Arquivo de maio, 2005

A Remark You Made

Começou com uma troca de olhares no corredor, feliz e inesperada, dois destinos atados irremediavelmente por um único entrelaçar de retinas. Depois, foi o difícil trabalho de aproximação, horas gastas no planejamento de coincidências, até conquistar o direito da primeira conversa, então outra, e outras mais, cinco, dez, quinze minutos, e sorrisos cada vez mais sinceros. Seguiram-se os trajetos de ônibus compartilhados, as pequenas atenções do dia-a-dia, uma bala, um cartão, um livro, a descoberta de gostos e interesses. Já não se escondiam atrás do acaso, marcavam hora para se encontrar, esperavam um ao outro na porta da sala. Um longo ritual para contornar as convenções sociais e os medos de cada um, e retornar enfim à franqueza do primeiro olhar.

O convite não poderia surpreender a nenhum dos dois, veio espontaneamente, inserido de modo natural na seqüência dos acontecimentos. Várias vezes durante o dia, confirmaram novamente o encontro, não pelo temor da desistência, mas pela alegria da antecipação. Antes da hora marcada, ele esperava no pátio em frente à biblioteca, sem impaciência. Sobre o banco as pernas cruzadas, sobre as pernas um volume de contos, que suplicava em vão para ser lido. Enquanto seus olhos percorriam as páginas sem vê-las, o pensamento se fixava na figura esperada, que finalmente despontou na saída ofuscando tudo que a cercava. Unidos num abraço mais do que amigo, cada um sorvia para si o aroma do outro.

Conversavam com evidente euforia, falavam sobre tudo, as aulas, os professores, a pragmática do discurso, a fonética das sibilantes na língua alemã, a poesia pré-romântica do século dezoito e a prosa niilista do pós-guerra. Tulipas em vaso de barro. Chá ou café? Os assuntos de sempre, porém nunca haviam sido tão interessantes, serviam agora para fazer ouvir o som de suas vozes.

Os movimentos acompanhavam as palavras, e sem perceber já estavam no carro, decidindo onde iriam jantar. Rodavam pelo campus sem direção precisa, prolongando o prazer da companhia mútua, até chegarem ao topo da colina. Dali avistavam a cidade ao cair da noite, contavam o reflexo das luzes no rio, sentiam a brisa fresca entrar pelas janelas. Um arrepio quase simultâneo, e não saberiam dizer se foi por causa do ar frio, ou do calor que os tomava por dentro. Suas vozes se calaram, e os únicos sons que continuavam eram o canto do saxofone, as frases do piano, o murmúrio do baixo, dizendo que estava tudo em ordem. A cabeça dela encostou suavemente no ombro dele, como se esse fosse o seu lugar natural, de onde jamais deveria sair. Os longos cabelos escuros deslizaram pelo casaco, o braço dele envolveu as costas dela, enquanto ambos aguardavam em silêncio o beijo que não tinha pressa em chegar.

Joe Zawinul, 1977

com Weather Report em Heavy Weather

Equação de Ligação Rompida

Lança olhar de estranho teor
A íris leve de sal, brilho;
Nos lábios, reta indiferente
De côncavo arco nem vestígio;
É outro vetor que traz calor.

Simples, corriqueiro diagnóstico
A tanto tórax aplicado:
Ao já não refém de um senhor,
Solto enfim o sinistro lado,
Ou ao que verga ao vácuo caótico.

À física sujeita a química
Em suas soluções reflete
Dela o corpus todo despótico
Que faz do explosivo inerte
Que do ardente o nulo fabrica

Das regras forçam revisão
O espaço, o tempo, dois agentes
Da corrosão, gêmeas faíscas,
Os dois universais solventes
Reflexo tornam refração

Resta da mirada vazia
Fórmula absoluta do ausente
Neutralizada a reação
Espaço antes inexistente
Sobra o nada onde nada havia

Meleca

A Verinha está profundamente irritada com o Rogê. O motivo? O Rui. O Rui é um daqueles amigos pré-casamento do Rogê que sobreviveu ao namoro, noivado e casamento, o que o torna um dos maiores fracassos dela. Não bastasse a gravidade do fato, o Rui ainda parece fazer questão de lembrá-la disso.

Como agora, por exemplo. Além de teimar em manter contato, pega e inventa de aparecer às cinco e meia da manhã de uma quarta-feira. Para ela, as lágrimas do bêbado do Rui não tinham outra explicação senão um lampejo de lucidez que fez com que ele localizasse entre os obituários do jornal a notícia de falecimento da sua dignidade. Já o Rogê estava preocupado com o amigo. Quando o Rui lhe mostrou o jornal, então, passou de preocupado a abalado. Bem abalado. Ela nunca tinha visto os olhos do Rogê tão cheios d´água.

No carro, a caminho do velório, a Verinha se recusava a acreditar que tinha sido arrancada da cama por causa do Meleca. Era só ver o estado do Rui para saber o tipo de exemplo que o Meleca tinha sido. Mas quem olhasse para aqueles dois ia pensar que hipnotizar hordas de crianças todas as manhãs com um boneco foi um marco, que não houve melhor manipulador de fantoches que o Meleca, que o Meleca revolucionou os programas infantis. Pior, perigava acreditar que um verdadeiro levante foi interrompido quando a mão por trás da lenda foi afastada do “MelecaMais” e outros dedos assumiram o manto. Esse foi o único momento em que a voz dos dois saiu firme, trocando as lamúrias pela indignação. Todos sabiam que o Meleca tinha sido contra as Melequetes e seus figurinos apelativos desde o início. Todos sabiam que por trás daquele fantoche havia um homem e sete dedos com necessidades. Dadas as circunstâncias, o Rogê e o Rui  consideraram não só injusto, mas de muito mau gosto dispensar um homem  com uma esposa e uma Melequete grávidas para sustentar. Impressionados com a coragem do Meleca em desafiar os limites pequeno-burgueses da socidade, os dois adolescentes não puderam deixar de condenar o mundo que ali estava, e que agora está aí, ó.

Quase vinte anos depois, ao contrário do Meleca, coitado, a história ainda estava bem viva para a dupla. Isso só deu contornos ainda mais lamentáveis à narrativa da sua tia-avó, a única pessoa velando pelo finado artista. Abandonado por suas mulheres, o Meleca mudou-se para o quartinho dos fundos na casa dela. Ia ficar ali até a poeira baixar e poder retomar a carreira, mas parece que o tempo foi passando e o pó assentou nele. Se enterrou no puxadinho por décadas, até finalmente morrer. Do coração, claro.

A Verinha acompanhava a história da porta. Também estava mortificada, mas não pelos mesmos motivos. Ela aguentou até deixarem o Rui no ponto de ônibus. Aí não conseguiu mais segurar e comentou sobre a admiração do Rogê pelo Meleca. Mesmo depois de tantos anos, mesmo devendo saber, não tinha idéia do quanto aquela figura era importante para ele. Talvez, explicou, porque sempre que a sogra comentava sobre sua fascinação pelo Meleca o Rogê dizia que era exagero. Como naquela vez que ela contou sobre o Meleca que, depois de muita insistência, tinha costurado para o filho. E que o Rogê jurava de pés juntos não existir. Por isso, mas só por isso, que estava tão surpresa. Não tinha entendido direito de onde surgiu aquele fantoche que ele e o Rui colocaram com tanta reverência na mão direita do morto enquanto ela se perguntava sobre que outras bobagenzinhas o marido andava mentindo.

Não que eu esteja bêbado …

Não que eu esteja bêbado, querida. Isso não vem ao caso. Fico procurando teu cheiro numa foto rasgada. A metade da tua foto rasgada. A metade que só tem a minha imagem e a sua mão me abraçando. A mão mais linda que já eu vi. A única parte do teu corpo que eu ainda lembro de verdade.

Não que eu esteja bêbado. Não é por isso, mas só assim, consigo sentir teu cheiro do meu lado. Teu cheiro que aperta mais forte do que qualquer abraço. Teu cheiro me abraçando. Como a tua mão naquela foto. Uma foto rasgada, mostrando o lado mais trágico de nós dois. Triste verdade.

Não que eu esteja bêbado. Mas lembro que aquele cara que atendia pelo mesmo nome desse bêbado que te escreve agora, já não concebia o quanto uma mão solta numa foto, poderia provocar tanta dor. Principalmente uma mão tão linda. Tão linda que eu nem lembro o cheiro, na verdade.

Não que eu esteja bêbado. Bêbado o suficiente pra ter certeza que esse texto não expressa dignamente a dor que vem me embriagando desde o dia que tua mão rasgou. Aquela da foto que te contei. Sua melhor foto. Rasgada. Talvez minha única lembrança a ser considerada verdade.

Pra te ser bem sincero. E, não que eu esteja bêbado, minha vida. Não te quero de volta pra mim. Não agora. Sem existir mais. Sem alguém na foto. Maldita foto rasgada. Só comigo. Sem você. Aliás, tem sua mão. Me abraçando. Como teu cheiro. Uma vida amaldiçoada pela mais cruel verdade.

Dr.Nhô

Uma aventura do agente Zero-Zero-Zé
por Iam Masficaram

“22, dois patinhos na lagoa!”. Como toda aventura de espionagem, esta começa num cenário glamouroso. Um bingo em Ituverava, para ser mais exato. Aqui vemos os integrantes das altas rodas intermunicipais saboreando suas horas noturnas de ócio em atividades dispendiosas. Uma voz suave como sola de peão profere os números sorteados: ” 33, idade de Cristo!”.

Uma mesa é ocupada pelos figurões locais e seus convidados de honra. A câmera dá um close num par de mãos masculinas, uma segura um cigarro de palha, a outra coloca mais um feijão em cima do número proclamado. “Eita matuto di sorrrte, sô!”, sentencia um distinto senhor com a camisa aberta até o umbigo. Uma senhora elegantérrima sob sua viseira de plástico indaga: “Mai como cocê fai pá tê tanta sorrrte, ô… quar quié seu nome memo?”.

Sem tirar a haste de capim presa no canto dos lábios, ele responde: “Meu nome é Zé, Zero à Esquerrrda”. A voz macia como lixa pronuncia mais um número: “24, o donzelinho!”. O forasteiro sortudo completa mais uma cartela. Despede-se de seus convivas com a adequação vocabular de quem
está acostumado à sociedade refinada – “Bas noite proceis!” – e sai do bingo carregando debaixo do braço o seu prêmio, um liquidificador de três velocidades.

O misterioso personagem se hospeda numa pousada rural à beira do córrego. Entra pela janela para despistar eventuais perseguidores ou cobradores de dívida. Precisa garantir sua segurança, afinal, tem uma missão a cumprir. Ele é o internacionalmente desconhecido agente Zero-Zero-Zé, a desserviço de sua majestade, dona Bete Rainha, viúva do coronel Tião Rainha, dono dessas terras todas até Santa Rita do Passa Quatro.

Trabalha para o MI 6, desserviço secreto de espionagem, assim chamado em virtude do tipo de operações conduzidas: MI dei mal, MI danei, MI ferrei, MI encrenquei, MI estrepei, Mi lasquei. No MI 6, 00Zé aprendeu a ter reflexos aguçados, essenciais para sua sobrevivência. É por isso que, depois de tomar banho na tina, cortar as unhas do pé e jantar uma buchada de bode, percebe que o vidro da janela do quarto foi quebrado. Sua inteligência fora do comum lhe permite relacionar os fatos: “Purisso qui num careci di abri a janela pá intrá!”.

No chão, um bilhete amarrado numa pedra. São as modernas tecnologias de comunicação do MI 6. 00Zé lê a mensagem assinada por sua secretária, Deiz Merréis. Está sendo convocado de volta à central por M, codinome do “Meu patrão”. Monta na sua carroça e parte feito corisco em direção a Pirassununga, onde o MI 6 tem sede (por isso se instalaram perto da fábrica de caninha). No tempo espantoso de três dias e duas noites, o veloz espião chega a seu destino.

Na central, instalada no subsolo de um recinto de rodeio, 00Zé arremessa o chapéu de palha num prego fincado na parede. Belisca a bunda de Deiz Merréis, numa demonstração do cavalheirismo irretocável que o caracteriza. Entra na sala do chefe, se afunda na cadeira de balanço e põe as botinas barrentas em cima da mesa, para desagrado do patrão: “Butina di pelica di novo, 00Zé? Eita coisa de frutinha!”.

M expõe o motivo da convocação. O desserviço secreto foi acionado para investigar o sumiço da Mimosa, vaca premiada da dona Bete Rainha, supostamente raptada pelo famigerado Dr. Nhô. “Nhô Bento o Nhô Tonho?”, pergunta o agente, exibindo seu excelente conhecimento das fichas criminais da região. “Nhô Portuno, aquei qui só atazana”, esclarece M. “Ai, chefe, nóis num pudia dizê qui u sistema tá Nhô Perante i isperá a pulícia cuidá disso?”. Uma chicotada na cadeira de balanço é a resposta de M, que o sagaz agente compreende sem delongas.

00Zé jamais sai para uma missão sem antes palitar os dentes e visitar o velho projetista Q, codinome de “Que trem é esse?”. Para esta missão, Q apresenta seu novo equipamento: um kit com quatro ferraduras. O espião exclama, com toda sua fleuma caipira: “Que trem é esse? Pra dá sorrrte?”. “Nada, procê carçá o jegue”. De fato, mais um invento extraordinário. “Pudia pegá imprestada as do Dr. Nhô!” murmura 00Zé, numa amostra típica do requintado humor interiorano que o notabilizou. “HAHAHA”, diz Q, deixando à mostra sua dentadura falha. “HOHOHO”, completa 00Zé, cuspindo de lado o fumo mascado, hábito refinado que o torna irresistível entre as damas.

00Zé calça o jegue modelo Z3 (Zureta, Zaroio, Zambeta) e o atrela à sua carroça. Não quer perder tempo. Velocidade é fundamental quando o futuro da roça depende dos agentes do MI 6. Por isso, depois de meio leitão à pururuca, quatro doses de pinga e um cochilo na rede, parte para cumprir sua missão. Em uma tarde, cinco noites e seis dias, está no sítio do Dr. Nhô. De longe vê o facínora sentado na varanda, alisando as penas de sua galinha de estimação.

00Zé chuta a porteira com toda a sutileza de estratégia que o distingue. Dr. Nhô, homem estudado, reputado por sua inteligência, compreende o que essa imagem quer dizer, sem precisar de mil palavras.Com um gesto, convoca seus jagunços estrangeiros (de Goiânia) que descarregam as
espingardas no intruso. 00Zé toma umas três salvas de sal grosso no lombo e foge numa carreira
abalada sem olhar para trás.

Após algumas horas de fuga, orientado por seu sistema GPS (Gaiato Perdido Sofre), dá com as fuças numa cerca de arame. Do outro lado, encontra a Mimosa em pasto aberto. Perspicaz como sempre, 00Zé conclui que ela não foi raptada coisa nenhuma, saiu foi pra comer a grama do vizinho, que, como se pode constatar na cena do crime, é sempre mais verde, informação que o agente transmitirá a sua secretária Deiz Merréis para ser incluída nos arquivos do MI 6.

Missão cumprida. 00Zé retorna à central, onde o aguarda a admiração de Deiz Merréis (cuja bunda ele belisca). Ela avisa: “Agora ocê vai vê o M”. “Meu patrão?”. “Nada, o Merrrthiolate memo!”. Ambos caem na gargalhada diante dessa tirada espirituosa, típica da finesse cabocla. M cumprimenta seu agente preferido e o informa que um prêmio lhe foi atribuído pelo seu desempenho formidável. Como recompensa, 00Zé recebe de Bete Rainha a Mimosa, o que prova que, no final do filme, esses heróis sem caráter ficam sempre com a vaca.

Escolhas difíceis

“É assim então?

– Exato!

– Meio exagerado né?

– Não é não, é a realidade desse mundo que vivemos!

– Mundo cão!

– Veja pelo lado bom, tem 50% de chance de dar certo!

– É verdade, mas como fazer?

– Desconsidere o ombro, não venda o ombro, alias, mentalize: “”você não tem ombros””.

– Tá.

– Venda o outro.

– Explicitamente? Falo as características?

– Não seu imbecil, seja subjetivo, venda o potencial, não a coisa.

– É que tem um defeitinho…

– Não quero saber, pelo amor de Deus cale a boca!

– Mas e se ela não gostar?

– Azar o seu. Parta para outra! Melhor que ficar ouvindo lamúrias!

– Odeio lamúrias!

– As lamúrias são as inimigas número 1 do homem sensível solteiro.

– Por isso a escolha é tão difícil. A linha é tênue.

– Exato. Lembre-se, venda o …., esconda o ombro!

– Afinal onde você quer que ela…

– Cale a boca pelo amor de Deus!

– Garçom, mais dois por favor!”