Arquivo de julho, 2005

Bodega

Leu a última linha, segurou a caneta no ar a meio caminho do papel:

– Mas nós vamos fazer isso mesmo?
– Claro, Morsa! Não tá vendo? Todo mundo assinou!

Contou as assinaturas, Lambuja, Birosca, Ralé, Batata, Martelo e Lesado. Com os nomes verdadeiros, claro, e sobrenomes completos. A turma toda, sem faltar um. Só o Tinho ficou de fora, por motivos óbvios. No rodapé de cada página, brilhava o selo holográfico, “Oficial de Registro do 34º Subdistrito”, mais dois carimbos, “Testemunho e dou fé”, bel. Olegário Mariano dos Santos etc.

– Sempre neste mesmo dia?
– É, igual hoje.

A esferográfica percorreu mais alguns centímetros em direção à folha, parou. O Morsa aproveitou para olhar os amigos no rosto, um por um. As risadas de sempre.

– Assina logo, Morsa, só falta você!
– Mas por que “Bodega”?
– E por que não?
– Não tinha outro nome?
– Sei lá, o que importa é que a gente vai estar junto, vai beber, conversar…
– Todo ano?
– É, aqui, neste mesmo lugar, todo ano, neste mesmo dia!

O Morsa releu mais uma vez o estatuto da associação, entidade privada sem fins lucrativos, constituída nos termos dos arts. 53 e 54 do Código Civil, com o nome de “Bodega”, cuja sede situa-se na Capital etc. e cuja finalidade etc. da qual são membros fundadores etc. as deliberações serão tomadas etc. estando assim acordadas e decididas conforme as cláusulas acima, as partes etc. Assinou. Urros de aprovação da turma.

– Vamo bebê pra comemorá!

O tempo passou, o ano acabou, eles se formaram, começaram a trabalhar. Às vezes se reviam na rua, por acaso. Nessas ocasiões, o Morsa sempre lembrava os amigos da Bodega. “E a associação?”, riam juntos, “Não vai esquecer, hein?”. Mais um encontro apressado, cada um pro seu lado, adultescência ingrata.

Até que, depois de doze meses, veio o grande dia. Morsa fez a barba, tomou banho, vestiu camisa nova, saiu mais cedo para não se atrasar, chegou adiantado, escolheu uma mesa no fundo e pediu um chope enquanto esperava.

Esperou.

Esperou a noite toda, e nada da turma aparecer. Nem um só. O Morsa, porém, não se irritou. Tinha boa índole. A cada meia hora, inventava uma nova desculpa para explicar a ausência dos outros associados. É verdade que não era um começo muito promissor, mas todo mundo estava atarefado, os horários eram pesados, o trabalho cansativo, e depois cada um falta achando que todos os outros vão comparecer, é normal. O chope, pelo menos, era bem decente, e finalmente não é tão ruim ganhar algum tempo para sair de casa, relaxar, pensar na vida.

Logo superou o incidente, caiu de novo na rotina. Sua vida não tinha surpresas, a não ser o casamento, contrariando os prognósticos negativos que o espelho lhe dava. Foi feliz o bastante para esquecer a Bodega. Até abrir a agenda na página daquele mesmo dia, onde anotara meticulosamente o compromisso assumido. Enterneceu-se com as lembranças dos tempos de faculdade, explicou a situação para a mulher, e lá estava ele de novo, no lugar combinado, no dia marcado.

Voltou para casa sem ter visto ninguém, vestiu pijama, a mulher já estava dormindo, deitou-se do lado dela e tudo continuou como antes.

Envelheceu, perdeu cabelo, ganhou barriga. Mudou de trabalho, fez outros amigos. Durante o ano, sempre acabava esquecendo da Bodega, mas chegava o dia e lá estava o lembrete na agenda, sobrevivendo de um ano para o outro. Na falta do que fazer, ele ia. Os garçons já conheciam o Morsa, sempre sentado na mesa do fundo. O seu Jacinto, dono do bar, fazia questão de lhe oferecer a saideira. Foi ele que trouxe o telefone para o Morsa receber da filha a notícia do nascimento do primeiro neto.

O Morsa, que já era da casa, ficou abaladíssimo quando, ao chegar no dia de sempre, soube do falecimento do seu Jacinto. Para ele, era como alguém da família. A família de verdade estava lá, no caso o filho do falecido, tomando conta do lugar. Nunca saberia substituir o pai, era um boboca metido a moderninho, queria reformar o bar, trocar a decoração, botar TV em todos os cantos. Estava jogando fora os cartazes antigos, limpando as gavetas. O Morsa assistia desconsolado à memória de toda uma era que se apagava.

O filho do seu Jacinto se dirigiu a ele chamando-o pelo nome, perguntando se pertencia a ele um papel amarrotado, que deixou em cima da mesa sem esperar resposta. Ainda sem entender, o Morsa começou a desdobrar as folhas amareladas cujas bordas se desmanchavam. Duas lágrimas caíram dentro do chope. Era o estatuto da Bodega, o original, o único, que ele não imaginava que tivesse sobrevivido, guardado todos esses anos na gaveta do seu Jacinto! Tudo começou com aquele pedaço de celulose. Os carimbos desbotados, o selo holográfico rachado, as assinaturas quase ilegíveis, mas o compromisso ainda firme, que ele, só ele, apesar da ausência de todos os outros, mantivera todos esses anos, de retornar no mesmo dia em que assinaram o estatuto, todo mesmo dia do ano, conforme escrito ali. Todo dia primeiro. De abril.

Pela Madrugada

Poucas pessoas admiram tanto os estabelecimentos 24 horas como eu. Sou daquelas pessoas que conseguem facilmente trocar o dia pela noite após 2 ou 3 dias de férias.

Costumo dizer que meu relógio biológico é regulado pelo horário oficial do Vietnã. Mesmo em época de trabalho, não sei dormir antes das 02h00 da manhã.

Esse fuso peculiar me faz ser um grande freqüentador dos ambientes 24 horas existentes na cidade de São Paulo. Aliás, não me imagino vivendo em outro lugar, principalmente por esse motivo.

Morei 3 meses em Los Angeles, uma cidade tão grande como a capital paulista, de 1º Mundo, mas que para meu desespero (e do Kris, outro cronista, meu companheiro de viagem também notívago) não funciona em tempo integral.

O único local que funciona até um pouco mais tarde é o “Hustler Café”. Para quem não sabe, a Hustler é a maior concorrente da Playboy americana, porém com um apelo, digamos, menos ortodoxo e que já trouxe muitos problemas ao seu dono.

O único problema deste local, era que íamos sempre em dupla, num Mustang branco conversível, e éramos obrigados a sentar num ambiente recheado de pênis gigantes de pelúcia, drag queens, bonecas infláveis e (o que era muito mais estranho) bundas moldadas no corpo de grandes estrelas pornôs da marca. Enfim … nossa busca era apenas de um local agradável para tomar um café e dar umas boas risadas heterossexuais, mas tenho certeza que, na melhor das hipóteses, éramos vistos como um simpático e alegre casal em lua-de-mel. Fazer o quê?

Em São Paulo, tenho um pouco mais de sorte, temos livraria, supermercados, cantinas, padarias, restaurantes e lanchonetes, inúmeras bancas, academia, gráficas, cafés (Fran’s, é verdade, mas ninguém é perfeito), docerias, e, obviamente, lojas de telha 24 horas!?!?!

Já precisei das mais diversos serviços e produtos que não estavam funcionando as 03h23 da madrugada, mas uma telha?!

E não é só uma. Existe uma rede de lojas gigantes de material de construção que funciona 24 hs. Um ultraje!

Fico pensando em como um casal recém-casado sofre com um absurdo desses :
-“Meu bem, queria tanto assistir um filme romântico agora, você aluga um pra mim?”
– “Olha, amor, filme não vai dar, mas se você quiser, posso comprar um sifão, pode ser?”

É inaceitável que não exista um cinema ou uma locadora (não erótica) de filmes que funcione por toda noite, mas que exista uma loja de telhas.

Alguém pode falar : “Minha pia já começou a vazar no meio da madrugada”. Minha resposta é : “Fecha o registro e vai dormir, caspita! Amanhã se resolve!”.

Outro alguém mais chato ainda pode falar que existem as locadoras automáticas dos supermercados 24 horas. E eu, mais chato ainda, respondo : “Você já viu algum funcionário habilitado a fazer a maldita carteirinha pra usar essa máquina, depois da meia-noite?? Pois é, eu não!”

Enfim … sempre aceitei bem o fato de que eu é que estou vivendo num fuso diferenciado, e portanto, cabe a mim se adaptar ao mundo feito para as pessoas que dormem durante a noite. Até agora, esse era um problema meu. Mas, sinceramente, não consigo mais dormir direito depois de descobrir que existem mais compradores de bidê notívagos do que pessoas em busca de um bom filme pela madrugada.

Sem dúvida nenhuma, esse mundo está perdido!

Anos Quase Incríveis

Quem assistiu a TV Cultura nos anos 90 teve a oportunidade de curtir programas geniais, que infelizmente não estão mais na programação desta emissora cambaleante.

“O Professor”, “As Aventuras de Tin-Tin”, “O Incrível Mundo de Beakman” e “Confissões de Adolescente”, são alguns dos programas que marcaram a infância e adolescência de muita gente nesta época. De todos, o mais famoso e que mais me marcou foi o seriado americano “Anos Incríveis”.

Passado no final da década de 60 e começo da década de 70, conta a vida de um adolescente chamado Kevin Arnold, o protótipo perfeito do anti-herói, assim como qualquer garoto de 13, 14 anos, que não tem a sorte de ser o mais popular da classe.

Além do protagonista, o seriado retrata a vida de todo o universo que gira em torno de um garoto dessa idade. Seus pais e irmãos, seu melhor amigo, sua vizinha e primeira namorada, colégio e etc.

O que faz esse seriado ser extremamente especial, além da sutileza e bom gosto para lidar com todas as aflições e inseguranças da adolescência, é a participação do Kevin Arnold adulto, que atua o tempo todo “em off” narrando e comentando os episódios com a devoção de alguém que se lembra e conta para alguém seus melhores anos.

Durante todo capítulo temos um “mentor” dizendo qual seria a melhor maneira de se enfrentar as situações, e ao mesmo tempo, um “discípulo” resolvendo os problemas da pior maneira possível, de forma exatamente oposta à apresentada pelo narrador. Assim como todos nós.

Há pouco tempo, tive a oportunidade de assistir vários episódios dessa série e sofri, ri e me comovi do mesmo jeito, ou até mais, de quando assistia há 10 anos atrás.

Mesmo “adulto” percebi o quanto as experiências de um jovem fictício viraram parte da minha vida e me fizeram bem, mesmo não resolvendo de forma prática nenhum dos problemas que eu tinha na época. E mais do que isso, independente da idade, começo a achar que a forma como lidamos com os problemas e principalmente como somos afetados por eles, não muda muito com a idade.

Pensando bem … seria muito bom se toda noite eu ainda pudesse desligar o Mundo por meia-hora, sentar para jantar na frente da TV, e aprender mais um pouquinho sobre a vida com os ensinamentos do velho jovem Kevin Arnold.

Sinto falar isso pra você mas….

Você é o que é porque quer!

Você acredita que a Mega Sena é a solução para seus problemas.
E nem ao menos joga.

Você não larga o cigarro porque não para de fumar.

Você não emagrece porque não faz dieta.
Se faz, ela não dá certo por que você não a obedece.

Você não é tão sarado(a) porque não pode/quer malhar 4 horas por dia.

Você não tem o cabelo igual ao da Jennifer Aniston/Brad Pitt porque o que você ganha por ano ela(e) gasta por mês para deixá-lo daquele jeito.

Você não fica tão bem com aqueles óculos RayBan porque não sabe se tem estilo para isso.
Se tivesse saberia.

Você broxa.
Se não, está mentindo.

Você se masturba.
Se não, está mentindo.

Você deseja o mal dos outros.

Você por muitas vezes ama mais seu animal de estimação do que seus próprios pais.

Você é invejoso.

Você gosta de ver desgraça.
Se não vê se frustra.

Você não fez o que quis por que faltou vontade.

Você trai porque não pensa.

Você não pensa porque se excita.

Você se excita porque é um bicho.

Você é racista.

Você chora.
Se não, eu choro.

Você nunca vai chegar ao topo.
Se não subiu nem um degrau.

Você fede. Cutuca. Bate. Apanha. Come. Bebe. Exagera.

Você é insignificante. Substituível. Mais um.

Você é odiado. Evitado. Indesejado.

Você é um idiota.
Se acreditar em absolutamente tudo que estou falando.

É a Economia, Estúpido!

Antes de mais nada, um aviso: o tema escolhido é recorrente nos anais da crônica. O mais coerente a partir daqui seria, então, enveredar por uma série de analogias entre as particularidades do trabalho dos economistas e alguma outra coisa que parecesse incongruente, como, por exemplo, religião. Como muitos traçaram esse tipo de paralelo com competência e presença de espírito, dá para pular a parte em que tais relações são estabelecidas, bastando usá-las quando for conveniente. O resto do tempo será gasto na construção de uma abordagem histórica que não perca de vista o drama individual. Para a coisa funcionar você deve aceitar que a Economia é hoje o sistema de crenças de maior alcance global e que nenhum ser humano reconhecido pela ONU lhe escapa.

O senso comum sobre o sistema econômico estabelece que ele não só é abstrato o suficiente como internacionalizado o suficiente para tornar viáveis as postulações das teorias do caos. Considerando o desnível de solidez das suas unidades políticas constituintes e a interdependência crescente entre elas, mesmo os mais céticos de vez em quando param para se perguntar se uma borboleta – física ou metafórica – realmente não tem poder suficiente para desarrumar o mundo. Cronistas costumam ironizar fundamentos, como o jargão litúrgico impenetrável, e fazer restrições à sua própria existência, mas nas entrelinhas não se atrevem a negar a tangibilidade dos efeitos da Economia. Como as características de seus movimentos são desiguais – suaves e pontuais nas benesses, furiosas e abrangentes nos reveses – e como ela tem essa incrível propensão a profecias auto-realizáveis, a prudência manda não arriscar e acender velas em mais de um altar.

O domínio da Economia nos grandes centros urbanos já está consolidado. O estilo de vida de uma metrópole para outra é tão parecido que, à exceção da língua – um inglês um tantinho diferente de business center para business center – e de alguns traços culturais nativos persistentes na arquitetura ou em um ou outro hábito pouco ortodoxo, Roma, Nova York e São Paulo são igualmente familiares e salubres. Mudar de uma para outra não requer prática nem mudança de status quo. Os mais entusiasmados atribuem o fenômeno a um intrínseco pendor apátrida, só que tomando o pulso dessas cidades com mais calma, o cosmopolitismo soa menos como um sinal de convergência através do progresso do que como homogeneidade resultante de um processo de aculturação. É deselegante, mas precisamos desmistificar a questão – o international airport way of life que ostentam não tem fundo genético. Sua origem está na trajetória da Economia, nada mais.

Como esta é uma narrativa épica, a história não pára em um punhado de cidades. Estamos falando de uma escala mundial. Pois então. Inicialmente circunscrita, mas livre da prisão ontológica, a Economia pode crescer. Sua influênca transborda das capitais para as regiões adjacentes, com um ou outro pulo. Assim, mais rápido ou mais devagar, vai dissipando dúvidas e avançando, alcançando os limites das regiões metropolitanas e aproveitando a fertilidade das fronteiras agrícolas.

Sua mão ainda é invisível em uma série de lugares, mas seu pé já está firme nas bases do poder. O noticiário político na mídia impressa e nos telejornais há tempos não fala de convicções em um sentido mais amplo. Mas não tem mistério. O ocaso das ideologias deixou a impressão que a política tradicional é puro mexerico, bem como a certeza de que a única posição da classe se sustenta sobre os cotovelos e joelhos. Aí fica fácil entender por que pauta de jornal sério é Economia política. É vendo e ouvindo Economia que sabemos o quanto ela vai permitir que o PIB cresça, qual a taxa básica de juros recomendada, quanto ela acha que os impostos vão crescer, quanto isso significa de aumento nas contas, etc. Acreditando ou não, é ela que tem que ser consultada quando se quer saber quanto vale a vida.

Nas megalópoles convertidas a Economia vai mais longe. Onde sua ascendência aparece de cara limpa, ela constitui um sistema de valores que dita as regras de organização e moldam os códigos de conduta e moralidade locais. Manter um estilinho urbano super básico e despojado, o mínimo aceitável para uma classe que é média apenas fora da curva de Gauss, não é tarefa simples. Por isso, para chegar lá, as pessoas não hesitam em empenhar o presente em nome do futuro, em investir toda uma vida no trabalho ou em poupar sonhos. Mesmo as taxas debitadas diretamente de princípios e reservas éticas são aceitáveis. A competição é acirrada, a Economia não permite caprichos. Vá lá. Agora, dava para passar sem a escassez de afeto que assola o cotidiano urbano. Economia é sufocante; mesquinharia, insuportável.

Facada nas costas

“Então, que horas você vai?

– Aonde?

– Lá, ué!

– Mas hoje não é dia de ir para lá!

– Mudou!

– Mudou?! Não pode mudar! Quem autorizou a mudança?

– Sei lá!

– Falta um pouco de burocracia nesse negócio! Olha que zona!

– Eu não tenho nada a ver com isso! Me avisaram agora!

– Avisaram quem? Quem avisaram? Essas pessoas não te nome?

– Não precisa ficar nervosinho. Você sabe quem são eles!

– Não posso ir para lá hoje.

– Não! Você tem que ir! Herege!

– Herege nada! Hoje não é dia!

– Todo dia é dia!

– Discordo, o estatuto é claro! Lá, só amanhã.

– Que estatuto?

– O que eu estou escrevendo agora, para que isso nunca mais aconteça.

– Você não pode ir mais tarde?

– Não!

– Mas vai ter chocolate.

– É?

– Suíço!

– Puta que pariu!”

Viagem

“O casal chega ao aeroporto animado com a viagem. Brincam entre si, fazem piadinhas carinhosas enquanto se dirigem até o ponto de encontro. Não vêem nenhuma sinalização e começam a imaginar se estavam no lugar certo Revisaram a instrução dada pela agência. Tudo certo. Asa 1, terminal 2, perto do guichê da Sombrero Linhas aéreas. Havia chegado 3 horas antes do vôo, melhor ser prevenido nesses casos.

Passado mais de meia hora, Josicleide não se agüentou:

– Querido, tem algo errado, muito errado, muito mesmo!
– Calma querida, vou até o balcão de informações.

Nesse meio tempo, uma família, dois casais e seus 15 filhos, não seu para contar direito, se aproximaram:

– Moça, vocês vão para o México com a Companhia Chaves de viagens?
– Sim, mas não achamos ninguém até agora.
– Nós também não.

Claudecir voltou com rosto perplexo:

– Ninguém sabe nada nesse aeroporto. Que faremos?

Toca o sinal do alto-falante do aeroporto:

– Atenção passageiros do vôo fretado 666 da Sombrero linhas aéreas, independentemente de onde vocês estejam, por favor se direcionem imediatamente a ASA 10, terminal 3.

Saíram todos correndo com medo de perder o vôo. Vinham pessoas de todas as partes do aeroporto, uma zona estava formada. Ao chegar à localização informada deram de cara com uma senhora, de cabelo vermelho, com um megafone na mão. Ela dizia:

– Obrigado a todos por virem prontamente, aproveito para anunciar que o vôo 666 atrasou, sairemos amanhã as 10 da manhã. Vocês todos receberão um vale café da manhã de 5 reais. Obrigado pela compreensão.

Josicleite ficou descrente, não acreditava em tanto desrespeito. Sentou no chão, não haviam mais cadeiras. Pegou a passagem e leu a capa do bilhete em voz alta:

– Realize seu sonho, viaje com os pacotes Chaves Viagens de férias.

Chorou.”

O Hipotálamo

Quando começaram a namorar, um dos motivos que fez com que ficasse caidinho da silva foi o fato dela ser tão organizada com seus horários. Nunca havia visto uma pessoa assim, com essa força de vontade e disciplina.

Claro que os olhos verdes e as pernas bem feitas também ajudaram, mas isso é detalhe. Não suportaria viver com uma mulher que não soubesse colocar ordem em seu quarto, o que dirá na própria vida.

E então o sorriso liso e os longos cabelos encaracolados contribuíram para que aquela paixão pegasse fogo. Era a mulher de sua vida, definitivamente.

– Não, hoje não posso. Você sabe, depois das onze e meia, cama.

Não demorou muito a descobrir algumas desvantagens. Noite de sábado, ele queria levar aquelas pernas e o sorriso para passear, mas não, só se fosse mais cedo. Onze e meia o alarme tocava e o prazo era improrrogável.

– Só meia horinha. Amanhã você dorme até mais tarde.

Em vão. Nem os sábados escapavam. O que dirá os domingos?

– Um churrasquinho inocente. O que tem de errado?
– O problema não é o churrasco. É o horário.
– Mas você não pode só uma vez na vida almoçar às duas? É domingo!

Mas não, nem adiantava argumentar. Uma das outras qualidades que fez com que ele se apaixonasse por ela foi a sua determinação. Um ano e alguns meses depois, a determinação virou teimosia. Ah, o tempo… impiedosamente, o tempo apaga as chamas e deixa os restos do incêndio ali, os escombros escancarados, e tudo se transforma, inclusive os pontos de vista.

Certa vez, tiveram uma briga terrível e chegaram a pensar em romper. Os olhos da menina pareciam duas lagoas cheias de água até a borda, e o verde das íris quase foi engolido pelo vermelho que o contornou. E, embora a paixão estivesse esquecida, o amor continuava forte. Ele não queria, percebeu que não queria, viver longe daquela pele que, de tão branca, parecia aveludada.

– Tudo bem, eu lhe conto a verdade, explico tudo.

Nunca pensou que houvesse um segredo entre eles, embora não tivesse contado que aquele troféu que guardava na sala de sua casa, do campeonato de futebol infantil, havia sido conquistado quando ele fazia parte do banco de reservas.

– Explicar o quê?
– Eu só obedeço a ordens. É ele que me manda fazer tudo isso.
– Ele quem? Fazer o quê?
– Acordar às oito, comer ao meio-dia, depois às quatro e depois às sete. Até ir ao banheiro… bem, não queria dar detalhes assim, tão sórdidos, mas até o horário de ir ao banheiro, eu desconfio que seja ele quem controla.
– Mas ele quem???

A menina não tinha pai, havia sido criada pela mãe, que não se casou de novo. Nenhum padastro, portanto. Sem irmãos. Os avôs haviam morrido quando era pequena. Não encontrou qualquer possibilidade entre a família de haver um homem que mandasse nela assim. O ex-namorado talvez… não, ele mataria o cafajeste!

– É aquele seu ex, não é? Aquele cara do brinco. Ah, mas eu acerto as contas com ele, de hoje não passa!
– Não é nada disso. Nunca mais vi o Esquilo.
– Então quem diabos é ele?
– Promete que vai ser compreensivo?
– Prometo. Agora responda: quem é?
– O Hipotálamo.

Depois de um breve silêncio recheado de interrogações, ela resolveu continuar a explicação.

– Você conhece, né? O Hipotálamo.

Ele não conhecia. Estudava Economia há três anos, entendia tudo de mercado de capitais e variações cambiais, mas, decididamente, o Hipotálamo não conhecia.

– Quem é esse cara? Quem é???

E antes que ele ficasse furioso e começasse a quebrar o apartamento, ela tratou de contar tudo. Havia sido apresentada ao talzinho nas aulas de Medicina e sua vida nunca mais foi a mesma desde então. Não, não precisa ficar com ciúmes, bobo. O Hipotálamo faz parte de mim, está aqui dentro. Não adiantou. Ele só ficou com mais ciúmes ainda. Até que enfim, a menina resolveu dar informações técnicas.

– Está no meu cérebro, faz parte da Hipófise, uma glândula-mãe que regula grande parte das funções hormonais do corpo. Por exemplo: é o Hipotálamo que tem a função de cuidar de perto do sono-vigília, ou seja, regula a hora de dormir e de acordar.
– E eu não tenho esse Hipotálamo?
– Claro que tem, todos nós temos.
– Pois eu é que mando no meu. Grande bobagem! Deito e durmo em qualquer lugar, não tem hora marcada.
– Pode ser, mas o meu é temperamental. Ou faço tudo como ele quer, ou estou perdida.

Foi estranho aceitar que aquela menina que parecia tão forte e decidida, na verdade era uma completa submissa a esse misterioso Hipotálamo. Um pau mandado, isso sim. Não gostou nada daquela história, e chegou a desconfiar dela. Mais lágrimas depois, a menina dos olhos verdes lhe deu um livro enorme, com não sei quantas páginas descrevendo o dito cujo. Então ele começou a entender melhor aquela história, ao menos era científico. E contra a ciência, que diabos? Estava lá, nos livros, não era algo a ser contestado assim. Vai ver que a teimosia toda nem era culpa da menina, o grande vilão da história era o bendito Hipotálamo!

Ainda tentou levar a história adiante e ser compreensivo como havia prometido, mas aquilo era demais para ele. Não poderia conviver com um terceiro naquela relação. Gostava muito da menina, sofreu horrores quando terminou tudo. O problema não era ela, entende? Só não podia separar aqueles dois, um não viveria sem o outro, literalmente. Se ainda houvesse uma possibilidade, qualquer possibilidade… mas não, ele teve que se resignar e aceitar o fato de que se casasse com a menina do nariz de boneca e pele de veludo, não estaria levando somente ela para a sua vida. Teria que aceitar definitivamente aquele Hipotálamo e não sabia se estava preparado para isso. Já pensou se o talzinho resolvesse lhe dar ordens também? Pior: se resolvesse ensinar ao seu como é que deveria agir? Não, não queria correr esse risco. Gostava de sua vida assim, com ele no comando de tudo.

É verdade que de vez em quando chegava a desconfiar da complacência do seu Hipotálamo. Com o da menina não tinha remédio, nem brincadeira. Era tudo ali, na risca. Será que o seu era assim, tão relaxado, de propósito? De maneira premeditada, fazia-se de bom companheiro para passar despercebido, mas na verdade, poderia ser só uma estratégia para não haver revoltas. Muito esperto…

Hoje, quando sente os olhos pesarem de sono, ele resiste. E nunca acorda no mesmo horário, nem que seja com um minuto de diferença, para mostrar quem é que manda. Está pensando o quê? Perdeu a mulher da sua vida porque não suportaria viver com um intruso em sua casa, imagine isso, viver com intruso dentro de sua cabeça!