Arquivo de agosto, 2005

Dois milhões

“Eu estava no carro, parado num congestionamento típico de quarta feira. Barulho de caminhões, vendedores de castanha, lavadores de pára-brisa e crianças malabaristas estavam por todos os lados. No rádio a notícia era – a cidade está parada -, desde quando isso é novidade. Por que diabos só se fala em trânsito? Será que não dá para contratar alguém para noticiar quais são as vias que estão sem trânsito? Deve haver alguma via sem transito. Bem, o dia que eu comprar uma rádio eu faço isso.

O celular começou a tocar. Era o Almeidinha, meu corretor. Não de seguros, da bolsa de valores. Era o cara para quem eu ligava e dizia: compre, venda, segura o preço e assim por diante. O que diabos o Almeidinha ia querer as sete horas? A bolsa nem está aberta essa hora. Será que ele fez merda? Será que eu fiz merda? Deve ser alguma merda.

– Oi Almeidinha.
– Seu Antônio, como vai?
– Depende. Por que você me ligou essa hora. Não é coisa boa né?
– Depende.
– Merda. Sabia.
– Pois é seu Antônio, o senhor acompanhou a bolsa hoje?
– Não, eu pago alguém para fazer isso para mim, deixe me pensar, é você! Fale logo Almeidinha, quanto eu perdi?
– Dois.
– Dois?
– Milhões.

Dois milhões, como diabos eu pude perder dois milhões. A Mari vai me matar. Eu prometi que ia comprar aquela cobertura na semana que vêm. Calma, mantenha o foco, tem algo errado aí.

– Almeidinha, você quer fazer a gentileza de me explicar como isso aconteceu? Antes que eu perca minha cabeça.
– A PB01 subiu 5% ontem e a VR01 caiu 3% ontem, e você se lembra da nossa operação surpresa de segunda feira, né?
– Lembro. Agora eu entendi. Não é tão ruim assim Almeidinha, não é mesmo. Muito pelo contrário, foram os dois mais bem investidos da minha vida. Obrigado por ter ligado.
– Até mais seu Antônio.

As vezes você acha que se deu muito mal, até você perceber que Deus te usou para fazer mal para alguém que realmente mereça ser punido. Seja louvado o Senhor. Liguei para a Mari.

– Oi linda.
– Totó, cadê você? A tia Verusca está te esperando para o jantar.
– Estou no transito. Em meia hora estou aí. O seu primo está aí também?
– Sim. Ele está meio mau humorado, alias.
– Eu sei o porquê. Lembra do apartamento que você queria?
– Lógico que lembro, aquele que a gente vai comprar semana que vem, certo?
– Então…
– Totó Junqueira, o que você fez com o nosso dinheiro?
– Eu não fiz nada. Seu primo fez, durante o jantar da Tia Valesca, quando ele pegou o meu celular, ligou para o Almeidinha e disse: Vou te mostrar como se faz um bom investimento.
– Eu não acredito que aquilo deu errado, quanto a gente perdeu?
– Dois
– Dois?
– Milhões.”

Imaginário popular

Só pode estar me traindo. Porque numa boa, essa história de “happy hour” eu não engulo. “Happy”? Não tem que ser “happy” coisa nenhuma. Trabalho é trabalho. Vamos lá fazer nossos deveres, tomar bronca do chefe e na melhor das hipóteses tomar um café depois do almoço com o Orestes, da contabilidade.

“Happy”? Só se for o dela. E se é tão feliz assim só pode estar me colocando um belo par de chifres. Há tempos que eu venho observando. Ela vive falando daquele tal de Rogério, Rômulo sei lá. Ok. Não tem falado tão frequentemente. Talvez tenha mencionado umas duas vezes. Mas temos que manter os olhos abertos não é? No mundo de hoje, vacilamos por um momento e tá lá. Na nossa cara. Nossa desmoralização. Fomos corneados.

“Hour”? Porque que tem que durar tanto. Ela não me liga. Já faz exatamente 15 minutos que ela me ligou. Deve estar muito entretida lá com o Rodrigo. Papo vai, papo vem, uma mão aqui, outra ali e PAM. É assim que funciona. Sei como é. Já fui solteiro. A gente não perdoa.

Será que esse cara é daqueles bonitões? Não. Sou mais eu. Mas ele deve ter um carrão. Só pode. Para impressionar a mulher dos outros. Fica se gabando dos bancos de couro pra levar mulher alheia pra cama. Ou pra qualquer outro canto mais próximo. Já vi nos filmes. Não sou bobo. O cara passa a lábia, queima meu filme, se aprochega e PAM. Estão lá os dois se afonhicando no banheiro do bar.

“Bar”? Porque não fazem o tal “happy hour” (happy???) num lugar mais adequado. Na Igreja por exemplo. Isso sim é útil. E sério. Todos juntos numa só oração. É sinergia. Mas não. Eles gostam é da promiscuidade.

Vinte minutos já e nada. Ah esse Ricardo é muito cara de pau. Fica pegando minha mulher. Ela nem deve pensar em mim; ou melhor, pensa sim: “Ai se meu marido descobrir!”. Por isso deve gostar mais ainda. Do perigo, do proibido. Deve falar que não temos a mesma tensão sexual de antigamente, que não tenho mais aquele furor. Mas a culpa não é minha. Poxa, ela sabe como o meu trabalho anda estressante. O que aconteceu ontem não vai acontecer sempre. Não é porque aconteceu cinco vezes no último mês que vai ser corriqueiro. Ei de me reerguer.

Duro. Vai ser duro encará-la. Toda prosa, sorriso no rosto, cara de satisfeita. Toda cheia de Renato em cima dela. Safado. Sou chifrudo e tenho que me conformar.

Será invenção? Coisa da minha cabeça? Pode ser. Sempre fui um pouco inseguro. Acho que estou fazendo mal julgamento dela. Independente do cara dar em cima ou não, é nela em quem devo depositar minha confiança. Besteira da minha parte até. Pensar essas coisas. Depois de tantas provas de amor, declarações e compreensão que ela vem me demonstrando deveria botar um pouco mais de fé nela.

É isso aí. Parei com isso. Vou receber ela de braços abertos. Tenho que apoiá-la em primeiro lugar.

Triiimmm!!!

Interfone. Chegou. Pode subir.

– Oi mozão!
– Oi queridinha. Tudo bem?
– TUDO ÓTIMO!
– Como foi de “happy hour”?
– Nossa. Foi uma DE – LÍ – CIA. O Reginaldo te mandou um abraço.

Questão de Sobrevivência

Laura queria conhecer os amigos de Luiz. Coisas de namorada. Só não sabia que eram daqueles amigos mamutes que saem para beber toda sexta naquele mesmo bar barato, decorado por mesas de metal fornecidas por uma cervejaria de quinta, onde o garçom era conhecido por Jorjão, que os munia de petiscos engordurados para acompanhar a cervejinha servida em copos americanos. Não era exatamente o lugar onde Luiz, um namorado gentil e exemplar, costumava levar sua namorada, sempre arrumadinha e perfumada. Hum… Namorada… Amigos ogros… Não parecia uma boa idéia. Mas sabe como é, ela insistiu tanto para conhecer os amigos dele em seu habitat natural. Então não havia alternativa senão levá-la ao bar do Manecão e conhecer o Fabão, o Gutão e o Neyzão.

– Ô Luizão! É essa a tua baga?

– Porra Fabão! Larga de ser viado! Respeito com a Laura!

– Uiuiui… Dando uma de machão só porque tá com sua minazinha…

Depois de incontáveis palavreados gentis referentes à mãe alheia, Laura já começa a olhar para o relógio. Estranhamente (ou não) ela foi a única que não achou graça nenhuma quando o Neyzão fez um comentário sobre a lingüicinha que o Fabão comia. Boceja algumas vezes até que no momento mais animado da conversa, onde o Gutão relembrava o dia em que o Neyzão ficou com um travesti, ela solta o famoso: “Ô mor… Vamos embora?” Diante tal argumento (e a cara de tédio de Laura) não resta outra opção a Luiz a não ser terminar seu comentário sobre o timão e partir imediatamente.

No caminho de volta a contabilização do saldo da noite:

– “Luizão”? Eles te chamam de Luizão?

– Qual o problema?

– Fabão, Gutão, Neyzão… O que vocês têm com aumentativos?

– É assim. Você tem que mostrar respeito. Imagina um marmanjão me chamando de “Luizinho”. Não pega bem.

– Pois é “Luizão”, como você muda na frente dos amigos. Nunca tinha ouvido você falar palavrão.

– É uma questão de sobrevivência. Tem que ser agressivo, marcar território. Senão eles te dominam!

– De que você está falando?

– É simples. Imagina se te chamam de “Cuzão”. O que você responde? “Seu bobo”? Não! Responde com um “E sua mãe dirige caminhão na marginal sem camisa!”.

– Que infantilidade.

– Também acho. Mas tem que impor respeito. Respeito é tudo! E um toque de criatividade também ajuda.

– Não gostei do “Luizão” que conheci hoje.

– Eu tenho que ser assim. É um mundo sujo.

– Não liga pra eles, só dizem bobagens.

– Ignorar é pior. Eles te comem vivo!

– Mas são seus amigos!

– Por isso mesmo. Os amigos são os piores. Têm mais liberdade, sabe? Por isso tem que ficar sempre atento. Em tudo que você disser, eles tentarão encontrar algum duplo sentido.

– Ai, que horror!

– É assim mesmo, portanto NUNCA, mas NUNCA mencione nada sobre “dar”, “chupar”, “pegar” e muito menos referir a qualquer objeto fálico – quanto maior, pior.

– Que paranóia!

– Sobrevivência, sobrevivência…

– Machismo! E aquele papo sobre “fio-terra”? Aposto que todos já experimentaram com a namorada e ninguém admite. Semana passada mesmo a gente…

– NÃO! Nunca ouse mencionar nada sobre isso! Eu nego até a morte!

– Por que? Isso não tem nada a ver com falta de masculinidade.

– Mas vai explicar isso para eles! Eles nunca te ouvirão. E cada palavra que disser ficará pior. E isso será lembrado por toda minha vida!

– Que exagero.

– É assim. Amigo é gente que lembra. Colocarão em minha lápide: “Luiz, aquele do fio-terra”, só para eu não ter paz nem depois de morto.

– Eu não entendo, então por que vocês continuam amigos?

– Assim são os amigos, oras. Para beber cerveja, falar sobre futebol e sacanear um com o outro.

– Aliás, eu nem sabia que você bebia, nem que gostava de futebol.

– Bom, na verdade eu só bebo com eles, sabe como é, para pertencer ao grupo. Imagina o quanto eles pegariam no meu pé se eu chegasse no bar e pedisse um suquinho de pêssego. Ridículo. O Jorjão iria me expulsar de cara.

– E o futebol? Por que nunca me disse que gostava de futebol?

– Eu odeio! Mas eu tenho que me manter informado sobre os jogos, senão não tenho assunto no bar, né? Vou falar de volley?

– Se você não gosta de cerveja, não gosta de futebol e acha infantil ficar pegando no pé um do outro… Então por que você continua amigo deles?

– Ai Laura… Amigos são amigos…

– Continuo não entendendo…

– Esquece, acho que você nunca vai entender.

– Humpf… Homens…

– …

– …

– Er… Laura?

– Que?

– É sério… Nunca comente nada sobre o “fio-terra”, ok?

Homem É Tudo Igual

-Homem é tudo igual, mesmo!
-Ô se é!
-Eu não agüento mais!
-Ah, eu imagino!
-Imagina?!
-Ô!
-Então, multiplica por 1000!
-Puxa …
-É sim! Homem não presta!
-Ah, isso é uma verdade!
-E os que prestam, são uns trastes!!
-Ou num presta, ou é um traste. Disso não passa.
-Isso falando dos héteros claro!
-Ah sim! Quanto mais machão, ihhh …
-Trastes!!

Silêncio

-Olha … eu tento não pensar nisso!
-É melhor num pensar mesmo, você só se …
-Mas não consigo!
-Homem, homem, homem! Impossível não pensar, difícil mesmo.
-O que mais me incomoda, é a necessidade que a gente tem ficar com um deles!
-Ah, precisa! Querendo ou não, uma hora tem que ficar um …
-Por mais independente que for …
-As mulheres hoje em dia … “Iche”! Uma mais independente que a outra!
-É o que eu sempre digo!
-Você vive falando mesmo!
-Mulher é burra! A gente reclama, reclama, reclama …
-Reclama, reclama, mesmo!
-Mas se derrete toda com um homem abraçando a gente bem apertado!
-É … Com abraço num dá pra resistir mesmo!
-Mas é só passar o efeito do abraço!
-Passou o efeito e …
-É só passar o efeito que a gente começa a ficar maluca com as coisas que eles aprontam.
-Vive aprontando mesmo!
-Só apronta!
-Iche!
-Valdemar! Pára de repetir tudo que eu tou falando!
-Ah ! Eu repito mesmo!
-Que saco!
-Saco, viu?
-Nem pra defender a classe você presta!
-Eu não. Defender o que ?
-Os homens!
-Que homens, mulher!
-Os “Homens”. Toda classe, homem de Deus!
-Que classe, Neidinha. A última vez que eu defendi a classe, tomei 3 dias de suspensão e quase não pude de ir na festa de formatura…
-Homem é tudo igual!
-Concordo!
-Heim?
-Concordo e assino embaixo!! Por isso que casei com você, meu amor. Agora vem aqui, me dá um abraço, vem, Neidinha.
-Ah, traste! Homem é tudo igual!

Acordou

“Acordou. Havia deixado a televisão do quarto ligada. O abajur também. Pensou – para que serve um abajur mesmo? A conta de luz virá alta esse mês. Tirou o cobertor e sentou na cama, fitando o armário – preciso trocar esse pedaço de merda. Calçou as pantufas. Eram azuis. Se dirigiu calmamente ao banheiro, apoiou as mãos na pia e se olhou no espelho. Tentava enxergar um homem diferente, mas a imagem refletida teimava em permanecer lá – tenho que fazer a barba, é quarta feira.

Tirou o pijama, verificou se a toalha estava seca. Espreguiçou-se lentamente. Bateu com a mão no lustre – merda de teto baixo, apartamento de anão. Ligou o chuveiro e aguardou que a água esquentasse. Xampu e depois o condicionador. Lavou o corpo com um pouco de pressa. O frio era muito e ventava pela janela que havia esquecido de fechar. Enxugou-se dentro do box. Ainda estava com vapor da água quente.

Havia separado a roupa do dia, ontem, como sempre. Calça preta, camisa branca – de novo, vou de garçom, preciso de roupas novas. Calçou os sapatos, impecáveis. Foi ao engraxate ontem. Tinha muito orgulho disso. Pegou a pasta, as chaves do carro, carteira, caneta e celular. Não gostava muito dele. Considerava um incômodo, uma coisa perturbadora.

Tomou uma xícara de café e desceu até a garagem. Abriu o carro. Levantou a tampa do porta mala. Jogou a pasta. Riu, adorava jogar a pasta! Ligou o motor e saiu da garagem um pouco mais rápido que o usual. Estava com um olhar decidido. Olhar que não lhe era comum. Sempre havia sido relutante em tomar posições definitivas sobre a sua vida.

No primeiro semáforo ele olhou para a moça no carro do lado:

– Moça, abra o vidro por favor.
– Pois não.
– Você é muito bonita. Eu adoraria jantar com você hoje a noite. Depois do jantar com certeza eu a levaria para minha casa, e faríamos sexo até o amanhecer. Eu te amo!
– Vá para o inferno!

Sorriu novamente. Saiu suavemente com o carro. Sempre quis fazer algo como aquilo. Hoje era o dia ideal. Não haveria nenhum tipo de represália, culpa ou constrangimento. Foi lá e falou. Na avenida, ele avistou a grande árvore. Sempre quisera saber qual tipo de árvore era aquela. Tronco largo, porém baixo. Copa grande e robusta. Uma belíssima árvore. Fazia sombra em toda praça.

Olhou para o relógio no braço esquerdo. Oito em ponto. Perfeito. Acelerou com tudo. Primeira, segunda, terceira e quarta. Já estava a cento e vinte quilômetros por hora. Tomou duas multas e fechou dois carros. Quando subiu na calçada da praça, sentiu um pequeno impacto. A guia era baixa. Atropelou o carro de cachorro quente que não deveria estar lá. Calculei errado, pensou. Bateu na árvore, morreu.”

Como Dar uma Notícia Triste

A Margarida e a Sílvia eram amigas desde pequenas. Em mais de quarenta anos de convívio quase diário, jamais houve segredo entre elas. Por isso, quando morreu o Betinho, marido da Aninha, uma amiga em comum, a Sílvia achou que devia dar a notícia antes de qualquer outra pessoa.

– Alô, Maggie? É a Sil. Como você está?
– Vou indo, na medida do possível, né.

“Ih”, pensou a Sílvia, “então ela já sabe”.

– É difícil, eu sei, continuou a Sílvia.
– Nem me diga.
– Mas a gente supera.
– Vai tentando… Quando chega assim, de repente, é sempre um choque.
– Por que de repente?, perguntou a Sílvia, intrigada.
– Ué, só fiquei sabendo dois dias atrás, bem na hora em que aconteceu.
– Mas Maggie, já fazia tanto tempo que ele estava assim…
– Como, tanto tempo?!

Agora era a Margarida que não estava entendendo mais nada. A Sílvia tentou explicar.

– Ah, Maggie, pelo menos uns três anos, né? A gente via o que estava acontecendo, o jeito como ele se comportava, a voz meio diferente…
– Que jeito? Que voz?
– Bom, não era nada decisivo, podia ser outra coisa, sei lá, talvez a gente não quisesse enxergar. Mas, depois, não tinha mais como negar. Principalmente depois daquela semana em que ele sumiu.
– Ai, não! Ele tinha falado que era uma viagem de negócios!
– Pois é, a gente também achava que era. Só que, na volta, a Aninha contou tudo em detalhes.
– Quem? Não acredito! A Aninha foi com ele?
– Ué, claro, Maggie. Pára de se fingir de tonta. É óbvio que a Aninha foi junto.
– E vocês nunca me contaram nada?!

A Sílvia percebeu que a Margarida estava chorando. De raiva.

– Olha, Sil, você podia ter me avisado, não? É o mínimo que você podia fazer, em nome da nossa amizade!
– Mas Maggie, todo mundo sabia!
– Eu não sabia, Sil, eu não sabia! E você, minha amiga, não me contou nada!!
– Por que eu ia ficar comentando? Só para piorar a situação do coitado? Se você não estava vendo, é porque é muito distraída mesmo. Não põe a culpa em mim!
– Ah, que beleza!! Coitado, ele? Então a culpada sou eu, agora? Todas minhas amigas sabendo que meu marido está me chifrando e eu sou a culpada?!
Silêncio, só soluços. A Margarida não conseguia mais falar, ofegante depois da explosão de fúria, abatida pela dor da notícia, sacudida pelo choro.

– Maggie…?

A Sílvia podia imaginar com toda clareza a expressão da amiga, o telefone encostado no ombro, o lenço molhado na mão, o olhar perdido na ponta do pé, sem coragem para reatar a conversa, e ao mesmo tempo querendo tanto saber como ela terminaria.

– Maggie, do que você está falando?, retomou a Sílvia, com a voz doce que sabia que a Margarida precisava ouvir. Que história é essa de chifre? O que é que o Plínio fez pra você?
– V-você a-acabou de f-falar que… t-todo mundo… s-sabia…
– Imagina, nunca ouvi falar disso. O que ele fez?
– E-ele me largou… Faz dois dias.
– Como assim… de repente? Você não estava percebendo nada?
– Nada… cheguei em casa e ele já… já t-tinha levado t-todas as coisas dele… ele f-falou que tinha outra…
– Credo, amiga… que horrível…

Outro silêncio. A Margarida ainda soluçava baixinho quando ouviu uma risada discreta da Sílvia.

– Ai, Maggie, desculpa… entendi… Eu nem sabia, não era nada disso que eu queria dizer.
– N-não?, fez a Margarida, voltando a si devagarinho.
– Nunca, ninguém sabia. Que horror… o Plínio… como pôde…
– Eu achei que você tinha escondido isso de mim todo esse tempo…
– Imagina, claro que não! A gente precisa se ajudar, nessas horas, mesmo se tiver que contar notícia ruim. Se amiga não fizer isso, quem vai fazer?
– Puxa, Sil, eu que peço desculpas… dei escândalo à toa… que bobeira… Sabia que podia confiar em você.
– Claro que pode! Que besteira! E a gente quase briga por causa disso!

A gargalhada de uma acabou de enxugar as lágrimas da outra e, passado o mal-entendido, as duas continuaram a ser as melhores amigas do mundo. A Margarida ficou tão aliviada que estava até mais alegre.

– Ai, ainda bem que não era nada… pelo menos ninguém sabia… só faltava mais uma notícia ruim para piorar… Sil, imagina como a Aninha vai rir quando a gente contar para ela! Somos duas tontas, mesmo. Mas, então, você ligou para que?
– Eu… a Aninha… enfim… era… ai, não… notícia ruim… Maggie, o Betinho… três anos contra o câncer… não resistiu…

No Banheiro

É que escureceu de repente, sabe? Do nada. Não do lado de fora, claro. Era baixa madrugada, então lá já estava escuro. O banheiro é que se enfiou nas sombras sem aviso. Estava ali tranqüilo, folheando uma revista. Revista, não livro. Onde já se viu? Todo mundo sabe que não se leva livro para o banheiro. Não, nem que seja só a passeio. Como, por sinal, era o caso – a revista estava mesmo só a passeio. As pessoas sempre pensam o pior quando a gente fala de banheiro e publicações, mas desta vez ela estava ali porque sim. Qual o problema? O banheiro é um cômodo como qualquer outro. Ainda mais quando se mora sozinho. Se bobear, mais pessoal que o próprio quarto. Não interessa. O fato: estava no banheiro. Com uma revista. E bem. Estava, estava; bem, super bem. Só que no banheiro. Aí tudo apagou.

A vida é feita desses pequenos grandes momentos. Quando podia ser uma coisa a mais, um acontecimento a mais, um acaso a mais. Só que não é. A gente sabe que não é; entende que não se trata de um instante do cotidiano que se anula em seguida, mas de um daqueles momentos definidores que, se temos sorte, reconhecemos na hora e, se não, vamos entender o que era muito depois, com o estrago feito. Porque apesar de ser perfeitamente compreensível, há que se concordar que ficar à toa no banheiro, só porque o banheiro era o lugar mais convidativo da casa num dado momento, não é a coisa mais normal do planeta. Por mais que todo mundo vez ou outra venha a fazer isso, não é o tipo de coisa que muita gente faz regulamente. Outra prova de que não pode ter sido à toa. Tudo confluiu. Estava ali, folheando calmamente, sem nenhum senso de urgência que ditasse o que fazer no banheiro, e, sobretudo, estava bem. Quando- BANG!

Coincidência demais. O que só pode querer dizer que não é coincidência coisa nenhuma. Quando essa consciência surge, bom, aí a cabeça começa a funcionar e tentar identificar as razões ocultas, os símbolos, enfim, entender as perguntas para que as respostas a esse teste-surpresa do destino sejam as certas. O importante nesse tipo de situação é deixar os preconceitos, as soluções pré-concebidas, de fora. Caretice só serve para atrapalhar e espantar a chance de ouro. Momento definidor não é decidir entre dois ônibus, caramba. Tem que ter a mente aberta. São escolhas verdadeiras na sua frente. Às vezes elas podem ser surpreendentes, outras nem tanto – e nem assim deixam de ser completamente previsíveis ou totalmente inesperadas.

Graças a essa mentalidade que, passado o susto inicial, começou a decodificação daquela escuridão. O primeiro passo foi entender a mecânica. Para desvendar o mistério era preciso responder a uma única pergunta: “o que diabos aconteceu com a luz?”. Assim alternativas começaram a ser experimentadas, sempre com o cuidado de evitar explicações condicionadas pelo sistema, com seu poder de soar verdadeiro sendo falso e soar falso sendo verdadeiro e tudo o mais. Em um mundo concreto e caótico, a explicação poderia ter um motivo físico besta qualquer. Talvez, talvez. Mas essa é a bóia dos imbecis. E estava legal, e não era imbecil. Tinha que continuar procurando. Numa visão mais ampla, mais sistêmica, deveria percorrer a História daquele ponto para trás e de lá de volta, resgatando os nexos causais e as implicações do acontecimento. Coisas muito importantes sobre a luta de classes, o fim da história e os descaminhos da humanidade teriam seu ápice naquele momento, iluminando um legítimo representante da classe média remediada, meio trabalhador meio proprietário meio dois, portanto ali no meio de tudo isso. Depois ainda seria preciso decompor os símbolos cuidadosamente, de forma que o contexto da transmissão da mensagem revelasse novos significados, ou mesmo a estratégia e cronograma de divulgação recomendados para o trabalho de difusão junto ao resto da humanidade. Pena que por mais que fizesse sentido, no fundo soubesse: não era esse o caminho.

Restava a estrada de baixo. Abandonar o universo dos outros e cair de cabeça no próprio, para então encontrar no apagão uma mensagem enviada especificamente para uma pessoa, cuidadosamente planejada no foro cósmico para quem realmente precisa dela. Um chamado à razão em oposição a uma existência entorpecida por todo tipo de agente. Uma chance de salvação individual. Era a hipótese onde as peças melhor se encaixavam. Estava no banheiro porque estava no banheiro. Podia estar em qualquer outro canto, mas estava ali. Sem motivo aparente. Quer coisa menos arbitrária? Aquele banheiro é a coxia de uma tragicomédia particular. Tudo que tem lá viu de camarote os espetáculos mais deprimentes que o homem pode imaginar. Para falar a verdade, quase tudo.

O basculante, por exemplo. Sempre aberto, oblíquo. Dissimulado. O basculante sempre pôde desviar o olhar, escolher ignorar. Como o espelho, que vive de fingir que não é com ele, fica enrolando, tentando inverter o que aparece na frente dele, e na prática só repetindo com ar de indiferença. Eles têm a opção da neutralidade. Podem deixar de ver os tropeços, as poses inglórias, a prostração diante da privada, as noites esparramadas dentro do box molhado ou em posição fetal no tapete úmido. As ocasionais viagens, nem sempre livres de turbulência. Ou as várias visitas – até os vizinhos reclamam. Se já é duro encarar os vexames do dono da casa, colocar mais gente é pedir encrenca. Seja “mais gente” mais uma pessoa, ou muitas “mais uma”, ou pior, amigos do dono da casa desfilando – ahem – gostos parecidos. A diferença entre os que não têm a sorte de se alienar está na atitude. O capacho não faria nada, nem a própria privada, coitada, que há tantos anos engole tudo quanto despejam nela. Até engasga, ok, mas sempre engole. Já as paredes, não. Com aquelas dezenas de olhos escancarados, vêem até sem querer.

No fim das contas, talvez não fosse uma mensagem universal, ou um convite à interpretação da história, mas que era um recado, era. O que aconteceu naquele banheiro é um protesto solitário de um grupo descontente, um verdadeiro assalto a uma consciência inapelavemente culpada. Um levante revolucionário tramado em silêncio e lançado na calada da madrugada. Ao se fecharem, represando assim a luz, os ladrilhos fazem seu alerta: do jeito que está não pode ficar. Qual o destino de tanto desgoverno? Quantas humilhações são necessárias? Já não é aqui o fundo do poço? Basta! Os indícios de um propósito eram claros: estava no banheiro; e bem, inteirão, imagina, nem de longe travado, claro que não. No ponto para poder perceber. Se o toque tinha sido recebido, atitudes precisavam seguir. A palavra chave naquele momento era comprometimento e isso precisava ficar claro. Assim, de pé, em voz alta, assumia a razão dos azulejos e prometia providências. Estava na hora de crescer e abraçar mais responsabilidades, concordava. Dali para frente seria um homem sério. Palavra. Como? Ia arranjar uma tartaruga, uma esposa, ter filhos, trocar a lâmpada do banheiro. Lances assim.

Zombie dogs

Os cientistas do , provavelmente renomado, Pittsburgh’s Safar Centre for Resuscitation Research tiveram sucesso em experiência realizada no final de junho deste ano.

Um cãozinho, após sua morte cerebral, teve seu sangue todo drenado. No seu lugar foi colocada uma solução salina gelada que serviu para garantir a conservação do corpo mdo dito cujo. Depois de três horas reparando o problema que levou o cãozinho ao falecimento, drenou-se toda a solução salina injetada e o sangue voltou ao seu lugar de origem. Milagrosamente, ou não, com um choque elétrico e oxigênio o danado cão voltou a vida. Sem nenhum dano cerebral ou sequela.

Espera-se que o experimento seja aplicado em humanos no prazo de um ano.

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– Fala mano. Beleza?
– Beleza.
– E aí cara, vamos bater uma bola hoje a noite lá no fundão?
– Putz, nem rola velho.
– Ah, não acredito! Vai ficar de frescurinha agora? Nunca foi de negar uma pelada.
– É que hoje to quebrado mesmo. Sem condição.
– Que foi? Muito exercicio com a marininha, garanhão? Vi vocês saindo juntos lá do BH.
– Nada. Esse final de semana foi pesado. No sábado tava passando mal, bem zuado mesmo. Achei até que era culpa daquele guisado de sexta. Fui para o hospital pra ver qual que era. Vomitei pra dedéu, tosse, dor nas costas. Rolou que eu acabei morrendo.
– Ah é? Pô, que merda hein. Mas o que era? O guisado?
– Não nem era não. Tive umas parada no pulmão. Sei lá. O fato é que morri, daí fiquei lá geladão umas quatro horas, até darem um jeito nas paradinha lá dos brônquios para eu poder ressucitar.
– Pô, foda. Isso deixa qualquer um quebrado mesmo. Mês passado eu morri também. Nem te contei né?
– Não, nem contou.
– Então. Tá sabendo que eu e a Luiza mudamos da casa que morávamos?
– Fiquei sabendo. Ela queria morar num apê né?
– Exato. Por causa de segurança, essas coisas.
– Sei.
– Apesar de não achar a idéia muito atraente, mudamos. Nunca tinha morado em apartamento e fomos logo pro sétimo andar.
– E tu tem medo de altura?
– Nem, mas você tá ligado que dou minhas escapas né?
– To ligado. Sai de fina na madruga.
– Só. O problema é que para evitar o barulho da chave sempre saí pela janela da sala.
– Sei.
– Você acha que eu lembrei que tinhamos mudado?
– Caramba! Se tacou lá do sétimo?
– Caí que nem pombo sem asa.
– Caraca. Que foda.
– É, mas o pior não foi isso.
– E o que foi?
– E pra explicar pra Luiza porque eu tava pulando a janela?

Festinha

“Olha aquela ali.

– Qual?

– A de vestido vermelho.

– Que mostrengo.

– A da direita.

– Ah. Que beleza. Essa sim.

– Chega junto.

– Como assim?

– Vai lá, jogue um papinho.

– E eu lá sou de papinho? Não consigo ter papinhos.

– Lógico que consegue. Vai lá e elogia o sapato dela. Nenhuma resiste.

– Elogiar o sapato? Como diabos se elogia um sapato?

– Diga que ele é o mais lindo da festa.

– Que tipo de mulher fica feliz em ter o sapato mais bonito da festa?

– Todo tipo! Eu sabia que não devia ter te dado o convite para essa festa. O Marcão a essa altura já teria tomado uns 4 tocos.

– Agora sua diversão é ver os amigos tomando toco.

– É.

– Por que você não chega na vermelhinha e elogia o sapato dela.

– Eu tenho namorada.

– E daí. Ela está aqui?

– Não.

– Então, vai fundo.

– Nem a pau, está cheio de mulher aqui.

– De novo. E daí.

– Ora, você sabe como essas coisas são. Alguma delas conhece uma amiga que conhece a Lurdinha…

– Chill out man! This is a party!

– Não começa com essa idiotice. Nós dois somos brasileiros.

– Mala

– Olha a de verde.

– Qual?

– Na varanda, de decotão.”

99 não é 100

Tudo começou com uma brincadeira boba, num site ainda mais bobo, de dois caras bem bobos querendo se divertir um pouco.

Eu e o Hermínio escrevíamos crônicas que não interessavam a mais ninguém além de nós mesmos. E adorávamos!

Logo depois veio o Kris, que sempre soube valorizar esse tipo de bobeira, e como todo bobo que preze, se sentia muito feliz e honrado em estar escrevendo textos para, no máximo, 2 leitores.

Com o tempo, os amigos resolveram ler o que escrevíamos, provavelmente por simpatia a nós ou curiosidade e, bem esporadicamente, começamos escutar alguém comentando algum trecho de nossos textos. Pronto!

A gente não podia mais parar. A sensação de saber que alguém leu e se importou com algo que você escreveu é boa demais para isso.

Criamos então outro site, pensando em aumentar os leitores, e como efeito colateral aumentamos os Cronistas autores do site. Esse novo grupo virou o Cronistas Reunidos.

Seis anos depois, já temos mais de 500 crônicas escritas, mais de 100 textos publicados por cronistas-leitores, muitos outros que não fomos capazes de colocar no site por pura falta de tempo e milhares (isso não é força de expressão) de comentários e e-mails recebidos de pessoas que nunca vimos!

Por ser um dos “donos da bola”, estou sendo o primeiro Cronista a chegar na centésima crônica publicada.

Para muita gente, isso não deve significar muita coisa. Mas pra quem começou tudo apenas por uma vontade boba, 100 crônicas escritas e essa história toda é uma prova concreta que qualquer vontade levada a sério, pode causar alegrias muito maiores do que o imaginado.

Se fomos bobos suficientes para começar tudo isso sem nenhuma perspectiva, não seremos loucos de abandonarmos essa brincadeira agora que está bem mais divertido.

Daqui a 60 anos, espero continuar preocupado demais com o que escrever no nosso site para me lembrar de envelhecer. E se nessa idade eu só tiver isso pra me preocupar, realmente serei um velho feliz.

Preciso confessar que, na verdade, essa é 99ª crônica publicada. Mas acho que usar da meta-linguagem pra escrever a centésima seria algo como fazer o milésimo gol de pênalti. E hei de reconhecer que no meu caso, amigos-leitores, isso seria um certo abuso.