Arquivo de fevereiro, 2005

O Chamado

Madrugada de sábado. Toca o telefone na residência Prestes.

– Querida…
– Hnf… ai, a essa hora…
– Querida, o telefone está tocando.
– Hum… eu sei, atende aí…
– Eu atendo, se você me disser onde está o telefone.
– Brmfl… não sei… que chatice… atende logo, vai…
– Querida, cadê o telefone?
– Ai, que barulho irritante…
– Maria Elisa, me fala onde está a porcaria do telefone! Eu preciso atender!

A sra. Prestes murmura algo incompreensível e vira-se para o outro lado. O sr. Prestes atira os lençóis para longe e salta da cama. Começa a revirar o quarto à procura do telefone, que continua tocando.

– Maria Elisa, é a última vez que eu vou perguntar: cadê o telefone?
– Fbrlrl… não lembro… acha logo…
– Quantas vezes já falei para não esconder o telefone?
– Ai, mas é insuportável… fica tocando toda hora…
– Claro, Maria Elisa! Você devia ter pensado nisso antes de casar com um paramédico!
– Humbf… não grita… acha logo esse treco que eu quero dormir…
– Você podia colaborar, né? Onde você pôs? Fala! Deve ter gente morrendo por sua causa!
– O Marquinhos era dentista…
– E daí? O que tem a ver o babaca do Marquinhos com o telefone? E dentista também tem que atender à noite, ouviu? Vai que cai uma obturação, estoura um canal…
– Atende logo que tem gente morrendo.
– Eu vou ser demitido, Maria Elisa! Cadê a droga do telefone?!

Num gesto de raiva, o sr. Prestes abre o armário e começa a despejar no chão o conteúdo das gavetas. O telefone incansável desponta no meio de uma pilha de calcinhas.

– Pronto, Prestes falando, onde é a emergência?
– Oi pai, sou eu.
– Ah! Filho. O que aconteceu?
– Não, nada não, a gente tava saindo da festa e a bateria do carro pifou, então vou dormir por aqui.
– Ah, tá, tudo bem então. Se cuida, hein?
– Pode deixar. Té mais, pai.
– Tchau.

O sr. Prestes suspira profundamente. Contempla o rastro de desordem que espalhou pelo quarto. Arrasta-se de volta para a cama e começa a procurar uma posição para dormir.

– Agenor?
– Hnf…
– Que aconteceu com o Filipe, Agenor?
– Humbl… nada não…
– Fala, homem! O que houve com ele? Ele tá bem?
– Nada… o carro…
– Ai meu Deus! Carro não! Foi acidente? Ele bateu? Deixa eu falar com ele! Acorda, Agenor! Deixa eu ligar no celular dele! Me dá o telefone!
– Brmm… tô dormindo…
– Acorda, homem, eu preciso telefonar!

A sra. Prestes levanta desesperada, calça as pantufas e olha aflita em torno de si.

– Agenor, você escondeu o telefone?

Senso de Humor

Dois amigos dividem a mesma mesa. O bar é daqueles com chão de losangos brancos e pretos, com balcão e baldes de secos e molhados, mesas rústicas de madeira escura e chope circulando em profusão. Cena clássica de começo de crônica. O impasse, nesse caso, é a porção de calabresa que um deles ainda não tocou. Coisa que, claro, deixa o outro contrariado.

– Pô, qual o problema? Não vai comer, não?
– Vou, vou…..
– Então, vamos lá! Não precisa ficar tímido depois de tanto tempo: pode cair de boca na linguiça!
O um não riu. Só comentou, num tom:
– Taí.
– “Taí” o que?
– Taí o problema. Essas piadas. Esse bar. Eu. Você. Tudo isso aqui e mais um monte de coisa.
– Que tem tudo isso?
– Pára e pensa um pouco. Você não consegue ver nada errado?
O outro já estava levando a sério. Não sabia o que era, mas estava levando a sério.
– Não, está tudo como sempre…. Não está?
– Há quanto tempo a gente vem aqui?
– Faz tempo. Uns seis anos, mais ou menos.
– Isso. Quantas vezes?
– Pelo menos uma por semana.
– Exato. Isso dá mais ou menos 48 vezes por ano. Ou cento e noventa e poucas em seis anos.
– Tá. E?
– Há quanto tempo a gente não faz uma piada de duplo sentido decente? Umazinha que seja que não tenha cara de piada da Playboy? Que não lembre aquelas piadas de tiozinho bêbado em festa de casamento?
– Putz, não sei. Não tinha reparado.
– Eu te digo: um tempão. Desde antes de sobrarmos só eu e você aqui.
– Putz!
– É….
– Putz! Eu não tinha reparado. Não tinha mesmo.
– Pois é. A gente não reparou mas virou esse povo que faz piadinha de “linguiça”.
– A gente faz piada de tiozinho de casamento.
– É.
– Putz.
– É.
– Putz. Tiozinho de casamento.
– E a gente tá vivendo no buffet, ainda por cima. Pega esses garçons, por exemplo. Lembra quando a gente começou a vir aqui? Quem atendia a gente?
– O Gabiroba. Às vezes, o Jambarjan.
– Perfeito. Ninguém sabia o nome deles. Nem eles deviam saber mais. Eram os Gabirobas, os Jambarjans, o que fosse. Velha escola total. Mesmo depois deles…. Lembra quem veio depois deles?
– Lembro, claro. O Merval!
– O Merval. O Merval tinha nome próprio, ok, mas olha o nome. Foi a Era de prata. Uma geração de garçons com nome, mas com aura, entende?
O outro concordava com pequenos suspiros. O um respeitava a pausa e seguia:
– Naquele tempo a gente também era velha escola. Cultivava o improviso, arriscava. Evitava metáforas de futebol. Evitava piadas de “linguiça”.
– Putz.
– Olha para a gente agora. Vem, enche a cara, reclama da mulher, da falta de mulher, do emprego, da falta de emprego… A gente é como esse aqui – apontando com a cabeça para o garçom, que trazia a enésima rodada – nem Gabiroba, nem Jambarjan…. No fim das contas…
– … não passamos de Cristiano….
– Isso aí. Nosso senso de humor é como eles, uma lembraça. Evaporou. Sumiu sem ninguém perceber.
– Putz.
Ficaram os dois em silêncio, olhos marejados, mandando ver no chope. Quando pediram a conta o Cristiano trouxe, por cortesia, a saideira.
Aqueles dois ainda faziam muita gente rir.

É Óbvio

– E aí, gostou?
– Não sei, acho que não. Na verdade, acho que não entendi.
– Como não? Tá tudo lá.
– Não sei, não vi, acho que eu não consigo entender esses filmes.
– Mas os sinais tão todos ali. Você não percebeu o candelabro? Tá na cara que é um sinal. Um sinal recorrente.
– E quer dizer o quê?
– O candelabro simboliza a chama da vida. À medida que vai passando o tempo, as velas vão se apagando uma a uma, para mostrar que o sentido da vida, para aquelas pessoas, está se esvaindo.
– É por isso que eles ficam no escuro o tempo todo?
– Não, nada a ver, isso é uma opção estética. Não faz parte da história narrada, entende? É um signo metalingüístico, do diretor falando com a gente. Os personagens ficam no escuro porque eles não conseguem enxergar o próprio destino, mas eles não sabem que eles estão no escuro.
– Achei que a fotografia fosse ruim.
– Não, já falei, é uma opção estética.
– Mas não podiam fazer uma opção que desse para a gente ver o que está acontecendo?
– Mas você não entende? Isso também é simbólico. A fotografia reproduz, entre o diretor e o espectador, a relação de manipulação que o filme quer denunciar. Ele nos deixa no escuro para nos fazer sentir na pele a opressão do sistema.
– Mas então o diretor está do lado do sistema?
– Não, ele não é a favor do sistema, ele está só assumindo o papel do sistema, entende? Assim, o diretor também é um personagem do filme, só que um personagem invisível.
– Ah, tá… achei que ficasse escuro para a gente não ver as mulheres peladas.
– Não, isso é para mostrar que o sistema, ao proibir a nudez, é castrador.
– Por isso que o carinha era impotente?
– É.
– Ah… só não entendi a do cortador de grama.
– Como não? Outro símbolo da castração.
– Mas quando ele mata a guria ele não usa o cortador, ele dá nela com o sapato de salto.
– É a reversão de um fetiche burguês. Ela morre pelas mãos do oprimido, que se vinga utilizando o próprio objeto que simboliza a superioridade dela, revertendo a situação de manipulação.
– E aqueles urros?
– É um transe, o sujeito entra em transe na hora em que ele se liberta, entende? Um transe extático?
– Por isso ele arranca a roupa no meio da estação de trem?
– Não, isso não faz parte do mesmo movimento. A cena da estação é outro contexto, ela representa uma jornada agônica, como uma purgação.
– Achei que a purgação tinha sido por causa da berinjela.
– Não, você não entendeu que a cor da berinjela, metaforicamente, sugere que a dominação adquire um cunho de preconceito racial?
– Tá… mas aposto que o porquinho-da-índia não tem nada a ver com o resto.
– Como assim? Se ele encarna a manifestação imagética da condição animalesca do sujeito reificado?
– Putz, não tinha me dado conta…
– É porque você não raciocinou sobre isso. A gente não tá aqui pra consumir, você tem que participar do filme, romper o ciclo de passividade do espectador. É um ato político, um meio de manifestar o seu protesto contra a lógica de mercado que invade o cinema. Você tem que ir juntando as peças…
– É, entendi, agora melhorou um pouco. O candelabro, o cortador de grama, o sapato de salto, a estação de trem, a berinjela, o porquinho-da-índia… tá tudo se encaixando… Pelo menos os personagens podiam falar, para a gente entender tudo isso.
– Mas pra quê?