Arquivo de agosto, 2004

Lobato

Lobato era apaixonado. Na sua vida só havia espaço para o futebol. Desde pequeno, Lobato colecionava figurinhas
das copas, trocava as repetidas e fazia mil rolos só não jogava bafo – medo de perder o Josimar. Nunca mais se falou no Josimar, o foguete da ala direita da seleção! Pena.

Lobato já nem sabia o que era almoço em família. Domingo era dia de estádio e ponto final. Já estava nisso
há uns três anos. Adorava a catarse das arquibancadas, até mesmo das cativas; era diferente mas ainda assim,
era futebol.
Sabia tudo do esporte bretão, os jogadores, seleções, Lobato era do tipo que sabia a escalação do time tricolor campeão em 90, o placar e os artilheiros. Mas o que ele mais gostava era de sentar ali, de frente pro campo, e reclamar. Já não podia mais, reclamar da vida, então, o fazia com os jogadores. Xingava. Ah que momento bom! Esperava todos se aquietarem e levantava bradando palavrões dos mais variados para o pobre do Alex – Alex é o ala esquerdo do time do coração do Lobato e só tinha chutado a bola para a lateral, enfim. Ali, no meio de todos, Lobato se sentia vivo! Mesmo assim, Lobato estava só, sempre fora só. Nunca tivera paciência ou qualquer apego a nenhuma mulher. Era homem de uma só paixão.

Ah, doces ventos sopram na direção daqueles que pensam que sabem de tudo!
Lobato conheceu Marina. Encantadora, e pelo adjetivo já se sabia o que causaria em sua vida! Doce, educada, sabia sorrir de um jeito que sempre te pega desprevenido e aí você sorri de volta esperando que ela se jogue em seus braços. Melhor de tudo. Horário do cafézinho (meio da tarde) Lobato encontra Marina na cozinha do escritório às gargalhadas com o Pereira comentando o jogo do Domingo. Quanta exuberância! Lobato conseguia ver cada lance que Marina narrava.

Numa história louca de um tio bastardo que chegara no meio do 2º tempo, Marina parou. Olhou para Lobato esperando alguma reação ou interrupção, ou até uma bronca – e que a mandasse voltar a trabalhar – mas Lobato sorriu.
Estava estaziado, o máximo que ele conseguiu foi pedir para ela passar o açúcar! Com um sorriso mágico, Marina estendeu a mão e passou o adoçante. Ele nem percebeu. Ela, também não.

Os dois sempre se encontravam às 16h na cozinha, toda segunda, para falar sobre a paixão. E de tanto conversarem, decidiram que a amizade já era suficiente para irem ao jogo juntos. Um desafio – Marina adorava futebol, mas nunca tinha ido ao estádio assistir uma partida!

À primeira vista, tudo certo. Multidão, ok; flanelinhas, ok; barraquinhas vendendo “XPernil”. . . . . ok; aí veio aquela vontade de ir ao banheiro. Aquí teríamos um capítulo à parte mas não convém detalhar, agora, esta aventura.
De volta ao estádio, já em suas cadeiras, os dois passam desapercebidos do tempo, que é curto, e o jogo se inicia.
Lobato reinvindicava mais garra ao time, esperneando e maldizendo tudo quanto era nome. Foi quando ele lembrou que estava com a Marina. Olhou para o lado, bem de soslaio e percebeu que ela parecia mais aflita que ele.
Toca a bola seu, seu, seu . . . . besta! Ela nem conseguia gritar só falava alto na direção do campo.

Falta na cabeça da área. Do outro lado da encantadora companhia, levantou um moleque de uns 14 anos e gritou:
“Dá amarelo pra ele! Juiz filho da p… e os xingamentos não pararam por aí. O mais impressionante em um estádio de futebol é a igualdade que ele proporciona. Não tem rico, pobre, preto, branco, o sujeito sentou no estádio, começa a xingar; e são os mais diversos palavrões endereçados aos jogadores ou suas respectivas mães. Os juízes.
Ah, os juízes! São os maiores prejudicados nessa história. Porque? Porque nenhum dos dois times vai sair elogiando
o árbitro. Esse é um coitado, pensava Marina. Ela se sentia oprimida pela quantidade de palavrões e insultos.
Todo mundo xingando, do menor ao maior, da criança com o pai ao aposentado que entra sem pagar. Nunca tinha ouvido tantos!
Foi, então, que Marina surtou, levantou e gritou algo bastante rude em relação à mãe do juiz.
Um palavrão. É, acho que foi um palavrão. Lobato ficou estático. Seu rosto empalideceu. Teve uma síncope.
Ela era perfeita!

Um Conto Educacional

Tudo começou com uma simples manchete “Culinária ajuda a desenvolver a criatividade”. Augusto César dos Montes Gusmão, Professor Doutor em pedagogia, versado em 5 línguas (sendo 1 delas já morta), consultor sênior da Revista “La pédagogie du monde”, membro vitalício do conselho de um dos maiores e mais conceituados vestibulares do país, e um gourmet de mão cheia, teve uma brilhante idéia ao ler essa inofensiva matéria no jornal dominical. “Culinária! Culinária!” Esbravejava em plenos pulmões o Professor Doutor, versado em 5 línguas, consultor sênior, membro vitalício do conselho e gourmet, pelos corredores ao chegar na Universidade. A idéia era simples, nem precisava ser um Professor Doutor, versado em 5 línguas, consultor sênior, para concebê-la. Mas precisava sim ser um membro vitalício do conselho de um dos maiores e mais conceituados vestibulares do país para aplicá-la.

Enviou uma carta de 25 páginas a todo Conselho de Professores Doutores:

“…com o escopo de açular tão dileto predicado como o engenho de nossos juvenis infantes, eu, Augusto César dos Montes Gusmão, Professor Doutor, versado em … venho a alvitrar uma interrogação de suma … por que não entranhar uma questão de culinária no preeminente exame dito vestibular? Sacou a parada?”

Apesar de não ser entendida em sua totalidade (tiveram dificuldades de decifrar como sacar uma parada), tal sugestão não teve dificuldades de ser aceita pelos membros do conselho, todos Professores Doutores e glutões de primeira.

Aprovado prontamente pelo MEC, tal questão foi preparada e anunciada, mas não sem polêmica. “Como meu filho passará no vestibular se ele não tem base culinária nenhuma”, “o governo não possui um sistema educacional que prepare o aluno para tais questões”, eram ouvidos pelos 4 cantos.

Era uma equação simples. Sem culinária, não passará no vestibular. Se não passar no vestibular, não terá diploma superior. Sem diploma superior não conseguirá um bom emprego. Sem um bom emprego, não terá futuro. Sem futuro, não será ninguém! Os atentos a novos nichos de mercado, abriram os primeiros cursinhos culinários. Eram vendidos livros de receitas junto com apostilas de concursos públicos.

Seguindo a tendência, todas as outras universidades e faculdades também apresentaram questões de cunho culinário em seu processo seletivo. Afinal eram questões mais fáceis que física ou química, e assim democratizava o ensino. Assim a cozinha foi dominando os espaços antes ocupados por redação, matemática ou outras bobagens do gênero.

O ensino secundário começou a se adaptar às mudanças. As classes não mais eram divididas em Humanas, Biológicas e Exatas, e sim em Doces, Salgados, Assados e Cozidos. Aboliram a Educação Física e a Educação Artística, já que não caíam no vestibular. As outras matérias foram perdendo relevância. Quem precisa escrever corretamente se é um cozinheiro de primeira?

O ensino primário passou a desenvolver a habilidade de descascar batatas ou separar o feijão. Uma base sólida é essencial para as crianças se prepararem para entrar em um bom colégio secundário culinário.

Claro que essa mudança estrutural no ensino não transformou a população em cozinheiros de primeira. A maioria esquecia de tudo assim que entrava em alguma faculdade de quinta. Muitos outros pegavam raiva e ficavam eternamente traumatizados por não saberem nem fritar um ovo com gema mole. Davam graças à Deus que na faculdade não precisavam mais cozinhar, afinal agora as aulas eram “voltadas para o mercado”.

Augusto César dos Montes Gusmão Neto, puxou a inteligência de seu avô. Pena que o talento culinário deva ser algum gene recessivo. Lia muito desde pequeno, aprendeu com seu avô 5 línguas (sendo uma delas morta), discursava sobre política e filosofia, mas não sabia cozinhar. Nunca conseguiu entrar em um bom curso superior. Nunca conseguiu um bom emprego. Nunca teve futuro. Nunca foi ninguém. Não como seu avô. Esse sim era um gourmet e cozinheiro de mão cheia.

Convicto

Intenso. Até a última gota. Nem 8, nem 80. 800. Incansável, inatingível, inconsequente. Amado, admirado, elogiado e copiado. Odiado, criticado, escrachado e citado.

Está de passagem pela vida mas veio pra ficar na lembrança de cada um que cruze seu caminho. Seja o garotinho no elevador, a prostituta fingida ou o parceiro de noitada.

Sem essa de calma. A hora é agora e o lugar é aqui. Hora de dar o mundo e mostrar os piores defeitos. Sem dó. Sem amanhã. Só hoje. Mas pode repetir amanhã.

Pra que adiar pra vida o que se pode ter em um minuto. Em um minuto se fazem filhos, casas, escola, jantar, decoração, “quem busca você ou eu”, “eu quero” “é melhor assim.”.

Te gosto, te adoro, te amo. Tudo misturado, cada um há seu tempo no mesmo minuto. Case comigo e me dê um tempo. Agora.

Triste comendo sucrilhos, Puto saboreando a feijoada e feliz cortando a pizza.

Dê sua mão. Não pergunte por que. Não importa. Apenas dê. O arrependimento não existe quando se faz. O universo conspirou por isso.

Não existe erro. Saiba o que quer. Se acha que é não é. Saiba.

Vai ser ruim. Não vai tocar. Vai dar errado. Vai doer. Vai errar. E daí.

Se está bom , ruim, duvidoso, dificil, insuportável, maravilhoso quer dizer que se está ótimo. Na hora que só estiver bom você morreu.

Não. Não é teoria. Nem lição. Muito menos certo. Mas vem de uma convicção. Quantas temos a sorte de ter na vida.

Necrológio

Perdeu-se em ação, dia desses, combatente de patente incerta. Figura bastante sentida, mal notada, deixa ostensiva trajetória e parcas informações. Se dele pouco se soube, menos se disse. Foi arrastado para a luta novo e criado em meio a conflitos. Embora tenaz no cumprimento de sua missão, declarava-se dono de índole pacífica e firmemente contrário à violência. Seu espólio é composto por jogos de conjecturas, coleções de perguntas sem respostas e séries de teorias revolucionárias.

De berço e logradouro irrelevantes, nasceu vazio. Sua enorme voracidade, para muitos a grande força de sua vida, manifestou-se cedo e não demorou a ser notada. Logo eram claras a ânsia com que abraçava o que lhe chegava e o destemor com que se lançava ao que tinha que buscar. Tamanho ímpeto rapidamente despertou a admiração do seu círculo. O fascínio, no entanto, veio acompanhado de hiperbólicas comparações a forças naturais, comparações que, por sua vez, trouxeram receio. A apreensão crescia entre os muitos que temiam ver suas convicções abaladas. O medo foi aplacado somente ao final de seus primeiros anos, quando ele foi tragado para sua primeira grande batalha. Em terreno íntimo, por longo período combateu nas duríssimas trincheiras do auto-conhecimento. Ali, obrigado a se livrar de armadilhas, desvelar subterfúgios, curar-se de emboscadas, se forjou. Ao fim, ao cabo, emergiu dos traiçoeiros anos senhor de si.

A juventude foi marcada pela busca da temperança. Vitorioso no ato inaugural, julgava-se pronto para enfrentar o verdadeiro desafio. Passou a atacar repetida, intensa e ferozmente. Apesar da força empregada, teve retrospecto medíocre. Desta vez não se retirou, mas recuou o suficiente para se preparar melhor e ganhar perspectiva. Então, estudou, viu, leu, experimentou, perguntou, errou, insistiu. Um dia, já bem relativizado, percebeu que não carregava mais aquela fúria absoluta. Armado de hipóteses e flexibiliade, às portas da vida adulta, retomou sua cruzada.

Empreendeu várias campanhas nos anos que se seguiram. Em todas, onde fosse, levava os rituais que o mantinham na fronteira das coisas. Fazia vigília para manter espírito e cabeça abertos, ao mesmo tempo que mergulhava com fervor em rotinas de investigação, especulação e enfrentamento. Equilibrava-se aristotelicamente à distância do despotismo idiossincrático e do relativismo paralizante. Nesta fase encontrou simpatizantes para a causa e colecionou seus maiores triunfos. A comprovação empírica de algumas idéias e os pesados danos infligidos à crença de que bom senso e senso comum são mesma coisa datam desse período. Em uma guerra que jamais terminará, teve no avanço conquistado um grande feito.

A diferença de recursos, entretanto, voltou a se impor. As doutrinas adversárias asfixiaram os insurgentes e começaram a reclamar o que haviam cedido. Pouco a pouco, os dois lados retomaram suas posições originais. Guerra tem dessas coisas. Numerosas vitórias se desfazem na esteira de uma derrota menor. Já tinha experimentado o mesmo dissabor incontáveis vezes. Em todas, reorganizou suas forças, aprumou o estandarte e voltou ao combate. Mas não agora. Na última vez em que foi visto, logo após mais um revés, encontrava-se bastante debilitado por dúvidas. Desapareceu refém de suas incertezas.