Arquivo de outubro, 2004

Receita

As três estavam iguaizinhas. Todas em volta da mesa redonda, com o rosto apoiado sobre as mãos trançadas, contra o tampo de fórmica. E todas olhando para o centro a mesa. Ali estava o motivo dos sorrisos e do descarado cheirinho de orgulho na cozinha. Bem naquele ponto, lá no meio, o bolo delas se exibia todo. Era uma beleza: todo branco, com suspiros e morangos alternados ao longo da sua circunferência. Tinha saído perfeito. Certeza. O aroma que se desprendia devagarinho, junto com o calor, não deixava dúvidas. De vez em quando seus olhos escapuliam do bolo e iam atrás uns dos outros. Quando se encontravam, a cumplicidade deixava ainda mais doce o sucesso da aventura.

Elas curtiram o triunfo enquanto a dona da cozinha, a mãe da Laís, deixou. Ao primeiro sinal de inquietação das três, ela invadiu a área para arrumar a bagunça junto com as meninas. Foi logo recolhendo os talheres e distribuindo tarefas menores para cada uma. A Nat, a irmã mais velha da Laís, chegou na hora que elas começavam a desempoleirar das cadeiras. E deu a desculpa que elas queriam para justificar o corpo mole e mantê-las presas à mesa:

– Posso pegar um pedaço?

A resposta, positiva, veio da pia, onde a desordem ia perdendo terreno rapidamente. A Laís, que já não tinha gostado da resposta da mãe, ficou ainda mais contrariada com o protesto das amigas. Parecia que tinha sido combinado. Numa voz só a Lívia e a Aninha avisaram “Esse pedaço é da sua parte, viu, Lá!”. Meio irritada, tratou logo de arrancar a pá da mão da irmã e salvar o que era seu. Bem a tempo, aliás. Dessa vez o perigo tinha passado, mas cedo ou tarde elas teriam que abrir o bolo. E aí, como ficaria? Para evitar brigas, a mãe da Laís sugeriu o lógico: dividir o bolo logo em partes iguais e cada uma faria o que bem entendesse com a sua. Ela mesma cortaria, sob o olhar atento das meninas, assim todo mundo ficaria contente. Mas antes precisava dar uma olhadinha numa outra coisa, um minutinho só. As três concordaram e ficaram na cozinha esperando. Elas e a irmã da Laís. Foi a Nat que disse:

– Sabe, lá na faculdade a gente dividiria o bolo de outro jeito.
– Sério, Nat? – surpreendeu-se a Lívia.
– Por que? Como seria? – emendaram ao mesmo tempo as outras.
– Bom, é que muito mais coisa conta, né? Não é só o trabalho de cada uma. Tem o quanto cada pessoa contribuiu….
– Como assim? – a dúvida era de todas
– Às vezes todos vão lá, arregaçam as mangas… Mas a ajuda de um vale mais que a do outro, entenderam?

As três fizeram que “sim” com a cabeça. A Nat continuou:

– Se vocês quiserem, a gente pode fazer isso com o bolo. O que vocês acham? Seria mais justo, não seria?

As meninas se entreolharam. Ficaram meio assim, em dúvida. Foram para um canto, cochicharam… Realmente, parecia que do jeito da Nat a divisão ia ser mais justa mesmo. Voltaram dispostas a aceitar o método dela, mas não sabiam como fazer. No fim a própria Nat se ofereceu para conduzir o processo. Por um pedacinho do bolo, claro. A gente desconta essa bobagenzinha e divide o resto de acordo com a contribuição de cada uma, certo? Certo! E começaram a listar.

A Lívia tinha levado quase todos os ingredientes: ovos, farinha, a massa, os morangos. Além disso, tinha levado todo o chantilly e a cobertura usada como recheio. Quanto deu? Calma, calma, só vamos saber no final. Passaram para a Aninha. Ela tinha um trunfo e tanto. Era dela a receita. E aí? Ainda tinha a Laís. Ela tinha entrado com a infra. Emprestou a cozinha, os talheres, os eletrodomésticos e a mãe, que afinal tinha limpado quase toda a cozinha. Só faltava mesmo guardar a louça do escorredor. A Lá é a que entrou mais pesado, concluiu a Nat. As meninas discutiram um pouco, mas acabaram concordando que a cozinha e serviços embutidos valiam por metade da empreitada. E a receita, quanto vale? Bom, sem receita, nada de bolo. Mas a Lívia resmungou que sem farinha também não ia ter bolo. Só que a receita traz as quantidades certas, rebateu a Aninha. A Nat acabou ponderando que a receita e os insumos no fundo tinham o mesmo valor, já que um sem o outro no mesmo nível ia prejudicar o resultado final. Assim, cada uma somou um quarto ao bolo. Tudo certo, portanto. A Nat já se preparava para cortar o bolo, com seu pedaço devidamente deduzido, quando reparou que estava faltando um item na conta. Parou, percorreu as anotações e por fim perguntou do suspiro, quem havia levado o suspiro. A Laís respondeu que o suspiro elas tinham pego da despensa, por que? Então peraí, isso muda as coisas. Com cinquenta por cento mais um, é a Laís que decide como dividir o bolo.

Guarda-chuva

Amigas e amigos da classe de 1997… usem guarda-chuva.

Se eu pudesse dar a vocês uma única dica para o futuro, diria: “usem guarda-chuva”. Os benefícios do uso do guarda-chuva foram cientificamente provados.

Contudo, os outros conselhos que dou são baseados na minha própria experiência. Eis aqui um conselho:

Esqueça do poder e da beleza da sua juventude porque você nunca vai compreender o poder delas. Não se pode compreender o que não se conhece.

Mas acredite em mim: dentro de vinte anos, você olhará suas fotos e entenderá, de um jeito que não pode entender agora, como você era feio e como você está velho.

Você é gordo e daí?

Pense no futuro; pois provavelmente vai ser a única coisa útil que você fará em toda a sua vida. Se precisar, mastigue um chiclete (dizem que é ótimo pra ativar a circulação no cérebro).

Os problemas que realmente têm importância em sua vida são aqueles que estão te importunando dia e noite sem deixar você dormir sossegado. Todos os dias, faça alguma coisa estúpida, inesperada ou então fique à toa.

Se não souber cantar, fique quieto.

Não atormente.

Não dê tanta importância para os sentimentos alheios pois o tempo apaga tudo e se disserem o contrário é porque são rancorosos. Não conviva com os rancorosos.

Tome prozac.

Sinta inveja, porque sem ela você não vai melhorar; e se não melhorar não vai ganhar. Porque às vezes você até ganha, mas quase sempre perde. A corrida é longa e talvez você nem veja o final.

Lembre-se dos insultos que recebe, esqueça elogios. (Insultos são sempre verdadeiros).

Guarde seus extratos bancários, a Receita Federal está ampliando a “malha fina”.

Jogue fora suas cartas de amor. Principalmente se for de outra mulher que não a sua esposa.

Coma bastante.

Pense muito no que fazer da vida. A pior coisa da vida é você ter 22 anos e ainda achar que vai ser astronauta ou escritor.

Beba cerveja. Use seu fígado ao máximo, afinal é o único órgão do seu corpo que se regenera.

Talvez você continue solteiro, talvez não.

Talvez tenha uma ferrari, talvez não.

Talvez viaje o mundo, talvez dê uma festa com mulheres lindas e muita bebida se ainda for solteiro e tiver uma ferrari.

O que quer que faça seja rigoroso e crítico. Todas as suas escolhas tem 50% de chance de dar errado . . . . . . . . . . . . . e você sabe que vão dar errado. Curta seu corpo e use-o bem, pois dentro dele cabe muito mais comida do que você imagina.

Não tenha medo, e ele nunca se voltará contra você. Bem treinado, ele é um ótimo suporte pra sua cabeça.

Não seja ridículo. Não dance. Você não sabe. Mesmo que o único lugar que você tenha para dançar seja um lugar escuro e sem janelas. Alguém vai ficar sabendo.

Instruções são um pé no saco, se você instalou uma vez, pode instalar a segunda.

Leia revistas de beleza. Você é feio e isso não vai mudar, deleite-se com a beleza alheia.

Seus pais sempre vão te entender, eles já fizeram as mesmas cagadas que você. Muitas vezes.

Mantenha o elo com seus irmãos mais velhos, pois provavelmente, no futuro, você vai precisar de um empréstimo e eles serão os únicos que não exigirão fiador.

Entenda que todo amigo é fruto de uma segunda intenção e que com o tempo ele se acostuma com a sua pessoa a ponto de nem lembrar por que são amigos.

Esqueça os paradigmas de distância e estilo de vida, pois à medida que você envelhece, a tecnologia avança e tudo fica mais fácil.

More um tempo em Montreal, mas mude-se antes que o tédio te leve ao suicídio;

More um tempo no Morro do Alemão, mas mude-se antes que “suicidem” você.

Não perca tempo viajando. Ligue a Tv e pronto.

Aceite certas verdades eternas: dinheiro nunca é o suficiente, felicidade não existe, e as mulheres nunca estão satisfeitas. E quando você tiver uma mulher, você vai fantasiar que não é pelo dinheiro, que você finalmente está feliz e que finalmente conhece uma mulher satisfeita.

Não seja um velho tarado, dê-se ao respeito.

Não espere apoio de ninguém, jogue na megasenna. Tente um investimento, talvez uma esposa rica; mas jogue na megasenna sozinho.

Mude sempre o seu cabelo, porque quando você tiver 40 anos niguém mais vai reparar se ele está branco ou não. Preste atenção nas pessoas que te dão conselhos e veja como é fácil. Um conselho é uma forma de dizer: “eu não faria mas espero que você faça”. Lembre-se também que o ditado, “se conselho fosse bom a gente não dava, vendia”, não foi criado à toa. Mas acredite em mim quando me refiro ao guarda-chuva.

Só um bombom…

– Aquele desgraçado só pode estar querendo me deixar louca.

– Calma Rita. Não vai ficar assim por causa daquele babaca.

– Ah Nanda não é possível. Ele só pode estar brincando com a minha cara.

– Não é pra falar que eu te avisei mas eu avisei.

– Mas com ele era tão diferente. Ai como eu sou uma idiota mesmo. Em pensar que acreditei que pudesse até dar casamento.

– Ai amiga eu queria tanto que você estivesse certa. Mas eles sempre fazem esse tipo de coisa. Você lembra do meu caso com o Pedrinho né.

– Lembro!

– E com o João Carlos.

– Sim, sim.

– E com o Paulinho, o Adalberto e com aquele cara que transava com um pé de meia social.

– Tá, tá, tá. Não precisa me relembrar todas suas aventuras sexuais.

– Desculpa. É que eu não me controlo.

– Sabe Nanda, com ele tudo foi melhor. Tudo certo. Não foi a toa que eu falei pela primeira vez “Eu te amo”.

– Primeira vez? Jura?

– Sim.

– Mas e todas aquelas vezes com o “Rocko”.

– Com o “Rocko” não conta. Eu só falava por que ele sempre me dava orgasmos multiplos.

– Ah bom.

– Mas dessa vez não. Falei mesmo ele não sendo tão bom de cama assim. Mesmo tendo aquela mania de estalar os dedos dos pés e mesmo não sendo nem de perto tão gostoso quanto o “Rocko”.

– Ai o “Rocko”. Por que você terminou com ele mesmo?

– Ele nunca aprendeu meu nome Nanda.

– Mas não dava pra dar um pouco mais de tempo pra ele.

– Eu tentei por seis meses. O que mais você queria???

– É você tá certa. Mas é que ele era tão…tão…

– Nãn. Chega. Só me faltava essa agora. Eu com um problemão e vc falando do “Rocko”

– Você tá certa. Desculpa amiga.

– Mas então. A noite foi ótima. Ele estava lindo, o cabelo todo pra trás, cavanhaque desenhadinho e aquela camisa de cetim que dei pra ele. Cavalheiro, abriu a porta do carro, me serviu vinho e me deu o lado de dentro da calçada para eu andar. Especialmente romântico. Até a Lua que estava cheia parecia ter sido encomendada por ele pra deixar a noite mais mágica.

– Mas o que deu errado?

– Bem. É melhor perguntar o que deu certo. Depois da sobremesa ele já tomando o café dele como usual, segurou minha mão e ficou olhando fundo nos meus olhos. Me disse como eu estava linda, e como nunca tinha admirado tanto uma mulher.

– Ok. Mas até aí estava tudo perfeito.

– Sim. Mas eu envolvida por tudo isso não me aguentei a acabei falando as famosas três palavras.

– Vamos dar uma?

– Não sua besta. Eu te amo.

– Eu também te amo Ritinha. Mas o que você falou pra ele?

– Não você Nãn. Falei que eu amava ele.

– Você não me ama. E eu pensando que éramos melhores amigas! Depois de anos de amizade…

– PÁRA! PÁRA! PÁRA! Nãn. Eu te amo também. È que estou falando de outra coisa. Afinal dá pra ter um pouco mais de foco em mim por favor.

– Tá bom, tá bom. Desculpa.

– Voltando ao meu problema. Depois de ter falado que o amava você sabe o que ele me falou?

– O que?

– Obrigado.

– De nada. Mas o que ele falou?

– ELE DISSE OBRIGADO. Nãn, presta atenção. Eu disse “eu te amo” e ao invés de ele falar “eu também” ele me agradeceu.

– Noooooossa. Que cafajeste. Como é canalha. E o que você fez?

– O que eu fiz? O que eu podia. Meu reflexo foi sair de lá na hora. Mas o restaurante era longe da minha casa e eu tava com aquela minha sandália preta com strass na tira sabe?

– Sei. Nem moooorta você chegava em casa com aquela sandália. Aliás você pode me emprestar, vou numa festa sábado e combina tanto com aquele meu vestidinho preto sabe.

– Sei sim. Vai ficar linda.

– Então. Dai você fez o que?

– Bem. O que pude. Esperei ele pagar a conta e pedi pra me levar pra casa.

– E depois disso? Vocês se falaram?

– Ele me ligou no telefone mas não atendi. Daí hoje ele me deixou um presente na portaria. Um bombom. Você vê que cara de pau. Além de tudo ainda é mesquinho. Não me trouxe nem uma caixa.

– É amiga. Não tem jeito. Parece que não é dessa vez . Bem, agora tenho que ir. Vou almoçar com um cara que conheci no ponto de ônibus hoje, uma gracinha. Mas não fica assim. Ele vai pagar por isso. Vou falar com aquela minha prima do terreiro e teremos sua vingança.

– Ai brigado amiga.

– Beijinho linda. Força. Posso levar o bombom?

– Não força né Nãn.

– Não custa tentar né….vai saber, você tá com raiva dele…

– Tchau nandinha.

Doze dias depois Rita não aguentando mais de chorar e xingar seu ex-amado teve que apelar ao bombom. Nada melhor que chocolate para curar dor de amor. Ao abrir a embalagem se surpreendeu encontrou uma aliança seguida da seguinte mensagem:

Rita, me desculpe por ser ruim com as palavras. Essa foi a maneira de te dizer que te amo. Case comigo.

Apenas Uma Suposição

-Filho, o que você está fazendo?

-Desculpa, pai … eu posso explicar …

-Espero que sim …

-Esse poster do Bro’z, não está colado no espelho do banheiro a toa …

-Sim…

-E eu não estou fazendo isso no meu cabel…

-Que  cabelo?

-Poxa, pai … Não fala assim. Tem pouco em cima, mas ainda tem cabelo! Tá ficando parecido com o cara do pôster, olha lá! “Pans”! Tudo despenteado.

-Certo … E esse monte de creme, esses brincos em cima da pia …

-É piercing, pai. Não é brinco.

-Hmm. E desde quando você começou a gostar dessas coisas ?

-Não gosto …

-Pois é … acho que você fez a barba umas 4 vezes nesse milênio.

-É … mas tenho que mudar … Só assim vou me dar bem nessa área.

-Como assim ?

-É pai … Não tá vendo que desde que eu comecei a trampar com cinema eu só me ferrei.

-É … mais ou menos … você tava bem naquela produtora, não?

-Tava, tava sim! Mas pra fazer aquilo que eu fazia.

-Então …

-É … mas pra ser levado a sério de verdade, eu tenho que parecer um Bro’z!

-E aquela história toda de estudar … De que gente que se preocupa muito com aparência não tem conteúdo … De fazer teus curtas, ter respeito com a equipe e tal …

-Então pai … se eu assumir minha heterosexualidade, vou ter que virar um Bro’z!

-Como assim “se eu assumir”?!

-É pai! Pensa bem! Não é fácil assumir isso, hoje em dia. Hétero que não é quem nem o Bro’z, então … Putz! Não passa de assistente pro resto da vida!

-E os curtas? Você dizia que os curtas poderiam fazer as pessoas te enxerg…

-Pai! Como eu vou fazer um curta? É muito caro! O único jeito pra isso é ganhar os editais do governo. Fora isso, esquece. É uma , duas chances por ano, contra milhares de pessoas na mesma situação. Melhor virar um Bro’z.

-Mas filho … Não entendo como esse penteado, brinco, quer dizer, piercing, que mais …

-Depilação definitiva do peito, pernas e axila, olha só que lisinho! Passa mão!

-Heim!? Depilação definitiva?!

-É pai! Profissional! Isso representa praticamente um MBA para as pessoas que trabalham comigo!

-Mas …

-É assim: quem nem os Bro’z, eu vou virar “Hype”. Quando você é “Hype”, você é legal. Aí você vai nas baladas da moda, faz social. Bebe muito. Fuma uns cigarros esquisitos, toma umas pilulas sem estar doente … Batata! Daqui a pouco tou dirigindo filme!

-Peraí!

-É ! Verdade!

-Não, não. E os caras que você admirava do mercado. Como é que chamava aquele diretor?

-Então … tem gente boa mesmo, pai. Tem gente boa que até parece um Bro’z.

-Então!

-Mas são outros tempos, pai!  Pensa bem! Com os departamentos de RH e métodos de seleção que existem hoje em dia, um Silvio Santos, um Samuel Klein teriam chances de ser contratados numa grande empresa?

-Nem pensar!

-Então! No meu ramo, se eu não parecer um Bro’z, não vou poder mostrar o que sei. Na época dos caras bons de hoje em dia, devia dar pra trabalhar e crescer sem precisar parecer um Menudo.

-Sei …

-Vou ter que ser arrogante também … Meio metido, sem comprimentar ninguém que interesse, sabe?

-Não!

-É … pai! “Fala sééério” (agora tenho que usar expressões da moda, também), você já viu gente legal e educada se dar bem.

-Claro!

-Mas não era “artista”. Nesse meio, o pessoal é “artista”. Não tem “artista” normal, que nem gente comum. Tem que ser “diferente”. Não tem nada a ver com competência e profissionalismo.Tem que “chocar”!

-Vira galinha, então!

-Pai! “Você não tá entendendo”! Gente profissional e séria serve pra fazer o trabalho pesado.

-Olha, filho! Você já é bem grande, e sabe muito bem o que é bom pra você. Só não esquece do que te ensinamos aqui em casa.

-Não, pai ! Fica tranqullo! Eu vou continuar a ser normal quando não estiver trabalhando. Isso vai ser só no trampo.

-Sei não.

-É sim, e além disso (interrompendo a frase) “Pega meu esmalte em cima da minha escrivaninha” (voltando ao raciocínio), além disso …

-Esmalte?!

-É pai !

-A filho! Pelo amor de Deus!

-Que foi, gato!

-Gato!?

-Xi … o Velho surtou! Abalei!

-Ah, moleque, vem aqui que eu vou te mostrar quem vai ficar abalado!

Contra

Um dia acordou e percebeu que estava no meio da calçada. Em pé, com sapatos polidos, terno combinando com gravata, uma pasta de couro, cabelo penteado e barba bem-feita. Como ele foi parar lá? Por quanto tempo esteve dormindo? Por que não teve nenhum sonho? De quem são essas roupas? Olhou em sua volta, estava em um grande centro movimentado. Carros passando, painéis eletrônicos, prédios enormes e pessoas, muitas pessoas, uma multidão. Todos em movimentos, correndo para todos os lados, olhando seus relógios com pressa. Desordenadamente. Caos.

Sua gravata começou a sufocar, o sapato apertar e só queria voltar para casa. Largou a pasta e saiu correndo em direção a rua. Estranhamente no seu primeiro passo, toda a multidão inicia um movimento ordenado e único contra ele. Quanto mais tentava avançar, mais a multidão o empurrava na direção contrária. Trombada após trombada, desiste de lutar contra a multidão. Resolve seguir então para onde todos se direcionam. Em seu primeiro passo, a multidão se volta novamente contra. Pára. Todos voltam a andar como antes. Mas um passo a esquerda e todos para a direita. Passo para frente, todos para trás.

Olha para os lados. Assovia uma canção de algum filme. Põe as mãos nos bolsos. Simula algum desinteresse e repentinamente se atira em direção a rua novamente. A multidão reage instantaneamente contra. Pisões de pé, ombradas, cutucões, esbarrões e pouco a pouco vai progredindo até chegar na rua. Ali se deparar com um caos maior.

Todos os carros estavam amontoados em sua direção. Aparentemente todos os motoristas resolveram virar ao mesmo tempo. Ele tinha causado isso? Deu mais um passo e ouviu mais batidas. Um passo para trás, outras batidas. Para que os feridos pudessem ser socorridos e o trânsito continuasse a fluir, resolveu não se mover. Não podia arriscar causar mais acidentes. Esperaria até que as ruas estivessem vazias.

Madrugada. Ninguém mais nas ruas. Pôs a correr desesperadamente. E começou a ouvir à sua volta algumas batidas, olhou para os prédios e percebeu que as pessoas caíam de suas janelas de pijama, como lemingues. Os que sobreviviam, mesmo mancando, continuavam correndo em sua direção contrária. Parou. Não queria ser responsável por tamanho caos. Nem um passo a mais.

Passaram horas, dias, meses, anos. Ninguém parecia se importar com aquele mendigo imóvel. Nem sequer direcionavam o olhar, e quando o faziam, era com uma expressão de desprezo. Morreu na rua. Sem nome. Sem nada. Ingratos. Queria se importar menos. Queria nunca ter acordado. Queria ter sonhado mais.