Arquivo de novembro, 2004

Da série “Chochinho Mas Sincero” – Última página

Como quase toda criança que aprende a ler pelos métodos convencionais do ensino brasileiro, meu primeiro contato com livros sem figuras (e totalmente fora do meu universo de interesse ) não foi dos mais amistosos. Bem ou mal, era mais uma tarefa que eu tinha que fazer fora da sala de aula além das lições de casa. Ou seja, menos tempo pra jogar bola, futebol de botão ou videogame.

De início, portanto, a última página de um livro sempre teve um sabor especial pra mim. Sabor de alívio, sabor de dever cumprido.

Graças ao incentivo dos meus pais, professores, meu interesse por ouvir e contar histórias, e outras influências após o vestibular (um dos maiores desencorajadores da leitura entre os jovens, diga-se de passagem), comecei a ler por interesse próprio. Algo legítimo e não forçado.

Ainda sim, muitas vezes, me vi olhando a numeração da última página para ver o quanto ainda faltava para terminar mais uma tarefa. Mesmo lendo livros ótimos, sentia (e ainda sinto) que preciso acabar com esta tarefa. Poucos são os livros que me fizeram esquecer disso.

No cinema, uma das principais missões de um diretor é fazer o espectador esquecer completamente a realidade e mergulhar totalmente na história, a ponto de não “lembrar” que está numa sala de cinema. Poucas vezes essa missão é cumprida devidamente.

Na literatura, sinto que algo próximo me acontece, mas não por culpa dos escritores. Imagino que seja o método de incentivo à leitura utilizado nas escolas.

Acabei de ler um livro de forma tão intensa e visceral que esqueci completamente em que página estava. Quando percebi que não tinha mais o que ler, me senti praticamente abandonado no meio de um deserto.

Acabar um livro de forma inesperada é uma sensação da qual estou tão desacostumado que, nesses casos, acabo procurando estupidamente algo para continuar a leitura: a contra-capa, as “orelhas” do livro e algumas vezes, aquela última página que traz as informações técnicas spbre a impressão do livro – “esta obra foi impressa em Garamond light, sobre papéis pólen soft, etc, etc, etc”. Ainda sim, passado esse leve “estado de choque” a sensação é ótima. Bem melhor do que o sabor de dever cumprido.

Não sei se posso chegar ao ponto de dizer que todo livro bom, é um livro que me “derruba” deste modo tão contundente ao chegar ao fim. Mas, pelo menos posso garantir que o aprendizado da leitura por prazer, mudou completamente minha relação com a última página.

Uma esquina real

Opa. Tudo bom? Eu só queria um cigarro, tem aí? Tá meio fora de moda mas é o único vício que eu tenho e … vício é vício, não é? Meu nome é Flávio, não que isso vá fazer alguma grande diferença na sua vida, mas eu gosto que as pessoas saibam quem está falando. Sim, elas devem saber o nome do personagem da história: eu. Mas não é porque eu sou um personagem que eu sou de mentira, eu existo, de verdade. Não é porque você está escrevendo, ou lendo que eu posso existir, eu estou aqui, bem aqui, é, aqui mesmo tá vendo? Se bem que se ninguém estivesse escrevendo ou lendo niguém poderia conhecer a minha história não é? Se eu estivesse em uma história, fechada em um livro qualquer, dentro de uma biblioteca de um colégio particular da cidade, eu nunca existiria para estas pessoas, mas ainda assim existiria para mim mesmo. Tá me entendendo?

O caso é que quando vejo esses dias abafados, o sol se pondo atrás dos edifícios doirados, posso dizer doirados? Estava num livro que eu acabei de ler: “cachos doirados de puro mel”! Achei bem bonito. O caso é que nesses dias eu sento aqui e fico olhando as pessoas, é como se eu fosse uma consciência coletiva que vaga por entre a população e pára aqui nessa esquina, bem aqui. Eu ouço tudo o que eles passam, conversando ou sussurrando. Olho pra esses caras aqui da frente, esses … como vou chamar; desempregados, ambulantes, brasileiros, esses caras que ficam aqui nesse farol vendendo balas no pára-brisa dos carros, e fico pensando em como eles não se lembram das cáries. Tenho certeza que as mães deles falavam para não comerem muitos chicletes porque “estragava os dentes”. Agora eles aparecem nos faróis propagando o consumo indiscriminado desses monstrinhos de açúcar sem lembrar do que a pobre mãe um dia ensinou. Preciso de mais um cigarro, não aguento ver essas coisas e ficar transpirando consciência. Tô de saco cheio mesmo. Mas olha só: o cara aqui existe. Como é seu nome? Jonas. Olha só, o Jonas existe de verdade, eu tô vendo ele aqui do meu lado, e ele é o meu personagem, mais um personagem, da história (se é que o que acabei de falar é uma história) que eu contei, falei, resmunguei. Ultimamente eu tenho andado muito resmungão. Resmungar por resmungar, sem razão de ser. Mas é que ninguém acredita que eu existo de verdade. De verdade! Eu falo com as pessoas, nas ruas, e elas dão aquela risada medrosa concordando e querendo correr de mim ao mesmo tempo. Veja se você consegue entender. O Jonas. Ele é um personagem da minha história do farol, sei eu. Ele existe. Existe na história e existe de verdade, pra mim, eu posso ver, tocar – com licença. Se ele me desse uma porrada agora seria bem real, de fato. Agora Eu. Eu existo. Existo porque eu sei que existo, horas. Jonas, chega aqui um pouco. Um soco … dá um soco aí, vai! Ouhphf! Olha só isso foi bem real. Ai, só existindo mesmo pra saber dessas coisas. Eu existo e não preciso de nenhum comentário ou etiqueta dizendo que sou baseado em fatos reais. Porque? Porque eu sou real, droga. Mas ninguém acredita. Droga. Vamos fazer o seguinte, vamos continuar com o raciocínio só que agora invertido. Você por exemplo. Como você sabe que você existe? É … como você tem certeza? Não adianta pedir pra outra pessoa te beliscar ou dar um soco, você não acredita em mim então isso também não vale. Como você sabe que ao escrever ou ler esse texto você também não é um personagem de alguém que escreve ou lê algo tão esquizofrênico quanto esse texto sobre alguém que quer provar que existe além do texto que diz que ele existe, mas ninguém acredita, afinal ele é uma personagem. Como você pode dizer que você existe se os outros não acreditam? E se acreditassem? Você só existiria se os outros acreditassem que você existe? Se houvesse apenas você e mais niguém, então você não existiria?

É nesses dias de mormaço e vento fresco de início de chuva que eu gosto de sentar aqui nessa esquina e acender o meu vício. Só preciso dele e mais niguém.

A Maior Mentira do Mundo

Na infância acredita-se em muitas coisas. No Papai Noel, no coelhinho da Páscoa e na virgindade da Angélica. Eu, além disso, também acreditava na propaganda. Ia até a padaria, comprava um Suflair, colocava em cima da mesinha da sala, e ficava sussurrando “suuuuflaaair” repetidas vezes, mas o chocolate nunca flutuava. Problema de entonação, não tenho dúvidas. A moça da televisão sabia cantar certinho, e funcionava. Entonação.

Essas coisas todas, aprende-se mais tarde, não passam de invenções para convencer as crianças a serem boazinhas o ano inteiro (eu nunca fui, mas a indulgência vinha mesmo assim), ou convencê-las a comprar o produto certo. As mentiras, grandes como elas são, chegam ao ponto de inventar um velho barbudo maníaco por dar presentes, um coelhinho com problemas proctológicos, e o Programa Espacial Brasileiro.

Porém uma certa mentira se mantem geração após geração sem sequer ser notada. Uma mentira grande demais, mesmo para um namorado da Angélica. A verdade é reveladora, leitor. Esta verdade pode ser, inclusive, perigosa. Eu mesmo temo pela minha segurança. Se algo acontecer a mim (um raio, ganhar na loteria, ter um rim falho) podem ter certeza: foi por revelar a verdade. Se você quiser se proteger disso, por favor, não leia. Vá comprar ovos de páscoa, que causam, no máximo, cáries. Melhor uma mentira inofensiva que uma perigosa. Mas a escolha é sua.

Pare agora, ou prepare-se para sofrer as conseqüências.

Pois bem, a escolha foi sua. Lá vai. Você já comeu cereja? Sim, aquelas coisas que vêm sobre os bolos. Cerejas. Crianças adoram cerejas. Elas são doces, vermelhas, e cheias de calda. Todos imaginam que essa calda doce e translúcida seja feita industrialmente, claro. De certa forma, talvez o processo seja parecido com o dos pêssegos em calda. Pêssegos em calda, cerejas de bolo em calda. Certo?

Errado. Essas não são cerejas de verdade. Essas “cerejas” confeitadas são de… bem… er… como dizer? Imagine uma coisa que você não comia, absolutamente, na infância. Na verdade, nenhuma criança come, sábia que é. Descobriu?

Sim, chuchu. Chu-chu. Pegam aquela coisa verde, nojenta e cheia de água para transformar, com glicoses e aromatizantes mil, na sensual cereja. A cerejinha que coroa o sorvete é, na verdade, o chuchuzinho do sorvete. A luta pelas bolinhas vermelhas do bolo é, afinal, uma luta para ver quem come mais chuchu.

Crianças se digladiando nas festas por chuchu. Chuchu! Que louco sádico inventaria tal artimanha? Como puderam nos enganar tanto tempo? É um absurdo! A humanidade está perdida. Como confiar agora nos concursos de misse, no sorteio dos times para a Copa do Mundo, na paz entre os homens?

Mas esperem. Talvez ainda exista alguma esperança. Se der certo, é claro. Tentem comigo. Encha os pulmões e sussurre: Suuuuuuflair…

Aforismos

“Um alfinete sem cabeça sempre será confundido com uma agulha.”

“Maldade de verdade, é dar um chinelo de tiras para quem não tem o artelhão.”

“Se eu soubesse para onde iremos depois dessa vida, talvez não estivesse mais aqui.”

“Um dos melhores modos de se abrir uma lata de refrigerante, é com as próprias mãos. E dedos, claro.”

“Hellmann’s, a verdadeira maionese”

“Se uma árvore cair numa floresta totalmente desocupada pelos humanos, um castor pode ter morrido.”

“Uma mesa com 3 ou mais pés pode ser chamada de “Mesa”. Uma só com 1, não. Duas com três, pode ser. Três com cinco, é óbvio.”

“Um grande sábio chinês disse, um dia, uma coisa em mandarim que eu não entendi. Não falo mandarim”

“Se para limpar a boca usamos o guardanapo, não preciso dizer como deveria se chamar aquela sujeira que fica no canto da boca, quando estamos comendo.”

“É divertido ficar no Y.M.C.A. .”