Arquivo de abril, 2005

Sonhando Com as Estrelas

Já era noite. Por volta das 23h00. Eu estava na minha casa primordial. Não a casa que moro hoje, e nem a casa que já morei um dia. Eu estava na casa que sempre estou nesses momentos.

Olhava pela janela e via a Lua. Enorme. Linda!

Minha mãe passou por perto desviando minha atenção por alguns instantes. Quando voltei minha vista para a Lua, vi, muito rapidamente, um lindo cometa cruzando-a. Quando ele se escondeu atrás dela, uma explosão gigantesca aconteceu.

Olhei para minha mãe perguntando se ela havia visto aquilo. Não, sabia que de alguma forma eu era a única testemunha daquele momento extraordinário.

Concentrei meu olhar no Espaço e percebi que o local onde antes havia a Lua se transformara numa gigantesca nuvem de poeira que se expandia e avançava de forma colossal na direção da Terra.

Fiquei aflito como nunca havia ficado. Pensei no Fim dos Tempos, no Apocalipse. Imaginei que a nuvem cobriria nosso Planeta acabando conosco, como alguns dizem ter acabado com os dinossauros. Mas o que realmente me afligiu, foi em pensar no fim da minha casa. A casa que sempre sonho. Abrigando meu pai e minha mãe tão indefesos como eu, porém muito mais importantes para mim, do que mim mesmo.

Corri, desesperadamente, e fechei todas as entradas que vi deixando a porta de vidro da sacada por último. Sabia que não teria como segurá-la sozinho.

Não sabia se os vidros suportariam a ventania que viria junto com todo aquele “pó-de-Lua”, e nem se meus esforços seriam ínfimos e ridículos perto da força daquela explosão. Mas não tinha escolha, eu tinha que tentar.

Segurei a trava da porta e através do vidro vi a montanha de fumaça se aproximando. Já estava bem próximo de nós.

Minha mãe veio junto de mim e também segurou a porta. Por mais apavorante que fosse a situação, eu não estava apavorado.Apenas tenso e concentrado.

Finalmente a poeira atingiu meu prédio. Junto com minha mãe, travei uma luta inconcebível com aquele inimigo muito maior do que nós.

A porta tremia, algumas frestas deixavam passar um pouco de fumaça. No geral, eu agüentava bem a força que vinha no sentido contrário. Na calma e dedicação de sempre, minha mãe também suportava tudo aquilo.

Depois de alguns minutos, sem muita explicação, a fumaça se dissipou. Pelo que via da mesma sacada, o Planeta sobrevivera. Eu também, junto com minha família, principalmente.

Caminhei até a janela onde tudo começou, e fui surpreendido por uma nova visão. Havia uma nova Lua. Bem mais próxima da Terra e, portanto, aparentemente muito maior. Era quase como uma visão de um desenho. Em volta dela, 3 pequenos planeta-satélites orbitavam em grande velocidade. Bonito de ver.

Dentro daquela realidade, tudo voltava ao normal. Eu, minha casa, minha mãe novamente passando do meu lado e roubando minha atenção por instantes. Tudo estava tranqüilo novamente.

Acordei em paz.

Itinerário

Mais um dia estúpido, no mesmo bonde estúpido. A única vantagem da rotina é que eu nem preciso acordar para fazer o caminho até a faculdade, o corpo vai sozinho enquanto a cabeça fica desligada. É fácil, nada muda nunca no trajeto. O transporte público na Suíça é irritantemente pontual, eu pego o 15 todo dia às 07:28 e ele nunca se atrasa, nem se adianta. Os passageiros são sempre os mesmos e se cumprimentam sempre com a mesma cortesia oca, “Bonjour, monsieur”, “Bonjour, madame”, depois do sorriso protocolar cada um pode ficar em silêncio sem constrangimento.

Liberado das preocupações práticas pela força do hábito, fico livre para desperdiçar o tempo da viagem da mesma maneira de sempre, deixando a mente divagar por assuntos repisados, abrindo e fechando os olhos ao ritmo das paradas. “Prochain arrêt, Nations”. Uma desaceleração suabilíssima e os olhos se abrem, por um breve segundo perdem-se no letreiro luminoso, nos passageiros que sobem, na propaganda da Banque Cantonale. Então o bonde acelera, os olhos se fecham e tudo se embaralha novamente, Bucherer, Transports Publics Genevois, o gordinho do gorro verde, viramos na Rue de Lausanne, preciso preparar o seminário de quarta-feira, quando chega na Gare Cornavin a senhora de bengala espirra, aquela que sempre sobe nos Pâquis, melhor reservar o manual de semiótica na biblioteca antes que alguém pegue, os adolescentes sobem na Rue des Terreaux du Temple ouvindo iPod, esquis em oferta na Manor, será que a Viviane vai ficar hoje à tarde, que importa, ela não liga para mim mesmo, nossa que cheiro bom.

Só reparo na moça quando ela já está sentada do meu lado, não sei o que me tira da torpeza, acho que o perfume, ou a voz, parece que cada palavra tem um aroma, as risadinhas são de baunilha. Tento abrir os olhos devagar para fingir que não estava cochilando, como se adiantasse, que vergonha, ela desviou das minhas pernas para se sentar e eu ali dormindo. A amiga dela na minha diagonal me lança um olhar de desprezo enquanto as minhas pálpebras se desgrudam. Na minha frente, a dona de echarpe creme, que sobe no Boulevard Georges Favon, continua abraçando a bolsa de jacaré, a Tribune de Genève e o saquinho de papel da padaria.

Faço aquela cara de sério padrão para disfarçar a absoluta falta momentânea de conteúdo mental. Finjo analisar meticulosamente o vôo dos passarinhos entre os plátanos da Plaine de Plainpalais. Na verdade, só sei que são plátanos porque alguém me disse, e os passarinhos não tenho a mínima idéia de que espécie são. Mas fornecem um pretexto sutil para ganhar tempo até meu cérebro conseguir acompanhar a conversa da amiga com a moça ao meu lado.

Eu nem preciso olhar para saber que ela é linda, nenhuma mulher com risadinha de baunilha pode ser menos do que linda. Além disso, pega mal ficar encarando quem está com o cotovelo colado no seu, ela pode pensar que eu estou achando ruim e descolar, não há pretexto sutil para eu virar noventa graus para a direita, só se apontar para fora e disser de repente “olha, um melro-vermelho-dos-alpes!”, não, muito tosco. Contento-me em deixar meu cotovelo imóvel, para que ela encoste mais nele a cada curva, e observar as únicas partes do corpo dela disponíveis desse ângulo de visão, que são os joelhos e as mãos colocadas sobre uma pasta de documentos. Que mãos! E que joelhos!

A amiga, por outro lado, é antipática até não poder mais, uma magrinha sem graça que só reclama. Percebo que, na verdade, as duas não estão conversando, a amiga fala mal de tudo, olhando para mim de vez em quando como se eu fosse o culpado, enquanto a moça só balança a cabeça, com um sorriso complacente, e solta uma risadinha de baunilha de vez em quando.

Na Avenue Henri-Dunant, a amiga cata as coisas num gesto brusco, salta do assento sem parar de reclamar do mundo, passa tropeçando no meu pé e desce sem se despedir da moça. No começo não faz falta nenhuma, mas logo em seguida percebo que ela tinha uma única função positiva, a de provocar as risadinhas de baunilha, que agora estão caladas. Fico aflito. Minha parada é a próxima. “Prochain arrêt, Uni-Mail”. Dentro de mim, uma esperança natimorta estoura como um balão de ácido. A moça olha para fora, alisa os longos cabelos castanhos, o bonde pára, vejo no vidro o reflexo dos olhos verdes, atrás do reflexo as janelas da faculdade, atrás das janelas a escadaria, depois a aula de filosofia da linguagem que vai começar em quinze minutos, e o bonde anda.

Ótimo. O destino quer assumir a irresponsabilidade no meu lugar, e eu não reclamo. Afinal, posso assistir a aula de filosofia da linguagem na sala da noite, preparar o seminário de quarta-feira à tarde, e se alguém pegar o manual de semiótica eu peço emprestado ao Alexis. Tudo resolvido. A felicidade alça vôo dentro de mim como o melro-vermelho-dos-alpes, o mundo inteiro fica luminoso e eu sorrio abestalhado para a dona de echarpe creme. Já que perdi o ponto, não faz sentido descer no próximo. Começa a brincadeira.

Preparo-me para lançar uma das inúmeras frases galantes que meu cérebro oferece eufórico, viro-me para a moça esboçando um ar sedutor, os olhos verdes me fitam por um segundo, “Excusez-moi”, ela murmura com sorriso tímido, já está de pé segurando a pasta de documentos contra o peito, eu me levanto para deixá-la passar, também paro junto à porta, descemos e ela segue pela calçada do Boulevard du Pont-d’Arve.

E agora? E agora? Entro em pânico ao imaginar que posso estar vendo-a pela última vez. Se ela nunca pegava aquele bonde, quem garante que vai pegar de novo? Preciso desesperadamente descobrir algum ponto de referência, provavelmente ela está indo para o trabalho. Finjo que vou para o lado oposto, deixo ela se afastar alguns passos, depois volto pela mesma direção. Ela vira à direita na Rue de Carouge, entra numa galeria comercial, será que… não, só compra um croissant e sai, atravessa a rua, pára no canteiro central. Espero fechar o sinal de propósito, para não segui-la muito de perto, finjo olhar os jornais na banca, quando o sinal abre corro para alcançá-la, ela já está entrando no Crédit Suisse, deve ser ali que… não, alarme falso, só saca dinheiro e continua. E agora? Tento manter a distância, tenho de esperar passar um grupo de escoteiros, através das bandeirolas só vejo os cabelos castanhos se agitando com o vento, se afastando, virando outra esquina.

Obviamente, perco-a de vista. Contorno o quarteirão, vou e volto diversas vezes pela calçada, olho dentro de todas as lojas, sem medo nenhum de parecer louco. Acho que faço jus ao título mesmo, já não é a primeira vez que me meto numa trapalhada dessas por causa de uma esperança estúpida, só pasto na mão de mulher, até quando não boto a mão nelas. Olho ao redor e percebo finalmente onde estou, rue Dancet, andei em arco de círculo, não estou longe da faculdade. Ainda estou xingando a mim mesmo quando empurro a porta de um café, faltam vinte minutos para o final da primeira aula, não vale a pena entrar atrasado por tão pouco. Acomodo-me no banco próximo à janela, encaro a rua desanimado, contemplo o concretão estúpido da faculdade enquanto a irritação se dissipa em tédio, e vou jogando em cima da mesa o caderno, os livros, as luvas, o cachecol, penso que vou ter de ficar até a noite para ver a aula que perdi, preparar a droga do seminário, pedir emprestado o livro que não reservei, quando chega a mocinha do café, “Que désirez-vous, monsieur?”. Viro-me, sobressaltamos, os olhos verdes se iluminam no rosto dela, e ela deixa escapar uma risadinha de baunilha.

FÓRMULA-1???

Há quanto tempo, amigos! Pois é, depois de 1 ano estudando, sobrou um tempinho para escrever. Não vou ser hipócrita, tive tempo no último ano, só não tive assunto.

O que me traz aqui dessa vez é, mais uma vez, o fantástico mundo da Formula-1. Impressionante. Maravilhoso. Rápido. Bonito. Mas está cada vez mais escroto. Quanto mais eles mexem, mais prejudicam.

Fizeram de tudo para que nos últimos cinco anos o Schumacher deixasse de ganhar. Só dava o alemão. Mesmo não gostando dele, tenho que falar. O cara sempre teve sorte, sempre teve carro e, por que não, competência? Acho que não, talvez os outros fossem incompetentes. Mas isso não é o ponto. O ponto é que na verdade a Formula-1 está RIDÍCULA!!! A maior palhaçada que eu vi nos últimos 20 anos de Formula-1 é essa temporada, totalmente atípica e desestruturada.

Queriam que o Schumacher parasse de ganhar. Ele parou, mas a monotonia aumentou. Em três corridas em 2005 não tivemos 1 (UMA) ultrapassagem sequer entre primeiro e segundo colocados; NENHUMA. Aliás tanto o Fisichella como o Alonso não defenderam em nenhuma curva as lideranças. Patético. Por mais que o Schumacher ganhasse tudo nos últimos anos, eu vi ultrapassagens, boçais, mas vi.

Daí o infeliz que narra a corrida fala que a Formula-1 está super competitiva, cheia de ultrapassagens e emoção. Bom, como já foi dito no primeiro lugar de cada corrida não teve emoção, mas justifico com muita facilidade o que tem ocorrido do segundo para trás. A palhaçada é tamanha que, para poupar motor e pneu, as equipes grandes, que de fato se preocupam com o título, poupam carro (conjunto) para levar o carro até o fim da corrida e somar pontos. Já as equipes médias que precisam aparecer na mídia para atrair patrocinadores e, por que não, disputarem alguma coisa, treinam que nem loucas na sexta e no sábado e acabam largando no meio do pelotão dianteiro e ficam a corrida inteira atrapalhando quem tem o carro mais rápido, poupado para a corrida. É mole? Ou a Red Bull – que a Globo para não pronunciar o nome da bebida chama de RBR – a BAR (que realmente não está competitiva) e a Sauber estão com super equipamentos, brigando de igual para igual com Mclaren e Ferrari? A única que realmente teve uma evolução foi a Toyota. Olha o Trulli! Além do cara ser bom, a equipe não está tendo as falhas do ano passado. Até o meia boca do Ralf está andando bem.

Palmas para a Renault! A culpa pela não competitividade na ponta não é dela. Muito pelo contrário, se tem uma equipe que se adaptou a regras ridículas foi a Renault. Falando em regras, que palhaçada o treino antes da corrida!!! Sempre gostei de acordar para ver corridas pensando “Hoje fulano vai largar na pole” ou “Hoje neguinho vai ter que fazer uma corrida de recuperação”… hoje acordo sabendo que não sei quem é o pole para assistir uma corrida imprevisível do segundo para trás. Mas se é para ter zona, que quero zona bem feita, com gente entrando de lado nas curvas, arriscando, como os caras da IRL fazem. É ridículo ver gente no final de uma corrida de Formula-1 sem poder fazer nada pois o pneu pode estourar a qualquer momento!!! SALVEM A FORMULA-1!!! SOCORRO!!! Por que não dobram o tamanho dos pneus, liberam a suspensão ativa (por segurança) e diminuem UM POUCO a capacidade dos motores??? Por que não fazem isso??? Se é para somar tempo de dois treinos, que um seja na sexta-feira e outro no sábado!!! SOCORRO!!!

Fica aqui a minha indignação e lamentação pelo que tem ocorrido com o mais brilhante dos esportes.

Suspleito

O País estava mobilizado. As Autoridades Competentes não economizaram esforços para fazer bonito no evento que todo mundo vinha saudando como “a maior festa da democracia”. Cuidaram obsessivamente de todos os detalhes e, com exceção dos candidatos, estava tudo preparado. Baixaram regras para dizer quem cada postulante podia levar, foram ao rádio e televisão para convidar toda a população, não saíram do ar até o dia da festa, que era para que ninguém deixasse de ir mesmo. E mais do que tudo, se esmeraram na recepção. Puseram uma delas em cada seção. Moderna, novinha, inviolável. A urna eletrônica era a menina dos olhos das Autoridades Competentes.

Sabiam faz tempo que essa jóia de urna seria a musa das eleições. A musa perfeita das eleições perfeitas, tinham certeza. Quem diria, hein? Uma eleição presidencial cem por cento digital. Talvez a primeira eleição presidencial cem por cento digital do mundo, pensavam em êxtase. Transbordando de orgulho, garantiram à imprensa uma apuração em tempo recorde. Até a meia noite, no máximo uma da manhã, toda a nação saberia o resultado. A maioria se entusiasmou.

A maioria, não todos. Sempre tem uma minoria barulhenta e invejosa para querer estragar a festa. Sem muito ibope por aí, esse pessoal resolveu desancar a urna eletrônica. Repetiam que ela era fácil, vendida, promíscua. Diziam para quem quisesse ouvir que ela faria qualquer coisa por dinheiro. As Autoridades Competentes não deixaram barato e saíram em defesa de sua menina prodígio. Garantiram, explicaram, mostraram por A mais B que a urna era mesmo inatacável. Os dois lados ficaram batendo boca, só que sozinhos, porque a preocupação geral era com a melhor forma de comparecer à tal festa democrática. Assim, foram todos votar e não se falou mais nisso. Até que saíram os resultados oficiais.

Haveria segundo turno, como as pesquisas apontavam. Nada de novo. Também conforme as previsões, o candidato do governo estaria lá. Mas ao contrário de todas as expectativas, o adversário dele seria o extremista. Surpresa geral. Eram três no páreo: o homem do governo, a oposição tradicional e estabelecida e um franco-atirador de extrema. Não se sabia se de extrema direita ou de extrema esquerda, nem isso importava, já que na prática dava no mesmo. Todos os levantamentos indicavam como certo mais um clássico do returno presidencial: situação x oposição establishment. Mas eis que o extremista colocou as barbas do velho opositor de molho.

A chiadeira foi instantânea. No começo foi acusação para todos os lados do comitê, do marqueteiro à moça do café, que podia muito bem ser uma espiã dos adversários. Por fim, a palavra “fraude” começou a correr de boca em boca e todos se lembraram das coisas horríveis que andaram dizendo sobre a urna eletrônica. A imprensa doméstica engrossou o coro, sendo reforçada pelos colegas estrangeiros tão logo a coisa tomou ares de crise institucional. Todos acusavam a coitada da urna. Queriam prova que ela não tinha feito o que se dizia que ela tinha feito. As Autoridade Competentes garantiram a lisura da sua urna, mas para seu desgosto, foram obrigados a instaurar um inquérito contra a filha pródiga. Pior: seriam outros a devassá-la, uma vez que observadores internacionais foram chamados para conduzir o processo e fiscalizar o seu comportamento no segundo turno.

As duas semanas seguintes transcorreram tensas. Os institutos de pesquisa com medo de serem acusados de má-fé, os candidatos com medo de serem roubados, a população com medo do extremista e o governo de ver comprovado algum tipo de fraude. Enquanto isso, alheios à eletricidade no ar, técnicos e doutores dos mais respeitados centros de pesquisa mundo afora dissecavam as urnas. Uns a pedidos das Autoridades Competentes, outros, da oposição e outros ainda, para tranquilizar a comunidade internacional. No dia marcado, o País voltou às urnas. Votaram arredios, desconfiados.

O comunicado que dissipou a nuvem de hostilidade pairando sobre o Território Nacional veio no fim daquela mesma noite. O candidato moderado havia vencido com boa margem. Alívio geral. Para desencorajar o lançamento de novas suspeitas, as Autoridades Competentes aproveitaram a ocasião para divulgar os laudos sobre as urnas eletrônicas. Todos comprovavam a sua inviolabilidade. O País recebeu a notícia com alegria, mas em silêncio. Se a urna não tinha sido manipulada, só havia uma explicação para o resultado do primeito turno. Apesar de já saberem o motivo, os eleitores, constrangidos, ouviram as Autoridades Competentes sentenciar em alto e bom som: foi falha humana.

Portas

Pode-se saber muito de uma pessoa pelo jeito em xque ela abre uma porta. Fazendo uma análise mais simples e rápida, dividimos a humanidade (com exceção dos astros pop que não precisam exercer essa atividade) em dois tipos de pessoas: aquelas que empurram/puxam a porta antes de virar a maçaneta, e aquelas que viram a maçaneta e só depois empurram/puxam a porta.

Os seres da primeira espécie são relativamente espalhafatosos. Podem ser notados a um, ou até dois, ambientes de distância. Isso porque o choque ocasionado entre o trinco e o batente, na tentativa de deslocar a porta antes do movimento completo da maçaneta provoca um estrondo alto e forte, que, comumente interrompe reuniões e aulas, acorda pessoas dormindo, provoca sustos em pessoas que são facilmente assustáveis e ainda avisam o jovem casal na sala que o papai bravo da menina acabou entrar na casa. Tira a mão da filha dele, antes que seja tarde.

Os seres da segunda espécie tem um comportamento mais discreto. Podem entrar numa reunião em andamento sem ser notado, nunca acordam um colega de quarto, assustam pessoas facilmente assustáveis com um grito ou outro gesto mais efetivo e que não dependa do uso da porta, e são os piores pais de namorada que um jovem rapaz que está com a mão onde não deveria estar, pode enfrentar.

Uma porta apenas encostada, e não verdadeiramente fechada, provoca uma catástrofe para os dois tipos de pessoas.

No primeiro tipo, o efeito lembra uma pisada em falso, um empurrão na hora de entrar em cena, ou ainda, algo próximo de uma bala de canhão entrando na sala de jantar da sua namorada, quando todos o esperam. O problema é que o movimento de deslocamento da porta, deveras agressivo, não encontra a resistência devida e o corpo do infeliz acaba sendo projetado alguns metro além do espaço desejado, seguido de um leve deslocamento de ombro, já que a mão nunca se solta da maçaneta nesse tipo de episódio.

No segundo tipo analisado, a decorrência não é de cunho físico-performático, mas suas conseqüências não são menos graves. Um indivíduo que apresenta esse tipo de comportamento é muito tímido, ou pelo menos, não deseja ser notado naquele momento. Nessa situação a vítima normalmente pressiona a porta no sentido contrário à sua abertura (puxa a porta quando esta deve ser empurrada para ser aberta, e vice-versa) antes de dar início ao giro da maçaneta. Tudo isso para não provocar nenhum tipo de ruído, porém, nesse caso, a manobra acaba provocando um forte choque da porta com o batente em questão, afinal de contas, a porta está afastada alguns centímetros da sua posição ideal de descanso. Resultado: presencia-se um estrondo maior do que o provocado pelos seres do tipo 1.

Poderíamos passar horas discorrendo sobre o comportamento dos seres humanos que abrem portas. Temos, por exemplos, provas contumazes da relação direta entre a tipo de abertura de porta e os grandes gênios russos do Xadrez. Mas, no momento, não me sinto suficientemente a vontade para continuar o debate.

Muito obrigado, e ao sair, por favor, feche a porta.

Orgulho de ser Nacional

“Não tem nada a ver com patriotismo, nem com orgulho. É uma questão factual. Sou Nacional. Eu e mais quatro. É um grupo de pessoas sim, comum, meio loucos talvez, mas não somos uma seita religiosa, nem um partido político, muito menos um grupo de pagode. Cinco cidadãos comuns.

Um dos Nacionais eu conheço desde que eu nasci, ele até me batizou. Se ele pudesse ter um sobrenome novo a emenda perfeita seria “”, deixa que eu resolvo!””. Com exclamação assim mesmo. Ta certo que ele ainda não aprendeu a mandar e-mails com a destreza necessária, mas do resto, deixa que ele resolve.

O outro nacional eu conheci na primeira aula do MBA. Um menino de nariz empinado, a princípio, com ar de sabe tudo. Com o passar to tempo, virou minha dupla de trabalhos, ele voava e eu mantinha os pés no chão. É o único cara que eu conheço que tem um computador só para o seu firewall. Mistério.

O terceiro Nacional é o culpado por tudo isso. Louco. Se considera um chato, é verdade. Mas com o tempo passa e ele para de se preocupar com isso. Nasceu para administrar a “”lujinha””. Negociador de primeiríssima, meu bolso deve muito a ele. Usuário remanescente do famoso gel é porta voz oficial do grupo.

O quarto e último Nacional (pelo menos foi o último que eu conheci) é um típico “”quem vê cara, não vê coração””. Todo mundo que conhece se assusta, fica com medo. Vixe que homem bravo! Depois do terceiro ou quarto encontro, pronto, uma simpatia só. Garoto, fã de playstation e engenheiro master do grupo, é o integrante que pensa nos detalhes. Ah, quando você entrar num elevador, lembre-se dele.

Não há mais o que falar! Parabéns e longa vida aos Nacionais!”