.

– Mas o senhor não quer expor a sua opinião? O que o senhor acha da reforma agrária, por exemplo? – a moça pensou que ele não poderia se calar diante de um tema tão pulsante.

– É boa para uns e ruim para outros.

– Sim, continue.

– Já terminei, só acho isso.

– Mas o senhor não pode achar só isso. A situação do Brasil não o incomoda?

– Foi tempo – limitou-se a dizer.

– E os sem-teto? E a impunidade? E a pena de morte?

– Olha, me desculpe. Quer saber o que eu acho mesmo?

– Claro! Fale!

– Acho que não é da minha conta.

A repórter revirava os olhos de raiva, possuída pela indignação.

– Como não é da sua conta? O senhor sempre lutou pelos menos favorecidos, sempre se opôs à minoria que impõe regras!

– Isso é a senhora que está dizendo.

Pega de surpresa, a moça tratou de desfazer o mal-entendido.

– Não me comprometa. Eu não tenho nada a ver com isso.

– Muito menos eu.

– Mas o senhor é o líder.

– Me escolheram, fazer o quê?

– Não pode ser.

– Tanto pode como foi. Imagine a senhora, ou a senhorita, se essa multidão toda aí, nervosos do jeito que estão, cismassem que a líder era a senhorita. Ia encarar, ia?

– Eu? Bom, eu? Comigo isso não ia acontecer nunca, eles nem me conhecem.

– E a mim? Conhecem? Eu mesmo não sei quem eu sou. Não sei o que faço aqui. A senhorita, pelo menos, vive aparecendo na TV.

– Mas isso não tem nada a ver. Eu nunca defendi nada, nunca me posicionei politicamente, não tem porque agora eu virar líder.

– Pois eu acho ideal, tudo tem sua primeira vez. – dizendo isso, passou- lhe a faixa de comandante do movimento.

Foi um ato tão repentino que ela não teve como reagir. Estava abobalhada.

– O senhor não pode fazer isso, e a sua reputação? – disse, observando como a faixa lhe caía.

– Eu não sou ninguém, minha filha, a senhorita é que devia se preocupar com a sua reputação, agora a senhorita é quem manda.

– Mas e o senhor? O que senhor acha que vai acontecer com essa gente toda?

– Sei lá.

– E a pobreza?

– Tanto faz.

– E a desigualdade?

– Por mim.

– E a luta das classes.

– ….

Dizendo isso, ou melhor, não dizendo, João da Silva dormiu. Ali mesmo, de pé. Diante das câmeras, da repórter, de tudo. Tentaram lhe sacudir, mas não houve quem conseguisse acordar. Seu cansaço era enorme. Durante anos tinha sido o João da Silva. Agora era sua vez de ser João Ninguém.

Longe nos seus sonhos, ainda ouvia um zum zum zum perturbador: a repórter tentando dar explicações a uma multidão de revoltados.

– Mas eu não sou quem vocês estão pensando!