Arquivo de dezembro, 2004

Saraivada de Lucidez

Os autores são filhos de seu tempo e lugar. Por causa disso, são pais de obras que esmiuçam os ideais, os problemas e as lutas próprias de cada época. Regimes totalitários geram escritores e artistas engajados na denúncia, velada ou não, da censura e da anulação do indivíduo. Já em tempos mais democráticos o homem aparece como seu próprio assunto, e os autores soltam a voz para falar da natureza humana olhando de forma crítica para a sociedade, seus sistemas e valores.

Em seus livros, o Nobel de Literatura de 1998, José Saramago, se mostra um homem de dois tempos. O autor que conhecemos tem cerca de 25 anos. Antes disso, durante décadas, foi jornalista. Embora tenha se aventurado mais cedo em prosa e verso, quase toda sua produção literária é do fim dos anos 70 para cá. Não por acaso, o escritor surgiu após a Revolução de Abril de 1974, que instalou a democracia em Portugal pela primeira vez. Saramago tinha 52 anos. Com uma vida construída sob uma ditadura, mas uma obra erguida em um regime democrático, seu tema principal é uma mistura dessas duas condições.

Ele fala do homem, claro, mas não só. Além de se perguntar “o que faz o homem?”, pergunta “O que o homem faz?”. A primeira questão se preocupa com o que nos move, a segunda olha para onde nos movemos. São questões diferentes, mas insperáveis. Além de se debater contra suas fraquezas, esses homens são obrigados a enfrentar suas próprias criações. Na obra de Saramago o homem luta contra o mundo que ele construiu – para provar que merece um lugar nele. Essa guerra toma o centro do palco mais uma vez em seu novo romance, Ensaio sobre a Lucidez.

Tudo começa quando as urnas da capital de um país hipotético são inundadas de votos brancos. O exercício maciço desse direito faz o que ninguém tinha imaginado possível: coloca o sistema democrático em xeque de forma legítima. O problema todo é que o protesto da população é exatamente isso: um protesto. Ele só diz que o que está aí não serve, mas não propõe nada para ocupar seu lugar – e nem deve. Ciente do significado que o alastramento do “mal branco” pode ter, o Governo – com letra maiúscula mesmo – se mexe para conter a “epidemia”, descobrir os responsáveis pela “conspiração” e devolver a Capital à normalidade democrática. A partir daí Saramago nos abre as portas dos salões oficiais e, dos bastidores, nos mostra com o cinismo e o sarcasmo costumeiros a oposição entre os interesses do Estado e dos cidadãos.

A sucessão dos acontecimentos faz crescer o fosso que separa o homem comum dos cargos ( ou indivíduos funcionais ) e deixa a incompatibilidade entre eles cada vez mais gritante. Quem é cidadão não pode fazer parte do Estado, quem faz parte do Estado não é um cidadão. Usando como desculpa o bem-estar da cidade, as autoridades pressionam a população para chegar ao seu verdaeiro objetivo: escapar de um delicado beco sem-saída institucional. Além das campanas, investigações, coerções e outras tantas ações para restaurar sua legitimidade, o Governo se ocupa dos habituais jogos de poder e intrigas palacianos, contando sempre com conivência da Imprensa em suas tentativas de manipular a opinião pública e criar cortinas de fumaça. À medida que a situação esquenta e se torna mais dura, entendemos o título do livro e sua ligação com “Ensaio sobre a Cegueira”, outro romance de Saramago.

Em “Ensaio sobre a Cegueira” todo um país fica cego – só que em vez de presos no escuro, se vêem reféns de um “mar de leite”. Essa cegueira branca rapidamente mergulha a nação nas trevas e põe a civilização de joelhos. Incapazes de percebrem qualquer coisa que não elas mesmas, as pessoas se entregam à lei do mais forte. Toda a estrutura social se esfacela enquanto cada um luta pelo seu quinhão. A única exceção é uma mulher, tão comum como as outras, que inexplicavelmente não cega. Ao mesmo tempo que fazem dela a testemunha solitária do horror, seus olhos a tornam símbolo de esperança. É graças à sua visão que um pequeno mas significativo grupo – formado por um casal de meia idade e um adulto, uma jovem, um idoso e uma criança – consegue se enxergar e se manter coeso. Ao reconhecer seus membros e trabalhar junto para sobreviver, esse corte da sociedade faz mais do que lutar pela vida: representa a resistência da cultura e da civilização, no melhor sentido desses termos, que teimam em não se entregar mesmo quando, metaforicamente cegos, fechamos os olhos para elas.

No primeiro “Ensaio” Saramago aponta que não é só a falta de luz ( leia-se ciência ) que cria estruturas que acabam por se voltar contra as pessoas. Luzes demais também são perigosas, já que conceitos puros resultam em sistemas perfeitos onde gente só tem lugar como idéias. No segundo mostra que com menos intensidade o branco deixa de ofuscar e passa a iluminar. Daí a clareza de visão dos brancosos de “Ensaio sobre a Lucidez”. Eles reconhecem sua alienação das estruturas que deviam existir para lhes servir e recusam serem submetidos por elas. Enquanto os outros permanecem cegos para o que se esconde sob as sombras cuidadosamente projetadas pelas instituições, os brancosos vêem.

Com uma premissa instigante e uma realização de alto nível, “Ensaio sobre a Lucidez” é obrigatório para quem gosta de ler. Narrado com a verve e o estilo que consagraram Saramago, o livro traz o autor na sua forma habitual: afiado, envolvente e inquietante. As digressões, a fluidez de tempo e espaço, o humor, os belos diálogos, a crueldade de ser coerente com a sua proposta, está tudo ali. É impossível emitir uma opinião antes do fim. O último parágrafo é simplesmente magistral e, sozinho, justifica a leitura do romance.

O livro é indispensável também para quem não liga tanto para a linguagem. As questões sobre a relação entre Estado e indivíduo que levanta são bastante importantes no momento que o mundo atravessa. Os exemplos de sua relevância são vários. Nos EUA vão da a vitória controversa de George W.Bush às guerras ao Afeganistão e Iraque, passando pelo Patriot Act e pela paranóia que se seguiu ao 11 de Setembro. Seus efeitos atingem também a Europa, onde há um crescente endurecimento na leis de imigração. O mesmo tema ecoa no Brasil, ainda que de forma diferente. Não estamos vivendo um período de encolhimento das liberdades civis, mas de aparelhamento do Estado e das instituições, no qual se misturam a partidarização de todos os níveis dos órgãos oficiais, o alinhamento de sindicatos, a pressão do Executivo sobre outros poderes e um intenso trabalho na divulgação de um discurso oficial mesmo quando os fatos o contradizem.

É interessante notar que apesar de comunista notório, Saramago não deixa ideologia entrar em sua literatura. Suas preocupações são as de um humanista, não um ideólogo. Sua apreensão é a de quem viu o ontem, conhece o hoje e, por isso mesmo, teme pelo amanhã.

Diálogos improváveis

Mogadishu,
uma rua qualquer:

Vai, toca a bola pra mim! Lança!
Na direita, vai, vai!
Olha a janela, caramba!
Nunca mais jogo com você. Você é muito ruim!
Na porta, a mãe chega e grita impaciente com o filho: menino, vem que o jantar tá na mesa!

Na cademia,

Oi Márcia? Como vai?
Bem.
Quanto tempo, hein? Desde aquela festa na casa do Ricardo Leal, lembra? A gente subiu no quarto dele e ele estava lá com a namorada. A maior gafe, lembra? Foi ótimo né? E você, me conta menina! Você está ótima!
Obrigada.
E o namoradão? Vai casar?
Ainda não.
Soube que o Péricles, daquele jeito, conseguiu casar? Vai ter um filho agora em Dezembro, e tudo!
Soube.
Nem te conto, menina, a Jú – lembra a Jú? – tá e-n-o-r-m-e você já viu? Quem diria, linda do jeito que era e vai terminar desse jeito, sozinha; sem ninguém pra conversar. Pode? Eu que não fico assim não. Mas acho que isso é coisa lá de cima, só porque ela esnobava agente com aquele cabelo lindo que ela tinha, tá lembrada? Bem feito.
. . .
Eu bem que sabia. Não é não?
. . .
Você ainda tá indo ao clube?
. .
Eu vou sempre.
. . .
Bom mais tarde a gente se fala ok? Beijos.
Tá.