Arquivo de março, 2005

Lendas Urbanas

Márcio era casado com Márcia, coincidências da vida, talvez até uma brincadeira de mau gosto, mas era assim; Márcio e Márcia, sempre juntos. Isso já era motivo de constrangimentos. Há cinco anos isso fazia parte de uma corriqueira situação, já conheciam todo o tipo de brincadeira ou piadinha, mas a educação sempre lhes deu um sorriso como resposta mais imediata.

Márcio não era assim um galã cinematográfico, muito menos o mocinho da “novela das oito”. Modesto quanto a beleza, era um sujeito simples e divertido que adorava sair com os amigos pra contar histórias e reviver peripécias do tempo de ginásio. Foi em uma destas saídas que Márcio conheceu Márcia. O Dudu que apresentou: Márcio, Márcia – e foi instantânea a brincadeirinha e os sorrizinhos.
Márcia era bastante humilde quanto a sua possível semelhança com Gisele Bünchen ou qualquer outra sex simbol, na verdade ela estava mais pra espanta-soluço que pra modelo e atriz. Passando na frente de qualquer obra ela já havia se acostumado a ouvir alguma coisa como “chuta, chuta que é macumba!”, mas nunca dera bola pra essas coisas, afinal o importante é ser bonita por dentro. Balela. Mas no fim, eu diria que formavam um casal excêntrico. Até que jeitosinho.

O único consolo do casal era que pelo menos o filho estava garantido. Foi, então, que o rebento nasceu. Marcelo era o nome – e qual outro seria?. Surpresa! O moleque era feio, mas feio que não acabava de tanta feiúra. As pessoas vinham todas felizes esperando encontrar um bebê lindo e sorridente – é, além de feio era mau humorado – e encontravam Marcelo. Para Márcia foi a gota d’água.

– Mas Márcia . . .
– Pra mim já chega, era só o que me faltava.
– Mas querida o que é que está acontecendo?
– Você sabe muito bem o que está acontecendo . . . .
– Não sei n. . . . .
– o que está acontecendo é que o nosso filho é feio demais.
– Mas meu amor o que importa é que estamos feli. . . . .
– Eu sou feia! Você é feio! Porque o nosso filho não saiu lindo?
– O que é isso? Porque ele dev . . . .
– Vai falar que você não conhece a história que pais bonitos filhos feios, pais feios filh . . . .
– Calma meu amor . . . . . . . . . . . . . . . . . ei? Como assim pais feios?

Hora fechada

São dezoito e dezesseis. Horas. Ansioso, ando para lá e para cá, tentando achar alguma coisa interessante. Nada. Ou quase nada. Um celular do último tipo lançado no Brasil. O mesmo que já é antiquado no Japão. Visor com bilhões de cores, botões, câmeras, plugues. Sete opções de capa.

Dezoito e dezenove. Horas. Duas garotas passam. Olhos pintados de escuro, saias escuras, unhas escuras. Uma conversa fugidia. Parecem observar um grupo de rapazes. Parecem observar a si mesmas, tentando adivinhar o que eles vão pensar. Ou observam os tênis deles.

Quarenta e três. É o número do meu tênis. Sempre foi difícil de encontrar. A vitrine exibe os tênis, que exibem as marcas. Uma boa desculpa para um desfile de logotipos. Agora as marcas produzem quarenta e três, quarenta e quatro. Deve ser por causa do crescimento daqueles rapazes. Ou porque eles querem desfilar as marcas para elas.

Dezoito e vinte e seis. Horas. Nas prateleiras, acúmulo de saber. Sobre personalidades famosas. Sobre dietas exóticas. Sobre anjos. Pessoas de sucesso, atitudes de sucesso, vidas de sucesso. Farta distribuição de frustrações. Uma área exclusiva para redimir essas frustrações. Numa estante, um livro sobre uma caverna, outro sobre um tempo perdido, outro sobre um fidalgo engenhoso. Sozinha no mundo, essa estante não atrai os olhares.

Cinco milhões de cópias vendidas. Nove milhões de cópias vendidas. Doze semitons numa oitava. Um casal ouve um sucesso, mais um sucesso, mais outro sucesso. Música ou matemática? Na contabilidade dos ouvidos, vale aquele que multiplica mais. Não pela influência, mas pela repetição. E o casal sai levando uma sucessão de tons iguais.

Dezoito e quarenta. Horas. Os rapazes passam por mim. Direto para a área de diversão. Combates mortais, lutadores de rua, pegas simulados. Movimentos ágeis, gritos, provocações. Penso na violência propagandeada. Rejeito. Penso na abertura das possibilidades da imaginação. Rejeito. Penso na diversão, na sublimação de impulsos ruins. Também rejeito. A única coisa que parece certa é a relação entre eles e o momento.

Nove reais e cinqüenta e três centavos. Momento de fome. Um hambúrguer, alface, etc. Batata. Coca-cola. Muita gordura em tudo isso. Ao redor, crianças fingem comer, brincando com seus brindes. Os pais constrangidos. Sabem o que as crianças estão fazendo. Mas não sabem dizer não. Perdoam-se, lembrando das privações que crêem ter sofrido e que suas crianças não sofrerão. Comem seus lanches de sabor transparente, como eu. E fecham os olhos para as novas privações que criam.

Dezenove e quinze. Hora de encontrar um outro lugar. E sair daqui, já.

Sem título

Ele simplesmente não sabia o seu lugar. Queria, porque queria, tudo aquilo que não lhe pertencia.

Nas idas e vindas do mundo já havia perdido seu tempo pensando em futilidades como trabalho, casa, dinheiro, sexo, amor. Agora não sobrava mais nada, era ele e mais nada. Tivera uma educação bastante adequada às possibilidades de um mundo moderno, nunca fora repreendido sem razão ou explicação, nunca pôde largar os estudos por preguiça ou má vontade. Aprendera uma vida correta e assim preparou-se para vivê-la, só não contava com os frutos da árvore do conhecimento. A inquietação do saber carregara consigo a angústia da incapacidade, diante do inevitável universo de ignorância que ainda guardamos. Não conseguia guardar pra si a descoberta da sua própria mediocridade; precisava mostrar a todos o quanto somos e ainda seremos insignificantes nânons falantes.

O mundo sentiu o peso dos seus largos passos e, marcado, guardou pra si mais um inconformado ser entre as centenas que já havia acolhido. De tudo, até agora, sabiam apenas dois. Era pouco. Tudo parecia um constante sonho do qual você acorda mas não consegue erguer-se do leito e ali fica esperando que alguém o levante. Alienados, julgavam-no descontrolado ou anormal, sem mesmo tentar compreender o embrionário e admirável mundo novo. Nada parecia novo o bastante, e ao mesmo tempo era de uma clarividência ímpar; talvez por isso. É, talvez por isso.
Sua inquietude era simbólico momento da vontade de espalhar a descoberta……….afinal a Terra não era quadrada e, sim, podíamos chegar à Lua, porque ainda se gabar de coisas tão mesquinhas. Era brigar por migalhas como se fossem lindos e deliciosos brioches. Ah, os brioches! Isso sim era algo para se vangloriar: criar os brioches. Não digo que foi Deus quem o fez mas alguma divindade existe nesta criação. Brioches. Há que se convencer as pessoas que os brioche são parcelas do ticket que nos levará ao nirvana. Divinos! Era a única coisa que o mantinha atento à sua vida. Nada importava, só a sua descoberta. Nunca encontrara um igual em toda sua busca. Ia de um lado à outro do mundo e quando encontrava-se desiludido . . . . . . . “um brioche por favor”!

Uns poucos que percebera no caminho lhe deram um pista sobre a resolução da sua impaciência e aflição: resignação. Aceitação, talvez. Percebia que certas pessoas compreendiam o que significava tal pensamento e assim o encaravam. Não era uma descoberta, absoluta, verdadeira. Não era o código genético, não era o urânio, não era o homem, do macaco, descendendo. Era sobre a própria mediocridade humana, uma descoberta antropológica talvez, ou sociológica, mas não era científica e por isso desgastou-se nos comentários irônicos e sarcásticos daqueles que não se percebiam como personagens da mais linda descoberta humana.

Transcorrido o tempo necessário, explanações sociais e muita argumentação, ele pegou-se desanimado e faminto. Precisou alimentar-se mais uma vez. No caminho, ainda conseguiu que um senhor, já muito de idade, escutásse-lo. Com paciência e um pouco de pigarro, respondeu a cada questionamento e por fim levou a mão à boca e tossiu: “- Não desita, isso é muito bonito, meu filho!” Na metade do trajeto até o café lembrou que os brioches haviam acabado. Há 5 anos que ninguém mais sabia fazer brioches, agora eles faziam um pãozinho que de tão insoso até que tinha um gosto diferente. Sentou na calçada e ficou ali parado, inconsolável. Não sabia mais o que fazer.

Sala de Espera

Depois de brincar com meus próprios dedões por alguns minutos, comecei a achar que aquela sala de espera estava se tornando tediosa.

Como seria bom se exatamente agora, uma mulher linda, solteira e simpática entrasse na sala.

Não menos do que 1 minuto após meu impetuoso desejo ter sido feito, tal mulher entrou na sala. Tinha imaginado uma loira e a mulher que entrou era morena com mechas claras o que a tornava ainda mais interessante.

– Bom dia. – ela disse.

– Clufahan Hãããn … Er … oi. – respondi, com muita classe.

Sempre tenho dificuldade para responder rapidamente quando sou pego de surpresa. Mas sempre me saio bem, no final.

Voltando ao desejo, ela era linda e simpática. Só uma mulher simpática diz “oi” para um homem que brinca compulsivamente com seus dedões numa sala de espera.

– A senhora já tem ficha aqui ? – perguntou a secretária

– Ainda não. – respondeu ela.

– Ahãããn Cluf … – acrescentei.

Como toda mulher linda e simpática, ela esboçou um sorriso ao me olhar discretamente.

Começou então, o pequeno interrogatório feito pela secretária até que a bela Cláudia (sim, com muita perspicácia consegui descobrir seu nome) confessou ser a mulher dos meus sonhos :

– Solteira, infelizmente.

– UI ahãnnn Cluf … Ô luta, meu pai … – pensei.

– Pois não. – respondeu ela, sorrindo com aquele sorriso que só mulheres como ela conseguem fazer. Ela ria de mim, mas num tom carinhoso.

Será que eu disse o que pensei alto ? Acho que sim. E ela, como não poderia deixar se ser, fingiu não ter entendido.

Parti para a dissimulação.

-Ah … Me desculpe. Me empolguei com a reportagem que estava lendo. Bobeira minha.

– Magina! – respondeu ela, fazendo aquele gesto com uma mão que normalmente quer dizer “Magina!”.

Ufa! Acho que tinha me saído bem. Tirando o fato de que eu não tinha nenhuma revista nas mãos, claro. Isso realmente poderia ter maculado, um pouco, minha interpretação. Malditos detalhes!

– Com licença ? – disse ela, ainda rindo.

Para me redimir, antes de responder, dei uma leve olhada para meu relógio. Típico movimento que só um homem de muita classe consegue fazer antes de responder uma pergunta deste nível.

– Sim … – retruquei com a certeza de que a surpreendi.

– Nós já não nos conhecemos antes ? – disse ela sem mostras de maiores surpresas.

Acabei me lembrando que também estava sem relógio de pulso, e meu gesto fatal, pode ter se tornado um pouco inócuo.
Dessa vez, confesso. Senti o golpe. Dois diretos no rosto na seqüência. Se ela não me deixasse respirar um pouco, eu beijaria a lona em instantes.

Fingi ter deixado meu celular caído no chão, e soltei um leve “ oh …” para completar a ação. Eu precisava de tempo.

– Olha … não quero me parecer uma mulher atirada, mas realmente senti uma energia diferente em você? Você acredita em destino?

Levantei rapidamente. Gesto absolutamente aceitável quando você deve pegar algo que está no chão. Torcia desesperadamente para que meu técnico jogasse a toalha no meu córner para que a luta fosse interrompida. Sem querer, chutei meu celular para longe. E ao bater na parede, ele se dividiu caprichosamente em duas partes. Como não queria correr o risco de parecer um homem atrapalhado pisei com toda força que tinha na bateria que voou para perto de mim.
Agora sim. Mostrei quem estava no controle. Corri então para o outro lado da sala. Somente uma ajuda divina me salvaria.

– Ai ai … adoro homens tímidos, sabe? – disse ela, sem um pingo de bondade no coração. Não queria saber o que ela pensava dos outros homens.

Sem perder a compostura, segurei a bateria em uma mão, e levantei do chão. Sim, acho que, no calor da conversa, me esqueci de contar que dei uma linda ponte (como fazem os goleiros profissionais) para agarrar a outra parte do celular.

Fingi, então, que o celular tocava no modo silencioso, e dignamente, segurando o fone, saí correndo, como quem se retira educadamente do recinto para não perturbar os outros com sua conversa.

– Alô, alô ! eu gritava, para que ela percebesse quanto o “pseudo-sinal” estava fraco.

E assim, fui para a rua certo de que não tinha mais nada a fazer. Ah, se eu fosse um homem tímido!

Resoluções

Nada como o arrependimento para criar resoluções. Quer um exemplo?

Você chega em casa depois de um porre daqueles. Vai direto ao banheiro. Enquanto abraça o vaso sanitário, pensa: “Nunca mais vou beber!”. Para confirmar sua decisão, solta mais uma golfada.

Na manhã seguinte, dor de cabeça. Muita água, sal de frutas e o que mais curar a ressaca. Então você murmura: “Nunca mais vou beber tanto”.

Uma noite bem dormida, as idéias clareiam, e você já consegue refletir melhor sobre o assunto: “O problema é misturar bebida”.

Meio da semana, você ouve no rádio um comentário sobre tintos. O tipo de uva, a cor, o aroma, o buquê. Forma arredondada, expande no palato, tem um retorno agradável. “O importante é saber apreciar o que toma. Não pode é encher a cara”.

Passam-se mais uns dias, um amigo faz aniversário, você na festa avisa: “Só uma taça, estou de carro”.

O vinho está bom, mas o melhor para refrescar é cerveja. No aperitivo um uísque, acompanhando o peixe um branco, com a sobremesa vai bem um licor, e a champanha na hora de comemorar. Aniversário de amigo, tem que participar, dá um abraço cara, você sabe que eu gosto de você, não eu tô bem, deixa que eu vou sozinho, dá um abraço aí, pô Tiagão, a gente cresceu junto cara, eu te amo meu!…

Choro convulsivo.

Pronto, de poço de sabedoria a poço de álcool. Entendeu a lição?

Você não se arrependeu o suficiente. Da próxima vez, beba mais.

Domingo em Antananarivo

Cheguei ontem à noite, via Johannesburgo. Vôo da Air Madagascar, avião velho e usado, mas limpo, pessoal de bordo gentil; símbolo pintado na cauda, a palmeira em forma de leque. A cara do país.

Aeroporto modesto, espera-me o Monsieur Leonnel, que jamais respondeu a meus e-mails. Burocrata sério, introvertido. Embarcamos em uma Renault 19 em estado de avançada decrepitude, chego a duvidar que nos leve até a cidade. No trajeto, conversa sobre importações da China, têxteis, concorrência desleal, possibilidades de aumentar tarifas, medidas de defesa. Estrada asfaltada mas sem qualquer sinalização, prédios modestos. Chegamos. Cansaço. Apanha-me no hotel segunda-feira, 8:00 da manhã.

Hotel Colbert, colonialismo moderno francês. Decoração francesa, com leve sotaque local. Exotismo light.

Café da manhã. Croissant de verdade (1 só, promessa). Croissant é teste fatal. Só francês sabe. Suco de grenadelle = maracujá.

Bermuda, tênis, óculos escuros, uniforme de turista. Direção ao mercado. Ambulantes em quantidade oferecem jornais, frutas, artesanato, algumas crianças pedem esmola. Coleção de estandes de alvenaria, telhas francesas, tetos pontudos, quase orientais. Transição entre África e Ásia, como os genes locais. Formas tradicionais (tetos inclinados das cabanas), materiais europeus (pedra e cimento). Belo conjunto arquitetônico, equilíbrio de linhas e volumes.

Escadas entre casinhas, quase barracos, ladeiras. Rumo ao Palácio da Rainha Mankamiadana, meados do séc XIX. Edifício quadrado, 4 andares altos, torres quadradas salientes nos quatro ângulos. Domina a cidade. Elementos decorativos clássicos. Ruínas, incêndio em 1995. Reconstrução lenta, parada. Não troquei dinheiro para comprar entrada (2500 Ariary = 1 Euro). Choferes de táxi na entrada, bela sombra de um imenso jacarandá, matam o tempo jogando pedrinhas em um tabuleiro riscado no cimento do beiral. Pedrinhas brancas e negras. Meninos oferecem visita guiada. Que jogo é esse? Uma espécie de damas. Venez, Monsieur, quer aprender a jogar? Chama-se Fanorna (fa-nú-rn). Regras simples, mas infinitas possibilidades de ataque e defesa. Um deles explica: antigo jogo hebraico (as linhas do tabuleiro formam estrelas de David), trazido há séculos por mercadores judeus e árabes. Sobrevive no Madagascar, popularizado pela nobreza, treino de estratégias de batalha. Monsieur vem de onde? Brasileiro – futebol, Ronaldo, um cantarola Aquarela do “Brasil, Brasil…”. Quem diria, Ary Barroso no Madagascar. Repasso as regras de movimento das pedras. Me desafiam para uma partida. Empate, sorte de principiante – ou gentileza com o estrangeiro. Observo os outros, jogam rápido, a cada movimento muitos palpites em malgaxe, língua estranha, sonora. Todos bilíngües. Jogo termina com a chegada de dois orgulhosos galos de briga, seus donos igualmente. Limpam o chão de terra – só treino. Combate mais tarde, com direito a sangue e apostas. Meu irmão Walter no Madagascar.

Continuo o passeio, esplanada com belíssima vista para a cidade, colinas. Demoro-me. Mendigo levemente alcoolizado puxa conversa, sente pena de ver monsieur sozinho olhando paisagem. Oferece-me rum local no gargalo. Non, merci. Abre a garrafa, joga um pouco no chão, “pour les ancêtres” – pro Santo (!) – dá vários goles. Bêbado igual no mundo inteiro. Rio sozinho.

Mais abaixo, catedral católica, final séc XIX, rosácea gótica. Multidão em trajes domingueiros (senhoras com finas estolas de seda nos ombros, elegantes; senhores de terno e gravata). Não ouso entrar (bermuda). Pela porta principal, o som de grande órgão, Ave-Maria de Schubert, cantam em malgaxe, grande fervor. A 200 metros, a igreja Episcopal, nova multidão, todos de bíblia em punho. África herdeira e futuro do Cristianismo.

À tarde, Jardim zoo-botânico de Tsimbazaza. Palmeiras e leguminosas estranhas, outras plantas ornamentais populares no Brasil. Evito as jaulas, com exceção da dos lêmures, mistura de gato e macaco. Observo. Dois senhores saem de trás das casinhas em forma de círculo. Sussurram “venez, monsieur”. Entro por um pequeno portão, deve ser proibido. Depois me pedirão umas moedas. É hora de alimentar os bichos. Nomes científicos (“macaco fulvio” !), várias espécies, pequenos, maiores, impressionantes olhos verdes, outros olhinhos azuis muito claros, lindas pelagens, uns com coroas brancas, douradas, todos com pequenas patas, mãozinhas, cinco dedos, lambem mel dos dedos do senhor mais moço. O mais velho acaricia os bichos fora das jaulas: são monogâmicos, têm poucos filhotes, às vezes nascem gêmeos, algumas poucas espécies têm ninhadas. Fêmeas, sempre de pelagem mais clara, dominam os bandos. O senhor mais moço, com orgulho: só existem no Madagascar, são únicos. O mais velho retruca: cada um é único.