Arquivo de janeiro, 2005

Pró-Ativos

Pró-ativos. Não tem nada (ou melhor, quase nada!) que me incomoda mais em um ambiente de trabalho do que uma pessoa pró-ativa.

Pra início de conversa, vamos definir o que é “Pró-ativo”. Segundo o dicionário (livro que, com toda a certeza, nunca foi consultado por um indivíduo desses), a definição do termo é : “adjetivo : que visa antecipar futuros problemas, necessidades ou mudanças; antecipatório” .

Para mim, “Pró-ativo” pode ter várias definições : “aquele que corre, corre, corre, mas não sabe para onde está indo”, ou, “aquele não entende uma pinóia do que se propõe a fazer mas sai atirando pra tudo quanto é lado até acertar algo que esteja se mexendo”, e ainda “aquele que atravessa todos os envolvidos em um processo para mostrar ao chefe que tem muita iniciativa”.

Já vi algumas pessoas elogiando esses seres horrendos com comentários do tipo : “fulano é um pouco precipitado, inexperiente e desqualificado para o que faz, mas compensa isso com sua atitude pró-ativa”.

Bacana! Fico me perguntando o que acontecerá conosco no dia que essa mentalidade contaminar os profissionais da saúde : “ olha, senhor, quando vi sua unha encravada, fiz um rápido benchmark de casos similares e, tipo assim, achei melhor amputar sua perna, pois nunca podemos ter certeza quando poderá estar ocorrendo uma gangrena , né?”.

De vez em quando os grandes gurus do Marketing inventam termos e conceitos que passam a ser seguidos por muita gente sem critério (pra ser extremamente educado), e cada vez mais, essas pessoas são levadas a sério, apenas por estarem seguindo tais “leis”.

Minha avó (grande sábia, diga-se de passagem) sempre me disse : “ PENSA antes de falar, meu filho!”, e como eu sou um neto muito obediente sempre levei essa lei muito a sério; mas vejo que a sabedoria milenar dos touros “Miura” (raça utilizada na Espanha, para as touradas, corrida de touros, etc) é muito mais bem vista hoje em dia, do que os ditos de minha querida avó : “Se o pano vermelho mexer, fecha os olhos e corre que nem um doido pra cima dele, que um dia você vira gerente, meu filho!”.

Que bom seria se as pessoas fossem incentivadas a pensar antes de tomar uma atitude. E quando tomassem, o fizessem por convicção e não por medo ou insegurança. Mas do jeito que vamos, o ambiente de trabalho vai, cada vez mais, se tornar um programa de auditório, onde quem apertar o botão vermelho antes pode responder a pergunta, e acertando ou errando, vai se dar bem por estar no foco de atenção de todos.

Eu, sinceramente, repasso.

Como o Beckham se entende?

– Numa boa. Com todo respeito. Mas, vá pra puta que pariu!

– Me desculpe…

– Não faça essa carinha de desentendida não. Vamos acabar já com essa palhaçada.

– Meu senhor me desculpe mas não sei do que está falando.

– Eu sou o Arruda.

– Prazer eu sou a Cris.

– Eu sei quem você é. Você é o maldito Lado Feminino do Kris!

– Não sei por que maldito. Eu tenho muita honra em ser o lado feminino do Kris. Pelo seu tom rude imagino que deve ser o Lado Masculino não é?

– Sim , sou eu mesmo mocinha, e vou te dizer uma coisa, não to gostando nem um pouco dessa merda viu. Essa bichice toda já está passando dos limites.

– Nossa. Quanta grosseria. Se o Kris só tivesse você pra guia-lo estaria perdido.

– Pois eu acho que muito pelo contrário. Ele tá parecendo um afrescalhado com a sua influência. Antigamente, quando ele era mais novo não te escutava. Ou melhor, escutava mas o meu poder de censura era muito maior. Agora ele te escuta, confia em você. Acha realmente que o que você fala tá certo. Que ele fica melhor quando te escuta.

– E o senhor não concorda?

– Com o que?

– Com o fato de que depois que ele começou a me escutar se tornou uma pessoa muito melhor. Mais limpa, mais bonita, mais culta, mais educada.

– Mais bicha, mais bicha, mais bicha, mais bicha.

– Nossa! Que machismo. Pelo visto está precisando se atualizar. Os tempos são outros amor. Já passamos da época em que o homem tinha que se parecer com um macaco pra mostrar virilidade. Acho que o senhor é homofóbico.

– Homofóbico de cu é rola. Eu sou é macho. Sou o Lado Maculino PORRA! E olha. vou te dizer uma coisa, é melhor você parar com essa baboseira toda. O Kris é muito macho, sempre foi, e depois que você começou a falar essas bobagens pra ele tem muita gente duvidando da sua masculinidade. Fazendo brincadeirinhas, insinuando coisas. Não gosto dessas merdas não.

– Mas meu senhor…

– Arruda.

– Ok Sr Arruda. O que eu falo que tanto te irrita?

– Bem. Vamos começar. Primeiro de tudo. Essa porra de alisamento no cabelo.

– Qual o problema do amaciamento capilar?

– Meu. Puta coisa de viado. Já começa que o cara vai no cabelereiro. Macho que é macho vai no barbeiro. O Kris nunca deveria ter deixado de cortar o cabelo com o Valmor, aquilo sim era ambiente pra cortar cabelo. Agora vai num salão. Salão de beleza. E corta o cabelo com um cara chamado Johny. Tenha santa paciência. Johny? Onde esse mundo vai parar? Onde estão os aventais? Não tem. Em vez disso usa um quimono. Daí fica lá. De quimono, lendo revista de fofoca, com o Johny. Tudo isso sem esquecer que ele fica meia hora com uma meleca branca no cabelo que mais parece…bem…deixa pra lá…

– Olha. Pro seu governo todas mulheres valorizam um cabelo bem cuidado. Não é por que você é homem que não pode ter um cabelo diferente do que o seu avô usava. O que mais?

– Também tô puto com essa história de ficar comprando essas roupinhas de fresco.

– “De fresco”? Me desculpe Sr. Arruda. Não te entendi. O Kris só usa roupas normais. Camisas, calças, nada de feminino.

– Nada de feminino? Cacete. O cara comprou uma camisa rosa.

– Qual é o problema, rosa é só uma cor, como todas as outras.

– É sim. Só uma cor. Uma cor de viado. Isso que é. E isso nem é o pior. Semana passada ele comprou uma camisa bordada. Por que diabos uma camisa bordada?

– Ai, essa camisa é linda.

– Não me interrompe. Puta camisa afrescalhada. E cara. Você quer transformar o Kris numa bicha pobre. Tá gastando fortunas com essa história de comprar roupa. Estes dias foi num bazar. Quer coisa mais gay que ir no bazar? Bem, foi no bazar e comprou um terno que custou mais de mil reais. Mil reais você tá me entendendo?

– Foi uma ótima compra, aliás uma pechincha.

– Você tá doida. Pechincha. Na Colombo você compra um terno, um cinto, um sapato, uma gravata por 299 reais em 6 vezes sem juros. Isso sim é pechincha.

– Você não quer comparar o seu Colombo com o meu Ricardo Almeida não é?

– O meu pelo menos descobriu a América e o seu….não fez porra nenhuma aposto.

– …

– Ei, não foge não, eu tava brincando….ei….droga…

O Bebê: Manual Prático

Na sociedade contemporânea, o procedimento necessário para se fazer um bebê é conhecido por todas as pessoas que atingiram a puberdade. Alguns indivíduos precoces obtêm tais informações antes mesmo dessa época conturbada de suas vidas. Em condições normais, a maioria dos casais terá tido a oportunidade de treinar o referido procedimento antes de produzir o resultado desejado. Chega então o momento solene em que os candidatos a pai e mãe decidem constituir uma família feliz. Até aqui, nenhum segredo.

A notícia de que os preparativos renderam frutos vem de maneira curiosa. Num primeiro instante, é privilégio da genitora. Embora a confirmação possa ensejar momentos de intensa emoção, de início não há sinais exteriores de que algo tenha mudado. Tudo é muito discreto, quase discreto demais para justificar tamanha felicidade.

Segue-se o período de gestação, fase um tanto enfadonha na qual o casal deverá aturar a presença constante de um estranho: o obstetra. O nobre profissional da saúde efetuará com diligência intrusões reiteradas na vida familiar dos cônjuges, na conta bancária dos mesmos e no corpo da gestante. Certos homens, se se lembrarem desse detalhe a tempo, provavelmente recusarão participar do empreendimento antes que ele comece, e procurarão convencer suas esposas de que cachorros são ótimos companheiros.

Se tudo correr conforme o planejado – o que esperamos todos que aconteça – o casal felizardo voltará um dia para casa carregando no colo o diminuto depositário de instintos, esperanças, sonhos e angústias. E aí surge a encrenca: o que fazer agora com o bebê?

Papai e mamãe não precisam se preocupar, pois o bebê é um aparelho de funcionamento muito simples. Ele é basicamente constituído de um estômago e dois pulmões; estes se enchem quando aquele esvazia. A ultrapassagem do ponto de equilíbrio será facilmente notada quando o bebê produzir um som característico, o choro. O choro possui duas propriedades: duração e volume sempre superam o limite da paciência alheia. Efeitos colaterais podem incluir olhares hostis e comentários de reprovação por parte de terceiros, se o casal estiver perto de outros adultos. Por isso, é mister saber lidar com o choro. Como este é sinal de fome, a solução é alimentar o rebento. Lembrem-se da regra básica: estômago cheio, pulmões vazios. O corolário da mesma é: bebê quietinho. De onde se conclui: pais tranqüilos, CQD.

O inconveniente é que o bebê não foi muito bem projetado. Calma, não briguem comigo, a culpa não é minha. Já estou fazendo o favor de escrever este manual. Como eu dizia, o bebê tem um defeito capital: o choro não é somente um indicativo de fome, mas também de muitas outras sensações e estados de espírito. Na verdade, é a única maneira que a criaturinha possui de exprimir seus pontos de vista sobre o mundo. Não adianta pedir para trocar porque todos os bebês são assim. Como o recall não é uma opção viável, os pais terão de contornar o problema.

Felizmente, existe uma pessoa capacitada para prestar consultoria de alto nível sobre o bebê: é a mãe. A mãe consegue identificar as mensagens contidas no choro aparentemente uniforme do infante, trazendo à tona as mais sutis nuanças da psiquê do pimpolho. Por alguma causa ainda desconhecida, a mesma capacidade parece ser negada ao pai. Considerem, por exemplo, o seguinte diálogo:

“Querida, ele fez inhé.
– É calor, tira o casaquinho dele.
– Mas calor não é unhé?
– Não, isso é quando ele quer colo.
– Achei que colo fosse pinhé.
– Não, isso é fome. Credo, você não conhece seu próprio filho? Sou eu que tenho que fazer tudo sozinha nessa casa!”

Para evitar dissensões mais graves, recomenda-se que, em tais circunstâncias, o pai siga as instruções da mãe, no interesse geral da harmonia do lar. E aproveite a experiência inestimável de trabalhar lado a lado com uma profissional competente da área. Pode ser útil das próximas vezes – se houver.

Enfim, não há motivo para desespero. Pais e mães saberão o que fazer quando chegar a hora. Além disso, as dificuldades com o bebê são passageiras. Logo ele começa a fazer uso da fala, pondo a proveito a notável faculdade humana da razão. Nesse momento, a comunicação com ele ficará muito mais fácil e proveitosa para ambas as partes. Bem, talvez não instantaneamente. Mas nada que uns vinte anos não resolvam.

Ponto Revelador

Quantas variações vocês conhecem sobre o famoso ditado “diga-me com quem andas e direi quem és”? Aqui está mais uma – e picareta ao extremo. Mas não estou nem ligando. Este é o primeiro passo para a redação de minha vasta obra no campo da auto-ajuda. Com ela, espero auto-ajudar a mim mesmo, multiplicando meu pecúnio até níveis inimagináveis. Chega dessa baboseira de querer ser escritor para compartilhar profundas lições de vida, contribuir para a educação do povo, mudar a realidade social ou qualquer outra asneira. O que importa mesmo é dizer o que as pessoas querem ouvir, não o que elas precisariam saber.

A chave do meu sucesso está num ponto: . Sim, esse mesmo, o ponto final. Vocês podem não ter reparado, mas aí está ele, impávido, irrepreensível, sempre digno de toda nossa confiança, a terminar todas as frases escritas. Até mesmo uma supérflua como esta. Ou inútil como esta. Ou curta assim. Só. Bastava olhar para ele, mas ninguém jamais o havia feito até agora. Devo o mérito dessa sacada de gênio ao meu querido amigo e primo dileto Paulo. (Obviamente, eu me lembrarei dele quando estiver no topo de meu império da auto-ajuda.) Como toda idéia de sucesso, esta começa muito simples: representar a personalidade das pessoas através dos sinais de pontuação. “Diga-me como pontuas e direi quem és”.

Por exemplo, o ponto ( . ) . Tão discreto. Tão ambivalente. O ponto pode ser a expressão de uma angústia acachapante. Que suga as energias do indivíduo. Faz crer que ele é insignificante. Ou não. Pode representar uma confiança cega. Daquela que despreza o passado. Que se lança em direção ao futuro. Sem temer o que pode acontecer. Você que prefere o ponto. Seu caráter pode oscilar entre esses extremos. Cabe a você identificar a onda do momento. Agir conforme ela.

Os dois-pontos ( : ) revelam uma personalidade meticulosa: chega a ser detalhista, perfeccionista. Sua exigência pode atingir extremos: nesse caso, torna-se inconveniente para o convívio social. A pessoa acometida de dois-pontos tende à petulância: pede dos outros uma exatidão que eles não podem atingir. Logo, atenção: o inconformismo com as soluções vigentes não pode torná-lo um permanente insatisfeito.

A vírgula ( , ) , por sua vez, é um sinal inequívoco, expressão de um temperamento exuberante, mas que resvala com freqüência para a verborragia, a atitude precipitada, o que leva o sujeito a descuidar da organização, a acrescentar novas orações, produzindo acumulações desnecessárias, arriscando perder o nexo gramatical. Amantes da vírgula, precavenham-se, aprendam a desfazer-se do excesso, não deixem que sua ânsia por correção prejudique a clareza de sua mensagem.

Já o ponto-e-vírgula ( ; ) exprime complexidade; traduz a hesitação da pessoa que está constantemente pondo em dúvida suas escolhas; representa a condição do indivíduo que hesita entre a certeza de seu livre-arbítrio e as restrições que lhe impõe o destino; se você adota o ponto-e-vírgula, tem provavelmente dificuldades em lidar com opções; examine a si próprio; verifique se sua oscilação se deve ao desejo de agradar a todos, pontos e vírgulas; você tem talento para ouvir opiniões diversas e solucionar conflitos; porém, se seu caráter se mantiver “em cima do muro”, sua personalidade pode tornar-se tímida e apagada; se não controlar seu espírito conciliador, só conseguirá tomar decisões em situações extremas.

Os outros sinais se prestam a interpretações mais corriqueiras. Querem saber do ponto de interrogação ( ? ) ? Ele é, obviamente, característico de um temperamento inquisitivo, crítico, sempre atento às contradições do discurso e às incongruências da realidade, certo? Os adeptos do ponto de interrogação devem evitar parecer cínicos, afinal, quem suporta tanto questionamento?

Quanto ao ponto de exclamação ( ! ) é o símbolo do indivíduo contemporâneo, seguro de suas capacidades criativas, que se projeta para o alto em direção aos domínios inexplorados do pensamento humano! Quando ele se repete ( !! ) , temos a marca de um caráter particularmente empreendedor e de um humor exuberante!! Acompanhado do ponto de interrogação ( ?! ) , denota uma inteligência fora do comum, capaz ao mesmo tempo de questionamento racional e de paixão pela vida empírica; mas quem já viu alguém com tantas qualidade reunidas?!

Poderia ainda falar do hífen ( – ) , do travessão ( – ) , das aspas ( “ ” ) , das reticências ( … ) ; mas não vou continuar, pois acho que vocês já entenderam, correto? Contudo, muitos outros segredos são revelados pelo estudo da pontuação… Nos pontos reside o caminho para o auto-conhecimento, chave de uma vida mais plena e feliz! Se vocês quiserem saber mais, aguardem a publicação da minha obra: ela terá um impacto profundo em nossas vidas, sobretudo na minha – porque conselho de graça, nunca mais.

Lixo

“Você deveria ter feito isso a duas horas!
– Não estou no clima.
– Precisa de clima para levar o lixo para fora?
– Lógico!
– Não posso acreditar.
– O lixo faz parte da sociedade. Não da para simplesmente levantar e levar o lixo para fora.
– Mas não demora nem 10 segundos para fazer isso?
– Você sabe o que são 10 segundos numa corrida de Fórmula 1? Não! Então não fale de coisas que estão fora do seu alcance intelectual.
– Mas é sua obrigação de domingo, a única, aliás.
– Sim, mas no mundo da gestão corporativa do lar, eu como funcionário pró-ativo e preparado, faço meu próprio horário.
– Mas a cozinha está fedida.
– Vamos almoçar fora.
– Mas está chovendo.
– É verdade, ainda bem que não fui levar o lixo mesmo.
– Você é inacreditável!!
– Eu sei!
– Odeio quando você responde isso!
– Eu sei!
– Assim não dá! Vou para a casa da minha mãe!
– Sabia!”