Arquivo de setembro, 2005

Mudando de lado

– Mas porque não?
– Por que não!
– “Porque não” não é resposta.
– Ah meu! Quantos anos você tem?
– Não entendo qual o problema nisso?
– Todos.
– Me cita um.
– Você quer que eu te cite um exemplo?
– Isso um.
– UM?
– É, me fale algo que me impeça.
– Cara, é simples, pensa na vergonha que você vai passar quando as pessoas souberem. Pior, pensa no que seu pai diria se estivesse vivo?
– Vergonha do que? Não concordo. Além do mais, tenho quase certeza que meu pai foi um desses que viveu enrustido a vida inteira. Nunca teve coragem de sair do armário.
– Que blasfêmia! Falar do seu pai assim, ele que tinha tanta paixão. Nunca aprovaria uma coisa dessas, aliás, você sabe que ninguém aprova esse tipo de mudança, principalmente depois de velho.
– Numa boa, eu não dou a mínima. O que importa pra mim é ser feliz com minhas opções.
– Mas você parecia tão feliz. O que aconteceu pra você mudar assim? Desde quando vem isso?
– Eu realmente era feliz. Achava que era isso que queria pra toda vida, nem cogitava mudar. Mas sei lá, percebi que tinha alguma coisa errada.
– Que coisa? Quando?
– Bem, foi a algumas semanas atrás, eu tava assistindo o jogo do Timão contra o São Paulo…
– Aê, isso sim é coisa sua.
– É. Eu sei, mas num certo momento do jogo vi que não estava mais focado na movimentação do Marcelo Mattos no meio campo, nem ao menos nas falhas do Marinho na zaga.
– Nem me fala, aquele Marinho não serve nem pra gandula.
– Então. mas nesse dia nem me preocupei em xingar ele, nem ninguém. Minhas atenções estavam em outra coisa.
– No que?
– …
– Me fala cara, em que coisa?
– No Rogerio Ceni!
– NO ROGERIO CENI? O goleiro do São Paulo?
– Isso.
– O Rogerio Ceni, sósia do Luciano Huck?
– Isso! Quantos mais existem?
– Mas é que…sei lá cara, é tão estranho ouvir você dizer isso, fico meio sem rumo, logo você, que sempre foi um cara tão bem resolvido…
– Pois é. Não foi fácil admitir isso pra mim mesmo, por um tempo tentei negar o que estava sentindo, porém foi mais forte que eu. Como se tivesse nascido comigo.
– Que loucura cara. Mas você gosta dele mesmo?
– Você não tem idéia como. Não só dele como tudo que ele representa. Logo que percebi essa admiração tudo que eu pensava era em como seria bom se ele…
– Blergh! Pára, pára. Não consigo escutar isso.
– O que ?
– Esses seus sonhos cara. Não dá. Você vem com essa história de uma hora pra outra, não tem como eu achar normal.
– Pois é. Se me falassem que eu me sentiria assim algum dia, eu nunca acreditaria.
– Mas você tem certeza que não é uma fase passageira? As coisas não andam fáceis mas temos faturado várias, ainda que temos contado muito com a sorte. Graças a Deus
sofremos mas faturamos
– Esse é o problema. Analisa bem, nem combina comigo esse perfil. Gosto de ter uma certa segurança, ter regularidade, focar nas melhores. Não me agrada me matar para conseguir com sorte, talvez, na última hora, algo que nem é tão bom assim. Sofrer não é comigo.
– Mas você se orgulhava tanto disso.
– Outros tempos. Depois que reparei direito no Rógerio, sei que é isso que eu quero.
– Bem cara, você quem sabe, eu desisto, faça o que achar melhor, mas depois aguenta a bronca.
– É, eu sei. Vai ser dificil do pessoal entender né?
– Bem difícil. Até mesmo de aceitar. Sem contar os mais velhos que são muito mais tradicionais, vão ficar horrorizados.
– Mas porque esse preconceito hein?
– Numa boa cara, isso não é normal. É errado. Me desculpe se estou sendo preconceituoso, mas isso é inaceitável, você ta me dizendo que vai virar um “Bambi”. Fazer isso quando se tem 6 anos é uma coisa, pode-se ter esse tipo de experiência, ainda que eu nunca tenha tido, mas não é o caso né?
– Não, é definitivo.
– Fico muito triste. Tenho que ver como vou encarar o mundo agora…
– Você está exagerando.
– Você acha? Porque?
– Com tanto corinthiano no mundo, nem vão perceber que eu virei são paulino.

Anúncio de Jornal

“Eu, de família, educado, simpático, sensív-“

-Má que merda é essa?

Bem … eu estava começando a escrever um anúncio sobre mim, mas imagino que esteja escutando meu lado masculino reprimindo esse ímpeto. Piadinha com gosto de “déjà vu”, que somada à metalinguagem torna esse texto em um crime quase inafiançável.

-Má que lado masculino o catso.

Opa … Essa não estava no script.

-Má que script. Aqui é o seu Bisavô, Savério. Sul da Itália, perto da Calábria, diria “muito prazer” se não fosse de lá.
-Você é meu Biso?
-Má que “Biso”, além que patso é bicha também?
-Er, desculpe. Nôno! É isso? O senhor é meu Nôno?
-Eco … Um deles.
-Puxa vida! Que legal! O senhor é aquele fumava um cachimbinho de barro que o senhor mesmo fazia, não é?
-Eco. Aliás, boa idéia, faz tempo que não acendo um desse. Tem um fósforo?
-Opa. Tenho isqueiro, serve?
-É bonito, hãn? Também fuma? Aqueles cigarrilho que os menino da sua idade costuma fumar ?
-Não, não. Sou piro-maníaco mesmo. Não fumo, mas sempre tenho um isqueiro por perto.
-É patso!
-Bom, se o senhor veio parar aqui, eu presumo q-
-Má que “presumo”. Num me vem com essas palavras difícil que eu mando tudo às favas! Eu vim aqui, porque que vi você escrevendo um anúncio, que nem eu fiz pra arrumar minha segunda esposa depois que minha primeira mulher morreu.
-Boa, Nôno! Eu sempre quis saber melhor dessa história! O senhor tem o anúncio ainda?
-Má que anúncio ainda? É patso, você?
-Então o senhor tem anotado o texto?
-É um salame, mesmo! Má que anotado, filho?! Eu escrevi o que deu na “veneta”!
-É! Faz sentido. O senhor está certo.
-Má é claro que tô certo.
-Então o senhor pode me ajudar a escrever meu anúncio?
-Má pra que você quer isso?
-Sei lá, Nôno. Sempre ouvi essa história sobre o senhor. Queria ver o que aconteceria no meu caso. As coisas não estão fáceis hoje.
-Má como não tão fáceis? Um rapaz grande, forte, cara de bravo, bem que podia fazer a barba melhor, mas dizem que é trabalhador e estudado. Não consegue arrumar uma mulher?
-Bem … é qu-
-É salame! Patso, meio-bicha e salame!
-Não, Nôno! Que bicha! Eu sou macho dos bons!
-“Simpático, sensível …” Sei. No meu tempo, isso era bicha!
-Nôno. Os tempos mudaram. Mas sou Palestrino ! Salve o Alvi-verde imponente!
-Má só me faltava ser corintiano. Aí eu te quebrava a car-
-Epa, Nono! Na família isso já é ofensa! Vamos com calma!
-Eco! Ainda bem.
-Eco.
-Quer dizer então que você não tem nem uma moça pra casar?
-Mas eu não quero casar, Nono.
-Pra que o anúncio então?
-Eu quero alguém pra me divertir, passar bons moment-
-Vai numa cantina! Má que? Vinho, queijo e pasta. Quer melhor momento que esse?
-Tenho que concordar com o senhor.
-Vamo lá!
-Aonde?
-Na casa da moça. Eu falo com o pai dela, ele vai ver que somos uma família de bem, e está tudo certo!
-Nôno! Que moça? Não tem moça ainda!
-Caspita. Então faz um anúncio!
-Tá vendo! Por isso que eu comecei a escrever.
-É. Nem me fala daquilo. Você tem que falar a verdade, filho. Que nem foi no meu caso : “Carroceiro. Viúvo. 13 filhos. Um cavalo. Casa grande com assoalho de madeira. Procuro esposa.”
-Nôno … Não acho que essa técnica vai funcionar pra mim.
-Como não? Qual é o seu trabalho?
-Técnico cinematográfico, na verdade eu trab-.
-Técnico. Não importa o resto. É viúvo, também?
-Não, Nono!
-Deve ser virgem, então!
-Que virgem, como assim!?
-Tem filho?
-Não …
-Cavalo ?
-Não.
-Qual o tamanho da casa?
-Pequena. É um apartamento.
-Sem quintal?
-Isso, Nôno.
-E o assoalho? Precisa encerar.
-Não.
-Tá fácil.
-Mesmo?
-Eco: “Técnico. Solteiro. Virgem. Sem cavalo. Casa pequena com assoalho fácil. Procuro esposa”.
-Eu não sou virgem, Nôno!
-Capiche! Então fica : “Técnico. Solteiro. Sem cavalo. Casa pequena com assoalho fácil. Procuro esposa”. Perfeito!
-Nôno. É bacana … Mas não tou querendo uma espos-
-Que catso você quer da vida?
-Então … As mulheres hoje são diferentes, sabe Nôno?
-Má que diferente? Tem 3 olhos? 4 patas? Diferente! Diferente, porque os homem que nem eu morreram tudo. Só ficou salame. Que nem você.
-Elas até trabalham e sustentam a família, Nôno. É legal!
-Má que sustenta. É bicha mesmo! Quer ficar em casa, enquanto a mulher vai trabalhar.
-Não sou bicha, Nôno! Caspita! Eu até faço boxe!
-É? Essa não eu esperava. Quantos você já esbofeteou?
-Calma, Nôno. Eu só treino. Não luto ainda … Acho que nem vou luta-
-Ah. Entendi. Tá começando. Pelo menos deve ter um bom murro, hãn? Isso não é coisa de bicha! Bom!
-Pois é, Nono! Minha professora de box-
-Má que? Professora?!
-É, Nôn-
-Má que “é, nôno” o quê?! Aprende a dar murro com uma mulher e depois não quer qu-
-Ei, Nono! Não é assim! Minha professora luta muito! É bacana!
-Bacana! Bacana! Má que bacana! Eu desisto!
-Calma, Nôno!
-Eu vou embora antes que eu me faça uma bobagem!!
-E o anúncio, Nôno?!
-Má que anúncio! Bem que me avisaram que eu não ia me entender com os meninos de hoje. Bicha! Tudo bicha!

Síndrome de Quimera

de Max Mallman
Editora Rocco

Expressões como “novo autor”, “nova geração” ou “jovens autores”, acompanhados ou não de advérbios de intensidade e adjetivos me provocam calafrios. Por isso, entrei com um pé atrás na Quimera, um dos menores “café-e-livraria” de Porto Alegre. Mas foi só dar a primeira passada de olhos pelo lugar para ver que minha desconfiança era infundada. Nada de anunciações na orelha: ela apresentava o enredo. Foi o suficiente para me desarmar e me deixar à vontade. Ponto para Max Mallmann e sua “Síndrome de Quimera”.

Mais tranqüilo, deixei que me fossem apresentados Vito, o protagonista, e Bruno, seu melhor amigo. O primeiro vive com o peito apertado, uma angústia de fundo que parece não ter fim; o outro, em compensação, não tem o menor problema para esvaziar a cabeça. O que faz os dois para lá de especiais é que, em ambos os casos, a causa desses fenômenos psicológicos e emocionais tem origens bem concretas. Vito tem uma cascavel enrolada no coração. Já Bruno costuma destampar a cabeça e tirar o cérebro para relaxar. Juntos, montam “A Quimera”, um acanhado café-livaria na capital gaúcha – uma daquelas idéias típicas de bêbados em boteco. Enquanto a loja vira o point de tipos estranhos como eles, os sócios lutam para fechar o mês com as contas pagas, o fígado em dia e um fiapo de romance ou sexo, o que der. O melhor, no entanto, é que por mais fantásticas que sejam as situações, os cenários e as pessoas, o que vemos ali é absolutamente humano e pé no chão. A busca de todos eles é aquela de toda geração quando começa a andar com as próprias pernas: pelo seu espaço e sua identidade. Tropeçando bastante no caminho, claro.

Dono de um texto leve, Mallmann não tem problemas para imprimir à narrativa um ritmo ágil, mas sem ser apressado. Contada em primeira pessoa pelo Vito, a história flui sem dificuldades, alternando as impressões do protagonista com as interações objetivas com o mundo exterior, normalmente em diálogos bem construídos. Além de compatíveis com cada enunciador em forma e conteúdo, o autor se vale deles para tentar evitar ou subverter, ainda que em graus modestos, clichês – é o caso da primeira conversa entre Vito e Falena. Só faço reparos a três pequenos excessos: às intermináveis referências à serpente enrolada no coração do Vito (no começo, funciona; depois, vira ruído); à enorme quantidade de vezes em que ele desmaia ou ameaça desmaiar por conta dela; às pequenas “explosões” do protagonista, que parecem um pouco fora de caráter e um recurso algo cafajeste para esquentar certas cenas. Em quase todos os casos em que essas ferramentas são usadas, elas são desnecessárias. A tensão já estava ali naturalmente, por conta de um bom trabalho na hora de apresentar os leitores ao passado e ao psicológico dos personagens – existe um conhecimento prévio sobre o que determinado fato significa e uma expectativa sobre a reação a ele. Assim, sublinhar esses momentos com estouros indignados ou síncopes acaba enfraquecendo a seqüência em vez de emprestar a ela dramaticidade.

A trama se desenrola numa estrutura clássica em três atos, com a apresentação dos personagens – especialmente Vito, que é o fio condutor -, depois a mudança de status quo e finalmente o desfecho. O conflito é bem construído ao longo das duas primeiras partes, com revelações interessantes e consequentes, bem como com a exploração competente das características especiais dos protagonistas. A galeria de coadjuvantes exóticos – uma menina feita de papel, um outro que se alimenta de eletricidade e assim por diante – e a criação de cenas inusitadas – como os ácaros no porão ou as sessões de férias para o cérebro de Bruno – são um showzinho à parte. Criam uma atmosfera que, ao mostrar os detalhes desse mundo ao leitor, confere realidade e verossimilhança ao livro. A terceira parte, no entanto, deixou a desejar para mim. Por mais que o entorno seja saboroso, o foco do enredo está na condição especial de Vito e na sua história pessoal. Depois de mexer todas as peças e armar uma situação intrigante, a resolução vem de forma quase automática, rápida e alheia às ações do protagonista, provocando um final anti-climático. O epílogo, porém, amarra bem as pontas soltas e é bastante satisfatório.

No fim das contas, o resultado é positivo. “Síndrome de Quimera” é entretenimento de primeira. Original e envolvente, o livro com certeza fará com você encontre, circulando entre as mesas de café com copos de vodka e as estantes organizadas de acordo com um código próprio, seus próprios amigos. Aquele pessoal sempre descrito – não sem um sorriso de canto de boca e cheio de segundas intenções – como “especial”, mas que se debate com um dia-a-dia tão normal.

Recomendado para: mostrar que de perto todo mundo é, sim, normal.

Hummm

– Ah Gilmar ela até que é legal, mas não sei.
– Não sabe o que Deco?
– Sei lá, ela tem essas coisas sabe?
– Sei.
– Sabe?
– Não! Não sei.
– Então por que falou que sabe?
– Pra dar continuidade ao papo Deco. Fala logo.
– Então. Ela tem dessas coisas. Tipo falar.
– Nossa! Que estranho! Ela fala mesmo? Com a boca?
– To falando sério cara.
– O que ela fala que é estranho?
– Ela fala complicado.
– Como assim complicado? Ela é fanha?
– Não, el…
– Tem língua presa?
– Não, ela f…
– Fala na lingua do “pê”?
– NÃO! Dá pra deixar eu falar?
– OK! Só estou tentando ajudar.
– Ela fala umas palavras que eu não entendo.
– Como assim não entende?
– Não entendo. Não sei o que ela quer dizer.
– Ela se expressa mal você diz?
– Não. Eu não tenho idéia de que cargas d’água as palavras querem dizer!
– Ahhh…. entendi. Ela fala difícil. Tem um vocabulário rebuscado.
– Sei lá onde ela foi buscar Gilmar, só sei que não entendo.
– Mas que tipo de palavra ela já falou que você não entendeu?
– Um monte.
– Fala uma. Dá um exemplo.
– Ok. Ontem mesmo ela falou que era criteriosa.
– E daí?
– Como assim e daí?
– Que palavra você não entendeu?
– Oras bolas, “criteriosa” é claro.
– Você não sabe o que significa “criteriosa”?
– Não é assim que eu não sei. Sei mais ou menos.
– E o que é? Mais ou menos…
– Sei que tem alguma coisa a ver com religião, mas isso não vem ao caso.
– ….
– O negócio não é esse Gilmar. Não importa as palavras que não sei. E sim como vou fingir que sei.
– Mas você disfarça bem pelo que diz.
– Eu também achava, mas ontem no telefone ela me disse que eu era “prolixo”.
– E daí?
– E daí que tive que desligar o telefone.
– Na cara dela?
– É.
– Mas por que?
– O que eu ia fazer? Não sabia se agradecia, discordava ou a mandava pro inferno. Não ia fazer papel de bobo né.
– Ah lógico. Disso você se safou.
– Sim mas não é sempre que vou ter saídas inteligentes como essa. Como resolvo isso?
– Você já tentou dar uma lida no dicionário?
– Já, mas nunca consigo passar da letra “B”.
– Daí fica difícil.
– Você também acha então? Ufa. Já achei que só eu achava difícil ler todas aqueles “babilônicos” e “babuínos”.
– Deco, não tem jeito, ou você aprende ou vai ficar sempre boiando.
– Tem que ter uma saída. Não aguento mais ouvir ela falando que vai “contextualizar” e eu morrendo de medo de levar uma tapa.
– O que você pode tentar é, sempre que não souber uma palavra responda com “Hummm”.
– “Hummm”?
– É. “Hummm”.
– Ahhhh, Hummm.
– Isso. Entendeu?
– Não.
– Pô Deco. Colabora. “Hummm” como em, “Hummm, interessante.”
– Ahhhh, esse “Hummm”.
– Isso.
– Hummm. É uma boa. Assim não me comprometo e também não fico sem resposta.
– Exato. Assim acho que você estará resguardado.
– Hummm.
– Aê, aprendeu rápido.
– É, eu sou assim.
– Problema resolvido então.
– Acho que sim.
– Por que acha?
– Agora fiquei preocupado.
– Acha que não vai dar certo?
– Acho que vai sim, mas eu não vou estar enganando ela?
– Não exatamente. Só um pouquinho.
– Sei lá. Fico com dó. Uma menina tão frágil, doente.
– Doente? Mas ela aparenta ser tão saudável.
– Eu também achava. Até esses dias quando ela me contou sobre o problema dela.
– E o que ela tem?
– Ela é Eclética.

Em uma tarde de sábado.

“Para cima e para o alto!
– Fala direito, senão não brinco mais.
– Eu sou o super-homem, eu falo do jeito que eu quiser.
– Não, desse jeito você é o super besta. O super-homem fala: “”Para o alto e avante””
– Esse não é o Zorro?
– O Zorro não voa!
– Mas ele pula, salta de cavalo e corre.
– Se é para brincar, vamos brincar direito.
– Que coisa chata. Não pode inventar nada.
– Não pode, isso é coisa séria.
– Sim, então está bem, eu vou ser o homem aranha dessa vez.
– Ótimo, então eu serei o duende verde.
– E que graça tem matar uma droga de um duende? É só pisar em você que você morre.
– Eu tenho vários equipamentos que são fatais para o homem aranha, vou te destruir.
– Teia mágica, acionar!
– Que merda é essa?
– Estou te atacando com a minha teia!
– “”Teia mágica, acionar”” Quem fala isso? É “”super gêmeos, ativar””.
– Da na mesma, não fico decorando essas coisas.
– Não dá para brincar assim! Você não consegue encarnar o personagem?
– Encarnar, eu tenho 10 anos, não preciso encarnar nada. Quero brincar.
– Você pode brincar, mas tem que ser direito, senão o papai vai perder a paciência.
– Então vamos brincar de Batman. Eu sou o Batman.
– Eu sou o Coringa.
– Então eu vou te perseguir no meu mocego-móvel!
– É batmóvel!
– Morcego-móvel!
– É batmóvel ou fica sem mesada!
– Mamãe, o papai está brigando comigo!

A mãe chega na sala, observa a cena. O marido contrariado e o filho fazendo bico em cima do sofá. Ela olhou pensativa para os dois e deu o veredito:

– Os dois estão de castigo. Vão ficar no sofá, olhando um para cara do outro e pensando nas coisas feias que fizeram hoje.

O marido inconformado protestou.

– Eu não acredito. Eu não sou mais criança.
– Não é, mas parece. A partir de agora não quero ouvir um pio de nenhum dos dois.

Ela deixou a sala e os dois, emburrados, ficaram no sofá, se entreolhando. Passados alguns segundos o meninos sorriu.

– Que foi filho?
– Vou sair daqui pai.
– Você está louco, sua mãe vai nos matar.
– Vai nada. Tchau pai. Para cima e para o alto!”

Abra seus olhos

Acordou subitamente. Sua mente estava desperta mas seus olhos permaneciam fechados. Virou para esquerda procurando conforto, mas seus ombros não seguraram o giro tão comum e tantas vezes repetido. Rolou da cama ao chão……….teve que abrir os olhos.

Com eles ainda semi-cerrados, tentou limpá-los, mal podia enxergar. Muita remela. Teve a impressão de ter visto uma pomba ou qualquer outra coisa alada.

Sacudiu o corpo, não entendia, mas ele simplesmente não conseguia limpar os olhos. Algo estava muito estranho. Não conseguia um apoio, que prestasse, para levantar. Pensou nas aulas de yoga. Girou e pôs-se de joelhos, e depois de pé, caminhando até o lavabo.

Parecia uma ressaca de três dias. Meio tonto e bocejante, fitou o pequeno espelho na parede: barba por fazer…………..estranho!……….. Ficou paralizado. Não que já não estivesse.

Seus braços……..onde estavam os seus braços! À sua volta, o ar parava, nada se mexia, estava perplexo. Como alguém podia acordar sem braços e pior, não ter a menor lembrança do que possa ter ocorrido! Seria uma gangue de tráfico de órgãos, ou coisa parecida? Lenda! Talvez um carma ruim, ou até mesmo intervenção divina? Crendice! Não soube responder, parado………pensando na vida, nas suas mazelas, não soube responder. Suas memórias o traíam veementemente; perdido no labirinto da recordação, ele chorava.

Uma hora de reflexão e sofrimento foram suficientes para terminar com sua auto-compaixão e se reerguer com coragem para mais um dia, mesmo sem entender tudo aquilo. Lágrimas nervosas ainda caíam sobre a pia de mármore branco quando percebeu um objeto atrás do seu reflexo, seguido de uma coceira. Ele tentou alcançá-lo e virou de costas para o espelho. Precisava ver o que coçava tanto. E viu. Seu rosto ficou petrificado como se visse ali, na sua frente, a própria rainha medusa. Já estava estupefacto com a desgraça acontecida e agora mais essa. Não conseguiu segurar a fúria da qual foi acometido e começou a gritar e chorar. Um misto de raiva e desespero que acertava sua cabeça na parede, no espelho, quebrava os vidros do box do chuveiro e a porta. Parou em posição de súplica como se fosse a única posição a ser tomada. Natural.

A lembrança da recente visão só aumentava sua angústia, não conseguia acreditar. Asas! Ela não tinha braços, tinha asas. Porque? Como? Soltou um urro grutal tentando voltar no tempo ou qualquer coisa que alterasse o estado em que se encontrava. Em vão. Olhava com nojo e assombro aquele par de asas que surgia das suas omoplatas. Viceral. Tivesse braços cortaria as plumas naquele instante. Parou apenas quando, surpreendentemente, foi tomado por uma sensação de tranquilidade e entrega: “e se ele pudesse voar!”

Ponto de vista

– Nhan han humpf er…Alô.
– Rô?
– Nham han pufpuf er er…Quem tá falando?
– É a Su, Rô. Você está dormindo?
– Nham puf… Agora não mais. Que Su?
– Como assim que Su? Sou eu. Suzana. Sua ex-namorada..
– Ahhhhh Su. Porque não disse que era você? Me desculpa gatinha. Como é que você está?
– To ótima e você?
– Tranquilo. Pô, engraçado, estava pensando em você esses dias. Em nós dois.
– Ah é? Que coisa. Então, liguei só pra dar um “oi”. Manter contato.
– Lógico. Legal você ter ligado. Uma surpresa. Depois de tudo….
– É na época foi bem difícil..
– Terminamos de um jeito bem conturbado.
– É bem verdade Rô, mas desencana, não pra liguei pra falar sobre isso. O que passou, passou. Creio que somos adultos o suficiente para separarmos bem as coisas e nos relacionarmos sem problema.
– Claro, com certeza.
– Mas me diga, como estão as coisas?
– Ah tudo jóia. O de sempre né. “Facul”, balada, cineminha. E você?
– Eu também. Só na balada que estou em falta. Agora namorando né…
– Ah! Tá namorando?
– Tô sim, já faz 9 meses, super felizes. Já fazemos planos até de casamento. E você?
– O que tem eu?
– Tá namorando?
– Ah sim. Mais ou menos. Mas acho que tô.
– Como assim “acho que tô”?
– Não. Quer dizer. Estou sim. Claro que estou. Ela é linda. 27 anos.
– Ah tá. Mas você tomou jeito né? Não é mais canalha como na minha época?
– Claro que não. Sou um novo homem. Outra mentalidade. Consigo ter amigas numa boa. Sem segundas intenções.
– Nossa Rô, que bom saber disso. Fico feliz.
– É, to feliz também. Aliás falando em amigas podíamos combinar de sair essa semana. Depois da “facul”. Aliás você estuda a noite ou pela manhã?
– Tô estudando a noite. Na mesma classe da Rutinha.
– Putz a Rutinha. Faz tempo hein. Aliás e o resto do pessoal? Tem visto?
– Só a Rutinha mesmo.
– Ah lógico, vocês são inseparáveis.
– É. Somos irmãzinhas praticamente. E você? Tem contato com o povo?
– Todo mundo na mesma Su. O Duda com a Raquel, brigando brigando mas sempre juntos. O João perdido como sempre, agora tá numa onda Hare Krishna. Ligo de vez em quando pra eles mas nada muda. Aliás, me diz uma coisa, seu telefone continua o mesmo?
– Nossa, o Duda ainda está com a Raquel??? Que legal, esses vão casar!
– É o que todos dizem. Mas é ruim do Duda casar. Aquilo é um traste.
– Verdade.
– Su, me desculpa, mas tenho que sair agora. Lembrei que tenho dentista. Depois nos falamos hein, temos que nos ver.
– Um beijo Rô.
– Beijo.

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– Alô?
– Fala Su. Tudo bem
– Oi Lili. Não sabe da última!
– CONTA, CONTA!!!
– Liguei pro Rô.
– NOSSA! Aquele cafajeste, te tratou tão mal e você ainda liga pra ele?
– Ah Lili, foi justamente por isso. Tenho que provar que estou totalmente recuperada.
– É verdade. Mas e aí? Como foi?
– Falei com ele numa boa, como uma pessoa civilizada.
– Jura???
– Juro amiga. Acho que agora coloquei um ponto final no assunto. Ele entendeu que podemos ser amigos numa boa já que não sinto mais nada por ele e nem ele por mim.
– Ai, que bom Su. Ainda bem que isso acabou de uma vez por todas.

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– Fala sua bicha!!!
– Faaaaaala Rodrigão como é que tá?
– Beleza. Você não sabe da última? Lembra daquela minha Ex, Suzana?
– To ligado.
– Vou comer de novo!

Erasmo

Depois de anos de glória com os amigos, se divertindo sete dias por semana, Erasmo enfim se sente certo de que a decisão do matrimônio será a melhor coisa de sua vida.Sempre com o seu porte físico invejável, Erasmo, um grande e fiel conquistador, se sente orgulhoso ao imaginar a sua nova vida ao lado de uma só mulher.

Apesar de todo o seu jeito organizado, metódico e conservador, sempre se vestiu muito bem, valorizando seu físico invejável e desejável por tantas outras mulheres. Seu traje, impecavelmente esportivo, era sua marca registrada.

Não foi uma decisão da noite para o dia. O enlace havia sido planejado por um ano, até a tão sonhada hora de oficializar a decisão de não caminhar mais só pela vida, mas sim com uma mulher que o amava. Sabia que tudo seria diferente no seu dia-a-dia e que alguns hábitos deveriam se modificar.

Na chegada da lua de mel, enfim em casa, o casal se sentiu numa casa de bonecas, devidamente decorada, sob medida com os gostos dos dois, muito parecidos nos quesitos de cores e modernidade. A entrada do apartamento foi delicadamente desenvolvida com gesso, assim como todo o teto da sala, e o chão de um mármore quase branco. A sala era dividida entre sala de jantar e uma sala de estar, que tinha no seu centro um grosso tapete branco e num dos cantos um “Home theater”. O quarto do casal foi feito sob medida, com cortinas e móveis claros, que levavam a um closet e, em seguida ao banheiro do casal. Os demais cômodos ainda estavam sob “crus”. Eram mais dois quartos e Erasmo planejava transformar um deles em um pequeno escritório.

Ao colocar as malas no closet do casal, Erasmo ouve o telefone tocar e, rapidamente sua esposa o atende.

– Querido, Mamãe virá nos visitar.

– Bom – sussurrou Erasmo – e quando ela virá?

– Hoje!

– Hoje? Mas nós acabamos de entrar em casa, pela primeira vez! Não seria melhor esperar algumas semanas, até nos ajeitarmos melhor? Afinal de contas, ainda estamos de lua de mel… Tenho mais uma semana de férias e gostaria de desfrutar cada segundo ao seu lado, somente ao seu lado.

– A presença da minha mãe lhe incomoda?

– Não é isso. Ela virá cansada dos 350 km de ônibus, precisará descansar e o nosso quarto de hóspedes não está nem montado.

– Bobagem. Mamãe não nos incomodará. Sabe como ela é, não liga para essas coisas e dorme num colchão. Garanto-lhe, não dará trabalho algum.

Sei- pensou Erasmo.

– Pensa bem, estamos começando tudo aqui. Nem estamos prontos para receber uma visita…

– Minha mãe não é visita, é a minha mãe! Também não precisa pedir licença para entrar na minha casa, precisa?

– Nossa casa! E que horas irá buscá-la na rodoviária?

– Você vai, não eu. Tenho manicure às três horas e ela deverá chegar às quatro.

Para não perder o encanto da tão sonhada vida a dois, Erasmo engole a seco o pequeno sentimento de revolta que começa a tomar conta de seu corpo e aceita o desafio.

Chegando na rodoviária, Erasmo, sem perder a pose, recebe a querida sogra.

– Boa tarde Dona Rita!

– Oi Erasmo. Deixou-me esperando por meia hora, sabia?

– É o trânsito dessa cidade louca. A senhora entende…

– Vê se me ajuda com as malas.

Se acostumando a engolir a seco, Erasmo se dirige à “pequena” bagagem quando nota uma pequena gaiola de tecido vermelho, junto às três malas da Sogra. Com um controle emocional extraordinário, Erasmo virá-se para a sogra e pergunta: a senhora trouxe a Maxixa?

– Erasmo, essa é a minha maior companheira e não incomoda a ninguém. Tenho certeza de que essa pequena cadelinha vai se comportar muito bem na casa da minha filha.

Durante o trajeto Erasmo quase não falou, como de costume, enquanto sua sogra não tinha tempo nem de respirar; falou da vida de todos, com metáforas e exageros incríveis, até chegar à casa do casal.

Mantendo seu jeito gentil, Erasmo se encarregou das bagagens enquanto a sogra se adiantou e subiu ao apartamento, recém inaugurado.

– Dona Rita, nosso apartamento é o 31, no terceiro andar.

Calmamente, Erasmo pegou todas as três malas e também a gaiolinha de Maxixa. Ao entrar no apartamento se deparou com o pé direito do sapato da sogra na porta de casa e o pé esquerdo na porta do banheiro.

Calma Erasmo. Isso durará pouco – tentou se conformar, pensando.

Erasmo deixou as malas no quarto de hóspedes. Ao voltar para a sala se deparou com a sogra debruçada sobre a cama, junto com a cadela.

– Querida? – Chamou Erasmo.

– Oi amor! Você sabe o quanto estou feliz?

– Imagino… Escuta, não me leve a mal, mas eu nem sentei ainda na nossa cama e a sua mãe já levou até o cachorro.

– Não posso proibir minha mãe de entrar no meu quarto! Não acredito que isso te incomoda…

– Não estou falando para proibir nada, só para colocar limites! É a nossa casa, o nosso sonho. Gostaria de pelo menos ser o primeiro a usar a cama, o banheiro… enfim, ter controle sobre as minhas coisas, será que posso?

– Como você é egoísta, seu grosso! Minha mãe jamais te proibiu de entrar no quarto dela!

– Mais uma vez, não estou proibindo nada! E tem mais, se ela deixou ou não nunca nem sequer sentei em sua cama! Eu sei a diferença entre liberdade e educação!

– O que você está querendo dizer, que minha mãe não tem educação?

– Não é isso – falou Erasmo, pausadamente – escuta, estou cansado, chegamos hoje, vamos deixar isso de lado, aproveitar o dia e ter uma noite de amor, para inaugurarmos o nosso quarto?

– Fico chateada, mas vamos deixar isso de lado e aproveitar nosso primeiro dia em nossa casa.

– Ótimo – conclui Erasmo, engolindo a seco pela terceira vez no dia.

– Só que tem uma coisa…

– O que foi?

– Sobre a nossa primeira noite de amor, acho que vamos ter que adiar…

– A não me diga que sua mãe tem medo de dormir sozinha…

– Imagina, Mamãe dormirá no quarto de hóspedes.

– O que foi então, já está cansada?

– Na verdade, estou recebendo uma outra visita…

– Quem, uma tia, irmã, o que? Fala logo! Não me assuste com esse suspense!

– Não queria lhe falar, mas…

– Mas??

– Fique menstruada.

– É só isso? –Sussurrou Erasmo, aliviado.

– É. Aliás, não queria te pedir mais um favor, mas vou ter que pedir.

– Sim…

– Não posso deixar a Mamãe sozinha assim, sabe como que é, a primeira vez em nossa casa… será que você poderia ir comprar absorvente?

– Claro! Sem problema algum.

Ao chegar no supermercado, Erasmo se deparou com um corredor inteiro de absorventes. Diversos modelos e tamanhos, cada um com o seu recurso especial. Após uma olhada superficial, pegou uns seis ou sete com características diferentes: com abas, sem abas, com gel, sem gel, interno, externo e noturno. Não hesitou em ligar para a esposa:

– Alo, querida?

– Sim, amor.

– Viu, que tipo de absorvente você usa?

– Com gel e abas grandes?

– Grandes? – Respondeu ele, assustado.

– Sim, grandes.

– Ok, era só isso? Já estou levando.

– Espera! -Gritou a esposa. – A Mamãe esqueceu algumas coisas. Será que você pode trazer?

– Claro… – Suspirou Erasmo.

– Presta atenção: uma escova de dente, um xampu para cabelos secos e pintados, um refil de lâminas de depilação feminina, um desodorante com cheiro de algodão e rosas, um esmalte rosa e também um óleo de amêndoas. Ah, também precisamos de tinta para cabelos na cor caqui holandês.

– Só isso? – Perguntou ironicamente Erasmo.

– Sim. Obrigado querido!

Praticamente não teve dificuldades, a não ser com a tinta de cabelos. Encontrou uns sete tipos de caqui, mas nenhum era holandês. Aproveitando a presença da moça que estava fazendo demonstração do produto, perguntou: qual a diferença entre o caqui holandês e os outros?

– A cor! – Respondeu, educadamente, a moça, com um sorriso brilhante num gesto absolutamente gentil.

Com uma educação revoltante, Erasmo agradeceu a gentileza da moça, porém a óbvia e sucinta resposta de nada lhe adiantou. Erasmo fechou os olhos, girou o dedo indicativo e escolheu o caqui que iria levar.

Chegando ao caixa, Erasmo começou a organizar todos os produtos femininos na esteira e, por ironia do destino, deixou praticamente escondido o pacote de absorventes. Enquanto o casal que estava na sua frente na fila terminava de passar suas compras, três adolescentes, meninas, chegam com chocolates, esmaltes, doces, etc. Não demora muito, as três começam a cochichar, rir e olhar de canto de olho para Erasmo e suas compras.

Era só o que faltava, além de tudo, fazendo papel de bicha na fila do supermercado – pensou Erasmo, ficando extremamente irritado e envergonhado com a situação. Suas compras começaram a ser passadas enquanto as três adolescentes já não deixavam mais de serem discretas.

– Senhor, a compra deu cinqüenta e dois Reais e trinta e sete centavos. Deseja algo mais?

– Não, obrigado. Mas alguma coisa está errada. Veja só o último item de sua lista…

– O esmalte rosa?

– Esse mesmo! Na gôndola estava por dois Reais e alguns centavos, não sete Reais!

– O Senhor aguarda só um momento, por favor, que vou chamar meu supervisor.

– Ok.

– Jeremias!? – Gritou o caixa em direção ao supervisor que acabara de passar em frente ao caixa.

– Fala Tadeu!

– Esse senhor falou que o esmalte rosa está com o preço errado.Pode verificar, por favor?

– Claro! Lurdinha!? – Gritou o supervisor a uma funcionária que estava passando pelo final da fila desse caixa – Pode, por favor, verificar o preço do esmalte rosa a esse senhor.

– Claro! Senhor, o esmalte que precisa é rosa ou pink?

– Rosa – respondeu Erasmo, discretamente.

– Perdão, não ouvi senhor. O senhor quer o rosa ou o pink?

– Rosa! – Respondeu Erasmo com a sua paciência chegando ao fim, nessa mesma hora que uma das adolescentes achou melhor deixar o local para rir mais à vontade.

Minutos depois, a funcionária chegou com o produto, numa forma nada discreta.

– Senhor, está aqui o seu esmalte rosa! – Falou em tom alto.

– Obrigado – respondeu Erasmo num tom de voz que só sua consciência chegou a ouvir.

Finalizada a compra, Erasmo saca seu cartão de crédito, ironicamente rosa, para o pagamento.

– Senhor, o cartão está sendo recusado.

– Impossível, ele está em dia! – Retrucou Erasmo.

– Deve ser a tarja magnética. Jeremias pode, por favor, passar esse cartão no caixa central, por favor? Parece estar com problemas! – Pediu Tadeu, o caixa, levantando o cartão de Erasmo, para que sua vergonha chegasse ao ápice, assim como o delírio das adolescentes.

Erasmo, depois de suspiros e longas bufadas foi ao caixa central onde tudo foi esclarecido.

Chegando em casa, Erasmo abre a porta social e, como num olhar de águia, encontra um pequeno rastro de fezes de Muxixa no carpete.

– Querida, cheguei!

– Oi amor, como demorou!

– Pode me dizer o que é isso, no nosso carpete novinho?

– Ah Erasmo, como você é fresco! Só falta dizer que não caga! – Intrometeu a sogra, já ficando mais à vontade.

Erasmo já tinha perdido as contas de quantas vezes havia engolido a seco em seu primeiro dia no novo lar. Sem responder a ninguém, foi tomar um banho.

Banho tomado, roupa vestida Erasmo volto à sala onde encontrou o carpete impecavelmente limpo, ser marca alguma da cadela. Ao se dirigir à cozinha notou um montinho de papel de revista amassado, com a possível sujeira do cachorro, agora limpa. Passos a diante, encontrou um chão forrado de folhas de revistas na área de serviço, para que a cadela pudesse, enfim, fazer suas necessidades em paz.

– Tive que providenciar um “banheirinho” para a Muxixa, já que você é tão fresco, Erasmo!

– Que bom Dona Rita…

– Não se preocupe que da minha cadela cuido eu! Peguei algumas revistas encaixotadas no quarto que vou dormir, para forrar o chão daqui.

Erasmo, em menos de um segundo, começou a suar frio, ao lembrar que as revistas até então encaixotadas eram a sua coleção completa de “Super Interessante”, algo que ele tratava com muito carinho desde a infância.

Ele não conseguiu abrir a boca, ainda estava em estado de choque e assim ficou até a hora do jantar, aonde não abriu a boca, até a sua sogra sugerir:

– Querida, como o seu marido é estranho!

– Desculpe – retrucou Erasmo – só estou cansado.

Imaginado um fim de noite tranqüilo, Erasmo convidou gentilmente as duas para estrear o Home Theater. Ele mesmo preparou a pipoca e gentilmente serviu refrigerante a todas. Até colocou um pouquinho de comida num potinho para Muxixa.

O filme começou a rodar e, depois de uns vinte e cinco minutos, quando a trama estava em seu momento inicial mais importante, sua sogra solta um infeliz comentário em alto e bom tom:

– Filha! Esqueci de te contar uma coisa! Sabia que a sua Tia Dolores foi parar no hospital essa semana com pedras nos rins?

– Não é verdade? – Surpreendeu-se a filha.

– Juro! Quase partiu dessa! Foi um horror.

Erasmo, sempre muito entretido com o filme, como sempre, passou por cima de todo o seu controle e dessa vez soltou a seco:

– CHEGA! SERÁ QUE DA PARA CALAR A BOCA UM POUCO E PRESTAR ATENÇÃO NO FILME, OU IR CONVERSAR NO QUARTO?

Por um momento a sala ficou em silêncio humano, somente com o efeito sonoro do filme. Não foi por muito tempo a sogra se soltou:

– Falei para não casar com esse traste! É um maníaco, histérico e maluco! Estou indo embora!

– Não mãe, fica!

– Não dá! A presença do seu marido é insuportável e a convivência com ele é difícil! Ele é espaçoso demais! Depois de vir calado da rodoviária, não abrir a boca na janta e trazer um tom de caqui errado, está tudo claro, ele me odeia e só quer me provocar!

– Você é um grosso mesmo! – Soltou a esposa – Não saber conviver com ninguém!

– Você está louca? – Respondeu Erasmo.

– Louca nada! Se em um dia nossa convivência está assim, quem dirá com o passar dos anos!!

– Mas querida…

– Mas nada, por mim deu! Você só reclamou o dia inteiro… não dá para viver do seu lado, seu egoísta, egocêntrico e metido! Quando parar de pensar só em você, quem sabe descobrirá o que perdeu!

Rapidamente as duas se foram e Erasmo, agora indignado e solitário, só queria saber se tudo o que vez e planejou para uma vida a dois teria mesmo algum sentido ou ele era o errado da situação.

Triste fim de um casamento que nem começou. Erasmo, o mais respeitador e conservador dos amigos, aquele que jamais tolerou traição se vê acuado entre a vida levada a sério, como um homem de respeito e sério e entre aquele eterno malandro, safado e falso, que leva a família da esposa no papo, é querido por todos e, no fim de cada dia, ri nas costas de todos.

Sem muito mais a pensar, soltou um estrondoso berro antes de fechar a casa e voltou à casa de seus pais, com todos os seus princípios remoídos por dentro e por fora.

Negociação

– Oi…. hum…. Guichê dois?
– Qual o seu número?
– Cinquenta e seis.
– Pode sentar.
– Obrigado, eu –
– Um minuto.
– ….
– Sua ficha diz que o senhor quer encerrar seu relacionamento conosco.
– É verdade, eu –
– Qual o motivo?
– Bom, não tem um motivo específico, quer dizer, tem –
– Porque vejo aqui que o senhor está conosco há muito tempo.
– É, a vida toda. Praticamente, né? Desde –
– No cadastro não consta também qualquer tipo de problema prévio.
– De fato não –
– Nem da sua parte nem da nossa. Parece que o senhor cumpre com as suas responsabilidades. Nós cumprimos com a nossa.
– Bom, aí é que está. Nem tud –
– Entendemos que sempre haverá motivos para queixas, é o preço que se paga pelo tamanho dessa operação. Mas não acreditamos que qualquer uma delas possa motivar um rompimento. Então.
– Então?
– Explique.
– Dinheiro! O problema é que –
– Claro. O senhor está querendo dizer que nossa tabela é abusiva.
– Não, não, acontece que –
– A estratificação de acordo com a condição de cada associado torna os preços praticados justos para todos. Os valores são definidos segundo critérios objetivos e são de conhecimento público.
– Pode ser, só que –
– O senhor –
– Não tenho dinheiro! Não dá para continuar.
– Contudo o senhor há de convir que solicitar o cancelamento é uma atitude radical.
– Fiz trocentas contas: outro reajuste, não dá.
– Acreditamos que com uma revisão de sua rotina o senhor ainda tem condições de honrar seus compromissos.
– Minha rotina está sendo revisada há anos. Simplesmente não dá.
– Essa postura é contraproducente. Podemos ajudá-lo, mas apenas se o senhor quiser ser ajudado. Sempre há luz no fim do túnel.
– Tem, mas… paga taxa, sab –
– Se o senhor estiver disposto a deixar os lamentos de lado talvez possamos pensar em soluções efetivas. É preciso persistência para chegar até a última gota.
– Também pago imposto por isso, entã –
– O senhor insiste. Se faz tanta questão de jogar seu relacionamento conosco no lixo –
– Incinerador. Lixo é taxado tamb –
– Caso sua intransigência seja final e de fato não haja interesse por apólices de outro tipo –
– Não tenho, obrig –
– Pedido deferido: considere terminado seu envolvimento com o Brasil.
– Perfeito, obrig –
– Última coisa. O senhor está ciente das implicações da ratificação da solicitação sobre seu patrimônio?
– Patrimônio? Que patrimôn –
– Nossos registros mostram que o senhor possuía bens. Houve sinistro?
– Sim, pode-se dizer qu –
– De qual natureza?
– Deu PT –

Mal Entendido

“Sentaram no primeiro banco que estava vazio na praça. Antes, obviamente, ele limpou o banco. Sentar em cima de folhas não é agradável, a conversa, certamente, não seria também. Haviam se separado há mais de três anos. Ela estava de volta à negócios e ele nunca havia se mudado da cidade natal. A praça era a mesma onde eles tiveram sua primeira briga, eram adolescentes na época.

– Fiquei contente que você me ligou.
– Eu estava de passagem, tinha que te ligar, já faz três anos afinal.
– É muito tempo mesmo. Inacreditável como você não mudou nada.
– Não precisa me bajular, a idade já me é companheira.
– E o que isso quer dizer?
– Estou velha.
– Bobagem. Você ainda está bem gostosa.
– Eu devia ficar ofendida com isso, mas não consigo.
– Eu sei, é o meu sorriso. Irresistível.
– Você continua um palhaço.

Imóveis por alguns segundos, observaram o carrinho de cachorro quente. Provavelmente lembrando das inúmeras vezes, que haviam matado aula para comer e depois namorar na praça. Se entreolharam.

– O que será que deu errado?
– Conosco?
– Não, com o “”Cadeirão””. Era um bar tão bom!
– Achei que você fosse querer conversar sobre a gente.
– Não há mais o que conversar. Você foi embora, em busca dos seus sonhos, eu não fazia parte deles. Eu fiquei e fui em busca dos meus.
– Você sabe que não foi bem assim que aconteceu. Era uma oportunidade de ouro.
– Eu sei muito bem o que aconteceu, e realmente não precisamos falar sobre isso.

Ela estava nervosa, mas não demonstrava, já ele, não conseguia disfarçar o nervosismo. Ele sempre coçava o joelho quando estava nervoso. Ela pegou na sua mão.

– Não precisa ficar assim. Podemos apenas dar uma volta pela cidade.
– Andando?
– É melhor. Você pode andar comigo até a casa da Patrícia, ela viajou e me deixou ficar lá até quinta-feira.
– Tudo bem. Acho que uma caminhada vai fazer bem.

Andaram por trinta minutos, relembrando cada passagem de suas vidas naquelas ruas praticamente intocadas. Os passeios de bicicleta, as brincadeiras de rua, a turma da rua de cima e a turma da rua de baixo, os cachorros bravos, os velhos mau humorados e até a velha fonte da Dona Iracema.

Quando chegaram na porta da casa da Patrícia, ele pegou em suas duas mãos e se aproximou.

– Achei que nunca mais fosse beijar essa boca.
– Mas quem disse que você vai?
– Eu achei que isso tudo era…
– O que?
– Bem, você me ligou, me convidou para ir na praça.
– Era o lugar mais conveniente.
– E a conversa sobre nós dois?
– Olha, não queria estender essa conversa, mas você entendeu errado.”